Ditadura militar argentina. O governo do General Videla usa a Copa do Mundo como propaganda política, como cortina de fumaça para todos os problemas sociais, como pão-e-circo, e a seleção nacional, se campeã será o símbolo de um país no caminho certo.
Um grupo de agentes do governo, no dia da final da Copa do Mundo de 1978, entre um lance e outro do jogo, um jogo de cartas, uma conferida no placar, a ansiedade pelo resultado, pelo título inédito da Albieleste, tortura jovens rebeldes ao regime em uma instalação afastada de Buenos Aires. Buscam informações a respeito de um suposto grupo revolucionário e não economizam nos métodos cruéis e sádicos para arrancar dos presos a informação sobre a sede do tal movimento rebelde. Eles conseguem o endereço, vão ao tal local, invadem e prendem um grupo nada peculiar em atividades um tanto estranhas para um núcleo subversivo. Pois é... e não era mesmo uma organização insurgente. Informação errada! Tratava-se de um grupo satanista que realizava um ritual que, para azar dos agentes, se completaria, lá, dentro dos muros da ditadura.
Possuídos, os membros do culto, ficam incontroláveis, sedentos de sangue e famintos por carne humana promovendo uma terrível carnificina dentro da cadeia, não fazendo diferenciação entre torturadores e torturados.
Uma figura sobre o verdadeiro mal. O homem e suas ideologias políticas ou o que tememos como demoníaco ou sobrenatural. O que é pior?
Ambas as violências são terríveis e chocantes, mas, em nome do terror, o massacre dos demônios tem mais sangue, tripas e é bem mais impressionante para a telona. A cena em que devotas de satã arrancam o pênis de um dos torturadores é absolutamente brutal e repugnante, só para ficar em um momento desses horripilantes do filme.
No geral, "1978" não é um grande filme, se perde entre a mensagem política e o terror, e a amarração das duas coisas na trama é muito frágil, inconsistente, pouco trabalhada. Vale minimamente pela reflexão que levanta sobre qual é verdadeiro terror, e, para os fãs do gore, do splatter, é claro, vale especialmente pelo horror gráfico e pelo banho de sangue.
Queriam encontrar os 'vermelhos'? Tá aí o vermelho pra vocês.
"...E a rebelde endemoniada tira as bolas do torturador! Que beleza!" Isso sim é que é futebol arte.
porCly Reis
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"1978"
título original: "1978"
direção: Nicolás Onetti e Luciano Onetti
elenco: Agustín Olcese, Mario Alarcón, Carlos Portaluppi
Tá, agora parou a brincadeira! Tirem as crianças da sala que aqui é conversa de gente grande. Se Japão vs. Itália não é um grande clássico no futebol, uma vez que os orientais não tem uma seleção tradicional e os italianos vem de fracassos e ausências recentes em Copas do Mundo, no cinema, pelo contrário, representam duas escolas clássicas e premiadas. E aqui o jogo é ainda maior por conta dos donos do espetáculo. De um lado Akira Kurosawa e do outro o italiano Sergio Leone que numa produção conjunta com Alemanha e Espanha, refilma o clássico do mestre japonês e tentar superá-lo.
Ótimo oponente, por sinal. Somente um especialista em faroestes como Leone para ousar desafiar as sagas de samurais errantes de Kurosawa.
Nos dois filmes, um forasteiro sem origem e sem destino chega a um vilarejo dominado por duas famílias rivais que impõe autoridade, pavor e submissão aos habitantes. O aventureiro percebe a oportunidade de ganhar alguns trocados por ali mas logo, desmandos, crueldades e injustiças fazem com que seu senso de moral fale mais alto que o dinheiro e ele passe a agir em prol dos oprimidos da pequena aldeia, especialmente um casal que é arbitrária e cruelmente afastado de seu filho pequeno.
Com algumas diferenças de andamento e de ação a trama das duas versões é praticamente a mesma. O herói, ardiloso e sagaz, se infiltra nas famílias e as corrói por dentro causando-lhes danos e prejuízos, fazendo com que cada vez mais uma se volte contra a outra.
"Yojimbo, O Guarda-Costas" (1961) vs. "Por Um Punhado de Dólares (1964) - lado a lado
Kurosawa dá um pouco mais de contextualização social, Leone imprime um pouco mais de dinâmica, o preto e branco do primeiro é elegante e salienta os contrastes, o colorido do outro reforça a aridez do ambiente, enquanto o italiano desde cedo sugere que exista alguma questão envolvendo uma família, o japonês só nos apresenta mesmo a situação da criança bem adiante, se o faroeste spaghetti de Leone tem a excitação das balas e dos tiros, a ação samurai tem o balé das espadas. Difícil estabelecer algo melhor...
E o que falar dos craques dos craques de cada time? Toshiro é o equilíbrio na medida certa entre a sobriedade e a intensidade, Clint, aquele personagem incógnito, indecifrável, inabalável.
O time italiano conta com outro craque no time, o maestro Ennio Morricone na batuta, com mais uma trilha marcante, porém o menos conhecido no mundo ocidental, mas não menos competente Masuro Satō não deixa por menos e entrega uma trilha pontual e precisa.
Impossível dar a vitória para um dos dois. Esse é daqueles jogos históricos de Copa, tipo, 5x5. Daqueles duelos que ficam pra sempre na memória do torcedor.
O charme imponente de Toshiro e a tranquilidade impenetrável de Clint. Dois times com matadores como esses só podia resultar num jogo de muitos mortos... digo, quero dizer...muitos gols.
No duelo da espada contra a pistola,
ninguém ficou com a vantagem.
Tudo igual num jogo de craques na beira do campo e dentro dele.
Por essas coisas da vida, no ano passado estive na cidade de Montenegro dando meu curso sobre Cinema Negro na Fundarte, através do Sesc Montenegro, Naquela ocasião, meu irmão Tiago Ritter, montenegrense, sabendo que estava na sua cidade-natal, me manda um áudio de whats dizendo: “Ah, tu tá em Montenegro?! Então, vou avisar uma pessoa que eu conheço, que gostaria muito que vocês se conhecessem, pois admiro vocês dois”. Gol. A pessoa a quem Tiago se referia era Rogério dos Santos, presidente da Central Única das Favelas - Cufa RS Montenegro e a quem ele conhecia não só a pessoa como o trabalho que desenvolvia há bastante tempo.
Pois, passado quase um ano após o curso, sou convidado a participar, integrando um seleto grupo de painelistas, do seminário pertinentemente intitulado: “14 de Maio - O Dia Seguinte. E agora?”, ocorrido nesta data no Teatro Roberto Atayde Cardona, e com a companhia de Leocádia..
Digo “pertinentemente intitulado” porque o seminário, realizado pela Cufa RS Montenegro através do projeto Resgate Negro do Vale do Caí, propõe uma reflexão sobre o que veio depois do 13 de maio de 1888, data da assinatura da Lei Áurea, que aboliu formalmente a escravidão no Brasil. O 14 de maio simboliza justamente o dia seguinte, quando a população negra foi deixada sem reparação, sem políticas de inclusão e sem acesso real à cidadania. Algo que eu exploro em meu curso e que considero o principal ponto de inflexão sócio-histórico da população negra no Brasil.
Para minha satisfação e orgulho, subi no mesmo palco que pessoas de renome nacional e regional, algumas as quais muito admiro, como Celso Athayde, presidente da Cufa Global; o escritor Itamar Vieira Junior; a líder comunitária Rozeli da Silva; e a deusa negra Zezé Motta, com quem, por rápido momento estive e pude entregar-lhe um exemplar do livro da Accirs e registrar uma foto.
A mesa de debate a qual compus foi para tratar do tema: “Raízes Negras da Cultura Brasileira” e que tive a felicidade de dividir com a mãe-de-santo e líder comunitária Cláudia Chu, o professor de música Renato Batista, o músico senegalês radicado no RS Kanhanga e mediação do querido jornalista Marck B. Dentre as preciosas falas do debate, a minha foi na linha da valorização e contextualização do cinema negro no Brasil, considerando os dois pontos de partida: a famigerada Abolição da Escravatura, em 1988, e a criação do cinema, poucos anos depois, em 1895. Isso explica em parte porque, somente nos anos 40 algum eco de cinema sobre as questões do povo negro começaram a ser tratadas na tela grande.
Também teve aquelas que tive o prazer de conhecer e assistir, como a empreendedora Gabi Valente, a advogada Danielle Araújo, a líder comunitária Maira Azevedo e a educadora e filósofa Bárbara Carine, vencedora do Prêmio Jabuti Educação pelo livro "Como Ser um Educador Antirracista" e criadora da louvável escola Afro-Brasileira, na Bahia. Que fala potente e descolonizadora a sua! Daquelas que mexeu com a emoção de todos na plateia. Quem também deu um show – e arrancou ao mesmo tempo gargalhadas e consternação da plateia com sua fala consciente e combativa sobre as mães pretas na sociedade brasileira, foi a comunicadora Tia Ma. Discussões que só um evento deste calibre e força simbólica este pode oportunizar.
Pela manhã, abertura oficial do seminário
Zezé Motta e Rozeli da Silva mediadas por Rogério dos Santos
Nos bastidores com a deusa Zezé Motta, a quem presenteei com um livro da Accirs
Também prestigiei Celso Athayde e seu filho, Vinicius, com quem troquei autógrafos
Itamar Viera Jr. falado sobre sua escrita negra
Nós no debate sobre Raízes da Cultura Negra Brasileira
Trecho de minha participação no seminário
Ao final com os companheiros de debate Marck, Cláudia, Renato e Kanhanga
Foto só sorrisos com Marck B e o idealizador do evento, Rogério dos Santos
O diretor romeno Christian Mungiu recebendo o prêmio principal do festival
Foram conhecidos no último sábado, 23/05, os vencedores da 79° edição do Festival de Cannes. O prêmio principal, a cobiçada Palma de Ouro foi para a produção romena "Fjord", do diretor, Christian Mungiu, um drama moral sobre uma abalada relação entre duas famílias nos fiordes da Noruega. Já o Grande Prêmio foi para "Minoutaur", do russo Andrey Zvyagintsev, e o Prêmio do Júri para "The Dreamed Adventure”, da alemã Valeska Grisebach A edição do festival foi marcada por uma série de empates, inclusive na categoria de melhor direção. Pawel Pawlikowski, por “A terra de meu pai”, e Javier Calvo e Javier Ambrosio, por “La bola negra”, dividiram este reconhecimento, e nas categorias de interpretação, tanto masculina quanto feminina, atores dos filmes "Coward" e "All os a Sweeden", também tiveram igualdade na avaliação do júri.
Confira abaixo, mais detalhadamente, todos os ganhadores:
🎬🎬🎬🎬🎬🎬🎬🎬🎬🎬🎬🎬🎬 Palma de Ouro: “Fjord", de Cristian Mungiu (Romênia)
Grand Prix: “Minotaur”, de Andrey Zvyagintsev (Rússia)
Prêmio do júri: "The Dreamed Adventure", de Valeska Grisebach (Alemanha)
Melhor direção: Javier Calvo e Javier Ambrossi, de “The Black Ball” (Espanha); e Pawel Pawlikowski, de “A terra de meu pai" (Polônia)
Melhor ator: Valentin Campagne e o Emmanuel Macchia, de “Coward”
Melhor atriz: Virginie Efira e Tao Okamoto, de “All of a Sudden”
Melhor roteiro: Emmanuel Marre, de "A Man of His Time"
Camera d’Or: "Benimana", de Marie-Clementine Dusabejambo (Ruanda)
Palma de Ouro de Curta-Metragem: “For the Opponents,” de Federico Luis (Argentina)
Não sou muito de assistir séries ficcionais. Embora todo o sucesso delas nas últimas décadas, tornando-se febre entre os milhões de espectadores cada vez mais caseiros e menos cinematográficos (até mesmo eu, como muitos, tornei-me mais “streameiro” depois da pandemia), confesso que tenho grandes restrições quanto à qualidade desse formato audiovisual. Principalmente da maneira como a indústria do entretenimento convencionou suas regras, claro, muitas a favor da audiência (dinheiro) e, no mais das vezes, inversamente proporcional à proposta conceitual (arte).
Não que filmes não possam ser assim. Muitos o são. Mas séries, enquanto produto audiovisual, estão muito mais propensas e têm muito menos chance de escapar desse buraco negro da indústria cultural. Se não há problema na continuidade, há nas atuações. Se não peca por estender demais a história, erra na abordagem dos fatos. Se não abre muitos leques narrativos, tem dificuldade de sustentar arcos dramáticos em mais de um episódio. Filmes de longa-metragem (aliás, cada vez mais longos, num movimento reativo de serializaçãopelo qual o ameaçado cinema comercial atual passa) não estão salvos desses descaminhos, mas, na comparação filme X série, inegavelmente a obrigatória condensação de conteúdo do primeiro sai em vantagem pelo simples fato de impor formalmente aos realizadores de cinema "tradicional" resolverem essas irregularidades em menos tempo.
De vez em quando, no entanto, claro que arrisco alguma série. Dante do entusiasmo em torno da série brasileira da Netflix “Emergência Radioativa”, bem como por causa de meu interesse no tema do acidente radiológico de Goiás, peguei-a para assistir. A minissérie é baseada na história real ocorrida em Goiânia, em 1987, quando catadores de sucata encontram uma substância brilhante num hospital abandonado. O material altamente radioativo, césio-127, que emitia uma luz azul no escuro, passa de mão em mão até ser descoberto. Então, inicia-se uma corrida contra o tempo para evitar uma tragédia de proporções devastadoras.
“Emergência...”, entretanto, mais uma vez comprova minhas percepções sobre série - as ruins. Estrelado por Johnny Massaro, esse sucesso de audiência perde-se justamente naquilo que mais se exige de qualquer produto audiovisual: a narrativa. Os primeiro e segundo episódios até começam bem. Aliás, muito bem. No inicial, onde se estabelece o perfil narrativo da história, recuperando cronologicamente cada dia que antecedeu e a partir da crise deflagrada, os fatos vão sendo contados de uma maneira bastante instigante. Já o segundo episódio é especialmente interessante, porque espelha as ações levantadas no primeiro, explicitando o tamanho do estrago que causaram. Se na parte 1 aparecia a menina Celeste sendo detectada com radiação, por exemplo, na continuação é quando se vê que ela não só teve muito mais contato com o pó de césio-137 do que se imaginava.
A pequena Mari Langaro como Celeste no colo da mãe
Porém, o formato série paga seu preço, e na terceira parte a consistência narrativa cai drasticamente. E pior: as inconsistências até então relevadas começam a saltar da tela. Ritmo, repetições, atuações deficientes. Uma dessas inconsistências, para pegar a mesma personagem exemplificada anteriormente, é a pequena Celeste. A lindinha atriz mirim Mari Lauredo não sustenta as cenas minimamente mais exigentes por conta de sua fraca atuação e/ou direção. Artificial e sem expressividade. E não só ela. Há momentos importantes da narrativa que perdem muito por causa de más interpretações como estas.
Massaro, senhor de papéis intensos e trágicos (os filmes “Os Primeiros Soldados” e “O Filho de Mil Homens” e a série “Máscaras de Oxigênio não Cairão Automaticamente”), se sai bem, pois conduz a história. Porém, Leandra Leal, ótima atriz, diz mais a que veio na novela caipira da Globo do que na série dramática. Um desperdício. Fora isso, a tecnicamente cuidada produção (a reconstituição daquela Goiás anos 80 é bem crível) não se atenta àquilo que a faria crescer: a história verídica em si. Pela intenção de dramatizar, deixa de perceber que o melhor negócio para atingir esse drama é uma pitada maior de documentário. Sobreviventes da tragédia vem tecendo críticas bem fundamentadas por conta disso.
Demonstrando que sentiu o golpe, nem o desfecho se salva, com uma pretensa comunhão dos afetados, sem, contudo, mencionar a formação da Associação das Vítimas do Césio-137 (AVCésio), criada nos anos 1990. Uma longa luta vem se travando pelos contaminados por seus direitos, que reclamam informações confiáveis sobre seus estados de saúde e sobre os reais riscos aos quais foram expostos, além do direito à assistência social e médica e direito básico de reconhecimento pelo Estado da gravidade de sua condição clínica. Nada disso foi contextualizado, num quase desserviço. Ah, séries: me ajudem a te ajudar...
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trailer da minissérie brasileira "Emergência Radioativa"
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minissérie"Emergência Radioativa"
direção: Fernando Coimbra e Iberê Carvalho
elenco: Johnny Massaro, Paulo Gorgulho, Tuca Andrada, Bukassa Kabengele, Ana Costa
Antonio Saboia, Leandra Leal
gênero: drama, minissérie
episódios:
1: "Um desastre como o Brasil nunca viu" -62 min.
2: "Quando a gente vai voltar pra casa?" - 65 min.
3: "A gente tá bebendo água contaminada?" - 61 min.
É impossível assistir à cinebiografia de algum artista que se admira sem relacionar com a própria vida. Ainda mais aqueles que fizeram parte da SUA biografia. Foi o que me aconteceu vendo "Michael", do cineasta Antoine Fuqua. As lembranças da infância, quando eu, com 4 para 5 anos de idade, ia pra frente da TV dançar igual a Michael Jackson em "Thriller", nos idos de 1982/3, vieram à mente. O icônico videoclipe, que impressionara o mundo inteiro com sua abordagem e qualidade cinematográficas, foi um de impacto gigante para mim à época, um dos primeiros contatos com cultura de massa que aquele pequeno menino negro do Sul do Brasil teve juntamente com os desenhos animados da TV aberta.
Somente este contexto já é suficiente para me aproximar tanto do filme, que reduz minha chance de não gostar. Afinal, o aguardado longa de Fuqua, sucesso de bilheteria, é, sim, apreciável, mas abertamente comercial. Com a direção tecnicamente perfeita e a abordagem pop, como lhe é característico, o cineasta, um dos eminentes negros do cinema norte-americano atual, conta a história do maior astro pop de todos os tempos (interpretado por seu sobrinho Jaafar Jackson) de forma cronológica, porém com um recorte acertado, haja visto que não vai até a sua morte. Pegando do começo da vida artística, ainda criança com os irmãos companheiros de Jackson 5, passando pela ascensão da carreira solo, vai até o fatídico momento em que Michael se desenvencilha do opressor pai, Joe - vivido por Colman Domingo, num papel digno de indicação a Oscar. As belas cenas musicais e o realismo de diálogos ajudam a cumprir bem esse recorte narrativo, que nada mais é do que a escolha central da trama: a conturbada relação de Michael com o pai.
No que se refere a Joe Jackson, cabe uma reflexão sociológica. Afinal, como o histórico de racismo, intolerância e perseguição aos negros nos Estados Unidos gerou pais de família afro-americanos rancorosos, mesquinhos, infelizes e invejosos! E pior: dada a baixa autoestima deles, revoltados com uma sociedade que lhes esmagou e não lhes deu oportunidade de brilharem com seus talentos individuais, usam esses sentimentos somenos, justamente, contra aqueles que deviam amar. É o caso de Joe e o caçula Michael, mas também com outros artistas negros do século 20, como Ike Turner para com a esposa Tina Turner e o pastor C. L. Franklin com sua filha Aretha. Todos psicologicamente doentes e tiranos domésticos. Incapazes de admitir que seus próximos são, sim, astros com mais brilho que eles, entram em rota de colisão e numa cruzada para obscurecê-los. É triste de se ver tamanha perversidade, mas explicável em um contexto maior.
Domingo na pele do perverso Joe Jackson: digno de Oscar
Afora isso, o filme também é incisivo ao apresentar um Michael dono de si e não um artista apenas talentoso levado pela mão por responsáveis como muito se propagou. O empresário John Branca e o produtor Quincy Jones, a quem ele respeitava e admirava, não comandavam, mas, sim, o próprio Michael. Sua consciência de homem preto, inclusive - algo pelo qual também sempre foi duramente criticado em razão do branqueamento da pele e das cirurgias plásticas descaracterizantes - é consistentemente rechaçada na cena em que ele, em 1983, bate pé diante do diretor da sua gravadora para que seu clipe fosse o primeiro de um artista negro a rodar na MTV. E foi.
Para quem acompanhou Michael Jackson desde criança até a fase adulta sabe que muito do que é mostrado faz sentido, mas também que há um cuidado em tratar de temas delicados. Porém, essa é a hora de trazer à tona essas delicadezas, se não, fica estranho.
E é aí que a proximidade de fã com a obra do artista faz com que seja impossível não se notar as lacunas. Quanto mais fã, aliás (e nem sou o maior conhecedor de MJ, repleto de ardorosos apaixonados pelo mundo todo), mais se sabe dos fatos verídicos. E me refiro a lacunas importantes, basais. Em "Michael", um dos assuntos faltantes foi criticado antes mesmo do filme ser lançado: o nebuloso (mas possivelmente verdadeiro) caso de abuso sexual sofrido por ele na infância. Nem uma menção, mesmo que sutil para não escancarar algo tão traumático? Pesa negativamente, uma pena.
Outro ponto faltante: onde está Diana Ross? E Stevie Wonder? Ambos admirações de Michael e com quem ele conviveu, tocou, filmou e gravou. Não foi possível incluí-los no roteiro? Foi uma opção? Há questões contratuais que impeçam? Verba para pagar direitos de imagem duvido que os produtores não tivessem.
O que me pesou também foi a ausência de referência ao filme "O Pequeno Príncipe", de 1974. Falou-se acertadamente de Gene Kelly, James Brown, Charles Chaplin e Fred Astaire, inspirações mais óbvias de Michael. Mas seria importante informar a quem não sabe de onde vieram várias de suas referências coreográficas: da dança da serpente no deserto, brilhantemente coreografada pelo ator e dançarino Bob Fosse. Há gestuais idênticos aos eternizados por Michael, dentre os quais o famoso passo Moonwalk, marca registrada de MJ. Tiveram medo de expor Michael e ferir sua imagem? Embora a clara semelhança da dança de um e de outro, não parece uma mera imitação e, sim, uma forte inspiração, por isso não faria nenhum mal em se revelar isso ao grande público. Ao contrário: traria mais uma das referências pop que a genial cabeça de Michael conseguia reunir e devolver em forma de arte.
A semelhança das danças de Michael Jackson e Bob Fosse
De tudo que não está em "Michael", no entanto, o que mais me ressenti foi não se mostrar com mais detalhe o processo criativo do Rei do Pop ao compor. Há vídeos de matérias jornalísticas que registram esse processo, algo absolutamente fascinante de se ver, ainda mais considerando que ele, dono de ouvido absoluto, não precisava (assim como Elis Regina e Lupicínio Rodrigues) tocar nenhum instrumento para saber exatamente o que queria em sua música. Fuqua opta por evidenciar mais o processo de criação coreográfica - o que faz com perfeição nas cenas de "Beat It" e "Thriller" -, mas dá menor relevância para a invenção musical. No máximo, situa o conceito impulsionador de determinadas canções, como coisas que ele via na TV. Como fã, saí frustrado por isso, pois esperava por mais.
Cinebiografias não são necessariamente completas, é certo. Mas quem vê, por exemplo, "O Tempo não Para", sobre Cazuza, sente falta de se mencionar ou representar Ney Matogrosso, pessoa sabidamente fundamental na vida íntima e artística do autor de "Ideologia". Contudo, não dá para alguém que conhece o objeto do filme fechar os olhos para o que (não) está vendo. Ainda mais, quando se tratam de informações importantes.
Há representatividade e "lugar de fala" na direção de Fuqua, uma vez que somente os tempos atuais deram condições a uma produção dessas ser realizada por um cineasta negro. Para ele, pessoalmente, deve ser uma realização abordar um ídolo formativo. Entendo isso. No entanto, fica por aí a reserva autoral. O final de "Michael", que deixa reticências para uma sequência, fecha a tampa dessa abordagem excessivamente comercial da obra: recorta-a até um ponto bem estipulado, mas, fatalmente, não a desfecha com o impacto que merecia. Como geralmente ocorre, o lado business compromentendo o artístico. Mas para um cineasta que esticou até a inanição uma franquia que começou legal como "O Protetor", não é de se estranhar que ainda produza tantas sequências de "Michael" quanto as de "Velozes & Furiosos". E o público do entretenimento, sem maiores distinções, vai adorar.
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Trailer de "Michael", de Antoine Fuqua
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"Michael"
Direção: Antoine Fuqua
Gênero: Drama/Biografia/Musical
Elenco: Jaafar Jackson, Nia Long, Laura Harrier, Juliano Krue Valdi, Miles Teller, Colman Domingo
A angústia do luto, a não aceitação de uma perda, sempre forneceram tramas intrigantes para o cinema, não sendo incomum histórias dolorosas de pesar andando de mãos dadas com o puro horror. David Cronenberg explorou o tema em seu recente "O Senhor da Morte" (The Shrouds) e "Faça Ela Voltar" (Bring Her Back), novo filme dos irmãos Phillipou, também se enquadra nesse perfil. Aqui, então, 10 exemplos de filmes que mesclam luto e horror.
1 - "Inverno de Sangue em Veneza", Nicolas Roeg (ING, 1973)
2 - "A Troca" ou "O Intermediário do Diabo", Peter Medak (CAN, 1980)
3 - "Dr. Morte" , Errol Morris (EUA, 1999)
4 - "Cemitério Maldito", Mary Lambert (EUA, 1989)
5 - "Os Outros", Alejandro Amenábar (EUA, 2001)
6 - "O Orfanato", Juan Antonio Bayona (ESP/MEX, 2001)
7 - "O Segredo do Lago Mungo", Joel Anderson (AUS, 2008)
- Paul: Isso é bom, eu gosto de surpresas. O que é?
- Jeanne: Música, só não sei como fazer isso funcionar.
Diálogo entre Jeanne (Maria Schneider) e Paul (Marlon Brando) do filme "O Último Tango em Paris"
"O Último Tango em Paris", trilha sonora que Gato Barbieri compôs em tempo recorde seguindo as orientações de Bernardo Bertolucci, é uma imensa suíte em que se destaca o sax áspero e quente de Gato, envolto pelos arranjos de Oliver Nelson à frente de uma orquestra de 32 músicos. Sobra espaço ainda para dois percussionistas brasileiros, Afonso Vieira e Ivanir do Nascimento, o Mandrake, músico há muito radicado na Itália, primo de Pelé.
A trilha foi um fenômeno. Recorde de vendas para um disco instrumental e presença nas programações das rádios. Colocaria a carreira de Gato no seu mais alto patamar. Depois disso, ele nunca faria nada tão relevante.
A morte de Bernardo Bertolucci finalizou um capítulo que se manteve para sempre incompleto e obscuro na história da música e do cinema, envolvendo disputas, ciúmes, invejas, traições e acusações de plágio. O próprio cineasta nunca fez questão de explicar o que houve, tampouco Gato Barbieri, que enveredaria por novos caminhos em sua música, mantendo-se ativo até morrer, em abril de 2016, aos 83 anos.
Rejeitado para a trilha, Astor Piazzolla, morto em 1992, repassaria as duas composições que havia feito para o filme para que fossem usadas noutro longa-metragem, "Cadáveres Ilustres", de Francesco Rosi. Quando "O Último Tango em Paris" foi lançado, chegou a dizer que poderia ter composto uma trilha superior. Para amigos, admitia que gostava muito da gravação de Gato Barbieri.