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quinta-feira, 18 de outubro de 2018

cotidianas #595 - Olhe as Estrelas



"A Noite Estrelada", Vn Gogh, Vincent
- Olhe as estrelas. Sabe uma coisa que eu adoro pensar sobre elas? Que elas já estão mortas. Digo… - Não. Não é assim que eu quero falar. Não é desse jeito. Deixa-me recomeçar. Não é que eu ache bonito o fato delas provavelmente já terem explodido em bolas de luz frias e sem vida. É só que, pela distância, muitas delas provavelmente já morreram. Mas o que elas deixaram para trás ainda continua lindo e belo e ainda brilha. Espera. Preciso analisar a situação. Preciso ter certeza se de algum jeito misterioso ele está entendendo o que eu estou falando. Mesmo que talvez ele não esteja escutando.
- Se lembra de quando nos conhecemos? Era um dia sem estrelas, é verdade. Não vou fantasiar aqui e dizer que era o céu mais estrelado e bonito do mundo. Não era. Era um céu preto pálido e feio. Daqueles dias pálidos e feios que ficam entre as fotografias. Que ficam entre as datas especiais. Aqueles dias de cumprir tabela. Daqueles em que eu chegava em casa cansado e você já estava dormindo e, a não ser pelo calor do seu abraço ao deitar na cama, teria sido um dia sem significado. Era um desses dias para mim quando nos conhecemos. Um dia qualquer da minha vida. E confesso que não achei que fosse você ser o amor da minha existência quando te vi, tomando café sozinho.
Será que estou sendo confuso? Penso no que você diria se você de fato pudesse ouvir tudo o que eu estou falando. Talvez mandasse parar de breguice, me mandasse lavar a louça ou dissesse com aquele tom manhoso “vem me dar um cheiro que eu estou com saudades”. Você sempre foi assim, prático e carinhoso, um beijo e um tapa, fogo e água, calor e frio contrastando e me levando para maior aventura que eu senti: ser teu namorado. Tá certo. Vou recomeçar de maneira mais racional, para você entender bem.
- Estamos com saudades um do outro, agora. Não podemos ouvir o tom de voz, sentir calor da pele, a respiração no cangote, o olho no olho, o sexo gostoso e repentino, o beijo cheio de amor, de saliva, de mordida, de língua, de pegada, de você em mim e de mim em você. Isso tudo é um fato, meu amor. Nunca mais sentiremos isso. Mas tem a saudade e é dela que eu quero falar.  Porque é ela, mesmo depois dessa morte estúpida, que vai nos manter unidos. Porque é através da saudade que vamos reviver nossos melhores momentos. Se conseguirmos ainda sentir alguma coisa, vai ser através dela. Raiva pela falta. Amor pelos bons momentos. Raiva pela morte que nos atravessou feito lâmina enferrujada. Amor pelo o que construímos um no outro, coisas que vão ficar para sempre. Porque comecei a falar de saudades para ele? Eu disse que ia ser racional e fiquei me perdendo em devaneios bobos e românticos, como sempre. Ah, lembrei o porquê.
- Falei da saudade porque saudade é mais ou menos como o espaço sideral, como as estrelas que já morreram, como a luz que ainda recebemos sem saber direito de onde vem. Você não sabe o que vai acontecer comigo. Eu não sei para onde você vai. Só sei que independente de onde você vá, quero que atinja sua missão. Não pense que o que vivemos foi em vão. Porque eu modifiquei você e você me modificou. Porque o que você me modificou, modificou você também e isso é um fluxo que não tem fim. Estamos eternamente ligados, apesar daquele acidente estúpido. Será que devo, nessa despedida, falar do acidente? Não foi culpa de ninguém. Pelo menos não foi culpa de nenhum de nós dois. O motorista bêbado não sabia que terminaria com nossa história. Não. Não. Não. Não vou falar do acidente com você. Vou falar de outras coisas nesta despedida.
- A morte não apagou nossos cafés da manhã, quando você acordava mais cedo só para preparar a mesa para mim. Uma mesa toda organizada, com uma faca para cada bolo, o açúcar destampado, a xícara soltando fumaça quente do melhor café do mundo, que era o seu. A cadela brincando nas nossas pernas, querendo atenção, tentando subir na mesa, enquanto ríamos e falávamos que ela precisava de autoridade e que você não tinha nenhuma. E você, com aqueles olhos pidões, que abraçam o mundo e me esquentavam, concordava que aplicar autoridade seria comigo... A morte não vai apagar os passeios de mãos dadas sob o sol, o calor da sua mão pegando na minha, os olhares que enfrentávamos por sermos duas pessoas do mesmo sexo andando pela rua de mãos juntas. A morte não apaga as caminhadas em que, num momento em específico, você roçava o seu pescoço no meu, e me dava um beijo estalado que me arrepiada todo. A morte não vai apagar os banhos juntos, a pele na pele, a boca no corpo, o corpo no corpo, o quente da água escorrendo junto ao quente dos nossos corpos, eu te empurrando contra a parede fria, querendo entrar em você, na sua boca, na sua alma, querendo me fundir.
Você está triste? Eu sei que você está, mas será que devo parar de falar essas coisas que você não está ouvindo? Ou talvez esteja, sei lá. Mas é que tristeza faz parte do próximo passo. Aceitá-la vai nos ajudar a seguir em frente. - Tava pensando aqui... Eu não quero que essa nossa despedida seja triste. Ao mesmo tempo em que reconheço que a tristeza faz parte da felicidade, né? Triste é sentir falta e só sentimos falta daquilo que nos faz feliz. Não quero vir aqui e dizer que tudo que passamos foi perfeito. Não foi. Seus choros e gritos vão ecoar para sempre na minha mente. Nossas brigas, nossos ataques deixaram marcas no que nós fomos. Porque quem ama sabe exatamente onde machucar. Quando amamos somos um amontoado de cicatrizes sob cicatrizes cobertas de beijinhos e cuidados. Quando eu descobri que você me traiu, aquela mensagem no celular quebrou meu espírito. Te imaginar com outro cara, tocando seu corpo, te dando carinho, te oferecendo abrigo num peitoral que você não deveria conhecer. O que me incomodou na traição não foi a traição. Agora que nada mais disso importa, posso falar. O que me incomodou foi o pacto quebrado. Não foi a falta de amor, porque eu sei que amor sempre existiu. Foi a falta de algo mais que até agora não sei o que é. E, não é daqui desse cemitério, que terei minha resposta.
Droga. Preciso me despedir. Preciso ir embora. Preciso deixar você virar lembrança, saudade, virar passado. Preciso e não quero. Vou falar. Só quero dizer uma última coisa antes de partir. Você me trouxe sentimentos em vida que continuarão ecoando como a luz das estrelas que já morreram. Do mesmo modo espero que minha lembrança se torne para ti algo possível de ser vivenciada, sem dor, sem machucados. Mesmo estando aqui, neste cemitério, enterrado e morto, pronto para partir, quero que você lembre como meu amor vai brilhar mesmo depois dessa minha morte. Te amo. Tenha uma vida linda e encontre a felicidade que você uma vez encontrou comigo.



Luan Nscimento