Curta no Facebook

Mostrando postagens com marcador MPB. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador MPB. Mostrar todas as postagens

quinta-feira, 18 de junho de 2026

Maria Bethânia - "Mel" (1979)


"Ó Abelha Rainha/
Faz de mim/
Um instrumento de teu prazer"
Da letra de "Mel"

"Havia ali a presença toda sã/
 De minha irmã e coisa mais que azul"
Da letra de "Queda D'Água"


Quase terminados os efervescentes e intensos anos 70, Maria Bethânia já estava consolidada no panteão das grandes cantoras da história da música do Brasil. A jovem baiana, que havia assumido no início da carreira a responsabilidade de substituir Nara Leão no espetáculo Opinião e que, logo depois, deliberadamente escolhera não aderir ao Tropicalismo dos conterrâneos e contemporâneos Caetano Veloso, Gilberto Gil e Gal Costa, construíra um caminho sólido, que unia com muita personalidade a dramaticidade do teatro, a força poética e o arrojo de repertório. Tudo amalgamado por sua interpretação potente, casamento de técnica e emoção.

Mas Bethânia não se acomoda. Hoje, completando 80 anos de vida, pode-se dizer que ela nunca parou de se reinventar. E foi naquela fatídica década, a de melhor produção que tivera na carreira, que essa inquietação se tornou sua marca. Após vários álbuns bem distintos uns dos outros, incluindo “Drama/Anjo Exterminado”, de 1972, onde consolida seu caráter de palco, e “Álibi”, de 1978, seu disco de maior sucesso, ela queria mais. E tinha mais a dizer. “Mel”, assim, vinha como um raio de novidade de uma artista com fôlego de novata. Tanto que é nele, nono disco de estúdio da carreira, que se revela o principal apelido pelo qual se chamaria Bethânia a partir de então: Abelha Rainha.

Claro que o dedo de Caetano está lá mais uma vez, como desde o início da trajetória da irmã. A faixa-título, uma salsa de parceria dele com Waly Salomão, traz pela primeira vez os versos pelo qual a inesgotável Bethânia, já com quase 15 anos de estrada artística, apresentaria mais uma versão sua. “Pois se é noite de completa escuridão/ Provo do favo de teu mel/ Cavo a direta claridade do céu/ E agarro o sol com a mão”, diz. Como se já não bastassem as outras várias Bethânias de antes, agora o público conhecia uma nova, que nunca mais seria esquecida. 

Caê, com quem ela havia dividido os palcos um ano antes no primeiro show da dupla (reeditado em 2025 num megaespectáculo que percorreu o Brasil), assina pelo menos mais outras duas inéditas canções-chaves do disco. Uma delas, logo na sequência de “Mel”, é a belíssima e apaixonada “Ela e Eu”, que Marina Lima regravaria lindamente a capela anos mais tarde. Aqui, no entanto, na e para a voz de Bethânia tal como foi escrita, é simplesmente um desbunde. A maturidade vocal da baiana, numa interpretação encarnada e sensível, é acompanhada pela orquestração assinada por Perinho Albuquerque, também produtor do disco. Primorosa. 

Sobre a outra de Caetano, deixemos para o fim, como de fato o é. Pois antes vale a pena falar das espetaculares interpretações de compositores muito caros a Bethânia, como Lupicínio Rodrigues, com “Loucura”, e Gonzaguinha, autor de “Explode Coração”, com a qual ela estourara um ano antes e de quem, agora, ela traz duas: o samba-canção “Infinito Desejo” e a balada rasgada “Grito de Alerta”, outro sucesso nas rádios.

Arte da contracapa do disco "Mel"
com a letra de "Queda D'Água
escrita a pinho por Caetano
Ativista e posicionada, Bethânia também valorizava em “Mel” não só as compositoras colegas como, igualmente, um então novo discurso na música brasileira em que a mulher surgia como protagonista das ações. É o que se escuta em “Gota de Sangue”, da então jovem Ângela Ro Ro, “Da Cor Brasileira”, parceria de Joyce e Ana Terra, e até na sensualíssima “Cheiro de Amor”, escrita por autores homens, mas na primeira pessoa feminina (“E meio louca de prazer/ Lembro teu corpo no espelho”), assim como Chico Buarque mostrara ser possível na MPB com “Olhos nos Olhos” – não à toa, um clássico na voz de Bethânia.

Por falar em Chico, outra paixão inarredável de Bethânia e com quem ela, assim como com Caetano, havia feito show junto (registrado no disco “Chico Buarque & Maria Bethânia Ao Vivo”, de 1975), este também lhe aprontara uma inédita para o álbum. E que música! A nunca interpretada pelo próprio autor e pouco conhecida “Amando Sobre os Jornais”, um samba triste que une romance com crítica social, narra a história de dois mendigos que, mesmo diante da degradante condição, se amam cor ardor “noites a fundo tendo os jornais como cobertor”. 

O repertório, escolhido a dedo pela própria Bethânia, diretora musical do álbum, conta ainda com a deliciosa rumba “Lábios de Mel”, totalmente sintonizada com a temática daquele trabalho (“Os seus lábios têm um mel/ Que a abelha tira da flor”), e a balada “Nenhum Verão”, só voz e piano, o do próprio autor, Túlio Mourão. Isso para encerrar com uma das menores, mas nem por isso menos bonitas músicas de todo o cancioneiro da artista: “Queda D’Água”. Lembram que iríamos voltar a falar de Caetano? Pois é esta pequena obra-prima em letra e melodia, que ele escreve para Bethânia, numa poesia ao mesmo tempo sinestésica, espiritualista e profundamente afetiva. Se “Mel” e “Ela e Eu” já traziam versos dos mais radiantes de Caetano, o que dizer disso aqui, então? “A queda-d'água ergueu-se à minha frente/ De repente, tudo ficou de pé eternamente/ A floresta, a pedra, o vento vertical do abismo”.

Depois de “Mel”, Bethânia continuaria sendo outras ainda muitas Bethânias. A Dona do Dom, A Pedrinha de Aruanda, a Maricotinha, a Berré, a Brasileirinha, A Corda Vocal Insubmissa, A Menina dos Olhos de Oyá... No entanto, especialmente “Mel” fala muito dessa artista múltipla e indecifrável, a se ver por sua qualidade, diversidade e personalidade. Ao completar oito décadas de vida e mais de 60 de carreira, Bethânia ainda é aquela Abelha Rainha, que faz de nós, fãs, um instrumento do seu prazer. E de sua glória.

🐝🐝🐝🐝🐝🐝🐝🐝

FAIXAS:
1. "Mel" (Caetano Veloso, Waly Salomão) - 3:49
2. "Ela e Eu" (Veloso) - 2:21
3. "Cheiro De Amor" (Duda, Jota Moraes, Paulo Sergio Valle, Ribeiro) - 2:20
4. "Da Cor Brasileira" (Ana Terra, Joyce) - 2:56
5. "Loucura" (Lupicínio Rodrigues) - 2:42
6. "Gota de Sangue (Angela Ro Ro) - 2:30
7. "Grito de Alerta - (Luiz Gonzaga Jr.) - 3:01
8. "Lábios de Mel" (Waldir Rocha) - 2:47
9. "Amando Sobre os Jornais" (Chico Buarque) - 2:20
10. "Nenhum Verão" (Túlio Mourão) - 2:42
11. "Infinito Desejo" (Gonzaga Jr.) - 2:45
12. "Queda D'Água" (Veloso) - 1:06


🐝🐝🐝🐝🐝🐝🐝🐝


Daniel Rodrigues

quarta-feira, 10 de junho de 2026

Música da Cabeça - Programa #463

Prontos para mais uma apresentação de craques? Então, preparem-se, pois é o MDC que põe seu time em campo! Um dia antes de começar a Copa do Mundo, o programa escala seu time com talentos dos mais variados países, como a França de Françoise Hardy, a Inglaterra da The Cure e da Lush, os Estados Unidos de Iggy Pop e, claro, os brasileiros pentacampeões Fernanda Abreu, Carlinhos Brown, Erasmo Carlos e mais. No quadro especial, Um Cabeça dos Outros. Com a equipe formada, o programa dá o pontapé inicial às 21h na futebolística Rádio Elétrica. Produção, apresentação e golaços: Daniel Rodrigues


 www.radioeletrica.com

segunda-feira, 1 de junho de 2026

Erasmo Carlos - “Banda dos Contentes” (1976)


"'Banda dos Contentes' não é redondo, fechado, nem sufocante. É um trabalho livre, aberto, de um rock muito simples, girando em torno de um mundo real." 
Eliane Martins, em matéria da revista Pop, na época do lançamento de "Banda dos Contentes"

"Mudei. Mudei para melhor. Agora não sou mais galã de Jovem Guarda. Não me preocupo mais com a imagem. Eu estava sufocado, agora estou mais livre." 
Erasmo Carlos, em 1976

Roberto Carlos já havia deitado no divã da psicanálise 4 anos antes. Erasmo Carlos, coautor da canção gravada pelo “irmão camarada” em 1972, sentia que precisava de algo parecido. O Erasmo agora pai, casado, com carreira profissional consolidada e livre de vez da imagem do rapaz suburbano alçado ao estrelato da Jovem Guarda sabia que devia também se entender melhor. Mas se para alguns o processo terapêutico embaralha as emoções, para ele o aprofundamento em si mesmo foi revolucionário – e se deu através da própria música. “Banda dos Contentes”, álbum de 1976 que completa 50 anos de lançamento, é a prova disso, pois capta um homem honesto consigo e que, diante das mudanças do mundo daquela época, buscava se encontrar de coração e asas abertas.

Musicalmente, Erasmo já vinha exercitado seu lado tropicalista e independente da figura neo-romântica de Roberto desde “Erasmo Carlos e os Tremendões”, de 1970, passando pelo celebrado “Carlos, Erasmo”, de 1971, e pelo não menos “memorável” “Sonhos e Memória (1941-1972)”, de 1972. Em “Banda...”, o antigo garotão de “Gatinha Manhosa” e “Fama de Mau” chega maduro como músico e como pessoa. Isso se refletia na banda que escolhera trazer para perto de si: a fidelidade do “mutante” Liminha no baixo, a bateria esperta de Elber Bedaque, a guitarra roqueira de Rick Ferreira e a sofisticação jazz-samba do piano de Antônio Adolfo, além das participações de grandes músicos como Perna Fróes, Ruy Maurity, Rubão Sabino e do grupo Karma nos backings.

A diversidade sonora e a caprichada produção, a cargo de Guti e do próprio Erasmo, dão conta de um repertório que mantém o alto nível do início ao fim, com uma construção narrativa típica de quem sabe o que está fazendo. E mais legal é que, contrariamente a uma possível densidade em razão da influência psicanalítica, o disco une saudavelmente reflexões existenciais e filosóficas com sua caracteristicamente saborosa melodia. Até a arte visual é contaminada por esse olhar. No encarte do LP, Benício desenha vários homens se digladiando violentamente. Todos têm o rosto de Erasmo...

A faixa-título, com letra que parece ter saído fresquinha de uma sessão de terapia, é ao mesmo tempo fatídica e engraçada. ‘Às vezes olho no espelho/ Não vejo minha cara/ E com que cara que eu vou me mostrar/ Dentro de mim/ Com o meu saco cheio/ Porque a vida me fez/ Somente do meu tamanho”, dizem os versos. Mas o olhar freudiano contamina, de uma forma ou de outra, praticamente todo o repertório escolhido. O hit “Filho Único”, que inicia o disco e que foi tema de abertura da novela da Rede Globo Locomotivas, é uma das músicas mais sensíveis de toda aquela geração. Com uma letra que fala da busca de autonomia e independência de um filho sem irmãos para com sua genitora, traz alguns dos versos mais duros que a música brasileira já escreveu, justamente por contar uma verdade pouco admitida na sociedade daqueles idos: a de que os filhos são do mundo, não dos pais. O mundo agora é seu dono, “e nos seus planos não estão você”. Ele e Roberto, autores, abrem dizendo: “Ei mãe, não sou mais menino/ Não é justo que também queira parir meu destino”. Quer sentença mais psicanalítica que essa? Uma das joias do pop rock brasileiro de todos os tempos.

Arte de Benício no encarte do LP: vários Erasmos
contra eles mesmos
Sem deixar cair a peteca, Erasmo traz um então pouco conhecido compositor cearense chamado Belchior, que Elis Regina e Vanusa já haviam gravado mas que ainda nem havia lançado seu primeiro álbum, o hoje histórico “Alucinação”, daquele ano. A faixa é a clássica “Paralelas”, com sua letra forte e poética (“E no escritório em que eu trabalho e fico rico/ Quanto mais eu multiplico, diminui o meu amor”) e melodia/arranjo tanto quanto.

E se é para manter o nível lá em cima, nada melhor do que uma inédita como “Queremos Saber” na sequência. Assim como Caetano Veloso havia dado a Erasmo “De Noite na Cama” anos antes, agora era o outro tropicalista-mor, Gilberto Gil, que lhe presenteava com uma canção. E que canção! Indagadora, esta delicada balada caía como luva para a voz doce de Erasmo. Quem não há de ficar impactado (ou, pelo menos, reflexivo) com esses versos?: “Queremos notícia mais séria/ Sobre a descoberta da antimatéria E suas implicações/ Na emancipação do homem/ Das grandes populações/ Homens pobres das cidades/ Das estepes, dos sertões”. Cássia Eller regravaria “Queremos...” 25 anos depois e as interrogações continuariam as mesmas...

Em época de autoanálise, por que também não promover a investigação do que se põe como externo? É o que Erasmo e Roberto, em mais uma da dupla no disco, fazem, literalmente, com muita “descontração”. Monstro do Lago Ness, Carnaval, 10 Mandamentos, homem na Lua, guerras: está tudo em “Análise Descontraída”. Erasmo mostra-se indignado e incrédulo com o que vê à sua volta. “Eta mundo velho/ Você me parece ainda um ovo/ Ou então precisa urgentemente se acabar pra nascer de novo”. Morte, nascimento, valores ultrapassados, violência, modernidade confusa... Mais uma vez, a bendita terapia pegando.

Uma epifania em um cenário turbulento, “Dia de Paz”, de Jorge Mautner e Adolfo, evoca o Erasmo hippie de “Gente Aberta” e “Por Cima dos Aviões”. Outra que parece se deslocar no tempo e espaço para fugir um pouco da realidade é “Continente Perdido (Terra de Montezuma)”, uma fenomenal composição de Maurity e José Jorge, que conta com flautas e arranjos de Perna e uma sonoridade toda latina de raiz. Ousadias que Erasmão se permitia. Assim como a deliciosa “Baby”, mais uma de autoria com Roberto, um funk matador aos moldes de “Mundo Deserto” em que volta a usar sua verve contestadora para criticar... os homens como ele! Em sua descida às próprias profundezas, Erasmo, diante de uma feminista empoderada, vê-se inerte. “Deixe os seus protestos e os manifestos/ Pra outra periferia/ Não fui eu quem fez as leis/ Que não lhe dão maior autonomia/ Mas, se não dá/ Vamos fazer o nosso amor num outro dia”. Genial! Com uma linha de sopros de primeira, o baixo pulsante de Rubão, a bateria suingada de Pascoal Meirelles e as guitarras de Perna e Gabriel O’Meára, tem ainda o bass vocal de Erasmo marcando o ritmo.

Igualmente a “Dia de Paz”, “Fatos e Fotos”, de Luiz Mendes Jr. e Renato Terra, integrantes da Karma, baixa de novo a rotação numa canção romântica como as que Erasmo era craque em interpretar desde a Jovem Guarda. Isso porque, para encerrar, ele manda ver num country-rock ao mesmo tempo empolgante, lúdico e audacioso: “Billy Dinamite”, dele e de Rick. Audacioso, primeiramente, na concepção, haja vista que é a primeira música, após quase 20 anos de carreira artística, escrita com outro parceiro que não Roberto. Depois dele, viriam muitos outros, de Marisa Monte a Nelson Motta, de Samuel Rosa a Emicida. Narrando uma história típica de um livrinho barato do Tex, em que um mocinho se apaixona pela filha do cacique da tribo inimiga e, sabendo que sentenciara a própria morte por causa do amor, “fez a cama na montanha para ficar mais perto do céu”.

O anterior “Carlos, Erasmo”, seu mais cultuado álbum, bem como os posteriores “Erasmo Carlos Convida” (1980), “Mulher” (1981) e, já da última fase, “Rock‘n’Roll” (2009), são considerados marcos na discografia do Tremendão. Porém, nenhum outro é tão autoral e fala tanto sobre o próprio artista como “Banda...”, um divisor-de-águas em sua carreira. Com sua "cuca legal"“descontente” com o que devia ser, Erasmo antecipava, por exemplo, a crítica à masculinidade tão em voga hoje, expondo angústias, dúvidas, insatisfações e, principalmente, fragilidades do homem moderno. No brutalizado Brasil dos anos 70, de ditadura militar e supremacia da machosfera, Erasmo era um homem que chorava e se permitia emocionar. “Banda...” reflete, assim, mais do que qualquer outro trabalho seu aquilo que sempre lhe atribuíram: o de ser um verdadeiro Gigante Gentil em um mundo de cada vez menos gentilezas. 

videoclipe do Fantástico de "Billy Dinamite"

🎸🎸🎸🎸🎸🎸🎸🎸🎸

FAIXAS:
1. "Filho Único" (Erasmo Carlos/ Roberto Carlos) - 3:40
2. "Paralelas" (Belchior) - 2:55
3. "Queremos Saber" (Gilberto Gil) - 3:54
4. "Análise Descontraída" (Erasmo Carlos/ Roberto Carlos) - 3:30
5. "Dia de Paz" (Jorge Mautner/ Antonio Adolfo) - 3:30
6. "A Banda Dos Contentes" (Erasmo Carlos/ Roberto Carlos) - 3:10
7. "Continente Perdido (Terra de Montezuma)" (José Jorge/ Ruy Maurity) - 5:05
8. "Baby" (Erasmo Carlos/ Roberto Carlos) - 3:25
9. "Fatos e Fotos" (Luiz Mendes Jr./ Renato Terra) - 3:01
10. "Billy Dinamite" (Erasmo Carlos/ Rick Ferreira) - 4:18

🎸🎸🎸🎸🎸🎸🎸🎸🎸

OUÇA O DISCO:

Daniel Rodrigues

quarta-feira, 27 de maio de 2026

Música da Cabeça - PROGRAMA ESPECIAL Nº 461


Hoje tem MDC especial! Direto da Flórida, nos Estados Unidos, o programa desta semana traz uma edição especial com entrevista do música Phill Fest, guitarrista de jazz e música brasileira filho do célebre Manfredo Fest. Pianista e compositor gaúcho, um dos precursores da bossa nova e do jazz brasileiro no exterior, Manfredo completaria 90 anos se vivo. Na bate-papo com Phill, falamos sobre sua obra, seu trabalho e seu legado. Ainda, quadros, música e muito mais. É hoje, 21h, na Rádio Elétrica. Produção e apresentação: Daniel Rodrigues.



quarta-feira, 20 de maio de 2026

Música da Cabeça - Programa #460

 

Ok, Neymar, não é só porque tu tá cheio de razão porque vai pra Copa, que precisa escancarar desse jeito sobre o MDC. Afinal, não é engano, pois a gente vai, sim, substituir a edição de hoje pela reprise do programa 295, quando houve a última Copa do Mundo. Daquela feita, teve Grant Green, Erasmo Carlos, Morcheeba, Marina e muito mais. Levantamos a plaquinha correta às 21h na convocada Rádio Elétrica. Produção e apresentação vinda do banco de reservas: Daniel Rodrigues. 


www.radioeletrica.com

quarta-feira, 13 de maio de 2026

Música da Cabeça - Programa #459

O Pentágono divulgou foto desse OVNI's em formato esférico sobrevoando os céus, mas lamento frustrá-los. Com nossa super lente de aumento conseguimos ver que não se trata de um corpo extraterreno, mas somente o nosso MDC dando voando alto. Fruto do planeta Terra, o programa desta semana revela sonoridades improváveis, como as de Gilberto Gil, Enya, The Beatles, Talking Heads e Public Enemy. "De outro mundo" também é a música do pai dos sintetizadores, o norte-americano Milton Babbitt, que estará no Cabeção. Sem documentos secretos, o programa está liberado para todos às 21h na terráquia Rádio Elétrica. Produção e apresentação: Daniel Rodrigues (MDC, phone, home!) 


www.radioeletrica.com

quarta-feira, 6 de maio de 2026

Música da Cabeça - Programa #458

Ei, olha onde voce esta pisando! Nao precisa nem enxergar, pois tudo vai dar no MDC desta semana. Da pra confiar de olhos fechados, porque a programacao de hoje tem Steely Dan, Paralamas do Sucesso, Joao Gilberto, Peter Gabriel, Fátima Guedes e mais. Ainda, um quadro Sete-List homenageando o jazz. De peito aberto, o programa dá um passo no ar 21h na vendada Radio Eletrica. Producao, apresentacao e direcao certa: Daniel Rodrigues


www.radioeletrica.com

quarta-feira, 29 de abril de 2026

Música da Cabeça - Programa #457

 

Hoje o MDC tá nessa vibe: o mundo acabando em nossa volta e a gente assim: tranquilão. Sem medo de um tiroteiozinho qualquer, queremos saber só de música, o que está garantido com Wayne Shorter, Joy Division, Os Replicantes, Vinícius Cantuária, Gonzaguinha e outros. Quem também está muito aí pra esses estraga-festa é o nosso quadro Cabeça dos Outros. Saboreando cada garfada enquanto todo mundo corre, o programa segue o baile às 21h na serena Rádio Elétrica. Produção e apresentação: Daniel Rodrigues (e garçom: pode servir um whiskyzinho, por favor?)


www.radioeletrica.com

quarta-feira, 22 de abril de 2026

Música da Cabeça - Programa #456

 

Tá uma encheção de saco esse abre e fecha do Estreito de Ormuz, esse sobe e desce do preço do petróleo. O que permanece estável é o MDC, por onde, igual a toda semana, trafega o que há de melhor em música. The Smashing Pumpkins, Tom Jobim, The Sonics, Lupicínio Rodrigues e Roberto Carlos, por exemplo, têm acesso livre ao nosso canal. Igualmente, um Sete-List embarcado de muita História. Desbloqueado, o programa cruza pela marítima Rádio Elétrica exatamente às 21h. Produção, apresentação e fluxo normalizado: Daniel Rodrigues


www.radioeletrica.com

quarta-feira, 15 de abril de 2026

Música da Cabeça - Programa #455

 

Essa cara de espanto do quadro não é por causa do estilo cubista e nem em razão da pechincha que foi o leilão desse Picasso. O que realmente causa assombro é o MDC de hoje, só com verdadeiras pinturas em forma de música. The Beatles, Cartola, Bent, Neil Young e Elis Regina revelam seus traços. Igualmente, a gente repete o quadro Cabeção de março de 2021 para celebrar os 90 anos da compositora de vanguarda brasileira Jocy de Oliveira. Com uma paleta muito viva, o programa "pinta" por aqui às 21h na artística Rádio Elétrica. Produção, apresentação e tintas próprias: Daniel Rodrigues


www.radioeletrica.com


quarta-feira, 8 de abril de 2026

Música da Cabeça - Programa #454

 

Os tripulantes da Artemis II estão sobrevoando a Lua e observam o pôr-do-sol...  mas o que é esse planeta no horizonte?! É o planeta Música, gente! Para quem matou essa aula, a gente explica: esse distinto astro, cientificamente chamado de MDC 454 d, é cheio de vida e emite sinais sonoros ao ritmo de Marina, The Kinks, Louis Armstrong, Banda Black Rio e Barão Vermelho. Ela também se compõe de melodias e arranjos de Luiz Eça, cuja estrela continua irradiando seu brilho pelo espaço mesmo após sua morte. A nave está programada para entrar na rotação da Terra às 21h na estelar Rádio Elétrica. Produção, apresentação e um satélite na cabeça: Daniel Rodrigues


www.radioeletrica.com


quarta-feira, 1 de abril de 2026

Música da Cabeça - Programa #453

A Nasa diz que vai voltar à Lua neste 1º de abril, mas tem muita gente que diz que é mentira que eles já foram. Sem dúvida alguma, o que a gente vai ter hoje é MDC. E pra não mentir pra ninguém, hoje não é programa novo, mas sim reprise de um outro 1º de abril, de 2020, na edição 156, que teve Itamar Assumpção, Riachão, Sepultura, Tracy Chapman, Detrito Federal e um quadro "Cabeção" sobre Krzysztof Penderecki. Verdade verdadeira: vamos ao ar 21h na inquestionável Rádio Elétrica. Produção e apresentação: Daniel Rodrigues


www.radioeletrica.com


quarta-feira, 25 de março de 2026

Música da Cabeça - Programa #452

 

Bomba! Revelado o verdadeiro Power Point que liga o MDC a suas conexões! Mas aqui não tem mau jornalismo e nem intenções lavajatistas! Afinal, Sly & Family Stone, Neguinho da Beija-Flor, Cláudia, The Smiths e Jackson Browne sabem muito bem do que estão falando. Ainda, Eliane Elias ilustra nosso Cabeça dos Outros desta semana. Com distorção só de guitarras, o programa entra no modo apresentação às 21h na imparcial Rádio Elétrica. Produção e apresentação sem erro: Daniel Rodrigues 


www.radioeletrica.com

quarta-feira, 18 de março de 2026

Música da Cabeça - Programa #451

Como se já não bastasse a guerra, agora um manda animação Lego pra cá, videogame pra lá... Sem brincar com coisa séria, o MDC solta seus mísseis também, mas só os musicais. Hoje, Johnny Rivers, Kraftwerk, Jorge Bem Jor, Nirvana e Chico Science miram seus alvos. No Cabeção, igualmente, uma explosão de talento com os 80 anos da deusa Liza Minelli. Divertida-mente cultural, o programa vai ao ar às 21h na "gamificada" Rádio Elétrica. Produção, apresentação e meme pela paz: Daniel Rodrigues


www.radioeletreica.com

quarta-feira, 25 de fevereiro de 2026

Música da Cabeça - Programa #448

 

Estão vendo essas imagens? É da ação da polilaminina sobre os nossos neurônios que regenera lesões musculares. Entenderam? Pra falar a verdade, nós não, mas estamos, isso sim, celebrando no MDC o pioneirismo da ciência brasileira. E, claro, a gente celebra com música, que desta vez será de The Cure, Peter Tosh, Rita Lee, Chico Buarque, Ace of Base e mais. Torcendo pelo primeiro Nobel brasileiro para a bióloga Tatiana Sampaio, o programa cruza os dedos hoje às 21h na científica Rádio Elétrica. Produção, apresentação e louvor à pesquisa: Daniel Rodrigues


www.radioeletrica.com

quinta-feira, 12 de fevereiro de 2026

Gal Costa - “Gal Canta Caymmi” (1976)


"Gal é uma coisa gostosa. Ela é cantada em prosa e verso e se eu falar alguma coisa mais, vão dizer que eu estou copiando. É das cabeludas mais bonitas que conheço".
Dorival Caymmi


Caetano Veloso observou certa vez que a obra de Dorival Caymmi, embora pequena em volume de canções em relação a de outros compositores contemporâneos a ele (tal Ary Barroso ou Lamartine Babo) ou mesmo dos baianos como o próprio Caetano, é proporcionalmente a mais revisitada. Caymmi é pedra-fundamental da música brasileira, um cancionista e poeta capaz de inventar uma nova tradição, a qual encerra o folclore, o samba rural e a vida cotidiana da Bahia de Todos os Santos. Muito fizeram em versá-lo, mas nem sempre com assertividade, visto que sua música leva a uma encruzilhada: de tão original que é, dificulta quem a acessa. De todos, quem melhor resolveu essa equação foi Gal Costa em “Gal Canta Caymmi”, de 1976, disco que completa 50 anos com o mesmo frescor de quando foi lançado, além do show homônimo, um sucesso de público, que estreava exatamente no dia 11 de fevereiro, no Teatro João Caetano, no Rio de Janeiro.

Rainha das dunas de Ipanema que levavam seu nome, o ponto de encontro da contracultura carioca em tempos de ditadura, Gal exercia um papel central em meados dos anos 70. Era, ao mesmo tempo, a devota de João Gilberto e a roqueira janisjopliana, que havia irrompido no festival de 1968 e abraçado a psicodelia tropicalista, influenciando comportamentos e tornando-se um símbolo feminino libertário e contestador. Os parceiros Caetano e Gilberto Gil já haviam voltado do exílio, é bem verdade. Mas Gal, a diva resistente que segurou a barra do Tropicalismo sozinha na hora da linha-dura, conquistou seu espaço inconteste e ali reinava. Assim, tinha carta branca para empreitar o projeto que desejasse, como este, sugerido por Roberto Menescal, diretor artístico da sua gravadora, a Phillips, e prontamente aceito por ela. Por ideia dele, Gal havia gravado, um ano antes, “Modinha para Gabriela” para a novela da TV Globo, canção de Caymmi. Assim, não foi difícil identificar o próximo passo. Após o sucesso dos revolucionários “FA-TAL”, de 1971, e “Índia”, de 1973, era a vez da aguerrida Gal desafiar os padrões novamente, agora, modernizando o cancioneiro do autor de "Maracangalha" e outros eternos clássicos da MPB.

Mexer no que é sagrado não é para qualquer um, no entanto. E, claro, houve críticas. A imprensa inculta da época classificou "GCC" como "um crime à obra musical de Dorival Caymmi", "avacalhação" e "boçalidade". Porém, a cantora sabia o que estava fazendo e que não estava sozinha. Aliás, via-se muito bem acompanhada e amparada. Na trincheira com ela dois sólidos parceiros: Perinho Albuquerque e João Donato. Eles repetiam a química que definira o clássico “Cantar”, de 1974, marco da maturidade musical e artística de Gal. E se naquele álbum havia a batuta de Caetano orquestrando reportório e atmosfera, neste o papel ficava a cargo exclusivamente desses dois exímios arranjadores. A solução perfeita para versar Caymmi. Ora um, ora outro, produtor e diretor musical, respectivamente, eles assinam os arranjos de todas as faixas, equilibrando a pegada rock de um com o clima latin-jazz de outro sem deixar de soar com impressionante unidade. E, principal: ambos trabalham para dar o suporte necessário às formidáveis voz e interpretação de Gal, “a melhor cantora do Brasil” segundo João Gilberto.

Caymmi participando do show de Gal, em 1976,
no Teatro João Caetano (RJ)
Esse equilíbrio fica evidente nas duas faixas que abrem o álbum: os sambas “Vatapá”, um símbolo do cancioneiro caymmiano transformado em um soul jazz, e "Festa de Rua" (“Meu Senhor dos Navegantes, venha me valer”), numa pegada bastante pop. A primeira, a cargo do mestre Donato, com seus característicos arranjos de metais em tom médio. Já a seguinte, arranjada por Perinho, é colorida dos mesmos sopros e embalada num ritmo de samba soul. O samba-canção “Nem Eu”, da fase carioca de Caymmi, ganha a suavidade da voz de Gal em sua simplicidade composicional, a qual é traduzida em bossa-nova novamente pela mão de Donato, um dos precursores do gênero.

Aí, o negócio fica sério em duas em sequência: “Pescaria (Canoeiro)” e “O Vento”. O que Perinho faz com essas duas peças da célebre fase das “canções praieiras” de Caymmi é simplesmente deslumbrante. As músicas soam vigorosas, arrojadas, dando a medida da modernidade aplicada por Gal à obra do mestre. “Pescaria” conta com a sanfona de Dominguinhos, baixo de Novelli e violão de Menescal. Já em “O Vento”, piano de Antonio Adolfo e bateria de Paulinho Braga. Porém, deslumbrante mesmo é Gal cantando essas duas, certamente músicas que povoaram seu imaginário sonoro desde pequena em Salvador. O que é ela atingindo os agudos quando sobe um tom nos versos: “Ô canoeiro/ bota a rede no mar”?! Ou quando entoa, num ritmo funkeado: “Curimã ê, Curimã lambaio”?! É de arrepiar. A música está nela, capacidade que somente as grandes cantoras, como Sarah Vaughan, Elis Regina, Amy Winehouse ou Aretha Franklin, conseguem. Gal é uma delas.

O lado B, no formato original do LP, abre com mais um clássico inconteste da cidade de Salvador e do folclore baiano, que é "Rainha do Mar", dedicada à Iemanjá. Filha de Omulu, Gal era devota do candomblé, tendo se iniciado no referencial terreiro Ilê Iaomim Axé Iamassê com Mãe Menininha do Gantois. Ao ouvi-la cantar: “Minha sereia é rainha do mar/ Minha sereia é rainha do mar/ O canto dela faz admirar” tem-se a impressão de que está cantando sobre si mesma, tamanha a comunhão corpo/espírito que a música (e sua voz) consegue provocar.

Em seguida, noutra concatenada com Donato, mais um dos sambas cariocas, e outro show de interpretação de Gal. É "Só Louco", cuja melodia e letra têm visível influência de Lupicínio Rodrigues, com quem Caymmi convivera nos boêmios anos 30 no Rio de Janeiro. Animando o clima dor-de-cotovelo deixado pela anterior, "São Salvador" é daqueles temas solares feitos para o vocal de Gal brilhar. Igual a "Peguei Um 'Ita' No Norte", em que Donato novamente capricha no arranjo e onde Gal põe com delicadeza ímpar sua cristalina voz. Fechando num clima de festa, Perinho a ajuda a transformar o samba urbano "Dois de Fevereiro" em um samba-funk suingado.

Com “GCC”, Gal rompera uma barreira na indústria fonográfica brasileira ao produzir um álbum celebrando apenas um compositor, formato que ganharia o nome songbook mais tarde e se tornaria extremamente comum. Dois anos depois dele, foi a vez de Nara Leão gravar somente Roberto Carlos e Erasmo Carlos no disco “...E Que Tudo Mais Vá Pro Inferno”, um de seus maiores sucessos na carreira, favorecendo-se do caminho aberto pela colega baiana. Sinal de que Gal, mais uma vez, estava à frente das coisas. Ao homenagear Caymmi, ela mostrou que era permitido ousar mantendo o respeito à tradição. Gal nasceu assim, cresceu assim, era mesmo assim e foi sempre assim: uma baiana à frente do seu tempo.

🎤🎤🎤🎤🎤🎤🎤🎤🎤🎤

FAIXAS:
1. "Vatapá" - 3:31
2. "Festa de Rua" - 2:10
3. "Nem Eu" - 3:48
4. "Pescaria (Canoeiro)" - 2:53
5. "O Vento" - 4:52
6. "Rainha do Mar" - 3:00
7. "Só Louco" - 3:12
8. "São Salvador" - 2:44
9. "Peguei um 'Ita' no Norte" - 3:28
10. "Dois de Fevereiro" - 3:45
Todas as composições de autoria de Dorival Caymmi

🎤🎤🎤🎤🎤🎤🎤🎤🎤🎤



Daniel Rodrigues

quarta-feira, 11 de fevereiro de 2026

Música da Cabeça - Programa #447

 

Tanto esforço desses praticantes do curling nas Olimpíadas de Inverno pra deslizar aquela pedra! Pra que tudo isso, gente?! O alvo é mais fácil que vocês imaginam, pois nem precisa esfregar a vassourinha pra acertar no MDC, que terá Living Colour, Beatles, Bauhaus, Robson Jorge, Marina e mais. Tem também quadro especial aludindo ao samba e ao Carnaval, que tá se aproximando rapidinho igual à pedra do curling. Deslizando em seus ouvidos o programa entra na pista hoje às 21h na esportiva Rádio Elétrica. Produção, apresentação e vassourinha na mão (mas a de frevo, afinal, o Carnaval tá aí): Daniel Rodrigues


www.radioeletrica.com

quarta-feira, 4 de fevereiro de 2026

Música da Cabeça - Programa #446

 

A nevasca no Hemisfério Norte tá tão forte, que quase não dá pra ver o que tem na frente. Por isso, o MDC desta semana vai desembaçar. Bem diante dos olhos estão Kraftwerk, João Nogueira, James Brown, Renato Russo, Caetano Veloso, Elisa Lucinda e mais. Também, Cabeça dos Outros, Palavra, Lê, Música de Fato, tudo aquilo! Garantindo boa visibilidade, o programa vai ao ar às 21h na flocada Rádio Elétrica. Produção, apresentação e visão turva: Daniel Rodrigues


www.radioeletrica.com

quinta-feira, 29 de janeiro de 2026

"Araca: Arquiduquesa do Encantado - Um perfil de Aracy de Almeida", de Hermínio Bello de Carvalho - Ed. Folha Seca - Edição Ampliada (2025)



por Márcio Pinheiro

 "Todos podem desafinar ao cantar. Aracy, nunca.”
Paulinho da Viola


Com a nobreza que reveste algumas figuras míticas dos subúrbios do Rio, Hermínio Bello de Carvalho desenha o perfil de Aracy de Almeida em "Araca – Arquiduquesa do Encantado" (Folha Seca). Não espere um retrato convencional, rico em detalhes, linear na estrutura e repleto de informações. Hermínio nem sequer informa direito onde e quando Aracy nasceu. Conclui-se que, se em 1986 ela tinha 72 anos, é sinal que morreu com 74 em 1988, vítima de um derrame.

O que Hermínio oferece em Araca é, sim, um olhar único e peculiar sobre uma das artistas mais originais que o Brasil já teve. Uma visão impressionista de quem aproxima a homenageada do leitor, sem ranço ou reverência, ressaltando as pequenas histórias – como o fato de Aracy não usar calcinhas, preferindo as cuecas samba-canção brancas (com monograma bordado, detalhe importante) – e as tiradas espirituosas que caracterizavam a personagem.

Intérprete de timbre marcante, com voz anasalada e os "erres" arrastados, que deslumbrou Mário de Andrade e Noel Rosa (para citar apenas dois), Aracy surge em Araca como a doidivanas que beira o folclore, mas também como a artista sensível, capaz de apreciar Bach, Louis Armstrong, Ella Fitzgerald e os tangos de Gardel. Até ópera entrava no repertório afetivo-musical de Aracy "Ih, adoro aquele berreiro", costumava dizer entre o jocoso e o respeitoso.

Personagem que foi maior do que a sua obra, Aracy foi existencialista antes do existencialismo e hippie antes de Woodstock. Era uma boêmia que gostava de ficar em casa cozinhando para os amigos, que bebia muito uísque escocês só com gelo e que, apesar de não gostar de crianças, dava festas de Natal inesquecíveis. Não gostava de dar canjas musicais e, quando convocada, respondia rispidamente com uma de suas frases preferidas: "Quem canta de graça é galo". Era irreverente, às vezes até inconveniente, como quando perguntou a Sérgio Cabral, que estava com a namorada: "Tens copulado muito?", ou quando, abordada por uma jovem fã que queria saber como estava passando, saiu-se com essa: "Ah, minha filha, eu ando muito fodida". Para Hermínio, Aracy elevou o palavrão à condição de cantata de Bach.

quarta-feira, 28 de janeiro de 2026

Música da Cabeça - Programa #445

 

AGORA SÓ FALTAVA ESSA: O TRUMP TÁ FAZENDO TANTA BARBARIDADE, QUE ADIANTOU O RELÓGIO DO JUÍZO FINAL! MAS VAMOS AJUSTAR ESSES PONTEIROS AÍ! NO TEMPO CERTO, TEREMOS NO MDC DE HOJE AIMEÉ MANN, JOYCE, CHICO SCIENCE, MADONNA, BODY COUNT, ALICE RUIZ E MAIS. TEM TAMBÉM CABEÇÃO, QUE RESGATA OS 120 ANOS DE RADAMÉS GNATALI. O PROGRAMA ENTRA ÀS 21H, MUITOS SEGUNDOS ANTES DA MEIA-NOITE, NA ATÔMICA RÁDIO ELÉTRICA. PRODUÇÃO, APRESENTAÇÃO E PREVISÕES MAIS OTIMISTAS: DANIEL RODRIGUES.

___________________________________

WWW.RADIOELETRICA.COM

_________________________