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domingo, 5 de julho de 2026

A Seleção do Gil

 


Não tem ninguém na música brasileira que seja tão identificado com futebol do que Gilberto Gil. Duvida? Então diz aí alguém que torce para vários times ao mesmo tempo como ele. Além do Bahia, seu time, digamos, "natal", Gil tem como característica ter um clube em cada Estado brasileiro. No Rio de Janeiro, é Fluminense; em São Paulo, Santos; no Rio Grande do Sul, veste a camiseta gremista; em Pernambuco, a do Santa Cruz e assim por diante. 

Quando se trata de Seleção Brasileira, então, aí o velho baiano se delicia. Tanto que essa paixão pelo esporte bretão está em várias músicas do cancioneiro gilbertiano. Desde os primeiros anos de carreira até os dias atuais, Gil traz o futebol entremeado à sua faraônica musicalidade. Por isso, com o Brasil avançando de fase na Copa do Mundo, assim como já fizemos com Jorge Benjor e Chico Buarque rodadas atrás, agora é a vez de escalarmos as 11 músicas de Gil, sejam para sua própria voz ou para a de outros artistas, sejam composições de sua autoria ou de outros. Independentemente de quem cante ou compõe, é a arte maior de Gil subindo neste palco de quatro linhas feito de grama. 

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"No tempo que Lessa era goleiro do Bahia
Um goleiro, uma garantia"







1. "Tradição", do álbum "Realce" (1979): Considerada uma das obras-primas de Gil, admirada por colegas como João Bosco e Caetano Veloso, “Tradição”, de “Realce”, de 1979, é uma verdadeira crônica soteropolitana feita de reminiscências do Gil de sua infância. Numa narrativa que lembra Jorge Amado, são contadas, pelo olhar da observadora criança, diversas situações da cidade, como a discriminação racial, o comportamento social e... o futebol, quando Gil refere-se ao arqueiro Walter Lessa, multicampeão pelo seu Bahia entre 1947 a 1950. Já que estamos falando do camisa 1, nada melhor para começar essa lista com o goleiro.

Ouça: Tradição










2. "O Bom Jogador", do álbum "O Viramundo - Ao Vivo" (1972-1998): Música da entressafra do Gil pós-exílio, “O Bom Jogador” fazia parte do repertório que ele levava para os diversos shows que fazia em pequenos teatros no início dos anos 70 após retornar de Londres. Não entrou em nenhum disco na época, vindo a aparecer apenas na caixa com sobras de 1998 e, posteriormente, no registro de show na USP em 1973, lançado nos anos 2000. Na curta letra, uma máxima futebolística: “O bom jogador não engana a geral”.

Ouça: O Bom Jogador



"Viva Pelé do pé preto
Viva Zagallo da cabeça branca"






3. "Abre o Olho", do álbum "Gilberto Gil Ao Vivo" ou "Ao Vivo no Tuca" (1974): Não se trata de uma música necessariamente sobre futebol. Aliás, está mais para uma viagem lisérgica e filosófica de um homem frente a frente consigo mesmo diante do espelho. Mas o refrão não pode ser mais futebolístico - e nem tão emblemático: combinação de talento e "consumição" que deram ao Brasil os títulos mundiais de 1958 e 1970, representadas em Pelé e Zagallo, os quais, segundo Gil, "dão o sentido de contradição e complementaridade yin-yang; um é África, o outro, Europa”.

Ouça: Abre o Olho










4. "Meio de Campo", com Elis Regina, do álbum "Elis" (1973): Impossível haver combinação melhor: a maestria da composição de um dos maiores compositores da MPB feita para a voz da maior cantora do Brasil. Elis Regina eterniza este samba cheio de suingue, que desafia a Ditadura ao falar com o polêmico Afonsinho, um dos mais politizados e engajados jogadores do futebol brasileiro dos anos 70. Gil admite na letra que não é “Pelé nem nada”, e que, se muito for, é “um Tostão”. Se Chico Buarque é nosso Pelé na música, não é nenhum demérito a Gil ser um Tostão, não!

Ouça: Meio de Campo



"Magos da bola na Cidade Luz
Fazem milagres, transmutações
Dores e horrores que a vida produz
São transformados no balé da bola
Suor e sangue no balé da bola
Crime e castigo no balé da bola"




5. "Balé da Bola (Copa 98)", do single "Balé da Bola - Copa 98" (1998): Quando Gil inventa de compor sambas-enredo sempre sai coisa muito boa. Foi assim com “De Bob Marley a Bob Dylan, Um Samba-Provocação” e “Quilombo, O Eldorado Negro”. Para a Copa do Mundo de 1998, na França, o jornal O Globo contratou-o para compor um tema, que se tornaria na prática o tema daquela fatídica Copa em que o Brasil foi vice-campeão. Mas a música é uma maravilha, de alto poder poético e embalada ao ritmo de uma escola de samba. Só o olhar dele para ter tamanha arguição que, “Quando a seleção marcar um gol” serão séculos e mais séculos de nossa história, que vem desde os tupis e passa pela China, Grécia ou na França medieval.

Ouça: Balé da Bola










6. "Trinca de Ases", com Nando Reis e Gal Costa, do álbum "Gil, Nando & Gal - Trinca de Ases - Multishow Ao Vivo" (2018): Composta por Gil especialmente para o projeto deste nome em que ele divide "as quatro linhas" com Gal Costa e Nando Reis, a música faz analogias com o “estilo de jogo” de cada um. Ele, mais maduro, faz um jogo seguro e paciente. Nando, mais jovem, é “impetuoso e viril”. Já a “moça”, por sua vez, “corre livre”. Afinal, quem tem Gal no time tem que jogar mesmo a bola pra ela deixá-la fazer o gol. 

Ouça: Trinca de Ases










7. "Samba Rubro-Negro (O Mais Querido)", com Germano Mathias, do álbum "Antologia do Samba-Choro" (1979): Prova de que Gil gosta mesmo é de futebol e não dá bola para rivalidades clubísticas é que ele também exalta seus adversários, caso de “Corintiá”, que ele grava, em 2010, mesmo sendo, em São Paulo, santista. A mesma coisa acontece com o rival de seu Fluminense no Rio, o Flamengo, para o qual ele grava, no seu desconhecido e raro disco “Antologia do Samba-Choro”, feito em parceria com o cantor e compositor paulistano Germano Mathias em 1978, “Samba Rubro-negro (O Mais Querido)”, de autoria de Wilson Batista e Jorge de Castro.

Ouça: Samba Rubro-Negro



"Moleque saci
Saci-pererê
Um gol de Pelé
Que é pra gente ver"




8. "Saci Pererê", com Banda Black Rio, do álbum "Saci Pererê" (1980): Assim como "Meio de Campo", é dessas pérolas escritas por Gil para outros artistas, e que casualmente também trata de futebol. Neste caso, a música foi encomendada para a Banda Black Rio, grupo que Gil homenageara em “Refavela” (1977). Para o seu terceiro e último disco com a formação clássica, o baiano compõe esse reggae nada menos que a faixa-título, a qual faz referência a um talentoso e intrépido moleque negro brasileiro que, embora perneta, joga muito melhor do que vários “pernas-de-pau” com os dois membros inferiores.

Ouça: Saci Pererê









9. "Balé de Berlim", do single "Balé de Berlim" (2006): O Brasil pode não ter ganhado em 1998, mas que a ideia de Gil compor tema da Copa deu certo, ah! Isso deu. Tanto que o baiano foi chamado novamente para a mesma empreitada, só que então para a Copa do Mundo de 2006, na Alemanha. “Balé de Berlim” repete melodia e o clima de samba com letra atualizada para a ocasião e, desta vez, Gil convoca para fazer tabelinha com ele Zeca Pagodinho. Se, assim como na França, a música de Gil não deu a sorte que a Seleção precisava, ficou para a eternidade, ao menos, mais um belo tema dele sobre futebol.

Ouça: Balé de Berlim


"Alô, torcida do Flamengo
Aquele abraço!"






10. "Aquele Abraço", do álbum "Gilberto Gil" (1969): Gil estava com um pé no aeroporto rumo ao exílio forçado na Inglaterra por causa do Governo Militar, mas não sem antes deixar seu manifesto. E, claro, um manifesto com a sua cara: poético, resistente e em forma de samba de breque. O clássico "Aquele Abraço", além de tudo, põe o futebol no contexto político-social do País, chamando para sua celebração de resistência a "torcida do Flamengo", o que significa, como a própria expressão se popularizou, convocar o "todo o povo brasileiro". Música nota 10, merece a camisa 10!

Ouça: Aquele Abraço









11. "Campeão dos Campeões", do álbum "Doces Bárbaros Bahia" (2000): A partir de um projeto encabeçado por J. Veloso, um dos irmãos de Caetano e Maria Bethânia, os Doces Bárbaros (que inclui, obviamente, ainda Gal e Gil) se reuniram para gravar um disco com versões de hinos e música em homenagem ao Sport Club Bahia. A Gil coube esse reggae de autoria de Zé Pretinho, Raquel e Bezerra da Silva – que, embora super ligado à malandragem carioca, era, na verdade, baiano. Quanto a Gil, este sim, não há dúvidas: por mais que vista a camiseta de outros clubes, na verdade, ele é mesmo "Baêah"!

Ouça: Campeão dos Campeões


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Daniel Rodrigues

sexta-feira, 3 de julho de 2026

Copa do Mundo Joy Division - Oitavas-de-Finais - CLASSIFICADOS

 




Nossos especialistas em Joy Division cumpriram sua missão e definiram os últimos 8 classficados na Copa Eterna.

A fase de oitavas não teve nenhuma grande zebra, até porque agora só tem time grande e nenhum resultado é exatamente absurdo.

A cadenciada Candidates eliminando a quase neworderiana Isolation pode ser considerada uma surpresa para alguns, mas a eliminação She's Lost Control mesmo sendo uma das favoritas, passa longe de ser um resultado improvável considerando a qualidade do adversário, a espetacular New Dawn Fades.

Mas enfim, vamos às considerações de cada um dos nossos julgadores e a apreciação de cada confronto das oitavas-de-final definindo os classificados para a fase seguinte.

Restam 8!

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Daniel Rodrigues: 

Transmission 2 x Shadowplay 1

Quase uma final antecipada, ou pelo menos dois candidatos a campeão, que se pegam precocemente. “Shadowplay”, com seu jogo mais agressivo, marca primeiro. “Transmission”, no entanto, com seu estilo mais constante, não se apavora e empata já no primeiro tempo. O jogo vai para a segunda etapa nessa igualdade, com os dois times atacando, lá e cá. Encaminhando-se pro fim da partida, “Transmission” acha um pênalti. Gol de vitória apertada, com direito à comemoração de dancinha ao som do rádio.

Day of the Lords 1 x Love Will Tear Us Apart 3

Confronto pesado de “Unknown Pleaseures” vs. “Closer”. O primeiro, com forma de jogar mais convencional, mas não menos eficiente. O segundo com aquele futebol moderno, que lembra o futebol-total da Laranja Mecânica. Com um time de média de idade alta, “Day...” sabe o que faz e abre o placar numa jogada bem construída. Mas quando eles achavam que ia ser “o dia dos senhores”, o “amor” vem não para “separar”, mas para vencer. Com jogadas bonitas e tabelinha entre todos os integrantes, “Love...” vira o placar em poucos minutos e ainda acerta uma bucha no finzinho pra sacramentar. Na hora da comemoração, o atacante chama a câmera: “Closer! Closer!” E fez o gesto de coração com as mãos. É muito amor.


Roberto Sulzbach:

Candidate 2 x Isolation 1

Não foi fácil. Jogo duro, truncado e complicado. Isolation é formatada para trabalhar intensamente, marcação lá em cima, em um estilo "gen-pressing" que daria inveja ao ex-treinador do Liverpool, o alemão Jurgen Klopp. Já Candidate é mourinista: bloco baixo, jogando por uma bola. Mas, quando vem, é mortal. Isolation é talvez uma das músicas mais animadas de Closer. Segunda na track list, e seguida pelas batucadas envolventes de Atrocity Exhibition, acaba por acelerar o ritmo do disco. Candidate queima devagar; talvez seja a música que mais reforça a temática de UP ao longo da audição sequencial das faixas. Sendo assim, Candidate leva, por 2 a 1, em cima de Isolation.

I Remeber Nothing 0 x Decades 1

Duas canções que apostam no mesmo estilo: letras niilistas, envoltas em uma atmosfera manchesteriana. I Remember Nothing fecha UP de maneira magistral. Decades encerra Closer e te faz sentir em uma capela gótica do século XII, com seus órgãos sintetizados. A dinâmica é a mesma: estranheza e desconforto. Jogo muito parelho, mas Decades traz elementos únicos no catálogo da banda e acaba por levar o confronto.1 a 0, Decades.


luna gentile:

Something Must Break 1 x Disorder 3

Grande partida.Disorder abriu o placar com seu ritmo frenético e a energia inconfundível do baixo, mas Something Must Break reagiu com intensidade e clima sombrio.

No segundo tempo, o impacto histórico de Disorder fez a diferença marcando mais dois gols, garantindo a vitória.

Athrocity Exhibitions 1 x Atmosphere 2

Atrocity Exhibition assustou a defesa no início, mas a Atmosfera tomou conta do estádio e mudou completamente o clima da partida.

No segundo tempo, a pressão ficou no ar, a torcida respirou fundo e Atmosphere marcou o gol da virada nos acréscimos.


Cly reis:

Leader of men 0 x a means to an end 2

Jogo sem muita complicação. Leader of men é aquele time esforçado mas que não tem muito de onde tirar. por outro lado, A Means to An End é bem estruturada, tem um andamento embalado, um trabalho de bateria excelente e uma ótima interpretação de ian curtis. vitória tranquila de A means to an End. placar clássic: 2x0.

She's Lost Control 1 x New Dawn Fades 2

Dois grandes times. Duas camisas pesadas do Unknown Pleasures.

Estilos de jogo distintos. She's Lost Control com seu ritmo constante, jogada repetitiva, insistência. New Dawn Fades com mais alternativas, deslocamentos, variações de jogada.

Cada um à sua maneira, pelas virtudes de cada música, fazem um golfZnho no tempo normal. 1x1 nos 90 minutos.

O jogo vai para o tempo-extra e aí She's Lost Control não consegue controlar as investidas organizadas do adversário. A saída de bola com aquela introdução de bateria, o passe para o baixo, o ganho de intensidade, o solo da guitarra, a interpretação emocionante de Ian Curtis... New Dawn Fades chega com qualidade ao gol, tocando, e vence o jogo na prorrogação. Que jogaço,  senhoras e senhores! 



c.r
d.r.

quarta-feira, 1 de julho de 2026

Música da Cabeça - Programa #466


O jogador alemão aí não está frustrado com a eliminação, não! É que a música não sai da sua cabeça por nada. Isso vai "melhorar", porque tem um MDC cheio de chicletes de ouvido (ou "ohrwurm", como chamam os alemães). Trolando a Alemanha enquanto ainda estamos na Copa, a gente traz, sem brincadeira, uma seleção talentosa formada por The Beatles, Stevie Wonder, Woody Guthrie, Zezé Motta e mais. Ainda, um Sete-List que junta futebol com Gilberto Gil. Vingando-se um pouquinho do 7x1, o programa tira onda com hora marcada: 21h, na sarcástica Rádio Elétrica. Produção, apresentação e olhos agora para a Noruega: Daniel Rodrigues 


www.radioeletrica.com

Berinjela Beligerante

 





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