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quarta-feira, 21 de outubro de 2026

João Bosco - Turnê "João Bosco 80 Anos" - Teatro Bourbon Country - Porto Alegre/RS (15/10/2026)



Obrigado, João!

Não me recordo com precisão que show foi, mas lembro que o clima era parecido em 2022, vésperas das eleições para Presidente. À época, Lula disputava contra Jair Bolsonaro o segundo turno e, embora confiantes, estávamos apreensivos, pois no primeiro turno a votação havia sido apertada. Eis, então, que a história nos põe numa situação ainda mais difícil no segundo turno das atuais eleições, em que Lula enfrenta o filho de Jair, Flávio Bolsonaro, e o placar está ainda mais justo. Nessa atmosfera foi que assistimos Leocádia e eu ao show de João Bosco. E não poderia haver show mais apropriado. Passando por diversos trabalhos ao longo de sua carreira e com um repertório que conta com diversos hinos à liberdade do povo brasileiro nos últimos 50 anos, o espetáculo, além de brilhante, caiu como uma luva em épocas de tensão e necessidade de esperança.

Celebrando seus 80 anos, completos em julho, Bosco - com voz perfeita e violão cada vez mais afiado - faz um apanhado muito bem recortado de sua longa carreira, iniciada no final dos anos 60, em plena Ditadura Militar, e construída com muita integridade. Seja nas célebres parcerias com Aldir Blanc, seja com outros parceiros ou nas composições solo (haja vista que é um grande compositor, mas também ótimo letrista), o cancioneiro de Bosco é talvez o mais incisivo em termos de posicionamento político e ativismo que a música brasileira já viu. E foi em boa parte isso que assistimos no Teatro Bourbon Country praticamente lotado: a resistência da MPB.

O recado é dado de início: Bosco e sua excelente banda (Ricardo Silveira, guitarra; Guto Wirtti, baixo; Kiko Freitas, bateria; e Armando Marçal, percussão) abrem com o samba-enredo “Plataforma”, que ele e Aldir compuseram em 1977 para a voz de ninguém menos que Elis Regina, e que, à época, cantou-a com ela nos eventos em prol das greves do ABC lideradas por um líder sindical chamado Luiz Inácio da Silva. Não precisa dizer mais nada. Na sequência, outro samba-enredo e outra mensagem de resistência (inclusive à Ditadura Militar, que proibiu a música à época de seu lançamento): “O Mestre-Sala dos Mares”, que fez Bosco referir-se a “outro gaúcho” assim como Elis: João Cândido Felisberto, o Almirante Negro, o homem que liderou a Revolta da Chibata em 1910.

Cantando "O Mestre-Sala dos Mares" com a imagem
guerreira de São Miguel Arcanjo ao fundo

E se seguiram somente joias da música brasileira as quais Bosco é protagonista. Seguiram-se, igualmente, as homenagens a pessoas importantes nessa trajetória do cantor e compositor mineiro, como Chico Buarque, Vinícius de Moraes, Nara Leão. Uma das principais, claro, foi a Aldir, com quem Bosco compôs a maioria das canções tocadas no show. São deles, aliás, as que vêm na sequência: “De Frente Pro Crime” (“Tá lá um corpo estendido no chão...”) e “Nação” (“Dorival Caymmi falou pra Oxum...”). No fundo, projeções de vídeos, artes e fotos animadas e bastidores de estúdio. A arte que acompanha a majestosa “Tiro De Misericórdia”, mostrando um HQ sobre a cinematográfica história do “reizinho nagô” do morro protegido pelos orixás abatido numa emboscada, enriquece ainda mais essa, que é uma das mais tocantes músicas de Bosco/Aldir. O arranjo jazzístico vai além da versão original e até da feita por Chico Batera, em seu disco “Ritmo”, de 1980.

De tonalidades jazz também foi “Escadarias da Penha” e a bela bossa nova “Quando o Amor Acontece”. Teve, igualmente, os deliciosos partido-alto “Incompatibilidade de Gênios” (“Doutor, jogava o Flamengo, eu queria escutar/ Chegou, mudou de estação, começou a cantar”), do não menos notável disco “Galos de Briga”, de 1976, e “Boca de Sapo” (“Costurou/ Na boca do sapo e resto do angu/ A sobra do prato que o pato deixou”), do álbum “Linha de Passe”, de 1979, e escrita originalmente para a interpretação de outra referência de Bosco e homenageada do show: Clementina de Jesus.

Outros sambas espetaculares do cancioneiro bosqueano: o hilário “Siri Recheado e o Cacete”, do álbum “Bandalhismo” (1980) e o combativo “Casa de Marimbondo”, em que Bosco relembra a participação do amigo César Camargo Mariano no disco “Caça à Raposa”, nos idos de 1975. Lindas também as interpretações da sensual “Jade” e da bela “Amigos Novos e Antigos”, outra dele e de Aldir e que dá título ao novo disco, que revisita sua obra em diálogo com grandes nomes da música brasileira.

Mas tiraram mesmo do chão a plateia a sequência “Odilê Odilá”, dele e de Martinho da Vila, soul-jazz de primeira qualidade, e “O Ronco da Cuíca”, esta, emendada à anterior, mas que fez a atmosfera se elevar num samba intenso, ágil e de letra combativa: “Roncou, roncou/ Roncou de raiva a cuíca, roncou de fome/ Alguém mandou/ Mandou parar a cuíca/ É coisa dos hôme”. Bosco no violão e seus músicos botaram abaixo o teatro. A emoção foi às alturas também com um clássico imediato da MPB: "Sinhá", dele e de Chico. Escolhida como a melhor música brasileira de 2011, quando foi lançada no disco de Chico daquele ano, "Sinhá" é tão densa e emocional, que merecia uma tese, tamanha a capacidade de encerrar História com Sociologia e arte. E tudo num lamento triste, tristíssimo, cujo refrão não precisa nem de letra para descrever a dor a e crueldade do sinhozinho com o velho escravo de quem tinha ciúme e ódio. Apenas: "Eie ê/ Eie ê/ Eie ê/ Eie êê", que fala mais do que qualquer palavra. Obra-prima.

trecho de "Sinhá", a obra-prima de Bosco e Chico

Já encerrando, claro, mais clássicos. Uma emocionante “Corsário”, a qual abre com o poema do poeta russo Maiakovski e que, por isso, contou com uma linda arte inspirada no estilo construtivista soviético na projeção do palco. Depois, “Papel Machê” (“Cores do mar/ Festa do sol/ Vida é fazer todo sonho brilhar”), que foi da trilha sonora da novela da Globo nos anos 80 (quando as novelas ditavam as músicas que fariam sucesso nas rádios) e que o público cantou mais do que o próprio Bosco, que deixou para a plateia essa parte. Para arrematar, Boscão recorre, claro, novamente a Elis e Aldir com o hino da resistência à Ditadura “O Bêbado e a Equilibrista”. Não precisa dizer que foi uma emoção só, ainda mais no atual cenário político em que, novamente, como naquela época em que a música foi composta, a liberdade do povo e a democracia estão em risco.

O bis, ali mesmo no palco, sem o ritual de sair e fazer do palco e voltar segundos depois, foi com outro clássico: o irreverente samba “Kid Cavaquinho”. Outra que o público cantou em uníssono: “Ói que foi só pegar no cavaquinho/ Pra nego bater/ Mas se eu contar o que é que pode um cavaquinho/ Os hôme' não vai crer”. 

Olha: às vezes é mesmo difícil de crer o tamanho do talento que têm a música brasileira e o quanto eles são essenciais na nossa formação como pessoas, como cidadãos. João Bosco é um desses monumentos da MPB, e que está em perfeita forma chagado a oito décadas de vida. Encerrado o show, uma moça, com uma camisa com a estrala do PT que nos havia visto na entrada, nos encontrou na saída e, feliz, mostrou-nos sua peça assinada por Bosco. Esse gesto, que para alguns pode parecer trivial, deu-nos um sopro de esperança, principalmente depois de um show em que a se exaltou Lula e em que o repertório passa por marcos da resistência do lado certo do Brasil contra a ameaça do autoritarismo. Se vamos “virar”, só dia 25 para saber. Mas que João Bosco nos ensina a ter esperança, isso é inegável. Por isso, parafraseando ele mesmo, dizemos: "Obrigado, João!"

Confira como foi em algumas fotos e vídeos:

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O mestre canta "Nação"


Este feliz espectador esbaldando-se com o show



Bosco e Aldir: dupla sempre presente


Boscão e seu violão cada dia mais afiado


De tirar o fôlego, "Tiro de Misericórdia"


trecho da cinematográfica "Tiro de Misericórdia"



A parceria Bosco & Aldir exaltada nos 80 anos


O palco se transforma para a clássica "Corsário"


o hino "O Bêbado e o Equilibrista" 
entoado no Bourbon Country


Esses dois admiradores agradecidos pela
obra e existência de João Bosco


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Música da Cabeça - Programa #482


É chegada a hora, galera! O segundo turno está aí e, daqui a alguns dias, vamos definir pela manutenção da democracia ou a volta do fascismo. Com as atenções voltadas para essa mobilização, o MDC de hoje reprise sua edição de outubro de 2022, às vésperas do segundo turno daquelas Eleições, quando tivemos Criolo, Herbert Vianna, Public Enemy, Simply Red, Tim Maia e mais. Fazendo aquilo que se sabe fazer, o programa comparece à zona eleitoral hoje às 21h na soberana Rádio Elétrica. Produção, apresentação e #LulaTetra: Daniel Rodrigues #AbreOSigiloFlavio #BolsaFamiliaSoComLula #ProsperidadeSoComLula #ExplicaOCasoAnaElisaFlavio


www.radioeletrica.com


sexta-feira, 16 de outubro de 2026

"A Hora do Pesadelo", de Wes Craven (1984) vs. "A Hora do Pesadelo", de Samuel Bayer (2010)

 



A nova versão de "A Hora do Pesadelo", de 2010 ganha fácil fácil da original de 1984 e indubitavelmente lhe toma o posto de grande clássico do cinema de horror.

Aí cai da cama e acorda e percebe que era apenas um sonho.

Só em sonho mesmo!

(E no mundo dos sonhos, sabemos que quem manda é ele. Freddy!!!)

Pra tentar superar um clássico do tamanho de "A Hora do Pesadelo" de Wes Craven, tem que vir muito preparado e, em se tratando de um filme que marcou gerações e redefiniu padrões do terror, a tarefa é praticamente inglória.

"A Hora do Pesadelo" de 1984 apresentava um personagem assustador e praticamente incontrolável dentro de seus domínios, o subconsciente de quem estivesse dormindo. No mundo dos sonhos, Freddy Krugger, um misterioso homem com o rosto todo queimado e usando uma luva com lâminas em cada dedo, manipulava tempo, espaço, física, sentidos, tal como aqueles sonhos em que ora estamos em um lugar, ora em outro, sem a menor lógica.

Suas vítimas eram jovens de uma pequena cidadezinhna americana cujos pais revelam, ao longo do filme, terem ligação com um antigo ajuste de contas com um maníaco local que matava crianças naquela localidade. Mas por mais incrível que pudesse parecer, o psicopata queimado vivo pelos pais das crianças, agora retornava no sonho de seus filhos já adolescentes para se vingar.

Argumento incrível, repleto de possibilidades, alternativas e todo um surrealismo que a subconsciência do sonho permite, com mínima chance de escapatória para as vítimas. Afinal de contas, quem não dorme, quem não sonha?

A refilmagem tem praticamente mesma tônica, mas erra na estratégia de jogo ao dar uma ênfase muito grande, quase fundamental à situação envolvendo as crianças do bairro, acrescentando às mortes, o fato de que o criminoso abusava das crianças antes dos assassinatos, coisa que no outro era, talvez..., levemente sugerido. Fica quase um drama investigativo com elementos de terror, enquanto o antigo, pelo contrário, é um autêntico terror com um ingrediente dramático.

Esse novo tem bons atores, bom acabamento, mas era de se imaginar que com mais recursos, tecnologia mais avançada, conseguisse produzir algo mais significativo.

Não!

Tem denúncia, reflexão, dramaticidade, mas o terror mesmo, é apoiado na mera repetição das cenas clássicas indispensáveis do primeiro, como a da banheira, a da parede elástica atrás da cama, ou a da garota no corredor da escola, sempre levemente diferentes (só para não ficar uma cópia descarada).

E com Freddy teria como fazer alguma coisa de diferente, de original, de mais impressionante? A nova versão até deu um enfoque mais sério, reduziu um pouco as piadinhas de humor ácido do vilão original, mas basicamente tratou de replicá-lo, até porque trata-se de personagem tão consolidado que não tem como inventar muita coisa.

A propósito, por mais que Jackie Earl Haley tenha sido uma boa escolha para o remake, não tem como se falar em Freddy Krugger e não pensar em Robert Englund, um daqueles atores que chegam a se confundir com o personagem. Earl Haley não desagrada, faz um Freddy mais sério, cruel, mas no fim das contas não conquista.

Rooney Mara por sua vez, também é muito boa, a rigor é melhor atriz que Heather Langerkamp, mas parece que a atriz do primeiro filme e de algumas das sequências nasceu para aquele papel, tanto que o próprio diretor se aproveita dessa identidade, dela e de Robert Englund, em seu retorno à franquia de 2006, o interessante "O Novo Pesadelo de Wes Craven".

Mas, afinal, quem é melhor?

Bem, é lá dentro do campo é que a coisa se decide, não? Então vamos ao que interessa.


"A Hora do Pesadelo" (1984) vs. "A Hora do Pesadelo" (2010)


Os dois times entram em campo no estádio da Rua Elm com seus uniformes tradicionais, listras horizontais em verde e vermelho, igual ao tradicional uniforme da Portuguesa de Desportos e cheerleaders cantam a Cantiga de Ninar clássica de Freddy Krugger à beira do campo. "Um, dois: Freddy vem te pegar/ Três, quatro: É melhor trancar a porta/ Cinco, seis: Agarre seu crucifixo/ Sete, oito: Fique acordado/ Nove, dez: Você nunca mais vai dormir!". 

O jogo começa e o Pesadelo de 1984 não dá a menor chance para Pesadelo 2010!

1x0 pelo argumento mais objetivo e mais enxuto. Menos enrolação, menos elementos externos e mias susto, pavor, arrepio.

2x0 pelas cenas clássicas, em especial para a morte do namoradinho, o então novato Johnny Deep sugado para dentro da cama com seu sangue jorrando contra a gravidade para o teto. Mas tem a da amiga, Tina, lutando e sendo jogada contra as paredes por um perseguidor invisível, a da língua no telefone, a arrepiante cena em que Freddy surge com braços longos num beco, tudo com brilhantes e criativos efeitos práticos.

Ainda hoje, uma das cenas mais impressionantes dos filme de horror.

A dupla Heather/Englund é um pesadelo para a zaga adversária. Entrosamento perfeito sempre que estão em cena. Primeiro é a vez dela. Freddy dá aquela fatiada e Nancy queima da entrada da área. Joga a luva, goleirão! É 3x0. 

Depois é a vez do matador: a defesa dorme, ela o deixa no mano a mano, Freddy corta pra dentro, corta pra fora, e não perdoa. A torcida canta, "O Freddy vem te pegar, o Freddy vem te pegar!!!". 4x0. Parece um pesadelo!

O time de 2010 faz o golzinho de honra por conta de toda a parte que envolve a investigação da nova Nancy a respeito do local para onde Freddy levava as crianças e a descoberta do quartinho no porão da pré-escola onde ele cometia os abusos. Cena que nem é tão chocante pelo horror sobrenatural e sim pelo horror humano. Mas valeu. Gol do remake: 4x1.

Quando parecia que o pesadelo tinha acabado, na cena final quando parecia que mais nada ia acontecer, numa cena típica de desenho animado, linguagem que Wes Craven soube utilizar muito melhor que seu desafiante em se tratando de possibilidades de sonho, a garra de Freddy puxa a mãe de Nancy por uma portinhola minúscula na entrada da casa, enquanto num Cadillac conversível coberto por uma capota nas cores do suéter do assassino, Nancy e os amigos entram em pânico, e ele segue em frente passando por crianças que pulam corda entoando a sinistra cantiga de Freddy: "Um, dois: Freddy vem te pegar/ Três, quatro: É melhor trancar a porta/ Cinco, seis...". 

Dizem as más línguas que, na manhã seguinte ao confronto, quando a esposa do diretor Samuel Bayer foi acordá-lo e chamou, "Acorda, meu bem, já são 6", ele teria despertado suando e perguntado, "O que? Outro gol deles??? 

Não, calma... Ficou SÓ em cinco mesmo. 5x1 para HP'84.


Aqui, lado a lado, algumas das cenas clássicas, repetidas no filme de 2010.
(Original à esquerda, refilmagem à direita)
Primeiro a cena da banheira, mera cópia na nova versão;
na segunda linha a garota no corredor da escola, aterrorizante no antigo e inóqua no novo;
depois, Freddy surgindo da parede atrás de Nancy. Efeito prático inteligente no primeiro e efeito patético besta no outro;
e por último o anti-herói mais adorado do cinema de terror.
A criatividade de uma maquiagem original no clássico, e um rosto sem expressão retocado por CGI no remake.


A refilmagem achou que poderia bater o clássico?
Haha... Vai sonhando, vai sonhando!





por Cly Reis