sábado, 22 de março de 2025
Capas de K7 II - "Gil & Jorge" ou "Xangô Ogum"
domingo, 16 de março de 2025
Capas de K7 - "Manual Prático Para Festas, Bailes e Afins Vol. 1"
quinta-feira, 6 de março de 2025
O Velho
sexta-feira, 28 de fevereiro de 2025
Capas de VHS Oscar - "Fargo" e "Missão Impossível"
quarta-feira, 26 de fevereiro de 2025
Capas de VHS Oscar - "Platoon" e "Salvador: O Martírio de um Povo"
quinta-feira, 20 de fevereiro de 2025
Quinteto Armorial - “Do Romance ao Galope Nordestino” (1974)
Doses Cavalares de Brasil
A história da arte no Brasil viu, em alguns momentos, a tentativa de se representar uma ideia de nação. Seja por motivos políticos, ideológicos ou simplesmente astuciosos, é fácil concluir que, para se chegar a uma identidade pretensamente simbólica de um povo, a produção artística é o melhor meio para se alcançar essa finalidade nacionalista. No século XIX, o Romantismo à brasileira buscava, num território recém emancipado da Coroa portuguesa, ressaltar as paisagens exóticas, a natureza, os povos primitivos e a miscigenação para suscitar o orgulho dos “novos” brasileiros. No Estado Novo, igual. Tanto o forte investimento na Rádio Nacional, impulsionadora de uma gama de célebres artistas, como no cinema, denotam o projeto de Estado de unificar em uma mensagem ufanista um espírito comum.
Afora a grande subjetividade de se materializar esse feito e da óbvia dificuldade de sintetizar em códigos simbólicos um país de dimensões continentais e em construção, é evidente que a estratégia não deu necessariamente certo em todas essas tentativas. A influência da Europa, seja como modelo, seja como contraposição, põe às claras a falta de elementos primitivos da cultura e da natureza de um país jovem historicamente como o Brasil – principalmente, em comparação à própria Europa, não à toa chamado de Velho Mundo. Residem nesse pensamento ocidentalizado as críticas a outro movimento que também tentou com suas ferramentas inventar uma arte puramente brasileira: o Movimento Armorial. Antes de “brasileira”, aliás, nordestina. Surgido em 1970 por iniciativa do escritor paraibano Ariano Suassuna quando atuou como Diretor do Departamento de Extensão Cultural da Universidade Federal de Pernambuco, essa vertente artístico-cultural, manifesta em literatura, música, dança, artes plásticas, arquitetura, cinema, etc., centrava-se na valorização das artes populares nordestinas e propunha como ideia central a criação de uma arte erudita a partir de elementos populares.
Há quem acuse o Movimento Armorial de ser, além de academicista, também elitista e cínico, pois, na prática, não se comunicava com o tal povo no qual tanto bebia, restringindo-se ao círculo de seus principais cabeças: Suassuna, o artista plástico Francisco Brennand, o gravurista Gilvan Samico e uma meia dúzia de afortunados homens das artes. O que é impossível criticar, no entanto, é a qualidade das obras produzidas, entre elas uma que completou 50 anos em 2024: o disco de estreia do Quinteto Armorial, “Do Romance ao Galope Nordestino”. Com uma obra que propõe um diálogo entre o cancioneiro folclórico medieval e as práticas criativas dos cantadores nordestinos e seus instrumentos musicais tradicionais, o Quinteto Armorial lançava, pelo selo Marcus Pereira, um trabalho revolucionário e inédito em forma e conceito, o qual mereceu Prêmio APCA como o Melhor Conjunto Instrumental de 1974.
Formado pelos então jovens músicos nordestinos Antônio José Madureira, Egildo Vieira do Nascimento, Antônio Nóbrega, Fernando Torres Barbosa e Edison Eulálio Cabral, o conjunto instrumental trazia um manancial de aparatos musicais condizente com sua proposta de síntese: rabeca, pífano, viola caipira, violão e zabumba perfilando-se com os eruditos violino, viola e flauta transversal. A junção do conceito armorial com a textura dos sons gerava uma sonoridade própria, a se ver por "Revoada", exemplo claro dessa junção de tempos históricos, culturas e apropriações. Sem percussão, traz o som metálico da viola caipira, que se harmoniza com as cordas – o violino clássico e a rabeca, retrazida da Idade Média para este novo contexto – e o sopro de pífaro e flauta. Uma forma bastante didática de começar o disco.
Como bem coloca Suassuna em seu texto de apresentação na contracapa do disco, há a influência ibérica por meio dos instrumentos de origem hindu ou árabe, tão marcantes no Nordeste. Se "Revoada" é ritmada e lírica em seus toques ásperos e arcaicos, “acerados como gumes de faca-de-ponta”, tanto mais é "Repente". Esta evoca o Nordeste somente em sons e sem precisar articular uma palavra ou verso a tradição poético-musical dos repentistas de improvisarem estrofes criando-os no exato momento da apresentação. Desde 2021, o repente é considerado patrimônio cultural do Brasil pelo Iphan.
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Típica obra do Movimento Armorial: "Pe. Cícero Romão (Tríptico)”, óleo sobre aglomerado de Gilvan Samico, do mesmo ano do disco |
Já Capiba tem semelhante destaque. O inventor de frevos clássicos da cultura de Pernambuco e protagonista do tradicional bloco carnavalesco Galo da Madrugada, também é lembrado por uma de suas principais peças: "Toada e Desafio", esta também da trilha de “O Auto...” – aliás, a música central do filme –, aqui lindamente executada pelo Quinteto Armorial. Mais um leque de conhecimentos empíricos trazidos à luz da música erudita: além do popular galope, agora merecem releituras a “toada”, cantiga de melodia simples e monótona entoada pelos vaqueiros nordestinos, e o “desafio”, duelo de versos improvisados surgido na Grécia antiga entre os pastores, reinventado na Idade Média e que veio parar no Brasil justo no Nordeste brasileiro, onde, como diz Luz Câmara Cascudo, “o combate assumiu asperidades homéricas”.
A força cultural nordestina dá ainda mais elementos a Madureira, que compõe a renascentista "Toada e Dobrado de Cavalhada", claramente dividida em duas partes: um lento introdutória e, na sequência, um allegro que acompanha o trote ligeiro da dança. Flautim e pífaro dialogando. Misto da música rural dos berberos marroquinos e os mouros dos séculos 12 e 13, ambos ligados pela religião. Vanguarda que surpreenderia até mesmo gente como a Penguin Cafe Orchestra, como a “desafinada” “Toré”, absolutamente moderna.
E quando idealizam uma Idade Média brasileira para além dos livros de História, como em "Romance da Bela Infanta"? Tema amoroso ibérico do séc. XVI recriado nas cores monocórdicas dos instrumentos rústicos. Mas Madureira faz ainda melhor quando resgata o romance do próprio Nordeste! "Romance de Minervina", canção provavelmente datada do séc. XIX, que recria uma atmosfera provençal ao modo dos trópicos. É possível enxergar uma procissão pelos campos mediterrâneos e, ao mesmo tempo, a tristeza árida do sertão. Igualmente medievas são "Excelência”, tema nordestino de canto fúnebre, e “Bendita”, cântico de Zacarias à maneira dos Salmos que os romeiros entoam pelo itinerário do enterro.
Antônio Nóbrega, dono de reconhecida carreira solo e o de maior proeminência entre todos os músicos do grupo, já a época não ficava para trás. É dele "Ponteio Acutilado", moda forjada na tradição dos violeiros. É praticamente 1 min de solo de viola caipira para, a partir de então, todos os outros instrumentos entrarem e se harmonizarem como se sempre tivessem pertencido ao mesmo território geográfico. A outra dele é "Rasga", dissonante e introspectiva na primeira metade, mas que se encerra (e ao disco) com um “rasga ponteio” festivo.
Os ouvidos populares hoje são familiarizados com a sonoridade que o Quinteto Armorial ajudou a sintetizar. Basta notar a naturalização desses sons em produções populares inspiradas na obra de Suassuna e seus séquitos, como as incontáveis produções audiovisuais da TV Globo que emulam esse universo folclórico e onírico. Mal comparando, como fizeram os alemães da Kraftwerk ao “inventarem” os sons de computador que conhecemos hoje, criando uma espécie de “sonoplastia digital” que se tornou universal. Para com a sonoridade nordestina e, até por uma questão de proporção territorial bastante brasileira, no caso, o Quinteto Armorial cumpriu mais do que um papel esteticamente formal, mas, sim, musical e antropológico.
O movimento ao qual o Quinteto Armorial muito bem representou não é um consenso entre as pessoas da cultura, mas é inegável a validade de sua proposta, reconhecida hoje nacionalmente, haja vista a rica exposição aos seus 50 anos, ocorrida em 2023, e também internacionalmente por artistas consagrados como o chinês Ai Weiwei. A ideia de valorização da cultura do Brasil que movimentos como este tentam suscitar de tempos em tempos, podem, mesmo com as controvérsias, serem vistas como potência. Uma potência policarpeana de tornar oficial a cultura ancestral. Como escreveu Lima Barreto em “O Triste Fim de Policarpo Quaresma”, personagem símbolo da luta por uma identidade brasileira: “O que o patriotismo o fez pensar foi num conhecimento inteiro do Brasil, levando-o a meditações sobre os seus recursos, para depois então apontar os remédios”. Se depender desse pessoal, nenhum brasileiro jamais adoeceria por causa de síndrome de vira-latas.
quarta-feira, 19 de fevereiro de 2025
segunda-feira, 17 de fevereiro de 2025
"Anora", de Sean Baker (2024)
O “O Brutalista”, filmão típico hollywoodiano, drama histórico, longo, filmado em Panavision, perdeu credibilidade desde a descoberta do uso de inteligência artificial em algumas cenas. Já “Emilia Perez”, queridinho do público e crítica, passou a sofrer uma campanha de difamação pela ausência de atores mexicanos em um filme que se passa no México e pela suposta superficialidade na abordagem da questão LGBTAPQN+. Esses dois aspectos se refletem direto noutra crítica: o desrespeito ao “lugar de fala”, uma vez que o diretor francês é um homem abordando uma questão trans e de um país que não é o seu.
Nessa briga entre favoritos, o cult “Anora”, belo drama com toques de comédia dirigido pelo jovem cineasta norte-americano Sean Baker, aparece como um novo possível vencedor. Palma de Ouro no Festival de Cannes de 2024, o filme conta a história da jovem Anora (Mikey Madison), uma trabalhadora do sexo da região do Brooklyn, nos Estados Unidos, que descobre, numa noite de trabalho aparentemente normal, que pode ter surgido a oportunidade de mudar seu destino quando conhece e se casa impulsivamente com o filho de um oligarca russo, Ivan (Mark Eidelshtein). Em pouco tempo a notícia chega à Rússia e o conto de fadas termina quando os pais de Ivan entram em cena, desaprovando totalmente o casamento.
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O ótimo Yura Borisov no papel de Ygor com a inocente Ani |
Mesmo com sua pegada de humor às vezes um pouco a mais do que precisava, “Anora” é profundo e bastante revelador da natureza humana em suas relações de poder, a qual envolve aquilo que move o mundo capitalista: sexo e dinheiro. Não há lugar para meninas sonhadoras e despreparadas como Anora, e isso fica muito claro na forma como é construída a personagem de Mikey, uma pessoa à mercê do sistema opressor em suas diversas esferas, seja econômico-social, seja pela misoginia ou pelo machismo imperantes. Perto de “Emilia Perez”, inconsistente na construção de seus personagens (entre outras fraquezas que apresenta), “Anora” é uma aula de como abordar sentimentos humanos em uma narrativa de um filme para grande público.
Enquanto outros enfraquecem em sua caminhada para o Oscar, “Anora”, recentemente vencedor dos prêmios de filme no Writers Guild Awards e Producers Guild of America, se robustece. “Emilia Perez” ganhou o Bafta a poucos dias, mas na categoria de Filme em idioma não-inglês, desbancando “Ainda Estou Aqui”, inclusive. Porém, esse reconhecimento tem muito mais a ver com a disputa entre estes dois no Oscar pelo Filme Internacional. Em Filme, “Anora” pode, sim, surpreender. E convenhamos: nunca duvidem de um Palma de Ouro. O exemplo de “Parasita” está aí para provar que isso é possível.
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sábado, 8 de fevereiro de 2025
Exposição "Baixa Colateral Distópica”, de Rondinelli Linhares - Centro Municipal de Cultura Dr. Henrique Ordovás Filho - Caxias do Sul/RS (29/01/2025)
Numa rápida viagem a Caxias do Sul por conta de uma atividade da Accirs, pude conferir uma exposição da qual já havia ouvido falar - e bota ouvir falar nisso! Trata-se da exposição "Baixa Colateral Distópica”, do artista visual goiano Rondinelli Linhares, que esteve em exibição no belo prédio histórico do Centro Municipal de Cultura Dr. Henrique Ordovás até o último dia 2.
Até aí, tudo normal. Só que a tal exposição foi motivo de uma enorme polêmica em razão de seu conteúdo, digamos, contestatório. E numa cidade conservadora, direitista (tendendo à linha da extrema) e bolsonarista em sua maioria, contestação é sinônimo de ameaça. O que comunidade e vereadores fizeram? Tentaram censurar a exposição sob o descabido pretexto de que suas mensagens não estavam de acordo com a moral da sociedade caxiense, principalmente às crianças.
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O belo prédio do Centro Municipal de Cultura de Caxias |
Mas a queda de braço liberdade X fascismo foi vencida, ao menos desta vez, pela primeira. Mais uma batalha na guerra contra a intolerância, e como já acontecerá noutras vezes - como na polêmica exposição Queermuseu, em Porto Alegre, em 2017 -, envolvendo a arte.
O principal, que é a liberdade de expressão e de apreciação do trabalho em si, foi preservada. Embora rápida e dividindo a atenção com minha outra atividade, deu para dar aquela conferida na tão falada "Baixa Colateral Distópica”. Interessante, mas, mais que isso, o suficiente para "desafinar o coro dos contentes", como diz a velha canção combativa.
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"Veadinhos" se unem a símbolos católicos e do candomblé |
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Série de fotos altamente provocaticas e evocativas |
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Detalhes da série: vários símbolos dialogando e convidando o visitante à reflexão |
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Uma das imagens: reza com terço e guias |
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O veado novamente, aqui acorrentando pelo dogma católico do crucifixo |
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Público conferindo os últimos dias da polêmica exposição |
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De TikTok à pornografia: as religiões dos tempos atuais |
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Mais uma das obras de Rondinelli expostas |
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Lembram da tal "mamadeira de piroca" que a extrema-direita espalhou fake news Brasil afora? Rondinelli lembrou e transformou numa das peças mais interessantes da mostra |
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Dá pra entender porque os seguidores do "mito" se incomodaram com "Baixa Colateral Distópica”... |
quarta-feira, 5 de fevereiro de 2025
quarta-feira, 29 de janeiro de 2025
Música da Cabeça - Programa #396
Será que a estatueta dourada vem desta vez, Fernandinha? O que a gente tem certeza é que o MDC, este sim, está reluzindo como ouro. Tem Ryuichi Sakamoto, Iggy Pop, Television, Erasmo Carlos e um Cabeção celebrando os 80 anos de Robert Wyatt. É ou não é ouro em pó?! Totalmente indicado, o programa é anunciado às 21h na oscarizável Rádio Elétrica. Produção, apresentação e clima de Copa do Mundo: Daniel Rodrigues
www.radioeletrica.com
quinta-feira, 23 de janeiro de 2025
A Arte do Clyblog em 2024
Demorou um pouquinho mas saiu aquela tradicional retrospectiva da arte do Clyblog do ano que passou.
Além da nossa produção pessoal, Cly Reis e Daniel Rodrigues, em diversos formatos, do lápis ao vídeo, trazemos também as artes produzidas para os anúncios do blog nas mídias sociais, as variações do logo da casa muitas vezes se adaptando a eventos importantes que ocorrem ao longo do ano, e ainda ilustrações da seção Cotidianas, para contos, crônicas ou poemas.
Vamos então dar aquela rememorada no que tivemos de arte e trabalhos visuais por aqui no último ano:![]() |
Do vídeo para o lápis em folha de caderno: "O Homem Pautado" |
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Fan-art homenageando o projeto "Clube da Esquina", de Milton Nascimento e Lô Borges, cruzando com o filme "Clube da Luta". O Clube da Luta na Esquina ou o Clube dos Lutadores da Esquina... |
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Nas comemorações pelos 80 anos de Chico Buarque, uma ilustração digital, ao estilo cartaz de cinema, em alusão à sua canção "Passaredo", e com referência ao filme "Os Pássaros" de Alfred Hitchcock |
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Na seção Cotidianas, ilustração para o conto popular "Quem cai na dança não se 'alembra' de mais nada" |
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Também nas Cotidianas, ilustração para o conto "Todo Errado" |
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Ainda pelos 80 anos de Chico Buarque, criamos um logo comemorativo que se uniu aos logos das seções nas publicações relacionadas a ele. |
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2024 foi ano de Olimpíadas e os logos das seções do ClyBlog também se adaptaram para os posts especiais que rolaram durante o período dos Jogos. |
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Também para no período das Olimpíadas de Paris, destacamos uma série de músicas cantadas em francês compostas por autores não-franceses e para este post também demos uma cara. |
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Manonna esteve no Brasil em maio e abraçou o Clyblog! Tivemos diversos destaques da Rainha por aqui. |
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O logo do Clyblog como sempre se transformou muitas vezes durante o ano: virou uma pista de dança com Madonna, explodiu com Oppenheimer e foi para os terraços da cidade para bilhar lá de cima. |