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quarta-feira, 9 de setembro de 2026

Música da Cabeça - Programa #476

 

Já que tá todo mundo entrando nessa de trend de anos 80, pensamos: por que não entrar também? Afinal, o MDC nunca deixou de rodar a música da "década perdida", que em termos de música não tem nada de perdida. Hoje mesmo, só pra ter ideia, vai ter Michael Jackson, Legião Urbana, Bauhaus, Nei Lisboa e Sonic Youth. Mas tem também a galera nova (Thundercat), dos 90 (Black Grape, Aimée Mann) e os eternos (Gilberto Gil, Elton John, Milton Nascimento). Caracterizando-se em todas as épocas, o programa vai ao ar às 21h na oitentista Rádio Elétrica. Produção, apresentação e visual espalhafatoso: Daniel Rodrigues



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terça-feira, 8 de setembro de 2026

"Uma Modesta Proposta", de Jonathan Swift - ed. Unesp (2005) - original de 1729



por Zeca Azevedo


Até ontem, o clássico da sátira política e social "Uma Modesta Proposta - Para impedir que os filhos das pessoas pobres da Irlanda sejam um fardo para os seus pais ou para o país e para torná-los úteis ao interesse público" era apenas uma referência cultural indireta para mim, isto é, eu sabia da existência dele e sabia do que se tratava, mas ainda não o tinha lido. Encontrei o texto em um livro que tenho em casa e o devorei.

Trata-se de uma provocação demolidora do escritor irlandês Jonathan Swift escrita no século XVIII, na qual ele, com o humor afiado como os instrumentos de corte dos açougueiros, sugere que crianças pobres do país dele virem comida para outras pessoas. Os infantes seriam abatidos ao completarem um ano de idade para consumo humano, tal como os leitões.

"Um sábio americano que conheci em Londres assegurou-me que uma criancinha jovem, saudável e bem alimentada é, com um ano de idade, o alimento mais delicioso, nutritivo e completo – seja estufada, grelhada, assada, ou cozida. E não tenho qualquer dúvida de que sirva também para um fricassê ou um ragú."

Apresentada racionalmente, apoiada em estatísticas, a proposta de Swift tem o patriótico objetivo de diminuir a população pobre da Irlanda. Os casais pobres venderiam seus filhos de um ano de idade e, assim, teriam uma fonte de renda, além de livrarem-se dos custos de manter viva uma ou mais crianças. A carne de crianças seria uma iguaria apreciada pelos ricos que, como Swift observa com mordacidade, já consomem os pais delas, ainda que de um jeito um pouco menos evidente.

Se considerarmos as declarações aporofóbicas que ouvimos todos os dias, a proposta de Swift seria defendida e posta em prática por integrantes de todas as classes sociais do Brasil, nação há muito dedicada à produção em massa de gente pobre. Alguns diriam que seria um meio eficaz de favorecer o processo de seleção natural da espécie. Imagino que aqui no Rio Grande do Sul os churrascos teriam muitas criancinhas empaladas em espetos e temperadas com sal grosso. A sátira voraz de Swift tem alcance universal porque compreende à perfeição a tal natureza humana. "Uma Modesta Proposta" jamais perderá a atualidade.

sexta-feira, 4 de setembro de 2026

The Seeds - “The Seeds” (1966)


"Sky Saxton era um guerreiro espiritual que me dizia que os músicos eram os profetas vivos do mundo."
Billy Corgan


Os deuses do rock talvez não sejam tão generosos com as garage bands. Enquanto as grandes bandas do mainstream faziam sucesso, vendiam milhões de discos e conquistavam todas as menininhas, as bandas de garagem, muitas vezes tão inventivas e revolucionárias quanto, ficavam à margem como patinhos feios. Uma dessas joias subvalorizadas é a The Seeds. Surgida na efervescente Los Angeles dos anos 60, a banda liderada pelo intrépido Sky Saxton tinha suas raízes no melhor do blues de Chicago e fazia, tal outras garage bands da época, como The Sonics, The Chocolate Watch Band, Monks, The Electric Prunes e The Troggs, um som altamente psicodélico e arrojado, união da onda hippie e do punk, que começava a se formar.

Com a devida má produção do próprio Saxton (afinal, garage band que se preze tem som cru em estúdio e no palco), “The Seeds”, primeiro e homônimo disco da banda, completa 60 anos com o mesmo vigor adolescente e rebelde de quando foi gravado. Se a trajetória da banda começa com a suave “Can't Seem To Make You Mine”, faixa de abertura do disco, na sequência engatam quatro pedradas: “No Escape”, “Lose Your Mind”, "Evil Hoodoo" e “Girl I Want You”. Cartão de visitas devidamente apresentado.

A sonoridade da Seeds era formada, primeiramente, pela presença e pelo vocal marcante de Saxton, cujo timbre é algo entre o anasalado de Van Morrison jovem e rasgado de Mick Jagger. Como os recursos de efeitos de guitarra eram parcos, criavam jeitos para que sua música soasse mais ruidosa. Sem o saxofone áspero da Sonics ou condições de estúdio um pouco melhores, Saxton e cia. distorciam a saída do alto-falante, metiam um moog a la The Doors ou, simplesmente... tocavam mais alto! Mas o principal, a qualidade do que compunham, era prioridade. Em cima dos acordes clássicos inspirados em Little Richards e nos gêneros negros da música pop, esmeravam-se em inventar riffs, texturas, ritmos, atmosferas. Tudo que provocasse sujeira e psicodelia. Se havia menos recurso, sobrava criatividade. 

A embalada “Pushin' Too Hard”, das melhores deles, é o melhor exemplo. Música que podia tranquilamente fazer parte do repertório da The Stranglers (até por causa do moog frenético), é a de maior sucesso do grupo e tão emblemática quanto outros hinos da garage band, como "Louie Louie", “Witch” e “Wild Thing”. A letra, reflexo das aspirações daquela geração, diz: “Bem, tudo que eu quero é apenas ser livre/ Viver minha vida do jeito que eu quero ser/ Tudo que eu quero é apenas me divertir/ Viver minha vida como se ela apenas tivesse começado”. Já “Try To Understand”, muito The Kinks, é também das melhores.

Outras em que o blues prevalece, porém com a pegada suja da Seeds, são “Nobody Spoil My Fun”, “It's A Hard Life” e “You Can't Be Trusted”, quase uma segunda “Pushing...”. Fechando essa pequena joia do Psychedelic Rock sessentista, “Excuse Excuse”, sonzeira com um riff simples e supercriativo, o princípio do punk. Um blues tradicional, ao estilo dos mestres Howlin’ Wolf e Muddy Waters, é o que encerra o álbum de estreia da banda com a faixa “Fallin' In Love”, tão mal produzida que nem a voz do vocalista se escuta direito sem que isso seja proposital. Mas tudo bem: é pra ser assim mesmo! Crueza, sangue, rebeldia, psicodelia. Rock.

A Seeds lançaria naquele mesmo ano seu segundo disco, “A Web of Sound” e, logo em seguida, o terceiro e último álbum da banda, “Future”. Meses depois, irrequieto e espiritualista, Sax se juntava à comuna Source Family, liderada pelo Padre Yod, iniciando uma intensa jornada espiritual e com quem gravou vários álbuns experimentais da banda Ya Ho Wha. A Seeds seria retomada por Saxon nos anos 2000 com formações diferentes e com relativo sucesso nas turnês que fez pela Europa e Estados Unidos. Pouco antes de morrer, em 2008, Saxton foi reverenciado pelo amigo Billy Corgan, gravando com a The Smashing Pumpkins e aparecendo no videoclipe da canção não coincidentemente intitulada “Superchrist”. Pioneiros do movimento "Flower Power/Punk", Saxton e sua The Seeds mereciam, só por conta disso, mais consideração dos deuses do rock.

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FAIXAS:
1. "Can't Seem To Make You Mine" - 2:56
2. 'No Escape" (Jan Savage/Jimmy Lawrence) - 2:08 
3. "Lose Your Mind" - 2:11
4. "Evil Hoodoo" - 5:00
5. "Girl I Want You" - 2:15
6. "Pushin' Too Hard" - 3:03
7. "Try To Understand" - 2:45
8. "Nobody Spoil My Fun" - 3:50
9. "It's A Hard Life" - 2:38
10. "You Can't Be Trusted" - 2:05
11. "Excuse, Excuse" - 2:20
12. "Fallin' In Love"- 2:47
Todas as composições de autoria de Sky Saxton, exceto indicada

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Daniel Rodrigues

quinta-feira, 3 de setembro de 2026

quarta-feira, 2 de setembro de 2026

Música da Cabeça - Programa #475

 

Traduzir a vida através de simples formas circulares foi a marca da obra de Yayoi Kusama, a quem a gente reverencia. Sem toda a genialidade dela, também arriscamos pintar no MDC de hoje nossas bolinhas, que carregam dentro de si muita música. Exemplos? The Avalanches, Stevie Wonder, Chico Buarque, Mário Reis, Beto Guetes e mais. No quadro especial, um Cabeça dos Outros. Repetindo padrões, mas sempre diferente, o programa se circunscreve às 21h na esférica Rádio Elétrica. Produção, apresentação e polka dots: Daniel Rodrigues


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