por Zeca Azevedo
Sim, perdi a chance de falar sobre os 50 anos de lançamento de "I Want You" no meio de março, quando a efeméride aconteceu. Dias atrás, vi um sujeito no YouTube a fazer comentários, ou melhor, comparações entre "I Want You" e os dois LPs de Marvin Gaye que o antecederam, "What's Going On" (1971) e "Let's Get It On" (1973). Esse par é geralmente considerado o ponto culminante do legado fonográfico de Marvin e o tal comentarista de YouTube investiu nesse discurso para falar de "I Want You", fato que me aborreceu muito. Por que não falar do álbum sem apelar para comparações e hierarquias? Isso virou um vício, um sintoma do modo de vista imposto a todos nós e que nos coloca uns contra os outros em um esquema de competição louca.
"I Want You" é um trabalho DIFERENTE dos
anteriores, tem identidade sonora própria tramada por Leon Ware e adaptada por
Marvin ao seu cânone. A fluidez líquida das canções de "I Want You"
seduz o ouvinte, leva-o para a cama e o faz gozar múltiplas vezes. "I Want
You" é uma espécie de sequência/extensão de "You Sure Love to
Ball", a faixa mais erótica de "Let's Get It On".
Em "I Want You", Marvin Gaye aplica sua visão do
amor monogâmico e carnal, à época moldada pela relação que ele tinha com a
jovem e bela Janis Hunter, às molduras musicais que Leon Ware havia preparado
para um disco que ia lançar como solista. Berry Gordy ouviu o trabalho em
progresso de Ware e sugeriu ao músico e produtor que ele usasse o que havia
feito até ali para o próximo álbum de Marvin, que naquele momento sofria um
bloqueio criativo.
"I Want You" tem seu próprio modo de ser no mundo
e foi (ainda é) tremendamente influente - Maxwell que o diga. É um trabalho que
merece ser apreciado verticalmente, sem comparações e reduções. 50 anos depois
de lançado, "I Want You" continua a levar ouvintes do mundo todo a
múltiplos gozos, sejam eles estéticos, espirituais ou os do tipo mais popular.
🎵🎵🎵🎵🎵🎵🎵🎵🎵🎵🎵






.jpeg)
