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sábado, 31 de outubro de 2026

Parliament - “The Clones of The Doctor Funkenstein” (1976)



“Dr. Funkenstein estava muito à frente de seu tempo."
Bootsie Collins

"À imagem do escolhido: Dr. Funkenstein/
E o funk é sua própria recompensa/
Posso te assustar?"
Trecho do Prólogo de "The Clones of the Doctor Funkenstein"


De todos os artistas da black music dos anos 70 nos Estados Unidos – e olha que não são poucos – certamente George Clinton foi o mais radical e produtivo. Contudo, talvez não tão dimensionado como Marvin Gaye, Stevie Wonder ou Curtis Mayfield naquela época. Filho da Motown, para a qual trabalhou produzindo e compondo por vários anos nas décadas de 50 e 60, ele admirava o funk de James Brown, bem como era um conhecedor de tradição do R&B. Tão conhecedor que entendeu por si próprio que podia adicionar a esse cabedal sonoro da música negra a psicodelia sixtie e potencializá-la. Foi quando tudo se transformou.

Admirador de Sly Stone, Jimi Hendrix e Frank Zappa, Clinton tirou deles os principais elementos para formar seu combo psychofunk Parliament-Funkadelic, as duas bandas que comanda simultaneamente desde 1970. Seja como Parliament (via de regra, mais dançante e festiva) ou Funkadelic (mais psicodélica e pesada em geral), o que prevalece, independente do nome, é a alta criatividade (sorvida a base de muita maconha) e as preciosas e numerosas contribuições de músicos gabaritados – como Bootsie Collins, Bernie Worrell, Maceo Parker, Rick Gardner e os irmãos Brecker –, alguns dos mais de 50 que o ajudaram a criar uma linguagem musical e estética próprias. Uma verdadeira cultura lisérgica e freak, que se disseminou para além da música, virando HQ, desenho animado, filmes, brinquedo e toda uma gama de produtos excêntricos.

Em seu universo de extraterrestres, naves espaciais, seres mitológicos e criaturas monstruosas, “The Clones of The Doctor Funkenstein”, da Parliament, que completa 50 anos de lançamento, é um perfeito exemplar. O título, que inventa um Prometeu negro maligno e cheio de groove (assim como o próprio Clinton), já da a noção dessa mistura catalisadora e liberta de preconcepções. E Clinton puxa um pouco de cada um daquelas suas principais referências. De Sly, a liberdade de adicionar a soul a psicodelia da contracultura, inclusive subvertendo o apartheid do meio musical de então ao convocar brancos para fazer música de preto. De Hendrix, por outro lado, além da lisergia e da extravagância, vinha a liberdade de reivindicar para si o peso das guitarras do rock – afinal, foram os pretos que o inventaram. De Zappa, por fim, a liberdade de misturar sem receio jazz, rock, soul e avant garde, bem como a proficuidade de se permitir produzir muito sem perder a qualidade. Para se ter ideia, além de “Clones...”, pela Funkadelic ele lançava naquele mesmo ano dois outros excelentes álbuns: “Hardcore Jollies” e “Tales of Kidd Funkadelic”. De 1970 até aquele ano, juntando as duas bandas, já se somavam 11 discos fora estes, uma média de mais de dois álbuns anualmente.

Boneco do Dr. Funkenstein
“Clones...”, quinto da discografia da Parliament, mostra um grupo perfeitamente afiado em conceito e sonoridade, além de trazer um verdadeiro alter-ego de Clinton na figura desse “Prometeu Negro”. Tem funk melódico, dançante, romântico, chapado, Tem rock, jazz, R&B, soul. Coros, vocais solo. Arranjos de metais inspiradíssimos. De um tudo num dos álbuns mais diversificado de Clinton & Cia. O começo é com uma sinistra e ao mesmo tempo engraçada apresentação, com a fala de uma voz grave e demoníaca (“Era uma vez o Funk/ Nos dias dos Funkapus/ O conceito de Afronautas especialmente projetados/ Capazes de funkatizar galáxias”) tal a do ator William Marshall como o personagem do filme blackexplotation “Blackula”, e que também inspiraria a famosa voz de Jack Palance em “Thriller”, de Michael Jackson. Em seguida, entra "Gamin' On Ya", um exercício quase instrumental com seu riff de teclados oriental e um excelente arranjo de metais assinados por Worrell, tecladista, compositor e um dos grandes parceiros musicais de Clinton.

Segundo maior sucesso comercial da banda, a música “Dr. Funkenstein”, que chegou ao 43º lugar na parada pop Billboard, trava um diálogo entre criador e criatura quando Clinton conversa com a voz esganiçada do conclamado “Rei do Funk”. Destaca-se, já de cara, o som do baixo de Bootsie, célebre egresso da banda de James Brown e um dos mais ativos integrantes da Parliament-Funkadelic. Além disso, é impagável o coro cantando sob as risadas esquisitas de Funkenstein: “We love to funk you, Funkenstein/ Your funk is the best/ Take my body, give it the mind/ To funk with the rest”.

Assim como a anterior, "Children Of Production", que segue no tema de Funkenstein, porém agora falando de seu diabólico filho, os exímios arranjos de metais são de autoria de outro ex-integrante do conjunto de James Brown: o trombonista e compositor Fred Wesley. Assim como o baterista Frankie Waddy – mais um ex-Mr. Dynamite –, Wesley, de formação jazzística, trazia para a Parliament a sonoridade raiz do R&B. “Getter to Know You” não deixa mentir, em que a linha de metais acompanha o belo vocal solo de Clinton.


Anúncio de TV marcando a volta do Dr. Funkenstein contra a "Síndrome do Placebo"


Se “Dr. Funkenstein” foi o segundo maior sucesso da Parliament, “Do the Stuff” foi o grande hit, alcançando o 23º posto das paradas. Funk gostoso, daqueles de sacolejar o esqueleto. Começa com um show de bateria de Waddy, mas logo todos se apresentam: Bootsie com seu baixo inconfundível, o coro P-Funk, os sopros em frases inspiradas, a guitarra rítmica com chuggings e os teclados cheios de groove. 

Intercalando com Wesley, é Worrell quem assina os arranjos de metais das três últimas faixas. “Everything Is On The One” brinca melódica e metalinguisticamente com a repetição do verso “tudo está em um”. Nesta, a galera aproveita para soltar a voz em melismas e improvisos. Já a espetacular e sensual “I've Been Watching You (Move Your Sexy Body)” dá pinta de que vai encerrar o disco. Funk cadenciado e psicodélico, anda no ritmo de uma transa sob efeito de LSD e sem pressa para acabar aquele barato. Mas para quem achava que “Everything...” fecharia os trabalhos, ainda vem a embalada soul "Funkin' For Fun" só para dar mais cores a essa ópera-rock doidona e saborosa.

“Clones...” alcançou a posição #20 na parada pop da Billboard e se tornou o segundo álbum do Parliament a ser certificado disco de ouro. Assim como este, outros trabalhos do combo P-Funk também foram altamente influentes, como “Maggot Brain”, "Mothership Connection", “Uncle Jam Wants You”, “Funkentelechy vs. the Placebo Syndrome” e “One Nation Under a Groove”, bem como os discos de Bootsie, do spin-off Parlet e da apadrinhada Zapp, a quem 2Pac samplearia mais tarde. E não somente ele, mas toda a geração do rap, como Snoopy Dog, Dr. Dre, Public Enemy, De La Soul e LL Cool J. Mas não só: roqueiros como Red Hot Chilli Peppers e Living Colour, por exemplo, talvez nem existissem não fosse o pioneirismo de Clinton e sua turma. 

O reconhecimento por tudo isso um dia deveria vir. E veio. Em 2012, a Parliament-Funkadelic foi introduzida no Hall da Fama do Rock and Roll. No mesmo ano, a Berklee College of Music concede a George Clinton o título de Doutor Honoris Causa em Música. Após mais de meio século de uma experiência radical na música negra norte-americana, o "cientista do funk" Dr. Funkenstein, finalmente, recebe seu diploma.

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FAIXAS:
1. "Prelude" (Bernie Worrell, George Clinton) - 1:40
2. "Gamin' On Ya" (Worrell, Collins, Bootsie Clinton) - 3:02
3. "Dr. Funkenstein" (Worrell, Collins, Clinton) - :46
4. "Children Of Production" (Worrell, Collins, Clinton) - 3:57
5. "Getten' To Know You (Garry Shider, Clinton) - 5:20
6. "Do That Stuff" (Worrell, Shider, Clinton) - 4:47
7. "Everything Is On The One" (Worrell, Collins, Clinton) - 3:47
8. "I've Been Watching You (Move Your Sexy Body)" (Shider, Clinton, Glen Goins) - 6:01
9. "Funkin' For Fun" (Shider, Clinton, Goins) - 5:56

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OUÇA:

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Daniel Rodrigues

O Mal

 




O Mal - REIS, Cly
giz de cêra em papel reciclado



"O Mal"
Cly Reis

sexta-feira, 30 de outubro de 2026

"O Terceiro Homem", de Carol Reed (1949)



por Zeca Azevedo

Todo produto da ação humana tem prazo de validade, é histórico e desaparecerá um dia, assim como a própria humanidade. Só que alguns produtos têm duração maior que outros porque desvelam de modo definitivo os vícios e as ocasionais reações morais a eles comuns a toda experiência humana. "O Terceiro Homem", filme de Carol Reed com roteiro de Graham Greene (autor do livro), foi lançado em 1949, quando o final da Segunda Guerra Mundial ainda estava exposto por ruínas de cidades bombardeadas e por populações doentes, feridas. 

O horror da guerra não acaba com a guerra. Harry Lime (Orson Welles, inesquecível) é o estadunidense responsável pela distribuição de penicilina adulterada na Viena do pós-guerra e o crime, cometido por dinheiro, faz um enorme número de vítimas, entre elas crianças. O "duplo" de Harry Lime é Holly Martins (Joseph Cotten, igualmente inesquecível), um amigo de infância do criminoso. Martins é escritor de livros de faroeste pulp que vai a Áustria por conta da promessa de emprego feita por Lime. Ao chegar na cidade, encontra um cenário de devastação material e humana e descobre os crimes hediondos do velho amigo. 

Mais do que uma história policial ou um conto moral, "O Terceiro Homem" é um retrato da ocupação de uma cidade por forças estrangeiras. Os Estados Unidos, representados no filme por Lime e Martins, são responsáveis tanto pelo horror quanto pela punição aos que o realizam. A solução estadunidense é típica de faroestes baratos. 

É um filme magnífico sobre os aspectos mais sombrios da nossa experiência, cuja força é redobrada pelo fato de ter sido feito logo depois da guerra. Mais do que tudo, é uma sucessão de imagens impactantes, lindamente fotografadas em preto e branco. A música de Anton Karas é antológica. Revi o filme agora há pouco. Continua revelador e comovente como sempre. Se eu decidir revê-lo em 10 anos, assim ele permanecerá. Dizer que é item cultural de primeira necessidade é pouco.

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"O Terceiro Homem"
Título Original: "The Third Man"
Direção: Carol Reed
Gênero: Suspense, Policial
Elenco: Joseph Cotten, Alida Valli, Orson Welles
Duração: 1h44min
Ano: 1949
País: Reino Unido
Onde assistir: Plex TV

quarta-feira, 28 de outubro de 2026

Música da Cabeça - Programa #483

 


1, 2, 3, 4. Pensando bem, temos não apenas 4, mas inúmeros motivos para comemorar pela manutenção da democracia e da civilidade nesse Brasilzão. E o MDC de hoje apresenta mais alguns deles, que são: New Order, João Gilberto, Cecil Taylor, Arnaldo Antunes, Belchior e mais. No quadro especial, outro baita motivo, que é um Cabeça dos Outros. Dizendo não aos fascistas e aos milicianos, o programa hoje, 21h, só quer saber de coisa boa na reeleita Rádio Elétrica. Produção, apresentação e "pessoal, urgente!": Daniel Rodrigues



www.radioeletrica.com