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quinta-feira, 1 de outubro de 2026

Miles Davis - "Tutu" (1986)




"Em ‘Tutu’, cada faixa foi criada pensando na voz dele. Miles nunca era algo incidental na faixa, tentando encaixar o trompete. O som de Miles guiou tudo."
Marcus Miller

Tornar-se um artista icônico e produzir obras-primas tem seus preços. Um desses fardos é a auto-comparação, que pode levar, em alguns casos, a obscurecer outras obras não menos apreciáveis do mesmo artista. No cinema, um exemplo clássico é a trilogia “O Poderoso Chefão”, de Francis Ford Coppola. Lado a lado com os dois primeiros da série, marcos da história do cinema, o terceiro filme, embora obviamente menor que seus antecessores, é excessivamente desqualificado pela crítica. Copolla até hoje paga por essa injustiça, pois “Chefão 3” é, se não tão revolucionário, bastante apreciável.

Na música, não são poucos os casos em que um artista paga pela própria qualidade. Miles Davis, gênio do jazz e da música mundial, que completa 100 anos de seu nascimento em 2026, sofreu com isso. Não é para menos. Em cerca de quatro décadas, ele foi protagonista de algumas das principais revoluções do jazz, do be-bop ao cool, do hard-bop ao modal, do fusion ao jazz-rock, do funk ao hip-hop. Talvez por isso, “Tutu”, álbum lançado por Miles em 1986, não seja listado junto de outros discos célebres do artista como “Kind of Blue”, “Birth of The Cool”, “In a Silent Way” e “Miles Ahead”. Porém, “Tutu” (que também está de aniversário, 40 anos) é, inegavelmente, um dos melhores trabalhos da longa discografia do mestre, com uma sonoridade que une, com a sofisticação que lhe era característica, o jazz-funk, o fusion e o electro-pop.

Uma das características mais apreciáveis em toda a carreira de Miles, além de sua inteligência, liderança e qualidade musical, era sua capacidade de se reinventar. Em “Tutu”, com a devida ajuda de Marcus Miller e outros músicos tarimbados – entre eles, o craque da soul-jazz George Duke –, ele age como um verdadeiro veterano sábio: deixa que os outros trabalhem pra ele e entra só na hora certa. Só quando é imprescindível: com o toque inconfundível e hipnotizante de seu trompete, a cereja do bolo. Totalmente instrumental e com praticamente todas as composições de autoria de Miller – que também toca baixo, arranja e produz o disco a quatro mãos com o experiente Tommy LiPuma –, “Tutu” traz a sonoridade pop ao jazz com uma qualidade ímpar. Algo que, aliás, nem o próprio Miller havia atingido, basta ouvir o seu álbum solo imediatamente anterior, de 1984, e perceber que a química com Miles foi, realmente, essencial para o resultado. A composição é dele, mas a alma é de Miles.

A faixa-título e de abertura entra mostrando os predicados desse projeto: ataques soltos de teclados, bateria eletrônica e as primeiras frases de trompete, dando ao ouvinte uma amostra das texturas e sonoridades que permearão o restante da audição. Até que os sons se organizam e se forma um funk cadenciado, sincopado, e um riff dissonante muito, mas muito charmoso. O baixo de Miller segura a linha melódica – aliás, como em todo o disco – e na “cozinha” está ninguém menos do que o grande percussionista brasileiro Paulinho da Costa. 

“Tomaas”, na sequência, única que Miles coassina a autoria, é outro funk sem pressa e não menos elegante. Não só pelo arranjo e pela sonoridade sensual mas, claro, principalmente, pelo sopro de Miles. O "refrão", jazz fusion, e que se repete de tempo em tempo, é de pura musicalidade. O tema ainda conta com as participações do percussionista norte-americano Omar Hakim e os sintetizadores do jamaicano Bernard Wright. Certamente, das melhores composições de Miles em toda a década de 80.

“Portia”, outra belíssima, é ainda mais melodiosa e sensual. O estilo sonoro do baixo e das programações rítmicas, que se tornaram modelo a produtores de toda a música mundial à época, estão aqui em perfeito exemplo. E o trompete de Miles arremata, soltando suas frases econômicas, que desenham a faixa de cabo a rabo. Quebrando essa introspecção, as animadas “Splash” e “Perfect Way” são duas em que o funk prevalece, mas nem por isso são menos melodiosas.

Entre estas duas está uma outra joia: “Backyard Ritual”, em que Duke, seu autor, é quem comanda. Fora o baixo, a cargo de Miller, e o trompete do artista principal, é ele quem toca todos os instrumentos, além de arranjar e produzir a faixa. O autor do hit AOR “Sweet Baby” e dono de uma invejável discografia em que passeia pelos mais variados ritmos da black music tem, aqui, o privilégio de contar com a lenda Miles a seu serviço. Para tanto, compõe para o ídolo um electro-funk de batida marcante, com seus teclados groove, os slaps do baixo de Miller e a magia dos solfejos de Miles. 

O ótimo reggae dub “Don't Lose Your Mind” e o funkão “Full Nelson”, homenagem ao líder sul-africano anti-apartheid Nelson Mandela, à época preso, encerram o disco cujo título também faz referência à vida sociopolítica daquele 1986: o arcebispo sul-africano Desmond Tutu. “Full Nelson”, aliás, cheia de suingue e sagacidade, daria inveja a Prince por não tê-la escrito não fosse ele o exímio compositor que era. 

Mesmo com o Grammy de Melhor Performance Instrumental de Jazz, em 1987, “Tutu” ainda é relegado pela crítica dentro da discografia de Miles Davis. Os fãs, no entanto, adoram. Tanto que se tornou sinônimo de jazz-pop dos anos 80, influenciando músicos como Prince, Madonna, Sade, Incognito, Everything But the Girl e toda a turma do smooth-jazz e do jazz-rap dos anos 90, como Guru, US3 e Easy Mo Bee – que faria o disco imediatamente póstumo de Miles, em 1992, “Doo-Bop”, fundindo jazz com hip-hop e pegando muitas referências de “Tutu”. Mais do que isso, este disco tirou Miles de certo ostracismo ao qual vivia desde meados dos anos 70, trazendo-o para os holofotes novamente e, principalmente, restituindo-lhe o protagonismo. Como em vários outros momentos na história do jazz, Miles demarcava um novo começo para o gênero. E ele sabia que devia esse ressurgimento a Miller, tanto que o velho músico não deixou de agradecer quando lhe disse certa vez: "Valeu, cara. Você me trouxe de volta." 

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FAIXAS:
1. “Tutu” - 5:15
2. “Tomaas” – (Marcus Miller, Miles Davis) - 5:32
3. “Portia” - 6:18
4. “Splatch” - 4:45
5. “Backyard Ritual” (George Duke) - 4:49
6. “Perfect Way” (David Gamson, Green Gartside) - 4:32
7. “Don't Lose Your Mind” - 5:49
8. “Full Nelson” - 5:05
Todas as composições de autoria de Marcus Miller, exceto indicadas

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OUÇA:
Miles Davis - "Tutu" 

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Daniel Rodrigues

quarta-feira, 30 de setembro de 2026

Música da Cabeça - Programa #479


Ô, santinha, bem que podia dar uma ajudinha e matar essa eleição no primeiro turno, né? A base de reza, o MDC desta semana também tem, claro, música. The Modern Lovers, Guinga, Parliament, Richard Strauss, Luis Fernando Verissimo e Madonna lançam seus cantos de fé. Botando fé na urna, o programa vai ao ar hoje, 21h, na consagrada Rádio Elétrica. Produção, apresentação e "faz o L": Daniel Rodrigues


www.radioeletrica.com

A nuvem tímida







 

"A nuvem tímida"
Daniel Rodrigues
fotografia digital - set/2026

segunda-feira, 28 de setembro de 2026

Clyblood #11- "A Médium", de Banjong Pisanthanakun (2022)

 


Tá, olha só..., não vou te enganar não: "A Médium" é um dos filmes mais aterrorizantes, assustadores, chocantes, sinistros, impressionantes que o cinema de horror já produziu nos últimos tempos. Tem possessão, bruxaria, exorcismo, maldição, gore, violência gráfica, sexo, crueldade com criança, com animal, e mais o que você quiser.
A produção tailandesa usa o formato do falso-documentário para mostrar uma equipe de filmagem que acompanha Nim, uma médium numa região rural da Tailândia, de modo a relatar suas vivências espirituais, suas rotinas, seus dons e responsabilidades religiosas diante de sua comunidade. Até aí tudo bem, beleza, o dia a dia, rezas, rituais, oferendas e tal. O que acontece é que o comportamento da sobrinha Mink começa a chamar mais atenção do que o da xamã da aldeia que era o assunto original do documentário. Nim, a tia, com sua experiência e conhecimento das coisas místicas, percebe que a sobrinha está sob ação de uma entidade. Em princípio faz os procedimentos padrão para expulsar o espírito, mas logo percebe que o que habita a garota é algo mais forte e poderoso do que imaginava. Buscando respostas, descobre que a possessão se dera pelo fato de que a irmã renegara sua herança espiritual e não assumira seu papel de xamã quando jovem, na época em que devia assumir sua atribuição. A entidade poderosa, então, se vingava agora tomando sua filha. E, cara, depois que a guria fica possuída... ela vira o catiço!
A equipe de documentário passa então a dedicar todas as atenções para ela, todos os rituais, procedimentos, tentativas, de tirar aquela coisa da adolescente. E nada!!! A coisa é muito forte e só piora.
A própria tia médium não dá conta. Chama outros médiuns, exorcistas e a garota continua fazendo barbaridades que incluem automutilação, canibalismo, depravações, perversidades com um bebê de colo e atrocidades com um pequeno cãozinho doméstico. Isso sem falar na sequência final, da tentativa de exorcismo que é simplesmente macabra, aterradora e apavorante.
Em meio a tantos found-footage e mockumantaries repetitivos, esse é original em sua proposta, com um roteiro bem montado e uma tensão crescente que deixa o espectador com as unhas cravadas na poltrona. Além de tratar de um tema interessante de religiosidade e herança espiritual em culturas com esse tipo de crença, nos apresenta uma outra perspectiva de exorcismo diversa da tradicional visão católica ocidental, já retratada em tantos filmes. Mas só reafirma que, no mundo do cinema, depois que o demônio entra, ah...  aí é difícil de expulsar o bicho. Seja aqui no ocidente ou na Tailândia.

A jovem Mink endemoniada.
E vai tentar tirar  a coisa-ruim dela, vai...

Cly Reis


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"A Médium"
título original: "The Medium"
direção: Banjong Pisanthanakun
elenco: Narilya Gulmongkolpech, Sawanee Utoomma, Sirani Yankittikan
gênero: horror, terror,  folk-horror, foud-footage, mockumentary, 
duração: 130min.
país: Tailândia
ano: 2022
onde assistir: Prime Vídeo



sexta-feira, 25 de setembro de 2026

Museu do Inter - Porto Alegre/RS (julho/2026)


Aquelas coisas que não se explicam: precisou que minha sobrinha Luna viesse a Porto Alegre para que eu pisasse, pela primeira vez, no Museu do Sport Club Internacional. Mesmo morando há anos perto da casa colorada, o Estádio Beira-Rio, nunca havia me programando para fazer essa visita ao memorial do meu time do coração. Aliás: NOSSO time de coração, visto que Luna, mesmo carioca da gema, é colorada convicta, muito mais que muito gaúcho. Aproveitando um dia ensolarado e agradável de uma semana de tempo instável, então, Luna e eu fomos ao Beira-Rio para fazermos a visita guiada ao estádio, a qual começa e termina no museu.

Parece não ter mudado muito daquilo que meu irmão registrou anos atrás quando fez também sua primeira visita, mas o museu é muito bem montado, com espaços de interatividade e integrando plataformas diferentes, como fotos, vídeos, estátuas, objetos e, claro, fardamentos e os diversos troféus conquistados pelo time ao longo dos anos. Não tinha como ser diferente, aliás, tendo em vista que a história gloriosa de quase 110 anos do Inter tem muito conteúdo para um espaço museológico como este. Poucos clubes no Brasil têm tantas glórias e momentos tão marcantes. Estão lá os registros da antiga Chácara e do Estádio dos Eucaliptos, primeira casa do Inter que viu, além dos nossos primeiros títulos citadinos e estaduais, jogos da Copa do Mundo de 1950.


Fotos da história gloriosa da fase dos Eucaliptos, nossa primeira casa

Por falar na primeira Copa sediada no Brasil, um personagem que estava na competição também faz parte importante da história do Inter: nosso tio-avô Adão, o Adãozinho. Craque do Rolo Compressor, time do Inter que conquistou os ainda inalcançáveis 8 títulos estaduais nos anos 40, Adãozinho foi dos primeiros atletas gaúchos a disputar uma Copa pela Seleção Brasileira. E ele está lá no museu no painel de fotos dos craques históricos do Inter ao lado de outras lendas como Falcão, D'Alessandro, Figueroa, Rafael Sóbis, Taffarel, Carlitos e Fernandão.

São muitas coisas bonitas de se ver no museu, e não só para colorados com nós, mas também para torcedores de outros clubes e de outros estados, haja visto que tinha gente de Minas Gerais, Paraná (e Rio, claro) entre os visitantes. Os troféus das Libertadores e do Mundial; as chuteiras usadas pelo saudoso Fernandão no histórico jogo contra o Barcelona em 2006; a história de comunhão da torcida para construir o Beira-Rio; a lembrança do Tri-Campeonato Brasileiro...

Estátua suspensa de Manga

Luna felizona posando com os troféus da Liberta e de outros
títulos internacionais do Inter

Uma felicidade imensa de ter visitado este espaço na companhia de Luna e um orgulho imenso do time de nosso coração. Pena ser justo numa temporada em que as coisas não vão nada bem pro Inter. Mas, como dizemos em nosso canto: "Inter, nada vai nos separar". Serás sempre motivo de festa em nossos corações.




Falando sobre o nosso templo, o Beira-Rio


Luna bem atenta à história do Inter


Fotos antigas dos primeiros tempos do clube


A vitrine dedicada ao Rolo Compressor


Figueroa e a sua cabeceada iluminada, que nos deu o primeiro Brasileiro, em 1975


Troféus internacionais, dentre eles, Joan Gamper, nosso ensaio de Mundial, em 1982
 

O título da Copa do Brasil de 92. Esse eu vi!


Várias flâmulas de times trocadas pelas do Inter de todo o mundo



A camisa 3 do ídolo Figueroa


Mais troféus


Por falar em troféus, Luna nessa vitrine de grandes conquistas


Esta dupla de colorados terminando a visita ao Beira-Rio




Daniel Rodrigues