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domingo, 14 de agosto de 2016

ÁLBUNS FUNDAMENTAIS ESPECIAL DIA DOS PAIS - Elis Regina - "Elis" (1980)







COMUNHÃO



“A vida é boa te digo eu/
A mãe ensina que ela é sábia/
O mal não faço, eu quero o bem/
A nossa casa reflete comunhão.”
da música “Comunhão”,
de Fernando Brant e Milton Nascimento,
criada para o musical Missa de Quilombo, 1982



Meu pai e eu éramos muito ligados. Nem todos os filhos sentem-se assim ligados aos seus pais. Muitos de nós passamos parte da vida lamentando o berço familiar, a descendência e tudo o que existe dentro de uma família.

Comigo não foi assim.

Cresci até os 4 anos com um pai muito feliz, animado e parceiro de aventuras. Cresci no Centro da cidade de Porto Alegre após nascer no Bom Fim. Nas imediações do Centro eu e ele íamos ao parquinho que ficava no Largo da Epatur. Eu viajava nos discos voadores, andava de charrete e montava nos cavalinhos do carrossel. Ele ficava me cuidando e fotografando ao mesmo tempo.

Meu pai curtia revelar as imagens e organizar nos álbuns, que naquele tempo eram feitas em câmera com negativo quadrado e a imagem final dependia das condições técnicas do fotógrafo – ele tinha talento! Todas as fotos aprovadas iam para um álbum-pasta que por anos nos acompanhou. Dono de um gênio forte, por vezes temperamental, sempre se percebia amor nele e alegria nestes momentos.

Assim cresci: parte saindo rumo aos parques, praças e ruas do bairro e por outras tive meus momentos de estar em casa. Lá brincava comigo de gravar a voz. Eu adorava. Vez em quando cantava ou contava do meu dia na escola.

Faz um tempo que recebi uma “cutucada”, como se diz no dialeto estranho das redes sociais, dos editores do ClyBlog para escrever sobre uma das maiores cantoras brasileiras, Elis Regina. O que isso tem a ver comigo e com a minha relação paterna? Tudo! Mas confesso que o convite me deixou atordoada, sem saber por onde começar. Elis está em muitos momentos da minha vida representando transformação.

Eu e Marcelo na abertura da exposição
A Aventura de Criar - Galeiria Duque, maio 2015
Comecei escutando Elis Regina em casa. Meu pai foi seu fã até o dia em que recebeu, junto com milhões de brasileiros, a notícia da sua morte. No auge da carreira artística, quando Elis já havia se consagrado num grande nome da música, uma estrela de maior grandeza. Meu pai não a perdoou por sair de cena tão cedo. Neste período, em plena década de 80, escutávamos sem parar os LPs da Elis em nossa vitrola CCE, que era muito bem equipada com duas caixas de som grandes para uma família de classe média. 

Depois de tantas audições no lar, eu já sabia as letras, os tempos e as paradas que a cantora fazia. Então, apresentava a dublagem nas reuniões de final de ano e nos aniversários à família. E me achava a segunda melhor cantora daquele momento por conta dessa total sintonia que tínhamos. Eu tinha de 7 para 8 anos de idade.

Nunca me rendi somente à voz, mas a toda atmosfera como intérprete que Elis criava para cada canção. A emoção, a quebra das palavras, o respirar das frases, a cadência de cada arranjo tornava cada faixa do LP única. Realmente algumas canções são “inescutáveis” se a intérprete não for Elis Regina.

O LP que mais tocou em mim é este, de 1980, que tem as faixas inesquecíveis: “Rebento” de Gilberto Gil; “Nova Estação“ de Luiz Guedes e Thomas Roth; “O Medo de Amar é o medo de ser livre” de Beto Guedes e Fernando Brant; “Aprendendo a jogar” e “Só Deus é quem sabe”, ambas de Guilherme Arantes; além da arrebatadora “Trem Azul”, de Lô Borges e Ronaldo Bastos, hino em minha vida. Quem escutava Elis recebia a melhor produção musical do momento.

Acervo de Elis da CCMQ
Jornal Zero Hora - 22/09/2005
Fui compreender seu universo e sua enorme contribuição a jovens compositores anos mais tarde, quando, adolescente, lendo matérias, vendo artigos e escutando amigos me dei conta do movimento, da visibilidade e da força que ela deu a uma galera referência até hoje na música brasileira.

O tempo passou e meu pai acabou perdoando a morte de Elis Regina, voltou a escutar sua voz e vez em quando ele comentava: “Mas ela canta como ninguém mais poderia interpretar essa canção!”, e então se recolhia ao silêncio respeitoso de escutá-la.

Em 2005, tive a alegria de ser convidada por Sergio Napp, então Diretor da Casa de Cultura Mário Quintana, a criar o Acervo Elis Regina da CCMQ. Nesta época, mergulhei em todas as informações que recolhemos de acervos doados e de livros editados sobre ela. Lembro-me do impacto que tive com a análise do mapa astral de Elis, por um dos maiores astrólogos do país, Antônio Carlos “Bola” Harres, que anos mais tarde foi meu cunhado e que apresenta a configuração astral de Elis de uma forma que compreendemos os conflitos, o fluxo das emoções e as nuances talentosas da cantora.

Elis era uma mulher com força impulsiva e, ao mesmo tempo, com alta sensibilidade. Opostos atuando sempre ao mesmo tempo. Essa análise me ajudou a compor com os arquitetos Carlos e Lizete Jardim as cores, a atmosfera e a forma de apresentar os conteúdos do Acervo. Nesta época também conheci mais profundamente o repertório de Elis e a sua estreita relação com compositores que embalaram minha mesma infância, tais como: Milton Nascimento/Fernando Brant, Gil, Beto Guedes, Guilherme Arantes, Ronaldo Bastos, Lô Borges, João Bosco/Aldir Blanc, Ivan Lins, entre outros.

Durante todo o tempo de pesquisa sobre o Acervo meu pai me incentivou com orgulho de ver aquela escuta de anos atrás se transformar em um espaço físico homenageando a intérprete e a cantora, que mesmo sendo um dos maiores nomes da música brasileira, se achava brega perto de outras cantoras da sua época, a exemplo de Rita Lee.

Meses após termos aberto o Acervo Eis Regina, fui apresentada por Luiz Carlos Prestes Filho em Porto Alegre a Fernando Brant, compositor e letrista da mais alta qualidade musical e humana. Ele ficou muito feliz com o Acervo, que conheceu numa vista a CCMQ quando estava na fase de implementação da sede da União Brasileira de Compositores na capital gaúcha.  Ficamos amigos.

Eu e Fernando Brant na inauguração do UBC
em Porto Alegre em 2006
Em 2011, numa visita a Belo Horizonte, cidade onde Fernando morava, fomos ao show de Milton Nascimento que abria o novo espaço da cidade. Fazia poucos meses que Fernando havia participado do projeto Coleção Mario Quintana para a Infância, volumes IV e V, realizado por minha empresa Aprata. Todo faceiro com a chegada da Coleção (que levei pessoalmente a ele em agradecimento por tanta generosidade), ele me recebeu com esse convite irrecusável: “Vamos assistir o Bituca, Leo? Ele fará um show no teatro recém-inaugurado aqui após reforma pelo SESC e vai homenagear a Elis. Você tem que estar lá porque vais representar Porto Alegre nesse momento. Vamos?” Como é que eu diria não?

Fomos então direto para o teatro e lá chorei por 90 minutos do show, segurando a mão do Fernando, que emocionado com a audição de suas composições, enchia os olhos de água e dava longos suspiros sorrindo. Um dos maiores presentes que recebi da vida: reunir neste dia os compositores e a carga musical que tenho em minha bagagem relacionada a Elis.

Depois desse dia, só falei com ele por telefone e e-mail. Foi a nossa despedida amiga em grande estilo envolvidos pela atmosfera musical que ele construiu de tanta beleza e com a homenagem à mulher que, segundo ele, foi a maior incentivadora da carreira de todo aquele Clube da Esquina e os outros tantos desgarrados que até então buscavam uma oportunidade para persistir na música.

Quando voltei a Porto Alegre, contei a meus pais e os dois se emocionaram muito com essa vivência em Beagá. Tentei escrever sobre todos estes momentos, mas não conseguia elencar os fatos, porque a emoção me invadia e desorganizava a escrita. Comecei a escrever o texto com meu pai e Fernando ainda vivos. Porém foi somente com a partida de ambos, Fernando em junho de 2015, e meu pai, em junho de 2016, que me senti serena para contar essa história de total sintonia entre nós.

Obrigado meu pai por não proibir a escuta, mesmo doendo demais a ausência de Elis.

Obrigado Fernando por essa amizade inesquecível.

Obrigado Elis por esse sentimento de comunhão, por trazer até todos nós em forma de Arte - essa vibração prateada, brilhante e sonora, que foi sua passagem por esse planeta e que tanto nos liga amorosamente.

Saudade de tudo que vivemos e hoje é memória viva em mim!

Gratidão, Amor e Luz para vocês.


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Elis Regina - "Aprendendo a Jogar" - programa Fantástico (1980)

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FAIXAS:
1. "Sai Dessa" (Ana Terra/Nathan Marques)
2. "Rebento" (Gilberto Gil)
3. "Nova Estação" (Thomas Roth/Luiz Guedes)
4. "O Medo de Amar É o Medo de Ser Livre" (Beto Guedes/Fernando Brant)
5. "Aprendendo a Jogar" (Guilherme Arantes)
6. "Só Deus É quem Sabe" (Guilherme Arantes)
7. "O Trem Azul" (Lô Borges/Ronaldo Bastos)
8. "Vento de Maio" (Telo Borges/Márcio Borges)
9. "Calcanhar de Aquiles" (Jean Garfunkel /Paulo Garfunkel)

faixas bônus do relançamento em CD 
1. "Tiro ao Álvaro" (Adoniran Barbosa / Osvaldo Molles) – Com Adoniran Barbosa
2. "Se Eu Quiser Falar com Deus" (Gilberto Gil)
3. "O que Foi Feito Devera (de Vera)" (Milton Nascimento/Fernando Brant/Márcio Borges) – Com Milton Nascimento
4. "Outro Cais" (Marilton Borges/Duca Leal) – Com Os Borges

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OUÇA O DISCO

quinta-feira, 27 de abril de 2023

Elis Regina - "Falso Brilhante" (1976)

 




Ábuns Fundamentais ClyBlog - Elis Regina - Falso Brilhante
"Você não sente, não vê mas eu não posso deixar de dizer, meu amigo
Que uma nova mudança em breve vai acontecer
O que há algum tempo era novo, jovem
Hoje é antigo
E precisamos todos rejuvenescer"
da letra de "Velha Roupa Colorida"



Acho que ninguém em perfeito juízo discorda de que Elis Regina foi uma das melhores, senão a maior cantora brasileira de todos os tempos. Logicamente, em pleno gozo de minha sanidade, me junto a esse coro quase unânime entre os apreciadores de música neste país. Embora admire seu repertório, é uma artista da qual não domino informações sobre sua obra. Talvez pelo fato de que alguns de seus clássicos  apareçam em maus de um formato, em mais de um álbum, com parceiros diferentes, etc. Tem "Águas de Março", com Tom, sem Tom, ao vivo, no estúdio, alegre, emburrada..; tem "Tiro ao Álvaro", com Adoniram, sem Adoniram, no disco solo, dando risada no do programa de TV; tem "Bêbado e a Equilibrista", bêbada, sóbria, equilibrada, caindo... e nisso, ainda que idolatrando a cada uma dessas versões, cada interpretação, eu sempre tão interessado em datas, set-lists, álbuns,  etc., nunca me esforcei em saber onde se localizavam essas músicas na discografia de Elis Regina.

Só que de uns tempos pra cá, vinha observando a constante referência a um álbum específico e ele, então,  passou a me chamar atenção. "Falso Brilhante" era destacado em sites como um dos melhores discos de Elis, aparecia em listas de melhores discos brasileiros, era mencionado como influência por algum músico da minha preferência, era amplamente reverenciado aqui e acolá, e aí que fui atrás de mais informações sobre o tal disco.

Era o disco de "Fascinação", um dos maiores clássicos do repertório da cantora, numa interpretação inesquecível de uma delicadeza precisa e emocionante. Mas também era o disco de "Como Nossos Pais", o rock de Belchior que tentava dar uma sacudida numa juventude estagnada, e que Elis interpretava com uma força e uma intensidade absurdas. Inigualáveis! Sim era Elis cantando rock! E não era o único: "Velha Roupa Colorida", também  de Belchior, e também sobre atitude, era outra canção carregada de rock'roll e que, igualmente Elis depositava garra, potência, vibração, chegando a rasgar a voz, dando tudo de si, num dos melhores momentos do álbum. Mas há  outros pontos altos: "Gracias a la Vida", de Violeta Parra parece carregar a força da resistência da mulher latina contra os regimes autoritários que prevaleciam aqui e no Chile, terra da autora. Bem como "Los Hermanos", do argentino Atahualpa Yupanqui, uma espécie de convocação à união em nome da mais bela "irmã", a liberdade.

E tem ainda três de João Bosco com Aldir Blanc, "Um por todos", "Jardins de Infância" e "O Cavaleiro e os Moinhos", sempre com a sonoridade rica e aquele tom ácido característico da dupla; e pra fechar ainda, uma versão de arrepiar de "Tatuagem" de Chico Buarque, numa releitura ímpar, na interpretação de Elis.

Alguns afirmam que "Falso Brilhante" seria o disco em Elis que cantava rock, e se formos parar para analisar, não está muito longe da verdade: as duas de Belchior, logo de saída; "Quero", muito Beatles; a releituras de Bosco e Blanc, pungentes e carregadas nas guitarras; e mesmo as duas versões dos hermanos, andinos e platenses, que exploram, combinam e incorporam as alternativas e possibilidades de outros ritmos e nacionalidades, como tão bem costuma fazer o rock'n roll.

Se "Falso Brilhante" é o disco rock de Elis, acho que, possivelmente, deva ser por isso que gosto tanto dele. O brilho verdadeiro de uma estrela. Um diamante cuidadosamente lapidado. Uma verdadeira joia musical.

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FAIXAS:

1. Como Nossos Pais (Belchior)
2. Velha Roupa Colorida (Belchior)
3. Los Hermanos (Atahualpa Yupanqui)
4. Um Por Todos (João Bosco/Aldir Blanc)
5. Fascinação (Fermo Dante Marchetti, Maurice de Féraudy. Versão: Armando Louzada)
6. Jardins De Infância (João Bosco/Aldir Blanc)
7. Quero (Thomas Roth)
8. Gracias A La Vida (Violeta Parra)
9. O Cavaleiro E Os Moinhos (João Bosco/Aldir Blanc)
10. Tatuagem (Chico Buarque)

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Ouça:

Eis Regina - Falso Brilhante (1976)


por Cly Reis

sábado, 12 de outubro de 2013

"A Arca de Noé" - 1 e 2 - Vinícius de Moraes, Toquinho e Convidados (1980/1981)




“A poesia é capaz de coisas que você nem imagina.
Eu sou a porta que o poeta imaginou”
“A Porta”, de Vinicius de Moraes


Numa das conversas que tivemos sobre as nossas infâncias, confessei ao Clayton e ao Daniel, com muita emoção que “A Arca de Noé” é a trilha sonora que eu mais gostava e lembrava a minha primeira infância. Nada em termos fonográficos, nenhum outro disco podia se comparar a “Arca de Noé” e olha que o páreo tinha as obras “Os Saltimbancos”, “Sítio do Pica-pau Amarelo”, "Plunct-Plact-Zum!", “Pirlimpimpim” e o “Grande Circo Místico” só para começar a listinha básica de musicais das crianças que cresceram entre 1973 a 1983.

Na época da Arca, eu, uma guria entre 7 e 8 anos de idade, me divertia com a minha irmã repetindo muitas vezes as canções que minha mãe ajudava a gente a lembrar, porque não tínhamos os LPs. “A Arca de Noé” ficou na minha memória musical depois que assisti ao programa de televisão de mesmo nome exibido no início da década de 80, na Rede Globo. Os registros sonoros se fixaram tão fortemente nas minhas retinas, ouvidos e coração, que por muitos anos, lembrava dos detalhes visuais de cada apresentação. Lembrava dos gestos e dos figurinos/cenografias dos convidados que fazem parte do elenco musical dos volumes 1 e 2.

Eu e minha irmã na época em
que conhecemos "A Arca de Noé"
Muitos anos se passaram e já adulta me deparei com os dois volumes da Arca em CD e relembrei, faixa a faixa, cada poema. As músicas estavam tão vivas em mim que cheguei a apresentar “Corujinha”, da “Arca de Noé 1”, numa audição em 2008 promovida por todos os estudantes da Profª de música Maria Beatriz Noll. Aliás, foi ela também quem me mostrou a versão italiana de “A Casa”, no LP “L´Arca – Canzoni per bambini” a partir da produção de Sergio Endrigo  que reuniu vários intérpretes italianos em versões das canções do volume 1 feitas por Vinícius de Moraes.

Cada vez que escuto a “Arca de Nóe” de Vinicius de Moraes, acompanho em poesia as vozes e a respiração de Milton Nascimento, Moraes Moreira, Alceu Valença, MPB 4, Elis Regina, Frenéticas, Fabio Jr., Boca Livre, Ney Matogrosso, Marina e Walter Franco só para citar os intérpretes do volume 1. O mais interessante é que parte deles já fazia parte do repertório diário que eu colocava na vitrola, após chegar da escola diariamente para fazer meus shows dublados com o som no volume máximo.

A “Arca de Noé” é o último trabalho poético-musical de Vinicius de Moraes lançado nos anos de 1980 e 1981 – este último, póstumo. Em entrevista ao jornalista Tárik de Souza, o produtor Fernando Faro reafirma que Vinicius trabalhou até pouco antes de morrer. “Na madrugada em que se foi, vertia do italiano para o português os poemas da Arca. E cobrava de mim: ‘Faro, me dá logo esse treco!’. Ele respirava esse disco, atento a todos os detalhes”, conta o produtor dos shows e dos álbuns da dupla Toquinho-Vinicius.

No volume 2, alguns intérpretes se repetem, mas as participações de Fagner, Jane Duboc, Elba Ramalho, Grande Otelo, Clara Nunes, Céu da Boca e Paulinho da Viola são muito especiais, diversificando os temas e os gêneros musicais.

A poesia de Vinicius é tão imensamente bela e se ampliou tanto na voz desses intérpretes que  está na memória de crianças, jovens e adultos por sua qualidade, irreverência e pureza. A poesia d’“A Arca de Noé” é capaz de coisas que você nem imagina, como, por exemplo, reencontrar a sua criança toda a vez que a escuta. Experimente.

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FAIXAS - "Arca de Nóe 1":
1 - A Arca de Noé-Abertura - Chico Buarque e Milton Nascimento
2 - O Pato - MBP 4
3 - A Corujinha - Elis Regina
4 - A Foca - Alceu Valença
5 - As Abelhas - Moraes Moreira
6 - A Pulga - Bebel
7 - Aula de Piano - Frenéticas
8 - A Porta - Fábio Jr.
9 - A Casa - Boca Livre
10 - São Francisco - Ney Matogrosso
11 - O Gato - Marina
12 - O Relógio - Walter Franco
13 - Menininha - Toquinho
14 - Final - Instrumental

FAIXAS - “Arca de Noé 2”:
1 - Abertura - A Arca de Noé - Dionísio Azevedo
2 - O Leão - Fagner
3 - O Pinguim - Toquinho
4 - O Pintinho - Frenéticas
5 - A Cachorrinha - Tom Jobim
6 - O Girassol - Jane Duboc
7 - O Ar (O vento) - Boca Livre e Vinicius de Moraes
8 - O Peru - Elba Ramalho
9 - O Porquinho - Grande Otelo
10 - A Galinha d'angola - Ney Matogrosso
11 - A Formiga - Clara Nunes
12 - Os Bichinhos e o Homem - Céu da Boca
13 - O Filho Que Eu Quero Ter - Paulinho da Viola

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quinta-feira, 7 de maio de 2020

Rita Lee - "Lança Perfume" (1980)



“Se Deus quiser um dia eu viro semente
E quando a chuva molhar o jardim, ah, eu fico contente
E na primavera vou brotar na terra
E tomar banho de sol, banho de sol, banho de sol, sol.”
Rita Lee, da música "Baila Comigo"

São poucos os discos que sei as letras de cor e as canto corretamente, ou seja, como ela foi escrita. Geralmente curto a melodia em alguns, noutros sei parte da letra e na maioria das vezes troco a letra de todos e invento harmonias paralelas de vozes e sons ao que estou escutando. Cresci assim e já aceitei que é uma maneira pessoal minha de escuta.

Porém, o disco “Lança Perfume” é um desses discos que faz parte da minha história musical de vida. Ganhei o LP por muita insistência. Enchi o saco da minha avó paterna Hedy que, depois de vencida, deixou uma quantia alta na loja de discos dentro de um supermercado, que ficava na rua em que morávamos, em meados dos anos 80. Eu estava fazendo aniversário de 7 anos e esse foi o meu presente. Um LP recém-lançado da Rita Lee! Isso era uma fortuna numa época em que LPs eram um investimento alto para famílias de classe média. Minha avó, católica e muito reservada a determinadas sonoridades, ficou chocada quando um dia entrou na nossa casa e me viu cantando a faixa-título “Lança Perfume”. Comentou com a minha mãe: “Mas, Tia Anita, ela está cantando uma música que diz 'de quatro no ato'?!” Constrangida por não ter sabido o conteúdo das canções e ter me dado o LP, teve a resposta da minha mãe Anita, que sempre foi libertária e ousada: “ Posso imaginar o choque da vó, pois, um ano antes, ela havia me dado o disco do Pde. Zezinho!

Agradeço até hoje o presente da vó, porque, lá em casa, o LP se tornou a playlist das nossas manhãs. Minha irmã, que é 4 anos mais nova do que eu, também capricorniana como a Rita, recorda até hoje com alegria que praticamente furamos o bolachão de tanto que escutávamos. Ele passou a ser utilizado em playback em festas de aniversário da nossa família e nas festas de Natal, sempre com aplausos entusiasmados dos familiares.

A Rainha do Rock Brasileiro, que comemora 40 anos
de seu "Lança Perfume"
Cada canção para mim é como um hit, está no universo imaginário da minha geração e estourou em mercados da América do Norte e Europa. Imaginem: estamos falando de 1980 e, nessa época, o mundo era menos interligado, não tínhamos essa rapidez de comunicação e nem as plataformas compartilhadas para promover os discos. Mesmo assim, é indissociável pensar em música nos anos 80 sem citar esse disco da Rita. Ela é a roqueira que nos representa desde antes e desde então.
Quando soube essa semana de uma LIVE BATE PAPO sobre os 40 anos desse LP, que acontecerá hoje, 07/05, às 19h30, no @litaree_real, mediado por Guilherme Samora (que assessora a Rita faz uns anos) e com as participações de Mel Lisboa (que fez a Rita no teatro) e outros convidados, tais como Pedro Bial, Rita Cadillac e Ronnie Von, minha vivência emocional com esse disco veio à tona e então decidi compartilhar com vocês.

Elis com o figurino inspirado
em Rita Lee
Rita Lee sempre foi um exemplo para mim e tenho a gratidão de através dos anos de escuta e de leitura (com os livros que ela tem lançado recentemente) saber mais das ideias, da vida e do que é essencial para ela. Rita com seu talento revolucionou a história da música brasileira, inspirou artistas e mulheres da sua geração e me inspira diariamente. Faz uns anos soube que Elis Regina teve uma amizade muito íntima com ela quando foi morar e produzir em São Paulo. Em uma entrevista, Elis disse ter visto Rita “lamber o microfone” e completou: “Passei anos da minha vida com vontade de fazer isso e com medo de ser eletrocutada”. Há também uma história sobre o figurino do último show de Elis, que foi copiado do figurino que é capa desse LP: o macacão transpassado com plissado. Elis viu Rita vestindo-o e ficou louca para ter um igual, porque Rita tem essa porrada de estilo saindo por todos os poros. Elis vestiu um macacão semelhante assinado por Clodovil em “Trem Azul”, seu último show, em 1981, realizando a vontade de chegar próxima a estética da Rainha do Rock Brasileiro.

Eu continuo escutando e lendo Rita. Uns anos atrás, quando adotamos uma gatinha ruiva que chegou em nossa casa para nos dar muito amor e alegria, imediatamente pensei em Rita e ela ganhou o nome de Lee, que já se foi para colorir o céu dos lovecats. Rita é parte de 40 anos da minha existência e isso é muito forte e lindo. Quero continuar tendo saúde para gozar no final e, quem sabe, fugir para Shangrilá com o meu Roberto de Carvalho (Daniel Rodrigues) e brotar para um banho de Sol divino!



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FAIXAS:
1. "Lança Perfume" - 05:15
2. "Bem-Me-Quer" - 04:19
3. "Baila Comigo" (Rita Lee) - 05:30
4. "Shangrilá" - 02:53
5. "Caso Sério" - 05:31
6. "Nem Luxo, Nem Lixo" - 05:05
7. "João Ninguém" - 03:38
8. "Ôrra Meu!" (Rita Lee) - 03:56
Todas as composições de autoria de Rita Lee e Roberto de Carvalho, exceto indicadas

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OUÇA O DISCO:
Rita Lee - "Lança Perfume"

Leocádia Costa

domingo, 5 de julho de 2026

A Seleção do Gil

 


Não tem ninguém na música brasileira que seja tão identificado com futebol do que Gilberto Gil. Duvida? Então diz aí alguém que torce para vários times ao mesmo tempo como ele. Além do Bahia, seu time, digamos, "natal", Gil tem como característica ter um clube em cada Estado brasileiro. No Rio de Janeiro, é Fluminense; em São Paulo, Santos; no Rio Grande do Sul, veste a camiseta gremista; em Pernambuco, a do Santa Cruz e assim por diante. 

Quando se trata de Seleção Brasileira, então, aí o velho baiano se delicia. Tanto que essa paixão pelo esporte bretão está em várias músicas do cancioneiro gilbertiano. Desde os primeiros anos de carreira até os dias atuais, Gil traz o futebol entremeado à sua faraônica musicalidade. Por isso, com o Brasil avançando de fase na Copa do Mundo, assim como já fizemos com Jorge Benjor e Chico Buarque rodadas atrás, agora é a vez de escalarmos as 11 músicas de Gil, sejam para sua própria voz ou para a de outros artistas, sejam composições de sua autoria ou de outros. Independentemente de quem cante ou compõe, é a arte maior de Gil subindo neste palco de quatro linhas feito de grama. 

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"No tempo que Lessa era goleiro do Bahia
Um goleiro, uma garantia"







1. "Tradição", do álbum "Realce" (1979): Considerada uma das obras-primas de Gil, admirada por colegas como João Bosco e Caetano Veloso, “Tradição”, de “Realce”, de 1979, é uma verdadeira crônica soteropolitana feita de reminiscências do Gil de sua infância. Numa narrativa que lembra Jorge Amado, são contadas, pelo olhar da observadora criança, diversas situações da cidade, como a discriminação racial, o comportamento social e... o futebol, quando Gil refere-se ao arqueiro Walter Lessa, multicampeão pelo seu Bahia entre 1947 a 1950. Já que estamos falando do camisa 1, nada melhor para começar essa lista com o goleiro.

Ouça: Tradição










2. "O Bom Jogador", do álbum "O Viramundo - Ao Vivo" (1972-1998): Música da entressafra do Gil pós-exílio, “O Bom Jogador” fazia parte do repertório que ele levava para os diversos shows que fazia em pequenos teatros no início dos anos 70 após retornar de Londres. Não entrou em nenhum disco na época, vindo a aparecer apenas na caixa com sobras de 1998 e, posteriormente, no registro de show na USP em 1973, lançado nos anos 2000. Na curta letra, uma máxima futebolística: “O bom jogador não engana a geral”.

Ouça: O Bom Jogador



"Viva Pelé do pé preto
Viva Zagallo da cabeça branca"






3. "Abre o Olho", do álbum "Gilberto Gil Ao Vivo" ou "Ao Vivo no Tuca" (1974): Não se trata de uma música necessariamente sobre futebol. Aliás, está mais para uma viagem lisérgica e filosófica de um homem frente a frente consigo mesmo diante do espelho. Mas o refrão não pode ser mais futebolístico - e nem tão emblemático: combinação de talento e "consumição" que deram ao Brasil os títulos mundiais de 1958 e 1970, representadas em Pelé e Zagallo, os quais, segundo Gil, "dão o sentido de contradição e complementaridade yin-yang; um é África, o outro, Europa”.

Ouça: Abre o Olho











4. "Samba Rubro-Negro (O Mais Querido)", com Germano Mathias, do álbum "Antologia do Samba-Choro" (1979)
: Prova de que Gil gosta mesmo é de futebol e não dá bola para rivalidades clubísticas é que ele também exalta seus adversários, caso de “Corintiá”, que ele grava, em 2010, mesmo sendo, em São Paulo, santista. A mesma coisa acontece com o rival de seu Fluminense no Rio, o Flamengo, para o qual ele grava, no seu desconhecido e raro disco “Antologia do Samba-Choro”, feito em parceria com o cantor e compositor paulistano Germano Mathias em 1978, “Samba Rubro-negro (O Mais Querido)”, de autoria de Wilson Batista e Jorge de Castro.

Ouça: Samba Rubro-Negro



"Magos da bola na Cidade Luz
Fazem milagres, transmutações
Dores e horrores que a vida produz
São transformados no balé da bola
Suor e sangue no balé da bola
Crime e castigo no balé da bola"




5. "Balé da Bola (Copa 98)", do single "Balé da Bola - Copa 98" (1998): Quando Gil inventa de compor sambas-enredo sempre sai coisa muito boa. Foi assim com “De Bob Marley a Bob Dylan, Um Samba-Provocação” e “Quilombo, O Eldorado Negro”. Para a Copa do Mundo de 1998, na França, o jornal O Globo contratou-o para compor um tema, que se tornaria na prática o tema daquela fatídica Copa em que o Brasil foi vice-campeão. Mas a música é uma maravilha, de alto poder poético e embalada ao ritmo de uma escola de samba. Só o olhar dele para ter tamanha arguição de ver que “Quando a seleção marcar um gol” serão séculos e mais séculos de nossa história, e que o mesmo vem desde os tupis e passa pela China, Grécia ou na França medieval. É muito craque!

Ouça: Balé da Bola










6. "Trinca de Ases", com Nando Reis e Gal Costa, do álbum "Gil, Nando & Gal - Trinca de Ases - Multishow Ao Vivo" (2018): Composta por Gil especialmente para o projeto deste nome em que ele divide "as quatro linhas" com Gal Costa e Nando Reis, a música faz analogias com o “estilo de jogo” de cada um. Ele, mais maduro, faz um jogo seguro e paciente. Nando, mais jovem, é “impetuoso e viril”. Já a “moça”, por sua vez, “corre livre”. Afinal, quem tem Gal no time tem que passar mesmo a bola pra ela e deixá-la fazer o gol. 

Ouça: Trinca de Ases



"Moleque saci
Saci-pererê
Um gol de Pelé
Que é pra gente ver"





7. "Saci Pererê", com Banda Black Rio, do álbum "Saci Pererê" (1980)
: Assim como "Meio de Campo", é dessas pérolas escritas por Gil para outros artistas, e que casualmente também trata de futebol. Neste caso, a música foi encomendada para a Banda Black Rio, grupo que Gil homenageara em “Refavela” (1977). Para o terceiro e último disco da Black Rio com a formação clássica, o baiano compõe esse reggae, que se tornaria nada menos que a faixa-título e no qual faz referência a um talentoso e intrépido moleque negro brasileiro que, embora perneta, joga muito melhor do que vários “pernas-de-pau” com os dois membros inferiores. Dê-se a camisa 7 pra esse atrevido atacante.

Ouça: Saci Pererê











8. "Meio de Campo", com Elis Regina, do álbum "Elis" (1973)
: Impossível haver combinação melhor: a maestria da composição de um dos maiores compositores da MPB feita para a voz da maior cantora do Brasil. Elis Regina eterniza este samba cheio de suingue, que desafia a Ditadura ao falar em forma de carta endereçada ao polêmico Afonsinho, um dos mais politizados e engajados jogadores do futebol brasileiro dos anos 70. Gil admite na letra que não é “Pelé nem nada”, e que, se muito for, é “um Tostão”. Se Chico Buarque é nosso Pelé na música, não é nenhum demérito a Gil ser um Tostão, não!

Ouça: Meio de Campo









9. "Balé de Berlim", do single "Balé de Berlim" (2006): O Brasil pode não ter ganhado em 1998, mas que a ideia de Gil compor tema da Copa deu certo, ah! Isso deu. Tanto que o baiano foi chamado novamente para a mesma empreitada, só que então para a Copa do Mundo de 2006, na Alemanha. “Balé de Berlim” repete melodia e o clima de samba com letra atualizada para a ocasião e, desta vez, Gil convoca para fazer tabelinha com ele Zeca Pagodinho. Se, assim como na França, a música de Gil não deu a sorte que a Seleção precisava, ficou para a eternidade, ao menos, mais um belo tema dele sobre futebol.

Ouça: Balé de Berlim


"Alô, torcida do Flamengo
Aquele abraço!"






10. "Aquele Abraço", do álbum "Gilberto Gil" (1969): Gil estava com um pé no aeroporto rumo ao exílio forçado na Inglaterra por causa do Governo Militar, mas não sem antes deixar seu manifesto. E, claro, um manifesto com a sua cara: poético, resistente e em forma de samba de breque. O clássico "Aquele Abraço", além de tudo, põe o futebol no contexto político-social do País, chamando para sua celebração de resistência a "torcida do Flamengo", o que significa, como a própria expressão se popularizou, convocar o "todo o povo brasileiro". Música nota 10, merece a camisa 10!

Ouça: Aquele Abraço









11. "Campeão dos Campeões", com Os Doces Bárbaros, do álbum "Doces Bárbaros Bahia" (2000): A partir de um projeto encabeçado por J. Veloso, um dos irmãos de Caetano e Maria Bethânia, os Doces Bárbaros (que inclui, obviamente, ainda Gal e Gil) se reuniram para gravar um disco com versões de hinos e música em homenagem ao Sport Club Bahia. A Gil coube esse reggae de autoria de Zé Pretinho, Raquel e Bezerra da Silva – que, embora super ligado à malandragem carioca, era, na verdade, baiano. Quanto a Gil, este sim, não há dúvidas: por mais que vista a camiseta de outros clubes, na verdade, ele é mesmo "Baêah"!

Ouça: Campeão dos Campeões


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Daniel Rodrigues