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segunda-feira, 7 de dezembro de 2015

“Para sempre é sempre por um triz.”

Uma das grandes atuações femininas na história do cinema,
Marilia em "Pixote", de Babenco
Sempre admirei demais Marília Pêra. Desde as atuações em novelas, em tempos que era possível e saudável assisti-las, como aquela rica decadente e sem noção que ela fez em “Brega & Chique”, a Rafaela Alvaray. Quem viu as telenovelas dos anos 70 deve ter recordações ótimas. Era das artistas completas, das raras, que cantava, dançava, encenava e atuava, tanto em drama quanto em comédia. Foi no cinema que Marília me cativou de fato, seja no apaixonante "Bar Esperança", no engraçado “Tieta do Agreste” ou no emocionante “Central do Brasil”, todos em que faz papéis memoráveis. Além disso, tenho para mim que uma das 10 melhores atuações femininas da história do cinema é dela: em "Pixote, A Lei do Mais Fraco", do Hector Babenco (1980). Coisa do nível de uma Giulieta Masina em "A Estrada da Vida", de uma Maryl Streep em "Kramer vs Kramer", de uma Hanna Schygulla em "O Casamento de Maria Braun".

Misto de realidade e ficção, "Pixote" criou uma atmosfera em que o limite entre um e outro se estreitam. O desafio de tornar essa fronteira verossímil, sem que pendesse para o tom amador do empirismo nem para a artificialidade do conhecimento técnico das artes cênica e cinematográfica, era bastante difícil. Qual seria o ponto de harmonização dessa necessária tensão – afinal, o filme, produto necessariamente industrial, se constituía fundamentalmente de um substrato orgânico da miséria social, algo quase documental?

A resposta estava encarnada em Marília Pêra. É ela quem, representando a prostituta Sueli, exerce a função mais do que a de atriz, mas a de “centro tonal” da narrativa. Babenco, sempre muito sensível – como os bons comunistas realmente engajados –, entendeu que isso era papel mais dela como atriz do que dele como diretor. Ele concebeu, conduziu e deu o norte. Porém, a possível interação entre os dois polos, real e imaginário, pobreza e riqueza, excluídos e incluídos, foi dada a Marília naturalmente. Não sei nem se isso de fato ocorreu no set de filmagem de maneira consciente, mas fica bastante evidente nas cenas em que ela contracena com os pivetes, principalmente com o próprio Pixote, o autobiográfico Fernando Ramos da Silva. É mais do que contracenar: é, através das artes cênicas, abrir um espaço de diálogo entre antagonismos sociais.

É exemplar a cena deles no quarto do motel, logo após duas mortes ocorridas ali, em que os sentimentos mais pulsantes e inatos se revelam de um e de outro, do instinto de maternidade à agressividade intransponível. Toda a profundidade antropológica envolvida naquela cena não é realizável apenas pelo o que o roteiro prevê. O peso de fazerem se aproximar através da dramaturgia esses dois universos antagônicos é, claro, comum a todos: equipe, diretor e atores, nessa ordem de complexidade. Exige uma percepção séria e comprometida com o objeto que se está manipulando. Nisso, o desafio cabido a Fernando, vindo da rua e interpretando um alter ego, é enorme, haja vista a óbvia dificuldade que não-atores têm em desempenhar algo crível, ainda mais num nível elevado ao contracenar com atores formados e experientes. É intrincado dar naturalidade à artificialidade intrínseca do encenar quando o que se está expressando é algo que se lhe é tão natural. Porém, a priori é mais fácil que o contrário, o de cobrir de naturalidade o desconhecido por meio da arte da interpretação. Principalmente quando se tem um ambiente propício – coisa que Babenco e sua equipe de fato arranjaram, visto a honestidade do projeto –, desempenhar-se é melhor do que a algo estranho a si.

"Pixote, A Lei do Mais Fraco", de Hector Babenco


Entretanto, a verdadeira profundidade recai sobre o profissional nessa hora. E é aí que Marília Pêra foi exímia. Como principal interlocutora do núcleo amador – e, mais a fundo, da casta excluída da sociedade abordada no filme – com o produto cultural de massa, ela fez a ponte entre os referidos mundos discordantes. Marília, com o aval de Babenco, pôs-se nesse limiar emocional e ajudou sobremaneira a fazer uma coisa cuja arte moderna raramente consegue com vigor e pungência: eliminar as barreiras entre alta e baixa cultura. Materializar as páginas dos livros de Ciências Políticas é para poucos. É, sim, para aqueles que saem só do discurso e se levam à prática. O filme cumpre isso a custa de sofrimento, tristeza e choque. E Marília, enquanto agente consciente e espiritual do conceito central da obra, representa tudo isso.

Se em “Pixote” é impactante ver Fernando trazendo a sua realidade crua para a frente da tela, é igualmente surpreendente Marília perscrutando um estado que não lhe pertence, que é o da loucura e da miséria. Ou será que pertence? A explicação disso se chama: atriz.

Parabéns, Marília. Como diz Chico Buarque: “para sempre é sempre por um triz”.


Marília Pêra
(1943-2015)





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