Numa rápida viagem a Caxias do Sul por conta de uma atividade da Accirs, pude conferir uma exposição da qual já havia ouvido falar - e bota ouvir falar nisso! Trata-se da exposição
"Baixa Colateral Distópica”, do artista visual goiano
Rondinelli Linhares, que esteve em exibição no belo prédio histórico do Centro Municipal de Cultura Dr. Henrique Ordovás até o último dia 2.
Até aí, tudo normal. Só que a tal exposição foi motivo de uma enorme polêmica em razão de seu conteúdo, digamos, contestatório. E numa cidade conservadora, direitista (tendendo à linha da extrema) e bolsonarista em sua maioria, contestação é sinônimo de ameaça. O que comunidade e vereadores fizeram? Tentaram censurar a exposição sob o descabido pretexto de que suas mensagens não estavam de acordo com a moral da sociedade caxiense, principalmente às crianças.
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O belo prédio do Centro Municipal de Cultura de Caxias |
Acontece que, além de, como mencionado, integrar um edital totalmente lícito e condizente, a desculpa é absurda. Devidamente sinalizada com classificação indicativa(ou seja, não oferece nenhum perigo para as pobre criancinhas da família brasileira), o trabalho de Linhares traz, sim, signos desafiadores para criticar temas como o culto ao sagrado, gênero, sexualidade e a exploração do corpo. Nisso, conjugam-se imagens cristãs, como crucifixos e terços, a outras mundanas, como giletes, búzios e consolos. Provocações que a arte pode e deve promover, seja com o tema ou ambiente que for, em uma sociedade democrática. A arte tem esse pressuposto desafiado pelas mentes autoritárias que se dizem, ironicamente, bastiões da democracia.
Mas a queda de braço liberdade X fascismo foi vencida, ao menos desta vez, pela primeira. Mais uma batalha na guerra contra a intolerância, e como já acontecerá noutras vezes - como na polêmica exposição Queermuseu, em Porto Alegre, em 2017 -, envolvendo a arte.
O principal, que é a liberdade de expressão e de apreciação do trabalho em si, foi preservada. Embora rápida e dividindo a atenção com minha outra atividade, deu para dar aquela conferida na tão falada "Baixa Colateral Distópica”. Interessante, mas, mais que isso, o suficiente para "desafinar o coro dos contentes", como diz a velha canção combativa.
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"Veadinhos" se unem a símbolos católicos e do candomblé |
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Série de fotos altamente provocaticas e evocativas |
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Detalhes da série: vários símbolos dialogando e convidando o visitante à reflexão |
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Uma das imagens: reza com terço e guias |
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O veado novamente, aqui acorrentando pelo dogma católico do crucifixo |
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Público conferindo os últimos dias da polêmica exposição |
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De TikTok à pornografia: as religiões dos tempos atuais |
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Mais uma das obras de Rondinelli expostas |
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Lembram da tal "mamadeira de piroca" que a extrema-direita espalhou fake news Brasil afora? Rondinelli lembrou e transformou numa das peças mais interessantes da mostra |
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Dá pra entender porque os seguidores do "mito" se incomodaram com "Baixa Colateral Distópica”... |
Daniel Rodrigues