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quarta-feira, 2 de abril de 2025

Música da Cabeça - Programa #405

 

É sério essa febre de colorir desenho de ursinho? É cada coisa que me aparece... Sem muito saco pra pintar, mas convicto em dar seu recado, o MDC traz uma galera com passatempos muito mais proveitosos, como Luiz Melodia, Tom Jobim, Nick Drake, Ira!, Gabriel Yared e outros. Ainda, um Cabeça dos Outros igualmente, digamos, edificante. Colorindo a vida com notas musicais, o programa pinta por aqui às 21h na paleta da Rádio Elétrica. Produção, apresentação e coisa melhor para fazer: Daniel Rodrigues.


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cotidianas #859 - Pílula Surrealista #59


 

De tanto jogar conversa fora, não as achou nunca mais.

Morre e não vê tudo, mas viu tudo antes de morrer.

Deus ajudou quem cedo madrugou, pois a noite nunca mais se fez dia.

Quem é vivo sempre aparece, embora tenham aparecido alguns mortos também.

Era só o que lhe faltava! Agora, completo, não precisa de mais nada.

Com a boca foi a Roma e lá virou-se de costas só para dizer: Amor.


Daniel Rodrigues


segunda-feira, 31 de março de 2025

Projeto Rodacine - Exibição de "Um é Pouco, Dois é Bom" e "Chibo" - Aniversário da Cinemateca Capitólio e de Porto Alegre - Largo dos Açorianos - Porto Alegre/RS (29/03/2025)



 

Pode-se dizer que este Clylive é, na verdade, um Claquete. A possível confusão entre as sessões do Clyblog se justifica, pois a exibição ao vivo a que me refiro foi de cinema. E para uma ocasião muito especial em pleno Largo dos Açorianos, um dos pontos mais emblemáticos de Porto Alegre. Ou melhor: duas ocasiões. O que pude conferir com Leocádia, Carolina, Cláudio e a ilustre e comportada presença de nossa cachorrinha Bolota, foi uma sessão a céu aberto do clássico da cópia restaurada do filme gaúcho “Um é Pouco, Dois é Bom”, do pioneiro do cinema negro no Rio Grande do Sul Odilon Lopez e o terceiro cineasta negro a dirigir um longa-metragem no Brasil. A programação ocorreu dentro projeto RodaCine, parceria da Coordenação de Cinema e Audiovisual da Secretaria Municipal de Cultura de Porto Alegre e Fundacine RS.

Pois esta exibição, antecedida do excelente curta-metragem “Chibo”, de Henrique Lahude e Gabriela Poester (sobre o qual já falamos aqui no blog quando do último Festival de Cinema de Gramado, onde foi vencedor como melhor curta gaúcho na Mostra Assembleia Legislativa) marcou tanto a semana do aniversário de 253 Porto Alegre quanto, principalmente, encerrou a semana de aniversário de 10 anos da resiliente e celebrável Cinemateca Capitólio, este patrimônio do audiovisual e da cultura gaúchas retrazido ao público há uma década.

O divertido “Um é Pouco, Dois é Bom”, de 1970, é produzido, roteirizado, protagonizado e dirigido por Odilon Lopez (1941-2002) e tem diálogos assinados por um jovem escritor então em início de carreira chamado Luís Fernando Verissimo. Afora isso, a ótima trilha é composta pelo pianista e compositor Flávio Oliveira, amigo do pai de Leo e Carol e a quem elas devotam muito carinho. Veja as coincidências!... O filme, com momentos muito interessantes e até experimentais em termos de direção e edição, o filme é dividido em duas partes, que dialogam de forma bastante sutil, mas não deixam de ter complementariedade. No entanto, o segundo e derradeiro episódio, “Vida Nova ... Por Acaso” é, sem dúvida, o mais apreciável. Com o próprio Odilon no papel do “pickpocket” Crioulo, que junto com seu inseparável parceiro de furtos Magrão (vivido por Francisco Silva), tem bem a veia cômica e crítica que marca a escrita de Verissimo que se passou a conhecer melhor depois e a qual ele desenvolveria largamente a partir de então.

Afora o prazer de ver um filme histórico, a ocasião em si foi muito especial. Além das parcerias, ver o Largo dos Açorianos lotado de gente de “cuca legal” é um sopro de esperança em tempos de tamanho terror bolsonarista, fascista, trumpista ou o que quer que seja ligado à excremente extrema-direita. Uma Porto Alegre que respira! 

Nisso, uma coisa boa e outra nem tanto na programação. A boa, é que, além de celebrar o restauro e exibi-lo a um público mais amplo do que nas salas de cinema, o próprio longa, que se passa em vários endereços da cidade, como o Parque da Redenção, a frente do prédio do Daer, a rodoviária, as ruas do Centro, entre outros, configurou-se em si uma celebração pelo aniversário da capital gaúcha. O erro, contudo, foi escolher o denso “Chibo” para abrir a sessão, uma vez que sua exibição ficou prejudicada tendo em vista que o filme depende em vários aspectos da concentração da sala escura. A sonoridade ruidosa, os poucos e propositadamente confusos diálogos mas, principalmente, a fotografia escura, quase invisível, visivelmente não funcionaram ao ar livre – ainda mais porque a produção esqueceu de apagar os refletores da praça logo de início, o que deixou só depois o ambiente bem mais “escurinho” e adequado para os espectadores. Fora isso, tudo muito joia. Afinal, a grande estrela da noite de calor um ventinho de chuva que nos assustou um pouco foi “Um é Pouco...”, novinho em folha em seus 55 anos de existência e resistência.

Confira ou pouco de como estava o clima nesta noite festiva de Porto Alegre:

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Muita gente pra ver a sessão ao ar livro de "Um é Pouco..."

Nós e Bolota aguardando o filme começar

Bolota em sua primeira sessão de cinema

A turma toda curtindo


Daniel Rodrigues



quarta-feira, 26 de março de 2025

Música da Cabeça - Programa #404

As algemas já estão separadas, só esperando aquele dia tão aguardado. Enquanto o processo corre, a gente prepara a festa com música. A trilha sonora do xilindró traz Chico Batera, Joe Espósito, Elis Regina + Jair Rodrigues, Frente! e mais, como Jorge Benjor, aniversariante da semana. Ah, e praquele momento mais "Cabeção" da festa, tem ainda Pierre Boulez, que completaria 100 anos. Esfregando as mãos, o MDC forma maioria hoje às 21h na justa Rádio Elétrica. Produção e apresentação "sem anistia": Daniel Rodrigues




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sábado, 22 de março de 2025

Capas de K7 II - "Gil & Jorge" ou "Xangô Ogum"

 








RODRIGUES, Daniel
"Gil e Jorge" ou "Xangô Ogum"
Arte para fita cassete doméstica sobre o disco de Jorge Ben e Gilberto Gil, de 1975, pela PolyGram
Recorte, colagem e fontes transferíveis manipuladas em estilete sobre papel
9,5 x 10,3 cm
Anos 1990

quinta-feira, 20 de março de 2025

John Coltrane - “Giant Steps” (1960)

 

"Aquela sessão foi diferente das gravações anteriores. Parecia a única coisa em que ele [Coltrane] sabia que tinha algo importante. Todos sabíamos".
Tommy Flanagan

Como explicar o fenômeno John Coltrane? A cada disco que se escuta, a cada faixa que se reouve, a cada acorde que é emitido do seu sax transcendente é como se se ouvisse a sublimação. Não fosse sua morte prematura, em 1966, vitimado por um câncer, poderia se afirmar que a genialidade deste compositor e instrumentista sui generis era infindável. Afinal, mesmo em uma discografia extensa, tanto dos trabalhos solo quanto nos quais compôs bandas e/ou parcerias, muitos desses discos trazem um sopro divinal – com o perdão da expressão. Aqui no blog mesmo já listamos entre os álbuns fundamentais de sua autoria cinco deles: “Blue Train”, “My Favourite Things”, “Crescent”, “A Love Supreme” e “Ascension”. Isso, fora os diversos outros discos nos quais integra bandas, como os memoráveis “Kind of Blue” e “Cookin’”, ambos de Miles Davis e também resenhados no blog. 

Porém, em se tratando de Trane, não só cabem mais discos nessa lista como alguns ainda não incluídos são faltas notórias. Caso do gigante no nome e em conteúdo “Giant Steps”, de 1960, que completa 55 anos de lançamento em 2025. Primeiro trabalho como band leader de Coltrane para a sua então nova gravadora, a Atlantic, na qual produziu alguns de seus melhores trabalhos, o disco é um marco na sua carreira por uma série de motivos. O primeiro deles, além da estreia na nova casa, era que se tratava do primeiro projeto autoral do saxofonista e compositor após as gravações justamente do já mencionado “Kind...”, aquele que é considerado um dos maiores clássicos do jazz de todos os tempos e o de maior sucesso do gênero. “Kind...” fora gravado apenas quatro semanas antes por ele junto a Miles mais Paul Chambers (baixo), Jimmy Cobb (bateria), Bill Evans e Wynton Kelly (pianos). Impossível Coltrane não ter sido contagiado por aquela atmosfera modal concebida por Miles.

Acontece que Coltrane sabia muito bem o que queria expressar em sua música, e a proximidade com as sessões de “Kind...” não foram suficientes para influenciar o centro daquilo que pretendia fazer na estreia pela Atlantic: uma ode ao bebop. Partindo do estilo que o formou, desde a audição de seus ídolos Dexter Gordon, Coleman Hawkins e Lester Young, até os trabalhos solo realizados nos anos anteriores na Prestige e no seu único Blue Note, o memorável “Blue Train”, de um 1959, Coltrane deixou de lado (pelo menos, por ora) o jazz modal e aproveitou para despedir-se do bebop em alto estilo. Ele sabia que seu caminho seria tomado por outras facetas sonoras dali para frente. Era inevitável para um artista sempre em busca da renovação estilística e espiritual. Talvez até nem soubesse ainda quais caminhos seriam estes, mas os intuía. Por esse sentimento de gratidão, então, Coltrane entendeu que ainda não era a hora de apontar para novas fronteiras e, sim, aproveitar a confiança e a profundidade emocional adquiridas com sua experiência até ali e encerrar um ciclo.

A faixa-título é um de seus maiores clássicos, ao nível do que também representam temas como "Blue Train", "Resolution" e "My Favourite Things". Não por coincidência, visto que abre o disco trazendo sua assinatura estilística aliada ao domínio da variação de acordes próprias do bebop. O riff, dos mais conhecidos da história do jazz, larga arrebatando para, na sequência, Coltrane dominar todos os espaços (físicos e emocionais) com um solo de praticamente 4 minutos e meio. Isso, sustentado por outro fator que faz do disco um feito distinto: a banda. Se corria nas veias de Coltrane o sangue “tipo azul” do recente trabalho com Miles, o mesmo fluido mágico pulsava nas dos companheiros Cobb, Chambers e Kelly, que tocam em ambos os discos. Nada é por acaso. 

"Cousin Mary", na sequência, reduz um compasso, mas mantém a força expressiva de quem compunha a partir de progressões de sequências de acordes e tirava, no fim, peças como esta. O piano de Tommy Flanagan (responsável por esta e por mais quatro das seis faixas do álbum) tenta pacificar um pouco o clima, solando com a inteligência concentrada ao estilo de Thelonious Monk. Chambers, no embalo, engata um improviso arejado. Mas Coltrane é sempre intenso, e retorna vigoroso para encerrar a faixa. Embora a reverência ao "antigo", a alma de Coltrane carregava invariavelmente algo pessoal e com o olhar para uma experiência inovadora. Flanagan conta que era um desafio aprender as músicas, pois havia algo de muito especial em cada uma delas, o que os músicos queriam captar em essência. "As músicas não se resolviam do jeito que você espera de uma progressão, embora tudo tivesse uma lógica. Tinha lógica, mas era diferente para a época", relembra.

Se havia até então alguma concessão em amenizar a velocidade e a complexidade características dos be-bopers, a curta mas intensa "Countdown", totalmente formada a partir desses exercícios de progressões de escala altamente técnicas de Coltrane, não deixa dúvidas de que o músico queria venerar a geração de Charlie Parker e Dizzie Gillespie. Também nesta linha, mas injetando aspectos inovadores, "Spiral" – cujo nome dá a entender o sentido de sua estrutura – consegue mesclar a impermanência harmônica do bebop com uma ideia levemente inspirada no modal, em que os blocos de solos do sax, do piano e do baixo, respeitam um “limitante” de escalas, indo e voltando para o mesmo ponto, numa imagem espiral. 

"Syeeda's Song Flute", um blues suingado em homenagem à filha de Coltrane com a então esposa Naima, tem um salutar ar de descontração, que quebra o hermetismo das duas faixas anteriores, trazendo leveza para a narrativa geral. E se Trane acarinha a filha, agora é a vez de fazer o mesmo para com o seu amor. A música que leva o nome da esposa, no entanto, não se trata de qualquer canção romântica que se escuta por aí e logo se esquece. Mesmo separando-se de Naima anos depois (ele casou-se posteriormente com a pianista de jazz Alice Coltrane, com quem teve Ravi Coltrane, também talentoso músico e saxofonista como o pai), esta música guarda um lugar especial em todo o cancioneiro de Coltrane. Afinal, é talvez a maior balada jazz de todos os tempos. Não é exagero afirmar que “Naima”, com sua emotividade e sensibilidade compositiva singulares, está no mesmo patamar que temas clássicos como “Round Midnight”, “Virgo”, “Body and Soul”, “Blue in Green” ou “Embraceable You”. Possivelmente, até mais que estas. A perfeição.

Finalizando, mais um preito, desta vez para o amigo e parceiro Paul Chambers ("Mr. P.C."), um acelerado hard-bop com todos os ingredientes da obra-prima que Coltrane e sua trupe construíam: variações de escala, progressões e harmonias intrincadas apoiadas por muito coração, apuro técnico e intensidade expressiva. Como não se abismar com Coltrane tocando? Ele pisando confiante no seu terreno, o bebop, é puro proveito – e deleite.

O próprio Coltrane conta que “Giant...” foi um adeus à estrada harmônica construída pelos pioneiros do bebop. “Eu não sabia para onde ir em seguida. Não sei se eu já tinha pensado em abandonar os acordes, mas ele chegou fazendo aquilo, eu ouvi e disse: ‘bem, acho que essa é a resposta”. O “ele” a quem Coltrane se refere é Ornette Coleman e a “resposta” é seu revolucionário “The Shape of Jazz to Come”, lançado meses antes e que abriria portas para toda uma nova revolução no jazz: o free-jazz. Coltrane, claro, deixaria igualmente sua marca nesse capítulo inovador do jazz, dando sua contribuição para a história do gênero através também do jazz modal, do avant-garde, do spiritual e do post-bop nos álbuns subsequentes. Considerando que são menos de seis anos até sua morte, pode-se dizer, tranquilamente, que ele só o fez por ser capaz de dar “passos gigantes”, como o próprio nome de seu disco diz. Mas a pergunta inicial era: “como explicar o fenômeno John Coltrane?” Bem, não existe explicação para fenômenos. Eles não têm como serem dimensionados. 

**************
FAIXAS:
1. "Giant Steps" - 4:43
2. "Cousin Mary" - 5:45
3. "Countdown" - 2:21
4. "Spiral" - 5:56
5. "Syeeda's Song Flute" - 7:00
6. "Naima" - 4:21
7. "Mr. P.C." - 6:57
Todas as faixas de autoria de John Coltrane

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OUÇA O DISCO:


Daniel Rodrigues

quarta-feira, 19 de março de 2025

Música da Cabeça - Programa #403

 

Em semana dos 40 anos da redemocratização e em que político brasileiro fujão se acovarda e deixa o país, o MDC com muito orgulho traz a memória de alguém que nunca fugiu da raia. Aliás, nossa Elis Regina, que completaria 80 anos se viva, não deixava barato nunca! Igual aos outros convidados do programa: Titãs, Henri Mancini, Tracy Chapman, Mutantes, Kraftwerk e mais. Mas é a Pimentinha, claro, que toma conta do nosso quadro especial Sete-List e do Palavra, Lê. Fazendo reverências mil, o MDC vai ao ar na noite do Brasil às 21h na equilibrista Rádio Elétrica. Produção, apresentação e cuca legal: Daniel Rodrigues.


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domingo, 16 de março de 2025

Capas de K7 - "Manual Prático Para Festas, Bailes e Afins Vol. 1"

 







RODRIGUES, Daniel
"Manual Prático Para Festas, Bailes e Afins Vol. 1"
Arte para fita cassete doméstica sobre o disco de Ed Motta pela gravadora Universal
Recorte e colagem sobre papel revista
9,5 x 10,3 cm
1996

quarta-feira, 12 de março de 2025

Música da Cabeça - Programa #402

 

Não adianta: 
agora o ano começou de vez! 
Não tem mais desculpa de Carnaval, 
férias, ano astrológico, emissão do IPTU... 
É! Mas tudo isso acompanhado 
de uma boa música vai frouxo, 
e é isso que o MDC vai hoje 
trazer em doses aliviantes. 
Tem Morcheeba, Chico Buarque,
 Bobby McFerrin, Steely Dan 
e Moacir Santos 
pra dar aquele ânimo. Ainda, 
um Cabeção homenageando os
 150 anos de nascimento de 
Maurice Ravel. O programa 
é ou não é um bom motivo 
pra iniciar o ano? 
Só mesmo na revigorante 
Rádio Elétrica, às 21h. 
Produção e apresentação 
sem mais postergação: 
Daniel Rodrigues


www.
radio
eletrica
.
com



quarta-feira, 5 de março de 2025

Música da Cabeça - Programa #401

 

É sempre assim todo ano: o Carnaval se encerra e a melhor coisa que tem para curar a ressaca é o MDC da quarta-feira de cinzas. Com um sorriso no rosto e ainda em clima de Oscar, o programa hoje recorre a Led Zeppelin, Pat Metheny, Madonna, Tom Zé e Jards Macalé para enterrar os ossos. No quadro especial, Sete-List, não esquecemos também de prestar uma homenagem a Gene Hackman. Totalmente oscarizado e carnavalizado, o MDC vai ao ar às 21h na premiada Rádio Elétrica e com produção e apresentação de Daniel Rodrigues. Porque, sim: nós vamos ouvir. Ouçam! 


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segunda-feira, 3 de março de 2025

Oscar 2025 - Os Vencedores

Walter Salles com o NOSSO inédito Oscar: que vitória!
Não poderia deixar de começar qualquer comentário sobre a edição de 2025 do Oscar falando não sobre o principal premiado, mas da premiação inédita conquistada pelo filme brasileiro "Ainda Estou Aqui". Sim: o Brasil pode dizer que tem um Oscar para chamar de seu! O longa de Walter Salles, que ainda concorria a Filme, ganhou a tão sonhada estatueta de Filme Internacional, alcançando aquilo que outros filmaços brasileiros anteriores, como "O Pagador de Promessas" e "Central do Brasil", não conseguiram. Um feito histórico e de gigantesca simbologia para o cinema nacional.

Em compensação, o Oscar de Fernanda Torres, aquele para o qual se criou uma enorme celeuma e expectativa Brasil inteiro, não veio. E não veio de uma forma um tanto frustrante, o que tem a ver, agora sim, com o destaque desta edição: a supremacia de "Anora". O drama/comédia de Sean Baker foi o principal vencedor da noite, conquistando 5 das 6 estatuetas as quais foi nomeado: Filme, Roteiro Original, Edição, Direção e aquele que, surpreendente, tirou o prêmio de Fernanda, o de Atriz para Mikey Madison.

O gosto amargo fica porque, se fosse para Fernanda perder, que fosse para Demi Moore por seu papel em "A Substância". Por tudo que representa o papel de Demi, toda a carga anti-etarismo e anti-sexismo que carrega e também por toda a falada retratação com a artista, nunca indicada a nada. Mas não foi o que houve. Teria sido mais justo com Demi, a favorita, e com Fernanda, que, tête-à-tête com Mikey, desempenha melhor num papel dramático. Não que seja um prêmio descabido, pois a protagonista de "Anora" está muito bem no filme. Mas papel por papel, Fernanda como Eunice Paiva é, sim, um nível acima em expressividade e consistência como atuação. Mas é premiação, e isso faz parte.

Tanto faz parte que o superindicado "Emilia Pérez", depois das polêmicas sobre sua realização e roteiro e de uma desastrosa campanha que o desidratou diante dos jurados, tinha 13 chances e amargou apenas 2: Atriz Coadjuvante (para Zoe Saldaña, ótima) e Canção Original. Até mesmo "O Brutalista", outro favorito (inclusive a Filme), das 10 nomeações teve de se contentar com somente 3: Ator (Adrian Brody), Fotografia e Melhor Trilha Original.

O fator político, que se imaginava talvez mais exacerbado, falou menos, mas bem. Corajosa, a atriz Daryl Hannah, que apresentou a categoria de melhor Edição, fez a saudação nacionalista ucraniana com os dedos e "V" e disse a frase: "Glória a Ucrânia", lema das forças armadas e nacionalistas do país invadido pela Rússia. Aplaudida. Outro momento anti-belicismo foi quando da vitória do documentário "No Other Land", dirigido por Basel Adra, Hamdan Ballal, Yuval Abraham e Rachel Szor, ou seja, cineastas palestinos e judeus juntos pela mesma causa: a paz e o olhar humanista para os povos. No discurso, críticas à forma como o governo dos Estados Unidos atua na Guerra em Gaza, colaborando com a manutenção do ódio entre os povos. A gafe, no entanto, ficou por conta da não menção a Cacá Diegues no momento In Memorian. Esses norte-americanos jecas...

Quem também recebeu justos aplausos foi Paul Tazewell, que fez história ao se tornar o primeiro homem negro a ganhar o Oscar de Melhor Figurino pelo seu trabalho no musical "Wicked", filme que ainda levou o prêmio de Design de Produção. Fora isso, "A Substância" pegou o merecido de Maquiagem e Cabelo, "Conclave" o plausível de Roteiro Adaptado e "Duna - parte 2" levou os dois técnicos: Som e Efeitos Visuais.

Para além da felicidade de ver "Ainda Estou Aqui" no mais alto posto da maior premiação do cinema mundial, é legal ver também um cult "pequeno" vencer. Em contraposição ao cinemão de "O Brutalista" e a alegoria musical de "Emilia Pérez", ambos estilos por muito tempo consagrados pela Academia, ficaram pra trás em detrimento de "Anora", um filme profundo sem precisar de grandiloquência e que deixa um recado: nunca duvidem de um Palma de Ouro de Cannes.

Confira todos os premiados:

📹📹📹📹📹📹📹📹


MELHOR FILME

Anora


MELHOR FILME INTERNACIONAL

Ainda Estou Aqui


MELHOR DIREÇÃO

Sean Baker (Anora)


MELHOR ATRIZ

Mikey Madison (Anora)


MELHOR ATOR

Adrien Brody (O Brutalista)


MELHOR ATRIZ COADJUVANTE 

Zoe Saldaña (Emilia Pérez)


MELHOR ATOR COADJUVANTE

Kieran Culkin (A Verdadeira Dor)


MELHOR ROTEIRO ORIGINAL

Anora


MELHOR ROTEIRO ADAPTADO

Conclave


MELHOR EDIÇÃO

Anora


MELHOR DOCUMENTÁRIO

No Other Land


MELHOR DOCUMENTÁRIO DE CURTA-METRAGEM

The Only Girl in the Orchestra


MELHOR ANIMAÇÃO

Flow


MELHOR ANIMAÇÃO EM CURTA-METRAGEM

In the Shadow of the Cypress


MELHOR CURTA-METRAGEM EM LIVE-ACTION

I'm Not a Robot


MELHOR FOTOGRAFIA

O Brutalista


MELHOR DESIGN DE PRODUÇÃO

Wicked


MELHOR FIGURINO

Wicked


MELHOR MAQUIAGEM E CABELO

A Substância


MELHOR TRILHA ORIGINAL

O Brutalista


MELHOR CANÇÃO ORIGINAL

“El mal" - Emilia Pérez


MELHOR SOM

Duna - Parte 2


MELHORES EFEITOS VISUAIS

Duna - Parte 2


Daniel Rodrigues

sábado, 1 de março de 2025

"Conclave", de Edward Berger (2024)


GANHADOR DO OSCAR DE
MELHOR ROTEIRO ADAPTADO
 

Existem algumas máximas quando se fala em cinema. Uma delas é: "isso acontece só mesmo em filmes". "Conclave", do diretor suíço Edward Berger, por melhor que seja - e é, sim, um filme bastante apreciável - não escapa de trazer à mente esse quase subterfúgio mesmo numa história baseada em fatos verídicos.

Na trama, com a morte do Papa, o Cardeal Lawrence (Ralph Fiennes) reúne um grupo de sacerdotes para eleger seu sucessor. Cercado por líderes do mundo todo nos corredores do Vaticano, e cada vez mais invadido pelo desejo de tornar-se Papa, ele descobre uma trilha de segredos profundos que podem abalar os fundamentos da Igreja Católica.

A boa atuação de Fiennes como protagonista (um dos 8 Oscar pelo qual "Conclave" concorre e passível de ganhar, o de Melhor Ator) e os excelentes trabalhos de arte, figurino e fotografia, que exploram as simetrias e composição visuais do pictorialismo secular da Igreja, ajudam a sustentar muito bem a trama de suspense que se cria em torno dos bastidores da escolha de um novo Sumo Pontífice. 

Contudo, o final, deixa a desejar. Embora funcione para a lógica do filme, cuja narrativa faz com que se torne crível a eleição de um/a papa/papisa para o sagrado - e misógino - posto do Vaticano, na vida real é muito pouco provável que tal "escárnio" acontecesse. 

Num ambiente altamente político e polarizado como o filme mostra e faz crer, onde a sede pelo poder é levada às últimas consequências (inclusive, incriminar o representante da Nigéria por puro racismo para tirá-lo do páreo, como se sucede), não é possível imaginar que deixassem incólume um cardeal de esquerda, desconhecido e envolto em mistérios só porque o antigo Papa o indicou. Ele sequer avançaria de fase no conclave, quanto menos vencer o pleito da Santa Sé. Indicação do Papa? Diriam: “Que se dane! Afinal, morto não fala (só Jesus)”.

Aquelas cobras vestidas de santidades, ainda mais os da ala reacionária e conservadora representada na figura do Cardeal de extrema-direita, Goffredo Tedesco (Sergio Castellitto), jamais iriam deixar que isso acontecesse se seus personagens não fossem "de mentirinha". Estes tipos odeiam minorias e se sentem - justificadamente - ameaçados por elas. Eles vasculhariam a vida do adversário. Fosse para valer, na segunda ocasião que o arcebispo mexicano, Cardeal Benitez (vivido por Carlos Diehz) tivesse obtido algum destaque diante do grupo, configurando-se em uma ameaça mesmo que incipiente - fato que ocorre no filme, quando este resolve pacificamente a discussão em torno da punição aos insurgentes externos à basílica - já teriam dado um jeito de lhe limar. O motivo para isso não seria nem difícil de encontrar, até porque, Cardeal Benitez não era um mentiroso, só mantinha discrição.

A sensação que se tem é a de que, faltando um argumento capaz de impactar no momento essencial do clímax, a solução a qual se recorreu para o final foi esta: um descuido da Igreja. Pouco razoável para uma instituição que sempre soube muito bem se blindar de tudo que lhe fora perigoso para sua manutenção por séculos, inclusive da própria tentativa de mulheres ao cargo. Recuperando-se um pouco da História, é sabido que a Igreja submetia os candidatos a Papa a um constrangedor teste nas partes íntimas para verificar quem tinha colhões ou não (supõe-se que o autor da obra original e o roteirista saibam disso). 

Talvez hoje no Vaticano se valham de alguma tecnologia menos invasiva e não precisem recorrer mais a métodos tão arcaicos para obter o mesmo resultado - mas que devem se precaver de alguma maneira, devem. O fato é que o desfecho de “Conclave” é daqueles que passa por verdade somente em cinema, pois dificilmente aquela gente esperta e manipuladora se deixaria ser enganada tão vergonhosamente. Isso pesa para um filme que, mesmo bom, presta-se a ser realista.

Fosse preciso, na vida real, a Santa Igreja descobria de um jeito ou de outro o segredo do Papa "não-homem": com constrangimento ou não. (Se bem que, em se tratando da Igreja, é bem possível que ainda queiram manter sádicas "tradições"...)

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trailer de "Conclave"


"Conclave"
Título Original: "Conclave"
Direção: Edward Berger
Gênero: Drama/Suspense
Elenco: Ralph Fiennes, Stanley Tucci, John Lithgow, Sergio Castellitto, Isabella Rossellini
Duração: 120 min
Ano: 2024
País: Reino Unido/Estados Unidos
Onde assistir: Cinemas

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Daniel Rodrigues


sexta-feira, 28 de fevereiro de 2025

Capas de VHS Oscar - "Fargo" e "Missão Impossível"

 




RODRIGUES, Daniel
"Fargo" e "Missão Impossíevel"
Arte para VHS doméstico sobre os filmes "Fargo", de Joel e Ethan Coen, vencedor dos Oscar de melhor diretor 
e melhor roteiro original, e "Missão Impossível", de Brian De Palma, ambos de 1996 - Série Cult Movies
Recorte, colagem e fontes transferíveis pretas e vermelhas sobre papel
26 x 21 cm
Anos 1990

quarta-feira, 26 de fevereiro de 2025

Capas de VHS Oscar - "Platoon" e "Salvador: O Martírio de um Povo"

 





RODRIGUES, Daniel
"Platoon" e "Salvador: O Martírio de um Povo"
Arte para VHS doméstico sobre os filmes de Oliver Stone: "Platoon", vencedor dos Oscar de melhor filme, melhor diretor, melhor som e melhor montagem, e "Salvador" , indicado os Oscar de melhor ator e melhor roteiro original, ambos de 1986
Recorte e colagem sobre papel
26 x 21 cm
Anos 1990

quinta-feira, 20 de fevereiro de 2025

Quinteto Armorial - “Do Romance ao Galope Nordestino” (1974)

 

Doses Cavalares de Brasil


“Convencidos de que a criação é muito mais importante do que a execução, [os músicos do Quinteto Armorial] preferiram a tarefa mais dura, mais ingrata, mais difícil e mais séria: a procura de uma composição nordestina renovadora, de uma Música erudita brasileira de raízes populares, de um som brasileiro, criado para um conjunto de câmera, apto a tocar a Música europeia, é claro mas principalmente apto a expressar o que a Cultura brasileira tem de singular, de próprio e de não europeu.” 
Ariano Suassuna 

A história da arte no Brasil viu, em alguns momentos, a tentativa de se representar uma ideia de nação. Seja por motivos políticos, ideológicos ou simplesmente astuciosos, é fácil concluir que, para se chegar a uma identidade pretensamente simbólica de um povo, a produção artística é o melhor meio para se alcançar essa finalidade nacionalista. No século XIX, o Romantismo à brasileira buscava, num território recém emancipado da Coroa portuguesa, ressaltar as paisagens exóticas, a natureza, os povos primitivos e a miscigenação para suscitar o orgulho dos “novos” brasileiros. No Estado Novo, igual. Tanto o forte investimento na Rádio Nacional, impulsionadora de uma gama de célebres artistas, como no cinema, denotam o projeto de Estado de unificar em uma mensagem ufanista um espírito comum.

Afora a grande subjetividade de se materializar esse feito e da óbvia dificuldade de sintetizar em códigos simbólicos um país de dimensões continentais e em construção, é evidente que a estratégia não deu necessariamente certo em todas essas tentativas. A influência da Europa, seja como modelo, seja como contraposição, põe às claras a falta de elementos primitivos da cultura e da natureza de um país jovem historicamente como o Brasil – principalmente, em comparação à própria Europa, não à toa chamado de Velho Mundo. Residem nesse pensamento ocidentalizado as críticas a outro movimento que também tentou com suas ferramentas inventar uma arte puramente brasileira: o Movimento Armorial. Antes de “brasileira”, aliás, nordestina. Surgido em 1970 por iniciativa do escritor paraibano Ariano Suassuna quando atuou como Diretor do Departamento de Extensão Cultural da Universidade Federal de Pernambuco, essa vertente artístico-cultural, manifesta em literatura, música, dança, artes plásticas, arquitetura, cinema, etc., centrava-se na valorização das artes populares nordestinas e propunha como ideia central a criação de uma arte erudita a partir de elementos populares.

Há quem acuse o Movimento Armorial de ser, além de academicista, também elitista e cínico, pois, na prática, não se comunicava com o tal povo no qual tanto bebia, restringindo-se ao círculo de seus principais cabeças: Suassuna, o artista plástico Francisco Brennand, o gravurista Gilvan Samico e uma meia dúzia de afortunados homens das artes. O que é impossível criticar, no entanto, é a qualidade das obras produzidas, entre elas uma que completou 50 anos em 2024: o disco de estreia do Quinteto Armorial, “Do Romance ao Galope Nordestino”. Com uma obra que propõe um diálogo entre o cancioneiro folclórico medieval e as práticas criativas dos cantadores nordestinos e seus instrumentos musicais tradicionais, o Quinteto Armorial lançava, pelo selo Marcus Pereira, um trabalho revolucionário e inédito em forma e conceito, o qual mereceu Prêmio APCA como o Melhor Conjunto Instrumental de 1974.

Formado pelos então jovens músicos nordestinos Antônio José Madureira, Egildo Vieira do Nascimento, Antônio Nóbrega, Fernando Torres Barbosa e Edison Eulálio Cabral, o conjunto instrumental trazia um manancial de aparatos musicais condizente com sua proposta de síntese: rabeca, pífano, viola caipira, violão e zabumba perfilando-se com os eruditos violino, viola e flauta transversal. A junção do conceito armorial com a textura dos sons gerava uma sonoridade própria, a se ver por "Revoada", exemplo claro dessa junção de tempos históricos, culturas e apropriações. Sem percussão, traz o som metálico da viola caipira, que se harmoniza com as cordas – o violino clássico e a rabeca, retrazida da Idade Média para este novo contexto – e o sopro de pífaro e flauta. Uma forma bastante didática de começar o disco.

Como bem coloca Suassuna em seu texto de apresentação na contracapa do disco, há a influência ibérica por meio dos instrumentos de origem hindu ou árabe, tão marcantes no Nordeste. Se "Revoada" é ritmada e lírica em seus toques ásperos e arcaicos, “acerados como gumes de faca-de-ponta”, tanto mais é "Repente". Esta evoca o Nordeste somente em sons e sem precisar articular uma palavra ou verso a tradição poético-musical dos repentistas de improvisarem estrofes criando-os no exato momento da apresentação. Desde 2021, o repente é considerado patrimônio cultural do Brasil pelo Iphan. 

Típica obra do Movimento Armorial: "Pe. Cícero Romão (Tríptico)”,
óleo sobre aglomerado de Gilvan Samico, do mesmo ano do disco
“Padrinhos” musicais do movimento Armorial, o maestro carioca César Guerra-Peixe e o compositor e folclorista pernambucano Capiba são reverenciados. Guerra-Peixe com a faixa “Mourão”, de sua autoria, um baião embalado que o Brasil inteiro passou a conhecer melhor na trilha sonora do filme “O Auto da Compadecida”, de 2000 (e que acaba de ganhar uma continuação), que se inspira em seus acordes. Nome do cavalo típico do sertão, Mourão, além da evidente referência aos mouros pela cor da pele/pelagem crioula, dignifica, ainda, uma das alusões presentes no título do disco, o “galope”, estilo musical base das festividades juninas da região. 

Já Capiba tem semelhante destaque. O inventor de frevos clássicos da cultura de Pernambuco e protagonista do tradicional bloco carnavalesco Galo da Madrugada, também é lembrado por uma de suas principais peças: "Toada e Desafio", esta também da trilha de “O Auto...” – aliás, a música central do filme –, aqui lindamente executada pelo Quinteto Armorial. Mais um leque de conhecimentos empíricos trazidos à luz da música erudita: além do popular galope, agora merecem releituras a “toada”, cantiga de melodia simples e monótona entoada pelos vaqueiros nordestinos, e o “desafio”, duelo de versos improvisados surgido na Grécia antiga entre os pastores, reinventado na Idade Média e que veio parar no Brasil justo no Nordeste brasileiro, onde, como diz Luz Câmara Cascudo, “o combate assumiu asperidades homéricas”.

A força cultural nordestina dá ainda mais elementos a Madureira, que compõe a renascentista "Toada e Dobrado de Cavalhada", claramente dividida em duas partes: um lento introdutória e, na sequência, um allegro que acompanha o trote ligeiro da dança. Flautim e pífaro dialogando. Misto da música rural dos berberos marroquinos e os mouros dos séculos 12 e 13, ambos ligados pela religião. Vanguarda que surpreenderia até mesmo gente como a Penguin Cafe Orchestra, como a “desafinada” “Toré”, absolutamente moderna. 

E quando idealizam uma Idade Média brasileira para além dos livros de História, como em "Romance da Bela Infanta"? Tema amoroso ibérico do séc. XVI recriado nas cores monocórdicas dos instrumentos rústicos. Mas Madureira faz ainda melhor quando resgata o romance do próprio Nordeste! "Romance de Minervina", canção provavelmente datada do séc. XIX, que recria uma atmosfera provençal ao modo dos trópicos. É possível enxergar uma procissão pelos campos mediterrâneos e, ao mesmo tempo, a tristeza árida do sertão. Igualmente medievas são "Excelência”, tema nordestino de canto fúnebre, e “Bendita”, cântico de Zacarias à maneira dos Salmos que os romeiros entoam pelo itinerário do enterro.

Antônio Nóbrega, dono de reconhecida carreira solo e o de maior proeminência entre todos os músicos do grupo, já a época não ficava para trás. É dele "Ponteio Acutilado", moda forjada na tradição dos violeiros. É praticamente 1 min de solo de viola caipira para, a partir de então, todos os outros instrumentos entrarem e se harmonizarem como se sempre tivessem pertencido ao mesmo território geográfico. A outra dele é "Rasga", dissonante e introspectiva na primeira metade, mas que se encerra (e ao disco) com um “rasga ponteio” festivo.

Os ouvidos populares hoje são familiarizados com a sonoridade que o Quinteto Armorial ajudou a sintetizar. Basta notar a naturalização desses sons em produções populares inspiradas na obra de Suassuna e seus séquitos, como as incontáveis produções audiovisuais da TV Globo que emulam esse universo folclórico e onírico. Mal comparando, como fizeram os alemães da Kraftwerk ao “inventarem” os sons de computador que conhecemos hoje, criando uma espécie de “sonoplastia digital” que se tornou universal. Para com a sonoridade nordestina e, até por uma questão de proporção territorial bastante brasileira, no caso, o Quinteto Armorial cumpriu mais do que um papel esteticamente formal, mas, sim, musical e antropológico. 

O movimento ao qual o Quinteto Armorial muito bem representou não é um consenso entre as pessoas da cultura, mas é inegável a validade de sua proposta, reconhecida hoje nacionalmente, haja vista a rica exposição aos seus 50 anos, ocorrida em 2023, e também internacionalmente por artistas consagrados como o chinês Ai Weiwei. A ideia de valorização da cultura do Brasil que movimentos como este tentam suscitar de tempos em tempos, podem, mesmo com as controvérsias, serem vistas como potência. Uma potência policarpeana de tornar oficial a cultura ancestral. Como escreveu Lima Barreto em “O Triste Fim de Policarpo Quaresma”, personagem símbolo da luta por uma identidade brasileira: “O que o patriotismo o fez pensar foi num conhecimento inteiro do Brasil, levando-o a meditações sobre os seus recursos, para depois então apontar os remédios”. Se depender desse pessoal, nenhum brasileiro jamais adoeceria por causa de síndrome de vira-latas.

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FAIXAS:
1. "Revoada" (Antônio José Madureira) - 3:44
2. "Romance da Bela Infanta" (Romance ibérico do Séc. XVI, recriado por Madureira) - :53
3. "Mourão" (César Guerra Peixe) - 1:50
4. "Toada e Desafio" (Capiba) - 4:26
5. "Ponteio Acutilado" (Antônio Carlos Nóbrega) - 4:32
6. "Repente" (Madureira) - 4:36
7. "Toré" (Madureira) - 2:59
8. "Excelência" (Tema nordestino de canto fúnebre, recriado por Madureira) - 3:02
9. "Bendito" (Egildo Vieira do Nascimento) - 4:23
10. "Toada e Dobrado de Cavalhada" (Madureira) - 4:52
11. "Romance de Minervina" (Romance nordestino, provavelmente do Séc. XIX, recriado por Madureira) - 1:33
12. "Rasga" (Nóbrega) - 4:48

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OUÇA O DISCO:


Daniel Rodrigues
Texto publicado originalmente no site AmaJazz