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segunda-feira, 14 de setembro de 2026

Popol Vuh - “Letzte Tage - Letzte Nächte” (1976)

 

"Uma visão do Popol Vuh.
Uma visão das coisas claras veio do lado mar,
A descrição das nossas sombras.
Uma visão da vida clara, como é chamada."
Trecho do "Popol Vuh", o livro sagrado dos Maias (século XVI)

O movimento krautrock alemão foi marcado pela diversidade e pelo avanço tecnológico. Embora todos os grupos e artistas se aproximem de um mesmo motivador inicial, o cenário da Alemanha pós-guerra e os efeitos da reindustrialização do país, as diferenças entre as bandas e artistas se tornariam marcantes à medida que os trabalhos desses músicos iam se desenvolvendo. E a tecnologia, princípio fundamental a toda geração da nova música alemã de meados dos anos 60, desdobrou-se de formas distintas na musicalidade de cada um. Kraftwerk, Klaus Schulze e Neu!, por exemplo, optaram pelo uso sistemático dos sintetizadores e sequenciadores, tornando-se seguidores naturais da linha de Darmstadt de Stockhausen e Boulez. Can, Gong e Faust, no entanto, foram aos poucos assumindo sonoridades mais psicodélicas e progressivas, dando aos sons das máquinas um papel complementar aos arranjos.

No caso da Popol Vuh, banda de Munique idealizada pelo viajandão Florian Fricke, estudante de piano de cauda e composição na Universidade de Freiburg – e crítico de cinema em tempo parcial, além de amigo do cineasta Werner Herzog – essa dicotomia entre eletrônico e analógico se dá noutra dimensão: no convívio quase dual entre o clássico e o moderno. Isso porque, depois do primeiro disco, “Affenstunde”, de 1970, a Popol Vuh tornou-se deliberadamente anacrônica, abandonando paulatinamente moogs, sintetizadores e afins. O negócio era manejar instrumentos acústicos como tanpura, oboé, cítara e percussões africanas das mais diversas. De sonoridades que vão do folk ao hindu, marcando álbuns como “In Den Gärten Pharaos” (1971), “Hosiana Mantra” (1972) e “Das Hohelied Salomos” (1975), eles chegam, em 1976, a seu melhor resultado:  o enigmático e deslumbrante “Letzte Tage - Letzte Nächte”, que completa 50 anos de lançamento em 2026.

Entre os muitos músicos alemães que, na década de 1970, olharam para a Índia e o Extremo Oriente na busca de absorverem a espiritualidade oriental, Fricke é o maior exemplo. Seu trabalho é uma exploração constante do mesmo tema: como expressar a espiritualidade mais pessoal, profunda e austera por meio da música clássica ocidental, da música sacra e do rock profano. O nome da banda diz tudo: uma homenagem direta ao livro sagrado dos Maias, redigido na Mesoamérica no século XVI. Por isso, a Popol Vuh pode estar na Baviera do século XVIII, na Amazônia do Século XVI, na Índia védica de 1500 a.C., na Jerusalém do período bíblico. ou num futuro distópico imaginado. Mas nunca no tempo presente. “Letzte...”, certamente o disco mais rock da banda, é permeado por todas essas referências.

Fricke e Daniel Fichelscher (responsáveis pela maioria dos instrumentos das gravações), travam um duelo musical, que expõe com inédita clareza a natureza dialética da Popol Vuh, que se equilibra entre sagrado e profano, classicismo e modernidade, teutonismo e psicodelia. “A dialética entre os dois é um espetáculo por si só: a guitarra é o demônio que salta em cada passagem, enquanto o piano é o anjo que tenta manter o calor e a tranquilidade. A guitarra é puro caos hedonista, enquanto o piano é ordens ascéticas e clássicas”, descreve o historiador cultural ítalo-americano Piero Scaruffi. Por falar em guitarras, as de “Der Grosse Krieger”, faixa de abertura, não só chamam para si o protagonismo como em muito lembram a sonoridade da The Cure e, especialmente, o estilo de tocar de Robert Smith. 

Essa parecença não é infundada, visto que, dark, o som da Popol Vuh é quase gothic-punk, o que se nota também nas instrumentais “Oh Wie Nah Ist Der Weg Hinab”. Música-irmã, “Oh Wie Weit Ist Der Weg Hinauf “ vem em seguida como numa resposta. Ritualística, traz nas vozes das cantoras Djong Yun e Renate Knaup em vocalises que fazem lembrar o mantra hinduísta ao deus Krishna (“Haram Dei Raram Dei Haram Dei Ra”), mas não deixa de se percorrer pelo universo do rock progressivo.

Depois da folk “In Deine Hände”, “Kirye” comprova aquilo que Scaruffi salienta, que é a contribuição lírico-sacra de Fricke. A despeito da carga de rock prog engendrado por Fichelscher, não é na guitarra, mas no piano que a canção é forjada. Melódica e suplicante, a se ver pelo significado da palavra de origem no grego antigo ("Senhor, tende piedade de nós"), “Kyrie” também vai ganhando intensidade no entoar das vozes femininas e da guitarra. Na sequência, “Haram Dei Raram Dei Haram Dei Ra” repete a melodia de “Oh Wie Weit Ist Der Weg Hinauf “, só que agora trazendo como título as palavras de chamamento à energia divina Bhakti Yoga presente na letra. 

Talvez as duas mais bonitas faixas do álbum são também as que o encerram em um clima elevado. A primeira é “Dort Ist Der Weg”, um rock experimental que antevê a sonoridade de banda do pós-punk europeu como a já mencionada The Cure. Rock com influências das culturas indianas, germânicas, britânicas, célticas e romani, algo que também se poderia já chamar de world music (e que ficaria evidente no som da Popol Vuh em “City Raga”, de1995). 

Já a faixa-título é ainda melhor. Esta antecipa a sonoridade de outros ilustres britânicos da cena alternativa: a Cocteau Twins. E não a Twins tristonha da primeira fase, mas a sua versão dream pop, como uma música feita para (e por) os anjos. Afora a guitarra etérea, que em muito lembra a de Robin Guthrie, as vozes de Djong e Renate cantando juntas aumentam ainda mais a semelhança com os escoceses, que usavam o vocal de Liz Frazer em overdub, produzindo um efeito de vozes paralelas e complementares muito parecido. Afora isso, a própria melodia climática faz remeter aquilo que a Cocteau Twins faria anos mais tarde em discos como célebres como “Heaven or Las Vegas”. 

Fricke continuaria comandando a Popol Vuh por mais vários anos até sua morte, em 2001, produzindo invariavelmente bons discos, entre eles várias trilhas sonoras para filmes do amigo Werner Herzog, como as de “Aguirre: A Cólera dos Deuses”, “Coração de Cristal”, “Fitzcarraldo” e “Cobra Verde”. Mas embora a abismal musicalidade da Fricke e seus ascetas eles nunca fizeram um trabalho tão emblemático como “Letzte...”, onde conseguiram dar outras (e inéditas) cores à tecnológica krautrock e provar que, independente das tecnologias, sejam as do presente ou do passado, a centralidade na alma continua sendo o que move a humanidade.

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FAIXAS:
1. "Der Große Krieger" - 3:15 (Daniel Fichelscher)
2. "Oh Wie Nah Ist Der Weg Hinab" - 4:36
3. "Oh Wie Weit Ist Der Weg Hinauf" - 4:30
4. "In Deine Hände" - 3:00
5. "Kyrie" - 4:38
6. "Haram Dei Raram Dei Haram Dei Ra" - 1:30
7. "Dort Ist Der Weg" - 4:30 (Fichelscher/Fricke)
8. "Letzte Tage - Letzte Nächte" - 4:20 (Fichelscher/Fricke)
Todas as composições de autoria de Florian Fricke, exceto indicadas

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OUÇA:
“Letzte Tage - Letzte Nächte” 

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Daniel Rodrigues


domingo, 13 de setembro de 2026

cotidianas #907 - Eu não mordo

 


Não era possível que aquela mulher estivesse olhando pra mim. Ainda olhei pra trás pra ver se tinha um bonitão, um cara sarado, boa pinta atrás de mim, mas às minhas costas só tinha o balcão do bar e o barman que, além de estar distraído limpando uns copos, convenhamos, não era muito melhor que eu. Tão gordo quanto eu e com menos cabelo ainda.
Era comigo mesmo.
Ela me olhava de um jeito provocante, lascivo, pervertido, como se quisesse me comer. Percebendo a minha dúvida, tratou de eliminá-la completamente. Sem tirar aqueles olhos penetrantes de mim, me chamou com um gesto de mão. Seu indicador se movia como uma serpente inquieta me fazendo sinal para que fosse até ela.
Não restava dúvidas.
Fui.
- Oi, senta. Pode chegar perto. Eu não mordo - disse ela, provocante.
- Não, claro. Eu sei, é só que... sei lá. Achei que não fosse comigo. Tantos caras mais interessantes e você me chama. Sei lá...
- Você se subestima. Você tem muito mais coisas que atraem uma mulher do que poderia imaginar.
Enchi meu ego!
- E então, vamos? - perguntou ela com a naturalidade de quem pede as horas.
Não acreditei. Me fiz de desentendido pra ter certeza de que era o que eu estava pensando, e ela confirmou.
- Pro meu apartamento, bobinho!
Fui.
Entrei, olhei em volta. Um ambiente um tanto curioso. Quase nu. Apenas um sofá velho sobre um tapete estampado empoeirado e cortinas vinho pesadas cobrindo as janelas.
A respiração dela perto do meu pescoço fez eu sair de minha hipnose intrigado por aquele ambiente inusitado.
- Lembra quando eu disse que não mordia? - sussurrou pertinho da minha orelha.
Só tive tempo de arregalar os olhos...
- Eu menti.
 

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"Eu não mordo"
Cly Reis

quinta-feira, 10 de setembro de 2026

Exposição “Tramas do Inventário”, de Íris Borges e Letícia de Cássia - Projeto Lãs do RS - Casa de Cultura Mário Quintana - Porto Alegre/RS


Não é de hoje que acompanho os trabalhos fotográficos de minha amiga Íris Borges. Aliás, lembro de quando ela começou nessa trilha da fotografia, há uns bons anos. Porém, como se vão 30 anos de amizade, deu tempo de vê-la aperfeiçoar-se nessa arte e colocar pra fora esse talento, seja em projetos solo, seja nos registros de eventos como a Feira do Livro de Porto Alegre. Em 2014, inclusive, tive a felicidade de visitar e, mais do que isso, escrever o texto de apresentação de sua exposição “Aparício”, no antigo Paris Cinema Café, dedicada ao saudoso gatinho dela e de seu parceiro, meu também amigo “trintão’ Christian Ordoque.

Pois, já sabendo do talento de Íris com as lentes, fomos Leocádia e eu visitar antes que encerrasse a exposição “Tramas do Inventário”, com fotos dela e de Letícia de Cássia, também curadora, no espaço Vitrine Lãs do RS: Fio da Meada, na Casa de Cultura Mário Quintana. A mostra, que busca fazer um inventário dos saberes e fazeres da lã do Rio Grande do Sul, integra o projeto de inovação social e cultural Lãs do RS, que apoia dezenas de artesãs a partir das ações ligadas à cadeia produtiva e artesanal da lã no Estado. 

Tiradas principalmente por Íris e destacando o papel das mulheres neste contexto, há fotos de vários municípios do interior gaúcho onde a cultura da lã é presente, como Caçapava do Sul, Mostardas, Lavras do Sul, Rosário do Sul, Santana do Livramento e São Gabriel. Nelas, nota-se um olhar sensível e detalhista, que trazem cores, vivências e emoções só possíveis de serem captadas por quem, como Íris, estava atenta ao momento (e ao ângulo) certo. Tanto os retratos de pessoas quanto as fotografias de paisagens ou de objetos transmitem esse apuro, que alia instantaneidade e observação. Tudo sem uso de grandes recursos de edição posterior, ou seja, são fotos em que prevalece a luz original e o enquadramento da hora. 

Pena que a exposição se encerrou, mas é bem possível que seja levada a algum outro espaço juntamente com as peças exclusivas das lãs feitas com uso de fibras naturais, couro e resíduos de plantas, através de técnicas tradicionais e de referência cultural. Se pousar noutro pago, possivelmente estaremos lá de novo. Por ora, confiram algumas das belas peças expostas em “Tramas do Inventário”:

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Foto geral da parede com as fotos


A fofa ovelha, geradora da matéria-prima


Retrato diante de um dos principais cartões-postais do RS:
as ruínas das Missões, em São Gabriel


Fotaça mostrando manual a lavagem da lã


Novelos pendurados em diversos tons de cor


Diversidade de ângulos e olhares


Artesã captada pela lente de Letícia


A cadelinha atenta à lida com as ovelhas


Vê se essa nuvem não parece feita de lã?


Linda foto de Letícia do entardecer no campo 


Outro ângulo geral com as peles naturais logo abaixo


Detalhe das tramas da lã que foi parar no pôster da exposição


Leocádia e eu com a amiga e autora Íris


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texto e fotos: Daniel Rodrigues

quarta-feira, 9 de setembro de 2026

Música da Cabeça - Programa #476

 

Já que tá todo mundo entrando nessa de trend de anos 80, pensamos: por que não entrar também? Afinal, o MDC nunca deixou de rodar a música da "década perdida", que em termos de música não tem nada de perdida. Hoje mesmo, só pra ter ideia, vai ter Michael Jackson, Legião Urbana, Bauhaus, Nei Lisboa e Sonic Youth. Mas tem também a galera nova (Thundercat), dos 90 (Black Grape, Aimée Mann) e os eternos (Gilberto Gil, Elton John, Milton Nascimento). Caracterizando-se em todas as épocas, o programa vai ao ar às 21h na oitentista Rádio Elétrica. Produção, apresentação e visual espalhafatoso: Daniel Rodrigues



www.radioeletrica.com

terça-feira, 8 de setembro de 2026

"Uma Modesta Proposta", de Jonathan Swift - ed. Unesp (2005) - original de 1729



por Zeca Azevedo


Até ontem, o clássico da sátira política e social "Uma Modesta Proposta - Para impedir que os filhos das pessoas pobres da Irlanda sejam um fardo para os seus pais ou para o país e para torná-los úteis ao interesse público" era apenas uma referência cultural indireta para mim, isto é, eu sabia da existência dele e sabia do que se tratava, mas ainda não o tinha lido. Encontrei o texto em um livro que tenho em casa e o devorei.

Trata-se de uma provocação demolidora do escritor irlandês Jonathan Swift escrita no século XVIII, na qual ele, com o humor afiado como os instrumentos de corte dos açougueiros, sugere que crianças pobres do país dele virem comida para outras pessoas. Os infantes seriam abatidos ao completarem um ano de idade para consumo humano, tal como os leitões.

"Um sábio americano que conheci em Londres assegurou-me que uma criancinha jovem, saudável e bem alimentada é, com um ano de idade, o alimento mais delicioso, nutritivo e completo – seja estufada, grelhada, assada, ou cozida. E não tenho qualquer dúvida de que sirva também para um fricassê ou um ragú."

Apresentada racionalmente, apoiada em estatísticas, a proposta de Swift tem o patriótico objetivo de diminuir a população pobre da Irlanda. Os casais pobres venderiam seus filhos de um ano de idade e, assim, teriam uma fonte de renda, além de livrarem-se dos custos de manter viva uma ou mais crianças. A carne de crianças seria uma iguaria apreciada pelos ricos que, como Swift observa com mordacidade, já consomem os pais delas, ainda que de um jeito um pouco menos evidente.

Se considerarmos as declarações aporofóbicas que ouvimos todos os dias, a proposta de Swift seria defendida e posta em prática por integrantes de todas as classes sociais do Brasil, nação há muito dedicada à produção em massa de gente pobre. Alguns diriam que seria um meio eficaz de favorecer o processo de seleção natural da espécie. Imagino que aqui no Rio Grande do Sul os churrascos teriam muitas criancinhas empaladas em espetos e temperadas com sal grosso. A sátira voraz de Swift tem alcance universal porque compreende à perfeição a tal natureza humana. "Uma Modesta Proposta" jamais perderá a atualidade.