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sexta-feira, 28 de agosto de 2026

Promoção ClyBlog 18 anos "1986 - O Ano que o Rock Nacional Acertou"

 


E o grande ganhador da promoção de 18 anos do ClyBlog, sorteando um exemplar do livro '1986 - O Ano Que o Rock Nacional Acertou", foi Raphael Lima, que deixou seu LIKE 💖no Instagram e garantiu o seu exemplar desse incrível livro que celebra o rock brasileiro dos anos 80 e que conta com a participação dos dois irmãos aqui do ClyBlog, Cly Reis e Daniel Rodrigues.

Parabéns, Raphael!

Entraremos em contato para as providências de envio.


Aos demais que participaram, muito obrigado por nos acompanharem.

É sempre muito bom ter vocês conosco.


quinta-feira, 27 de agosto de 2026

CLAQUETE Especial Clyblog 18 Anos - "Uma Mulher sob Influência". de John Cassavetes (1974)


 

Um grupo de trabalhadores dentro da água ao entardecer, equipados com capacetes de obra e uniformes de borracha. Uma voz masculina grave ecoa, lírica, e é substituída por um piano melancólico que irá atravessar todo o filme, composição de Bo Harwood. A imagem quase documental serve de fundo para as letras que surgem, gigantes e azuis: "A Woman Under the Influence", que se traduz, literalmente, no título adotado no Brasil, "Uma Mulher sob Influência".

Chamou-me a atenção que um filme com esse título começasse em um cenário repleto de personagens masculinos, em um espaço de trabalho braçal. Entre os diversos fatores que fazem da obra de John Cassavetes algo genial está justamente esse deslocamento: o filme é sobre uma mulher, mas também é sobre o seu marido, sobre a vida cotidiana, sobre uma crise. Fala do universo feminino, mas tem a direção de um homem. Não se propõe a ser nada além do que é, dentro dos recursos limitados pelo baixo orçamento, com uma estética crua que lembra o cinema documental e uma história que poderia acontecer com uma familiar ou vizinha nossa.

Gena Rowlands, estrela do filme e esposa de Cassavetes, declarou que, após ler o roteiro pela primeira vez, “não conseguia acreditar que John tivesse escrito aquilo. Não quero parecer sexista, porque realmente não acredito que mulheres não possam escrever sobre homens e vice-versa. Mas eu realmente não conseguia acreditar que um homem pudesse compreender esse problema específico”. Gena via o marido distraído, aparentemente desatento ao que acontecia à sua volta em eventos sociais, a ponto de se surpreender com seu nível de atenção e sensibilidade aos conflitos humanos.

O ponto de partida do roteiro foi um pedido da própria Gena, que, depois de passar um tempo trabalhando no cinema e na televisão, sentia falta do palco. Queria interpretar uma personagem complexa, que dialogasse tanto com as dificuldades da mulher contemporânea quanto com as experiências das gerações anteriores. A peça escrita por Cassavetes, no entanto, era longa e exigente: Gena ponderou que não teria condições físicas e emocionais de interpretar Mabel noite após noite. Ainda que ele tenha trabalhado em outras possibilidades, como dividir a personagem de Mabel entre diversas atrizes, acabou transformando a peça de teatro em roteiro cinematográfico.

Mas quem teria interesse em financiar um filme sobre uma mulher de meia-idade enlouquecendo? Aliás, fontes da época revelam que os grandes estúdios recusaram o projeto porque “ninguém está interessado nos problemas das mulheres”. Diante das dificuldades de financiamento, Cassavetes e Rowlands colocaram sua segurança econômica em risco: hipotecaram a casa e recorreram a amigos e familiares. Peter Falk, ator que interpreta Nick, marido de Mabel no filme, foi decisivo. Gostou tanto do roteiro que investiu cerca de 500 mil dólares na produção, metade do orçamento estimado. Gena resumiria depois a experiência dizendo que eles não tinham dinheiro, mas tinham muitos amigos atores interessados no projeto, e todos ajudaram como puderam.

É interessante pensar que uma das grandes conclusões a que chegamos ao assistir a "Uma Mulher sob Influência" é que a família é realmente o berço de todas as neuroses. No entanto, o filme contou com grande apoio das famílias no elenco, na equipe, na garantia financeira e até mesmo como fonte de inspiração: Katherine Cassavetes, mãe de John, interpreta a mãe de Nick; Lady Rowlands, mãe de Gena, interpreta a mãe de Mabel.

Adentrando o filme, Nick é chefe de uma equipe de serviços públicos. Quando um cano de água estoura na cidade, ele telefona preocupado para sua esposa, Mabel. Eles têm três filhos pequenos — Tony, Angelo e Maria —, que ela já havia deixado aos cuidados da avó para que os dois pudessem passar a noite juntos e sozinhos. Quando Nick liga, já sabemos que a reação de Mabel pode ser ruim, e essa sensação de que algo terrível pode acontecer a qualquer momento permeia todo o filme. Momentos antes, Nick havia comentado com um colega de trabalho que Mabel “não é louca, é incomum”.

Sozinha, bêbada e entediada, Mabel caminha pela noite e chega a um bar, onde conhece o desajeitado Garson Cross. A interação é confusa: ela o trata como se já se conhecessem, em alguns momentos reclama do marido e, em outros, parece confundi-lo com Nick. Cross a leva para casa e a força a manter relações sexuais enquanto ela tenta, em vão, resistir. Na manhã seguinte, Mabel, desorientada, discute brevemente com Garson e o manda ir embora. A montagem nos confunde, pois, na sequência, Nick chega em casa com uma equipe inteira depois da noite de trabalho. Em um primeiro momento, temos a impressão de que marido e agressor se encontrarão, o que não ocorre.

Mabel prepara espaguete para todos, buscando ser uma boa anfitriã, e pergunta o nome de cada um, ainda que diversos deles já a conhecessem. A refeição é superficialmente agradável até Nick se irritar com Mabel, causando constrangimento em todos. Ela é calorosa com os convidados e parece não perceber quando está sendo inconveniente. Os amigos de Nick usam um telefonema como desculpa para sair às pressas dali.

O casal Cassavetes e Gena: roteiro escrito por ele para ela

O filme é muito hábil ao nos apresentar a vida cotidiana, o relacionamento de Nick e Mabel e a forma como ela cuida das crianças, criando uma imensa conexão entre os personagens e quem assiste. Mabel organiza um encontro entre seus filhos e outras crianças, mas o pai delas se incomoda com seu comportamento. A sequência em que Mabel dança ao som de "O Lago dos Cisnes" é uma das mais sensíveis do filme. Nela, nota-se a linha tênue entre sua tentativa de se relacionar com as crianças e uma espécie de alienação da realidade. Ela parece habitar um universo próprio e estar alheia ao que ocorre ao seu redor. Isso é resultado da construção harmoniosa de John Cassavetes, que filma em closes, movimentos fluídos de câmera na mão, dando a impressão de que tudo ali é real, e a incrível atuação de Gena Rowlands, que parece se transformar em outra pessoa.

Nick chega em casa com sua mãe, Margaret, e encontra todas as crianças seminuas, correndo descontroladamente, enquanto o pai das outras crianças, Jensen, tenta vesti-las. Nick dá um tapa em Mabel e começa uma briga com Jensen, furioso, mas Margaret os separa, e o homem vai embora com os filhos. Desesperado, Nick liga para o médico de Mabel, Dr. Zepp, para avaliar a saúde mental da esposa. Mabel fica agitada, principalmente com a presença da sogra, que a chama de má esposa e mãe inadequada enquanto Nick tenta acalmá-la. Ela se distancia cada vez mais da realidade e resiste violentamente quando o Dr. Zepp tenta aplicar uma injeção de sedativo. Convencido de que ela se tornou uma ameaça para si mesma e para os outros, o médico determina sua internação involuntária.

Abalado e incapaz de lidar com a ausência da esposa, Nick desconta sua raiva nos colegas de trabalho e leva os filhos à praia, tentando criar com eles um momento de conexão. Aqui estão alguns dos momentos mais marcantes do filme: na ausência de Mabel, Nick demonstra ser incapaz de cuidar das crianças, levando-as a uma praia fria e dando-lhes cerveja para “experimentarem”. Contudo, seu comportamento e sua sanidade não são questionados como os de Mabel.

Seis meses após a internação, Mabel retorna para casa. Nick prepara uma festa de boas-vindas e enche a casa de pessoas, mas logo todos percebem que aquele não é o momento para estarem ali e que a família precisa de privacidade. Toda a recepção de Mabel se torna constrangedora: insegura após o período de internação, ela não sabe como se comportar, enquanto o marido insiste para que todos ajam “normalmente”. Mabel parece estar pisando em ovos, cuidando de cada ação para poder rever os filhos. Todos parecem julgá-la e temem o que pode acontecer, mesmo quando seu pedido é razoável: quer que os convidados saiam para que possa ficar sozinha com a família. Memorável a cena em que Mabel pergunta ao seu pai se ele irá lhe dar suporte, e ele se levanta, como se compreendesse a frase de maneira literal. É como se fosse impossível para os outros entenderem Mabel.

Sozinha com Nick, a crise mental e a tensão aumentam. Mabel tenta se ferir e Nick reage com violência. As crianças procuram protegê-la e reafirmam seu amor pela mãe. Depois da crise, Mabel e Nick cuidam dos filhos, tratam o ferimento dela e arrumam silenciosamente a casa, retomando a rotina familiar.

O final é emblemático e possibilita diversas interpretações. Pode representar uma reconciliação, na qual os dois dão uma trégua aos conflitos, ocultam os vestígios da crise e tentam retornar à rotina. Mabel não está necessariamente recuperada, mas volta a desempenhar os papéis de dona de casa, mãe e esposa, dentro de uma realidade que lhe é imposta. Ao mesmo tempo, ela e Nick arrumam a casa juntos como quem deseja restabelecer a ordem das coisas, porque se amam e querem que tudo dê certo. Minha interpretação reúne um pouco de cada uma dessas possibilidades, mas parte, principalmente, da ideia de que a normalidade também é uma performance: os dois se esforçam para desempenhar os papéis que lhes foram impostos e manter a família funcionando. A influência a que o título se refere manifesta-se justamente nessas expectativas que determinam como Mabel deve agir, sentir e amar. Também aprisionam Nick em sua necessidade de controlar e preservar uma ideia de felicidade familiar.

No período em que começaram a pensar o filme, Cassavetes e Rowlands já viviam havia mais de uma década as pressões da parentalidade. Naquele momento, tinham em casa um adolescente, uma menina em idade escolar e uma criança de apenas dois anos. Permaneceram casados até a morte de Cassavetes, em 1989, totalizando cerca de 35 anos juntos. O filme, portanto, não nasceu no começo de uma paixão ou de uma colaboração recente. Foi feito por um casal que já atravessara quase duas décadas de vida em comum, três filhos, períodos de dificuldades financeiras e várias experiências cinematográficas compartilhadas.

Em determinados períodos do casamento, Cassavetes permaneceu em casa cuidando das crianças enquanto a esposa trabalhava como atriz. Penso que, ainda que tenha sido uma experiência temporária, a percepção da solidão, da repetição e do que significa doar seu tempo e sua vida a alguém também tenha ajudado a construir o roteiro.

Em uma entrevista, Cassavetes definiu a obra como um filme sobre pessoas lutando, vivendo, passando por dificuldades e humilhações. Sua ideia era discutir o quanto é preciso pagar pelo amor: “Eu sabia que o amor criava, ao mesmo tempo, um grande momento de beleza e, por outro lado, tornava você um prisioneiro”.


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trailer de "Uma Mulher sob Influência"




por
  K E L L Y   D E M O   C H R I S T


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KELLY DEMO CHRIST é crítica de cinema vinculada à ACCIRS – Associação de Críticos de Cinema do Rio Grande do Sul e Diretora de Comunicação do Clube de Cinema de Porto Alegre. É formada em Cinema e Audiovisual pela Universidade Federal de Pelotas (UFPel) e mestre em Comunicação pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS). Atua também nas áreas de fotografia e montagem audiovisual, com experiência em televisão, plataformas educacionais, redes sociais, publicidade e mídias digitais. Publica esporadicamente suas críticas no site Cinema de Porão.




COTIDIANAS Especial 18 anos do ClyBlog - O Conto Nunca Escrito *




Era um escritor que não conseguia escrever.
Não conseguia.
Uma crônica, um conto, uma página, um capítulo, um livro. Nada.
Inspiração, tema, criatividade, bloqueio? Vá lá saber. Não conseguia. E o pior é que seu editor, seu agente, a editora, todos estavam na sua cola. Não paravam de cobrar.
Sentia-se pressionado, angustiado, tenso. Resolveu sair para tomar um ar, respirar ar fresco. Talvez algo
o inspirasse. 
Saiu. Entrou em bares, conversou com bêbados, paquerou umas vadias, bebeu, jogou, brigou, rolou pelas sarjetas, vomitou e quando acordou pela manhã, sabe-se lá como, estava em casa, em sua cama.
Levantou-se, foi ao banheiro, deu uma boa mijada, pegou do criado-mudo uma garrafa de uísque quase vazia, sentou-se na beira da cama e, naquele momento, como que tocado por alguma coisa que não conseguia explicar, de repente sabia exatamente o que fazer. Foi para a frente da máquina de escrever e começou:
Era um escritor que não conseguia produzir nada. Não
conseguia escrever. Simplesmente não conseguia. Uma crônica, um conto, uma página, que fosse. Nada. Falta de inspiração, bloqueio? Sei lá. Não conseguia. E o pior é que seu editor estava na sua cola. Não parava de ligar. O tempo todo.
Sentia-se pressionado.
Mas não adiantava ficar ali parado diante da máquina de escrever. Tinha que fazer alguma coisa.
Resolveu que precisava tomar um ar, respirar ar fresco. Talvez algo o inspirasse, ainda que não acreditasse nessa frescura de “inspiração”.
Saiu. Era uma noite como outra qualquer, daquelas que não têm nada de especial. Nem muito vento, nem muito calor, nem muita gente na rua, nem muitas putas, nem muitos mendigos, nem muitas sirenes, nem nada. Entrou em alguns bares, conversou com um monte de gente, bebeu, deu em cima da mulher de um cara, brigou, bateu, apanhou, bebeu mais, foi jogado pra fora de um boteco, apagou, rolou pelas sarjetas e quando acordou pela manhã, sabe-se lá como, estava em casa, em sua cama todo sujo de vômito.
Levantou-se, foi ao banheiro, tirou a roupa imunda e tomou uma ducha. Depois de uma boa cagada, foi à cozinha e pegou uma cerveja. Sentou-se então na velha poltrona carcomida e esfarrapada e, como que
tocado por algo divino, teve certeza do que deveria fazer naquele instante. Sentou-se então em frente ao computador, mas quando ia começar a escrever, o telefone tocou. Diabos! Por certo devia ser ele. Aquele desgraçado. O editor.
Atendeu.
Não era.
Era Pam.
- Ei, gatão!
- Ei, baby.
- Liguei pra saber se você quer que eu vá até aí. A gente podia fazer um amorzinho gostoso.
- Bom, Pam, na verdade, eu ia começar a escrever agora.
- Mas você mesmo disse que não consegue escrever, tá com bloqueio, falta inspiração ou alguma frescura dessas.
- É, mas exatamente agora, quando parecia que eu ia conseguir, você ligou e me interrompeu.
- Quer dizer que eu só te atrapalho? - perguntou claramente irritada.
- Eu não falei isso...
- É, não falou mas quis dizer isso. Eu sei. - agora já aos gritos - É assim, eu sou um estorvo, uma pedra no seu caminho, um...
- Não é nada disso, baby. Na verdade você me faz muito bem.
Acho até que eu vou escrever melhor ainda depois de ver você.
- Você está falando sério? – quis confirmar, acalmando-se.
- Tô sim, tô.
- Eu posso ir aí, então?
- Claro, vem. Tô te esperando.
- Chego aí em quinze minutos – e desligou.
Droga! As coisas que um cara tem que fazer para não magoar as mulheres.
Não era apaixonado por Pam. Era uma garota legal. Tinha dessas paranoias de vez em quando de estar atrapalhando, de ser um problema para os outros e tal, mas tirando isso era boa gente. Gostava de sua companhia. Isso sem falar nos peitões. Que tetas! Grandes, fartas...
Mas era melhor parar de pensar nos peitos da Pam e retomar o trabalho. Aproveitaria que ela só deveria chegar dali a uns quinze, vinte minutos e, pelo menos, lançaria alguma coisa inicial, um esboço.
Mas e alguma ideia agora? Parecia que aquele momento de criatividade havia sido uma breve iluminação, uma espécie de brincadeira de Deus, se é que Deus existe.
Estava travado de novo. Odiava ser interrompido quando escrevia. Era como se as coisas, assim, puf!, se desvanecessem no ar. E aquela puta da Pam... Tinha que estragar tudo.
Bom, era reorganizar a mente e tentar recomeçar.
Tinha que produzir alguma coisa. Não era possível! O que o impedia? Vamos lá, é uma letra depois da outra, uma palavra depois da outra, uma frase, um parágrafo, uma página, vamos, vamos. Mas o quê?
Podia escrever sobre um escritor que não conseguia escrever, que saíra à noite pra respirar e conseguir inspiração mas acabara entrando em bares, enchendo a cara, se metendo em brigas e, quando se dava conta, acordava em casa pela manhã todo vomitado em sua cama. Aí o cara tomava um banho, dava uma cagada e de repente tinha aquele brilho pra escrever. Sentava então em frente ao papel em branco e quando ia começar o telefone tocava. Era sua namorada ou noiva ou amiga ou amante querendo saber se ele estava a fim de uma trepadinha. Ele até estava, mas a hora era imprópria. Argumentava para a garota que estava tentando escrever, que seu editor até já lhe ameaçara caso não entregasse alguma coisa e que a ligação quebrara sua concentração. Ela se sentiria desprezada, ofendida, discutiriam rapidamente e no fim das contas, para não magoá-la, ele aceitava que ela fosse ao seu encontro. Ela demoraria um pouco para chegar, o que seria tempo suficiente para o cara dar uma partida no trabalho, a não ser pelo fato de que a ligação e toda aquela interrupção o haviam feito perder a linha de raciocínio e voltar à estaca zero. O cara então tentava reorganizar as ideias, botar os pensamentos em ordem. Aí a campainha da porta tocava. Devia ser ela.
- Ei, seu safado! - foi o que escutou assim que abriu a porta sem ver quem era.
Era o editor.
- Oi, Tom.
- “Oi”? É tudo o que você tem pra me dizer? Você tá a fim de foder comigo? Sabe há quanto tempo eu estou esperando aquele seu material novo, sabe?
- É, um bocado de tempo, eu sei.
- E então?
- Eu estava meio... bloqueado, sem inspiração, sei lá.
- Inspiração? Inspiração? - aos gritos - Você deve estar de sacanagem comigo, só pode. Frescura, pura frescura é isso que essa palhaçada de inspiração é. Frescura.
- Tá bom, Tom, tá bom. Mas eu já tô fazendo alguma coisa.
Comecei alguma coisa hoje.
- Hoje? Só hoje que você foi começar? Você deve estar de brincadeira.
- Não, hoje é modo de dizer, faz alguns dias – argumentou, tentando acalmar o editor.
- E o que é? É coisa boa? - perguntou interessado.
- Acho que é bom, escuta só: era um escritor que não conseguia escrever nada. Tava com bloqueio, falta de inspiração ou alguma frescura dessas. O cara resolve sair pra tomar umas, ver gente, conversar, arranjar algum assunto pra escrever o livro dele. O cara vai de bar em bar, bebe pra caramba, arranja umas confusões, briga, apanha, apaga e acorda só no dia seguinte, em casa...
- Como é que ele vai para em casa? - interrompe o editor.
- Isso não interessa agora, Tom. Escuta. O cara acorda em casa na própria cama, todo vomitado e com o olho roxo. Ele vai ao banheiro, dá uma cagada, toma um banho, cuida do olho e de repente parece que toda aquela situação tinha despertado uma coisa nele.
- A porra da inspiração – interrompeu o editor novamente.
- É alguma coisa assim, mas não me interrompe, Tom. Eu perco a linha de raciocínio.
- Tá bom. Segue. Vamos ver onde essa coisa vai chegar.
- Bom,... onde é que eu estava mesmo?
- Na inspiração.
- Ah, é. A inspiração. Bom, aí quando o cara achava que ia conseguir escrever, botar as coisas no papel, o telefone tocava. Era a ex-mulher dele querendo saber se podia ir lá, na casa do cara, conversar.
- Conversar? Conversar? Conversar não vende. Faz a namorada, amiga, amante, sei lá, uma vadia qualquer ir na casa do cara foder com ele ou algo do tipo. Uma com tetas grandes. Os leitores adoram tetas grandes.
- Tá bom, pode ser – concordou o autor só para poder continuar a contar sua história – Então a tal mulher, essa peituda, queria dar uma passadinha lá pra dar uma trepada, uma chupada, que fosse, mas o
cara alegava que não era um bom momento, que estava tentando escrever e que pela primeira vez em muito tempo algo lhe vinha à mente.
- Esse escritor do teu livro era bicha?
- Não, ele só não queria perder o momento, o brilho, mas você vai me deixar contar ou não?
- Continua, continua. Vai.
- Ela ficava chateada achando que na verdade o cara nunca gostara dela mesmo e aquele drama que toda a mulher faz, aí o cara amolecia, pedia meia dúzia de desculpas da boca pra fora e concordava que
ela o visitasse. Como ela combinara chegar em quinze, vinte minutos, aproveitaria aquele tempo vazio pra dar uma adiantada no trabalho. Mas aí...
- Aí o que? - perguntou verdadeiramente curioso o editor.
- Puf! A ideia desaparecera. O telefonema, a discussão, os peitos, a interrupção o tinham feito perder o fio da meada. Perdera tudo.
- Não, não. Agora sim, você só pode estar querendo tirar sarro da minha cara. Você me faz ficar aqui te escutando, perdendo meu precioso tempo, fica horas nesse bla bla bla todo pra no fim o cara não ter ideia nenhuma?
- Calma, Tom, eu ainda estou desenvolvendo. Senta aí, senta – disse apontando para uma poltrona velha e desfiada – Quando você chegou eu estava exatamente na parte que o cara tenta botar a cachola em ordem de novo, tenta recuperar a ideia. Mas aí batem na porta.
- Quem é?
Ninguém responde.
Batem novamente. Mais forte. Com mais insistência. Não devia ser a Pat ainda, não havia se passado nem dez minutos desde que ligara. Devia ser o editor. Puta merda. O cara cobraria de novo aquele material e tudo o que tinha era uma ideia inicial, um esboço.
Supondo ser quem imaginara que fosse, com confiança, foi abrindo a porta, sem espiar quem era, e já dizendo:
- Ei, Theo, desculpe mas...
Não era o editor.
Parado no lado de fora, à soleira, estava um cara. Um cara enorme, um armário, um gorila de terno preto e óculos escuros. Um cara grande mesmo, de verdade.
- Posso ajudar? -perguntou o escritor com um misto de
curiosidade e desconfiança.
- Com certeza pode. – respondeu o grandalhão com um sorriso ameaçador no canto da boca.
- Você é...? - deixou a interrogação aberta para que fosse completada, no fundo, temendo pela resposta.
- Eu diria que sou seu anjo-da-guarda. - sorriu novamente e complementou - Fui enviado pra lhe trazer um pouco de inspiração.
E foi entrando empurrando o escritor para dentro de sua própria casa.
- Ei, calma aí! O que você acha que está fazendo?
- Só vim dar uma refrescadinha na sua memória pra você lembrar que tem um compromisso de entregar um livro. – disse o gorila erguendo o escritor pela camisa.
- Ei, ei...
- Mas não se preocupe, – como se sua frase seguinte pudesse tranquilizasse alguém – não vou machucar muito nem sua cabeça pra você poder pensar em alguma história, nem seus dedos pra você poder
datilografar.
E a última coisa que ouviu antes do soco foi:
- Com os cumprimentos de Theo D'Angelo.
Apagou.
Só acordou no dia seguinte em sua cama com o corpo todo dolorido e com um olho roxo.
Levantou-se com dificuldade, foi ao banheiro, jogou uma água na cara, olhou o próprio rosto no espelho e sorriu para o homem com olho roxo que o encarava. 
Pela primeira vez em meses sabia o que tinha que fazer. 
Foi à cozinha, pegou uma garrafa já aberta de vinho, um copo e tomou posto em frente à sua máquina datilográfica. O telefone tocou, tirou do gancho e deixou o fone sobre a mesa sem atender. Tocaram a campainha da porta, respondeu num grito, “Não estou”.
Colocou um papel em branco na sua Clark-Nova, deu um gole do vinho e, sem titubear, como se tudo tivesse estado o tempo inteiro dentro de sua cabeça, começou:
Era um escritor que não conseguia escrever...


🕮🕮🕮🕮🕮🕮🕮🕮🕮🕮🕮🕮🕮🕮

O Conto Nunca Escrito
Cly Reis
* conto inédito no ClyBlog, até então publicado apenas 
na antologia "Big Buka - Para Charles Bukowski", 
por conta de direitos de publicação

quarta-feira, 26 de agosto de 2026

Música da Cabeça - Programa #474

 

Quem disse que super-herói não existe?! Que o Homem-Aranha combatia os criminosos se sabia, mas que ele metia a porrada em supremacista branco é novidade! Enchendo a mão contra esse imbecis, o MDC veste sua fantasia e aciona os superpoderes de Rufus & Chaka Kahn, Nelson Sargento, The Velvet Underground, Marisa Monte e mais. O bloco especial, Cabeção, traz ainda a compositora e pianista mexicana Consuelo Velasquez. Cada vez mais fãs do Spider-Man, temos nosso programa hoje, 21h, na confrontadora Rádio Elétrica. Produção, apresentação e super-força: Daniel Rodrigues



www.radioeletrica.com

terça-feira, 25 de agosto de 2026

"Grão", de Gianluca Cozza e Leonardo da Rosa, e "Banho Maria", de Gabriel Faccini (2026)


O mundo está acabando

Nei Lisboa diz em uma de suas reflexivas canções: “Alguns edifícios por dia/ Desabam dentro da avenida/ E salva-se a filosofia”. Entendidas metaforicamente, estas “edificações” podem muito bem representar aquilo que erguemos como padrões temporais para o ser humano em sociedade. E que está desabando, acabando-se. Antes sólidos, inabaláveis; hoje, contestados, ressignificados. Em crise. Isso serve tanto para os arquétipos filosóficos de jovens tanto homens quanto de mulheres, algo muito bem percebido por curtas-metragens da nova safra do cinema gaúcho exibidos na Mostra Assembleia Legislativa de Curtas-Metragens Gaúchos durante o 54º Festival de Cinema de Gramado, ocorrido entre 12 e 22 de agosto.

Mais propriamente, os filmes com esse olhar imersivo são “Grão”, da dupla rio-grandina Gianluca Cozza e Leonardo da Rosa, o principal premiado da mostra competitiva, e o não menos instigante “Banho Maria”, de Gabriel Faccini. O primeiro, uma crítica mordaz da masculinidade tóxica. O segundo, uma reflexão existencial do lugar da mulher na sociedade capitalista – e essencialmente machista. Cada um a sua forma, ambos os filmes põem em questionamento estes padrões arraigados – e caducos – do que é (ou deve ser) homem ou mulher, como se, para ser um ou outro, tenha-se que seguir uma cartilha que já não existe mais. Ambos, mesmo em situações distintas, em determinado momento trazem dita a mesmíssima frase: “O mundo está acabando”.  

“Grão”, em especial, pode-se considerar o melhor curta-metragem da temporada (quiçá, o melhor filme gaúcho entre todos do ano). É o aprimoramento do trabalho de Cozza e da Rosa e da produtora Saturno, coletivo que vem realizando produções na mesma linha há alguns anos com grande contundência e assinatura estilística. No primeiros deles, o belo documentário “Construção”, de 2020, sobre uma mãe de família despejada de sua casa e reconstruindo a vida, já se percebia um olhar distinto sobre questões sociais e existenciais por meio de um hibridismo entre documentário e ficção. Porém, foi em “Madrugada”, de 2022, e, logo após, mais transversalmente, “Cassino” (2024), que a dupla adentra no (sub)mundo da sua Rio Grande, cidade portuária com oportunidades mas geradora de um “cinturão” de subempregos ocupados por jovens desqualificados para o que o sistema exige.

trailer de "Grão"

Metais, fumaça, máquinas opressivas e ensurdecedores ruídos industriais imperam sobre um ambiente escuro, de luzes funcionais e impessoais em que os braços fortes não têm capacidade de controlar os sentimentos da vida. Numa fotografia metalingusticamente granulada, edição fragmentada e uma câmera ora atenta a um fato, ora meramente observadora, os personagens masculinos, representados na figura de Leandro, magistralmente interpretado por Leandro Gomes, iludem-se com seus carros possantes, suas músicas altamente insinuantes, seus músculos fabricados e com meia dúzia de notas em dinheiro para aplacar os desejos sexuais. Nada disso mais é suficiente. A transa com a garota desejada, a venda da “caranga”, a curtição com os “bróder”: tudo termina descartado, encalhado, abandonado. Como o antigo barco na praia do Cassino, como os grãos de soja sobrados na beira do mar, como o carro atolado na areia da praia. Como ele mesmo, depois de uma noite de porre e solidão, afundado na terra. Um grão de volta a seu ciclo para poder voltar a existir.

Não apenas o júri principal da Mostra Assembleia Legislativa, que lhe deu três premiações, entre estas, a de Melhor Filme, a Associação de Críticos de Cinema do RS (Accirs) também concedeu o Prêmio da Crítica. Em sua justificativa, a Accirs escreveu: "Por tratar da masculinidade sob uma ótica crítica, com humor e densidade; por tornar um território em crise um personagem central do filme; por deixar transbordar solidão, melancolia e desejo com domínio de recursos visuais e sonoros; a ACCIRS reconhece mais um passo na trajetória investigativa do grupo de realizadores neste universo e premia o curta-metragem 'Grão'". Antes, o filme já havia sido escolhido para a 9ª Mostra Sesc de Cinema – Circuito RS e ganhado o Festival de Tiradentes, em Minas Gerais, o que o tornou apto a concorrer pelo Brasil ao Oscar de 2027, mostrando que a turma da Saturno está madura para, agora, encarar o primeiro longa-metragem. Que venha, pois deverá ser coisa boa.

Construído a partir de outras premissas e escolhas narrativas, “Banho Maria”, embora não tenha levado nenhum prêmio em Gramado – é, igualmente a “Grão”, um dos 14 selecionados da Mostra Sesc desse ano –, é de uma contundência mais sensível, mas não menos branda. Em uma manhã de calor escaldante, uma mulher, Maria (Silvana Rodrigues), decide faltar ao trabalho e aproveitar o dia num parque aquático para refletir sobre si, quando encontra um menino, que está de aniversário, o qual, indiretamente, ajuda-lhe e sua busca interna.

Ao transformar o ambiente do parque aquático em um cenário quase surreal a partir de seus enquadramentos, temperatura de foto e até de efeitos especiais (pequenos, mas muito bem feitos), o filme de Faccini compartilha com o espectador o autoquestionamento da vida de uma jovem preta e trabalhadora de classe média, um dos principais alvos da estrutura misógina e machista da sociedade brasileira, ainda mais por ser uma mulher fora dos padrões estéticos.

teaser de "Banho Maria"

De roteiro eficiente e diálogos idem (são impagáveis as conversas entre a protagonista e o pequeno Alisson, vivido por Lukas Rodrigues), “Banho Maria” reflete esse lugar do feminino preto em um Estado que nega a existência e a contribuição de sua população negra. O espectador é informado parcialmente das inquietudes existenciais de Maria, praticamente apenas a questão da contrariedade dela quanto aos próprias rumos profissionais. Porém, ficam subentendidos propositais “três pontos”, como se, ao mexer nessa estrutura sufocante de sua vida, outros aspectos também haveriam de ser desencadeados.

Estes dois curtas gaúchos convidam o espectador a um movimento de submersão interior simbólico da figura materna, seja um mergulho na água (útero) ou na terra (vida). Se em “Grão” a estranheza se revela pela surpresa da solidão masculina, em “Banho Maria” é a reação (sub)consciente feminina diante de sua realidade opressiva que permite um imergir diferente, mesmo que em “banho maria”, ou seja, ainda em processo de elaboração. Uma tentativa de mergulho em si mesma, nas verdades da personagem mulher e não um enterrar-se na areia como um bicho acuado (Leandro, de "Grão"). Seja pela crítica ou pela revelação, ambas as obras mostram que os valores desgastados daquilo que se entende por ser humano, seja homem ou mulher, já não se sustentam mais. O mundo está acabando, edifícios desabam dentro da avenida. É preciso rever suas bases para chegar a verdades interiores pouco acessadas, mas essenciais para um renascimento. E salva-se a filosofia.

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Daniel Rodrigues

sábado, 22 de agosto de 2026

ÁLBUNS FUNDAMENTAIS Especial Clyblog 18 anos - The Cure - "Wish" (1992)

 



“Wish”, A Prova Final de Quem Não Precisava Provar Mais Nada Pra Ninguém




“...eu amo The Cure. 
Não parece porque todo fã do The Cure 
se parece com o Robert Smith”
Noel Galagher, do Oasis





Se tem uma coisa que me estressa bastante é ter que esperar. Esperar em fila de mercado, nem se fala. Por isso, costumo sempre andar com meu telefone musical. Sim, aquele cachorro que não vai te abandonar quando você mais precisa. E eu só o uso para isso: ouvir música.
Outro dia eu estava no mercado, com meu inseparável amigo telefone. Daí, no decorrer da música, eu entrei no modo máximo do transe, como se tivesse baixado uma entidade sobrenatural em mim. Quando eu voltei do transe, praticamente desorientado, me dei conta de que uma garota que trabalha nesse mercado estava com os olhos fixos em mim, como se quisesse entender o que estava acontecendo. Foram dois flagras: ela comigo, e eu com ela. E é justamente disso que vou falar por aqui: que música eu estava ouvindo? De onde ela veio? Calma! Já vou falar. 
Ah! O que falei não é uma “estória”, mas uma “história”, ok?
Rolou mesmo!
Quem gosta de música sabe que, por mais que uma banda ou artista solo seja grande e longeva(o) ele pertence a um tempo, uma época. A banda The Cure é assim. Pensando em anos 80, não tem como pensar em música pop ou rock sem mencionar essa banda. Sobretudo na Inglaterra. Mas a grande questão é que se trata de uma banda que está em atividade até hoje, ainda bem. Mas, talvez pelo fato do rock ter tido um ponto de inflexão fortíssimo no  início dos anos 90 com a chegada do grunge, e tudo o que ele influenciou, esse disco do The Cure seja tão pouco citado quando o assunto é a banda, e muito menos quando o assunto é anos 90. Estou falando do álbum “Wish”. Na minha opinião, um dos melhores álbuns da banda, infelizmente, bastante ofuscado.
A banda é muito associada ao Gótico, sobretudo pelo visual do Robert Smith, como brincou Noel Gallagher (“...eu amo The Cure. Não parece porque todo fã do The Cure se parece com o Robert Smith). Claro que tem razões para isso. A banda lançou uma trilogia consagrada (trilogia sombria: "Seventeen Seconds" (1980), "Faith" (1981) e "Pornography" (1982),
fora "Disintegration"
 (1989) que segue essa linha e é considerado por muita gente o melhor trabalho da banda. Acontece que até aquele momento, o Robert Smith, principal compositor da banda, já havia provado que sua qualidade e capacidade artística era bem mais ampla e diversificada.
Não à toa, o álbum "The Head on The Door" (1985) também é considerado um dos melhores álbuns da banda, com uma diversificação musical bastante evidente. Aí, em 1992, quando a banda já completara 15 anos de vida, “Wish” se apresentou como um trabalho que mostra quais pedras compõem as possíveis imagens do caleidoscópio musical The Cure.
Sendo honesto, conheci parte do repertório do álbum pelo “Show”, um ótimo registro ao vivo, gravado áudio, em 1993 (tenho minha fita VHS até hoje, toda esfolada de tanto que eu assisti e emprestei. Trabalho Ótimo!). Tanto que demorei assimilar as algumas desse álbum na versão de estúdio. Mas quando ouvi o trabalho todo, amei o resultado.
Uma das coisas que me fascinam nesse álbum é a sua mixagem. Ele tem o som ótimo. Até hoje acho um álbum super agradável de ouvir, sem soar datado ou cacofônico. Outra coisa bacana é que o repertório do álbum que fica muito bom ao vivo também.
Mais do que falar do álbum, faixa por faixa, acho importante destacar justamente isso: a banda The Cure tem sua identidade musical. Uma delas é que a banda que teve a sorte de ter um vocalista com uma voz tão marcante, e que continua ótima, apesar do corpo sempre demonstrar algum desgaste ao longo do tempo. A voz do Robert continua viva e juvenil, marca registrada do cantor. Mas ela não é uma banda gótica, não é uma banda post punk, não é uma banda new-wave, não é uma banda alternativa, nem mais o que for. The Cure é uma banda que, como poucas, sabe misturar essas características, e até outras (Jazz, Música Cubana) e ser a banda que é. Nesse sentido, “ Wish” é um trabalho que mostra o que é essencial para entender musicalmente a banda. Uma coisa bacana do disco é a distribuição dos vários
estados dentro álbum. É como se fossem “quantas” (pacotes de energia), bem distribuídas ao
longo do álbum. Eu diria que esses blocos seriam “Apart”, “Trust”, “A Letter To Elise” e “To Wish Impossible Things”; “Open”, “Cut”, “End” e “Front The Edge Of The Deep Green Sea”; “High”, “Wendy Time”; “Doing The Unstuck” e “Friday I’m Love”, quebrados, claro. Como hoje é bem mais fácil fazer uma playlist, talvez algumas pessoas até prefiram ouvir o álbum assim, por que
não?
Beleza então, vamos de bloco 2. “Open”, uma canção que parece ter nascida para abrir shows da banda. Na versão ao vivo, ela tem uma introdução linda chamada “Tape” que abre caminho para a versão de estúdio. Apesar de ser uma canção atípica para as características da banda, ela soa com um grito de aviso: Chegamos! Estamos aqui! Somos a cura! Baixo pra cima, marcado, o meio, aquele que conduz a canção, uma das características marcantes da banda. “Cut”; eu simplesmente amo essa canção. Sem gracinha, direta, com andamento rápido e bastante pegada. Simplesmente a cocaína do álbum. Bem, se a cocaína não te bateu bem, que tal um LSD? Sim, pois “Front The Edge Of The Deep Green Sea” é uma viagem de entorpecedora. Como uma areia movediça, ela vai te neutralizando até te tomar completamente. Os segundos finais, com aquelas guitarras prolongando as notas, levando o solo ao ecstasy são arrebatadores. Me arrisco dizer que ela (ou o álbum), de alguma forma, está em “Mellon Collie and the Infinite Sadness” do 
Smashing Pumpkins. Depois que eu ouço essa canção, fico leve e pronto para outra. Se ela não for um LSD, ela é a maconha cultivada em laboratório, como no file “Beleza Americana”. Bem, falta fechar esse bloco, né?: “End”. Para mim, uma das melhores, das mais tensas e afetadas canções do Cure. É o Cure no modo máximo. Para mim, esse é bloco mais post punk do álbum, e essa canção é uma dos melhores encerramentos de álbum que já ouvi.
Convidei para a minha casa alguém nunca ouviu The Cure. Ou talvez tenha ouvido e nem sabe. Bloco 4, a carta na manga. Jogando Sueca, puxei a carta 7: “Doing The Unstuck”. Como eu amo a versão ao vivo (amo de paixão), demorei assimilar a versão de estúdio. Mas, sendo honesto, tirando o andamento, a briga fica pau a pau. Claro que a versão de estúdio é mais bem acabada, evidentemente. Além de ser uma super feliz, é um tapa na nossa cara, pois nos desafia a acreditar na vida, ter esperança, poder de reação e nunca se deixar abater pelas circunstâncias. Parece um dialogo entre o “Lippy” (o leão) e o “hardy” (hiena), no clássico desenho da 
Hanna-Barbera. Claro que deu leão na cabeça! 
E se o jogo ainda não está ganho, coloque o às na mesa. Sim! “Friday I’m Love” é uma canção imbatível. Até meu primo pagodeiro gosta dessa canção. Não pode faltar em nenhuma festa que se preze, e todos que a ouvem costumam se apaixonar perdidamente. Brincadeiras a parte, é uma canção perfeita. Melodia, harmonia, arranjo e canto. Tudo funciona nessa canção. Pensei que o Robert Smith não conseguiria fazer outra canção a altura de “Just Like Heaven”. Ok, Robert Smith. Você ganhou o jogo. Estava com o às na mão o tempo todo.


the cure - "friday i'm in love


Você acordou cedo no feriado, por incrível que pareça. Você não está tão feliz, pois sabe que vai ter que voltar a rotina no dia seguinte, mas também não está triste já que está em casa. O bloco 3 está na mesa. Feliz por poder mastigar o seu sanduíche sem ter a sensação de estar atrasada(o), “High” te deixa super bem, relaxada(o) e feliz ao ponto de você deixar algum pedaço de sanduíche para o cachorro, por mais delicioso que ele esteja. Depois rola “Wendy Time”. Fofa até o osso, ela pode te deixar com uma sensação tão boa que é capaz de você deixar de sentar no sofá e pensar na vida, só para cumprir a promessa de levar seu cachorrinho para passear durante o dia, sem ser final de semana ou domingo.
Mas, claro, deixei a parte triste para o final. Tem alguma coisa de alegre em estar numa fila de mercado em pleno domingo? Então, se é para sofrer, bora sofrer com dignidade. Uma das características mais aclamadas pelos fãs e críticos. 
Cadê o bloco 1? Bora de melancolia e tristeza. “Trust”. Só existe uma combinação perfeita para essa canção: o silêncio. Imersiva, hipnótica. Ela é super ‘Desintegration” e simplesmente apaixonante. Saindo dela, a coisa fica ainda mais barra pesada. “Trust” é tristíssima. Daquelas canções que nem é bom ouvir quando se está com uma sensação de ausência ou perda de alguém. É uma das canções em que o Robert Smith dá uma aula sobre como comover usando uma canção. E para finalizar, “A Letter To Elise”. Não tão triste como as outras desse bloco, mas igualmente down, porém como uma pitada de doçura como se uma cicatriz ainda doesse mas estivesse no caminho de ser curada. Ela me liberta de qualquer lugar insuportável, inclusive uma fila de mercado. Esse é o bloco mais “Disintegration”. Certamente com canções amadas pelos fãs. Bem, talvez olhando por essa perspectiva dê para ficar mais claro as características desse trabalho que, na minha opinião, é um dos melhores trabalhos da banda. Certamente está no meu Top 5, sem sombra de dúvidas. Se eu tivesse que apresentar a banda The Cure para alguém, bateria um bom papo com a pessoa, e pediria para ela ouvir esse trabalho com atenção, pois ele é bem gravado, o que ajuda a assimilar melhor as canções, e porque é um mapa para entender as características mais marcantes e fantásticas da banda: doçura, melancolia, tristeza e alegria (e um pouco mais, claro). The Cure tem todos esses anticorpos para te curar de qualquer mal sintoma. É uma vacina em forma de boa música. The Cure!



por  J A I R O   A L LO N E




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f a i x a s:
1. open
2. high
3. apart
4. from the edge of the deep green sea
5. wendy time
6. doing the unstuck
7. friday i'm in love
8. trust
9. a letter to elise
10. cut
11. to wish impossible things
12, end


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ouça:
The Cure - Wish (1992):





JAIRO ALLONE
é um morador da cidade do Rio de Janeiro. E como o próprio nome sugere, é
uma pessoa que, “de escolha própria, escolheu a solidão”. Mestre em nada e doutor em coisa
nenhuma, teve que se graduar em Engenharia Mecânica para trabalhar na indústria, muito
distante do sonho de trabalhar com música, para desespero da mãe, quando ainda era
adolescente. Foi guitarrista, letrista e colaborador de blog. Nunca deixou de ser um
apaixonado por música (a mais reativa das artes) e toda a contribuição que a arte dá para
tentar tornar o mundo mais humano, ou pelo menos mais suportável. Vive num universo 
ool