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terça-feira, 8 de julho de 2025

Claquete Especial Mês da Luta Antirracista - "A regra é o respeito"*

 

O competente e precursor De e seu Dogma Feijoada
Em 2000, o cineasta paulista Jeferson De, em colaboração com outros realizadores negros, lançava, durante o 11º Festival Internacional de Curtas de São Paulo, o chamado Dogma Feijoada, marco daquilo que se pode chamar de cinema negro brasileiro moderno. Embora a prática do audiovisual entre realizadores negros no Brasil se dê de muito antes, o movimento em si ainda parece bastante válido 25 anos após seu lançamento. De – que posteriormente prosseguiria contribuindo com a própria ideia de um cinema feito por negros com filmes como “Bróder”, de 2011, e “Doutor Gama”, de 2021 – apresentava um programa composto, além de outras atividades, pelo manifesto Gênese do Cinema Negro Brasileiro. Em referência ao Dogma 95, criado pelos cineastas europeus Thomas Vinterberg e Lars Von Trier cinco anos antes e que defendia a necessidade de produções mais realistas e menos comerciais, o Dogma Feijoada interrogava uma urgência histórica bem mais doméstica: “o que entendemos como cinema negro brasileiro?”

Dentre as diretrizes e exigências do manifesto, havia sete “regras” para a produção de um cinema negro: (1) o filme tem de ser dirigido por realizador negro brasileiro; (2) o protagonista deve ser negro; (3) a temática do filme tem de estar relacionada com a cultura negra brasileira; (4) o filme tem de ter um cronograma exequível. Filmes-urgentes; (5) personagens estereotipados negros (ou não) estão proibidos; (6) o roteiro deverá privilegiar o negro comum brasileiro; e (7) super-heróis ou bandidos deverão ser evitados.

Tal como devem ser os manifestos políticos, o Dogma Feijoada trouxe o tema à tona de forma abertamente impositiva. Não haveria de ser de outro jeito. Afinal, estava-se, naquele momento, virada do século 20 para o 21, resgatando não apenas uma fatia econômico-produtiva dentro de uma indústria há muito existente no Brasil. Mas, sim, estava-se, ao menos no setor audiovisual, recuperando séculos de total desumanização de um povo pela prática da escravidão e outros quase 120 anos de sequestro intencional e deliberado da mão de obra negra após a Lei Áurea, de 1888, e o projeto estatal de embranquecimento e substituição dos “ex-escravos” por imigrantes europeus brancos.

"Kasa Branca!, dos exemplos da nova safra do
cinema preto brasileiro
Passadas mais de duas décadas desde a provocação de De e sua turma, a boa notícia é que, sim: avançou-se de lá para cá em termos de produção negra no cinema nacional. Senão em todos, pelo menos em vários dos requisitos elencados. Quando a Dogma Feijoada foi parar no estômago do cinema brasileiro, algumas ações na direção de uma maior equidade de oportunidades e compensação histórica estavam sendo preparadas. No Senado Federal, consolidava-se, também em 2000, o Comitê Permanente pela Promoção da Igualdade de Gênero e Raça. Naquele mesmo ano, a Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro aprovava uma lei que reservava metade das vagas das universidades estaduais para estudantes de escolas públicas, semente do que resultaria na exitosa Lei de Cotas, conhecida também como Lei 12.711, aprovada em 2012. 

A realidade do audiovisual brasileiro mudou bastante, principalmente a partir de então. Mas é fato que ainda insuficiente para dar conta da demanda reprimida da comunidade negra. Em 2024, a Cinemateca Negra realizou um levantamento inédito, que mapeou 1.104 filmes dirigidos por pessoas negras no Brasil desde a década de 1940. O estudo revelou que 83% dessa produção surgiu, justamente, entre 2010 e 2020. Contudo, essa parcela representa somente 10% dos filmes brasileiros lançados no mesmo período.

Hoje é possível se verem filmes como “O Dia que te Conheci”, de 2024, dirigido pelo cineasta negro André Novais Oliveira e realizado pela produtora mineira Filmes de Plástico, que privilegia em suas produções personagens negros da vida real, ou seja, longe de se passarem por “super-heróis ou bandidos”. A “urgência” se evidencia ao abordar o tema da depressão e das pressões da vida social, enquanto o item da “cultura negra”, outra exigência posta em manifesto, está inserido de forma naturalizada em seus protagonistas, que tentam existir na cidade com suas ancestralidades e bagagens pessoais.

O tocante "O Dia que te Conheci": cinema negro 
em essência e na prática

Outro título emblemático para o novo cinema brasileiro é “Marte Um”, de 2022, também da Filmes de Plástico, este, dirigido pelo igualmente cineasta negro Gabriel Martins. Ao natural, também atende a todos os predicados ditados pelo Dogma Feijoada: protagonismo negro atrás e na frente da tela, representação da vida de pessoas comuns, questões sociais imperiosas, quebra dos modelos preconcebidos, projeto exequível. E o mais importante: ambos são histórias bem contadas, humanas, tocantes, que aproximam tanto o público negro da tela quanto demonstra a realizadores afrodescendentes que, sim, “nós podemos” realizar um cinema honesto e de qualidade sobre as nossas coisas.

Bulbul, figura essencial para o
cinema negro no Brasil
Se “O Dia que te Conheci”, “Marte Um” e outros filmes da atualidade (como “Kasa Branca”, “Mussum - O Films” e “Othelo, O Grande”) representam o objetivo traçado anos atrás, é evidente que, para se chegar a tal estágio, muito se precisou caminhar. Precursores do cinema negro brasileiro, como Cajado Filho e Haroldo Costa, tiveram em Zózimo Bulbul, Adélia Sampaio, Odilon Lopes e Joel Zito Araújo, principalmente, a consolidação de um cinema preto no Brasil. 

No entanto, o que pareceu escapar à ambição momentânea do grupo do Dogma Feijoada é um dos gargalos do cinema nacional atualmente: como distribuir e onde exibir tais produções? Como fazer esse cinema tão importante para a autoidentificação de um país chegar ao público de interesse? Numa busca na internet por alguns títulos nacionais que tratam das questões do negro, como “Todos Somos Irmãos” (1949) ou “Quilombo” (1984), é possível encontrá-los disponíveis no Youtube. Porém, vários outros, principalmente os mais recentes, somente nos streamings – e de forma paga. 

Com salas de cinema cada vez mais escassas, iniciativas como a 1ª Mostra de Cinema Negro na Escola, que ocorre até dia 11 na Cinemateca Capitólio, em Porto Alegre, são louváveis. Com sessões gratuitas e uma seleção de filmes negros brasileiros, a iniciativa irá exibir filmes com temática afro-brasileira para estudantes e professores de 50 escolas estaduais e municipais da capital e da região metropolitana, atingindo cerca de cinco mil alunos e docentes.

Em um mês marcado por várias datas de combate ao racismo (Dia Nacional de Combate à Discriminação Racial, 3, Dia Internacional Nelson Mandela, 18, Dia Internacional da Mulher Negra Latino-Americana e Caribenha e Dia Nacional de Tereza de Benguela e da Mulher Negra, 25), é fundamental que iniciativas e programas públicos como este fomentem a exibição de produções pretas como forma de ampliar o acesso ao que realizadores negros têm a dizer e ao que os olhares (sejam pretos ou não) têm a enxergar. Aproximar o público daquilo que lhe interessa e pertence. A visibilidade das histórias e contribuições da comunidade negra deve proporcionar um espaço de reflexão e diálogo, tão fundamental a uma sociedade democrática que se pretende igualitária. E sem que se precise enumerar regras para isso, como a bem pouco tempo. Oxalá a única regra seja ditada por apenas uma sentença: respeito. 

*artigo originalmente publicado no Segundo Caderno do jornal Correio do Povo em 27 de junho de 2025


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Daniel Rodrigues


quinta-feira, 1 de agosto de 2024

Aula “Cinema Negro”, por Daniel Rodrigues - Curso “História e Linguagem do Cinema Internacional” (11/07/2024)

 

Mais uma experiência de cinema que vivencio com muita alegria: ministrar uma aula. Pra quem alimenta o desejo da docência há algum tempo, esta ocasião, ocorrida neste mês de julho, foi realmente especial. Convidado por meu amigo e colega de profissão, de crítica de cinema e de Accirs, Danilo Fantinel, dividi um pouco de meus conhecimentos e entendimentos sobre “Cinema Negro” dentro da programação do curso “História e Linguagem do Cinema Internacional”, ministrado por ele desde abril de forma híbrida.

Além do meu módulo, o curso, em andamento, compreendeu outros 26 no total, trazendo temas como: “Do primeiro cinema à linguagem clássica” ou “Som no cinema, era de ouro de Hollywood e gêneros cinematográficos”. Também tiveram, assim como eu, outros convidados, como meus também colegas de Accirs Fatimarlei Lunardelli (“Cinema Novo”), Rafael Valles (“Cinema Argentino”) e Ivonete Pinto (“Cinema Marginal e Cinema da Boca”) - fora outras que ainda estão ocorrendo.

O anárquico "Touki Bouki", do Senegal

Em minha exposição online, na qual participou um pessoal super interessado e amante do cinema como eu, pude falar um pouco sobre o cinema produzido por realizadores negros e/ou obras com relevante temática de questões da negritude tanto da África quanto dos Estados Unidos e do Brasil. Contextualizando o processo histórico do povo preto nestes três continentes – africano, norte-americano e sul-americano –, busquei levantar o percurso histórico, sociológico, político e cultural que levou a chegar nesta produção audiovisual tão resistente quanto rica, destacando características formais e estéticas e principais realizadores, que formam aquilo que se pode chamar de “cinema negro” – com suas diferenças, peculiaridades e interinfluências.

Lee e Burnett: grandes nomes do
cinema negro dos EUA
Dentre os títulos, filmes africanos precursores do cinema daquele continente, como o rascante "A Negra De...", do "pai do cinema africano", o senegalês Ousmane Sembène, o pop mais não menos crítico "Touki Bouki", Djibril Diop (1973), também do Senegal, e "Sambizanga", da cineasta angolana Sarah Maldoror (1972), corajoso filme político em um país pré-independência e em guerra. 

Dos norte-americanos, não poderia se deixar de falar da galera da L.A. Rebellion, que revolucionou o cinema dos Estados Unidos nos anos 70, tendo como nome central o diretor Charles Burnett e, claro, um dos maiores cineastas vivos: Spike Lee, autor de obras fundamentais para a discussão da questão negra em seu país como "Faça a Coisa Certa" (1989) e "Malcom X" (1992). Já do Brasil, Zózimo Bulbul, Odilon Lopez, Joel Zito Araújo e Adélia Sampaio, pioneira entre as mulheres negras, estiveram no papo, assim como alguns dos não-negros idelogicamente comprometidos com a temática negra, como Nelson Pereira dos Santos e Cacá Diegues.

O excepcional "Alma no Olho", de Zózimo Bulbul (1974)

Ao que pude ter de retorno imediato tanto de Danilo – que acompanhou toda a aula, ajudando a mim na condução e na orientação da turma – quanto de uma parte considerável dos alunos – dentre eles, meu amigão Rodrigo Dutra, o homem por trás do Rodriflix e colaborador extraordinário deste blog –, o conteúdo e a didática agradaram. Quem sabe não venham mais aulas por aí?


Daniel Rodrigues


segunda-feira, 6 de dezembro de 2021

II Festival de Cinema Negro em Ação - Longas-Metragens

 

Tive a satisfação de participar, pelo segundo ano consecutivo, do Festival Cinema Negro em Ação, que é realizado com muita garra pela competente cineasta Camila de Moraes juntamente à Casa de Cultura Mario Quintana (CCMQ) e Instituto Estadual de Cinema (Iecine). Como já abordei noutras ocasiões, o festival tem uma importância singular no cenário audiovisual gaúcho e brasileiro por sua simbologia e ação. Particularmente, por meio da ACCIRS, tive o prazer e a felicidade de ser novamente convidado a integrar o corpo de jurados, desta vez na seleção de longas-metragens.

"Trem do Soul": a história dos bailes
negros dos anos 70/80
Iniciado no Dia da Consciência Negra, a segunda edição do evento, teve este ano ainda maior relevância, tanto por sua resiliência quanto por integrar as comemorações pelo cinquentenário do 20 de novembro. Em um formato híbrido, o festival ocorreu durante uma semana com programação na grade da TVE-RS e do Prime Box, na Cinemateca Paulo Amorim e na plataforma Cultura em Casa, da Secretaria da Cultura e Economia Criativa do Estado de São Paulo.

Se o primeiro festival, juntamente com todas as vozes que reverberam o protagonismo negro em Porto Alegre, marcou lindamente uma trajetória que começa a se consolidar, ao mesmo tempo também foi maculado pelo terrível assassinato de João Alberto horas antes da estreia, desviando por força maior o foco das manifestações. Manifestações de luta, mas de revolta e não artísticas. 

Este ano, impossível não lembrar deste episódio, mas também – como é característica do povo negro – novos passos de superação foram dados. Em resposta, o próprio festival representa um marco nas políticas afirmativas das instituições envolvidas, resultado de um programa de inclusão e representatividade que aposta no audiovisual como um caminho de desenvolvimento econômico e social.

Sob o axé de Oliveira Silveira, cujo movimento em favor da criação desta data ainda tão fundamental completa meio século, o II Festival Cinema Negro em Ação transcorreu somente dentro do que o feito merece: com celebração e respeito.

Cena de "A Última Negra", que recebeu Menção Honrosa

O belo doc sobre
os clubes sociais do RS
Entre os sete longas e médias-metragens que competiram a mim e aos queridos e competentes colegas de júri Jeferson Silva, do Coletivo Macumba Lab, e Alexandre Mattos, da Associação Profissional de Técnicos Cinematográficos (APTC) escolher, destaco os que, após longa e saudável discussão, selecionamos: o aprazível documentário “Trem do Soul”, do carioca Clementino Junior, com o Prêmio Nacional; o tocante e revelador documentário “Meu Chão: Clubes Negros do Rio Grande do Sul”, de  Jorge de Jesus e Geslline Giovana Braga, na categoria Destaque RS – Direção; e a Menção Honrosa à instigante ficção futurista “A Última Negra”, de Silvana Rodrigues e Camila Bauer, também gaúcho.

Justo falar ainda, porém, de outro dos quatro documentários em competição, que é o paulista “Tambores da Diáspora”, de João Nascimento. Pode-se dizer que é o filme mais bem acabado entre todos desta categoria, inclusive dos três premiados, embora por critérios consensuais não o tenhamos escolhido. Aliás, cabe ao mesmo tempo um olhar generoso e compreensivo, visto que ainda deficiente por reflexo de um contexto sociocultural muito mais amplo e complexo, mas também o do vislumbre de um avanço técnico por parte destes realizadores e de políticas públicas e privadas que fomentem a produção audiovisual negra. Com condições técnicas e oportunidades melhores, não há dúvida de que, em pouco tempo, despontarão novos Jeferson De fazendo cinema negro com autenticidade, propriedade e competência.

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Confira a lista dos premiados do II Festival Cinema Negro em Ação:

CATEGORIA VIDEOARTE
Prêmio Estadual: A GOTA D’ÁGUA (Direção: Luis Ferreirah)
Prêmio Nacional: A QUEDA (Direção: Lia Leticia, Pernambuco)
Destaque RS - Direção: LANCEIROS NEGROS (Thaise Machado)
Menção Honrosa: UM TRANSE DE DEZ MILÉSIMOS DE SEGUNDOS (Direção:
Jamile Cazumbá, Bahia)
Jurados: Sérgio Nunes (Conselho De Ações Afirmativas), Valéria Barcellos (IEACen - Instituto Estadual de Artes Cênicas) e Ana Medeiros (IEAVI - Instituto Estadual de Artes Visuais)

CATEGORIA VIDEOCLIPE
Prêmio Estadual: PULSO - DESSA FERREIRA (Direção: Kaya Rodrigues)
Prêmio Nacional: KOLAPSO - MONKEY JHAYAM, ENME E TERRA TREME
(Direção: Lazaro e Jessica Lauane, Maranhão)
Destaque RS - Direção: SORRISO MARFIM - W NEGRO feat. N JAY (Direção:
Deivid Makaveli)
Menção Honrosa: AMBIÇÃO - CRISTAL (Direção: Cleverton Borges, Rio Grande
do Sul)
Jurados: Sérgio Nunes (Conselho De Ações Afirmativas), Valéria Barcellos (IEACen - Instituto Estadual de Artes Cênicas) e Ana Medeiros (IEAVI - Instituto Estadual de Artes Visuais)


CATEGORIA CURTA-METRAGEM
Prêmio Estadual: ROTA (Direção: Mariani Ferreira)
Prêmio Nacional: A SÚSSIA (Direção: Lucrécia Dias, Tocantins)
Prêmio Distribuição - Produtora Tarrafa: TÁ QUENTE (Direção Bruno Ferreira,
Amazonas)
Destaque RS - Direção: DESVIRTUDE (Gautier Lee)
Destaque RS - Roteiro: NAÇÃO PRETA DO SUL- O CURTA (Nando Ramoz)
Destaque RS - Intérprete: ALÉM DA FRONTEIRA (Clara Meireles)
Destaque RS - Montagem: ROTA (Rodolfo de Castilhos)
Destaque RS - Trilha Sonora: ALÉM DA FRONTEIRA (Direção: Alexandre Mattos
Meirelles)
Destaque RS - Desenho de Som: OLHOS DE ANASTÁCIA: CONEXÕES
QUILOMBOLAS (Técnico de Som Giuliano Lucas)
Destaque RS - Direção de Arte: SERIAM OS DEUSES AFRONAUTAS (Direção:
Rogério Fanrandóla)
Destaque RS - Direção de Fotografia: ALÉM DA FRONTEIRA (Direção de
Fotografia: Felipe Campal)
Prêmio TodesPlay: ALÉM DA FRONTEIRA (Direção: Alexandre Mattos Meirelles,
Rio Grande do Sul)
Menção Honrosa: SUBSIDÊNCIA (Direção: Beatriz Vilela, Alagoas)
Menção Honrosa: PELE DE MONSTRO (Direção: Barbara Maria, Minas Gerais)
Jurados: Uilton Olivieria (APAN - Associação dos Profissionais do Audiovisual Negro), Miriam Juvino (SIAV-RS - Sindicato da Indústria Audiovisual RS) e Mario Costa (EDTRS)

CATEGORIA LONGA-METRAGENS
Prêmio Nacional: TREM DO SOUL (Direção: Clementino Junior, Rio de Janeiro)
Destaque RS - Direção: MEU CHÃO: CLUBES NEGROS DO RIO GRANDE DO SUL
(Direção: Jorge de Jesus e Geslline Giovana Braga)
Menção Honrosa: A ÚLTIMA NEGRA (Direção: Silvana Rodrigues e Camila
Bauer, Rio Grande do Sul)
Jurados: Daniel Rodrigues (ACCIRS), Jeferson Silva (Coletivo Macumba Lab), Alexandre Mattos (Associação Profissional de Técnicos Cinematográficos - APTC)

PRÊMIO DONA DE SI
1- Thaise Machado, do Rio Grande do Sul, diretora da videoarte “Lanceiros
Negros”
2- Lia Letícia, de Pernambuco, diretora da videoarte “Queda"
3- Jessica Lauane, do Maranhão, diretora dos videoclipes “Kolapso - Monkey,
Enme e Terra Treme”, e “Garruncha do Sampaio - Marco Gabriel”
4- Rosandra Leone, do Rio de Janeiro, diretora do videoclipe “Melhor Assim -
Cesanne"
5- Roberta Liana Vieira, do Rio Grande do Sul, diretora do longa-metragem “O
Futuro do Mundo é Preto”
6- Gabriela Cardozo Barrenho, do Rio Grande do Sul, diretora do curta-metragem
“Nação Preta do Sul - O Curta”
7- Silvana Rodrigues, do Rio Grande do Sul, diretora do longa-metragem “A
Última Negra”
8- Alini Guimarães, de São Paulo do curta-metragem “Inventário do Corpo”
9- Beatriz Vilela, de Alagoas, diretora do curta-metragem “Subsidência"
10- Raquel Cardozo, do Rio Grande do Norte, diretora do curta-metragem “Curta
Os Congos”
11- Barbara Maria, de Minas Gerais, diretora do curta-metragem “Pele de
Monstro”
12- Vanessa Rodrigues, do Rio Grande do Sul, diretora do curta-metragem
“Olhos de Anastácia: Conexões Quilombolas”
13- Domenica Guimarães, de São Paulo, roteirista Mercado & Conteúdos
14- Manoela Ramos, de São Paulo, roteirista Mercado & Conteúdos
15- Dandara de Morais, de Pernambuco, roteirista Mercado & Conteúdos
16- Diana Paraíso, de Pernambuco, roteirista Mercado & Conteúdos
17- Adry Silva, do Rio Grande

Confira também os vídeos com as defesas de todos os jurados para os filmes escolhidos nesta segunda edição do festival.


Daniel Rodrigues

quinta-feira, 16 de julho de 2020

O (re)nascimento de uma nação: racismo no cinema norte-americano



Por mais reprimida que seja, toda desigualdade entre os homens será sempre um campo de conflito. O racismo é uma dessas instituições sociais cujo avanço da sociedade o faz ser cada vez mais discutido no caminho daquilo que se pretende: sua dissolução. Longe disso se está, infelizmente. A emergência atual do tema se dá não pela conscientização coletiva, mas pela via mais dolorida e revoltante. A morte do ex-segurança George Floyd, em Minneapolis, nos Estados Unidos, abriu novamente a cortina sobre a questão: a da confirmação de uma repetição de atrocidades enquanto não se enfrentar o monstro.

Aliados para isso há, e o cinema norte-americano – também resultante das mudanças sociais daquele país desde o movimento pelos Direitos Civis nos anos 60 e 70 – vem refletindo cada vez mais esse necessário espaço de conflito. Se hoje é possível ver a questão racial recorrentemente trazida para as telas, bem como profissionais negros mais atuantes atrás e à frente das câmeras, também é verdade que esse fenômeno acompanha a evolução da situação política nas duas últimas décadas. Desde que Doze anos de escravidão, de 2013, venceu o maior prêmio do Oscar, tal viragem em nome de um digno resgate e retratação histórica tem se mostrado recursiva e pulsante, com obras como "Moonlight" (2017), "Corra!" (2017), "Se a Rua Bale Falasse" (2018) e os recentes "Luta por Justiça" (2020) e "Destacamento Blood" (2020).

"O Nascimento..." de Griffith: serviço
ao cinema e desserviço à sociedade
Não foi sempre assim, obviamente. Os caminhos para se chegar ao âmago das coisas são tão tortuosos quanto a construção social de toda a população segregada e desvalorizada pelo preconceito. Como revoltar-se contra o que é tácito e de consenso? A representação do negro na história da indústria norte-americana vai desde a culpabilização à inexpressão. Mesmo com todos os méritos cinematográficos inquestionáveis, o desserviço civil que "O Nascimento de uma Nação", de D. W. Griffith, prestou, no início do século XX, estendeu-se por décadas. Noutro extremo, se não culpado, o negro era representado pelo “excêntrico”, tanto o raro quanto o animalesco. Isso, quando não relegado à completa inexistência uma vez que esmagado pela branquização. Precisou quase meio século para que, nos anos 60, com Adivinhe quem vem para jantar (1967) e No calor da noite” (1968), a questão racial fosse tratada, finalmente, como um problema. Mas não bastou. Se a Blackexplotation dos anos 70 trouxe o orgulho do Black Power e o protagonismo negro para as telas, também o fez reativa e brutalmente. Ser um negro de sucesso significava (re)afirmar o estigma reducionista (e altamente racista) da capacidade instintiva e “desbranquiçada” da imposição física.

Eddie Murphy: um ídolo que não se
leva a sério
Vieram os anos 80 que, embora começassem a venerar figuras como Eddie Murphy, essencial na iconografia negra, também, por contexto histórico-social, este simbolizava a imagem do negro “esperto” e “cômico”, seja o policial atilado Axl Foley de "Um Tira da Pesada" ou o vagabundo sortudo de "Trocando as Bolas". Traduzindo, o negro não precisa ser temido pela violência: ele pode encarnar o malandro para fazer rir. Os tempos andaram ainda mais um pouco e a questão continuava a ser desviada. Enquanto os avanços sociais e políticos pressionavam, o sistema respondia: “se acharam ofensivo serem agressivos ou piadistas, que tal, então, inteligentes?” O assaltante e gênio em computação de Clarence Gilyard Jr.em "Duro de Matar" (1988) não deixa mentir. Enfim, concedia-se aos negros mais esta branquificação: a da inteligência. Claro, novamente como “escada” e jamais protagonista em sua própria natureza.

Como se vê, a sina do estereótipo não é brincadeira e nem descuido. E a sociedade entendeu isso. Tamanha força opressiva, que carrega consigo séculos de escravidão e descaso de uma supremacia, precisava ser enfrentada com munição tão poderosa quanto. É quando, nos anos 80, surge Spike Lee. Se em um de seus primeiros trabalhos o jovem cineasta ia em cheio à raiz da questão ao criticar "O Nascimento de uma Nação" ("The Answer", de 1980), é em 1989 que seu "Faça a Coisa Certa", um marco da discussão aberta do racismo no cinema, traz de vez o olhar balizado tanto do opressor quanto, principalmente, do oprimido. Algo que se é capaz de fazer, quase que inequivocamente, somente quando se está na segunda posição. Seu cinema abertamente engajado à causa negra pode ser criticado pela apropriação artística para fins ideológicos. No entanto, é evidente que lhe é mais do que justificável a escolha e que esta faz muito sentido quando se olha para trás e se vê o rastro de desigualdade, desrespeito e desumanização deixado pelo preconceito racial.

O genial Spike Lee em seu "Faça a Coisa Certa", que ia à coisa certa há 31 anos atrás
O atual momento da representatividade do negro na indústria do cinema também tem outro elemento propulsor, que se chama Donald Trump. A esperança igualitária de Barack Obama, em certa medida, esgotou-se no Nobel da Paz ganho pela simbologia de um homem negro no mais alto cargo mundial. Deveria, mas não foi suficiente. As questões raciais estruturais, nos oito anos de seu mandato, permaneceram pouco tocadas, e tiveram que aumentar o volume quando da reassunção do conservadorismo abertamente racista de Trump. A intensa reação à morte de George Floyd, histórica e antropologicamente, passa por estes processos.

Por sorte, o caminho foi aberto por Spike Lee há pouco mais de 30 anos. Ava DuVernay, Barry Jenkins, Jordan Peele, Ryan Coogler, Steve McQueen, Kasi Lemmons e tantos outros cineastas negros que hoje, nutridos de consciência histórica e atribuição simbólica, fazem com que seja possível enxergar o negro não apenas pela lente distorcida do estereótipo, mas, principalmente, como agentes ativos deste espaço de conflito ideológico e sujeitos críticos da maior degradação moral que o ser humano pode conceber: o racismo. Não somente porque o cinema norte-americano é indústria cultural, mas porque, sendo isso, tem o poder de chegar a todos tanto com a negação quanto com o sim. E agora, não tem volta: é hora de toda essa nação acordar para renascer.

Daniel Rodrigues

Artigo publicado originalmente no site da Associação dos Críticos de Cinema do Rio Grande do Sul (ACCIRS), vinculado ao debate sobre o tema no programa Cinema em Transe #1-racismo no cinema, com a participação de Daniel Rodrigues, no canal da Accirs no You Tube

sábado, 3 de janeiro de 2026

Clyblood #7 - "Os Gritos de Blácula”, de Bob Kelljan (1973)

 

Sempre enxerguei a Blackexpliotation com uma certa desconfiança. É um gênero do cinema muito atrativo, esteticamente sedutor, exaltador da fantástica cultura afro-americana mas, em última análise, uma mera reprodução dos padrões branconcêntricos e imperialistas. Esse cinema é, em grande parte, alimentado pela teoria do filósofo e médico psiquiatra Frantz Fanon de que o negro, para vencer a alienação imposta pela sociedade branca e passar a oferecer a devida“resistência ontológica”, precisava, necessariamente, passar por um processo de afirmação cultural. Pronto: tudo que vinha acumulado por décadas e décadas de opressão, violência e desumanização da figura do negro norte-americano, foi, por volta dos anos 70, momento culminante desse desenvolvimento social-antropológico, posto em obras cinematográficas como uma forma reativa de se combater o racismo. O método: afirmando a existência do negro com sua cultura e beleza.

Acontece que, como qualquer ação meramente reativa, a chance de se incorrer na superficialidade é grande. E foi o que o ocorreu com a Blackexploitation enquanto movimento: combate à “exploração” da imagem do “negro” através de uma resposta imediata em forma de transposição do espaço ocupado pelo branco, só que agora com figuras pretas na tela. Simples assim: branco por preto, preto no branco. Afora a potência de filmes como “Shaft”, “César Negro” ou “Superfly”, e por conter uma série de qualidades, desde as maravilhosas trilhas sonoras assinadas por gênios da música negra norte-americana até a formação de astros como Pam Grier e Richard Roundtree, há de se dizer que não deu tão certo assim enquanto ação afirmativa. 

Era o momento do movimento Black Power, de um país a poucos anos da conquista dos Direitos Civis, dos Panteras Negras, de conflitos raciais e, ao mesmo tempo, de ascendência de ídolos pretos como James Brown, Sly Stone, Sidney Potier e Angela Davis, Ou seja: muita coisa para se elaborar em muito pouco tempo, e o resultado foi a utilização das ferramentas inadequadas. Para ocupar seu espaço, meramente o inverteu. É o que o próprio Fanon chama de “mímica da representação dos senhores”. Tanto que, após o boom da Blackexploitation, precisou que se caminhasse pelo menos mais 40 anos para que, carregados pela mão firme de Spike Lee até então, o cinema norte-americano, enfim, passasse a contar sua história com a consistência merecida através de nomes como Jordan Peele, Steve McQueen, Ryan Coogler, entre outros.

Tudo isso para dizer que “Os Gritos de Blácula”,  de Bob Kelljan, filme da Blackexploitatiion de 1973, é uma boa exceção àquele discurso autoenganado dos negros norte-americanos com esse cinema. Tive a felicidade de apresentá-lo, no dia 4 de dezembro do ano passado, durante a 12ª edição do festival A Vingança dos Filmes B, coordenado pelo amigo, colega de Associação de Críticos do Rio Grande do Sul (ACCIRS) e colaborador deste blog, Cristian Verardi. Continuação de “Blácula – O Vampiro Negro”, de 1972, “Os Gritos...” se sai melhor do que seu original, visto que consegue avançar não apenas para com sua obra-matriz mas em relação a praticamente todos os outros Blackexploitation na discussão da negritude.

William Marshall no papel de Blácula: patologia e conflito 

O filme começa com a morte da rainha vodu Mama Loa, o que motiva os membros de seu culto a votarem na aprendiz adotiva Lisa Fortier (Pam Grier) como sua sucessora. Isso deixa indignado o arrogante filho biológico da matriarca, Willis (Richard Lawson). Inconformado, ele procura um feiticeiro e, partir dos ossos do Príncipe Mamuwalde, ressuscita Blácula (William Marshall) para vingar-se, mas acaba virando seu escravo. Enquanto um exército sedento por sangue se forma, um policial obcecado por ocultismo passa a perseguir Blácula com o objetivo de dar fim ao reinado do vampiro definitivamente.

Grande qualidade de “Os Gritos...” está, justamente, nessa apropriação da lenda de Drácula, tão branca quanto europeia, trazendo seu conflito para o cerne da questão racial. Príncipe Mamuwalde é, ao mesmo tempo, uma figura essencialmente ligada à ancestralidade africana, como ele mesmo expõe na cena em que presencia o leilão de objetos africanos. Contraditoriamente, entretanto, é amaldiçoado justamente por isso. O que lhe constitui é algo que ele considera impuro, doentio, psicopatológico, mas... é o que lhe constitui. Então, para ser ele mesmo, tem que deixar de ser ele mesmo. Alto grau de conflito existencial – e racial.

Eu na sessão do festival
A Vingança dos Filmes B
Voltando a Fanon, é ainda mais interessante notar como o filme evoca uma das questões cruciais da filosofia do pensador martinicano, que é a da dicotomia “visibilidade e invisibilidade”. Para ele, a experiência vivida do negro será sobretudo dada pelo olhar imperialista do branco, que o inferioriza e, imediatamente, o invisibiliza. Assim, a invenção do negro como um ser inferior o reduz ao silêncio, à não-existência, a nada. Esses atributos negativos podem bem ser empregados à figura do Blácula, cujos instintos selvagens, presentes no personagem original de Bram Stoker, são aqui potencializados pela corporalidade estereotipada que marca o negro. Blácula, que suga o sangue de mulheres e homens indistintamente, é uma ameaça tão sexual quanto de violência, tal qual o negro na sociedade racista.

Cena bastante simbólica desse dilema é a que Blácula dialoga com seu “pupilo” Willis, logo no começo da fita. Ainda sem entender a extensão da maldição que se abateu sobre ele, Willis arruma-se para sair de casa e ir ao uma festa. Além da proibição por parte do carrasco, chama atenção a reação de Willis em relação à famosa característica dos vampiros: não se enxergar no espelho. Incrédulo de que a partir dali nunca mais poderá ver seu reflexo, chega a pedir a Blácula que avalie seu visual, tamanha importância que ele como um negro norte-americano daquela época de “black is beautiful” dava a este aspecto. Não é apenas uma mera afetação ou vaidade: é o “reflexo” de uma comunidade precisando se ver representada, precisando cumprir a sina fanoniana de derrubar as máscaras brancas. Sem ver-se no espelho, isso é impossível.

Talvez não tão consciente de seus próprios apontamentos, “Os Gritos...” é, sim, um filme bem realizado e que dá um passo adiante na proposta reativa da Blackexploitatiion, abrindo caminho para o que, anos depois, um cineasta como Peele faria com profundidade discursiva dentro do próprio gênero terror. Como obra, é um thriller bastante interessante, de ótima fotografia, estética pop, trucagens eficientes, enquadramentos bem sacados e, claro, trilha excepcional (a cargo de Bill Marx), característica dos filmes Blackexploitatiion. Curioso pensar que o “novo humanismo” proposto por Fanon, ferramenta com a qual se superaria essa desumanização, tenha, no cinema negro norte-americano, partido justamente de uma figura não-humana. Como disse o próprio Fanon: “o homem também é um não”.

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trailer de "Os Gritos de Blácula"

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"Os Gritos de Blácula"
título original: "Scream Blacula Scream"
direção: Bob Kelljan
elenco: William H. Marshall, Don Mitchell, Pam Grier, Michael Conrad, Bernie Hamilton, Richard Lawson
gênero: terror, vampiro, Blackexplotation, policial
duração: 96min.
país: Estados Unidos
ano: 1973
onde assistir: YouTube


Daniel Rodrigues

segunda-feira, 21 de novembro de 2022

“Adão Negro”, de Jaume Collet-Serra (2022)

 
Semanas atrás Leocádia e eu fomos a uma sessão de pré-estreia no GNC Cinemas do Praia de Belas Shopping do novo sucesso de bilheteria da DC Films, “Adão Negro”, com o astro Dwayne "The Rock" Johnson. Legal? Impossível dizer que não. Cenas de aventura empolgantes, efeitos visuais de alto nível, desenho de som impecável, roteiro eficiente, astros consagrados, trilhas com músicas pop... Tudo embalado para que a coisa funcione. Mas será que "funciona" mesmo? Talvez sim, e talvez seja exatamente este o termo mais adequado: cumprimento de função.

Spin-off de "Shazam!" (2019) e "Shazam!: Fúria dos Deuses" (2022), o filme conta a história se passa após quase cinco mil anos de prisão de Adão Negro, um anti-herói da antiga cidade de Kahndaq, no que seria o Oriente Médio, que é libertado nos tempos modernos. Suas táticas brutais e seu modo de justiça atraem a atenção da Sociedade da Justiça da América (JSA), que tenta impedir sua fúria e ensiná-lo a ser mais um herói. Além disso, Senhor Destino (Pierce Brosnan), Gavião Negro (Aldis Hodge), Esmaga-Átomo (Noah Centineo) e Cyclone (Quintessa Swindell) se unem para impedir uma força maligna mais poderosa que a do próprio Adão.

Filmes de super-heróis são uma verdadeira galinha dos ovos de ouro para o cinema comercial do século XXI. Após mais uma crise da indústria cinematográfica nos anos 90, quando o envelhecimento dos realizadores consagrados do cinema comercial como Spielberg, Lucas e Zemeckis se deparou com a falta de agentes capazes de trazer um novo produto para a permanente necessidade de novidade da sociedade de consumo, o avanço técnico da era digital permitiu que o cinema pudesse concretizar algo que vinha ensaiando há décadas: a transposição dos quadrinhos de heróis para as telas. E a considerar a riqueza temático-simbólica dos HQs, bem como a amazônica quantidade de histórias e personagens a serem explorados, este se tornou o caminho certo para a construção do novo blockbuster.

O Adão Negro do
HQ original da DC
Pujante, a lógica de oferta e procura se estabeleceu. A produção é tamanha que, após duas décadas de produções milionárias e geralmente exitosas em bilheteria, Hollywood criou, claro, um padrão. “Adão Negro”, com todos os seus elementos inerentes à obra original da DC Comics, não foge à regra. Tem as características da história original, mas, de resto é tudo o mesmo formato repetido em novas condições narrativas. E isso é escalonado de forma exemplar, que vai do conceitual - como a prevalência do maniqueísmo e as simplificações morais - aos arranjos narrativos, como as piadas, o impacto de uma música retrô e até o tempo de duração das falas. Pois há, claramente, por mais que a dinâmica do filme amortize essa constatação racional com tantos tiros, estrondos, movimentos rápidos, edição agilíssima e luzes, muitas luzes, percentuais para a quantidade de falas e de não-falas. Por melhor que seja, por mais que funcione, que empolgue o público e cumpra a função de entreter, impossível não sair com a impressão de que não se está vendo imagens, mas estatísticas. 

Nada contra a ideia de blockbusters e nem de exploração do filão graphic novel em audiovisual. O que questiono é: será que esta fórmula funciona de verdade a ponto de se sustentar por mais anos sem desagaste? Continuarão avançando na tática de, igual a Globo aplicava ao humorístico Zorra Total, misturar personagens incansável e indistintamente até nem se saber mais de onde cada um veio? Quentin Tarantino recentemente disse que jamais rodaria para a Marvel, pois considera que filmes deste tipo sejam fruto de uma prática de mercado produtivista a qual ele, ligado ao cinema de autor, não se enquadra. Martin Scorsese, tempo atrás também se manifestou contrário ao declarar que o universo cinematográfico da Marvel está "mais próximo dos parques de diversão do que do cinema". Vindo de dois autores que revolucionaram e mudaram a história do cinema é, no mínimo, de considerar a interrogação quanto ao que se esperar no futuro do “grande cinema”.

The Rock e os atores que fazem os super-heróis da JSA

Ao final, se sai do cinema cativado, pois se fez tudo psicosinestesicamente para que isso aconteça, mas muito mais amortecido do que outra coisa. É tanta superexposição a estímulos sensoriais, que não há como absorver. O script não tem erro, e isso é um defeito: não há espaço para apreciação e nem elaboração. O filme é tão consumível e embalado quanto a pipoca e o refrigerante que se come assistindo.

Não digo que tudo isso seja ruim, e nem que filmes da DC ou Marvel devessem parecer uma obra de Bergman constituída basicamente em diálogos. Mas para poder dizer com segurança que filmes assim como "Adão Negro" convencem, ainda falta algo mais do que simplesmente cumprir uma função. Por mais que a intenção seja ao de tentar me alegrar.

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"Adão Negro" - trailer



Daniel Rodrigues

quinta-feira, 20 de novembro de 2025

CLAQUETE ESPECIAL DIA DA CONSCIÊNCIA NEGRA - “Também Somos Irmãos”, de José Carlos Burle (1948)

 

Os movimentos negros surgidos no século 20 no Brasil edificaram a mentalidade e o discurso antirracista como hoje conhecemos, bem como a valorização da cultura afro-brasileira e a luta pelos direitos sociais, civis e políticos do povo preto. Aquilo que passou a ser mais comum na tela do cinema ou da televisão a partir dos anos 90, intensificando-se anos 2000 afora, é certamente resultado da organização formal de grupos como Palmares e Movimento Negro Unificado, surgidos à base de muita resistência em plenos anos de chumbo da Ditadura Militar.

Porém, um fundamental movimento ocorrido no Brasil ainda em um período em que a mentalidade escravagista e colonial era ainda mais forte, visto que vigente em um país jovem e recém-saído do sistema escravocrata, foi o Teatro Experimental do Negro. Fundado pelo genial Abdias do Nascimento, ator, poeta, escritor, dramaturgo, artista plástico, professor universitário, político e ativista dos direitos civis e humanos das populações negras brasileiras, este centro de cultura e arte serviu não apenas para formar profissionais, como atores, diretores, técnicos, entre outros, mas cidadãos negros conscientes de sua posição na sociedade brasileira. 

A força simbólica e prática do TEN foi tamanha, que chegou até o cinema. O principal resultado deste impulso é o filme “Também Somos Irmãos”, de José Carlos Burle, de 1948. Embora com características comuns a outros filmes produzidos pela Atlântida, como a abordagem popular, a narrativa linear, o maniqueísmo da trama, os números musicais e a dramatização de situações cotidianas, o filme absorve estes mesmos elementos de forma muito consciente para abordar corajosamente o tema do racismo no Brasil dos anos 40.

Como menciona o jornalista e crítico de cinema João Carlos Rodrigues em seu essencial livro “O Negro e o Cinema Brasileiro’, “Também...” é um caso raro dentro da cinematografia brasileira, dada a sua capacidade de abordar um tema mais do que apenas sensível, pois também negado e desvirtuado. Com roteiro de Burle e Alinor Azevedo, o longa trata do racismo e das relações de classe de forma muito consistente e realista dentro das possibilidades de um cinema melodramático como propunha a Atlântida.

Na história, dois irmãos negros, Renato e Miro (Aguinaldo Camargo e Grande Otelo respectivamente), cresceram na casa do rico Sr. Requião (Sérgio de Oliveira), que também adotou duas crianças brancas, Marta (Vera Nunes) e Hélio (Agnaldo Rayol). Enquanto Renato, apaixonado por Marta e determinado a concluir seus estudos em Direito, se mantém submisso, Miro comete pequenos delitos. Renato, compositor nas horas vagas, tem grande carinho pelo irmão caçula Hélio, que interpreta suas canções. Após se formar, Renato assume a defesa de Miro, acusado de crimes. Quando Walter Mendes (Jorge Dória), um golpista, tenta enganar Marta e o Sr. Requião, o amor fraterno é colocado à prova.

Tecnicamente muito bem realizado, "Também..." traz, contudo, a sua grande força nas atuações. É absolutamente tocante a interpretação de Grande Otelo, o maior ator que este país já teve, em um papel que é certamente um dos seus melhores em cinema e, talvez, o que mais dignifique sua genialidade interpretativa. No papel de Miro, ele consegue encontrar um equilíbrio dificílimo entre os arquétipos do negro revoltado, do malandro e do favelado, pegando as definições estudadas por João Carlos Rodrigues quanto à figura do negro na história do cinema brasileiro.

Mas não apenas Grande Otelo brilha. Aguinaldo Camargo, um dos frutos do TEN, assim como Ruth de Souza, que faz Rosália no filme. Dada a importância de seu personagem, Aguinaldo, no entanto, desempenha um papel essencial na construção maniqueísta da história de luta entre bem e o mal, cumprindo uma posição ideológica diretamente oposta a do seu irmão. Ele, um “homem da lei”; o irmão, um “fora-da-lei”. Ele é o típico “negro de alma branca” ao representar a superfície na qual o brancocentrismo o coloca; o irmão, ao contrário, não está nessa superfície, e, sim à margem. Um “marginal”.

Burle, que ainda dirigiria clássicas comédias musicais da Atlântida como ”Carnaval Atlântida”, de 1952, e “Quem Roubou meu Samba”, de 1959, conduz a história dramática com habilidade. Primeiramente, pelo fato de que não há concessões sentimentalistas. Os negros seguem sendo negros, os brancos seguem sendo brancos, a polícia segue sendo polícia e os ricos seguem segregando e dando as cartas. Igualmente, porque Burle consegue dar a este drama social a dose certa de chanchada, como as cenas musicais com Grande Otelo e do pequeno Agnaldo Rayol, bem como as de ação. 

Porém, o roteiro é o que acende o filme. Alguns diálogos são primorosos. Um dos mais brilhantes da história do cinema brasileiro, inclusive, é o que abre este destoante filme do cinema brasileiro. Em pouco mais de 4 minutos e com atuações memoráveis, a conversa entre os irmãos no barraco de Renato, após Miro fugir da polícia pelas ruelas do morro, é exemplar. Devidamente salvo, Miro, então, passa a travar um diálogo com o irmão mais velho na qual é possível compreender e identificar elementos narrativos importantes a toda a continuidade do filme. Fica clara a relação existente entre os dois, o papel simbólico de cada um dentro da sociedade racista, o histórico de vida que os levou até ali e as diferentes aspirações. Tudo isso sem, contudo, tomar partido de ninguém. O espectador é quem, com os elementos cênicos e narrativos que lhe são informados, formará a sua opinião a partir de então. 

Aguinaldo e Grande Otelo: dupla de atores negros de extremo talento

Nesta mesma cena, um desses elementos cênicos é especialmente simbólico: o contraste entre branco e preto nos sentidos físico e psicológico do termo. Perceptível desde a fotografia até o figurino, este aspecto se dá principalmente por conta da contraposição “sujeira x limpeza”. Explicando: ao fugir dos policiais pelas ruas enlameadas e sem estrutura urbanística de uma favela, Miro acaba por emporcalhar a bainha de sua calça clara, o que é imediatamente percebido por ambos e motivo de reprimenda do irmão mais velho para com o caçula. Porém, não se trata apenas de uma roupa suja como um inconveniente doméstico. Esta “sujeira” representa as ideias de mácula de caráter e de limpeza étnica alimentada pela sociedade pós-escravidão. É o próprio racismo, que age indistintamente sobre os dois personagens: um que o identifica e se revolta e o outro, que busca não enxergar para ser aceito pelo sistema e salvo da sua condição desumanizada. 

Para uma sociedade preconceituosa e mal resolvida, ser negro é errado, pois ser negro é ser sujo, enquanto que o branco deve ser o padrão a se seguir. Além de desencadear a discussão entre os irmãos de um ponto tão central para a trama, a cena serve também para contrapor, mais adiante, outro momento importante da fita. Quando Renato está se dirigindo à cerimônia de formatura, onde acredita que receberá o diploma das mãos da irmã adotiva por quem é apaixonado, os vizinhos, num ato muito bonito do senso de comunidade dos negros, vão para a rua festejar sua conquista e estendem tábuas sobre o chão barrento para que este não manche suas calças e chegue ao destino limpo. No entanto, Renato volta para casa frustrado pela ausência da irmã, proibida pelo impositivo pai de comparecer à formatura. Resultado: Renato volta para casa mais cedo e não encontra mais o simbólico tapete vermelho sobre o chão para o salvar. Isso faz com que, justo ele, que sempre buscou responder à sociedade branca da forma como esta gostaria, acaba por sofrer a mesma indignidade que o irmão marginal. O racismo estrutural é implacável.

Dado como perdido por muitos anos, o filme foi restaurado pela Cinemateca Brasileira a partir de materiais remanescentes em 16mm. A cópia existente, ainda que com prejuízos no som e na imagem, preserva o filme em sua íntegra. Um trabalho de importância cívica, visto que “Todos...” é uma obra ousada e corajosa essencial para entender os processos que o povo preto enfrenta e como esses reflexos foram levados à popular arte do cinema. Nem mesmo o desfecho denota sentimentalismo, ainda que num contexto melodramático. A moral, imperiosa, age, assim, com pesos desiguais. Tanto que uma mentira é muito mais cabível para resolver uma questão jurídica do que um amor verdadeiro mas proibido. 

A despeito de Burle ser um homem branco da alta sociedade carioca (justamente, o alvo de crítica do filme na figura dos Requião), o próprio título “Também...” contém, se não ingenuidade, certo simplismo advindo do perigoso (mas bastante vigorante à época) conceito de "democracia racial". Há, contudo, de se desculpar possíveis equívocos de uma obra datada de um momento histórico brasileiro em que recém se construía algum tipo de consciência negra, quanto mais por não saber manejar o que hoje se entende como letramento racial. Até porque, ainda hoje, o filme se mantém atual em diversos aspectos da questão antirracista, mesmo que ainda nem se pensasse em usar esse termo para designar o óbvio: que a verdadeira sujeira da alma é o racismo.


Filme "Também Somos Irmãos" completo e restaurado



Daniel Rodrigues

terça-feira, 9 de junho de 2026

Seminário “14 de Maio - O Dia Seguinte. E agora?” - Teatro Roberto Atayde Cardona - Montenegro/RS (14/05/2026)


Por essas coisas da vida, no ano passado estive na cidade de Montenegro dando meu curso sobre Cinema Negro na Fundarte, através do Sesc Montenegro, Naquela ocasião, meu irmão Tiago Ritter, montenegrense, sabendo que estava na sua cidade-natal, me manda um áudio de whats dizendo: “Ah, tu tá em Montenegro?! Então, vou avisar uma pessoa que eu conheço, que gostaria muito que vocês se conhecessem, pois admiro vocês dois”. Gol. A pessoa a quem Tiago se referia era Rogério dos Santos, presidente da Central Única das Favelas - Cufa RS Montenegro e a quem ele conhecia não só a pessoa como o trabalho que desenvolvia há bastante tempo.

Pois, passado quase um ano após o curso, sou convidado a participar, integrando um seleto grupo de painelistas, do seminário pertinentemente intitulado: “14 de Maio - O Dia Seguinte. E agora?”, ocorrido nesta data no Teatro Roberto Atayde Cardona, e com a companhia de Leocádia.. 

Digo “pertinentemente intitulado” porque o seminário, realizado pela Cufa RS Montenegro através do projeto Resgate Negro do Vale do Caí, propõe uma reflexão sobre o que veio depois do 13 de maio de 1888, data da assinatura da Lei Áurea, que aboliu formalmente a escravidão no Brasil. O 14 de maio simboliza justamente o dia seguinte, quando a população negra foi deixada sem reparação, sem políticas de inclusão e sem acesso real à cidadania. Algo que eu exploro em meu curso e que considero o principal ponto de inflexão sócio-histórico da população negra no Brasil.

Para minha satisfação e orgulho, subi no mesmo palco que pessoas de renome nacional e regional, algumas as quais muito admiro, como Celso Athayde, presidente da Cufa Global; o escritor Itamar Vieira Junior; a líder comunitária Rozeli da Silva; e a deusa negra Zezé Motta, com quem, por rápido momento estive e pude entregar-lhe um exemplar do livro da Accirs e registrar uma foto.

A mesa de debate a qual compus foi para tratar do tema: “Raízes Negras da Cultura Brasileira” e que tive a felicidade de dividir com a mãe-de-santo e líder comunitária Cláudia Chu, o professor de música Renato Batista, o músico senegalês radicado no RS Kanhanga e mediação do querido jornalista Marck B. Dentre as preciosas falas do debate, a minha foi na linha da valorização e contextualização do cinema negro no Brasil, considerando os dois pontos de partida: a famigerada Abolição da Escravatura, em 1988, e a criação do cinema, poucos anos depois, em 1895. Isso explica em parte porque, somente nos anos 40 algum eco de cinema sobre as questões do povo negro começaram a ser tratadas na tela grande.

Também teve aquelas que tive o prazer de conhecer e assistir, como a empreendedora Gabi Valente, a advogada Danielle Araújo, a líder comunitária Maira Azevedo e a educadora e filósofa Bárbara Carine, vencedora do Prêmio Jabuti Educação pelo livro "Como Ser um Educador Antirracista" e criadora da louvável escola Afro-Brasileira, na Bahia. Que fala potente e descolonizadora a sua! Daquelas que mexeu com a emoção de todos na plateia. Quem também deu um show – e arrancou ao mesmo tempo gargalhadas e consternação da plateia com sua fala consciente e combativa sobre as mães pretas na sociedade brasileira, foi a comunicadora Tia Ma. Discussões que só um evento deste calibre e força simbólica este pode oportunizar.

Pela manhã, abertura oficial do seminário


Zezé Motta e Rozeli da Silva mediadas por Rogério dos Santos


Nos bastidores com a deusa Zezé Motta, a quem presenteei com um livro da Accirs


Também prestigiei Celso Athayde e seu filho, Vinicius, com quem troquei autógrafos


Itamar Viera Jr. falado sobre sua escrita negra


Nós no debate sobre Raízes da Cultura Negra Brasileira


Trecho de minha participação no seminário


Ao final com os companheiros de debate Marck, Cláudia, Renato e Kanhanga


Foto só sorrisos com Marck B e o idealizador do evento, Rogério dos Santos




texto: Daniel Rodrigues
fotos e vídeo: Daniel Rodrigues e Leocádia Costa