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Quando eu pensava que não teria publicação nenhuma na edição deste ano da Feira do Livro de Porto Alegre, o que tem ocorrido comigo com certa regularidade, dois projetos me puseram dentro do evento. Um deles, que não poderei estar no lançamento por conta de outro compromisso, é o aqui já mencionado "1986: O Ano Que o Rock Nacional Acertou", antologia cuja sessão de autógrafos ocorre dia 4/11, às 19h, na Praça dos Autógrafos.
O outro, e este estarei presente não para os autógrafos dia 13/11 de novo em razão de compromisso, mas para o debate, dia 15/11, às 17h, é "100 Filmes Brasileiros Essenciais", a nova publicação da Associação Brasileira de Críticos de Cinema (Abraccine) pela editora Literíssima. O livro reúne 114 autores para atualizar a obra lançada em 2016 pela entidade, analisando o cinema nacional sob novas perspectivas e territórios, resultando em uma lista mais plural e representativa da diversidade audiovisual brasileira.
A convite do colega de Jornalismo e Accirs Danilo Fantinel, um dos organizadores do livro junto com a também colega Ivonete Pinto e o crítico de cinema Paulo Henrique Silva, integro este time de autores falando sobre o belíssimo filme “A Hora e a Vez de Augusto Matraga”, de Roberto Santos, de 1966, baseado na clássica novela de Guimarães Rosa.
Há ainda comigo gente do gabarito de Marcelo Ikeda, Enéas de Souza, Fatimarlei Lunardelli, Letícia Alassë, Mônica Kanitz, Juliana Gusman, Roger Lerina e outros. Uma coisa é certa: a se ver pelos autores, vem coisa muito boa aí.
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lançamento e debate do livro "100 Filmes Brasileiros Essenciais"
da Associação Brasileira de Críticos de Cinema (Abraccine)
Todo produto da ação humana tem prazo de validade, é histórico e desaparecerá um dia, assim como a própria humanidade. Só que alguns produtos têm duração maior que outros porque desvelam de modo definitivo os vícios e as ocasionais reações morais a eles comuns a toda experiência humana. "O Terceiro Homem", filme de Carol Reed com roteiro de Graham Greene (autor do livro), foi lançado em 1949, quando o final da Segunda Guerra Mundial ainda estava exposto por ruínas de cidades bombardeadas e por populações doentes, feridas.
O horror da guerra não acaba com a guerra. Harry Lime (Orson Welles, inesquecível) é o estadunidense responsável pela distribuição de penicilina adulterada na Viena do pós-guerra e o crime, cometido por dinheiro, faz um enorme número de vítimas, entre elas crianças. O "duplo" de Harry Lime é Holly Martins (Joseph Cotten, igualmente inesquecível), um amigo de infância do criminoso. Martins é escritor de livros de faroeste pulp que vai a Áustria por conta da promessa de emprego feita por Lime. Ao chegar na cidade, encontra um cenário de devastação material e humana e descobre os crimes hediondos do velho amigo.
Mais do que uma história policial ou um conto moral, "O Terceiro Homem" é um retrato da ocupação de uma cidade por forças estrangeiras. Os Estados Unidos, representados no filme por Lime e Martins, são responsáveis tanto pelo horror quanto pela punição aos que o realizam. A solução estadunidense é típica de faroestes baratos.
É um filme magnífico sobre os aspectos mais sombrios da nossa experiência, cuja força é redobrada pelo fato de ter sido feito logo depois da guerra. Mais do que tudo, é uma sucessão de imagens impactantes, lindamente fotografadas em preto e branco. A música de Anton Karas é antológica. Revi o filme agora há pouco. Continua revelador e comovente como sempre. Se eu decidir revê-lo em 10 anos, assim ele permanecerá. Dizer que é item cultural de primeira necessidade é pouco.
A nova versão de "A Hora do Pesadelo", de 2010 ganha fácil fácil da original de 1984 e indubitavelmente lhe toma o posto de grande clássico do cinema de horror.
Aí cai da cama e acorda e percebe que era apenas um sonho.
Só em sonho mesmo!
(E no mundo dos sonhos, sabemos que quem manda é ele. Freddy!!!)
Pra tentar superar um clássico do tamanho de "A Hora do Pesadelo" de Wes Craven, tem que vir muito preparado e, em se tratando de um filme que marcou gerações e redefiniu padrões do terror, a tarefa é praticamente inglória.
"A Hora do Pesadelo" de 1984 apresentava um personagem assustador e praticamente incontrolável dentro de seus domínios, o subconsciente de quem estivesse dormindo. No mundo dos sonhos, Freddy Krugger, um misterioso homem com o rosto todo queimado e usando uma luva com lâminas em cada dedo, manipulava tempo, espaço, física, sentidos, tal como aqueles sonhos em que ora estamos em um lugar, ora em outro, sem a menor lógica.
Suas vítimas eram jovens de uma pequena cidadezinhna americana cujos pais revelam, ao longo do filme, terem ligação com um antigo ajuste de contas com um maníaco local que matava crianças naquela localidade. Mas por mais incrível que pudesse parecer, o psicopata queimado vivo pelos pais das crianças, agora retornava no sonho de seus filhos já adolescentes para se vingar.
Argumento incrível, repleto de possibilidades, alternativas e todo um surrealismo que a subconsciência do sonho permite, com mínima chance de escapatória para as vítimas. Afinal de contas, quem não dorme, quem não sonha?
A refilmagem tem praticamente mesma tônica, mas erra na estratégia de jogo ao dar uma ênfase muito grande, quase fundamental à situação envolvendo as crianças do bairro, acrescentando às mortes, o fato de que o criminoso abusava das crianças antes dos assassinatos, coisa que no outro era, talvez..., levemente sugerido. Fica quase um drama investigativo com elementos de terror, enquanto o antigo, pelo contrário, é um autêntico terror com um ingrediente dramático.
Esse novo tem bons atores, bom acabamento, mas era de se imaginar que com mais recursos, tecnologia mais avançada, conseguisse produzir algo mais significativo.
Não!
Tem denúncia, reflexão, dramaticidade, mas o terror mesmo, é apoiado na mera repetição das cenas clássicas indispensáveis do primeiro, como a da banheira, a da parede elástica atrás da cama, ou a da garota no corredor da escola, sempre levemente diferentes (só para não ficar uma cópia descarada).
E com Freddy teria como fazer alguma coisa de diferente, de original, de mais impressionante? A nova versão até deu um enfoque mais sério, reduziu um pouco as piadinhas de humor ácido do vilão original, mas basicamente tratou de replicá-lo, até porque trata-se de personagem tão consolidado que não tem como inventar muita coisa.
A propósito, por mais que Jackie Earl Haley tenha sido uma boa escolha para o remake, não tem como se falar em Freddy Krugger e não pensar em Robert Englund, um daqueles atores que chegam a se confundir com o personagem. Earl Haley não desagrada, faz um Freddy mais sério, cruel, mas no fim das contas não conquista.
Rooney Mara por sua vez, também é muito boa, a rigor é melhor atriz que Heather Langerkamp, mas parece que a atriz do primeiro filme e de algumas das sequências nasceu para aquele papel, tanto que o próprio diretor se aproveita dessa identidade, dela e de Robert Englund, em seu retorno à franquia de 2006, o interessante "O Novo Pesadelo de Wes Craven".
Mas, afinal, quem é melhor?
Bem, é lá dentro do campo é que a coisa se decide, não? Então vamos ao que interessa.
"A Hora do Pesadelo" (1984) vs. "A Hora do Pesadelo" (2010)
Os dois times entram em campo no estádio da Rua Elm com seus uniformes tradicionais, listras horizontais em verde e vermelho, igual ao tradicional uniforme da Portuguesa de Desportos e cheerleaders cantam a Cantiga de Ninar clássica de Freddy Krugger à beira do campo. "Um, dois: Freddy vem te pegar/ Três, quatro: É melhor trancar a porta/ Cinco, seis: Agarre seu crucifixo/ Sete, oito: Fique acordado/ Nove, dez: Você nunca mais vai dormir!".
O jogo começa e o Pesadelo de 1984 não dá a menor chance para Pesadelo 2010!
1x0 pelo argumento mais objetivo e mais enxuto. Menos enrolação, menos elementos externos e mias susto, pavor, arrepio.
2x0 pelas cenas clássicas, em especial para a morte do namoradinho, o então novato Johnny Deep sugado para dentro da cama com seu sangue jorrando contra a gravidade para o teto. Mas tem a da amiga, Tina, lutando e sendo jogada contra as paredes por um perseguidor invisível, a da língua no telefone, a arrepiante cena em que Freddy surge com braços longos num beco, tudo com brilhantes e criativos efeitos práticos.
Ainda hoje, uma das cenas mais impressionantes dos filme de horror.
A dupla Heather/Englund é um pesadelo para a zaga adversária. Entrosamento perfeito sempre que estão em cena. Primeiro é a vez dela. Freddy dá aquela fatiada e Nancy queima da entrada da área. Joga a luva, goleirão! É 3x0.
Depois é a vez do matador: a defesa dorme, ela o deixa no mano a mano, Freddy corta pra dentro, corta pra fora, e não perdoa. A torcida canta, "O Freddy vem te pegar, o Freddy vem te pegar!!!". 4x0. Parece um pesadelo!
O time de 2010 faz o golzinho de honra por conta de toda a parte que envolve a investigação da nova Nancy a respeito do local para onde Freddy levava as crianças e a descoberta do quartinho no porão da pré-escola onde ele cometia os abusos. Cena que nem é tão chocante pelo horror sobrenatural e sim pelo horror humano. Mas valeu. Gol do remake: 4x1.
Quando parecia que o pesadelo tinha acabado, na cena final quando parecia que mais nada ia acontecer, numa cena típica de desenho animado, linguagem que Wes Craven soube utilizar muito melhor que seu desafiante em se tratando de possibilidades de sonho, a garra de Freddy puxa a mãe de Nancy por uma portinhola minúscula na entrada da casa, enquanto num Cadillac conversível coberto por uma capota nas cores do suéter do assassino, Nancy e os amigos entram em pânico, e ele segue em frente passando por crianças que pulam corda entoando a sinistra cantiga de Freddy: "Um, dois: Freddy vem te pegar/ Três, quatro: É melhor trancar a porta/ Cinco, seis...".
Dizem as más línguas que, na manhã seguinte ao confronto, quando a esposa do diretor Samuel Bayer foi acordá-lo e chamou, "Acorda, meu bem, já são 6", ele teria despertado suando e perguntado, "O que? Outro gol deles???
Não, calma... Ficou SÓ em cinco mesmo. 5x1 para HP'84.
Aqui, lado a lado, algumas das cenas clássicas, repetidas no filme de 2010. (Original à esquerda, refilmagem à direita) Primeiro a cena da banheira, mera cópia na nova versão; na segunda linha a garota no corredor da escola, aterrorizante no antigo e inóqua no novo; depois, Freddy surgindo da parede atrás de Nancy. Efeito prático inteligente no primeiro e efeito patético besta no outro; e por último o anti-herói mais adorado do cinema de terror. A criatividade de uma maquiagem original no clássico, e um rosto sem expressão retocado por CGI no remake.
Parece um contrassenso, mas fui tenso assistir "Muito Prazer", o novo longa de Jorge Furtado. Não por repelir prazer, não entendam mal. Mas, sim, por, no fundo, desejar não me decepcionar com Furtado. Cabeça genial do cinema gaúcho e nacional, criador de algumas das obras-primas do nosso cinema dos últimos 40 anos como “Ilha das Flores” e “O Homem que Copiava”, o cineasta e roteirista vinha apresentando, infelizmente, um considerável declínio em suas últimas realizações. Não que realizadores de longa data sejam impedidos de altos e baixos, até porque manter o mesmo nível por muito tempo é improvável. Mas, infalivelmente, espera-se que se mantenha a consideração por quem se admira.
Ocorre que, no entanto, a amostra recente de Furtado, tanto em cinema quanto em TV, vinha sendo errática e longe de seus melhores momentos. O por vezes monótono “Virgínia & Adelaide” (2023), codirigido por ele e Yasmin Thayná, o roteiro de “Grande Sertão” (2024), desastroso filme de Guel Arraes, ou o desengraçado humorístico televisivo “Tô Nessa” (2025), com Regina Casé, formam um conjunto de trabalhos que não condiziam com aquele criador sagaz de “Comédia da Vida Privada”, dos roteiros de “Lisbela e o Prisioneiro”, de comédias deliciosas e inteligentes como “Saneamento Básico - O Filme” ou “Meu Tio Matou um Cara”, para ficar nas comédias a título de comparação com “Muito Prazer”. Parecia que aquela veia criativa e inteligente havia esmorecido, tornado-se pouco eficiente, que as marcas de seu cinema se transformaram em clichês. Que o Furtado de antes, sabe-se lá o motivo, havia ido embora.
Mas a grandes artistas sempre se deve dar novas chances. Será que “Muito Prazer” traria o que seu título prometia? Filme iniciado e eis o primeiro diálogo entre os personagens de Daniel de Oliveira (Rubem) e de Luiza Arraes (Grace): fraco. Muito fraco. Sem conexão dos tempos de fala dos atores, soluções semânticas forçadas, encenação superficial... Ih! Deu a impressão de se estar assistindo a um daqueles especiais de comédia da Casa de Cinema de Porto Alegre para a Globo, só que sem brilho. Aquele receio antes de entrar no cinema, então, reapareceu: será que se confirmaram minhas tristes suspeitas sobre Furtado?
Mas a deusa Hedonê olharia por mim e não me deixaria sair frustrado. Logo o filme engrenou: os diálogos passaram a funcionar, as atuações ganharam densidade e o roteiro começou a fluir. Na história, Rubem, após descobrir que herdou de seu tio um motel desativado, encontra no local Grace, uma ex-funcionária que vive lá clandestinamente. Determinados a reabrir o motel, eles, juntamente com a amiga Nalva (Samantha Jones), confabulam um plano inusitado: vender na internet vídeos feitos por câmeras escondidas nos quartos dos clientes. Ao serem descobertos, eles têm agora que provar que os vídeos são falsos.
O intrépido trio Rubem, Grace e Nalva: pornografia sem apelação
É muito interessante como Furtado consegue construir um filme sobre pornografia sem ser superficial e não recair nem para a explicitação, de um lado, e nem para o pudico, de outro. Num mundo hedonista em que sexo e dinheiro continuam dando as cartas, é bastante auspicioso uma obra que trate sobre estes dois temas de uma maneira saudável.
Igualmente, há elementos bem próprios do cinema de Furtado, os quais ajudam nessa abordagem. A edição ágil, as falas combinadas e a exploração do cenário como configurador do espaço-tempo são algumas delas. A principal, no entanto, é a ludicidade típica do cinema do cineasta gaúcho. É este espaço do lúdico que sustenta, inclusive, outra característica sua, que é a incidência da metalinguagem. Como em “Real Beleza”, que traz o tema da subjetividade da formação da imagem, mas, principalmente, em “Saneamento Básico”, há presente a figura do cineasta. Se em “Saneamento” era Zico, personagem de Lázaro Ramos, quem representava a figura de gente como Furtado, em “Muito Prazer” o alter-ego desse alguém amador que brinca de fazer cinema realiza-se na nerd Nalva.
A trama, com suas idas e vindas, com o escalonamento das mirabolantes ideias “comerciais” do trio, é em muitos momentos hilária e traz aquela sensação a que tanto eu e muitos espectadores estão acostumados: a de como é confortante ver um filme de Jorge Furtado. A quem tive a felicidade de reencontrar. Não é, necessariamente, um de seus melhores trabalhos, mas foi como se eu pudesse, novamente, tal como faço mentalmente há cerca de quatro décadas, estender-lhe a mão em parabéns e cumprimento: “Muito prazer, Jorge Furtado. Que bom reencontrá-lo”.
Tá, olha só..., não vou te enganar não: "A Médium" é um dos filmes mais aterrorizantes, assustadores, chocantes, sinistros, impressionantes que o cinema de horror já produziu nos últimos tempos. Tem possessão, bruxaria, exorcismo, maldição, gore, violência gráfica, sexo, crueldade com criança, com animal, e mais o que você quiser. A produção tailandesa usa o formato do falso-documentário para mostrar uma equipe de filmagem que acompanha Nim, uma médium numa região rural da Tailândia, de modo a relatar suas vivências espirituais, suas rotinas, seus dons e responsabilidades religiosas diante de sua comunidade. Até aí tudo bem, beleza, o dia a dia, rezas, rituais, oferendas e tal. O que acontece é que o comportamento da sobrinha Mink começa a chamar mais atenção do que o da xamã da aldeia que era o assunto original do documentário. Nim, a tia, com sua experiência e conhecimento das coisas místicas, percebe que a sobrinha está sob ação de uma entidade. Em princípio faz os procedimentos padrão para expulsar o espírito, mas logo percebe que o que habita a garota é algo mais forte e poderoso do que imaginava. Buscando respostas, descobre que a possessão se dera pelo fato de que a irmã renegara sua herança espiritual e não assumira seu papel de xamã quando jovem, na época em que devia assumir sua atribuição. A entidade poderosa, então, se vingava agora tomando sua filha. E, cara, depois que a guria fica possuída... ela vira o catiço! A equipe de documentário passa então a dedicar todas as atenções para ela, todos os rituais, procedimentos, tentativas, de tirar aquela coisa da adolescente. E nada!!! A coisa é muito forte e só piora. A própria tia médium não dá conta. Chama outros médiuns, exorcistas e a garota continua fazendo barbaridades que incluem automutilação, canibalismo, depravações, perversidades com um bebê de colo e atrocidades com um pequeno cãozinho doméstico. Isso sem falar na sequência final, da tentativa de exorcismo que é simplesmente macabra, aterradora e apavorante. Em meio a tantos found-footage e mockumantaries repetitivos, esse é original em sua proposta, com um roteiro bem montado e uma tensão crescente que deixa o espectador com as unhas cravadas na poltrona. Além de tratar de um tema interessante de religiosidade e herança espiritual em culturas com esse tipo de crença, nos apresenta uma outra perspectiva de exorcismo diversa da tradicional visão católica ocidental, já retratada em tantos filmes.
"A Médium" só reafirma que, no mundo do cinema, depois que o demônio entra, ah... aí é difícil de expulsar o bicho. Seja aqui no ocidente ou lá na Tailândia.
A jovem Mink endemoniada. E vai tentar tirar a coisa-ruim dela, vai...
O ótimo documentário "Santiago, Itália" revela um aspecto pouco conhecido do já tão abordado golpe de 11 de Setembro no Chile. Nanni Moretti recupera uma história de solidariedade num painel, grosso modo, dividido em quatro partes: a euforia com a vitória de Allende, os difíceis anos e os boicotes durante este governo, a ação dos militares e as cruéis perseguições e, por fim, o olhar para trás sobre estes acontecimentos. Ninguém sai indiferente - aí incluídos os cineastas Patricio Guzmán, autor de "Nostalgia da Luz" e falecido no último dia 15 de setembro, e Miguel Littín ("Actas de Marusia"), cujas filmografias estão ligadas à história política do país e também personagens conhecidos e anônimos (diplomatas, jornalistas, empresários). Em comum, além dos horrores da ditadura, o acolhimento que receberam da Embaixada da Itália, que em determinado momento chegou a abrigar 250 pessoas nos quatro andares da mansão oficial, protegendo-os e, logo depois, enviando-os para Itália, onde muitos - por escolha própria - jamais retornariam.
Intercalando os depoimentos com imagens documentais, "Santiago, Itália" também dá voz aos vencedores de 1973 - ainda que estes não pareçam ter o que comemorar. O primeiro é um militar sóbrio, quase burocrático, que trata o golpe como uma simples intervenção - amparada na Constituição - e que teria a função de evitar o comunismo que se avizinhava. Outro,(embora não seja claramente identificado, fui pesquisar e descobri ter sido o segundo na hierarquia do Dina), é Iturriaga. Falante e agressivo, ele fez todo o percurso da barbárie: aluno da Escola das Américas, próximo a Pinochet, envolvido nos assassinatos de Carlos Prats e Orlando Lettelier e comandante das torturas em Villa Grimaldi.
Desde 2007, Iturriaga cumpre pena em Punta Peuco. Na entrevista, nega ter sido sequestrador, torturador e assassino - acusações que pesam contra si - e se mostra revoltado com as perguntas feitas por Moretti. Exige que seja perdoado - afinal, ele já perdoou os que lhe acusaram - e se recusa a continuar falando, justificando ter sido convocado para uma entrevista imparcial. Ao que Moretti, na única vez em que aparece no filme, responde: "Eu não sou imparcial".
Em tempo, trazemos os vencedores do Festival de Cinema de Gramado deste ano. Afora a Mostra Assembleia Legislativa de Curtas-Metragens Gaúchos, a qual acompanhei de cabo a rabo como nos outros anos por conta da participação da Accirs com o Prêmio da Associação (Crítica), as outras mostras todas, por conta de compromissos que me fizeram deixar Gramado com o evento rolando, não foi possível acompanhar em suas totalidades. Algum longa nacional aqui, um documentário ali, um curta nacional acolá, mas ainda por assistir muita coisa.
O que não quer dizer que não devamos destacar aqui os premiados. E olha que tem coisa bem interessante, como o grande vencedor da noite, o mineiro “Nosso Segredo”, de Grace Passô, que além de Melhor Filme ainda levou outros dois Kikitos (Melhor Fotografia e Melhor Direção de Arte). Quem também se destacou foi “Feito Pipa”, do cearense Allan Deberton, diretor cujo longa de estreia, “Pacarrete”, de 2020, abocanhou os principais prêmios daquele ano em Gramado e foi literalmente ovacionado. Desta vez, seu bonito filme ficou com o que merecia: Melhor Longa-Metragem Brasileiro pelo Júri Popular, Diretor, Atriz (Teca Pereira) e Ator Coadjuvante (Lázaro Ramos), além de uma Menção Honrosa ao ator mirim para Yuri Gomes. O prêmio de Melhor Longa-Metragem Brasileiro pelo Júri da Crítica ficou com “Leite em Pó” (MG/SP/RN), de Carlos Segundo, que também venceu em Melhor Roteiro (Carlos Segundo e Rafael Copel) e Melhor Desenho de Som (Waldir Xavier).
Ainda em nível nacional (onde há anos não concorre nenhum filme gaúcho, há de se saber por que), o documentário premiado foi “Gonzaguinha, da Maior Liberdade”, da competente diretora Susanna Lira. A se ver por outros trabalhos dela (“Torre das Donzelas”, “Mussum, um Filme do Cacildis”, “Fernanda Young: Foge-me ao Controle”) é de se imaginar que, tratando justamente da efervescente vida e militância política do talentoso compositor carioca, tenha-se aí um filme realmente apreciável. Tanto que bateu um considerado nos corredores de Gramado como favorito: “O Projeto”, de Sabrina Fidalgo e Yvan Rodic, que abriu a Mostra dedicada aos documentários e impressionou quem assistiu por seu roteiro, montagem e, principalmente, contundência na mensagem, que avalia e critica o colonialismo pelo mundo.
Vindo para o Rio Grande do Sul, além dos destaques entre os curtas-metragens, que tratei aqui em postagem anterior ao falar de “Grão” e “Banho Maria” (sem falar de "O Véu", "Coisa Ruim" e"Estátuas Também Morrem?" outros bons títulos da safra), teve também a Mostra Sedac/Iecine de Longas. Nesta, quem saiu com vários prêmios foi “A História mais Triste do Mundo”, de Hique Montanari, uma das duas ficções entre os cinco concorrentes, sendo os outros três documentários. E foi justamente um dos docs que se sagrou o principal agraciado do festival desse ano: “Filhas da Lua”, de Tatiana Sager, o qual ainda foi o escolhido do Júri Popular e da categoria de Melhor Montagem. Semelhante ao que comentei sobre Susanna, os antecedentes de Tatiana e seu parceiro Renato Dornelles ("Central", "Olha pra Elas") dão bons indicativos que se trata de uma obra, sim, merecedora dos reconhecimentos que levou.
Foi uma passagem rápida por Gramado, mas sempre satisfatória. Ano que vem tem mais e, quem sabe, para acompanhar do início ao fim como fiz em 2025. Fiquem, então, com a listagem dos premiados de Gramado em cada Mostra:
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LONGAS-METRAGENS BRASILEIROS
Melhor Filme: “Nosso Segredo”, de Grace Passô
Melhor Filme pelo Júri Popular: “Feito Pipa”, de Allan Deberton
Melhor Filme pelo Júri da Crítica: “Leite em Pó”, de Carlos Segundo
Melhor Direção: Allan Deberton por “Feito Pipa”
Melhor Atriz: Teca Pereira por “Feito Pipa”
Melhor Ator: José Loreto por “Chorão: Só os Loucos Sabem” e Christian Malheiros por “Justino: Nos Bastidores do Reino”
Menção Honrosa: Yuri Gomes por “Feito Pipa”
Menção Honrosa: Onna Silva por “Justino: Nos Bastidores do Reino”
Melhor Roteiro: Carlos Segundo e Rafael Copel por “Leite em Pó”
Melhor Fotografia: Wilssa Esser por “Nosso Segredo”
Melhor Ator Coadjuvante: Lázaro Ramos por “Feito Pipa”
Melhor Atriz Coadjuvante: Naruna Costa por “Pele de Rinoceronte”
Melhor Desenho de Som: Waldir Xavier por “Leite em Pó”
Melhor Trilha Musical: Otávio de Moraes por “Chorão: Só os Loucos Sabem”
Melhor Direção de Arte: Lucas Osório por “Nosso Segredo”
Melhor Montagem: André Finotti e José Eduardo Belmonte por “Justino: Nos Bastidores do Reino”
"Nosso Segredo", grande vencedor da edição 2026 do festival
CURTAS-METRAGENS BRASILEIROS
Melhor Filme: “씨발 (Shibal)”
Melhor Direção: Wesley Gabriel Silva Santos por “Pão Doce”
Melhor Ator: Francisco Gaspar por “Pão Doce”
Melhor Atriz: Chris Couto por “Um Passeio”
Melhor Roteiro: Camila Tarifa por “Mulher Papaya”
Melhor Fotografia: Felipe Ovelha por “Pique-Pega”
Melhor Montagem: Gilson Costa e Thamires Coelho por “Divino: sua alma, sua lente”
Melhor Trilha Musical: Ângelo de Souza por “Graxa e o Zepelin”
Melhor Direção de Arte: Jackson Abacatu por “A menina que queria ser pedra”
Melhor Desenho de Som: Marcos Lopes por “Fúrias”
Melhor Filme pelo Júri da Crítica: “Mulher Papaya”, de Camila Tarifa
Prêmio Especial do Júri: “Revelação”, de Gabriela I. Gaia
Prêmio Canal Brasil de Curtas: “Revelação”, de Gabriela I. Gaia
Júri Popular: “Divino: sua alma, sua lente”, de Clea Torres e Gilson Costa, com codireção de Divino Tserewahú
O curta paulista "Shibal" sagrou-se o vencedor
LONGAS-METRAGENS DOCUMENTAIS
Melhor Longa-metragem Documentário: “Gonzaguinha, da Maior Liberdade”, de Susanna Lira
Menção Honrosa Documentário: “Empeleitada”
Documentário de Susanna Lira sobre Gonzaguinha: destaque da mostra competitiva
LONGAS-METRAGENS GAÚCHOS (MOSTRA SEDAC/IECINE)
Melhor Longa-metragem Gaúcho: “Filhas da Lua”, de Tatiana Sager
Melhor Montagem: Gabriel Sager Rodrigues por “Filhas da Lua”
Melhor Direção: Hique Montanari por “A História Mais Triste do Mundo”
Melhor Roteiro: Hique Montanari por “A História Mais Triste do Mundo”
Melhor Ator: Arthur Seidel por “A História Mais Triste do Mundo”
Melhor Trilha Musical: João Vitor Costa Dias por “A História Mais Triste do Mundo”
Melhor Desenho de Som: Gabriela Bervian por “A História Mais Triste do Mundo”
Melhor Fotografia: Juarez Pavelak por “A História Mais Triste do Mundo”
Melhor Atriz: Áurea Baptista por “Remanente - Voltagem”
Melhor Direção de Arte: Tiago Retamal por “Remanente - Voltagem”
Júri Popular: “Filhas da Lua”, de Tatiana Sager
MOSTRA GAÚCHA DE CURTAS (PRÊMIO ASSEMBLEIA LEGISLATIVA)
Melhor Filme: “Grão”, de Gianluca Cozza e Leonardo Rosa
Melhor Ator: Leandro Gomes, por “Grão”
Melhor Atriz: Gaby Buffon, por “Elisete tem que casar!”
Melhor Direção: Gabriel Motta, por “O Véu”
Melhor Roteiro: Thais Fernandes, por “Estátuas também morrem?”
Melhor Fotografia: Lívia Pasqual, por “Drunken Car”
Melhor Montagem: Gabriela Kopp, por “Claudete”
Melhor Direção de Arte: Marco Arruda, por “Raidinalha”
Melhor Trilha Sonora/Melhor Música: Otávio Vassão, por “Grão”
Melhor Edição/Edição de Som: Fernando Efron, por “Raidinalha”
Melhor Produção Executiva: Allan Riggs e Guilherme Suman, por “Terra Bruta”
Melhor Figurino: Beatriz Pieratti, por “Drunken Car”
Menção Honrosa: “O Acumulador de Memórias”
Prêmio Accirs - Júri da Crítica: “Grão”
"Filhas da Lua", de Tatiana, doc sobre a vida de mulheres que sobreviveram ao sistema prisional
HOMENAGENS ESPECIAIS
Troféu Oscarito - Andréa Beltrão
Troféu Eduardo Abelin - Renata Almeida Magalhães
Kikito de Cristal - Selton Mello e Maria Fernanda Cândido
Um grupo de trabalhadores dentro da água ao entardecer, equipados com capacetes de obra e uniformes de borracha. Uma voz masculina grave ecoa, lírica, e é substituída por um piano melancólico que irá atravessar todo o filme, composição de Bo Harwood. A imagem quase documental serve de fundo para as letras que surgem, gigantes e azuis: "A Woman Under the Influence", que se traduz, literalmente, no título adotado no Brasil, "Uma Mulher sob Influência".
Chamou-me a atenção que um filme com esse título começasse em um cenário repleto de personagens masculinos, em um espaço de trabalho braçal. Entre os diversos fatores que fazem da obra de John Cassavetes algo genial está justamente esse deslocamento: o filme é sobre uma mulher, mas também é sobre o seu marido, sobre a vida cotidiana, sobre uma crise. Fala do universo feminino, mas tem a direção de um homem. Não se propõe a ser nada além do que é, dentro dos recursos limitados pelo baixo orçamento, com uma estética crua que lembra o cinema documental e uma história que poderia acontecer com uma familiar ou vizinha nossa.
Gena Rowlands, estrela do filme e esposa de Cassavetes, declarou que, após ler o roteiro pela primeira vez, “não conseguia acreditar que John tivesse escrito aquilo. Não quero parecer sexista, porque realmente não acredito que mulheres não possam escrever sobre homens e vice-versa. Mas eu realmente não conseguia acreditar que um homem pudesse compreender esse problema específico”. Gena via o marido distraído, aparentemente desatento ao que acontecia à sua volta em eventos sociais, a ponto de se surpreender com seu nível de atenção e sensibilidade aos conflitos humanos.
O ponto de partida do roteiro foi um pedido da própria Gena, que, depois de passar um tempo trabalhando no cinema e na televisão, sentia falta do palco. Queria interpretar uma personagem complexa, que dialogasse tanto com as dificuldades da mulher contemporânea quanto com as experiências das gerações anteriores. A peça escrita por Cassavetes, no entanto, era longa e exigente: Gena ponderou que não teria condições físicas e emocionais de interpretar Mabel noite após noite. Ainda que ele tenha trabalhado em outras possibilidades, como dividir a personagem de Mabel entre diversas atrizes, acabou transformando a peça de teatro em roteiro cinematográfico.
Mas quem teria interesse em financiar um filme sobre uma mulher de meia-idade enlouquecendo? Aliás, fontes da época revelam que os grandes estúdios recusaram o projeto porque “ninguém está interessado nos problemas das mulheres”. Diante das dificuldades de financiamento, Cassavetes e Rowlands colocaram sua segurança econômica em risco: hipotecaram a casa e recorreram a amigos e familiares. Peter Falk, ator que interpreta Nick, marido de Mabel no filme, foi decisivo. Gostou tanto do roteiro que investiu cerca de 500 mil dólares na produção, metade do orçamento estimado. Gena resumiria depois a experiência dizendo que eles não tinham dinheiro, mas tinham muitos amigos atores interessados no projeto, e todos ajudaram como puderam.
É interessante pensar que uma das grandes conclusões a que chegamos ao assistir a "Uma Mulher sob Influência" é que a família é realmente o berço de todas as neuroses. No entanto, o filme contou com grande apoio das famílias no elenco, na equipe, na garantia financeira e até mesmo como fonte de inspiração: Katherine Cassavetes, mãe de John, interpreta a mãe de Nick; Lady Rowlands, mãe de Gena, interpreta a mãe de Mabel.
Adentrando o filme, Nick é chefe de uma equipe de serviços públicos. Quando um cano de água estoura na cidade, ele telefona preocupado para sua esposa, Mabel. Eles têm três filhos pequenos — Tony, Angelo e Maria —, que ela já havia deixado aos cuidados da avó para que os dois pudessem passar a noite juntos e sozinhos. Quando Nick liga, já sabemos que a reação de Mabel pode ser ruim, e essa sensação de que algo terrível pode acontecer a qualquer momento permeia todo o filme. Momentos antes, Nick havia comentado com um colega de trabalho que Mabel “não é louca, é incomum”.
Sozinha, bêbada e entediada, Mabel caminha pela noite e chega a um bar, onde conhece o desajeitado Garson Cross. A interação é confusa: ela o trata como se já se conhecessem, em alguns momentos reclama do marido e, em outros, parece confundi-lo com Nick. Cross a leva para casa e a força a manter relações sexuais enquanto ela tenta, em vão, resistir. Na manhã seguinte, Mabel, desorientada, discute brevemente com Garson e o manda ir embora. A montagem nos confunde, pois, na sequência, Nick chega em casa com uma equipe inteira depois da noite de trabalho. Em um primeiro momento, temos a impressão de que marido e agressor se encontrarão, o que não ocorre.
Mabel prepara espaguete para todos, buscando ser uma boa anfitriã, e pergunta o nome de cada um, ainda que diversos deles já a conhecessem. A refeição é superficialmente agradável até Nick se irritar com Mabel, causando constrangimento em todos. Ela é calorosa com os convidados e parece não perceber quando está sendo inconveniente. Os amigos de Nick usam um telefonema como desculpa para sair às pressas dali.
O casal Cassavetes e Gena: roteiro escrito por ele para ela
O filme é muito hábil ao nos apresentar a vida cotidiana, o relacionamento de Nick e Mabel e a forma como ela cuida das crianças, criando uma imensa conexão entre os personagens e quem assiste. Mabel organiza um encontro entre seus filhos e outras crianças, mas o pai delas se incomoda com seu comportamento. A sequência em que Mabel dança ao som de "O Lago dos Cisnes" é uma das mais sensíveis do filme. Nela, nota-se a linha tênue entre sua tentativa de se relacionar com as crianças e uma espécie de alienação da realidade. Ela parece habitar um universo próprio e estar alheia ao que ocorre ao seu redor. Isso é resultado da construção harmoniosa de John Cassavetes, que filma em closes, movimentos fluídos de câmera na mão, dando a impressão de que tudo ali é real, e a incrível atuação de Gena Rowlands, que parece se transformar em outra pessoa.
Nick chega em casa com sua mãe, Margaret, e encontra todas as crianças seminuas, correndo descontroladamente, enquanto o pai das outras crianças, Jensen, tenta vesti-las. Nick dá um tapa em Mabel e começa uma briga com Jensen, furioso, mas Margaret os separa, e o homem vai embora com os filhos. Desesperado, Nick liga para o médico de Mabel, Dr. Zepp, para avaliar a saúde mental da esposa. Mabel fica agitada, principalmente com a presença da sogra, que a chama de má esposa e mãe inadequada enquanto Nick tenta acalmá-la. Ela se distancia cada vez mais da realidade e resiste violentamente quando o Dr. Zepp tenta aplicar uma injeção de sedativo. Convencido de que ela se tornou uma ameaça para si mesma e para os outros, o médico determina sua internação involuntária.
Abalado e incapaz de lidar com a ausência da esposa, Nick desconta sua raiva nos colegas de trabalho e leva os filhos à praia, tentando criar com eles um momento de conexão. Aqui estão alguns dos momentos mais marcantes do filme: na ausência de Mabel, Nick demonstra ser incapaz de cuidar das crianças, levando-as a uma praia fria e dando-lhes cerveja para “experimentarem”. Contudo, seu comportamento e sua sanidade não são questionados como os de Mabel.
Seis meses após a internação, Mabel retorna para casa. Nick prepara uma festa de boas-vindas e enche a casa de pessoas, mas logo todos percebem que aquele não é o momento para estarem ali e que a família precisa de privacidade. Toda a recepção de Mabel se torna constrangedora: insegura após o período de internação, ela não sabe como se comportar, enquanto o marido insiste para que todos ajam “normalmente”. Mabel parece estar pisando em ovos, cuidando de cada ação para poder rever os filhos. Todos parecem julgá-la e temem o que pode acontecer, mesmo quando seu pedido é razoável: quer que os convidados saiam para que possa ficar sozinha com a família. Memorável a cena em que Mabel pergunta ao seu pai se ele irá lhe dar suporte, e ele se levanta, como se compreendesse a frase de maneira literal. É como se fosse impossível para os outros entenderem Mabel.
Sozinha com Nick, a crise mental e a tensão aumentam. Mabel tenta se ferir e Nick reage com violência. As crianças procuram protegê-la e reafirmam seu amor pela mãe. Depois da crise, Mabel e Nick cuidam dos filhos, tratam o ferimento dela e arrumam silenciosamente a casa, retomando a rotina familiar.
O final é emblemático e possibilita diversas interpretações. Pode representar uma reconciliação, na qual os dois dão uma trégua aos conflitos, ocultam os vestígios da crise e tentam retornar à rotina. Mabel não está necessariamente recuperada, mas volta a desempenhar os papéis de dona de casa, mãe e esposa, dentro de uma realidade que lhe é imposta. Ao mesmo tempo, ela e Nick arrumam a casa juntos como quem deseja restabelecer a ordem das coisas, porque se amam e querem que tudo dê certo. Minha interpretação reúne um pouco de cada uma dessas possibilidades, mas parte, principalmente, da ideia de que a normalidade também é uma performance: os dois se esforçam para desempenhar os papéis que lhes foram impostos e manter a família funcionando. A influência a que o título se refere manifesta-se justamente nessas expectativas que determinam como Mabel deve agir, sentir e amar. Também aprisionam Nick em sua necessidade de controlar e preservar uma ideia de felicidade familiar.
No período em que começaram a pensar o filme, Cassavetes e Rowlands já viviam havia mais de uma década as pressões da parentalidade. Naquele momento, tinham em casa um adolescente, uma menina em idade escolar e uma criança de apenas dois anos. Permaneceram casados até a morte de Cassavetes, em 1989, totalizando cerca de 35 anos juntos. O filme, portanto, não nasceu no começo de uma paixão ou de uma colaboração recente. Foi feito por um casal que já atravessara quase duas décadas de vida em comum, três filhos, períodos de dificuldades financeiras e várias experiências cinematográficas compartilhadas.
Em determinados períodos do casamento, Cassavetes permaneceu em casa cuidando das crianças enquanto a esposa trabalhava como atriz. Penso que, ainda que tenha sido uma experiência temporária, a percepção da solidão, da repetição e do que significa doar seu tempo e sua vida a alguém também tenha ajudado a construir o roteiro.
Em uma entrevista, Cassavetes definiu a obra como um filme sobre pessoas lutando, vivendo, passando por dificuldades e humilhações. Sua ideia era discutir o quanto é preciso pagar pelo amor: “Eu sabia que o amor criava, ao mesmo tempo, um grande momento de beleza e, por outro lado, tornava você um prisioneiro”.
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trailer de "Uma Mulher sob Influência"
porK E L L Y D E M O C H R I S T
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KELLY DEMO CHRIST é crítica de cinema vinculada à ACCIRS – Associação de Críticos de Cinema do Rio Grande do Sul e Diretora de Comunicação do Clube de Cinema de Porto Alegre. É formada em Cinema e Audiovisual pela Universidade Federal de Pelotas (UFPel) e mestre em Comunicação pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS). Atua também nas áreas de fotografia e montagem audiovisual, com experiência em televisão, plataformas educacionais, redes sociais, publicidade e mídias digitais. Publica esporadicamente suas críticas no site Cinema de Porão.
Nei Lisboa diz em uma de suas reflexivas canções: “Alguns edifícios por dia/ Desabam dentro da avenida/ E salva-se a filosofia”. Entendidas metaforicamente, estas “edificações” podem muito bem representar aquilo que erguemos como padrões temporais para o ser humano em sociedade. E que está desabando, acabando-se. Antes sólidos, inabaláveis; hoje, contestados, ressignificados. Em crise. Isso serve tanto para os arquétipos filosóficos de jovens tanto homens quanto de mulheres, algo muito bem percebido por curtas-metragens da nova safra do cinema gaúcho exibidos na Mostra Assembleia Legislativa de Curtas-Metragens Gaúchos durante o 54º Festival de Cinema de Gramado, ocorrido entre 12 e 22 de agosto.
Mais propriamente, os filmes com esse olhar imersivo são “Grão”, da dupla rio-grandina Gianluca Cozza e Leonardo da Rosa, o principal premiado da mostra competitiva, e o não menos instigante “Banho Maria”, de Gabriel Faccini. O primeiro, uma crítica mordaz da masculinidade tóxica. O segundo, uma reflexão existencial do lugar da mulher na sociedade capitalista – e essencialmente machista. Cada um a sua forma, ambos os filmes põem em questionamento estes padrões arraigados – e caducos – do que é (ou deve ser) homem ou mulher, como se, para ser um ou outro, tenha-se que seguir uma cartilha que já não existe mais. Ambos, mesmo em situações distintas, em determinado momento trazem dita a mesmíssima frase: “O mundo está acabando”.
“Grão”, em especial, pode-se considerar o melhor curta-metragem da temporada (quiçá, o melhor filme gaúcho entre todos do ano). É o aprimoramento do trabalho de Cozza e da Rosa e da produtora Saturno, coletivo que vem realizando produções na mesma linha há alguns anos com grande contundência e assinatura estilística. No primeiros deles, o belo documentário “Construção”, de 2020, sobre uma mãe de família despejada de sua casa e reconstruindo a vida, já se percebia um olhar distinto sobre questões sociais e existenciais por meio de um hibridismo entre documentário e ficção. Porém, foi em “Madrugada”, de 2022, e, logo após, mais transversalmente, “Cassino” (2024), que a dupla adentra no (sub)mundo da sua Rio Grande, cidade portuária com oportunidades mas geradora de um “cinturão” de subempregos ocupados por jovens desqualificados para o que o sistema exige.
trailer de "Grão"
Metais, fumaça, máquinas opressivas e ensurdecedores ruídos industriais imperam sobre um ambiente escuro, de luzes funcionais e impessoais em que os braços fortes não têm capacidade de controlar os sentimentos da vida. Numa fotografia metalingusticamente granulada, edição fragmentada e uma câmera ora atenta a um fato, ora meramente observadora, os personagens masculinos, representados na figura de Leandro, magistralmente interpretado por Leandro Gomes, iludem-se com seus carros possantes, suas músicas altamente insinuantes, seus músculos fabricados e com meia dúzia de notas em dinheiro para aplacar os desejos sexuais. Nada disso mais é suficiente. A transa com a garota desejada, a venda da “caranga”, a curtição com os “bróder”: tudo termina descartado, encalhado, abandonado. Como o antigo barco na praia do Cassino, como os grãos de soja sobrados na beira do mar, como o carro atolado na areia da praia. Como ele mesmo, depois de uma noite de porre e solidão, afundado na terra. Um grão de volta a seu ciclo para poder voltar a existir.
Não apenas o júri principal da Mostra Assembleia Legislativa, que lhe deu três premiações, entre estas, a de Melhor Filme, a Associação de Críticos de Cinema do RS (Accirs) também concedeu o Prêmio da Crítica. Em sua justificativa, a Accirs escreveu: "Por tratar da masculinidade sob uma ótica crítica, com humor e densidade; por tornar um território em crise um personagem central do filme; por deixar transbordar solidão, melancolia e desejo com domínio de recursos visuais e sonoros; a ACCIRS reconhece mais um passo na trajetória investigativa do grupo de realizadores neste universo e premia o curta-metragem 'Grão'". Antes, o filme já havia sido escolhido para a 9ª Mostra Sesc de Cinema – Circuito RS e ganhado o Festival de Tiradentes, em Minas Gerais, o que o tornou apto a concorrer pelo Brasil ao Oscar de 2027, mostrando que a turma da Saturno está madura para, agora, encarar o primeiro longa-metragem. Que venha, pois deverá ser coisa boa.
Construído a partir de outras premissas e escolhas narrativas, “Banho Maria”, embora não tenha levado nenhum prêmio em Gramado – é, igualmente a “Grão”, um dos 14 selecionados da Mostra Sesc desse ano –, é de uma contundência mais sensível, mas não menos branda. Em uma manhã de calor escaldante, uma mulher, Maria (Silvana Rodrigues), decide faltar ao trabalho e aproveitar o dia num parque aquático para refletir sobre si, quando encontra um menino, que está de aniversário, o qual, indiretamente, ajuda-lhe e sua busca interna.
Ao transformar o ambiente do parque aquático em um cenário quase surreal a partir de seus enquadramentos, temperatura de foto e até de efeitos especiais (pequenos, mas muito bem feitos), o filme de Faccini compartilha com o espectador o autoquestionamento da vida de uma jovem preta e trabalhadora de classe média, um dos principais alvos da estrutura misógina e machista da sociedade brasileira, ainda mais por ser uma mulher fora dos padrões estéticos.
teaser de "Banho Maria"
De roteiro eficiente e diálogos idem (são impagáveis as conversas entre a protagonista e o pequeno Alisson, vivido por Lukas Rodrigues), “Banho Maria” reflete esse lugar do feminino preto em um Estado que nega a existência e a contribuição de sua população negra. O espectador é informado parcialmente das inquietudes existenciais de Maria, praticamente apenas a questão da contrariedade dela quanto aos próprias rumos profissionais. Porém, ficam subentendidos propositais “três pontos”, como se, ao mexer nessa estrutura sufocante de sua vida, outros aspectos também haveriam de ser desencadeados.
Estes dois curtas gaúchos convidam o espectador a um movimento de submersão interior simbólico da figura materna, seja um mergulho na água (útero) ou na terra (vida). Se em “Grão” a estranheza se revela pela surpresa da solidão masculina, em “Banho Maria” é a reação (sub)consciente feminina diante de sua realidade opressiva que permite um imergir diferente, mesmo que em “banho maria”, ou seja, ainda em processo de elaboração. Uma tentativa de mergulho em si mesma, nas verdades da personagem mulher e não um enterrar-se na areia como um bicho acuado (Leandro, de "Grão"). Seja pela crítica ou pela revelação, ambas as obras mostram que os valores desgastados daquilo que se entende por ser humano, seja homem ou mulher, já não se sustentam mais. O mundo está acabando, edifícios desabam dentro da avenida. É preciso rever suas bases para chegar a verdades interiores pouco acessadas, mas essenciais para um renascimento. E salva-se a filosofia.