Ditadura militar argentina. O governo do General Videla usa a Copa do Mundo como propaganda política, como cortina de fumaça para todos os problemas sociais, como pão-e-circo, e a seleção nacional, se campeã será o símbolo de um país no caminho certo.
Um grupo de agentes do governo, no dia da final da Copa do Mundo de 1978, entre um lance e outro do jogo, um jogo de cartas, uma conferida no placar, a ansiedade pelo resultado, pelo título inédito da Albieleste, tortura jovens rebeldes ao regime em uma instalação afastada de Buenos Aires. Buscam informações a respeito de um suposto grupo revolucionário e não economizam nos métodos cruéis e sádicos para arrancar dos presos a informação sobre a sede do tal movimento rebelde. Eles conseguem o endereço, vão ao tal local, invadem e prendem um grupo nada peculiar em atividades um tanto estranhas para um núcleo subversivo. Pois é... e não era mesmo uma organização insurgente. Informação errada! Tratava-se de um grupo satanista que realizava um ritual que, para azar dos agentes, se completaria, lá, dentro dos muros da ditadura.
Possuídos, os membros do culto, ficam incontroláveis, sedentos de sangue e famintos por carne humana promovendo uma terrível carnificina dentro da cadeia, não fazendo diferenciação entre torturadores e torturados.
Uma figura sobre o verdadeiro mal. O homem e suas ideologias políticas ou o que tememos como demoníaco ou sobrenatural. O que é pior?
Ambas as violências são terríveis e chocantes, mas, em nome do terror, o massacre dos demônios tem mais sangue, tripas e é bem mais impressionante para a telona. A cena em que devotas de satã arrancam o pênis de um dos torturadores é absolutamente brutal e repugnante, só para ficar em um momento desses horripilantes do filme.
No geral, "1978" não é um grande filme, se perde entre a mensagem política e o terror, e a amarração das duas coisas na trama é muito frágil, inconsistente, pouco trabalhada. Vale minimamente pela reflexão que levanta sobre qual é verdadeiro terror, e, para os fãs do gore, do splatter, é claro, vale especialmente pelo horror gráfico e pelo banho de sangue.
Queriam encontrar os 'vermelhos'? Tá aí o vermelho pra vocês.
"...E a rebelde endemoniada tira as bolas do torturador! Que beleza!" Isso sim é que é futebol arte.
porCly Reis
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"1978"
título original: "1978"
direção: Nicolás Onetti e Luciano Onetti
elenco: Agustín Olcese, Mario Alarcón, Carlos Portaluppi
E temos os classificados da fase pré da Copa Joy Division!
A rigor, nenhuma grande surpresa. Alguém pode até se impressionar com a classificação de Novelty sobre Digital, a da instrumental Incubation sobre These Days, questionar o resultado do confronto equilibrado entre Ice Age e Walked in Line de características parecidas, mas de um modo geral, não tivemos nenhuma grande zebra nesta fase. Por sinal, os times grandes que tiveram que disputar a pré-eliminatória, como Transmission e Atmosphere, confirmaram o favoritismo e passaram por cima de adversários que não faziam frente mesmo. Confiram aí então os classificados da fase prévia e nos próximos dias teremos os confrontos sorteados da, efetivamente, primeira fase da Copa Joy Division, a Copa Eterna.
Ninguém entende mais de futebol do que Jorge Benjor! Pelo menos, nenhum compositor sabe como ele colocar futebol em versos cantados. Mais do que qualquer outro artista da música, Jorge consegue associar esses universos de forma única e inspirada.
São diversas as canções dele em que o esporte paixão das multidões está presente de alguma forma, seja como tema principal, como personagem ou de forma sutil na forma de uma mera alusão ao clube do coração.
Então, no dia da estreia da Seleção na Copa do Mundo, decidimos escalar a Seleção do Jorge, as 11 titulares do Cavaleiro Imaculado.
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"Eu vou lhe avisar
Goleiro não pode falhar"
1."Goleiro", do álbum "23" (1993): Não poderia ser diferente e a gente começa com o goleiro. Jorge Benjor homenageou o jogador da posição mais solitária do campo em seu álbum "23". A canção "Goleiro" alerta para a responsabilidade da posição na qual qualquer falha pode ser fatal, e uma desatenção pode originar um frango vergonhoso.
2."Troca Troca", do álbum "A Banda do Zé Pretinho" (1978): Música que remete às criativas transações que o cartola tricolor Francisco Horta, dos anos 70, promovia entre os grandes clubes do Rio de Janeiro, incrementando o campeonato e alvoroçando os torcedores.
No mais famosos 'pacotão' de trocas, Horta levou para as Laranjeiras o goleiro Renato do Flamengo em troca do também arqueiro Robero do Fluminense, deu o argentino Doval em troca do atacante Zé Roberto do rubro-negro, e já que estamos falando de lateral, cedeu o lateral Rodrigues Neto do Fluzão, em troca de Toninho, do rival.
3."Zagueiro", do álbum "Solta o Pavão" (1975): E no centro da defesa ele, o zagueiro, impávido, imponente, aguerrido. Jorge Benjor descreve e canta de forma magistral a desenvoltura do dono da grande área com suas virtudes e atribuições, nesta que é, sem dúvida, uma das mais belas canções sobre futebol.
4."Cadê o Pênalti", do álbum "A Banda do Zé Pretinho" (1978): Caiu na área? É pênalti! Se o zagueiro não tomar cuidado, for driblado, perceber um perigo eminente, for seu último recurso e tiver que fazer a falta dentro da grande área, o juiz aponta pra marca da cal e aí já era. Jorge Benjor, também no disco "A Banda do Zé Pretinho" trata da infração mais séria e fatal do futebol: a penalidade máxima.
5."Meus filhos, Meu Tesouro", do álbum "África Brasil", (1976): Que menino nunca sonhou em ser jogador de futebol? Não foi diferente com Artur Miró, filho fictício da música "Meus filhos, meu tesouro". Ele, o irmão Jesus Corrêa e a irmã, Anabela Gorda, questionados pelo pai, na letra da canção integrante do disco "África Brasil", manifestam suas aspirações. O irmão, quer ser um empresário, ela, dona de casa ou 'dondoca' de sociedade, já Artur Miró, por sua vez, não hesita: "Eu quero ser jogador de futebol".
Jorge Benjor foi um desses meninos que tinha esse desejo e, dizem, tinha talento para tal. Até tentou alguma coisa na base do Flamengo antes da carreira artística. Acabou mesmo na música. Sorte a nossa.
6."Jesualda", do álbum "Solta o Pavão" (1976): Jogando na nossa lateral-esquerda ela que é simpática, pura e meiga e foi trabalhar na zona sul de cozinheira de forno e fogão. E o que é que a donzela Jesualda tem a ver com futebol? É que na volta do trabalho, no ponto de ônibus, num domingo à tarde, encontrou um sujeito meio apressado que ia com bandeira e tudo ao Maracanã e a partir daquele momento a sorte da moça suburbana mudou. Casou, espera um bebê e foi morar no exterior. Ah, o futebol... Unindo destinos e mudando vidas.
7."Fio Maravilha", do álbum "Ben" (1975): Somente Jorge Benjor conseguiria narrar um gol musicalmente como fez com a jogada celestial do atacante Fio.
Jorge descreve com inigualável inspiração, ritmo, musicalidade a jogada do gol de placa de um jogador carismático de seu clube do coração, o Flamengo. O tempo de jogo, o desenvolvimento da jogada, o sentimento do jogador, a reação da torcida... Um golaço de Jorge Benjor!
8."Ponta de Lança Africano (Umbabaruma)", do álbum "África Brasil" (1976): Este meia-atacante saído da mente luminosa do compositor é certamente o jogador fictício que todo fã de música imagina como seria e gostaria de ver jogando. Um ponta de lança decidido que pula, cai, levanta, sobe, desce, abre espaço e que é capaz de levar uma multidão ao estádio especialmente para vê-lo jogar. O jogador decisivo, o homem-gol.
Um samba-rock embalado e irresistível que tem, possivelmente, um dos melhores rifas da música brasileira.
9."O Nome do Rei é Pelé", do álbum "Reactivus Amor Est (Turba Philosophorum)" (2004): Homenagem de Jorge Benjor ao maior de todos. Canção pouco inspirada, pra falar a verdade, numa fase já menos genial do compositor. Jorge praticamente se limita a enumerar os feitos e listar estatísticas do rei, com ritmo, com balanço, bom refrão, é verdade, mas numa composição bem inferior a outras coisas que já fizera.
O Rei do Futebol poderia ter algo melhor do Rei das Músicas de Futebol.
10."Camisa 10 da Gávea", do álbum "África Brasil" (1976): Eu podia ter posto o 10 eterno, Pelé, com a camisa 10 da nossa seleção musical, mas não tem como não reservar este posto para uma canção cujo título é nada menos que o número da camisa. Jorge Benjor já se encantava com o garoto Zico antes dele se tornar tudo o que representou na história do Clube de Regatas do Flamengo. Numa canção mansa, malemolente, Benjor adverte do perigo fatal de cometer uma falta na entrada da área quando aquele jovem craque estava em campo. Isso alguns anos antes do Galinho de Quintino colocar o Flamengo no topo do mundo. Jorge Benjor entende mesmo de bola.
11."Camisa 12", do álbum "Salve, Jorge" - Inéditas e Raridades - 1963-1976 (2009): Quem fica com a nossa camisa 11 aqui é a "Camisa 12". Uma ode à mítica camiseta canarinho da Seleção Brasileira e a todos os apaixonados por ela. "Camisa 12", canção antiga recuperada em um álbum extra de raridades, exalta os jogadores que defendem, que honraram a camisa amarela e trouxeram cinco títulos mundiais para o Brasil, toda sua raça, sua determinação e sua técnica, além de reverenciar os torcedores, e a troca de energia que acontece quando a Seleção está em campo, especialmente em Mundiais.
Nada mais oportuno para o momento, no dia da estreia do Brasil em mais uma Copa do Mundo.
Tá, agora parou a brincadeira! Tirem as crianças da sala que aqui é conversa de gente grande. Se Japão vs. Itália não é um grande clássico no futebol, uma vez que os orientais não tem uma seleção tradicional e os italianos vem de fracassos e ausências recentes em Copas do Mundo, no cinema, pelo contrário, representam duas escolas clássicas e premiadas. E aqui o jogo é ainda maior por conta dos donos do espetáculo. De um lado Akira Kurosawa e do outro o italiano Sergio Leone que numa produção conjunta com Alemanha e Espanha, refilma o clássico do mestre japonês e tentar superá-lo.
Ótimo oponente, por sinal. Somente um especialista em faroestes como Leone para ousar desafiar as sagas de samurais errantes de Kurosawa.
Nos dois filmes, um forasteiro sem origem e sem destino chega a um vilarejo dominado por duas famílias rivais que impõe autoridade, pavor e submissão aos habitantes. O aventureiro percebe a oportunidade de ganhar alguns trocados por ali mas logo, desmandos, crueldades e injustiças fazem com que seu senso de moral fale mais alto que o dinheiro e ele passe a agir em prol dos oprimidos da pequena aldeia, especialmente um casal que é arbitrária e cruelmente afastado de seu filho pequeno.
Com algumas diferenças de andamento e de ação a trama das duas versões é praticamente a mesma. O herói, ardiloso e sagaz, se infiltra nas famílias e as corrói por dentro causando-lhes danos e prejuízos, fazendo com que cada vez mais uma se volte contra a outra.
"Yojimbo, O Guarda-Costas" (1961) vs. "Por Um Punhado de Dólares (1964) - lado a lado
Kurosawa dá um pouco mais de contextualização social, Leone imprime um pouco mais de dinâmica, o preto e branco do primeiro é elegante e salienta os contrastes, o colorido do outro reforça a aridez do ambiente, enquanto o italiano desde cedo sugere que exista alguma questão envolvendo uma família, o japonês só nos apresenta mesmo a situação da criança bem adiante, se o faroeste spaghetti de Leone tem a excitação das balas e dos tiros, a ação samurai tem o balé das espadas. Difícil estabelecer algo melhor...
E o que falar dos craques dos craques de cada time? Toshiro é o equilíbrio na medida certa entre a sobriedade e a intensidade, Clint, aquele personagem incógnito, indecifrável, inabalável.
O time italiano conta com outro craque no time, o maestro Ennio Morricone na batuta, com mais uma trilha marcante, porém o menos conhecido no mundo ocidental, mas não menos competente Masuro Satō não deixa por menos e entrega uma trilha pontual e precisa.
Impossível dar a vitória para um dos dois. Esse é daqueles jogos históricos de Copa, tipo, 5x5. Daqueles duelos que ficam pra sempre na memória do torcedor.
O charme imponente de Toshiro e a tranquilidade impenetrável de Clint. Dois times com matadores como esses só podia resultar num jogo de muitos mortos... digo, quero dizer...muitos gols.
No duelo da espada contra a pistola,
ninguém ficou com a vantagem.
Tudo igual num jogo de craques na beira do campo e dentro dele.
A bola começa a rolar nos gramados da América do Norte e as publicações sobre futebol e países envolvidos no grande evento, começam a rolar por aqui.
Livros que trazem o futebol como tema, filmes em que este esporte é protagonista, confrontos de filmes originais contra remakes de países participantes da Copa como se fossem jogos de seleções, discos com artistas de nacionalidades diferentes, artes especiais remetendo a grandes jogos e grandes craques, e tirinhas tratando de tudo que acontecer nesse período do Mundial com muita atualidade e bom humor.
Mas calma, as 'grandes seleções' não entram ainda nesta fase. As que tiveram a honra de compor os únicos dois álbuns de estúdio lançados pela banda, terão o privilégio de entrar a partir da fase seguinte.
Nesta fase preliminar, os singles, inéditas e integrantes de coletâneas se enfrentam tentando seu lugar na elite. Eles que lutem!
É lógico que numa obra tão curta, algumas que deveriam ter entrado em álbuns mas não tiveram tempo para isso e mesmo assim ficaram eternizadas, terão que passar por essa pequena humilhação e enfrentar uma eliminatória, como é o caso de clássicos como "Atmosphere" e "Transmission", por exemplo. Mas imagino que não devam ter dificuldades para passar e devam se encontrar com suas iguais na fase seguinte...
Será?
Futebol pode ser uma caixinha de surpresas.
Então que tal conhecermos quem serão os adversários desses clássicos que não deveriam estar na série B, e todos os outros confrontos dessa fase pré?
Confiram aí então os confrontos da fase preliminar da Copa Joy Division que nós, os blogueiros do ClyBlog, Clayton e Daniel, juntamente com nossos convidados entendedores da obra da banda, Luna Gentile e Roberto Sulzbach, definiremos os vencedores e que avançarão à fase seguinte:
MAIS UMA COPA MUSICAL NA QUAL CANÇÕES DE UM ARTISTA, UM CANTOR, UMA BANDA SÃO COLOCADAS FRENTE A FRENTE PARA UM EMBATE FUTEBOLÍSTICO-MUSICAL CUJO OBJETIVO É DEFINIR
QUAL SUA MELHOR MÚSICA.
E DESTA VEZ DESCOBRIREMOS QUAL A MAIOR MÚSICA DE UMA DAS BANDAS MAIS ICÔNICAS DE TODOS OS TEMPOS. GRUPO DE CURTA MAS DE CANÇÕES MARCANTES E ETERNAS, ESPECIALMENTE PARA SEUS FÃS.
E AQUI TEREMOS QUATRO DELS, QUATRO ADMIRADORES DESSA LENDA DE MANCHESTER, QUE COM SUAS PREFERÊNCIAS E CONHECIMENTO, AJUDARÃO A DEFINIR O QUE MUNITA GENTE SE PERGUNTA:
QUAL A MELHOR MÚSICA DO JOY DIVISION?
CLAYTON REIS E DANIEL RODRIGUES, TITULARES DO BLOG, E OS CONVIDADOS LUNA GENTILE E ROBERTO SULZBACH DEFINIRÃO OS VITORIOSOS EM MATA-MATAS SORTEADOS.
OS SINGLES, AS INÉDITAS E AS INTEGRANTES DE COMPILAÇÕES SE ENFRENTAM EM UMA FASE PRELIMINAR DE ONDE SAEM 12 QUE SE JUNTARÃO ÀS 20 CANÇÕES DOS ÚNICOS DOIS ÁLBUNS DA BANDA, QUE JÁ ESTARÃO ESPERANDO PARA, ENTÃO, FORMAR AS 32 QUE EM ELIMINATÓRIAS SIMPLES, SEMPRE SORTEADAS, SE ENFRENTARÃO ATÉ CHEGAR À GRANDE FINAL.
O pé por baixo da bola. Aquela leve cavada, desequilibrado, o suficiente para evitar o joelho do goleiro. E lá foi ela, a bola, mansa, lenta, quase morrendo, quicando, quicando, quase perdendo a força antes de chegar no gol. Será que tinha direção certa? E se batesse na trave? E se tirasse tinta e saísse?
Eu, acompanhando a trajetória, era o espectador privilegiado ao mesmo tempo que era candidato a herói do título. Era só encostar de leve e garantir o destino certo: rede! Naquele 14 de junho era aniversário do famoso Gol Chorado. O gol do título. Só se falava nisso em todas os jornais, emissoras, mesas redondas. Era especial com o Pinha, entrevista com o Pinha, reprise do gol do Pinha, "conheça a mansão do ex-atacante Pinha"... Estava cansado daquilo. Desliguei a TV, levantei da cama e acendi um cigarro no fogão. Se tivesse metido o pé naquela bola, hoje não estaria morando num buraco daquele em que o quarto já é praticamente a cozinha. Ainda sonhava com aquele lance... Em seu sonho, ele acompanhava a jogada, ela quicava, quicava, ia morrendo, ele percebia que ela não teria o destino do gol, talvez batesse na trave... Pra garantir, completava de chapa pra rede. O jogo acabava, ele era carregado como um herói, caía nos braço da torcida, dava autógrafos, ia a programas esportivos. Comerciais, carros, mulheres... Anos depois, no aniversário daquele gol decisivo, se fariam programas sobre ele, com ele, iriam à sua mansão entrevistá-lo e fazer um especial para a TV. Acordava invariavelmente suado e angustiado, com lágrimas nos olhos. Não conseguia deixar de pensar como tudo seria se tivesse metido o pé naquela bola.
Rodrygo está fora da Copa, Militão está fora da Copa, Gnabry está fora da Copa, o Yamall é dúvida, mas quem tá na Copa, sem dúvida alguma, é o Clyblog.
Em ano de Copa do Mundo nossas seções ganham postagens especiais, temáticas, ligadas a futebol ou remetendo aos países sede, Estados Unidos, México e Canadá, e aos demais participantes nessa edição que conta com mais países, inclusive com alguns bem atípicos no universo mais tradicional do futebol.
Tá chegando, tá chegando!!! E a partir de agora Copa já é assunto por aqui. Filmes, discos, livros, contos, crônicas, músicas, vídeos, tirinhas, tudo tem Copa do Mundo no Clyblog.
Quanto ao Neymar eu não sei, mas o Clyblog tá na Copa!
Bola rolando...
Ilustrações de gols das campanhas dos 5 títulos do Brasil em Copas do Mundo
Num ano em que O Agente Secreto brasileiro tem brilhado mundo afora, tendo estado pertinho de ganhar um Oscar, nosso Clássico é Clássico (e vice-versa) abre o ano cinefutebolístico com um confronto que traz ninguém menos que o maior agente secreto do cinema. Sim, senhoras e senhores, Bond, James Bond, o 007, em duas versões que usarão de todas as suas armas e recursos para derrotar o oponente e mostrar quem é o verdadeiro clássico do cinema.
Pouca gente sabe mas, antes de ser o ponto de retomada da franquia 007, apresentado Daniel Craig, "Cassino Royale" já tivera uma versão ousada e estrelada nos anos '60. Esse original, embora já contemporâneo da conhecida franquia de ação e aventura com os galãs invencíveis e sedutores vividos por Sean Connery e Roger Moore, entre outros, não fazia parte oficialmente daquela série e, por sua vez, ao mesmo tempo que prestava uma homenagem ao personagem, também o satirizava. O conhecido poder de sedução e a fraqueza por mulheres do agente britânico são elementos importantes na confusa e estapafúrdia trama da primeira versão que é composta por cinco segmentos amarrados entre si pela eliminação de outros agentes zero-zero por uma organização chamada SMERSH. James Bond, então, aposentado, é convencido a voltar à ativa para investigar e deter o grupo criminoso que usa exatamente de armas de sedução para sequestrar os agentes e pensa em atingir o mulherengo Bond desta mesma forma. Mas a coisa fica completamente sem pé nem cabeça! Bond tem a ideia de infiltrar falsos 007 entre suspeitos da tal organização. O mais relevante na trama e o melhor deles é Peter Sellers que, especialista em cartas, no jogo de bacará, que virá a enfrentar o especialista em baralho, Le Chiffre, desesperado para recuperar suas finanças num jogo decisivo para sanar suas dívidas e salvar a própria vida de seus credores.
"Cassino Royale" (1967) - trailer
"Cassino Royale" (2006) - trailer
Nesse ponto as histórias se cruzam, no novo "Cassino Royale", a MI6 tem a informação que um financiador terrorista, Le Chiffre, endividado por um negócio frustrado pretende recuperar seus fundos numa mesa de jogo num torneio particular em Montenegro num local chamado Cassino Royale.
Bond então se prontifica a ser incluído na mesa, como um milionário apostador qualquer, a fim de evitar que Le Chiffre vença e levante o dinheiro. Aí entra outro ponto de convergência entre as duas versões: Vesper Lind. Na última versão ela é a representante do Tesouro Nacional que vai financiar, sob risco, a aposta de Bond na mesa de pôquer, já na primeira, é uma milionária que conduz o falso Bond, Evelyn Tremble ao cassino para enfrentar Le Chiffre.
Os dois Bond vencem os Le Chiffre de cada uma das histórias, ambos são torturados, cada uma à sua maneira, para entregar o dinheiro ao vilão, e em ambas as situações Le Chiffre é morto por seus credores. Enquanto o antigo conduz tudo isso com um humor estranho e psicodélico, o novo o faz com dramaticidade e uma intensidade até então poucas vezes vistas num filme da franquia. A tortura do então estreante Daniel Craig no papel de 007 é das mais brutais e dolorosas que se possa imaginar para um homem, mas que, curiosamente, tem lá também, em meio à dor, seu toque de humor.
Enquanto a refilmagem segue a trilha dos financiadores terroristas, do dinheiro perdido na primeira operação frustrada, perseguido por Le Chiffre, barrado por Bond, perdido por ele mesmo depois, até que vá atrás de quem o traiu e permitiu que fosse parar nas mãos dos bandidos, o original é uma salada de situações cuja conexão entre si é tão frágil que chega a ser quase inexistente. Tem a filha de Bond com a espiã Mata Hari, Mata Bond, que é sequestrada por um disco voador gigante, tem o sobrinho Jimmy Bond (Woody Allen) que se revela o grande vilão por trás de toda a trama, o Dr. Noah, cujo grande objetivo é tornar-se alto e mais atraente para as mulheres, tem uma grotesca invasão de soldados, coubóis e índios ao cassino para enfrentar os criminosos, tem uma explosão atômica de soluços, enfim... uma miscelânea caótica!
O filme de 1967 tinha um timaço! Além de um dos episódios ter sido dirigido e estrelado por John Huston, a seleção contava ainda com David Nível, Deborah Kerr, Peter Sellers, Woody Allen, Orson Welles, Ursula Andress e Jean-Paul Belmondo. Infelizmente, de um modo geral, muito mal aproveitados num filme sem pé nem cabeça. Peter Sellers, como Tremble, Ursula Andress, como Vesper, e Welles, como Le Chiffre, ainda conseguem se salvar, mas de resto, é só talento e qualidade desperdiçados. Parece aquele time cheio de craques mas com jogadores escalados fora de posição ou em funções que não rendem o seu melhor.
Já o time de 2006 é aquele elenco equilibrado com os jogadores no lugar certo. Tem a craque Judy Dench, no papel da chefona M, o ótimo jogador Mads Michelsen fazendo um bom Le Chiffre, a competente Eva Green como Vesper Lind, e o limitado Daniel Craig no papel principal dando conta do que é esperado dele. É tipo aquele centroavante que até é ruim tecnicamente, mas que, se cair na frente dele, ele mata. É artilheiro!
"Cassino Royale" (1967) - créditos de abertura
"Cassino Royale" (2006) -
Sequência da perseguição em Veneza
Cassino Royale '67 leva poucas vantagens. A abertura com uma animação colorida e psicodélica é mais interessante que aquela tradicional de silhuetas e balas voando em câmera lenta da franquia oficial. O original faz 1x0 no início pela abertura, mas não sustenta. O jogo de Cassino Royale '06 é bem melhor e mais desenvolvido. Não é nada brilhante, nada espetacular, mas tem andamento, tem sua lógica, tem coerência, e por isso não demora a empatar: 1x1.
Embora interpretado por grandes nomes do cinema na primeira versão, como David Niven e Peter Sellers, o estreante Daniel Craig é melhor na função do que os craques do outro time e vira o jogo para o remake. 1x2.
A propósito, Orson Welles é um gênio do cinema, uma dos maiores de todos os tempos, não faz mal o que o ténico lhe pede, mas o Le Chiffre de Mads Michelsen é muito melhor. Aquela cara cínica, aquela expressão implacável e o interessante detalhe do olho lacrimando sangue conferem a ele um lugar únioco e de destaque entre os vilões de James Bond. 1x3 para CR'06
Agora unido os dois, o jogo de cartas no cassino, bacará na primeira versão e pôquer na segunda, além do fato de ser ridículo e risível no confronto entre Peter Sellers e Orson Welles, é muito mais tenso e relevante no confronto de Craig com Mads Michelsen, com direito a reviravolta, envenenamento e ressurreição. 1x4. Já virou goleada!
O time de '67 esboça uma reação com a interessante sequência da missão de Mata Bond, a filha de James Bond, em Berlim, num episódio que, apesar dos absurdos como a viagem de táxi de Londres até a capital alemã, contém mais ação, mais espionagem e uma estética muito legal que mistura psicodelia com expressionismo alemão, com cenários coloridos, geométricos e distorcidos. 2x4. Gol de Mata Bond.
Mas se vamos falar de sequências, a cena em Veneza põe por água abaixo qualquer ambição do filme antigo. A descoberta de Bond, a perseguição, os incríveis desmoronamentos da cidade, o final dramático com a amada Vesper Lind, tudo, toda a jogada, todo o envolvimento garante mais um gol para Casino 2006. 2x5.
Cassino '67, repleto de craques, até faz mais um na tabelinha de Burt Bacharach com Dusty Springfield. O maestro cria toda a jogada para a loura, com sua belíssima voz, completar com classe para o fundo das redes com "The Look of Love", canção indicada na época ao Oscar que não faz feio diante de nenhuma outra da franquia consagrada. Mas não é o suficiente para mudar a história do jogo. 3x5 e até que saiu barato.
Cassino Royale de 1967 apostou todas suas fichas num elenco estelar mas não contava com um jogo mais equilibrado do adversário que soube distribuir bem suas apostas entre a trama, a ação, o suspense e a dramaticidade. Cassino Royale 2006 limpou a mesa!
O jogo entre James Bond e Le Chiffre nas duas versões. À esquerda, Peter Sellers contra Orson Welles; à direita, Daniel Craig contra Mads Michelsen.