Admirador de Sly Stone, Jimi Hendrix e Frank Zappa, Clinton tirou deles os principais elementos para formar seu combo psychofunk Parliament-Funkadelic, as duas bandas que comanda simultaneamente desde 1970. Seja como Parliament (via de regra, mais dançante e festiva) ou Funkadelic (mais psicodélica e pesada em geral), o que prevalece, independente do nome, é a alta criatividade (sorvida a base de muita maconha) e as preciosas e numerosas contribuições de músicos gabaritados – como Bootsie Collins, Bernie Worrell, Maceo Parker, Rick Gardner e os irmãos Brecker –, alguns dos mais de 50 que o ajudaram a criar uma linguagem musical e estética próprias. Uma verdadeira cultura lisérgica e freak, que se disseminou para além da música, virando HQ, desenho animado, filmes, brinquedo e toda uma gama de produtos excêntricos.
Em seu universo de extraterrestres, naves espaciais, seres mitológicos e criaturas monstruosas, “The Clones of The Doctor Funkenstein”, da Parliament, que completa 50 anos de lançamento, é um perfeito exemplar. O título, que inventa um Prometeu negro maligno e cheio de groove (assim como o próprio Clinton), já da a noção dessa mistura catalisadora e liberta de preconcepções. E Clinton puxa um pouco de cada um daquelas suas principais referências. De Sly, a liberdade de adicionar a soul a psicodelia da contracultura, inclusive subvertendo o apartheid do meio musical de então ao convocar brancos para fazer música de preto. De Hendrix, por outro lado, além da lisergia e da extravagância, vinha a liberdade de reivindicar para si o peso das guitarras do rock – afinal, foram os pretos que o inventaram. De Zappa, por fim, a liberdade de misturar sem receio jazz, rock, soul e avant garde, bem como a proficuidade de se permitir produzir muito sem perder a qualidade. Para se ter ideia, além de “Clones...”, pela Funkadelic ele lançava naquele mesmo ano dois outros excelentes álbuns: “Hardcore Jollies” e “Tales of Kidd Funkadelic”. De 1970 até aquele ano, juntando as duas bandas, já se somavam 11 discos fora estes, uma média de mais de dois álbuns anualmente.
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| Boneco do Dr. Funkenstein |
Segundo maior sucesso comercial da banda, a música “Dr. Funkenstein”, que chegou ao 43º lugar na parada pop Billboard, trava um diálogo entre criador e criatura quando Clinton conversa com a voz esganiçada do conclamado “Rei do Funk”. Destaca-se, já de cara, o som do baixo de Bootsie, célebre egresso da banda de James Brown e um dos mais ativos integrantes da Parliament-Funkadelic. Além disso, é impagável o coro cantando sob as risadas esquisitas de Funkenstein: “We love to funk you, Funkenstein/ Your funk is the best/ Take my body, give it the mind/ To funk with the rest”.
Assim como a anterior, "Children Of Production", que segue no tema de Funkenstein, porém agora falando de seu diabólico filho, os exímios arranjos de metais são de autoria de outro ex-integrante do conjunto de James Brown: o trombonista e compositor Fred Wesley. Assim como o baterista Frankie Waddy – mais um ex-Mr. Dynamite –, Wesley, de formação jazzística, trazia para a Parliament a sonoridade raiz do R&B. “Getter to Know You” não deixa mentir, em que a linha de metais acompanha o belo vocal solo de Clinton.
Se “Dr. Funkenstein” foi o segundo maior sucesso da Parliament, “Do the Stuff” foi o grande hit, alcançando o 23º posto das paradas. Funk gostoso, daqueles de sacolejar o esqueleto. Começa com um show de bateria de Waddy, mas logo todos se apresentam: Bootsie com seu baixo inconfundível, o coro P-Funk, os sopros em frases inspiradas, a guitarra rítmica com chuggings e os teclados cheios de groove.
Intercalando com Wesley, é Worrell quem assina os arranjos de metais das três últimas faixas. “Everything Is On The One” brinca melódica e metalinguisticamente com a repetição do verso “tudo está em um”. Nesta, a galera aproveita para soltar a voz em melismas e improvisos. Já a espetacular e sensual “I've Been Watching You (Move Your Sexy Body)” dá pinta de que vai encerrar o disco. Funk cadenciado e psicodélico, anda no ritmo de uma transa sob efeito de LSD e sem pressa para acabar aquele barato. Mas para quem achava que “Everything...” fecharia os trabalhos, ainda vem a embalada soul "Funkin' For Fun" só para dar mais cores a essa ópera-rock doidona e saborosa.
“Clones...” alcançou a posição #20 na parada pop da Billboard e se tornou o segundo álbum do Parliament a ser certificado disco de ouro. Assim como este, outros trabalhos do combo P-Funk também foram altamente influentes, como “Maggot Brain”, "Mothership Connection", “Uncle Jam Wants You”, “Funkentelechy vs. the Placebo Syndrome” e “One Nation Under a Groove”, bem como os discos de Bootsie, do spin-off Parlet e da apadrinhada Zapp, a quem 2Pac samplearia mais tarde. E não somente ele, mas toda a geração do rap, como Snoopy Dog, Dr. Dre, Public Enemy, De La Soul e LL Cool J. Mas não só: roqueiros como Red Hot Chilli Peppers e Living Colour, por exemplo, talvez nem existissem não fosse o pioneirismo de Clinton e sua turma.
O reconhecimento por tudo isso um dia deveria vir. E veio. Em 2012, a Parliament-Funkadelic foi introduzida no Hall da Fama do Rock and Roll. No mesmo ano, a Berklee College of Music concede a George Clinton o título de Doutor Honoris Causa em Música. Após mais de meio século de uma experiência radical na música negra norte-americana, o "cientista do funk" Dr. Funkenstein, finalmente, recebe seu diploma.








