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quarta-feira, 24 de junho de 2026

A Seleção do Chico


Existem muitos Chico Buarque. O malandro, a mulher, o político, o literato, a criança, o amante, o cronista. Todos eles, de alguma maneira, podem ser vistos em outros compositores da música brasileira. Mas um desses Chico que poucos conseguem reproduzir é o boleiro. Fluminense roxo, além de meia-armador e cartola do seu próprio time, o Politheama, Chico, do alto de seus 82 anos, viu muitas Copas do Mundo e muitos jogadores da Seleção Brasileira, entre estes, suas principais admirações dentro de campo: Pelé e Mané Garrincha. Nada melhor, portanto, que recorrer à obra de Chico neste momento de Copa.

Além do maior de todos os tempos e o gênio das pernas tortas, o futebol aparece no cancioneiro buarqueano recorrentemente. Assim, nós reunimos – tal qual fizemos para com Jorge Benjor na primeira rodada da Copa do Mundo EUA/México/Canadá – 11 delas neste dia da terceira partida da Seleção Canarinho. As referências ao futebol são as mais diversas, de uma zoação a um amigo flamenguista à simples menção ao jogo de bola.

Independentemente de como se aborda, o certo é que, na obra magistral de Chico Buarque, estamos falando sempre de grandes músicas. Dia de partida da Seleção na Copa? Eis, então, a Seleção do Chico! 

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"Para estufar esse filó
Como eu sonhei
Se eu fosse o Rei"



1. "O Futebol", do álbum "Chico Buarque" (1989)Já que o tema é o esporte mais popular do mundo, nada melhor do que começar uma lista de 11 músicas de Chico sobre o tema com uma que se chama, justamente, “O Futebol”. Poucas vezes – ou talvez nenhuma – um compositor conseguiu traduzir com tamanha poética a dinâmica e a alma do futebol. A música faz curva como a própria bola, e a letra se integra a uma partida imaginária e onírica. Futebol-arte é isso aqui.

Ouça: O Futebol









2. "Barafunda", do álbum "Chico" (2011): Sabe quando a memória falha, mas aquilo que se quer lembrar está na ponta da língua? Aquele nome, aquela palavra, aquela memória que quase vêm à mente, mas em seguida escapa de novo, e a cabeça fica naquele ciclo interminável. No delicioso samba “Barafunda”, além de trazer essa letologia, Chico ainda integra-a ao universo do futebol de forma brilhante. Afinal, quem nunca se esqueceu exatamente como foi aquele lance? Será que aquele gol foi do Pelé... ou foi do Mané...?

Ouça: Barafunda



"Zanza na sarjeta
Fatura uma besteira
E tem as pernas tortas
E se chama Mané"


3. "Pivete", do álbum "Chico Buarque" ou "Disco da Samambaia" (1978)Essa é daquelas em que mais de um Chico aparece. Embora prevaleçam o cronista e o crítico social, o boleiro não deixa de marcar presença. A música, parceria com Francis Hime de 1978 e regravada em 1992, em "Paratodos", relata a vida marginal de trombadinhas nas ruas do Rio de Janeiro. Entre um assalto, um subemprego e uma esmola, as crianças desprezadas pela sociedade vivem para sobreviver sem nenhuma perspectiva de futuro. Quem sabe, se não tivessem oportunidade, não teríamos ali um Pelé ou um Garrincha?

Ouça: Pivete





4. "Pelas Tabelas", do álbum "Chico Buarque" (1984)O cara deve ter aprontado uma boa pra mulher dele, hein! Tanto que, em todo lugar que vai, ele a enxerga lá, pronta para pegá-lo e decapitá-lo (ou coisa pior...). E mais: só ele que sabe dessa situação. “Claro que ninguém se toca com minha aflição”, confessa o desgraçado. Seja da favela, nas janelas ou nas ruas, ele sabe que sua hora vai chegar. Já está até vendo sua “cabeça rolando no Maracanã” feito bola depois de ser degolado pela esposa.

Ouça: Pelas Tabelas



“Quem que te mandou tomar conhaque
Com o tíquete que te dei pro leite
Quieta, que eu quero ouvir Flamengo e River Plate”


5. "Biscate", do álbum "Paratodos" (1993)Outra que relata de forma divertida a relação marido/mulher e, claro, tendo o futebol no meio, é “Biscate”. Duo dele com a saudosa Gal Costa, é feita justamente para duas vozes, uma masculina e outra feminina, reproduzindo 0 conflituoso mas ao mesmo tempo apaixonado relacionamento deste casal típico de classe média carioca. Ciumentos, marrentos, vaidosos, inseguros, implicantes mas, no fundo, amantes. E ele, Chico, que nem flamenguista é, larga uma rima preciosa que combina "leite" com "River Plate".

Ouça: Biscate





6. "Feijoada Completa", do álbum "Chico Buarque" ou "Disco da Samambaia" (1978): Obviamente que é uma cena fictícia, mas chega a dar para vê-la: Chico com a galera da MPB-4, João Nogueira, Paulo César Caju, Bob Marley e outros amigos chegando suados em casa depois de uma pelada do Politheama e pondo a então esposa Marieta Severo pra cozinhar praquele batalhão todo. Caipirinha, cerveja estupidamente gelada, aperitivo, tudo rolando ali mesmo, no chão, e uma feijoada com tudo que se tem direito no fogo. 

Ouça: Feijoada Completa



"Pintei de branco o teu preto
Ficando completo
O jogo de cor
Virei-lhe o listrado do peito
E nasceu desse jeito
Uma outra tricolor”


7. "Ilmo. sr. Cyro Monteiro ou Receita pra Virar Casaca de Neném", do álbum "Chico Buarque de Hollanda nº 4" (1970)O sambista Cyro Monteiro era flamenguista fanático, Tanto que, quando nasceu a primeira filha de Chico e Marieta Severo, Sílvia, ele teve a cara de pau de enviar de presente para o bebê uma camisa rubro-negra para Roma, na Itália, onde a menina nasceu durante o exílio de Chico, só pra zoar com o amigo tricolor. Chico, bem humorado e irônico, respondeu à altura compondo este samba. Cyro foi "tirar uma" e deu nisso: levou uma bola no contrapé.








8. "Jogo de Bola
", do álbum "Caravanas" (2017)De novo, vários Chico fazendo tabelinha. O romântico e o sambista criam uma analogia direta com o jogo nas quatro linhas. Composição do último disco do artista, “Caravanas”, de 2017, em que ele capricha na qualidade letrística para falar de um amor perdido. “Outrora, quando em priscas eras/ Um puskás eras/ A fera das feras da esfera, mas agora/ Há que aplaudir o toque/ O tique-taque, o pique, o breque, o lance.” Olha o que ele fez!

Ouça: Jogo de Bola




“Ai, que saudades que eu tenho
Duma travessura
Um futebol de rua"

9. "Doze Anos", do álbum "Ópera do Malandro" (1978)Essa é bem de boleiro, que cresceu jogando bola na rua e nos campinhos na Zona Sul do Rio. Escrita para o mega-musical “Ópera do Malandro”, de 1978, foi interpretada no palco pelos atores Otávio Augusto (Max Overseas) e Tony Ferreira (Chaves), mas, no disco, tem nada menos que o próprio Chico em duo com Moreira da Silva. O intrépido Kid Moringueira, malandro à moda antiga, arranca gargalhadas de Chico neste samba-de-breque saboroso.

Ouça: Doze Anos






10. "Hino do Politheama", do DVD "Chico Buarque - O Futebol" (2006)No seu documentário sobre futebol, Chico fala da lenda de seu time, o Politheama, nunca ter perdido uma partida. Essa fama foi parar no hino do clube, escrito, claro, pelo próprio atleta, presidente e principal símbolo: “Politheama, Politheama/ O povo clama por você/ Politheama, Politheama/ Cultiva a fama de não perder”. Segundo Chico, em 2006, eram 2600 jogos oficiais disputados - principalmente, no Centro Recreativo Vinicius de Moraes - e nenhuma derrota. Apenas alguns empates.






“Aqui na terra tão jogando futebol
Tem muito samba, muito choro e rock 'n' roll
Uns dias chove, noutros dias bate sol"

11. "Meu Caro Amigo", do álbum "Meus Caros Amigos" (1976)Reza a lenda que “Meu Caro Amigo” foi escrita, como se diz na gíria do futebol, aos 45 do segundo tempo, quando as gravações já estavam chegando ao fim e faltava ainda uma música para fechar o disco. No improviso, como um craque que tem muito recurso, Chico puxou uma caneta, que em poucos minutos trouxe a letra deste chorinho de parceria com Francis. A história era fictícia, mas muito pertinente: uma carta a um amigo exilado – tal como ele, Chico, e família estiveram anos antes por causa da Ditadura – querendo saber notícias do Brasil. Neste contexto, o futebol aparece com certa tristeza, mas também como resistência. O cronista e o boleiro jogando no mesmo time. 



Daniel Rodrigues

Música da Cabeça - Programa #465


Sabe muito esse Lamine Yamal, hein? Além da mensagem política, o 304 da comemoração dele guarda ainda esse outro segredo, só que visto de outro ângulo. É sinal também que o MDC de hoje será especial, tendo Chico Buarque, Stevie Wonder, PIL, Roberto Carlos e mais. Igualmente, um Cabeção sobre Eumir Deodato. Com muita simbologia, o programa vai ao ar às 21h na resistente Rádio Elétrica. Produção, apresentação e orgulho multicultural: Daniel Rodrigues


www.radioeletrica.com


terça-feira, 23 de junho de 2026

Copa do Mundo Joy Division - primeira fase - CLASSIFICADOS

 


Restam 16!

Nossos especialistas em Joy Division até agora não tiveram grandes dificuldades para decidir vencedores. Algum jogo mais equilibrado aqui, outro mais enroscado ali, mas uma ordem bastante clara na hierarquia da qualidade e da ascendência das canções da banda vai definindo tudo com uma certa lógica na Copa Eterna.

Isso até agora! 

Porque agora afunilou. 

Salvando três da compilação Substance e uma do póstumo Still, o resto é dos dois grandes álbuns. Unknown Plasures domina plenamente e só não  colocou três de suas representantes nas oitavas, enquanto Closer, não deixando por muito menos, colocou metade das suas integrantes na próxima fase.
Confira aí todas as classificadas e como os julgadores do ClyBlog definiram os vencedores da primeira fase da 
Copa Joy Division.

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  • Roberto Sulzbach:

Something Must Break x Warsaw: Passa Something Must Break

Decades x Interzone: O confronto mais difícil mas Decades classifica

Novelty x Shadowplay : Dá Shadowplay. Barbada!

Walked in Line x She's Lost Control : O páreo foi bom, mas a favorita She's Lost Control levou.


  • Daniel Rodrigues: 

Insight x Transmission: Transmission ia golear, mas tirou o pé em respeito.

A Means to An EndWilderness: Wilderness passaria, não tivesse pego esse timaço pela frente

Athrocity Exhibitions x The Eternal: Foi, sim, uma exibição de atrocidades. Athrocity passa.

Leaders of Men x All of This For You: O mais parelho, mas deu Leaders


  • Luna Gentile:

Candidate x Twenty Four Hours: Disputa acirrada, foi difícil eliminar um. mas dá Candidate

Disorder x Incubation: Essa foi fácil demais. Disorder passa tranquilo.

Isolation x Colony: Deu Isolation nesse clássico local.

Day of the Lords x Heart and Soul: Passa Day of the Lords


  • Cly Reis:

I Remember Nothing x Dead Souls: Dois grandes times mas I Remeber Nothing vence bem.

Love Will Tear Us Apart x Passover: Dérbi local do Closer! Vitória de uma das grandes favoritas do torneio, LWTUA.

New Dawn Fades x Exercise One: Goleada! New Dawn Fades passa por cima!

Atmosphere x Glass: Glass foi quebrada em pedacinhos por Atmosphere.





C.R.

D.R. 


domingo, 21 de junho de 2026

"Penalidade Máxima", de Barry Sholnick (2001)

 



"Penalidade Máxima" é a versão da bola redonda do clássico da bola oval "Golpe Baixo", sem conseguir no entanto conquistar o espectador como o original. Embora até tenha uma boa montagem, uma edição ágil, alguns elementos de trama mais elaborados, o longa britânico soa duro e sem alma. Vinnie Jones que fora jogador de futebol profissional, não tem o mesmo charme nem o carisma do grande Burt Reynolds e isso faz uma certa diferença em se tratando do protagonista para o prestígio do filme.

Em "Penalidade Máxima", Danny Meehan, um ex-jogador de futebol banido da Liga de Futebol depois de um escândalo de armação de resultados, já aposentado e muito vida-loka, é preso e condenado por desordem, baderna, mau comportamento, desacato e outros excessos, e vai parar num presídio onde o diretor é fã de futebol e quer que seu time de guardas vença uma liga amadora. Para tal objetivo, convida o ex-craque que se recusa inicialmente mas que, ameaçado, chantageado, propõe então uma partida entre os guardas e um time de presos treinado por ele.

Há algumas diferenças em relação ao clássico do futebol americano, uma delas é que o administrador da penitenciária, cheio de dívidas com agiotas, pressionado só aceita a ideia de Meehan de uma partida contra os detentos contando com as apostas no jogo para pagar os devedores. Outra pequena diferença é que em "Penalidade Máxima", o melhor amigo de Danny na cadeia não morre no atentado ao craque na cela. Outra é que na versão do soccer, o ex-craque recorre a um 'mafioso' influente dentro da penitenciária para ter os melhores presos para reforçar seu time que em princípio relutam em se juntar a ele e não ao grupo dos negros da cadeia. Tudo isso sem falar no final verdadeiramente explosivo da nova. 

De resto tudo muito parecido: o guarda antipático e implicante, a secretária bonitinha, o grandalhão burro e violento que será o trunfo de força do time, e aqueles clichês de sempre.

A propósito do brutamontes do time, aquele personagem quase gutural dos filmes anteriores, mantido separado em uma ala à parte por sua periculosidade, em "Penalidade Máxima" o personagem é interpretado por Jason Statham, por quem particularmente não tenho nenhuma grande admiração como ator, mas que considero ter sido mal aproveitado considerando sua projeção é representatividade dentro de seu segmento do cara durão, fodão e tal, utilizado no filme como goleiro, distante da áreas de conflito do campo onde renderia mais encontrões e bordoadas.

Pela plasticidade do jogo de futebol, com seus voleios, bicicletas, pontes e mãos trocadas, peixinhos, lambretas, etc., "Penalidade Máxima" tinha potencial para ser uma boa versão em relação ao esporte norte-americano, mas infelizmente não acrescenta nada. ;ainda mais por ter sido muito bem assessorado sobre o esporte e ter contado com vários ex-jogadores. Atores ruins, personagens mal escritos, desperdício de deixas prontas do outro filme, e ,no fim das contas, um produto que não empolga e não é bom o suficiente para ser lembrado.

Apesar de já ter jogado bola, Vinnie Jones não funciona como astro do filme de futebol,
e o futebol (da bola redonda) não funciona como remake do clássico de futebol americano

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"Penalidade Máxima"
Título Original: "Mean Machine"
Direção: Barry Sholnick
Gênero: Comédia esportiva
Elenco: Vinnie Jones, David Kelly, Jason Statham
Duração: 99min
Ano: 2001
País: Reino Unido
Onde assistir: Pluto TV

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por Cly Reis