Curta no Facebook

Mostrando postagens com marcador Daniel Rodrigues. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Daniel Rodrigues. Mostrar todas as postagens

quarta-feira, 1 de abril de 2026

Música da Cabeça - Programa #453

A Nasa diz que vai voltar à Lua neste 1º de abril, mas tem muita gente que diz que é mentira que eles já foram. Sem dúvida alguma, o que a gente vai ter hoje é MDC. E pra não mentir pra ninguém, hoje não é programa novo, mas sim reprise de um outro 1º de abril, de 2020, na edição 156, que teve Itamar Assumpção, Riachão, Sepultura, Tracy Chapman, Detrito Federal e um quadro "Cabeção" sobre Krzysztof Penderecki. Verdade verdadeira: vamos ao ar 21h na inquestionável Rádio Elétrica. Produção e apresentação: Daniel Rodrigues


www.radioeletrica.com


segunda-feira, 30 de março de 2026

Morcheeba - "Blaze Away" (2018)


"Tínhamos o Paul na banda e funcionou bem, mas depois não mais. Agora, ele está fazendo o próprio caminho e funciona bem com o Ross e eu como líderes do Morcheeba. Agora, estamos estabelecidos: temos o olhar e a combinação certos".
Skye Edwards

Somente grandes bandas resistem à perda de um integrante essencial. Os ingleses da Rolling Stones, quando da trágica morte de Brian Jones, em 1969, e a Pink Floyd, que perdia o genial mas perturbado Syd Barrett em 1968 para a doença mental, são dois exemplos clássicos de bandas que souberam se reinventar mesmo sem aqueles que as fundaram. Grupo símbolo do bom gosto no pop dos anos 90, a igualmente britânica Morcheeba também passou por essa prova. Conhecida por sua sofisticada mistura de trip hop, folk rock, R&B, eletropop e downtempo, o trio, formado pela cantora Skye Edwards e os irmãos Paul e Ross Godfrey, abriu sua trajetória, em 1996, com "Who Can You Trust?", e, dois anos depois, lançavam o essencial "Big Calm", top 10 da parada britânica. Mantiveram o êxito no sucessor "Fragments of Freedom", de 2000, que os alçou ao estrelato com o hit "Rome Wasn't Built in a Day". 

Porém, em 2005, as relações internas começaram a se desestabilizar. Após o ótimo "Charango" e uma década juntos, Skye deixa a Morcheeba por um tempo, retornando dois álbuns depois, em 2013, para "Head Up High". Só que, agora, quem se despedia era Paul – e ele, pelo visto, em definitivo. E então: suas programações de ritmo, samples, percussões e scratches, tão essenciais para o estilo da banda, como ficariam? Não se valeriam mais desse tipo de expediente? A supressão dele iria mudar a proposta sonora da banda? A resposta veio após cinco anos no magnífico "Blaze Away". A agora dupla Skye e Ross não só manteve a qualidade que caracteriza a Morcheeba como, ainda, produz um dos melhores trabalhos da discografia da banda.

Com produção e sonoridade caprichadas de sempre, “Blaze Away” (que quer dizer algo como "chama acesa") abre com uma música de título também bastante simbólico para este novo momento: "Never Undo" ("Nunca desfaça"). Trip hop sentimental de letra apaixonada, talvez também deixe um "recado" aos que se foram: "Você foi uma história sombria/ Mas não deixe isso afundar/ Vamos apenas cantar". Na sequência, a faixa-título, um eletro-funk matador com a participação do rapper Roots Manuva cuja voz potente contrapõe o delicado timbre de Skye. Sonzasso.

"Love Dub", como o nome diz, traz o ritmo jamaicano com a invariavelmente ótima guitarra de Ross e um inspirado refrão, desses facilmente cantaroláveis, especialidade da Morcheeba: “Lead the healing/ Build the bridge/ Freedom feeling/ We begin there”. E por falar em melodia bonita em forma de música pop, “It's Summertime” é exemplar. Embalada pela guitarra de Ross sobre uma programação de ritmo e efeitos de teclados, é tão solar como o título sugere. E o que é Skye pronunciando a palavra “love”?! É de se apaixonar por esse verão.

Já a bela “Sweet L.A.”, mais cadenciada, é basicamente ao som do órgão e a doçura vocal de Skye. Pura delicadeza. Na sequência, talvez a melhor do disco e uma das grandes de todo o cancioneiro da Morcheeba: "Paris Sur Mer", que entra na interessante lista de canções cantadas em francês por artistas de outra nacionalidade como “Touche Pas à Mon Pote”, do brasileiro Gilberto Gil, e “Aéro Dynamik”, dos alemães Kraftwerk. Claro, aqui Skye e Ross são ajudados sobremaneira pela poderosa e sensual voz do cantor e ator francês Benjamin Biolay. Um ritmo funkeado sobre um riff de violão, que, na mesa de som, soa como se sampleado por eles próprios. Tem também o tradicional solo de Ross com pedal wah wah, marca dele em várias outras músicas da banda, como as antigas “The Sea” e "Shoulder Holster", de “Big Calm”, e “Cut to the Chase”, de “Blood Like Lemonade” (2010). Mas, além disso tudo, tem o charme do idioma de Proust sendo cantado em uníssono por essas duas lindas vozes masculina e feminina, ao estilo Gainsbourg-Birkin: “Paris-Sur-Mer/ Station de ski d'hiver/ Paris-Sur-Mer/ Se rêve en station balnéaire”.

Com o clima de folk downtempo (tal músicas como “Aqualung” e “Part of the Process”, de álbuns anteriores), "Find Another Way" vem em seguida. É outra dessas melodias graciosas que só a Morcheeba sabe compor, e sempre com o vocal cheio de sensualidade de Skye, suavemente rouco e de timbre levemente infantil. Sua voz carrega com elegância também o synth-funk "Set Your Sails", formando uma camada vocal em overdub e num fluxo temporal diferente da base eletrônica e dos outros instrumentos.

Encerrando “Blaze...”, a belíssima "Free of Debris", balada romântica ao estilo de outras da banda, tipo “Fear and Love”, “Undress Me Now” e “Col”, mas desta vez também com algo de ambient. Curta e poderosa, quase uma vinheta para o viajandão trip hop "Mezcal Dream", que finaliza o disco unindo as vozes de Skye e da francesa Amanda Zamolo. Cheia de efeitos, samples, programação de ritmo... pelo visto, Paul Godfrey não está fazendo tanta falta.

Dá para dizer que “Blaze...” é o “Exile on Main Street” ou o “Atom Heart Mother” da Morcheeba? Talvez seja uma comparação exagerada, mas não descabida. Skye e Ross, cientes de que agora o barco é só com eles, esmeraram-se e trouxeram um álbum que não apenas dignifica a história do grupo como, no mesmo peso, superam a ausência de um ex-integrante e mantêm, sim, a banda plenamente viva. Tal Rolling Stones e Pink Floyd fizeram um dia quando estiveram quase por acabar. Atitude de grandes bandas.

Clipe da faixa-título "Blaze Away"


🎸🎸🎸🎸🎸🎸🎸🎸🎸🎸🎸

FAIXAS:
1. "Never Undo"
2. "Blaze Away" - participação: Roots Manuva (Skye Edwards/ Ross Godfrey/ Alex Watson/ Rodney Smith)
3. "Love Dub" 
4. "It's Summertime" (Kurt Wagner/ Edwards/ Godfrey)
5. "Sweet L.A." (Constandia Costi/ Edwards/ Godfrey) 
6. "Paris Sur Mer" - participação: Benjamin Biolay (Edwards/ Godfrey/ Biolay)
7. "Find Another Way"
8. "Set Your Sails"
9. "Free Of Debris"
10. "Mezcal Dream" – participação: Amanda Zamolo (Godfrey)
Todas as composições de autoria de Skye Edwards e Ross Godfrey, exceto indicadas

🎸🎸🎸🎸🎸🎸🎸🎸🎸🎸🎸


Daniel Rodrigues

quarta-feira, 25 de março de 2026

Música da Cabeça - Programa #452

 

Bomba! Revelado o verdadeiro Power Point que liga o MDC a suas conexões! Mas aqui não tem mau jornalismo e nem intenções lavajatistas! Afinal, Sly & Family Stone, Neguinho da Beija-Flor, Cláudia, The Smiths e Jackson Browne sabem muito bem do que estão falando. Ainda, Eliane Elias ilustra nosso Cabeça dos Outros desta semana. Com distorção só de guitarras, o programa entra no modo apresentação às 21h na imparcial Rádio Elétrica. Produção e apresentação sem erro: Daniel Rodrigues 


www.radioeletrica.com

segunda-feira, 23 de março de 2026

Costa da Lagoa - Lagoa da Conceição - Florianópolis/SC


Um dos passeios que desejávamos fazer nessa curta temporada em Florianópolis era à Lagoa da Conceição, que eu visitara há uns bons 20 anos atrás e adorara. Pela manhã, após atravessarmos de carro a sinuosa e bonita estrada que corta o Morro da Lagoa, que desemboca nela lá embaixo, descemos no centrinho, mas não ficamos pela famosa Avenida das Rendeiras, mais movimentada no fim do dia. Isso porque ali mesmo soubemos que havia um passeio de barco para a região de pescadores, a chamada Costa da Lagoa. Já queríamos andar em alguma embarcação pela ilha desde que havíamos visto a existência de um catamarã que saía da Beira-Mar Norte, na região do Centro. Porém, era um custo exorbitante, feito para turista gringo e espetaculoso. Então, além de super em conta, o barco era perfeito para o que buscamos: um passeio pelas águas da Lagoa da Conceição.

Embora não estivesse previsto, foi a melhor coisa que Leocádia e eu fizemos. Num dia lindo de sol, cruzamos por cerca de 1 hora a Lagoa em direção à Costa admirando a impressionante vegetação de Mata Atlântica preservada dos morros que costeiam a caudalosa lagoa. Rochas faraônicas, muito verde, casas encravadas em meio à mata fechada. Por trás daquela vegetação toda, que subia até o alto dos morros, ainda há uma trilha. De 12 km! Dessa vez, não deu pra fazer, mas me aguardem na próxima! 

Enfim, depois dessa viagem no balanço que as águas proporcionam, chegamos à Costa da Lagoa para conhecer a pequena vila. Uma igrejinha muito simpática e uma subidinha – numa trilha – rumo à cachoeira pelo Caminho da Costa da Lagoa, integrante do Refúgio de Vida Silvestre Municipal Meiempibe. Passeio feito, descemos o sopé do morro para almoçar frutos do mar no excelente e premiado restaurante Sabor da Costa, onde fomos recebidos pelo simpático Savas e sua atenciosa equipe.

“Y mas não digo”, como falaria o saudoso Edy Star, pois as fotos estão aí para registrar melhor essa adorável manhã em que – enfim! – passeamos de barco pela ilha de Florianópolis.

🚢🚢🚢🚢🚢🚢🚢🚢🚢🚢


Vista da estação, prestes a embarcar


Um pouco do passeio de barco 
até a Costa da Lagoa


Já na Costa, a pequena prainha


Trapiche em direção da lagoa


A briga do pneu com a água


Vista de cima da vila de pescadores


Leocádia em frente à simpática igrejinha da vila


De dentro da igreja


O Santo no caminho para a cachoeira


E eu - bem menos santo - também na cachoeira


Pessoal se refrescando nas quedas d'água


Novamente na beira do lago. Paisagem que parece quadro


Casinha de pescador, sempre um barato


À espreita dos peixes


O barco Dourado chegando...


...E o Escorpião atracado


Outra vista que daria uma pintura


Estes dois passeadores felizes como o inesperado passeio quase retornando à ilha


🚢🚢🚢🚢🚢🚢🚢🚢🚢🚢


fotos e vídeo: Leocádia Costa e Daniel Rodrigues

sábado, 21 de março de 2026

quinta-feira, 19 de março de 2026

Living Colour - Best of 40 Years Tour - Bar Opinião - Porto Alegre/RS (26/02/2026)


Lobão é um chato de galocha, que fala muita bobagem boca afora, mas que, convenhamos, às vezes tem bons lampejos. Em uma entrevista recente dele na qual falava sobre heavy metal, justificando porque não gosta de Iron Maiden, o velho roqueiro brasileiro argumentou que bandas como esta e várias outras nessa linha perderam, da metade dos anos 70 em diante, a veia negra do rock, presente em Deep Purple, Black Sabbath e Led Zeppelin, e passaram a investir numa injustificável (e branca) atmosfera nórdica. No alvo, sr. Lobão. Assistindo a Living Colour, a banda norte-americana formada integralmente por músicos negros há 40 anos, fica fácil entender onde o rock pesado desviou a rota. Verdadeiros herdeiros de Little Richard, Chuck Berry, Sister Rosetta Tharpe e Jimi Hendrix, mas também de James Brown, Sly Stone, Aretha Franklin, George Clinton, Chaka Khan, Death, Prince e Bad Brains, a LC, que fez um show arrasador em Porto Alegre na turnê que comemora suas quatro décadas, foi quem, no final dos anos 80, reivindicou a autoria negra e resgatou a verdadeira semente do rock das guitarras distorcidas.

Com um repertório muito bem montado, que inicia com sucessos, passa por momentos de surpresas, homenagens, sessões livres e termina com as "mais mais" e direito a bis, Corey Glover (vocais, e que vocais!), Vernon Reid (guitarra, gênio!), Doug Wimbish (tocando baixo como se não estivesse fazendo nada difícil) e Will Calhoun (bateria, certamente dos melhores do instrumento) não apenas executam os números: eles brincam de tocar. A construção harmônica e o arranjo das competições favorece a que eles, exímios instrumentistas, improvisem o tempo todo, transformando também as músicas constantemente.

A entrada dos quatro no palco foi triunfal ao som do tema do filme "O Império Contra-ataca", de John Williams, uma sacada bastante sarcástica vindo de um grupo que "contra-atacou" o "império" branco da indústria pop. A abertura, então, foi com "Leave it Alone", do disco “Stain”, de 1993. Prejudicados nos primeiros números em razão da qualidade do som, quando mal se ouvia a voz potente de Glover e a guitarra de Reid era um zunido só, eles fizeram na sequência "Middle Man" e uma magnífica versão, mesmo mal equalizada, de "Memories Can't Wait", da Talking Heads, gravada por eles, assim como a anterior, em "Vivid", de 1988. Até em reggae eles transformaram a música num trecho! Mas o que manda mesmo é a guitarra intensa e melodiosa de Reid, assim como ele faria em muitas outras a seguir.

Living Colour tocando Talking Heads:
nem o som ruim atrapalhou

"Ignorant is Bliss", em que parece que Mr. Dinamite sujou de guitarras pesadas seu groove, e o heavy-metal possante de "Go Away" vieram antes da ótima "Bi", suingada e com toda aquela atmosfera jazzística em cima de um rock vibrante. A altamente variante "Funny Vibe", cuja bateria de Calhoun é que dita o ritmo, indo do hardcore ao funk e ao jazz em poucos compassos, ainda é incrementada com "Fight The Power", dos seus ídolos Public Enemy.

A essas alturas, já com o som ajeitado na mesa de áudio, um dos momentos especiais do show: quando tocam "Hallelujah", de John Cale, só no vocal de Glover e a guitarra de Reid, fazendo suscitar os cânticos de louvor da tradição gospel que está na veia dos rapazes da LC. Lembrei muito de Mahalia Jackson emocionando a multidão quando cantava “Precious Lord, Take My Hand”, para se ter ideia da potência do que seu viu/ouviu no Opinião. Depois, colada, a clássica "Open Letter (to a Landlord)", ao mesmo tempo uma música de protesto e denúncia do racismo e uma oração. A cara da banda. Olha: isso é que é saber compor um setlist

Mas tinha mais! A pedrada "Pride", um de seus maiores sucessos, levantou ainda mais a galera, composta basicamente de fãs da banda e do Metal. E as improvisações, mesmo em músicas consagradas, impressionantemente nunca param de acontecer. Está no jeito de eles tocarem, de sentirem a própria música. Mas essa liberdade de inventar na hora não quer dizer faça com que o quarteto se perca ou que desvirtuem os próprios temas. Experientes, sabem quando "criar" mais e quando dar apenas "cores livres". Afinal, estamos falando de música preta, de descendentes do improviso do jazz e do blues. Dava para ouvir, em certos momentos, a influência direta do free jazz spiritual de John Coltrane, principalmente em se tratado de Reid. Verdade é que a LC é talvez a única power band em atividade, aquela classificação de grupo em que todos, sem exceção, são grandes músicos.

Pois até a "cozinha" brilhou. Calhoun fez todos ficarem embasbacados com seu solo de bateria e na conjugação com a música “Baianá”, do conjunto brasileiro Barbatuques. Empunhando aquelas baquetas junto com Calhoun, estavam, certamente, Elvin Jones com sua africanidade, John Bonham com sua intensidade, Steve Gadd com sua habilidade, Art Blakey com sua capacidade de criar ritmo. Pouco depois, foi a vez de Wimbish, chamando o público pra cantar e dançar, comandar o palco cantando um medley de três clássicos do hip-hop da Grandmaster Flash & The Furious Five, "White Lines", "Apache" e um dos maiores hits da era break, "The Massage". Demais!

Trecho de "Bi", um dos sucessos da LC

O final do show foi uma sequência de tirar o fôlego, começando com "Glamour Boys", cuja guitarra suingada do riff explode em distorção no refrão cantado pela plateia toda ("I ain't no glamour boy (I'm fierce!)/ I ain't no glamour boy (wow!)"); o blues matador "Love Rears It's Ugly Head", o maior sucesso da LC e cujo clipe gastou de tanto rodar na MTV no início dos anos 90; e a paulada "Type", outro clássico absoluto deles e do rock pesado de todos os tempos. Refrãozasso: "We are the children of concrete and steel/ This is the place where the truth is concealed/ This is the time when the lie is revealed/ Everything is possible, but nothing is real". E Reid, hein?! O que é Vernon Reid tocando?! Ele é por si um show. Definitivamente um dos deuses da guitarra. Contemporâneo de Steve Vai e Joe Satriani, de quem guarda semelhanças no jeito de tocar, Reid é um guitar hero em atividade e que exercita seu estilo não só em solos inventivos (e que não são cansativamente extensos como fazem a maioria dos virtuoses), mas também na maneira de compor. Tanto quanto seus companheiros, vê-lo ao vivo no palco é algo realmente memorável.

Mas, gente: ainda tinha mais, acreditem. O hardcore "Time's Up", que dá nome ao celebrado segundo disco da LC, de 1990, emendou-se com outra de "Vivid", "What's Your Favorite Color?". E, para "encerrar", nada mais nada menos que "Cult of Personality", seguramente um dos 10 maiores riffs do rock dos últimos 40 anos, que foi entoada por todo o pessoal em êxtase que lotava o Opinião. É muito heavy, mas também é muito jazz, principalmente por suas quebras de ritmo, variações de escala e andamento e, claro, a habilidade dos rapazes de improvisar. 

Digo "encerrar" assim, entre aspas, porque ainda rolou, como disse no início, bis. E foi primeiro com a calmaria da gostosa "Solace of You" - que em muito lembra a mistura de reggae e ritmos do Caribe de "Alagados", da Paralamas do Sucesso, de alguns anos antes - para, enfim, terminarem com outra de suas covers emblemáticas: a punk "Should I Stay or Should I Go", da The Clash.

Foram só pedradas, só clássicos, que fez lembrar a primeira apresentação da banda no Brasil, no Hollywood Rock de 1992, quando ainda muito jovens, e que não só assisti ao vivo pela TV na época como gravei em K7 e por anos meu irmão e eu escutamos aquele memorável show. Agora, mais maduros, Glover, Reid, Wimbish e Calhoun continuam a tocar o que talvez à época nem tenha me dado conta com tamanha clareza: a de que se trata do mais alto nível de rock que se possa imaginar. O rock melodioso, tocado com alma e, por que não, também barulhento. Um rock negro, tal qual foi criado, há quase 80 anos. Como diz aquela canção, "Lobão tem razão". Às vezes, tem.

🎸🎸🎸🎸🎸🎸🎸🎸🎸

Quarteto norte-americano no palco do Opinião


Reid, Glover com seus deads e Wimbish com Calhoun ao fundo 


A clássica "Pride" pra exaltar a galera


O grande sucesso "Love Rears it's Ugly Head", 
que pôs o Opinião para suingar


Músicos da mais alta qualidade em uma apresentação histórica


Momento emocionante - e pulsante - com "Open Letter
(to a Landlord)". Louvação e protesto


Quase terminando o show, "Cult of Personality", 
um dos maiores riffs já escritos


Clima de festa dos "metaleiros" com as mãos chifradas pra cima


Cover de The Clash para encerrar 
o show com punk rock



🎸🎸🎸🎸🎸🎸🎸🎸🎸
texto: Daniel Rodrigues
fotos e vídeos: Leocádia Costa e Daniel Rodrigues


quarta-feira, 18 de março de 2026

Música da Cabeça - Programa #451

Como se já não bastasse a guerra, agora um manda animação Lego pra cá, videogame pra lá... Sem brincar com coisa séria, o MDC solta seus mísseis também, mas só os musicais. Hoje, Johnny Rivers, Kraftwerk, Jorge Bem Jor, Nirvana e Chico Science miram seus alvos. No Cabeção, igualmente, uma explosão de talento com os 80 anos da deusa Liza Minelli. Divertida-mente cultural, o programa vai ao ar às 21h na "gamificada" Rádio Elétrica. Produção, apresentação e meme pela paz: Daniel Rodrigues


www.radioeletreica.com

quinta-feira, 12 de março de 2026

Clyblood #8 - "Pecadores", de Ryan Coogler (2025)


INDICADO A:
MELHOR FILME
DIREÇÃO
ATOR
ATRIZ COADJUVANTE
ATOR COADJUVANTE
ROTEIRO ORIGINAL
SELEÇÃO DE ELENCO
DIREÇÃO DE ARTE
FOTOGRAFIA
FIGURINO
MONTAGEM
MAQUIAGEM E CABELO
SOM
EFEITOS VISUAIS
TRILHA SONORA ORIGINAL
CANÇÃO ORIGINAL


O blues é a música do Diabo
por Cly Reis

As impressões que me passavam a respeito de "Pecadores" na época do lançamento eram simplistas, genéricas e um tanto depreciativas. Havia uma opinião corrente que se tratava de nada mais que um novo "Um Drink no Inferno" em outro contexto. Aí que fui para ele com a expectativa de assistir a mais um filme de vampiros qualquer sem maiores qualidades. Foi até bom esperá-lo desta maneira pois aos poucos foi, cada vez mais, revelando valor, qualidades, mostrando que, absolutamente, não se resumia a uma aventura banal, um terror barato com tema batido, uma imitação oportunista.

"Pecadores" é um filme sobre a identidade do negro, a alma do negro e a tentativa de intimidar suas manifestações e, não sendo possível isso, roubá-la.

No longa, dois gêmeos retornam à sua cidade depois de muito tempo, com a intenção de abrir uma casa de blues só para negros. Na noite de abertura, um pequeno grupo de brancos aparece no local e insistem em serem convidados a entrar na festa. Os três misteriosos brancos virão a se revelar, na verdade, vampiros que, não conseguindo entrar, tentam então contaminar outros negros de modo a atingir os demais lá dentro.

Uma metáfora sobre a apropriação da cultura negra, da interferência, da vigilância sobre os hábitos e tradições dos afrodescendentes na América. Algo como, "Se não pudermos fazer parte, tomamos para nós e ainda destruímos a imagem de vocês".

Muito mais do que apenas um filme de vampiro, muito mais do que meramente um filme sobre blues, "Pecadores" se utiliza da linguagem do horror para expor o verdadeiro terror de uma realidade de perseguições, violência, covardia e humilhação, mas muito hábil funde essa treva, esse mal, à beleza do blues, à riqueza da cultura negra criando uma obra única na filmografia recente do cinema.
A cena da festa, em que o jovem bluesman toca e evoca toda a cultura negra, ancestral e futura, para o salão é algo mágico e absolutamente emocionante. De arrepiar!!!

Grandes atuações, especialmente de Michael B. Jordan (que eu nem gosto muito) fazendo os gêmeos protagonistas, grande trilha sonora, ótima maquiagem, direção competentíssima! "Pecadores" justifica seu grande número de indicações ao Oscar pelo grande número de virtudes que tem em diversos âmbitos. Se vai ganhar em muitas é outra história, mas as nomeações por si só valorizam suas qualidades.

"Pecadores" é terror, é musica, é drama. É sangue, é pele, é ritmo. É vermelho, é negro, é blue! E se o blues é a música do diabo, como muitas lendas falam a respeito de pactos, maldições, almas perdidas, nada mais apropriado que essa tenha sido o tema dessa obra que já nasce como um novo clássico do terror, do cinema de vampiros e do cinema negro. Deixem tocar o blues!

O blues invocando espíritos do passado e do futuro.




🧛🧛🧛🧛🧛🧛🧛🧛🧛🧛


Sangue sem pecado
por Daniel Rodrigues


Ryan Coogler
, assim como outros cineastas negros norte-americanos da nova geração, como Steve McQueenJordan PeeleKasi Lemmons e Anthony Fuqua, são comprometidos com a causa negra. Todos sabem que, diante do nível que alcançaram dentro na indústria cinematográfica depois de décadas de apagamento da voz negra, não podem perder oportunidades de dizerem aquilo que ficou por tanto tempo silenciado. Em “Pecadores”, filme premiado de Coogler recordista em indicações ao Oscar na história, com 16 - batendo  "A Malvada" (1950), "Titanic' (1997) e "La La Land" (2016), todos com 14 -, essa máxima prevalece. E de uma forma bem original.

Com figurinos, atuações, direção de arte e, principalmente, uma trilha sonora acachapante, “Pecadores” traz a história dos irmãos gêmeos Smoke e Stack (ambos interpretados por Michael B. Jordan), que voltam à sua cidade natal com o objetivo de reconstruir a vida e apagar um passado conturbado. Endinheirados, eles querem montar um juke joint, casa noturna com música ao vivo para a comunidade negra. Porém, uma força maligna passa a persegui-los e busca tomar conta da cidade e de todos os cidadãos, obrigando-os a lutar para sobreviver e a lidar com lendas e mitos ameaçadores à suas existências. É a luta dos vampiros brancos contra os mocinhos pretos.

Celebrado por gente como Spike LeeChristopher Nolan e Tom Cruise, Coogler não só realiza um filme diferenciado como exercita sua já provada versatilidade, uma vez que é diretor de dois blockbusters dos tempos atuais, o revolucionário MCU “Pantera Negra” e a exitosa franquia “Creed”, spin-off de “Rocky”, dois projetos totalmente distintos, mas ambos construídos com muita habilidade por ele. Ao colocar a questão do preconceito racial no cerne de um thriller de terror, o cineasta reafirma o inteligente caminho aberto por Peele em “Corra!” e “Nós”, marcos do que se pode chamar de neo black horror, porém adicionando uma problemática há muito aventada, mas pouco discutida: a apropriação cultural.

O caminho é o que se conhece: a sociedade brancocêntrica primeiro nega a existência do negro, relegando-o ao “não-ser”, apaga sua história, descredibiliza sua produção intelectual e o oprime moral, material e fisicamente para, feito isso, roubar-lhe suas riquezas. Uma delas, e talvez a de maior evidência nesse histórico roubo simbólico, é a música. Em “Pecadores”, essa questão é o centro da disputa: por inveja dos caipiras brancos dessa cultura preta verdadeira e elevada, eles tornam-se vampiros. De sangue, literalmente, o mesmo que mentem ser desprovido de nobreza, mas que tanto se mordem (opa, no pescoço?!) por não tê-los correndo em suas veias.

Sangue não à toa tão valorizado. Uma das cenas de “Pecadores”, que vale o filme, mostra o personagem Sammie "Preacher Boy" Moore (Miles Caton) cantando e tocando um blues no bar e fazendo emergir do além diversas almas negras em camadas simbólicas e tempos que se misturam. Dos primórdios do blues, nascido das mentes e corações amargurados dos escravos, até os rappers da atualidade, passando pelo rock, o soul, o funk, o gospel e toda contribuição do negro dos Estados Unidos para a cultura pop. Simplesmente genial.

Antológica cena de "Pecadores" em que a magia da música negra faz o tempo se diluir

As resoluções para a trama sobrenatural que o filme vai ganhando, principalmente a partir de sua segunda metade, são boas, mas não empolgantes. O stinger, a cena pós-créditos, este sim (sem dar spoiler) é surpreendente, mas não suficiente para elevar um filme a uma classificação maior do que “bom”. Já Michael B. Jordan é um capítulo à parte. Ele passou a ser mais valorizado enquanto indicado como Melhor Ator ao Oscar depois do triste e revoltante episódio de racismo em plena cerimônia do Bafta, na Inglaterra, em fevereiro - onde, aliás, levou o prêmio. Embora agora com mais atenções para si, o astro não está tão bem quanto nos dois outros filmes que fez com Coogler, exatamente “Pantera...” e “Creed” – este último, no qual é protagonista. Agora, ele concorre com Wagner Moura e Timothée Chalamet, os dois fortes candidatos entre os indicados, mas pode ser que surja como uma terceira via por conta de um falso moralismo da Academia. Não será mal dado, mas menos justo e, se acontecer como prêmio de consolação por causa desse mal-estar, hipócrita.

Independentemente de qualquer coisa, Coogler faz história e, mais uma vez, acerta em sustentar o discurso antirracista ao qual é um importante porta-voz na indústria cultural. Ele sabe disso e mantém-se fiel ao compromisso de evidenciar as barbaridades promovidas pelo racismo na sociedade, mas também toda a riqueza da cultura afro-americana em suas infinitas frentes. Neste sentido, “Pecadores” cumpre muito bem sua proposição. Sem cometer nenhum pecado.

trailer de "Pecadores"





🧛🧛🧛🧛🧛🧛🧛🧛🧛🧛


"Pecadores" 
título original: "Sinners"
direção: Ryan Coogler
elenco: Michael B. Jordan, Delroy Lindo, Hailee Steinfeld
gênero: terror, ação, musical
duração: 138 min.
país: Estados Unidos
ano: 2025
onde assistir: HBO Max e Prime Video (pago)

quarta-feira, 11 de março de 2026

Música da Cabeça - Programa #450

Estamos na semana do Oscar na torcida pelo nosso O Agente Secreto. Mas o que se vê lá no final do tapete vermelho?! É... o MDC desta semana! Humm, isso pode ser um bom presságio! Assim como é rodar Tim Maia, Morcheeba, The The, Public Enemy e Les Étolies. No quadro especial, Um Sete-List, claro, a ver com os brasileiros no Oscar. Louquinho por mais uma estatueta, o programa vai ao ar às 21h na oscarizável Rádio Elétrica. Produção, apresentação e espumante já gelando: Daniel Rodrigues.


www.radioeletrica.com

segunda-feira, 9 de março de 2026

Santo Antônio de Lisboa e Sambaqui - Florianópolis/SC


Havia anos que queríamos conhecer Santo Antônio de Lisboa, bairro na região litorânea da ilha de Florianópolis, em Santa Catarina, e primeiro núcleo de colonização do Estado, criado no século XVIII. Em visita a Floripa, então, reservamos uma manhã para visitar este que é um dos mais charmosos, românticos, bonitos e antigos cantos da Baía Norte. Com suas construções em estilo açoriano e suas ruas estreitas, que desembocam nas calmas águas dessa pequena vila de pescadores, Santo Antônio de Lisboa parece manter em si as características da freguesia fundada por famílias portuguesas na outrora Nossa Senhora do Desterro em 1698. Isso porque a sensação que se tem é de quem o relógio ali conta mais devagar suas voltas de tão pacata e bucólica.

Mal se caminha pela rua que costeia a prainha e já se chega à praia ao lado, a igualmente agradável (e balneável, por sinal, diferente de Santo Antônio de Lisboa, cujo banho é prejudicado pela presença dos barcos pesqueiros) Sambaqui. Mas é em Santo Antônio mesmo que a magia se encontra, como na bonita igrejinha Nossa Senhora das Necessidades, de longínquos anos de 1750. Além da beleza natural do balneário e da rica e intensa vegetação dos morros à volta, tem ainda as fachadas das casinhas e as ruazinhas, dentre elas a histórica Roldão da Rocha Pires, a primeira com calçamento de toda Santa Catarina, feito para a visita de Dom Pedro II ao Estado, em 1845, cinco anos após sua coroação, na primeira visita oficial como Imperador.

Como se vê, muita história num lugarejo só, o que fica ainda mais evidente nos registros de fotos e vídeos que Leocádia e eu fizemos na passagem por esse encantador lugar.

🐟🐟🐟🐟🐟🐟🐟🐟🐟

Chegando na pequena e apaixonante
Santo Antônio de Lisboa


Os barcos pesqueiros e a beleza natural do lugar


A história primeira rua calçada de Florianópolis, ainda quando
se chamava Nossa Senhora do Desterro


Eu pisando o calçamento feito para Dom Pedro II pisar


Prainha linda num dia lindo


E o que dizer das belas casinhas em estilo açoriano?


Mais da arquitetura típica do bairro

A antiga igreja Nossa Senhora das Necessidades, uma atração à parte


Uma graça por dentro a igreja


Santo Antônio carregando o menino Jesus


Não entrei, só fotografei


Veni Sancte Spiritus inscrito no teto assim mesmo, espelhado


A esplendorosa vista de dentro da igreja para a praça com o mar ao fundo


Casal de turistas saindo da igreja


De volta à rua, hora de conhecer o ótimo espaço
de arte e artesanato Casa Açoriana

Uma visão geral da Casa Açoriana, com mais de 40 anos e muito bom gosto na seleção,
que tem desde originais de Volpi a J. Borges 


Parece uma foto do alto da vila, mas é só um artesanato


Seguindo nosso passeio pelas ruas de Santo Antônio de Lisboa


Mais casa, mas essa com a simplicidade bonita das de pescador


Pela beira do mar chegamos em poucos metros a Sambaqui


É ou não é altamente convidativa essa prainha de Sambaqui?


Voltando para Santo Antônio, essa vista do barco recolhido para o mar


Os barcos no horizonte e, lá do outro lado, o Centro de Florianópolis


Mais um pouco da beira da praia de Santo Antônio


As gaivotas se refestelando na areia


Nós dando um "até logo" à querida Santo Antônio de Lisboa


🐟🐟🐟🐟🐟🐟🐟🐟🐟