![]() |
| Sadomasô 1 |
![]() |
| Sadomasô 2 |
![]() |
| Sadomasô 3 |
![]() |
| O blues invocando espíritos do passado e do futuro. |
Sangue não à toa tão valorizado. Uma das cenas de “Pecadores”, que vale o filme, mostra o personagem Sammie "Preacher Boy" Moore (Miles Caton) cantando e tocando um blues no bar e fazendo emergir do além diversas almas negras em camadas simbólicas e tempos que se misturam. Dos primórdios do blues, nascido das mentes e corações amargurados dos escravos, até os rappers da atualidade, passando pelo rock, o soul, o funk, o gospel e toda contribuição do negro dos Estados Unidos para a cultura pop. Simplesmente genial.
As resoluções para a trama sobrenatural que o filme vai ganhando, principalmente a partir de sua segunda metade, são boas, mas não empolgantes. O stinger, a cena pós-créditos, este sim (sem dar spoiler) é surpreendente, mas não suficiente para elevar um filme a uma classificação maior do que “bom”. Já Michael B. Jordan é um capítulo à parte. Ele passou a ser mais valorizado enquanto indicado como Melhor Ator ao Oscar depois do triste e revoltante episódio de racismo em plena cerimônia do Bafta, na Inglaterra, em fevereiro - onde, aliás, levou o prêmio. Embora agora com mais atenções para si, o astro não está tão bem quanto nos dois outros filmes que fez com Coogler, exatamente “Pantera...” e “Creed” – este último, no qual é protagonista. Agora, ele concorre com Wagner Moura e Timothée Chalamet, os dois fortes candidatos entre os indicados, mas pode ser que surja como uma terceira via por conta de um falso moralismo da Academia. Não será mal dado, mas menos justo e, se acontecer como prêmio de consolação por causa desse mal-estar, hipócrita.
Independentemente de qualquer coisa, Coogler faz história e, mais uma vez, acerta em sustentar o discurso antirracista ao qual é um importante porta-voz na indústria cultural. Ele sabe disso e mantém-se fiel ao compromisso de evidenciar as barbaridades promovidas pelo racismo na sociedade, mas também toda a riqueza da cultura afro-americana em suas infinitas frentes. Neste sentido, “Pecadores” cumpre muito bem sua proposição. Sem cometer nenhum pecado.
Varre, varre, varre, passo a vassoura por baixo do balcão e ela bate em alguma coisa mais dura, mais pesada. Não é só papel, plástico, isopor. Puxo pra frente do balcão com a vassoura e vem uma máscara. Não parece com as outras, não parece fazer parte de nenhuma alegoria. Trabalho no barracão faz meses e não sei de nenhuma ala que use uma coisa daquelas. Parece aquelas máscaras de... futebol americano. Não! Futebol americano não usa máscara, usa, tipo, um capacete. É máscara de rósqui, rock, hóquei, eu acho. Meu filho que gosta de esporte é que entende dessas coisas. Toda amarelada, rachada, podre. O que que aquela porcaria faz ali?
Só recolho e jogo fora como seria o normal a fazer? Ou será que pergunto pra alguém se faz parte de alguma coisa que eu não sei?
Não vou incomodar o carnavalesco. Tá lá concentrado dando instrução numa estátua de orixá.
Ah, vai pro lixo. Ninguém vai dar falta disso.
Antes de me livrar daquilo, só de graça, mesmo toda nojenta, resolvo experimentar. Botar na cara.
Um acampamento, adolescentes, um lago, desespero, afogamento, fundo, fundo, mãe, morte, vingança, máscara, sangue, sangue, coração, pernas, cabeças, sangue, morte, morte, morte. Tudo me vem à cabeça numa sequência alucinante, como um filme todo passando em um segundo.
Encho o peito de ar, respiro fundo. A meu lado uma enorme tesoura de costura repousa sobre uma bancada.
Já não sou eu mesmo quando a apanho e caminho com determinação barracão adentro. Tem pouca gente ali trabalhando a essa hora, mas tem muito mais gente lá fora e terá ainda mais nos próximos dias. Ainda é sexta-feira, o Carnaval está apenas começando.
Cly Reis
O ano novo se aproximava.
Em casa, cada vez que a esposa falava de sua cada vez mais crescente barriga, Roberto prometia, "Ano que vem eu perco essa barriga. Tu vai ver um novo homem."
No ponto de ônibus, para cada vez que ficava horas esperando o transporte, entrava no coletivo atrolhado e sentia-se apertado como uma sardinha, tinha que sair se espremendo e empurrando todo mundo para chegar na porta para saltar na sua parada, prometia a si mesmo, "Vocês todos vão ver um novo homem no ano que vem. Com carro novo, um carrão, um cara que não vai precisar mais ficar se sujeitando a isso tudo. Vocês vão ver!".
No trabalho, sempre que chegava atrasado e o supervisor o repreendia, Roberto se comprometia, "A partir do ano que vem vou melhorar. Vocês vão conhecer um novo homem".
Deu ano novo...
Na meia-noite, entre fogos, abraços e champanhas, a campainha toca. Roberto, estatelado no sofá nem se prestou a levantar para abrir. A mulher, perguntando aos demais se estavam esperando alguém, vai até a porta e abre. "Beto, você nunca me falou que tinha um irmão!". Roberto meio que abriu os olhos e confirmou, "...não tenho". Quando voltou a cabeça para o hall de entrada, viu a esposa acompanhada de um homem absolutamente igual a ele mas muito mais bem cuidado, bem vestido, tratado e... sem barriga. Ia dizer alguma coisa mas, antes que pudesse completar uma frase, apagou.Ao despertar, não encontrou ninguém na casa. Teriam ido à praia, viajado para Cabo Frio. Nunca teriam ido sem ele mas, por outro lado, ele nunca teria ido. Nunca queria ir quando a mulher propunha. Talvez por isso agora tivessem tomado uma atitude e o deixado dormindo no sofá. Qual não fora sua surpresa quando ao ligar a TV, pelo noticiário, percebera que já não era a manhã seguinte, o dia primeiro. Havia ficado fora de órbita por três dias! Já era a segunda-feira depois do feriadão, tinha que ir trabalhar.
Vestiu-se, correu, embarcou no ônibus já não tão cheio pelo atraso no horário e meia-hora depois chegava ao escritório. Felizmente não muito atrasado. Na frente do prédio, uma Ferrari reluzente era conduzida à garagem no subsolo por um manobrista. Ficou curioso a respeito de quem teria um carrão daqueles.
Subiu. O ascensorista o olhava de cima abaixo com um olhar de desprezo e desaprovação. Ia se instalar na sua estação de trabalho quando ouviu a voz do supervisor. "Atrasado de novo...". Ia começar a se desculpar quando o superior o interrompeu. "Na verdade, não precisamos mais dos seus serviços". Não abriu a boca. Apenas olhou para o chefe estupefato e intrigado. "Contratamos aquele cara ali", disse apontando para um homem charmoso, alinhado, elegante, na sala envidraçada da chefia. Parecia muito com ele mas... "Por sinal, lembra muito você logo quando chegou aqui; dinâmico, interessado, cheio de vida", reforçou o supervisor. "E tem um currículo muito bom, muito parecido com o seu na verdade, mas a diferença é que na recomendação dele diz que... nunca chegou atrasado", completou sorrindo.
Pegou suas coisas, desceu, pegou o ônibus, chegou em casa, sentou no sofá. Percebeu então algo que não havia notado antes quando saíra de casa correndo: em um porta-retrato, com uma foto dele e da esposa ainda jovens, estava fixado um bilhete. A mensagem era bastante breve e objetiva: "Fui embora, Roberto. Encontrei um homem de verdade".
Um novo ano começara e era tudo novo, exceto ele, Roberto, que era o mesmo antigo sujeito.
cly
Representante do chamado Novo Cinema Extremo Francês, "A Invasora", não se preocupa em poupar o espectador de cenas chocantes, desconfortáveis e perturbadoras. O ataque a uma mulher grávida, indefesa, leva inevitavelmente o espectador à questão do por quê alguém agiria daquela maneira selvagem, incontrolável, irascível contra uma pessoa tão vulnerável? E sem levar minimamente em consideração o fato de sua vítima estar carregando em seu ventre um inocente! E o pior ainda: ter esse ser indefeso que nem nasceu também como alvo.
O motivo? Seria spoiler contar se existe um motivo ou não e qual seria ele. Não cometerei essa canalhice com meu leitor. O que posso dizer é que independente da razão, se existe, se é justificável ou não, essa invasora proporciona ao fã do terror uma das caçadas mais cruéis que já se viu no cinema, indo até o limite total de suas forças, possibilidades, armas, condição física, para atingir seu objetivo.
Uma das minhas vilãs preferidas do cinema. Béatrice Dalle, a eterna Betty Blue, aqui determinada, impiedosa, implacável, imparável! Se é pra ser má, se é pra cumprir o que se propôs, não é pra ter mimimi. E com essa invasora anônima de Natal, não tem mesmo.
![]() |
| Ela, a misteriosa assassina, não vai desistir até dar um fim na pobre grávida que só queria um pouco de paz interior na véspera de Natal. |
Cly Reis
🔪🔪🔪🔪🔪🔪🔪🔪🔪🔪🔪
Nunca quis tirar a prova. Ficava na expectativa da chegada dos degraus à borda; um, dois, três, quatro degraus... e dois antes do meu, eu já pulava para a beirada na parte firme.
Só agora, depois de adulto, homem feito, é que consegui racionalizar o suficiente a situação para encarar o final de uma escada rolante.
Decidi superar meus medos e ir até o final. Permanecer no degrau até o último instante, até a borda segura, até que o degrau metálico se encolha e escorregue suavemente por baixo daquela abertura dentada desencontrada.
Preferi enfrentar algo tão traumático com o máximo de discrição possível. Fui à noite a um shopping center, desses com longas e lentas escadas rolantes. Permaneci até o horário de fechamento, esperei saírem os espectadores das últimas sessões de cinema, me escondi no banheiro de onde ouvi os avisos finais para que todos deixassem o estabelecimento, confundi a atenção dos vigias e, com o shopping deserto, me postei diante da borda fixa de um daqueles aterrorizantes monstros mecânicos. Não sei bem porquê, escolhi a descida. Talvez para poder visualizar meu destino final.
Respirei fundo, me concentrei. Hoje eu vou até o final, até o último degrau. Sem tirar o pé. Nada pode acontecer.
Minha determinação, no entanto, foi interrompida por uma voz vindo lá do fundo do shopping. Um dos seguranças da noite me vira. "Ô, aí. Que que você faz aqui dentro ainda? Não pode ficar ninguém!", gritou.
Era agora ou nunca. Tinha que aproveitar minha decisão, minha coragem. Não poderia deixar para outro dia. Do local onde ele estava, a alguns corredores de distância, mesmo que corresse, provavelmente, daria tempo para minha descida toda antes que chegasse até mim. Dei um passo à frente e botei o pé no degrau que surgia por baixo do chão firme. Comecei a ser levado pela escada para baixo, para baixo, para baixo... Lá no final os degraus iam sumindo um a um por baixo do chão. Faltam quatro, três, dois, um...
*******************
Estalos repicavam pelo piso, do contato apressado da sola do sapato do vigia no reluzente granito cinza do shopping center. A esforçada corrida do obeso vigia não fora rápida o suficiente para impedir que o homem à beira da escada embarcasse nela. Era tarde. Estava a uns dez passos ainda e a cabeça do intruso já sumia no horizonte do segundo piso.
Sacou o rádio. "O Corrêa, tem um cara descendo pro primeiro de rolante. Pega ele aí embaixo que ele ficou aqui dentro depois de fechar. Copiou?". "
Quando finalmente chegou, ofegante, na beira da escada, no andar de cima, não encontrou nem rastro do último cliente. Nada.
Não demora nada e chega o Corrêa de braços abertos com cara de quem não entendeu nada. "Não passou ninguém por aqui", disse.
Deram de ombros e voltaram para suas respectivas rondas. "Fica de olho", disse o de cima. Se estivesse lá dentro, iriam encontrá-lo até o amanhecer.
Tudo estava quieto novamente. Apenas o rangido mecânico abafado das escadas rolantes quebrava o silêncio da madrugada. Algo parecido com um doloroso gemido.
Cly Reis
![]() |
| Zumbi - Senhor das Guerras, Senhor das Demandas - REIS, Cly arte estilo HQ inspirada na canção "África Brasil (Zumbi)", de Jorge Ben |
![]() |
| Que bonitinho o palhacinho, né, moça? Só que não! E esse será o início de uma noite aterrorizante... |
Cly Reis
Além das feiras do Beco do Pinheiro, no bairro das Laranjeiras, e a da Glória, que se agigantou em tamanho do ano passado para cá, estivemos duas vezes em feirinhas no Museu da República, que abriga o Palácio do Catete, o famigerado e histórico prédio onde Getúlio Vargas tirou a vida nos idos de 1954.
Mas os passeios por lá nada tem a ver com episódios trágicos e remotos. Pelo contrário. Foram agradáveis momentos em que pudemos conferir quiosques de roupas, acessórios, souvenires, bijus, comidinhas, cerveja artesanal, mas principalmente, estar na natureza e ver gente. Famílias, amigos, casais, crianças, idosos, jovens. De tudo, e sempre com muita gente, essa coisa admirável do Rio, que é de as pessoas aproveitarem a rua.
![]() |
| Show gostoso de MPB com Fhernanda Fernandes |
Confiram aí então, um pouco do que registamos desses dois domingos de passeio pelas feiras do Museu da República:
🌴🌴🌴🌴🌴🌴🌴🌴🌴🌴🌴
![]() |
| Feira entre as palmeiras imperiais do Museu da República |
![]() |
| Muita gente curtindo a feira a céu aberto |
![]() |
| Os patinhos no lago do chafariz |
![]() |
| Mais famílias aproveitando... |
![]() |
| ...e mais feirinha |
![]() |
| Click das clicks |
![]() |
| Admirando o belo paisagismo do local |
![]() |
| Nós curtindo a feira num dos finais de semana |
![]() |
| ...e no seguinte, com a faamily |
- Nem é bicho, - corrigiu a loirinha de rabo de cavalo que o seguia correndo. - É uma flor, idiota!
- Não fala assim com o amiguinho, Valentina.
- Não é nada! É tipo, uma coisa, um 'enseto'. Vem ver, mãe, vem. - insistiu o garoto tentando levantar a mãe pela mão.
- Ai, Rique, não me incomoda! Deixa a mamãe, deixa. A gente tá aqui conversando. Vai lá com a Valentina ver o bichinho. Deve ser só um insetinho, filho. Vai lá, vai.
- Mas mãe, é uma coisa estranha. É diferente, é grande, tem umas antenas parece uns galhos, meio que brilha... - insistiu agora agarrando a mãe pela manga do casaco.
- Rique, para! Que coisa chata! - dessa vez dando um breve safanão no braço do menino.
O garoto, conformado e chateado, desistiu e saiu emburrado fazendo beiço e convocando a amiga a segui-lo.
- Ai, essas crianças. Às vezes a gente acaba meio que perdendo a paciência... - suspirou, justificando a reação mais brusca.
- Ah, às vezes nos enlouquecem. - concordou a outra.
As duas continuaram ali no banco do parquinho com sua habitual conversa trivial sobre comidas, roupas, novelas, seguro do carro e outras coisas corriqueiras.
Naquela noite, seus filhos e todas as outras crianças da vizinhança que estiveram na pracinha do bairro, estáticas, em pé, ao lado de suas camas, fitavam seus pais com olhar vazio e sem vida. Pareciam apenas aguardar alguma espécie de ordem.
Cly Reis