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segunda-feira, 4 de abril de 2016

Herbie Hancock e Wayne Shorter - Brasil Jazz Fest - Vivo Rio - Rio de Janeiro (01/04/2016)



A permanente reinvenção
por Daniel Rodrigues

As lendas vivas do jazz apaludidas de pé pelo Vivo Rio.
foto: Leocádia Costa
No final do longo documentário “Jazz”, que soma mais de 12 horas de registros e documentação, Ken Burns, seu realizador, lança o questionamento de que rumos o jazz tomaria no futuro. Entre promessas e incertezas, um dos argumentos era o de que o estilo sempre soube se reinventar, e que seus artífices têm gravado em seu espírito essa incumbência. Não que se trate da criação de um novo gênero no jazz, mas o que se viu no Vivo Rio na noite do último dia 1º de abril foi, certamente, fruto dessa alma inquieta e pulsante dos verdadeiros jazzistas. Herbie Hancock e Wayne Shorter, justamente dois dos músicos mais revolucionários do jazz e da música moderna do século XX, subiram ao palco para justificar que o estilo ainda tem muito, mas muito fôlego em ternos de criação e improviso.

Em apenas sete números, presenciou-se dois músicos completamente absorvidos por sua arte. Mesmo num espaço amplo e lotado (não apenas de fãs, mas infelizmente também de protoadmiradores que, claro, não tiveram paciência para apreciar o que estava acontecendo), Hancock e Shorter exibiram uma apresentação intimista. Altamente concentrados em cada nota, em cada ataque, em cada hesitação para, aí sim, entrar no tempo certo que sua emoção diz. Hancock, mais vivaz, era quem comandava a harmonia, fosse em seu piano de cauda, em seu teclado Korg ou no sintetizador, do qual extraía climas em loops e efeitos não raro desconcertantes. Shorter, um pouco fechado no início (intimidado não é o mais adequado ou provável), soltou-se de tal forma que foi ele quem, por outro lado, conduziu a emoção do público em vários momentos. Os improvisos são econômicos e nunca extensos; às vezes, quase lacônicos. Há quem possa lhe atribuir à idade avançada e a inevitável perda de capacidade pulmonar (82 anos, enquanto Hancock, mesmo também vovô, tem sete a menos), mas a sensação nítida que me ficou foi a de um Shorter ainda mais dominador dos tempos e das figuras sonoras que cria. Muitas vezes, foi possível ver Miles Davis no palco, o mestre que ensinou à dupla a arte do essencial – embora ambos tenham aprendido também a intempestividade do free-jazz.

Aliás, uma reelaboração do free-jazz talvez seja uma definição possível para o show apresentado pelos jazzistas norte-americanos. Entretanto, a classificação não é assim tão simplória, visto que não deixaram de lado as vivências do fusion, da música clássica, da vanguarda erudita e, por que não, do próprio jazz que lhes formou, o hard bop e o modal, que tanto dominam. Em meio a improvisos e construções baseadas nessa premissa, houve momentos de viagens cósmicas, motivados pelo piano e teclado transcendentes de Hancock, e da mais fina delicadeza, seja no dedilhado sensível ou nas frases budistas do sax soprano de Shorter. Uma montanha-russa de emoções.

O que se viu foi, de fato, duas entidades, duas velhas entidades da música em pleno exercício de liberdade, como amadores cheios de vida. Propondo um conteúdo denso e hermético, com altas cargas de musicalidade, Hancock e Shorter tiveram a jovial e admirável coragem de inovar. Com aplausos garantidos somente pelo que representam, eles podiam muito bem tocar para a galera apenas os clássicos, quando muito intercalando algum tema mais “difícil” para facilitar a deglutição do público. Não. Eles seguiram o caminho de seus corações e da arte que tanto respeitam e militam. Entraram e fizeram aquilo que se propunham, que faz sentido para eles. E se fizer sentido para alguém do público, que bom: intenção atingida. No meu caso, foi mais do que plenamente. A honestidade deles era tanta que até mesmos no meio de solos engendrados ali, no calor do improviso, era possível identificar seus estilos, seus modos e até referenciar a alguns temas do passado em que tocaram juntos, como “The All Seeing Eye”, composição de Shorter de 1965, na abertura do show.

O bis não poderia ter sido melhor: no mesmo clima free, a dupla lançou "Encontros e Despedidas", de Fernando Brant e Milton Nascimento – este último, na plateia prestigiando os amigos como já o vi fazendo. O riff da canção se funde ao próprio solo do saxofone, diluindo-se nos acordes e no andamento. Se por um lado esse número foi o único respiro àqueles que esperavam standarts cantaroláveis para contar aos amigos que ouviram a música que conheceram no Youtube, o clássico da MPB (e do jazz moderno mundial) fechou com a mesma dignidade de toda a apresentação: com densidão e alma. Herbie Hancock e Wayne Shorter nos presentearam com uma celebração do jazz em seu estado essencial: o da permanente reinvenção.

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Enterprise de sons e timbres
por Paulo Moreira

Herbie manipulando os teclados e sntetizadores.
foto: Leocádia Costa
Foi um começo de luxo! O Vivo Rio esteve completamente lotado para ver a abertura do Brasil Jazz Fest com Herbie Hancock e Wayne Shorter. O zum-zum vinha de São Paulo: eles não tocam nenhum hit. Nem "Cantaloupe Island", nem "Footprints". Nem música reconhecível. "É só viagem...". Por mais de 70 minutos – e com direito a DOIS bis – Herbie & Wayne transportaram a plateia para um outro universo. Um outro estágio. Basicamente fazendo uso de um piano e um sax soprano - e intervenções esporádicas de um teclado - os veteranos músicos mostraram que a idade avançada (Herbie tem 75 anos e Wayne 82!) não é sinônimo de acomodação. Ambos tiveram a coragem de apostar no desconhecido e nas habilidades técnicas e de feeling para nos carregar a outro patamar sensitivo-musical.

Percebendo o convite, os presentes embarcaram nesta Enterprise de sons e timbres e se deixou viajar no cosmos musical sem precisar de gasolina. Até mesmo as eventuais explorações do teclado foram digeridas pelo público. Em certo momento, Herbie & Wayne me lembraram outra parceria de piano e sax soprano que também se utilizou do free-jazz como base nas improvisações: Mal Waldron & Steve Lacy, que tocaram no início dos anos 2000 no falecido e saudoso Chivas Jazz Festival.

Como bônus, Wayne troca de palheta em pleno palco e ataca de "Encontros e Despedidas", de Milton Nascimento, que estava na plateia, brincando com a melodia e fazendo um jogo de gato-e-rato com citações de músicas do repertório do amigo brasileiro. A reação do público foi tão carinhosa que Hancock, ao final, espantado, perguntou se tinha sido divertido. Claro que foi, seu Herbert. Quem esteve lá compreendeu que grandes instrumentistas e criadores estão sempre de olho no futuro. Mesmo tendo uma bagagem de 50 e tantos anos de serviços prestados à música dos Séculos XX e XXI.

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A Magia da Música
por Cly Reis


Hancock e Shorter em pleno improviso.
foto: Leocádia Costa
Um daqueles momentos sublimes que se vive poucas vezes na vida. A oportunidade de presenciar a apresentação de dois gênios da humanidade justificando plenamente toda a expectativa que se cria quando se fala em verdadeiras lendas da música reunidas em um palco. E digo gênios sem medo de pecar pelo exagero porque tudo o que desfilaram na noite gloriosa no palco do Vivo Rio não foi nada menos que genialidade. Numa apresentação memorável Wayne Shorter empunhando seu saxofone e Herbie Hancock comandando seu piano e eventualmente um teclado, exibiram técnica, criatividade e ousadia em números longos inspirados e cheios de improvisações quase impensáveis para nós pobres mortais. Podem ter decepcionado um pouco aos que já tivessem ido com alguma preconcepção do espetáculo e com expectativas prontas de repertório, uma vez que não tocaram seus clássicos ou suas obras mais badaladas, mas tenho certeza que todos que perceberam o verdadeiro espírito do show e que deixaram suas sensibilidades os guiarem não só não tiveram nenhum tipo de desapontamento, como, pelo contrário, ficaram gratos pela opção da dupla. Alguns foram embora cedo, é verdade, e lamento por eles, não penas por não terem entendimento para o que estava ocorrendo ali mas também pelo que perderam pois nós que ficamos pudemos nos regozijar com aquela magia que pairava no ar a ponto de quase abandonarmos nossos corpos levados pela música.
Uma noite mágica em que dois gigantes da música nos proporcionaram momentos de prazer e elevação espiritual e, em meio a este universo atualmente tão saturado de coisas pobres, repetitivas, insignificantes e descartáveis, fizeram o favor de nos lembrar porque a música é, antes de mais nada, arte.


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