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quinta-feira, 19 de fevereiro de 2026

“Valor Sentimental”, de Joachim Trier (2025)

INDICAÇÕES
MELHOR ATRIZ
MELHOR DIREÇÃO
MELHOR ROTEIRO ORIGINAL
MELHOR FOTOGRAFIA
MELHOR FIGURINO
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MELHOR TRILHA SONORA ORIGINAL
MELHOR DESIGN DE PRODUÇÃO
MELHOR SOM

A pior pessoa do mundo

Nos últimos anos, acompanhando a discussão e o repensar dos papeis de gênero na sociedade através de vários campos do conhecimento como a Psicologia e a Sociologia, o cinema tem trazido a figura masculina com um forte teor crítico. Nunca antes a masculinidade havia sido tão observada e, principalmente, criticada e exposta. Somente entre os filmes concorrentes ao Oscar nas principais categorias, ao menos três deles – “Bugonia”, “Hamnet: A Vida Antes de Hamlet” e “Se eu Tivesse Pernas, Eu te Chutaria” – têm protagonistas mulheres e, acima de tudo, colocam a figura do homem numa posição, se não secundária, fragilizada. Outro filme também do Oscar, no entanto, vai ainda mais fundo nesse desnudamento masculino com suas fragilidades e fraquezas: o norueguês “Valor Sentimental”, do cineasta Joachim Trier.

Hábil questionador das relações humanas, Trier volta seu olhar desta vez para a família. Se no seu filme anterior, o exitoso “A Pior Pessoa do Mundo”, ele trazia uma personagem feminina em busca interna pelo seu lugar no mundo, em “Valor...” o diretor não deixa de mirar a câmera também na mulher, não à toa a mesma atriz de “A Pior...”, Renate Reinsve. É Nora, uma consagrada atriz de teatro, que desencadeia os conflitos de toda uma rede de laços familiares e ancestrais motivada pela conturbada relação com o pai, o cineasta Gustav Borg, vivido pelo excelente Stellan Skarsgård – ator de papeis inesquecíveis (o doutor de “Dançando no Escuro”, Jack de “Melancolia”, Bootstrap Bill Turner de “Piratas do Caribe”).

O brilhante roteiro original (de Trier e Eskil Vogt) consegue contemplar todo o ecossistema dos Borg – com os ótimos flashbacks, que recontam a história familiar e seus traumas, na medida certa para elucidar esfinges do presente – sem, contudo, desviar do protagonismo feminino. Soma-se a esse enfoque, para o qual Trier demonstra ter grande sensibilidade, as personagens Agnes, irmã de Nora, e a atriz Rachel Kemp (Elle Fanning), que, por conta do filme que Gustav pretende rodar sobre a sua própria história, vai ficando, por influência nociva dele, cada vez mais parecida física e emocionalmente com Nora.

“Valor...” é um filme sofrido. Há poucos respiros de “não-sofrimentos”, pois tudo dói. Tudo retorna àqueles pontos mal resolvidos, num círculo vicioso em que a figura masculina/paterna se mostra bastante despreparada. Gustav é incapaz de conviver com as filhas sem um punhado de microagressões nas mãos, sem recorrer à sua falta de inteligência emocional. Quem é mesmo o sexo frágil? Existe sexo frágil? A dureza do longa, nesse sentido, é perfeitamente plausível, uma vez que, na vida real, problemas de relacionamento tão basais como os de laços familiares, quando não resolvidos, passam a ficar latentes. Ora aqui, ora ali, aparecem, até que sejam identificados e, quiçá, amenizados ou sanados. Por isso, “Valor...” é por vezes cruel, mas muito coerente, e é importante que o cinema trate temas importantes dessa forma séria a comprometida.

E se a mulher é vista como alguém consciente de suas fragilidades, mas suficientemente forte para buscar acolher o que lhe faz mal, o homem, na figura de um pai de família da classe alta, nórdico e de uma geração pós-Guerra, tem grande dificuldade de expressar emoções e resolver seus traumas. E pior: é alguém pouco disposto a mudar. É em personagens como Gustav que se vê o declínio do homem como se construiu culturalmente ao longo dos séculos. Antes, o dono do mundo; hoje, a pior pessoa do mundo. Nada diferente do que se observa na sociedade – e nem precisa ser nórdica para isso. Trier opta por expor esse despreparo emocional do homem, ao contrário de outros recentes filmes críticos da masculinidade, cuja figura do macho, tão aberrante quanto patética, como um monstro em forma de gente, mal aparece, a se ver por “Se Eu Tivesse Pernas...”. Fato é que urge repensar a psique masculina e a falida cultura que sustenta o machismo e o patriarcado na sociedade. Os filmes estão gritando esse alerta.

Concorrente a nove estatuetas do Oscar, “Valor...”, que se mostrava um forte adversário do brasileiro “O Agente Secreto” na categoria Longa Internacional quando o Oscar chegasse, parece ter perdido musculatura desde o Globo de Ouro, quando levou apenas Ator Coadjuvante para Skarsgård, quase um prêmio de consolação. Em Longa Internacional, além do filme de Kleber Mendonça Filho, “A Voz de Hind Rajab” ganhou mais força nas últimas semanas e começa a ver o norueguês pelo retrovisor. Mas embora os melhores filmes da temporada sejam de fato “O Agente...” e “Foi Apenas um Acidente” (o outro filme concorrente nesta categoria junto com "Sïrat"), não seria nada estranho se “Valor...” ganhasse. Qualidade para isso tem.

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trailer de "Valor Sentimental"


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"Valor Sentimental"
título original: "Affeksjonsverdi/ Sentimental Value"
direção: Joachim Trier
gênero: drama
duração: 2h13min.
país: Noruega/ Alemanha
ano: 2025
onde assistir: Mubi e cinemas



Daniel Rodrigues

quarta-feira, 18 de fevereiro de 2026

Música da Cabeça - Programa #447

 

Tá vendo aquele folião ali no meio da galera? Pois é, a gente deu uma estendida no Carnaval e, por isso, vamos trazer um MDC de reprise. Mas uma reprise do tamanho que o programa e o Carnaval merecem, repetindo o programa da quarta-feira de cinzas do ano passado, quando, além da ressaca dos festejos, ainda sentíamos pela primeira vez o peso da estatueta do Oscar (quem sabe não é auspicioso, né?). Quase recolhendo a fantasia, o programa vai ao ar hoje, às 21h, na foliã Rádio Elétrica. Produção, apresentação e ponto facultativo: Daniel Rodrigues


www.radioeletrica.com


terça-feira, 17 de fevereiro de 2026

COTIDIANAS nº887 Especial de Carnaval - "O samba é um desconforto potente"



As ruas são mães do samba ainda que muitas vezes tentem trancar a criança em casa. Percebo que tem uma turma acreditando em uma dicotomia perigosa: a que o samba é um retrato da nossa cordialidade como povo e o funk é o retrato de um Brasil violento, misógino e cruel. Um amigo acaba de me perguntar se eu concordo que o samba retrata um Brasil mais gentil, festeiro, carnavalesco.
Acho que a carnavalização do samba - aquele processo de vinculá-lo apenas ao perfil de música que borda a nossa suposta simpatia - foi e continua sendo em larga medida uma tentativa de domá-lo (seja por parte do Estado, da indústria fonográfica, da mídia, do mercado publicitário, de alguns sambistas etc.), exatamente porque o samba é muito mais complexo e problemático - no sentido de não se domar a análises superficiais - do que isso.
Muito mais do que gênero musical ou bailado coreográfico, o samba é elemento de referência de um amplo e complexo cultural que dele sai e a ele retorna, dinamicamente. Nos sambas vivem saberes que circulam; formas de apropriação do mundo; construção de identidades comunitárias dos que tiveram seus laços associativos quebrados pela escravidão; hábitos cotidianos; jeitos de comer, beber, vestir enterrar os mortos, amar, matar, celebrar os deuses e louvar os ancestrais. Reduzir o samba ao terreno imaginário onde mora a alegria brasileira do carnaval é um reducionismo completo.
Não custa recordar que o discurso do samba, e de toda a múltipla musicalidade oriunda da diáspora africana, também está no fundamento do tambor, que fala daquilo que nossas gramáticas não nos preparam para ler. O tambor - e são tantos! - vai buscar quem mora longe, e isso é muito sério.
O samba – de cara podemos lembrar – até a complexidade de experiências que o definem – é testemunho e fonte documental para contratar as nossas contradições poderosas, o nosso horror e as nossas escapadelas pelas frestas da festa: o beijo na cabrocha, O assassinato de Malvadeza Durão, a alvorada no morro, a prisão do Chico Brito que fuma erva do norte, a ilusão de um olhar, o mulato calado que já matou um e se garante na inexistência do X-9 em Mangueira, os poderes do jongueiro cumba, o batizado do neguinho vestido de anjo em Pirapora, o preconceito racial no casamento do neguinho e da senhorita, as porradas que o delegado Chico Palha enfiava em macumbeiro nos tempos da vadiagem, a navalha no bolso, o revólver como maneira nossa de entrar no século do progresso, a mulher vitimada pela violência, submissa como Amélia, rebelde e altaneira como Gilda; o tiro de misericórdia no menino que cresceu correndo nos becos que nem ratazana e morreu como um cachorro, gemendo como um porco... Tá tudo no samba.
Foi exatamente o samba, sobre o qual reflito sistematicamente, que me fez perceber e encarar um Brasil de complexidades que não comportam dicotomias reducionistas. O samba é um desconforto potente para que o Brasil se reconheça como produtor constante de horror e beleza. É o filho mais duradouro dos tumbeiros, em tudo que isso significa de tragédia, redenção, subversão, negociação, resistência, harmonia, violência, afeto, afirmação de vida e pulsão de morte na nossa história. O samba é a entidade mais poderosa das falanges da rua.

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"O samba é um desconforto potente"
Luiz Antonio Simas

domingo, 15 de fevereiro de 2026

"O Corpo Encantado das Ruas", de Luiz Antonio Simas" - ed. Civilização Brasileira (2020)




"Nos últimos anos comecei a amadurecer dois princípios que hoje são a base do que escrevo. O primeiro é o de que os temas que me interessam são vinculados aos processos de invenção e reconstrução de laços de sociabilidade no campo das sapiências das ruas: sambas, escolas de samba, carnavais, terreiros, pequenos comércios, quermesses de igrejas, saberes da trívia e os modos de criação da vida de crianças, mulheres e homens comuns: aquilo que podemos definir como cultura."

"Temos cada vez mais necessidade de ousar olhares originais contra a tendência de normatização, unificação e planificação dos modos de ser das mulheres e dos homens no mundo."
trechos do livro "O Corpo Encantado das Ruas"



"O Corpo Encantado das Ruas" é a exaltação daqueles hábitos urbanos que foram escasseando, sumindo, sendo aos poucos extintas, por conta das modernizações, da tecnologia, das pressões socais, do politicamente correto que sufocam a cidade e seus cidadãos roubando, a cada dia, um pouco do prazer de viver nas coisas simples.

Práticas, pessoas, lugares, comidas, são lembradas pelo sempre aprazível Luiz Antonio Simas, professor e historiador, mestre em história social, botafoguense apaixonado e especialista em carnaval, com a nostalgia de quem viveu coisas tão gostosas, puras, curiosas, ímpares do cotidiano carioca, mas que agora lamenta o impositivo sepultamento desses costumes que nos faziam um pouco mais humanos. 

Simas nos apresenta personagens lendários das ruas do Rio, recupera os antigos blocos de bairro, festejos, fala com saudade das brincadeiras de rua como pipas e carrinhos de lomba, reverencia acepipes clássicos de boteco, cita remédios naturais da sabedoria do povo, lamenta a arenização do futebol e a elitização da torcida, e sobretudo exalta a cultura negra dentro do contexto da identidade do Rio de Janeiro, seja nos terreiros de umbanda, nas esquinas, nas comidas, na sabedoria popular ou no carnaval.

Livro gostoso em cada capítulo, cujos episódios e passagens são expostos de forma, às vezes, melancólica, é verdade, mas não por isso menos suave e, não raro, divertida e engraçada. Faz a gente ficar com uma certa saudade do tempo em que as coisas eram mais simples.



Cly Reis