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quinta-feira, 5 de novembro de 2026

cotidianas #911 - Dose

 


Todo dia, ou melhor, toda noite, Ludo, separava os comprimidos que deveria tomar antes de dormir. Tinha várias doses de vários medicamentos ao longo do dia, tinha lembrete durante o dia para cada horário, mas os da noite eram mais fáceis. Separava o da pressão, o dos nervos, o da memória, o da ansiedade, o da depressão e deixava sobre o criado-mudo enquanto ia na cozinha e enchia o copo com água.

Toda noite era a mesma coisa, os cinco comprimidos ali na cabeceira, a cozinha, a água, engolir cada um e dormir.

Aquela noite algo acontecera de diferente. Ao voltar da cozinha havia um comprimido a menos. Pensou que devesse ter deixado cair no chão, procurou rapidamente mas não quis perder tempo com aquilo e pegou o do dia seguinte na caixinha organizadora. Na manhã seguinte varreria o chão, encontraria o remédio e reporia o dia reorganizando a sequência.

No entanto, antes de levar a primeira drágea à boca, percebeu que o copo estava vazio. Não havia enchido? Voltara da cozinha com ele vazio? Que distração a sua.

Bem, à cozinha de novo encher o copo. Abre o filtro, cuidado para não transbordar, ok...

De volta ao quarto. Era tomar os remédios e dormir.

Porém, definitivamente algo estranho acontecia: agora havia um a mais.

Perguntava-se agora se aquele que julgava ter perdido estivera ali o tempo inteiro e não notara.

Devia ser o sono.

Tratou de guardar o excedente e recolocá-lo na caixinha para o dia seguinte, contudo não pode fazê-lo.

O compartimento para o próximo dia já estava ocupado.

Ficou com o comprimido fechado na palma da mão por um instante enquanto olhava para o nada procurando por alguma explicação lógica. Resignado com uma possível confusão, despertou de uma breve recapitulação dos últimos acontecimentos e, de relance, passou os olhos pela mesinha ao lado da cama.

Nada. Não havia mais nenhum comprimido sobre a mesinha.

Bom, em último caso, pelo menos tinha um na mão.

Já sem muita certeza disso, abriu lentamente os dedos e confirmou o que imaginava: não estava ali.

Alguém brincava com ele, alguma coisa brincava com ele, sua memória brincava com ele.

E se não tivesse separado para tomar? E se já tivesse tomado os remédios e não estivesse lembrando?

Já não importava! Pegaria novamente cinco pílulas no estojo, tomaria as respectivas doses da noite e voltaria a se organizar a partir do dia seguinte. 

Mas e se já tivesse tomado e não estivesse lembrando? Uma superdose poderia causar confusão mental, alucinações, vômitos, perda de consciência...

Que fosse! Precisava dos remédios. O médico recomendara que não deixasse de tomar.

Abriu a gaveta do criado-mudo a fim de pegar o porta-comprimidos, mas para sua surpresa - ou nem tanto àquelas alturas - o estojo não estava lá.

Tomado por um certo desespero, correu para o banheiro onde sabia que tinha embalagens fechadas dos medicamentos na farmacinha do espelho.

Não pôde deixar de olhar para o próprio rosto desfigurado antes de abrir a portinhola do armarinho. Destravou. Como se o armário do espelho vomitasse sobre ele, uma avalanche de comprimidos brancos o soterrou e inundou o pequeno banheiro. Mal teve forças para colocar a mão para fora da montanha de pílulas que o cobriam antes de perder o sentidos.

Era dia claro e pássaros já cantavam quando voltou a si. Olhou em volta e surpreendentemente o banheiro estava limpo, sem nada pelo chão. Apenas ele. 

Abriu a mão, tinha nela um comprimido pressionado com os dedos contra a palma.

Levantou, caminhou até o quarto. No criado-mudo estavam posicionados quatro comprimidos ao lado de um copo d'água pela metade.



Cly Reis

quarta-feira, 4 de novembro de 2026

Música da Cabeça - Programa #484


Quando a gente pensa que vai descansar de eleições, vem outra pra nos mobilizar de novo. Enquanto acompanhamos as midterms nos EUA, aqui reprisamos um programa ainda no embalo do Halloween, o de n° 342, de novembro de 2023. Com Isaac Hayes, Djavan, New Order, Bezerra da Silva e outros, a edição 484 do MDC vai ao ar às 21h na democrata Rádio Elétrica. Produção, apresentação e urnas abertas: Daniel Rodrigues


www.radioeletrica.com

terça-feira, 3 de novembro de 2026

segunda-feira, 2 de novembro de 2026

Drops lançamento "100 Filmes Brasileiros Essenciais" - Coletânea de artigos da Abracine


Quando eu pensava que não teria publicação nenhuma na edição deste ano da Feira do Livro de Porto Alegre, o que tem ocorrido comigo com certa regularidade, dois projetos me puseram dentro do evento. Um deles, que não poderei estar no lançamento por conta de outro compromisso, é o aqui já mencionado "1986: O Ano Que o Rock Nacional Acertou", antologia cuja sessão de autógrafos ocorre dia 4/11, às 19h, na Praça dos Autógrafos.

O outro, e este estarei presente não para os autógrafos dia 13/11 de novo em razão de compromisso, mas para o debate, dia 15/11, às 17h, é "100 Filmes Brasileiros Essenciais", a nova publicação da Associação Brasileira de Críticos de Cinema (Abraccine) pela editora Literíssima. O livro reúne 114 autores para atualizar a obra lançada em 2016 pela entidade, analisando o cinema nacional sob novas perspectivas e territórios, resultando em uma lista mais plural e representativa da diversidade audiovisual brasileira. 

A convite do colega de Jornalismo e Accirs Danilo Fantinel, um dos organizadores do livro junto com a também colega Ivonete Pinto e o crítico de cinema Paulo Henrique Silva, integro este time de autores falando sobre o belíssimo filme “A Hora e a Vez de Augusto Matraga”, de Roberto Santos, de 1966, baseado na clássica novela de Guimarães Rosa.

Há ainda comigo gente do gabarito de Marcelo Ikeda, Enéas de Souza, Fatimarlei Lunardelli, Letícia Alassë, Mônica Kanitz, Juliana Gusman, Roger Lerina e outros. Uma coisa é certa: a se ver pelos autores, vem coisa muito boa aí.

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lançamento e debate do livro "100 Filmes Brasileiros Essenciais"
da Associação Brasileira de Críticos de Cinema (Abraccine)  
organizadores: Ivonete Pinto, Danilo Fantinel e Paulo Henrique Silva
lançamento/autógrafos: dia 13/11 (sexta-feira) - 18h
onde: 72ª Feira do Livro de Porto Alegre - Praça dos Autógrafos (Praça da Alfândega - Centro)
debate: dia 15/11 (domingo) - 17h
onde: Sala Vitrine de Lançamento - Clube do Comércio (Andradas, 1085 - 2°andar - Centro) 


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Daniel Rodrigues