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quinta-feira, 16 de maio de 2024

Danilo Caymmi - "Cheiro Verde" (1977)

 

“Você gravava, vendia, corria atrás, ia pra rua. Fizemos três mil cópias e conseguimos vender todas. Mas agora, nesta era digital, esse disco ficou parado. Ele foi se valorizando com o tempo, o que é muito gratificante”. 
Danilo Caymmi

Danilo é o menos badalado entre os Caymmi. No que diz respeito a seu pai, Dorival, poucos se equiparam ao gênio deste Buda Nagô, um dos maiores nomes da música brasileira de todos os tempos. Seu irmão mais velho, Dori, gabaritado maestro de reconhecimento internacional, trabalhou com alguns dos mais prestigiados músicos do seu tempo, como os conterrâneos Tom Jobim, João Gilberto e Elis Regina e os estrangeiros Dionne Warwick, Quincy Jones e Toots Thielemans. Nana, a irmã, é nome inconteste entre as maiores vozes da MPB. Até mesmo a filha Alice, cultuada pelo público mais jovem, ganha mais holofotes do que ele. A figura modesta talvez explique. A mãe Stella Maris, mineira, sentenciou certa vez que, entre os filhos, Nana cantava, Dori arranjava e Danilo tocava flauta. Porém, Danilo é, certamente, muito mais do que uma retaguarda, visto que é o mais catalisador da família em termos musicais. Caçula, talvez justamente por ter vindo por último ele consiga recolher características de cada um: de Dorival, traz nas veias a sofisticação das canções praieiras; do irmão mais velho, a versatilidade e a musicalidade profunda; de Nana, o timbre inconfundível dos Caymmi e o apuro vocal; da filha, a modernidade musical intercambiada desde que ela estava no berço.

“Cheiro Verde”, seu álbum de estreia, de 1977, é um exemplo claro desta multiplicidade simbiótica de Danilo. Cantor, flautista, compositor e violonista, traz em sua música uma impressionante diversidade de estilos, que vão da bossa nova ao baião, passando pelo samba jazz e a soul. Com um time de grandes músicos, tal Cristóvão Bastos, Maurício Maestro e Fernando Laporace, o disco traz a mais alta qualidade melodia e harmonia quanto letrística e instrumental, ao nível do "alto escalão" da MPB, como Tom, Arthur Verocai, Ivan Lins, Waltel Branco, Antonio Adolfo, Tânia Maria, Edu Lobo. Ao nível dos Caymmi.

Afinal, Danilo, mesmo debutando como artista solo, não era nenhum novato. Flautista profissional desde os 16, o futuro arquiteto que abandonou a faculdade para seguir a vida musical já em 1968 participava do II Festival Internacional da Canção Popular. Levou o terceiro lugar com a clássica “Andança”, parceria com Edmundo Souto e Paulinho Tapajós, defendida por Beth Carvalho. No ano seguinte, venceu o Festival de Juiz de Fora com a canção “Casaco Marrom”, parceria com Renato Corrêa e Gutemberg Guarabyra, interpretada por Evinha. Bastante próximo dos colegas mineiros, de quem tem forte influência musical, já havia integrado a banda de Tom, Joyce, Milton Nascimento, Som Imaginário, Martinho da Vila, Quarteto em Cy, entre outros, além de assinar, juntamente com Beto Guedes, Novelli e Toninho Horta, um dos melhores discos de toda a década de 70.

Em “Cheiro…”, portanto, Danilo chegava pronto como que perfumado para uma festa. A primeira nota do frasco, “Mineiro”, é exemplar nisso: bossa nova com dissonâncias e harmonia típicas dos autores de grande domínio composicional. A letra de Ronaldo Bastos é uma homenagem de dois cariocas aos amigos do Clube da Esquina: “Vou por aí levando um coração mineiro, pois é”. Ainda, as participações especiais de Airto Moreira na bateria, Helvius Vilela no piano e Gegê na percussão. Com Bastos, também assina “Codajás”, que Nana gravara um ano antes. De tom ao mesmo tempo blueseiro e sambístico, traz o belo canto de Danilo soltando agudos difíceis a qualquer cantor, ainda mais a alguém de uma família cujo timbre tende sempre ao barítono. Fora isso, Danilo a aperfeiçoa ainda mais com um jazzístico solo de flauta, que encerra o número.

Com a então esposa Ana Terra, excelente musicista carioca e responsável também pela produção, compõe maior parte do repertório, como o samba “Pé sem Cabeça”, típica música do período da ditadura no Brasil - gravada posteriormente, claro, pela combativa Elis. Com cara de tema romântico, na verdade, denuncia o regime e os horrores cometidos contra os opositores: “Você me fez sofrer/ Ninguém me faz sofrer assim/ O que era tanta beleza num pé sem cabeça você transformou”. É dos dois também a brejeira e lúdica “Juliana”, de acordes jobinianos, e a subsequente “Aperta Outro”, samba cheio de suingue com toque do trombone de Edson Maciel e o baixo do parceiro Novelli. 

Ainda mais gingada é “Racha Cartola”, ode à boemia mas, igualmente, à preocupação do boêmio quando volta para casa. “Como explicar?”, pergunta-se lembrando que terá de encarar a esposa esperando-o irritada. A sincopada “Botina”, dele e de outro mineiro, Nelson Ângelo, traz novamente a atmosfera de Minas (“Velha porteira, cidade interior/ Uma voz de lavanderia, um batuque e um sabor”), referenciando, mais uma vez - além do próprio coautor -, à turma liderada por Milton Nascimento. Aliás, o gênio de Três Pontas empresta sua voz inconfundível em “Lua Do Meio-Dia”, outra com Ana e das mais belas e engenhosas melodias do disco, com sua estrutura dissonante e complexas divisões.

Em época de Abertura Política, mas de manutenção da repressão, Danilo ousa e encaminha o final do álbum com mais um tema bastante provocativo: “Vivo ou Morto”. Dele e de João Carlos Pádua, não tem como não relacionar os versos deste baião tristonho às mortes de presos políticos promovidas nos Anos de Chumbo: “Debaixo das 9 pedras/ Ele vive muito bem/… Ele respira e fala pelas bocas do inferno/…Debaixo das 9 bocas/ Ele nem mesmo se cala/ Debaixo das 9 botas/ Ele dá voltas na sala”. Para encerrar mesmo, então, a sinestésica faixa-título, quinta dele com Ana entre as 10 faixas de todo o trabalho. E que bela canção! Com a atmosfera da música “ecológica” que Tom inauguraria no início dos anos 70, quando começou a se voltar às questões do Planeta, Danilo parecia antever sua entrada anos depois, em 1984, na Banda Nova, conjunto que passaria a acompanhar o Maestro Soberano até o final de sua vida.

Desde então, Danilo seguiria intercalando uma afirmada carreira solo com participações como instrumentista em trabalhos de outros, reuniões com a família no palco e gravações e shows na Banda Nova. Lançou 10 álbuns como front man, alcançando, em 1990, grande sucesso com “O Bem e o Mal”, tema da minissérie “Riacho Doce”, da Globo. No entanto, “Cheiro Verde” permanece um marco na sua obra não apenas por ser o primeiro ato de um músico que soube aproveitar seu gene privilegiado, mas pela qualidade indiscutível que guarda até hoje. Tanto é que, lançado independentemente em 1977, teve, em 2002, sua tiragem licenciada na Inglaterra, tornando-se cult entre os jovens na Europa. Somente no ano passado, teve relançamento no Brasil para a alegria dos fãs e apreciadores. Pelo visto, esse aroma inconfundível e encantador não se dissipou mesmo tantos anos depois.

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FAIXAS:
1. “Mineiro” (Danilo Caymmi/ Ronaldo Bastos) - 3:25
2. “Pé Sem Cabeça” (Caymmi/ Ana Terra) - 2:45
3. “Codajás” (Caymmi/ Bastos) - 3:05
4. “Juliana” (Caymmi/ Terra) - 2:44
5. “Aperta Outro” (Caymmi/ Terra) - 2:54
6. “Racha Cartola” (Caymmi/ João Carlos Pádua) - 2:55
7. “Botina” (Caymmi/ Nelson Angelo) - 2:37
8. “Lua Do Meio-Dia” (Caymmi/ Terra) - 2:16
9. “Vivo Ou Morto” (Caymmi/ Pádua) - 3:07
10. “Cheiro Verde” (Caymmi/ Terra) - 4:15

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OUÇA O DISCO:

Danilo Caymmi - "Cheiro Verde"


Daniel Rodrigues


quinta-feira, 18 de junho de 2026

Maria Bethânia - "Mel" (1979)


"Ó Abelha Rainha/
Faz de mim/
Um instrumento de teu prazer"
Da letra de "Mel"

"Havia ali a presença toda sã/
 De minha irmã e coisa mais que azul"
Da letra de "Queda D'Água"


Quase terminados os efervescentes e intensos anos 70, Maria Bethânia já estava consolidada no panteão das grandes cantoras da história da música do Brasil. A jovem baiana, que havia assumido no início da carreira a responsabilidade de substituir Nara Leão no espetáculo Opinião e que, logo depois, deliberadamente escolhera não aderir ao Tropicalismo dos conterrâneos e contemporâneos Caetano Veloso, Gilberto Gil e Gal Costa, construíra um caminho sólido, que unia com muita personalidade a dramaticidade do teatro, a força poética e o arrojo de repertório. Tudo amalgamado por sua interpretação potente, casamento de técnica e emoção.

Mas Bethânia não se acomoda. Hoje, completando 80 anos de vida, pode-se dizer que ela nunca parou de se reinventar. E foi naquela fatídica década, a de melhor produção que tivera na carreira, que essa inquietação se tornou sua marca. Após vários álbuns bem distintos uns dos outros, incluindo “Drama/Anjo Exterminado”, de 1972, onde consolida seu caráter de palco, e “Álibi”, de 1978, seu disco de maior sucesso, ela queria mais. E tinha mais a dizer. “Mel”, assim, vinha como um raio de novidade de uma artista com fôlego de novata. Tanto que é nele, nono disco de estúdio da carreira, que se revela o principal apelido pelo qual se chamaria Bethânia a partir de então: Abelha Rainha.

Claro que o dedo de Caetano está lá mais uma vez, como desde o início da trajetória da irmã. A faixa-título, uma salsa de parceria dele com Waly Salomão, traz pela primeira vez os versos pelo qual a inesgotável Bethânia, já com quase 15 anos de estrada artística, apresentaria mais uma versão sua. “Pois se é noite de completa escuridão/ Provo do favo de teu mel/ Cavo a direta claridade do céu/ E agarro o sol com a mão”, diz. Como se já não bastassem as outras várias Bethânias de antes, agora o público conhecia uma nova, que nunca mais seria esquecida. 

Caê, com quem ela havia dividido os palcos um ano antes no primeiro show da dupla (reeditado em 2025 num megaespectáculo que percorreu o Brasil), assina pelo menos mais outras duas inéditas canções-chaves do disco. Uma delas, logo na sequência de “Mel”, é a belíssima e apaixonada “Ela e Eu”, que Marina Lima regravaria lindamente a capela anos mais tarde. Aqui, no entanto, na e para a voz de Bethânia tal como foi escrita, é simplesmente um desbunde. A maturidade vocal da baiana, numa interpretação encarnada e sensível, é acompanhada pela orquestração assinada por Perinho Albuquerque, também produtor do disco. Primorosa. 

Sobre a outra de Caetano, deixemos para o fim, como de fato o é. Pois antes vale a pena falar das espetaculares interpretações de compositores muito caros a Bethânia, como Lupicínio Rodrigues, com “Loucura”, e Gonzaguinha, autor de “Explode Coração”, com a qual ela estourara um ano antes e de quem, agora, ela traz duas: o samba-canção “Infinito Desejo” e a balada rasgada “Grito de Alerta”, outro sucesso nas rádios.

Arte da contracapa do disco "Mel"
com a letra de "Queda D'Água
escrita a pinho por Caetano
Ativista e posicionada, Bethânia também valorizava em “Mel” não só as compositoras colegas como, igualmente, um então novo discurso na música brasileira em que a mulher surgia como protagonista das ações. É o que se escuta em “Gota de Sangue”, da então jovem Ângela Ro Ro, “Da Cor Brasileira”, parceria de Joyce e Ana Terra, e até na sensualíssima “Cheiro de Amor”, escrita por autores homens, mas na primeira pessoa feminina (“E meio louca de prazer/ Lembro teu corpo no espelho”), assim como Chico Buarque mostrara ser possível na MPB com “Olhos nos Olhos” – não à toa, um clássico na voz de Bethânia.

Por falar em Chico, outra paixão inarredável de Bethânia e com quem ela, assim como com Caetano, havia feito show junto (registrado no disco “Chico Buarque & Maria Bethânia Ao Vivo”, de 1975), este também lhe aprontara uma inédita para o álbum. E que música! A nunca interpretada pelo próprio autor e pouco conhecida “Amando Sobre os Jornais”, um samba triste que une romance com crítica social, narra a história de dois mendigos que, mesmo diante da degradante condição, se amam cor ardor “noites a fundo tendo os jornais como cobertor”. 

O repertório, escolhido a dedo pela própria Bethânia, diretora musical do álbum, conta ainda com a deliciosa rumba “Lábios de Mel”, totalmente sintonizada com a temática daquele trabalho (“Os seus lábios têm um mel/ Que a abelha tira da flor”), e a balada “Nenhum Verão”, só voz e piano, o do próprio autor, Túlio Mourão. Isso para encerrar com uma das menores, mas nem por isso menos bonitas músicas de todo o cancioneiro da artista: “Queda D’Água”. Lembram que iríamos voltar a falar de Caetano? Pois é esta pequena obra-prima em letra e melodia, que ele escreve para Bethânia, numa poesia ao mesmo tempo sinestésica, espiritualista e profundamente afetiva. Se “Mel” e “Ela e Eu” já traziam versos dos mais radiantes de Caetano, o que dizer disso aqui, então? “A queda-d'água ergueu-se à minha frente/ De repente, tudo ficou de pé eternamente/ A floresta, a pedra, o vento vertical do abismo”.

Depois de “Mel”, Bethânia continuaria sendo outras ainda muitas Bethânias. A Dona do Dom, A Pedrinha de Aruanda, a Maricotinha, a Berré, a Brasileirinha, A Corda Vocal Insubmissa, A Menina dos Olhos de Oyá... No entanto, especialmente “Mel” fala muito dessa artista múltipla e indecifrável, a se ver por sua qualidade, diversidade e personalidade. Ao completar oito décadas de vida e mais de 60 de carreira, Bethânia ainda é aquela Abelha Rainha, que faz de nós, fãs, um instrumento do seu prazer. E de sua glória.

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FAIXAS:
1. "Mel" (Caetano Veloso, Waly Salomão) - 3:49
2. "Ela e Eu" (Veloso) - 2:21
3. "Cheiro De Amor" (Duda, Jota Moraes, Paulo Sergio Valle, Ribeiro) - 2:20
4. "Da Cor Brasileira" (Ana Terra, Joyce) - 2:56
5. "Loucura" (Lupicínio Rodrigues) - 2:42
6. "Gota de Sangue (Angela Ro Ro) - 2:30
7. "Grito de Alerta - (Luiz Gonzaga Jr.) - 3:01
8. "Lábios de Mel" (Waldir Rocha) - 2:47
9. "Amando Sobre os Jornais" (Chico Buarque) - 2:20
10. "Nenhum Verão" (Túlio Mourão) - 2:42
11. "Infinito Desejo" (Gonzaga Jr.) - 2:45
12. "Queda D'Água" (Veloso) - 1:06


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Daniel Rodrigues

quarta-feira, 9 de março de 2022

Música da Cabeça - Programa 257

 

Não é por acaso que a palavra "música" é feminina. Na semana que se comemora com beleza e consciência o Dia Internacional da Mulher, o MDC traz algumas delas para formar o programa 257. Vai ter Juçara Marçal (Metá Metá), Ana Terra (com Danilo Caymmi) e uma homenagem aos 80 anos de uma das lendas vivas do jazz mundial, a carioca Flora Purim. Além disso, os quadros fixos e móvel. Não perde: 21h, na feminíssima Rádio Elétrica. Produção e apresentação dela: Daniel Rodrigues

Rádio Elétrica:
http://www.radioeletrica.com/

segunda-feira, 6 de dezembro de 2021

II Festival de Cinema Negro em Ação - Longas-Metragens

 

Tive a satisfação de participar, pelo segundo ano consecutivo, do Festival Cinema Negro em Ação, que é realizado com muita garra pela competente cineasta Camila de Moraes juntamente à Casa de Cultura Mario Quintana (CCMQ) e Instituto Estadual de Cinema (Iecine). Como já abordei noutras ocasiões, o festival tem uma importância singular no cenário audiovisual gaúcho e brasileiro por sua simbologia e ação. Particularmente, por meio da ACCIRS, tive o prazer e a felicidade de ser novamente convidado a integrar o corpo de jurados, desta vez na seleção de longas-metragens.

"Trem do Soul": a história dos bailes
negros dos anos 70/80
Iniciado no Dia da Consciência Negra, a segunda edição do evento, teve este ano ainda maior relevância, tanto por sua resiliência quanto por integrar as comemorações pelo cinquentenário do 20 de novembro. Em um formato híbrido, o festival ocorreu durante uma semana com programação na grade da TVE-RS e do Prime Box, na Cinemateca Paulo Amorim e na plataforma Cultura em Casa, da Secretaria da Cultura e Economia Criativa do Estado de São Paulo.

Se o primeiro festival, juntamente com todas as vozes que reverberam o protagonismo negro em Porto Alegre, marcou lindamente uma trajetória que começa a se consolidar, ao mesmo tempo também foi maculado pelo terrível assassinato de João Alberto horas antes da estreia, desviando por força maior o foco das manifestações. Manifestações de luta, mas de revolta e não artísticas. 

Este ano, impossível não lembrar deste episódio, mas também – como é característica do povo negro – novos passos de superação foram dados. Em resposta, o próprio festival representa um marco nas políticas afirmativas das instituições envolvidas, resultado de um programa de inclusão e representatividade que aposta no audiovisual como um caminho de desenvolvimento econômico e social.

Sob o axé de Oliveira Silveira, cujo movimento em favor da criação desta data ainda tão fundamental completa meio século, o II Festival Cinema Negro em Ação transcorreu somente dentro do que o feito merece: com celebração e respeito.

Cena de "A Última Negra", que recebeu Menção Honrosa

O belo doc sobre
os clubes sociais do RS
Entre os sete longas e médias-metragens que competiram a mim e aos queridos e competentes colegas de júri Jeferson Silva, do Coletivo Macumba Lab, e Alexandre Mattos, da Associação Profissional de Técnicos Cinematográficos (APTC) escolher, destaco os que, após longa e saudável discussão, selecionamos: o aprazível documentário “Trem do Soul”, do carioca Clementino Junior, com o Prêmio Nacional; o tocante e revelador documentário “Meu Chão: Clubes Negros do Rio Grande do Sul”, de  Jorge de Jesus e Geslline Giovana Braga, na categoria Destaque RS – Direção; e a Menção Honrosa à instigante ficção futurista “A Última Negra”, de Silvana Rodrigues e Camila Bauer, também gaúcho.

Justo falar ainda, porém, de outro dos quatro documentários em competição, que é o paulista “Tambores da Diáspora”, de João Nascimento. Pode-se dizer que é o filme mais bem acabado entre todos desta categoria, inclusive dos três premiados, embora por critérios consensuais não o tenhamos escolhido. Aliás, cabe ao mesmo tempo um olhar generoso e compreensivo, visto que ainda deficiente por reflexo de um contexto sociocultural muito mais amplo e complexo, mas também o do vislumbre de um avanço técnico por parte destes realizadores e de políticas públicas e privadas que fomentem a produção audiovisual negra. Com condições técnicas e oportunidades melhores, não há dúvida de que, em pouco tempo, despontarão novos Jeferson De fazendo cinema negro com autenticidade, propriedade e competência.

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Confira a lista dos premiados do II Festival Cinema Negro em Ação:

CATEGORIA VIDEOARTE
Prêmio Estadual: A GOTA D’ÁGUA (Direção: Luis Ferreirah)
Prêmio Nacional: A QUEDA (Direção: Lia Leticia, Pernambuco)
Destaque RS - Direção: LANCEIROS NEGROS (Thaise Machado)
Menção Honrosa: UM TRANSE DE DEZ MILÉSIMOS DE SEGUNDOS (Direção:
Jamile Cazumbá, Bahia)
Jurados: Sérgio Nunes (Conselho De Ações Afirmativas), Valéria Barcellos (IEACen - Instituto Estadual de Artes Cênicas) e Ana Medeiros (IEAVI - Instituto Estadual de Artes Visuais)

CATEGORIA VIDEOCLIPE
Prêmio Estadual: PULSO - DESSA FERREIRA (Direção: Kaya Rodrigues)
Prêmio Nacional: KOLAPSO - MONKEY JHAYAM, ENME E TERRA TREME
(Direção: Lazaro e Jessica Lauane, Maranhão)
Destaque RS - Direção: SORRISO MARFIM - W NEGRO feat. N JAY (Direção:
Deivid Makaveli)
Menção Honrosa: AMBIÇÃO - CRISTAL (Direção: Cleverton Borges, Rio Grande
do Sul)
Jurados: Sérgio Nunes (Conselho De Ações Afirmativas), Valéria Barcellos (IEACen - Instituto Estadual de Artes Cênicas) e Ana Medeiros (IEAVI - Instituto Estadual de Artes Visuais)


CATEGORIA CURTA-METRAGEM
Prêmio Estadual: ROTA (Direção: Mariani Ferreira)
Prêmio Nacional: A SÚSSIA (Direção: Lucrécia Dias, Tocantins)
Prêmio Distribuição - Produtora Tarrafa: TÁ QUENTE (Direção Bruno Ferreira,
Amazonas)
Destaque RS - Direção: DESVIRTUDE (Gautier Lee)
Destaque RS - Roteiro: NAÇÃO PRETA DO SUL- O CURTA (Nando Ramoz)
Destaque RS - Intérprete: ALÉM DA FRONTEIRA (Clara Meireles)
Destaque RS - Montagem: ROTA (Rodolfo de Castilhos)
Destaque RS - Trilha Sonora: ALÉM DA FRONTEIRA (Direção: Alexandre Mattos
Meirelles)
Destaque RS - Desenho de Som: OLHOS DE ANASTÁCIA: CONEXÕES
QUILOMBOLAS (Técnico de Som Giuliano Lucas)
Destaque RS - Direção de Arte: SERIAM OS DEUSES AFRONAUTAS (Direção:
Rogério Fanrandóla)
Destaque RS - Direção de Fotografia: ALÉM DA FRONTEIRA (Direção de
Fotografia: Felipe Campal)
Prêmio TodesPlay: ALÉM DA FRONTEIRA (Direção: Alexandre Mattos Meirelles,
Rio Grande do Sul)
Menção Honrosa: SUBSIDÊNCIA (Direção: Beatriz Vilela, Alagoas)
Menção Honrosa: PELE DE MONSTRO (Direção: Barbara Maria, Minas Gerais)
Jurados: Uilton Olivieria (APAN - Associação dos Profissionais do Audiovisual Negro), Miriam Juvino (SIAV-RS - Sindicato da Indústria Audiovisual RS) e Mario Costa (EDTRS)

CATEGORIA LONGA-METRAGENS
Prêmio Nacional: TREM DO SOUL (Direção: Clementino Junior, Rio de Janeiro)
Destaque RS - Direção: MEU CHÃO: CLUBES NEGROS DO RIO GRANDE DO SUL
(Direção: Jorge de Jesus e Geslline Giovana Braga)
Menção Honrosa: A ÚLTIMA NEGRA (Direção: Silvana Rodrigues e Camila
Bauer, Rio Grande do Sul)
Jurados: Daniel Rodrigues (ACCIRS), Jeferson Silva (Coletivo Macumba Lab), Alexandre Mattos (Associação Profissional de Técnicos Cinematográficos - APTC)

PRÊMIO DONA DE SI
1- Thaise Machado, do Rio Grande do Sul, diretora da videoarte “Lanceiros
Negros”
2- Lia Letícia, de Pernambuco, diretora da videoarte “Queda"
3- Jessica Lauane, do Maranhão, diretora dos videoclipes “Kolapso - Monkey,
Enme e Terra Treme”, e “Garruncha do Sampaio - Marco Gabriel”
4- Rosandra Leone, do Rio de Janeiro, diretora do videoclipe “Melhor Assim -
Cesanne"
5- Roberta Liana Vieira, do Rio Grande do Sul, diretora do longa-metragem “O
Futuro do Mundo é Preto”
6- Gabriela Cardozo Barrenho, do Rio Grande do Sul, diretora do curta-metragem
“Nação Preta do Sul - O Curta”
7- Silvana Rodrigues, do Rio Grande do Sul, diretora do longa-metragem “A
Última Negra”
8- Alini Guimarães, de São Paulo do curta-metragem “Inventário do Corpo”
9- Beatriz Vilela, de Alagoas, diretora do curta-metragem “Subsidência"
10- Raquel Cardozo, do Rio Grande do Norte, diretora do curta-metragem “Curta
Os Congos”
11- Barbara Maria, de Minas Gerais, diretora do curta-metragem “Pele de
Monstro”
12- Vanessa Rodrigues, do Rio Grande do Sul, diretora do curta-metragem
“Olhos de Anastácia: Conexões Quilombolas”
13- Domenica Guimarães, de São Paulo, roteirista Mercado & Conteúdos
14- Manoela Ramos, de São Paulo, roteirista Mercado & Conteúdos
15- Dandara de Morais, de Pernambuco, roteirista Mercado & Conteúdos
16- Diana Paraíso, de Pernambuco, roteirista Mercado & Conteúdos
17- Adry Silva, do Rio Grande

Confira também os vídeos com as defesas de todos os jurados para os filmes escolhidos nesta segunda edição do festival.


Daniel Rodrigues

segunda-feira, 28 de novembro de 2022

"Barbosa", de Ana Luíza Azevedo e Jorge Furtado (1988)

 


O Medo do Goleiro Diante da Vida

por Daniel Rodrigues

"Eu já pensei naquela bola um milhão de vezes". 
Barbosa


Cult movie por excelência, o filme “O Medo do Goleiro Diante do Pênalti”, primeiro longa do genial cineasta alemão Wim Wenders (1972) tem como protagonista uma figura dificilmente destacada e, por isso, raramente observada: o arqueiro de futebol. Aquela máxima futebolística de que “goleiro só é lembrado quando acontece coisa ruim” serve de mote simbólico para a vaga trama escrita pelo jovem Wenders à época do nascente cinema novo de seu país. A invisibilidade do goleiro ante os outros 10 jogadores de seu próprio time, tão atletas quanto ele, pelo simples fato de jogar diferente e estar “lá atrás”, onde o olhar de ninguém está direcionado, funciona como uma metáfora para a saga do personagem Joseph Bloch (Arthur Brauss), um jovem alemão cético, narcisista e sem propósitos na vida. Era um reflexo de toda uma geração de artistas da terra de Goethe fruto do pós-II Guerra, que arrasou a Alemanha física e moralmente, e que vazou para todas as artes, inclusive cinema.

Claro que essa situação de angústia existencial e esvaziamento de nexos gera aquilo que o título do filme de Wenders evidencia: medo. Uma nação enganada pelo fascínio do nazismo como a alemã e que viu, após anos de destruição, suas bases morais e materiais ruírem, só poderia mesmo carregar consigo muita culpa e ilogicidade. Isso, na Alemanha, repleta de história, industrializada, rica e um dos berços da cultura ocidental. Agora imagine uma nação jovem, colonizada, pobre, fortemente rural e forjada sobre bases escravocratas como o Brasil da primeira metade do século 20! Dá para imaginar como um goleiro no futebol brasileiro era tratado. Só existem duas possibilidades: ou ele defende tudo e é um herói ou, se deixa escapar uma bola que seja, vira vilão. Caso de “Barbosa”, personagem do filme semidocumental de Ana Luíza Azevedo e Jorge Furtado (1988).

Assim foi a vida de Moacyr Barbosa Nascimento, goleiro mítico do Vasco da Gama desde 16 de julho de 1950: a de um vilão. O fatídico dia do Maracanaço, quando o Brasil perdeu a final da Copa do Mundo daquele ano para o Uruguai dentro de casa, em pleno Maracanã superlotado de todas as almas nacionais, é também o dia que se decretou a morte simbólica de um jovem de 29 anos até a sua partida material em 7 de abril de 2000. O medo do goleiro, abstrato na obra de Wenders, foi, no entanto, totalmente real para Barbosa. O medo da culpa. A responsabilidade da frustração de uma nação inteira recaiu sobre os ombros daquele jovem, não coincidentemente negro e de origem pobre.

O injustiçado Barbosa em cena do filme de Furtado

Refém de um povo imaturo e preconceituoso, Barbosa levou toda a responsabilidade pela tragédia. Haveriam de achar um “bode expiatório”, e melhor que esse fosse uma figura vulnerável: um jogador entre os 11, negro e “sem defesa” (como as palavras podem ser cruéis e certeiras em certas situações...). A opinião pública, frustrada pois pouco madura para administrar a própria expectativa, não teve nenhum preparo para absorver uma derrota que aconteceu dentro das quatro linhas. A “intelligentsia” brasileira, tão infantil quanto, não só se eximiu de ajudar como inflamou mais os ânimos. Nelson Rodrigues, em cima do lance, cunhou o termo do “complexo de vira-lata”: “entendo eu a inferioridade em que o brasileiro se coloca, voluntariamente, em face do resto do mundo. O brasileiro é um narciso às avessas, que cospe na própria imagem. Eis a verdade: não encontramos pretextos pessoais ou históricos para a autoestima.”

No curta-metragem (Melhor edição no Festival de Gramado e Melhor filme de ficção no Festival de Havana), o próprio Barbosa, uma figura tristemente triste, queixa-se em entrevista do estigma que o imputaram e do qual nunca mais conseguiu se livrar. Motivado pelo trauma da infância, o personagem fictício vivido por Antônio Fagundes volta ao passado numa máquina do tempo para tentar promover uma correção histórica. Mas a história é mais implacável e dura do que a consciência do herói do futuro. De certa forma, denota-se que o Brasil de 1988, quando o filme foi filmado, ainda não havia compreendido maduramente o episódio da Copa de 50 e, consequentemente, elaborado a injustiça para com Barbosa. Por autocondenação, por “síndrome de vira-lata”, por egoísmo, por imaturidade. Por racismo. Se a ressaca que acometia Arthur do filme de Wenders era por algo que sua nação havia feito, a de Barbosa, muito menos subjetiva, era por algo que a nação não havia tido condições de fazer.

Fagundão voltando no Brasil dos
anos 50 pra tentar impedir o pior
Afora isso, para quem acompanha futebol e tenta compreender sua evolução tanto tática quanto física e até aerocinética dos corpos, é ainda mais exagerada a culpabilidade de Barbosa. Ele não pegou aquele chute do uruguaio Giggia por motivos plausíveis até hoje, mesmo transcorridas mais de sete décadas. A começar, a bola foi entre a trave e o seu corpo, o que dificulta um movimento curto lateral e para baixo. O atacante Bebeto, tetracampeão pela Seleção, valia-se deste "macete" contra os goleiros, de meter na menor distância, geralmente com sucesso. Segundo, porque a bola veio rente ao gramado, rápida e na diagonal, ou seja, menos de milésimos de segundo de visualização por parte do arqueiro. E terceiro: passou rente à trave. Para pegá-la, um goleiro provavelmente precisaria se estatelar na própria goleira e talvez nem assim resolvesse. Um lance como aquele renderia uma defesa difícil até hoje, mesmo com toda a evolução técnica e física dos goleiros. Para uma época ainda primária do esporte bretão, em que muitos gols saíam de jogadas absurdas, muitas vezes dos próprios goleiros, não dá para considerar aquela jogada do segundo gol do Uruguai como uma falta grave de Barbosa e muito menos um "frango". Impossível de pegar? Hoje, não. Talvez naquela época também não, mas com certeza é aceitável tanto antes quanto agora não receptá-la. Na verdade, ocorreu o que o brasileiro dificilmente admite: mérito do adversário, e não demérito seu.

É mais forte do que qualquer raciocínio ponderado, no entanto, a depreciação de uma nação pueril que acreditou, por falta histórica de ferramentas para um auto entendimento, na falácia darwinista do evolucionismo. Povo mestiço: então, necessariamente "inferior", "incapaz", "indolente", "imprestável". Era o que se ouvia das bocas (in)cultas de Gobineau, Monteiro Lobato, Oliveira Viana, Roquette-Pinto. Interessante perceber que o filme de Furtado e Ana Luiza se dá na época da “seca” do Brasil em Copas do Mundo (o que só seria “superado” dali quase a 10 anos, em 1994, com a conquista da Copa nos Estados Unidos) e que termos como os ditos antigamente voltavam à baila. Basta ver a música “Inútil”, da Ultraje a Rigor, de 1985, que, criticando o ser brasileiro, repete o adjetivo inclusive para associá-lo ao futebol: “A gente joga bola e não consegue ganhar”.

Acontece que as razões para a autodepreciação do brasileiro para consigo mesmo é muito mais profunda do que apenas derrotas ou vitórias dentro de campo. No máximo, esses resultados do esporte são reflexos, mas nunca derrocada ou muito menos solução. Nelson Rodrigues, ingenuamente, afirmava que a “síndrome de vira-lata” se dissipara quando, oito anos depois daquele fatídico jogo no Rio de Janeiro, a Seleção Brasileira vencera a Copa do Mundo na Suécia. Mera ilusão. A valorização como povo e, principalmente, o reconhecimento de suas capacidades como nação única e indivisível ainda está longe de ser alcançado no Brasil do séc. 21. A extrema polarização política que se deflagrou no País há menos de uma década dá motivos para se pensar assim. Em 1958, Pelé e Garrincha nos deram arte, mas não resolviam quase nada. Tanto que o Brasil seria lindamente tricampeão em 1970 sob a sombra do pior momento político-social da sua história, quando as liberdades e os direitos humanos eram barbaramente infligidos pela Ditadura Militar. Isso sim é degradação moral.

A reparação história a que Barbosa fora merecedor pelo massacre público a que foi objeto nada mais é, noutra escala, do que o sistema de cotas e as políticas para corrigir as discrepâncias e erros cometidos com negros excluídos da sociedade. Barbosa morreu sem presenciar o Mineiraço, os 7 x 1 da Seleção da Alemanha sobre a do Brasil na segunda Copa do Mundo no Brasil. Talvez ele pudesse perceber que hoje em dia, um pouco mais madura 64 anos depois, a responsabilidade não é atribuída a apenas uma pessoa. Talvez tivesse ficado um pouco confortado. Mas com certeza seu olhar sofrido e perspicaz teria notado também que o goleiro, tão pouco culpado quanto ele, era branco. E aí, é bem mais fácil de lidar.

filme "Barbosa", de Ana Luíza Azevedo e Jorge Furtado (1988)



sexta-feira, 2 de julho de 2021

Sagrado Coração da Terra - Sesc Belenzinho - São Paulo/SP (2014)

 

por Samir Alhazred

Tratei de um gênio norte-americano pouco reconhecido no texto anterior, quando falei do show de Glenn Branca. Por que não falar, então, de um gênio brasileiro ultraprodutivo e pouquíssimo falado?

Acredito que o violinista e arranjador Marcus Viana e seu grupo Sagrado Coração da Terra façam poucos shows, então foi bastante especial essa experiência em 2014, no mesmíssimo palco do Belenzinho, em que vira Glenn Branca anos antes.

Para não dizer que Marcus é um completo desconhecido, é inegável seu sucesso na trilha de séries e novelas clássicas como “Pantanal”, “A História de Ana Raio e Zé Trovão”, “Xica da Silva”, “O Clone” e “A Casa das Sete Mulheres”.

Cheguei a ele, entretanto, da maneira mais torta possível: quem ouvia heavy metal no início dos anos 2000 não passou incólume pelo grandioso disco “Ritual” (2002) do Shaman, grupo do cantor Andre Matos (ex-Angra, que faleceu precocemente em 2019). Andre, admirador e amigo de Marcus, o chamou para participar não apenas de um álbum de heavy metal, mas de shows da turnê. Ainda, o próprio Andre havia participado da faixa “Bem Aventurados”, do disco “A Leste do Sol, Oeste da Lua” do Sagrado, em 2000.

Viana: cabeça da SCT
Voltando ao show do SCT em si, em 2014, o impacto do ambiente intimista para um show de “rock”, como já ocorrera com Branca, é inevitável. Guitarras altas e pesadas, aliadas às orquestrações no teclado e violino, levaram a um típico show de rock progressivo/sinfônico – mas de toque e beleza brasileiras, bastante únicas, como é característico do som do grupo mineiro (aliás, não podendo ser dissociado do Clube da Esquina e de todo o movimento progressivo próprio da região em que nasceu).

Completavam a formação, naquela noite mágica, Sérgio Pererê e Camila Amorim (vocais), Augusto Rennó (guitarra), Ivan Corrêa (baixo), Danilo Abreu (teclados), Esdra “Neném” Ferreira (bateria) e Eduardo Campos (percussão). Não soube, até então, de outra aparição do grupo mineiro. Mas anos depois, no mesmo palco, presenciei Arrigo Barnabé performando “Clara Crocodilo”, e só posso reafirmar o quanto o local contribui para este tipo de show que alia peso e experimentações.

Na saída, grande fã que sou das “lojinhas” ou estandes (geralmente, são discos que jamais esquecemos e que associamos à experiência do show), adquiri um lindo CD, cuja existência desconhecia, chamado “Poemas Místicos do Oriente”, em que Marcus Viana arranja poemas recitados por ninguém menos que a atriz Letícia Sabatella.

quinta-feira, 28 de maio de 2026

T.N.T. - Show "T.N.T. I - Ponto Zero" - Auditório Araújo Vianna - Porto Alegre (24/04/2026)


A T.N.T. pode não ser necessariamente a melhor banda gaúcha de todos os tempos, haja vista que tem Os Replicantes, De Falla, Engenheiros do Hawaii, Liverpool, Cascavelletes, Saracura... Mas uma coisa não se tem dúvida: eles são a banda mais icônica do rock ‘n’ roll no Rio Grande do Sul. Criado há 40 anos, esse histórico grupo tanto para o rock da terra da bombacha quanto para o Brasil celebrou as quatro décadas de lançamento do seu memorável primeiro e homônimo disco num disputado show no Auditório Araújo Vianna, que lotou de fãs para ouvi-los e cantar seus clássicos.

Por falar em clássico, foi assim que iniciaram a apresentação: emendando nada menos que três de seus maiores sucessos: “Entra Nessa”, “Ana Banana” e “Identidade Zero”. Ufa! Um começo arrasador.. Porém, de certa forma parece que Charles Master, Márcio Petracco, Tchê Gomes, João Maldonado, Fábio Ly, Paulo Arcari e Felipe Jotz gastaram metade da pólvora antes do primeiro quarto de batalha. Não que depois tenha necessariamente decaído ao tocaram músicas menos conhecidas ou tão aclamadas, mas o som mal equalizado (que embolava os sons e dificultava que se entendesse aquilo que já não se sabe de cor), somado à longa duração do show inteiro, deu um certo cansaço.

Mas tudo bem, afinal, show de rock de verdade passa por cima de som ruim ou algum equívoco de repertório, e o  público compareceu mesmo para vê-los tocar as músicas que uma geração inteira de gaúchos cresceu ouvindo nas rádios. Caso de “Irmã do Dr. Robert” e “Oh Deby”, esta última, assim como as três citadas do começo do show, composições de autoria de Flávio Basso (ou Júpiter Maçã ou Jupiter Apple). Aliás, ou eu não entendi pelo som embolado das falas entre as músicas ou ninguém mencionou Flávio, que, convenhamos, é o arquiteto da T.N.T., a cabeça mais criativa não só da banda, mas de todo o rock gaúcho em todos os tempos. Estranho...

Além do disco de estreia, teve também coisas das outras fases, como os hits “Não Sei” (“Não sei se eu tô certo ou se eu tô errado/ Mas faço tudo o que eu digo e digo tudo que eu faço”), “Não Vai Mais Sorrir (Pra Mim)” (ambas de “TNT nº 2”, de 1988 e já sem Flávio na formação), “Noite Vem, Noite Vai” e “Quem Procura Acha”, duas do terceiro álbum de estúdio da T.N.T., de 1991. O público gostou.

O hit "Não Sei" com sua melodia a la "Sweet Jane"


Rolou ainda uma participação da Orquestra Rosariense, que não acrescentou muito, na verdade. Tanto que a banda tocou, no bis, exatamente as músicas que haviam rearranjado para as cordas, “Muito Cuidado” e “Nunca Mais Voltar”. Mais para o final, teve outra consagrada, “Cachorro Louco”, desses rocks imbatíveis, dos melhores do BRock anos 80. Para encerrar, “O Mundo É Maior Que o Teu Quarto”, da Cowboys Espirituais, uma das corruptelas da T.N.T. assim como a Tenente Cascavel e a Cascavelletes. Baita música, regravada por gente como Barão Vermelho, mas que, por não terem dosado melhor a narrativa do show e gastado as melhores lá no início, talvez não fosse a mais indicada para encerrar.

Mas, de novo, tudo bem! A noite foi para celebrar o bom e velho rock ‘h’ roll, o que a T.N.T. representa no mais alto grau. Deixa pra lá a acústica ruim, o andamento do repertório. O negócio foi “entrar nessa” e “dançar um rock ‘n’ roll”. Foi o que fizemos - e foi legal.

🎸🎸🎸🎸🎸🎸🎸🎸🎸🎸

Começa o show da lendária T.N.T.


Acompanhando a letra no telão de "Entra Nessa",clássico do rock gaúcho


Entrando nessa com "Entra Nessa"

"Ana Banana" no começo do show pondo 
todo mundo pra cantar


Repertório do primeiro e dos outros discos da
banda compuseram o show

A T..N.T. canta outra clássica: 
"A Irmã do dr. Robert"


Mais clássicos


Tocando "Nunca Mais Voltar", das preferidas da galera


Estes dois roqueiros felizes por ver a T.N.T.
celebrando os 40 anos de sua estreia


🎸🎸🎸🎸🎸🎸🎸🎸🎸🎸


texto: Daniel Rodrigues
fotos e vídeos: Daniel Rodrigues e Leocádia Costa

quarta-feira, 20 de dezembro de 2017

Os meus 10 melhores filmes gaúchos


Furtado, cineasta com mais títulos na lista entre
longas e curtas
Por conta de um grupo do qual participo, fui instigado a pensar nos filmes produzidos no Rio Grande do Sul em toda a sua história cinematográfica. Isso, incluindo até os não necessariamente feitos por cineastas/equipes gaúchas, mas também rodados ou produzidos. São diversos os talentos que são ou saíram desse extremo-Sul brasileiro, como Jorge Furtado, Carlos Reichenbach, Carlos Gerbase, Ana Luiza Azevedo, Paulo José, Walmor Chagas, José Lowgoy, Ítala Nandi, entre outros técnicos e realizadores. Por isso, e até em razão do recorte ao qual se pretende chegar com essa pesquisa a qual me referi, senti-me à vontade para montar uma lista dos meus filmes preferidos feitos no Estado onde nasci e vivo. Assim, bem pessoal e cinéfila.

Bastante prolífica, a produção gaúcha data do início do século, sendo dessas terras de onde saiu a primeira produção de cinema que se tem registro no Brasil: “Os Óculos do Vovô”, de 1913, de Francisco Santos, realizado numa cidade com a qual mantenho saudável proximidade, Pelotas. Não bastasse essa importância histórica para o cinema nacional, o Rio Grande do Sul também é dos estados de maior produção ao longo do último século e, certamente, deste em que estamos. Somente do ano 2000 para cá, há cerca de 100 longa-metragens, além de uma infinidade de curtas – formato, aliás, no qual se construiu considerável tradição no audiovisual gaúcho, principalmente a partir dos anos 80.

Além disso, a grande maioria do que fora rodado não se trata apenas de negativos gastos sem finalidade. Criatividade, diversidade de estilos e gêneros e qualidade técnica pautam uma parte considerável dos filmes. Goste-se ou não do resultado, trata-se de uma produção qualificada e, por outro ângulo, sociologicamente importante em seu papel de registro da cultura gaúcha. Por ser um estado froteiriço, muito de sua produção audiovisual tem influência dessa proximidade com os vizinhos platinos, tendo papel essencial para a realização de coproduções com Argentina e Uruguai principalmente.

Em termos de projeção, igualmente. É na ponta de baixo do País que ocorre o festival de cinema mais longevo e ininterrupto do Brasil, o Festival de Gramado. No que se refere a premiações, não são poucos os premiados no Brasil e no exterior ao longo da história, chegando-se ao apogeu com o multipremiado curta “Ilha das Flores”, que abocanhou láureas na França, Alemanha, Estados Unidos e no próprio País.

Isso tudo coloca a terra de P.F. Gastal tranquilamente entre os cinco polos cinematográficos mais importantes do Brasil, atrás apenas de Rio de Janeiro, São Paulo e Minas Gerais e, quiçá, igualado por Bahia. Claro que, desses, tenho meus preferidos, que lanço aqui os 10 principais, incluindo curtas, aliás. Pude, por isso, dispensar títulos de produções rodadas no Estado, como os ótimos “A Intrusa”, produção carioca do cineasta argentino-brasileiro Carlos Hugo Christensen, ou “Cão sem Dono”, do paulistano Beto Brant. Assim, predominam os filmes da Casa de Cinema de Porto Alegre e dos anos 80, tendo Furtado o destaque, com três deles. Porém não podia deixar de elencar o essencial "Vento Norte", primeiro longa sonoro feito nesses pagos, e dois títulos da nova safra, somando, junto com outro de Furtado, três realizações do século XXI.
Então, vamos à lista:


1 – “Ilha das Flores”, de Jorge Furtado (1989)










2 – “Verdes Anos”, de Giba Assis Brasil e Carlos Gerbase (1984)
3 – “O Dia em que Dorival Encarou a Guarda”, de Jorge Furtado e José Pedro Goulart (1986)
4 – “Vento Norte”, de Salomão Scliar (1951)



5 – “Deu Pra ti, Anos 70”, de Nelson Nadotti e Giba Assis Brasil (1981)
6 – “O Mentiroso”, de Werner Schunemann (1988)
7 – “O Homem que Copiava”, de Jorge Furtado (2003)
8 – “3 Minutos”, de Ana Luiza Azevedo (1999)




9 – “A Mulher do Pai”, de Cristiane Oliveira (2016)
10 – “Castanha”, de Davi Pretto  (2014)


O ator José Carlos Castanha interpretando a si mesmo no
impressionante filme de Davi Pretto


por Daniel Rodrigues

domingo, 14 de agosto de 2016

ÁLBUNS FUNDAMENTAIS ESPECIAL DIA DOS PAIS - Elis Regina - "Elis" (1980)







COMUNHÃO



“A vida é boa te digo eu/
A mãe ensina que ela é sábia/
O mal não faço, eu quero o bem/
A nossa casa reflete comunhão.”
da música “Comunhão”,
de Fernando Brant e Milton Nascimento,
criada para o musical Missa de Quilombo, 1982



Meu pai e eu éramos muito ligados. Nem todos os filhos sentem-se assim ligados aos seus pais. Muitos de nós passamos parte da vida lamentando o berço familiar, a descendência e tudo o que existe dentro de uma família.

Comigo não foi assim.

Cresci até os 4 anos com um pai muito feliz, animado e parceiro de aventuras. Cresci no Centro da cidade de Porto Alegre após nascer no Bom Fim. Nas imediações do Centro eu e ele íamos ao parquinho que ficava no Largo da Epatur. Eu viajava nos discos voadores, andava de charrete e montava nos cavalinhos do carrossel. Ele ficava me cuidando e fotografando ao mesmo tempo.

Meu pai curtia revelar as imagens e organizar nos álbuns, que naquele tempo eram feitas em câmera com negativo quadrado e a imagem final dependia das condições técnicas do fotógrafo – ele tinha talento! Todas as fotos aprovadas iam para um álbum-pasta que por anos nos acompanhou. Dono de um gênio forte, por vezes temperamental, sempre se percebia amor nele e alegria nestes momentos.

Assim cresci: parte saindo rumo aos parques, praças e ruas do bairro e por outras tive meus momentos de estar em casa. Lá brincava comigo de gravar a voz. Eu adorava. Vez em quando cantava ou contava do meu dia na escola.

Faz um tempo que recebi uma “cutucada”, como se diz no dialeto estranho das redes sociais, dos editores do ClyBlog para escrever sobre uma das maiores cantoras brasileiras, Elis Regina. O que isso tem a ver comigo e com a minha relação paterna? Tudo! Mas confesso que o convite me deixou atordoada, sem saber por onde começar. Elis está em muitos momentos da minha vida representando transformação.

Eu e Marcelo na abertura da exposição
A Aventura de Criar - Galeiria Duque, maio 2015
Comecei escutando Elis Regina em casa. Meu pai foi seu fã até o dia em que recebeu, junto com milhões de brasileiros, a notícia da sua morte. No auge da carreira artística, quando Elis já havia se consagrado num grande nome da música, uma estrela de maior grandeza. Meu pai não a perdoou por sair de cena tão cedo. Neste período, em plena década de 80, escutávamos sem parar os LPs da Elis em nossa vitrola CCE, que era muito bem equipada com duas caixas de som grandes para uma família de classe média. 

Depois de tantas audições no lar, eu já sabia as letras, os tempos e as paradas que a cantora fazia. Então, apresentava a dublagem nas reuniões de final de ano e nos aniversários à família. E me achava a segunda melhor cantora daquele momento por conta dessa total sintonia que tínhamos. Eu tinha de 7 para 8 anos de idade.

Nunca me rendi somente à voz, mas a toda atmosfera como intérprete que Elis criava para cada canção. A emoção, a quebra das palavras, o respirar das frases, a cadência de cada arranjo tornava cada faixa do LP única. Realmente algumas canções são “inescutáveis” se a intérprete não for Elis Regina.

O LP que mais tocou em mim é este, de 1980, que tem as faixas inesquecíveis: “Rebento” de Gilberto Gil; “Nova Estação“ de Luiz Guedes e Thomas Roth; “O Medo de Amar é o medo de ser livre” de Beto Guedes e Fernando Brant; “Aprendendo a jogar” e “Só Deus é quem sabe”, ambas de Guilherme Arantes; além da arrebatadora “Trem Azul”, de Lô Borges e Ronaldo Bastos, hino em minha vida. Quem escutava Elis recebia a melhor produção musical do momento.

Acervo de Elis da CCMQ
Jornal Zero Hora - 22/09/2005
Fui compreender seu universo e sua enorme contribuição a jovens compositores anos mais tarde, quando, adolescente, lendo matérias, vendo artigos e escutando amigos me dei conta do movimento, da visibilidade e da força que ela deu a uma galera referência até hoje na música brasileira.

O tempo passou e meu pai acabou perdoando a morte de Elis Regina, voltou a escutar sua voz e vez em quando ele comentava: “Mas ela canta como ninguém mais poderia interpretar essa canção!”, e então se recolhia ao silêncio respeitoso de escutá-la.

Em 2005, tive a alegria de ser convidada por Sergio Napp, então Diretor da Casa de Cultura Mário Quintana, a criar o Acervo Elis Regina da CCMQ. Nesta época, mergulhei em todas as informações que recolhemos de acervos doados e de livros editados sobre ela. Lembro-me do impacto que tive com a análise do mapa astral de Elis, por um dos maiores astrólogos do país, Antônio Carlos “Bola” Harres, que anos mais tarde foi meu cunhado e que apresenta a configuração astral de Elis de uma forma que compreendemos os conflitos, o fluxo das emoções e as nuances talentosas da cantora.

Elis era uma mulher com força impulsiva e, ao mesmo tempo, com alta sensibilidade. Opostos atuando sempre ao mesmo tempo. Essa análise me ajudou a compor com os arquitetos Carlos e Lizete Jardim as cores, a atmosfera e a forma de apresentar os conteúdos do Acervo. Nesta época também conheci mais profundamente o repertório de Elis e a sua estreita relação com compositores que embalaram minha mesma infância, tais como: Milton Nascimento/Fernando Brant, Gil, Beto Guedes, Guilherme Arantes, Ronaldo Bastos, Lô Borges, João Bosco/Aldir Blanc, Ivan Lins, entre outros.

Durante todo o tempo de pesquisa sobre o Acervo meu pai me incentivou com orgulho de ver aquela escuta de anos atrás se transformar em um espaço físico homenageando a intérprete e a cantora, que mesmo sendo um dos maiores nomes da música brasileira, se achava brega perto de outras cantoras da sua época, a exemplo de Rita Lee.

Meses após termos aberto o Acervo Eis Regina, fui apresentada por Luiz Carlos Prestes Filho em Porto Alegre a Fernando Brant, compositor e letrista da mais alta qualidade musical e humana. Ele ficou muito feliz com o Acervo, que conheceu numa vista a CCMQ quando estava na fase de implementação da sede da União Brasileira de Compositores na capital gaúcha.  Ficamos amigos.

Eu e Fernando Brant na inauguração do UBC
em Porto Alegre em 2006
Em 2011, numa visita a Belo Horizonte, cidade onde Fernando morava, fomos ao show de Milton Nascimento que abria o novo espaço da cidade. Fazia poucos meses que Fernando havia participado do projeto Coleção Mario Quintana para a Infância, volumes IV e V, realizado por minha empresa Aprata. Todo faceiro com a chegada da Coleção (que levei pessoalmente a ele em agradecimento por tanta generosidade), ele me recebeu com esse convite irrecusável: “Vamos assistir o Bituca, Leo? Ele fará um show no teatro recém-inaugurado aqui após reforma pelo SESC e vai homenagear a Elis. Você tem que estar lá porque vais representar Porto Alegre nesse momento. Vamos?” Como é que eu diria não?

Fomos então direto para o teatro e lá chorei por 90 minutos do show, segurando a mão do Fernando, que emocionado com a audição de suas composições, enchia os olhos de água e dava longos suspiros sorrindo. Um dos maiores presentes que recebi da vida: reunir neste dia os compositores e a carga musical que tenho em minha bagagem relacionada a Elis.

Depois desse dia, só falei com ele por telefone e e-mail. Foi a nossa despedida amiga em grande estilo envolvidos pela atmosfera musical que ele construiu de tanta beleza e com a homenagem à mulher que, segundo ele, foi a maior incentivadora da carreira de todo aquele Clube da Esquina e os outros tantos desgarrados que até então buscavam uma oportunidade para persistir na música.

Quando voltei a Porto Alegre, contei a meus pais e os dois se emocionaram muito com essa vivência em Beagá. Tentei escrever sobre todos estes momentos, mas não conseguia elencar os fatos, porque a emoção me invadia e desorganizava a escrita. Comecei a escrever o texto com meu pai e Fernando ainda vivos. Porém foi somente com a partida de ambos, Fernando em junho de 2015, e meu pai, em junho de 2016, que me senti serena para contar essa história de total sintonia entre nós.

Obrigado meu pai por não proibir a escuta, mesmo doendo demais a ausência de Elis.

Obrigado Fernando por essa amizade inesquecível.

Obrigado Elis por esse sentimento de comunhão, por trazer até todos nós em forma de Arte - essa vibração prateada, brilhante e sonora, que foi sua passagem por esse planeta e que tanto nos liga amorosamente.

Saudade de tudo que vivemos e hoje é memória viva em mim!

Gratidão, Amor e Luz para vocês.


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Elis Regina - "Aprendendo a Jogar" - programa Fantástico (1980)

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FAIXAS:
1. "Sai Dessa" (Ana Terra/Nathan Marques)
2. "Rebento" (Gilberto Gil)
3. "Nova Estação" (Thomas Roth/Luiz Guedes)
4. "O Medo de Amar É o Medo de Ser Livre" (Beto Guedes/Fernando Brant)
5. "Aprendendo a Jogar" (Guilherme Arantes)
6. "Só Deus É quem Sabe" (Guilherme Arantes)
7. "O Trem Azul" (Lô Borges/Ronaldo Bastos)
8. "Vento de Maio" (Telo Borges/Márcio Borges)
9. "Calcanhar de Aquiles" (Jean Garfunkel /Paulo Garfunkel)

faixas bônus do relançamento em CD 
1. "Tiro ao Álvaro" (Adoniran Barbosa / Osvaldo Molles) – Com Adoniran Barbosa
2. "Se Eu Quiser Falar com Deus" (Gilberto Gil)
3. "O que Foi Feito Devera (de Vera)" (Milton Nascimento/Fernando Brant/Márcio Borges) – Com Milton Nascimento
4. "Outro Cais" (Marilton Borges/Duca Leal) – Com Os Borges

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OUÇA O DISCO