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quarta-feira, 20 de maio de 2026

Eurovision: quando a música se transforma em propaganda


Final da competição evidencia a leniência da EBU em relação a Israel

por João Pedro Gomes Bernardes

Pelo terceiro ano consecutivo, a maior competição musical do mundo ficou a um passo de sua maior desafinada. Até o último segundo, as dez mil pessoas presentes no Wiener Stadthalle, em Viena, no último sábado, e as cerca de 160 milhões assistindo pela televisão ficaram apreensivas, esperando para saber se a septuagésima edição do Eurovision Song Contest terminaria com uma vitória de Israel, um país responsável pelo genocídio de mais de setenta mil palestinos e que tem usado do festival como instrumento para simular um apoio da população europeia a suas ações. No final, o título ficou com a Bulgária, mas o sinal de alerta, que já estava aceso, ficou ainda mais evidente.

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O que é o Eurovision? Por que Israel pode participar? 

O Eurovision Song Contest é uma competição musical organizada pela União Europeia de Radiodifusão (EBU, sigla em inglês para European Broadcasting Union) desde 1956. Anualmente, cerca de 38 emissoras públicas europeias escolhem um artista e uma canção para representar seus países no festival, que já revelou nomes como ABBA, Céline Dion e Måneskin

Após uma maratona de três shows – duas semifinais e a grande final –, o vencedor do festival é determinado por uma combinação de pontos dos júris e do público, que se equivalem. Cada país possui um júri composto por sete profissionais da música, que distribuem pontos para as suas dez canções preferidas: doze pontos para a primeira colocada, dez para a segunda, oito para a terceira e, de forma decrescente, de sete a um ponto para as demais. Os telespectadores, por sua vez, votam através de diferentes meios, dependendo do país onde estão – telefone, SMS, site ou aplicativo –, e os pontos são atribuídos da mesma forma. É importante mencionar que, por uma questão de justiça, o júri e o público não podem votar no país em que fazem parte. Em caso de empate na soma final, o televoto é soberano.

 Dara comemora o título do Eurovision 2026 | Crédito: Corinne Cumming/EBU

Podem participar do Eurovision emissoras públicas associadas à EBU, cuja área de atuação abrange quase toda a Europa (excluindo partes da Rússia), o norte da África, a região do Cáucaso (ao sul da Rússia, entre os mares Negro e Cáspio) e parte do Oriente Médio. Essa determinação, conhecida como Área Europeia de Radiodifusão, foi definida pela União Internacional de Telecomunicações em 1961 e revisada com o passar dos anos, o que permite a participação de países não-europeus no concurso, caso de Israel.


A participação de Israel ao longo dos anos

A primeira participação de Israel no festival ocorreu em 1973, na Cidade de Luxemburgo. A representante do país na ocasião foi Ilanit, que terminou na quarta posição. Para Ricardo Rios, professor de comunicação da Universidade Federal de Lavras, em Minas Gerais, e pesquisador da relação entre Eurovision, política e relações internacionais, a entrada de Israel no festival contribuiu para a expansão do senso nacionalista entre a população israelense: “Quando Israel decide se associar à EBU e entrar no Eurovision, havia um movimento para definição do que seria o estado israelense porque, até então, o Estado de Israel era visto como uma extensão da religião judaica. Com base nisso, Israel começou a investir muito na escrita das músicas e nas apresentações até que conseguiu vencer. Vários autores dizem que o que criou a noção cultural e nacional do Estado de Israel foi a participação no Eurovision”. 

Até 2026, Israel tem quatro títulos do festival. O primeiro veio em 1978, com Izhar Cohen e o grupo Alphabeta, seguido pelo grupo Milk and Honey logo em 1979, em uma edição realizada em Jerusalém. Dana International, primeira pessoa trans a competir no Eurovision, deu ao país seu terceiro título em 1998, enquanto Netta Barzilai levou o troféu para o país mais recentemente, em 2018. 

A participação de Israel, no entanto, nunca foi tópico de consenso entre os participantes do festival. Em 1979, a Turquia desistiu de enviar um participante a Jerusalém devido à pressão imposta por países árabes; no ano seguinte, quando Israel optou por não competir devido à data do concurso coincidir com um feriado religioso, o Marrocos participou do festival pela 

primeira (e até agora, única) vez; já em 2005, o Líbano faria sua estreia na competição, mas se viu forçado a desistir após a EBU impedir que o país interrompesse a transmissão no momento em que Israel entrasse no palco. Mais recentemente, na edição de 2019, em Tel Aviv, integrantes do grupo islandês Hatari mostraram faixas com a bandeira palestina, para vaias do público presente na arena.

Hatari mostra faixas com a bandeira Palestina | Reprodução: EBU


Política no Eurovision: o negacionismo da EBU 

Segundo as regras do festival, o Eurovision é “um evento internacional de entretenimento e deve permanecer estritamente apolítico. Para proteger sua integridade artística e cultural, o ESC não deve ser usado como plataforma ou fórum para expressão política, ativismo, controvérsia ou promoção de causas ou agendas externas”. Esta afirmação foi colocada em prática várias vezes com a finalidade de desclassificar canções com subtexto político, como nos casos da Geórgia em 2009, que havia selecionado uma canção com referências ao então primeiro-ministro russo Vladimir Putin (a edição daquele ano foi realizada exatamente em Moscou), e de Belarus em 2021, cuja canção escolhida dava a entender um apoio do grupo Galasy ZMesta às medidas opressivas do governo de Aleksandr Lukashenko.

Esta regra, segundo a EBU, está em vigor para evitar que o concurso entre em descrédito. No entanto, são vários os exemplos ao longo da história de canções que, de uma forma ou de outra, foram utilizadas para reforçar mensagens políticas. Este movimento se dá desde a primeira edição do festival, em 1956: um dos representantes da Alemanha, Walter Andreas Schwarz, era um sobrevivente do Holocausto e cantava sobre a perspectiva de um futuro melhor e reconhecimento dos erros cometidos no passado.

 Outro caso emblemático se dá poucas semanas após a edição de 1974. O concurso daquele ano, vencido pelo icônico ABBA teve, empatada na última posição, a representante de Portugal, “E depois do adeus”, interpretada por Paulo de Carvalho. Apesar do impacto quase nulo que teve no palco de Brighton, a canção foi utilizada como um sinal para dar início à Revolução dos Cravos, que pôs fim a quase cinquenta anos de ditadura no país.

O jornalista Matheus Rodrigues, do portal Kolibli, defende que o Eurovision nunca foi apolítico, como insiste a EBU: “Esconder [o aspecto político], fingir que isso não acontece, talvez piore a situação. Para eles, como autoridades que coordenam o concurso, é legal que o festival não seja político, que seja sobre a música. Mas não é bem assim”. Para Rodrigues, o atual momento de politização do Eurovision tem início em meados da década de 2010, com o aumento do sentimento anti-Rússia na sociedade ocidental: “A partir dali, houve uma cisão que perdura até hoje”, afirma. 

Em 2016, a representante ucraniana em Estocolmo foi a cantora Jamala, com o tema “1944”. A canção trata, em sua letra, da deportação do povo Tártaro da região da Crimeia pelo governo soviético, à época chefiado por Josef Stalin. Apesar de protestos da delegação russa, que vincularam a canção à disputa em andamento pelo território da Crimeia entre Rússia e Ucrânia, a canção foi liberada pela EBU e, em 14 de maio, deu à Ucrânia seu segundo título do festival.

Em 2022, após a invasão ao território ucraniano, a Rússia foi excluída do Eurovision em um movimento sem precedentes. Já a Ucrânia, mesmo com uma canção que, por si só, não carregava mensagens políticas, foi aclamada pela comunidade eurovisiva, que deu ao país sua terceira vitória. Seus representantes, o grupo Kalush Orchestra, receberam 192 pontos do júri e 439 do público, resultando em 631 pontos – a segunda maior pontuação total e maior televoto da história do festival.


A invasão russa à Ucrânia e o precedente aberto, mas não utilizado 

Na madrugada de 24 de fevereiro de 2022, após semanas de tensões políticas entre os dois países, tropas da Rússia invadiram o território ucraniano, dando início a um período de quatro anos de uma guerra que parece não ter fim. A resposta da comunidade internacional foi imediata: uma série de sanções econômicas à Rússia foi anunciada por uma ampla coalizão internacional comandada por Estados Unidos, União Europeia e Reino Unido, como a exclusão do país do sistema Swift, o mais usado para transações bancárias internacionais, e o rompimento de contratos de fornecimento de energia. No âmbito esportivo, a FIFA excluiu a Rússia das Eliminatórias para a Copa do Mundo de 2022, enquanto os Comitês Olímpico e Paralímpico Internacional baniram o país de seus eventos – ambas as sanções seguem em vigor.

A primeira manifestação da EBU em relação a uma participação russa no Eurovision daquele ano se deu no mesmo dia da invasão, através de um e-mail enviado à emissora sueca SVT, indo na contramão das demais entidades internacionais: “as emissoras-membro da Rússia e da Ucrânia se comprometeram a participar no evento deste ano em Turim, e planejamos receber os artistas dos dois países em maio”. O comentário da entidade foi recebido de forma negativa pelas emissoras participantes do festival, que ameaçaram boicotar a edição daquele ano caso a EBU mantivesse sua posição. No dia seguinte, a decisão foi revertida: “a inclusão de um participante russo no festival [daquele] ano levaria a competição ao descrédito”. Além disso, a entidade suspendeu as três emissoras russas associadas – RTR, Channel One e RDO. Em resposta, as três emissoras anunciaram sua saída da EBU. 

A decisão da EBU de remover a Rússia do festival costuma ser considerada por muitos um precedente válido que justifica uma eventual exclusão de Israel. Entretanto, há uma série de fatores que diferenciam as duas situações, como explica o jornalista holandês GJ Kooijman: “a discussão sobre a expulsão da Rússia da EBU se referia à adesão das emissoras à entidade. O que nós vemos com a Kan e a decisão que foi tomada no ano passado [de mantê-los no concurso], foi que a direção decidiu não tomar nenhuma decisão, segundo rumores, porque a Alemanha e a Áustria, que fazem parte da direção, se recusaram a serem acusadas de participar da decisão e, assim, levaram o assunto a uma votação entre todos os membros”.


O festival como propaganda: a participação israelense em meio ao genocídio

O dia 7 de outubro de 2023 entrou para a história devido a um dos mais significativos ataques terroristas dos tempos atuais. No começo da manhã, hora local, cerca de 5 mil projéteis lançados pelo grupo Hamas atingiram uma série de alvos em território israelense, como kibutz, bases militares e um festival de música. Segundo estimativas, 1.195 pessoas foram vítimas do massacre, outras 251 foram sequestradas e mais de 3,4 mil ficaram feridas. 

O que se seguiu ao ataque foi o que inúmeros organismos internacionais classificaram como genocídio: nos dois anos e meio desde aquele fatídico 7 de outubro, mais de setenta mil palestinos foram assassinados pelas Forças de Defesa de Israel, sendo mais de vinte mil delas crianças. Segundo relatório da Comissão de Inquérito Independente do Conselho de Direitos Humanos da ONU, chefiada pela jurista sul-africana Navi Pillay, as autoridades israelenses cometeram quatro atos que caracterizam um genocídio: “assassinato, danos físicos e mentais graves, provocar deliberadamente condições de vida calculadas para causar a destruição de um povo e impor medidas para impedir nascimentos”. 

A partir de então, o governo israelense tem tentado, de várias maneiras, construir uma narrativa que legitime suas ações na Faixa de Gaza, alegando buscar a neutralização do Hamas. Uma das formas utilizadas tem sido simular um apoio massivo da comunidade internacional a Israel através do Eurovision Song Contest. Segundo reportagem do jornal The New York Times, apenas em 2024, primeira edição do festival desde o ataque, o governo israelense investiu cerca de 710 mil euros (quase quatro milhões de reais, na cotação da época) em marketing voltado não apenas aos fãs do festival, mas àqueles que apoiam ideologicamente o regime de Benjamin Netanyahu. Entre as táticas mais utilizadas está a criação de vídeos em vários idiomas, sempre reforçando a mesma informação: era possível votar até vinte vezes por meio de pagamento.

Para a primeira edição do Eurovision desde o começo do conflito, em 2024, a artista escolhida para representar o país foi Eden Golan, então com 20 anos de idade. A canção escolhida foi “October Rain”, escrita por Avi Ohayon, Keren Peles e Stav Beger, e que referenciava de forma direta o ataque de 7 de outubro. A primeira versão do tema não foi aprovada pela EBU, que constatou a presença de mensagens políticas na letra. Após um processo de reescrita, incentivado pelo presidente Isaac Herzog, a canção transformou-se em “Hurricane”, uma música romântica, mas que ainda carregava um subtexto político. Na final do concurso, em 11 de maio, Israel terminou em segundo lugar no televoto e quinto na classificação final. O país recebeu a pontuação máxima de catorze outros países, além do chamado “Resto do Mundo”, mostrando que a campanha de incentivo à votação em massa funcionou. O título daquela edição ficou com a Suíça, de Nemo.

Já em 2025, a representante de Israel na Suíça foi Yuval Raphael, sobrevivente do ataque ao Festival Nova, em 7 de outubro de 2023. A canção, “New Day Will Rise”, também foi criticada por membros da comunidade eurovisiva por seu subtexto político, mas nenhuma atitude foi tomada pela EBU. A campanha organizada pela emissora Kan em favor da votação em massa em favor de Israel, apoiada pelo governo do país, surtiu um efeito ainda maior do que na edição anterior: vitória no televoto e segunda posição na classificação final. O troféu, desta vez, ficou nas mãos do austríaco JJ.

O resultado de 2025 colocou ainda mais pressão nas costas da EBU. Preocupadas com o rumo tomado pelo concurso após as crescentes alegações de manipulação de resultados a favor de Israel, emissoras como a espanhola RTVE e a holandesa AVROTROS solicitaram à entidade a realização de uma consulta às demais participantes sobre a participação israelense no festival. O pedido foi inicialmente atendido e uma votação foi marcada para novembro, mas com a assinatura de um acordo de cessar-fogo, em outubro, a EBU optou por transferir a decisão para a reunião de sua Assembleia Geral, em dezembro. Na reunião, apesar da pressão imposta por algumas emissoras, a EBU decidiu condicionar a votação sobre a participação de Israel ao resultado de outra, sobre a satisfação dos membros em relação às novas regras anunciadas no mês anterior, como a redução do número máximo de votos por meio de pagamento de vinte para dez. 65% dos votantes aprovaram as mudanças e, consequentemente, a permanência de Israel no festival. Em resposta, cinco países anunciaram boicote à edição de 2026: Eslovênia, Espanha, Holanda, Irlanda e Islândia. Outras emissoras, como a portuguesa RTP, foram alvo de protestos de sua própria força de trabalho, que demandava um apoio ao boicote.

Para representar o país em Viena, a emissora israelense Kan selecionou o cantor Noam Bettan e sua “Michelle”, música romântica e, ao contrário de suas antecessoras, sem apelo político. Durante a apresentação do país na primeira semifinal, foi possível ouvir na transmissão oficial do concurso o protesto de alguns membros da plateia, que gritavam: “parem o genocídio”. Ainda assim, Bettan repetiu o vice-campeonato do ano anterior graças a um surpreendente apoio dos júris, que o deixaram na oitava colocação. A campanha em prol da votação em massa, no entanto, teve um resultado abaixo do esperado: Israel ficou apenas na terceira posição entre os telespectadores, atrás da campeã, Bulgária, e da Romênia.


Existe um futuro para o Eurovision?

O momento atual do Eurovision Song Contest pede cautela. Nos últimos três anos, aqueles que acompanham fielmente o festival passaram grande parte do tempo preocupados com o que poderia vir a acontecer em caso de uma eventual vitória de Israel: o concurso seria realizado em Tel Aviv, mesmo com a guerra? Quantos países permaneceriam no festival? Qual seria o impacto em termos de audiência?

Para Rodrigues, a permanência de Israel no concurso pode levar a efeitos práticos, como o aumento constante das discussões políticas – algo que, apesar da negação da EBU, ocorre de forma recorrente –, e simbólicos, como uma “fuga dos cérebros”: “Muitos artistas que participaram do Eurovision 2024 falaram mal da experiência, que tinham medo de algo acontecer, ou da delegação de Israel, que era completamente inadequada. E os artistas falam uns com os outros. Eu não consigo imaginar pessoas mais engajadas politicamente, como a Konstrakta, voltando para um Eurovision assim”.

Na última quinta-feira, dia da segunda semifinal do concurso, a EBU lançou uma pesquisa entre seus fãs a fim de conhecer melhor seu público e entender o que eles acreditam que pode ser melhorado nas edições seguintes. Kooijman acredita que a pesquisa não serve apenas para melhorar a experiência dos fãs, mas também para buscar formas de manter a viabilidade financeira do festival: “O que a EBU percebeu é que [o Eurovision] é uma grande marca, tão grande quanto o Grammy ou o Oscar. Essa pesquisa serve a um propósito de entender quem é o público principal do festival e, como pesquisa de marketing, definir esse público a fim de atrair mais patrocinadores, porque o concurso precisa de mais dinheiro. Por quê? Não é porque países estão deixando de participar, mas porque tudo está mais caro, incluindo os avanços tecnológicos”.

Rios, por sua vez, acredita que o próximo passo para a definição do futuro do Eurovision precisa vir de uma reflexão interna da própria EBU: “A EBU precisa se sentar com o Grupo de Referência do Eurovision, que é quem faz as regras do concurso, e com a produção do evento para entender o seguinte: ‘o que a gente quer para o futuro?’. Porque a própria Europa está questionando muito isso. Você tem a Anistia Internacional condenando, você tem a ONU condenando, você tem o público condenando, as emissoras associadas condenando, questionando: ‘por que com a Rússia foi de um jeito e com Israel não está sendo feito o mesmo?’”.

O futuro da maior competição musical do mundo está por um fio. E enquanto a EBU não toma uma posição coerente com a realidade dos fatos, é muito difícil voltar a sonhar com o dia em que o Eurovision seja, acima de tudo, uma ferramenta de união entre os povos através da música.


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Música da Cabeça - Programa #460

 

Ok, Neymar, não é só porque tu tá cheio de razão porque vai pra Copa, que precisa escancarar desse jeito sobre o MDC. Afinal, não é engano, pois a gente vai, sim, substituir a edição de hoje pela reprise do programa 295, quando houve a última Copa do Mundo. Daquela feita, teve Grant Green, Erasmo Carlos, Morcheeba, Marina e muito mais. Levantamos a plaquinha correta às 21h na convocada Rádio Elétrica. Produção e apresentação vinda do banco de reservas: Daniel Rodrigues. 


www.radioeletrica.com

segunda-feira, 18 de maio de 2026

cotidianas #894 - "Ronaldo Foi Pra Guerra"




Andava pela rua
Toda noite, todo dia
Ouvindo notícias
Dos heróis que voltaram
Da guerra do Bananal

Daí pintou a convocação
Da seleção
Jair pra Tostão
Valendo dólar
Pelé pegou na bola
E invadiu como quis

Invadiram o país
O que é que você me diz

Ronaldo era um cara
Que tinha a maior tara
Por futebol

Ronaldo não tem time
Ele mesmo se define
Franco-atirador
Eu só quero ver gol

Ronaldo é meio punk
Já foi hippie, já foi junkie
Pirou e foi pra aviação
Entrou em crise
Saiu do ar
Foi ser piloto
Sem brevê, sem radar

Invadiram a Terra
Ronaldo foi pra guerra

Ronaldo é futurista
É sensível, é artista
É videogame

Voava pelo mundo
Um piloto vagabundo
Caçando no ar disco voador

Passaram 2 mil anos
Pros humanos não entenderem
Qual a razão, ainda não
Da sua própria existência e o valor
Do seu planeta

Invadiram a Terra
Ronaldo foi pra guerra
Ronaldo foi pra...

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"Ronaldo Foi Pra Guerra"
Lobão e os Ronaldos

(Lobão, Guto Barros, Hélcio)


Ouça:
Lobão e os Ronaldos - Ronaldo foi pra guerra


quinta-feira, 14 de maio de 2026

“Emergência Radioativa”, de Fernando Coimbra e Iberê Carvalho (2026)


Não sou muito de assistir séries ficcionais. Embora todo o sucesso delas nas últimas décadas, tornando-se febre entre os milhões de espectadores cada vez mais caseiros e menos cinematográficos (até mesmo eu, como muitos, tornei-me mais “streameiro” depois da pandemia), confesso que tenho grandes restrições quanto à qualidade desse formato audiovisual. Principalmente da maneira como a indústria do entretenimento convencionou suas regras, claro, muitas a favor da audiência (dinheiro) e, no mais das vezes, inversamente proporcional à proposta conceitual (arte). 

Não que filmes não possam ser assim. Muitos o são. Mas séries, enquanto produto audiovisual, estão muito mais propensas e têm muito menos chance de escapar desse buraco negro da indústria cultural. Se não há problema na continuidade, há nas atuações. Se não peca por estender demais a história, erra na abordagem dos fatos. Se não abre muitos leques narrativos, tem dificuldade de sustentar arcos dramáticos em mais de um episódio. Filmes de longa-metragem (aliás, cada vez mais longos, num movimento reativo de serialização pelo qual o ameaçado cinema comercial atual passa) não estão salvos desses descaminhos, mas, na comparação filme X série, inegavelmente a obrigatória condensação de conteúdo do primeiro sai em vantagem pelo simples fato de impor formalmente aos realizadores de cinema "tradicional" resolverem essas irregularidades em menos tempo. 

De vez em quando, no entanto, claro que arrisco alguma série. Dante do entusiasmo em torno da série brasileira da Netflix “Emergência Radioativa”, bem como por causa de meu interesse no tema do acidente radiológico de Goiás, peguei-a para assistir. A minissérie é baseada na história real ocorrida em Goiânia, em 1987, quando catadores de sucata encontram uma substância brilhante num hospital abandonado. O material altamente radioativo, césio-127, que emitia uma luz azul no escuro, passa de mão em mão até ser descoberto. Então, inicia-se uma corrida contra o tempo para evitar uma tragédia de proporções devastadoras.

“Emergência...”, entretanto, mais uma vez comprova minhas percepções sobre série - as ruins. Estrelado por Johnny Massaro, esse sucesso de audiência perde-se justamente naquilo que mais se exige de qualquer produto audiovisual: a narrativa. Os primeiro e segundo episódios até começam bem. Aliás, muito bem. No inicial, onde se estabelece o perfil narrativo da história, recuperando cronologicamente cada dia que antecedeu e a partir da crise deflagrada, os fatos vão sendo contados de uma maneira bastante instigante. Já o segundo episódio é especialmente interessante, porque espelha as ações levantadas no primeiro, explicitando o tamanho do estrago que causaram. Se na parte 1 aparecia a menina Celeste sendo detectada com radiação, por exemplo, na continuação é quando se vê que ela não só teve muito mais contato com o pó de césio-137 do que se imaginava.

A pequena Mari Langaro como Celeste no colo da mãe

Porém, o formato série paga seu preço, e na terceira parte a consistência narrativa cai drasticamente. E pior: as inconsistências até então relevadas começam a saltar da tela. Ritmo, repetições, atuações deficientes. Uma dessas inconsistências, para pegar a mesma personagem exemplificada anteriormente, é a pequena Celeste. A lindinha atriz mirim Mari Lauredo não sustenta as cenas minimamente mais exigentes por conta de sua fraca atuação e/ou direção. Artificial e sem expressividade. E não só ela. Há momentos importantes da narrativa que perdem muito por causa de más interpretações como estas. 

Massaro, senhor de papéis intensos e trágicos (os filmes “Os Primeiros Soldados” e “O Filho de Mil Homens” e a série “Máscaras de Oxigênio não Cairão Automaticamente”), se sai bem, pois conduz a história. Porém, Leandra Leal, ótima atriz, diz mais a que veio na novela caipira da Globo do que na série dramática. Um desperdício. Fora isso, a tecnicamente cuidada produção (a reconstituição daquela Goiás anos 80 é bem crível) não se atenta àquilo que a faria crescer: a história verídica em si. Pela intenção de dramatizar, deixa de perceber que o melhor negócio para atingir esse drama é uma pitada maior de documentário. Sobreviventes da tragédia vem tecendo críticas bem fundamentadas por conta disso. 

Demonstrando que sentiu o golpe, nem o desfecho se salva, com uma pretensa comunhão dos afetados, sem, contudo, mencionar a formação da Associação das Vítimas do Césio-137 (AVCésio), criada nos anos 1990. Uma longa luta vem se travando pelos contaminados por seus direitos, que reclamam informações confiáveis sobre seus estados de saúde e sobre os reais riscos aos quais foram expostos, além do direito à assistência social e médica e direito básico de reconhecimento pelo Estado da gravidade de sua condição clínica. Nada disso foi contextualizado, num quase desserviço. Ah, séries: me ajudem a te ajudar...

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trailer da minissérie brasileira "Emergência Radioativa"


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minissérie "Emergência Radioativa"
direção: Fernando Coimbra e Iberê Carvalho 
elenco: Johnny Massaro, Paulo Gorgulho, Tuca Andrada, Bukassa Kabengele, Ana Costa
Antonio Saboia, Leandra Leal
gênero: drama, minissérie
episódios: 
1: "Um desastre como o Brasil nunca viu" - 62 min.
2: "Quando a gente vai voltar pra casa?" - 65 min.
3:  "A gente tá bebendo água contaminada?" - 61 min.
4: "A gente sempre tem uma opção" - 53 min.
5: Alguém precisa confiar em alguém" - 66 min.
país: Brasil
ano: 2026
onde assistir: Netflix

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Daniel Rodrigues