Curta no Facebook

segunda-feira, 11 de maio de 2026

Duas (músicas) em uma

Sabe aquela música você está lá ouvindo-a numa boa, até que, de repente, tudo muda? O que era um rock agitado vira uma balada romântica. O que começa como um folk-rock se transforma num break dançante. O que parecia ser só uma melodia inocente passa, de uma hora para outra, a ser uma canção folclórica latina.

É meio raro de acontecer e não é fácil de dar certo, mas todos esses exemplos realmente existem. Algumas joias tanto da discografia rock quanto da MPB, principalmente, seguem essa métrica diferente. Diria até surpreendente de incorporar duas músicas em uma.

E não estamos falando aqui daquelas que só têm um finalzinho diferente, criativo. Isso é bem mais comum e não nos vem ao caso agora. Poderíamos talvez até falar de “Cry Baby Cry”, dos Beatles, que, após uma balada romântica de Lennon, tem McCartney encerrando-a cantando lindamente outra melodia, a de "Can You Take Me Back". Mas é tão curtinha! Apenas 28 seg, o que não dá para chamar de “virada”. Outra que até poderia é “Mask”, da Bauhaus, que se estabelece como uma marcha soturna quando, encaminhando-se para o fim, entra um solo de violão que altera totalmente a atmosfera, tornando-a algo ritualística. A base, contudo, mantém-se, então, também não conta. Muito menos aquelas que vão se transformando em si próprias, mini-sinfonias, tal "Menina Goiaba" (Gilberto Gil), "Happiness Is a Warm Gun", (Beatles) ou várias coisas dos progressivos.

Falamos aqui, sim, de belas músicas que já eram boas de um jeito, mas que, repentina e deliberadamente, viram outra coisa. E tão legal quanto, como se fossem duas obras em uma só.

Como toda lista, obviamente, a intenção não é dar conta de todos os casos com esse perfil. Longe disso. Como estes, certamente existe uma infinidade de registros, que não lembramos ou, muito mais numerosas, que nem conhecemos.


🎶🎶🎶🎶🎶🎶🎶🎶


Feedback Song for a Dying Friend – Legião Urbana (1989)


A Legião Urbana era dotada de muita inventividade. Se faltava apuro técnico aos seus integrantes como instrumentistas após a saída do excelente baixista Renato Rocha, sobrava criatividade e referências culturais inteligentes a Dado Villa-Lobos, Marcelo Bonfá e 
Renato Russo, principalmente. Nessa linha, "Feedback...", do disco “As Quatro Estações”, de 1989 (o primeiro do grupo como trio), é exemplar. Um hard rock cantado em inglês, no melhor estilo Led Zeppelin, que, lá pelo seu final, a aproximadamente 3 min20’ e depois de uma parada dramática, a música se transforma numa deslumbrante dança da Grécia Antiga. E mais legal: a letra segue, com Renato cantando ainda mais lindos versos até finalizá-la epicamente.

OUÇA


Layla – Derek & The Dominos (1970)

Quem gosta de cinema e de rock jamais conseguirá dissociar esse clássico do rock do filme “Os Bons Companheiros”. A sequência com a câmera em travelling encontrando os corpos de assassinados congelados dentro do caminhão refrigerado é, além de uma das mais memoráveis da filmografia de Martin Scorsese, aquela que tem a canção da Derek and the Dominos (leia-se Eric Clapton). Mas Scorsese, grande amante de rock e de música, soube exatamente que trecho de “Layla” extrair para montar a sua cena: a segunda parte desse blues eletrificado, justo quando o piano de Jim Gordon (não à toa, coautor da música) é quem dá as cartas com uma balada lírica. 

OUÇA


Televison Man – Talking Heads (1985)

David Byrne e sua trupe sempre foram muito criativos e já haviam ensaiado viradas que surpreendem em outras músicas. Porém, nada como esse pop rock empolgante que é “Television Man”. Penúltima faixa de um disco tão pop quanto perfeito da Talking Heads, o "Little Creatures", “Television...” se desenvolve melodicamente de forma muito agradável e contagiante, até, por volta de 2min30' (ou seja, menos da metade da duração dela, de 6min10'), toma um rumo que a potencializa. É quando entram as percussões brasileiríssimas de Steve Scales, Byrne puxa um coro feminino para repetir com ele: “Na-na-na-na-na-na”, além de metais, linha de teclados que se cruzam e guitarras percussivas. Um êxtase.

OUÇA


Novacane – Beck (1996)

Beck estava afiadíssimo quando lançou seu terceiro álbum, o clássico “Odelay”. Com o apoio luxuoso dos Dust Brothers (John King e Mike Simpson), que cuidavam de cada detalhe do arranjo e da produção, o músico norte-americano teve campo livro para compor certamente a sua melhor obra, cheia de músicas com reviravoltas, mudanças e variações das mais diversas. A que mais surpreende neste sentido, contudo, é “Novacane”. O que começa e se desenrola como um hard-funk, por volta 3 min 20', vai para outra direção completamente diferente em ritmo e textura, quando uma espécie de break eletro-retro toma conta até encerrar a faixa. Essas coisas inclassificáveis, que só Beck & Dust Bros. produziram e viraram de ponta-cabeça o rock alternativo dos anos 90.

OUÇA


Pablo – Milton Nascimento (1973)

Com a ditadura a mil pelo Brasil no início dos anos 70, sobrou também para Milton Nascimento. Seu disco “Milagre dos Peixes” foi sumariamente picotado pela censura, que proibiu quase todas as letras. Solução? Fazer um disco caprichado no instrumental, arranjos e composições, que resultou num dos melhores da carreira do gênio de Três Pontas. “Pablo”, faixa que encerra o álbum, uma aparentemente inocente canção infanto-juvenil, saiu ilesa, e deu a oportunidade ao jovem Nico Borges, irmão caçula dos Borges então com 12 anos, cantar os belos versos escritos por Ronaldo Bastos. Porém, no minuto final, o instrumental de “Cadê”, uma das prejudicadas pela censura, surge em fade-in para encerrar esta obra-prima em ritmo andino. Milton marcando posição e fazendo milagre.

OUÇA


Variações sobre um Mesmo Tema – Engenheiros do Hawaii (1988) 

O que esperar de uma música cujo título é “Variações sobre um Mesmo Tema”? Numa fase encantada, a Engenheiros do Hawaii de Humberto Gassinger, Augusto Licks e Carlos Maltz entrega mais do que uma letra justificadora, e, sim, uma música que aplica essa variação também na melodia. E promovem não apenas uma variação, mas duas! Os versos invariavelmente brilhantes de Gassinger à época compõem o que eles classificam de Parte 1, que se desenrola sobre um ritmo marcado em três tempos. Depois, uma queda brusca para uma atmosfera etérea, quando a voz de Licks praticamente declama alguns dos mais belos versos do cancioneiro da banda. Então, para fechar mesmo (e encerrar o disco “Ouça o que Eu Digo, Não Ouça Ninguém”), um hard rock instrumental possante, algo fusion e progressivo. 

OUÇA


Miserable Lie – The Smiths (1984) 

The Smiths é aquilo, né: o mais alto grau de criatividade de toda a geração do britpop anos 80. “Misarable Lie” é uma das provas de que eles não deixariam de apresentar essa métrica diferentona de música "2 em 1". Johnny Marr e sua guitarra genial exercita um rock cadenciado na primeira e um punk rock na segunda. Tudo isso, sem precisar usar pedal de distorção! É guitarra purinha! A bateria de Mike Joyce – como em “London”, outra punk da banda – engendra uma cadência sincopada. Andy Rourke, baita baixista, segura todas na “cozinha”. E Morrissey... Ah! Moz destrói tudo na primeira e na segunda seção! A última, aliás, em que ele faz os seus peculiares “falsetes sopranos”.

OUÇA


I’m the Ressurrection – The Stone Roses (1989)

Outra dessas melodias de moldagem plástica e que servem para encerrar um álbum, assim como “Variações sobre um Mesmo Tema”, da Engenheiros, e “Pablo”, de Milton. Ou seja: tem um papel fundamental dentro da narrativa da obra que integra. No caso, o histórico debut da The Stone Roses. E para uma música chamada “Eu Sou a Ressurreição”, haja reviravoltas! Em seus pouco mais de 8min, faz jus ao título: é uma coisa até 3 min40’, uma segunda até uns 6min20’ e ainda um terceiro formato para encerrar. Muitos reencarnes.

OUÇA


The Murder Mystery – The Velvet Underground (1969)

O disco homônimo da Velvet Underground de 1969 já não contava mais com John Cale na formação, dando, assim, total liberdade à mente criativa de Lou Reed. “The Murder...” é quase um parque de diversões compositivo: conjuga duas melodias intercaladas, uma espécie de habanera e um rock intenso e de estrutura circular, tudo com variados vocais: os de Doug Yule, Sterling Morrison, Maureen Tucker e os dele mesmo, Lou. Só que, a aproximadamente 6 min 30', como se não bastasse, vai surgindo ainda uma outra música, totalmente díspar da(s) anterior(es): uma quase "bagatelle” com base de piano e uma letra quase falada por este criador de obras-primas como “Heroin”, “Pale Blue Eyes”... e “The Murder Mystery”.

OUÇA


Eve White/Eve Black – Siouxsie & The Banshees (1980)

Outra banda altamente criativa, a Siouxsie & The Banshees é também capaz de imaginar melodias tão elásticas formalmente. “The Rapture”, que dá nome ao disco deles de 1992, é uma minissinfonia pós-punk, que se bifurca para três lados. Mas eles já haviam se aventurado por esses limites melódicos no início dos anos 80, mais precisamente no compacto de “Christine”, com “Eve White/Eve Black”. De novo, uma dentro da outra: começando só com uma base de guitarra e voz e terminando transtornada. No caso, as faces “branca” e “negra” da mesma Eve. E se a gravação original já passa bem o espírito dual, a versão ao vivo do clássico álbum “Nocturne”, de 1983, é de arrepiar, principalmente no instante da mudança de uma parte para outra, quando Siouxsie solta um dos gritos mais assustadores da história do rock. Garanto que ate Ozzy Osbourne ficou com medo.

OUÇA


🎶🎶🎶🎶🎶🎶🎶🎶

Daniel Rodrigues

sexta-feira, 8 de maio de 2026

The Dave Brubeck Quartet - "Time Out" (1959)

 



"As músicas fugindo da
 métrica habitual me encantam.
Parece que a "perfeição" busca sempre
a imperfeição pra fazer mais sentido."
Alexandre Vianna,
skatista, artista visual, fotógrafo e ativista cultural, no livro "Discoteca Básica"


Não sou nenhum grande entendedor de música ainda que seja um entusiasta admirador. Embora conheça alguns conceitos básicos de tempo, tom, andamento, compasso, não me arrisco muito a fazer grandes explanações nesse sentido a respeito de músicas incríveis que conheço e que reconhecidamente têm méritos técnicos ou estruturais diferenciados. Me limito a senti-las e, quando tenho a necessidade de falar sobre elas com alguém de modo a ressaltar essas qualidades, exprimo da melhor forma possível dentro do que a mina limitação permite e onde aminha emoção consegue alcançar.

Não consigo explicar tecnicamente o que é o álbum "Time Out" do Quarteto de Dave Brubeck, mas aquilo é uma das coisas mais incríveis que já ouvi. 

Talvez o próprio nome da obra já seja suficientemente autoexplicativa, sei lá... Só sei que aquelas estruturas improváveis, incomuns, subvertem os tempos de uma forma tão desconcertante que dão um nó gostoso no cérebro. Tempos saem, voltam, passeiam pelo "normal" e tornam a nos surpreender de novo.

"Blue Rondo à La Turk" e "Take Five", é claro, são as mais notáveis com suas harmonias inquietas e inusitadas, mas mesmo as mais "comuns", como "Strange Meadows Lark" ou "Kathy's Waltz", além da beleza natural que já carregam consigo, tem suas pequenas sutilezas que as fazem tão especiais quanto as mais badaladas.

O que eles fizeram, como fizeram, um tom acima, um tempo abaixo... Não saberia dizer. E na verdade, nem sei se gostaria de saber. Prefiro apreciar. 

Ouça, ouça... 

*******************************

FAIXAS:

1. "Blue Rondo à la Turk" 6:44
2. "Strange Meadow Lark" 7:22
3. "Take Five" 5:24
4. "Three to Get Ready" 5:24
5. "Kathy's Waltz" 4:48
6. "Everybody's Jumpin'" 4:23
7. "Pick Up Sticks" 4:16


****************************
Ouça:
The Dave Brubeck Quartet - Time Out


Cly Reis

quarta-feira, 6 de maio de 2026

Música da Cabeça - Programa #458

Ei, olha onde voce esta pisando! Nao precisa nem enxergar, pois tudo vai dar no MDC desta semana. Da pra confiar de olhos fechados, porque a programacao de hoje tem Steely Dan, Paralamas do Sucesso, Joao Gilberto, Peter Gabriel, Fátima Guedes e mais. Ainda, um quadro Sete-List homenageando o jazz. De peito aberto, o programa dá um passo no ar 21h na vendada Radio Eletrica. Producao, apresentacao e direcao certa: Daniel Rodrigues


www.radioeletrica.com

segunda-feira, 4 de maio de 2026

"Michael", de Antoine Fuqua (2026)


É impossível assistir à cinebiografia de algum artista que se admira sem relacionar com a própria vida. Ainda mais aqueles que fizeram parte da SUA biografia. Foi o que me aconteceu vendo "Michael", do cineasta Antoine Fuqua. As lembranças da infância, quando eu, com 4 para 5 anos de idade, ia pra frente da TV dançar igual a Michael Jackson em "Thriller", nos idos de 1982/3, vieram à mente. O icônico videoclipe, que impressionara o mundo inteiro com sua abordagem e qualidade cinematográficas, foi um de impacto gigante para mim à época, um dos primeiros contatos com cultura de massa que aquele pequeno menino negro do Sul do Brasil teve juntamente com os desenhos animados da TV aberta.

Somente este contexto já é suficiente para me aproximar tanto do filme, que reduz minha chance de não gostar. Afinal, o aguardado longa de Fuqua, sucesso de bilheteria, é, sim, apreciável, mas abertamente comercial. Com a direção tecnicamente perfeita e a abordagem pop, como lhe é característico, o cineasta, um dos eminentes negros do cinema norte-americano atual, conta a história do maior astro pop de todos os tempos (interpretado por seu sobrinho Jaafar Jackson) de forma cronológica, porém com um recorte acertado, haja visto que não vai até a sua morte. Pegando do começo da vida artística, ainda criança com os irmãos companheiros de Jackson 5, passando pela ascensão da carreira solo, vai até o fatídico momento em que Michael se desenvencilha do opressor pai, Joe - vivido por Colman Domingo, num papel digno de indicação a Oscar. As belas cenas musicais e o realismo de diálogos ajudam a cumprir bem esse recorte narrativo, que nada mais é do que a escolha central da trama: a conturbada relação de Michael com o pai.

No que se refere a Joe Jackson, cabe uma reflexão sociológica. Afinal, como o histórico de racismo, intolerância e perseguição aos negros nos Estados Unidos gerou pais de família afro-americanos rancorosos, mesquinhos, infelizes e invejosos! E pior: dada a baixa autoestima deles, revoltados com uma sociedade que lhes esmagou e não lhes deu oportunidade de brilharem com seus talentos individuais, usam esses sentimentos somenos, justamente, contra aqueles que deviam amar. É o caso de Joe e o caçula Michael, mas também com outros artistas negros do século 20, como Ike Turner para com a esposa Tina Turner e o pastor C. L. Franklin com sua filha Aretha. Todos psicologicamente doentes e tiranos domésticos. Incapazes de admitir que seus próximos são, sim, astros com mais brilho que eles, entram em rota de colisão e numa cruzada para obscurecê-los. É triste de se ver tamanha perversidade, mas explicável em um contexto maior.

Domingo na pele do perverso Joe Jackson:
digno de Oscar
Afora isso, o filme também é incisivo ao apresentar um Michael dono de si e não um artista apenas talentoso levado pela mão por responsáveis como muito se propagou. O empresário John Branca e o produtor Quincy Jones, a quem ele respeitava e admirava, não comandavam, mas, sim, o próprio Michael. Sua consciência de homem preto, inclusive - algo pelo qual também sempre foi duramente criticado em razão do branqueamento da pele e das cirurgias plásticas descaracterizantes - é consistentemente rechaçada na cena em que ele, em 1983, bate pé diante do diretor da sua gravadora para que seu clipe fosse o primeiro de um artista negro a rodar na MTV. E foi.

Para quem acompanhou Michael Jackson desde criança até a fase adulta sabe que muito do que é mostrado faz sentido, mas também que há um cuidado em tratar de temas delicados. Porém, essa é a hora de trazer à tona essas delicadezas, se não, fica estranho.

E é aí que a proximidade de fã com a obra do artista faz com que seja impossível não se notar as lacunas. Quanto mais fã, aliás (e nem sou o maior conhecedor de MJ, repleto de ardorosos apaixonados pelo mundo todo), mais se sabe dos fatos verídicos. E me refiro a lacunas importantes, basais. Em "Michael", um dos assuntos faltantes foi criticado antes mesmo do filme ser lançado: o nebuloso (mas possivelmente verdadeiro) caso de abuso sexual sofrido por ele na infância. Nem uma menção, mesmo que sutil para não escancarar algo tão traumático? Pesa negativamente, uma pena.

Outro ponto faltante: onde está Diana Ross? E Stevie Wonder? Ambos admirações de Michael e com quem ele conviveu, tocou, filmou e gravou. Não foi possível incluí-los no roteiro? Foi uma opção? Há questões contratuais que impeçam? Verba para pagar direitos de imagem duvido que os produtores não tivessem. 

O que me pesou também foi a ausência de referência ao filme "O Pequeno Príncipe", de 1974. Falou-se acertadamente de Gene Kelly, James Brown, Charles Chaplin e Fred Astaire, inspirações mais óbvias de Michael. Mas seria importante informar a quem não sabe de onde vieram várias de suas referências coreográficas: da dança da serpente no deserto, brilhantemente coreografada pelo ator e dançarino Bob Fosse. Há gestuais idênticos aos eternizados por Michael, dentre os quais o famoso passo Moonwalk, marca registrada de MJ. Tiveram medo de expor Michael e ferir sua imagem? Embora a clara semelhança da dança de um e de outro, não parece uma mera imitação e, sim, uma forte inspiração, por isso não faria nenhum mal em se revelar isso ao grande público. Ao contrário: traria mais uma das referências pop que a genial cabeça de Michael conseguia reunir e devolver em forma de arte.

A semelhança das danças de Michael Jackson e Bob Fosse


De tudo que não está em "Michael", no entanto, o que mais me ressenti foi não se mostrar com mais detalhe o processo criativo do Rei do Pop ao compor. Há vídeos de matérias jornalísticas que registram esse processo, algo absolutamente fascinante de se ver, ainda mais considerando que ele, dono de ouvido absoluto, não precisava (assim como Elis Regina e Lupicínio Rodrigues) tocar nenhum instrumento para saber exatamente o que queria em sua música. Fuqua opta por evidenciar mais o processo de criação coreográfica - o que faz com perfeição nas cenas de "Beat It" e "Thriller" -, mas dá menor relevância para a invenção musical. No máximo, situa o conceito impulsionador de determinadas canções, como coisas que ele via na TV. Como fã, saí frustrado por isso, pois esperava por mais.

Cinebiografias não são necessariamente completas, é certo. Mas quem vê, por exemplo, "O Tempo não Para", sobre Cazuza, sente falta de se mencionar ou representar Ney Matogrosso, pessoa sabidamente fundamental na vida íntima e artística do autor de "Ideologia". Contudo, não dá para alguém que conhece o objeto do filme fechar os olhos para o que (não) está vendo. Ainda mais, quando se tratam de informações importantes. 

Há representatividade e "lugar de fala" na direção de Fuqua, uma vez que somente os tempos atuais deram condições a uma produção dessas ser realizada por um cineasta negro. Para ele, pessoalmente, deve ser uma realização abordar um ídolo formativo. Entendo isso. No entanto, fica por aí a reserva autoral. O final de "Michael", que deixa reticências para uma sequência, fecha a tampa dessa abordagem excessivamente comercial da obra: recorta-a até um ponto bem estipulado, mas, fatalmente, não a desfecha com o impacto que merecia. Como geralmente ocorre, o lado business compromentendo o artístico. Mas para um cineasta que esticou até a inanição uma franquia que começou legal como "O Protetor", não é de se estranhar que ainda produza tantas sequências de "Michael" quanto as de "Velozes & Furiosos". E o público do entretenimento, sem maiores distinções, vai adorar.

*************

Trailer de "Michael", de Antoine Fuqua


👑👑👑👑👑👑👑👑👑

"Michael"
Direção: Antoine Fuqua
Gênero: Drama/Biografia/Musical
Elenco: Jaafar Jackson, Nia Long, Laura Harrier, Juliano Krue Valdi, Miles Teller, Colman Domingo
Duração: 127 min
Ano: 2026
País: Estados Unidos
Onde assistir: Nos cinemas

👑👑👑👑👑👑👑👑👑


Daniel Rodrigues

domingo, 3 de maio de 2026

ClyBlog tá na Copa!

 


Rodrygo está fora da Copa, Militão está fora da Copa, Gnabry está fora da Copa, o Yamall é dúvida, mas quem tá na Copa, sem dúvida alguma, é o Clyblog.

Em ano de Copa do Mundo nossas seções ganham postagens especiais, temáticas, ligadas a futebol ou remetendo aos países sede, Estados Unidos, México e Canadá, e aos demais participantes nessa edição que conta com mais países, inclusive com alguns bem atípicos no universo mais tradicional do futebol.

Tá chegando, tá chegando!!! E a partir de agora Copa já é assunto por aqui. Filmes, discos, livros, contos, crônicas, músicas, vídeos, tirinhas, tudo tem Copa do Mundo no Clyblog.

Quanto ao Neymar eu não sei, mas o Clyblog tá na Copa!

Bola rolando...


Ilustrações de gols das campanhas dos 5 títulos do Brasil em Copas do Mundo