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segunda-feira, 31 de março de 2025

Projeto Rodacine - Exibição de "Um é Pouco, Dois é Bom" e "Chibo" - Aniversário da Cinemateca Capitólio e de Porto Alegre - Largo dos Açorianos - Porto Alegre/RS (29/03/2025)



 

Pode-se dizer que este Clylive é, na verdade, um Claquete. A possível confusão entre as sessões do Clyblog se justifica, pois a exibição ao vivo a que me refiro foi de cinema. E para uma ocasião muito especial em pleno Largo dos Açorianos, um dos pontos mais emblemáticos de Porto Alegre. Ou melhor: duas ocasiões. O que pude conferir com Leocádia, Carolina, Cláudio e a ilustre e comportada presença de nossa cachorrinha Bolota, foi uma sessão a céu aberto do clássico da cópia restaurada do filme gaúcho “Um é Pouco, Dois é Bom”, do pioneiro do cinema negro no Rio Grande do Sul Odilon Lopez e o terceiro cineasta negro a dirigir um longa-metragem no Brasil. A programação ocorreu dentro projeto RodaCine, parceria da Coordenação de Cinema e Audiovisual da Secretaria Municipal de Cultura de Porto Alegre e Fundacine RS.

Pois esta exibição, antecedida do excelente curta-metragem “Chibo”, de Henrique Lahude e Gabriela Poester (sobre o qual já falamos aqui no blog quando do último Festival de Cinema de Gramado, onde foi vencedor como melhor curta gaúcho na Mostra Assembleia Legislativa) marcou tanto a semana do aniversário de 253 Porto Alegre quanto, principalmente, encerrou a semana de aniversário de 10 anos da resiliente e celebrável Cinemateca Capitólio, este patrimônio do audiovisual e da cultura gaúchas retrazido ao público há uma década.

O divertido “Um é Pouco, Dois é Bom”, de 1970, é produzido, roteirizado, protagonizado e dirigido por Odilon Lopez (1941-2002) e tem diálogos assinados por um jovem escritor então em início de carreira chamado Luís Fernando Verissimo. Afora isso, a ótima trilha é composta pelo pianista e compositor Flávio Oliveira, amigo do pai de Leo e Carol e a quem elas devotam muito carinho. Veja as coincidências!... O filme, com momentos muito interessantes e até experimentais em termos de direção e edição, o filme é dividido em duas partes, que dialogam de forma bastante sutil, mas não deixam de ter complementariedade. No entanto, o segundo e derradeiro episódio, “Vida Nova ... Por Acaso” é, sem dúvida, o mais apreciável. Com o próprio Odilon no papel do “pickpocket” Crioulo, que junto com seu inseparável parceiro de furtos Magrão (vivido por Francisco Silva), tem bem a veia cômica e crítica que marca a escrita de Verissimo que se passou a conhecer melhor depois e a qual ele desenvolveria largamente a partir de então.

Afora o prazer de ver um filme histórico, a ocasião em si foi muito especial. Além das parcerias, ver o Largo dos Açorianos lotado de gente de “cuca legal” é um sopro de esperança em tempos de tamanho terror bolsonarista, fascista, trumpista ou o que quer que seja ligado à excremente extrema-direita. Uma Porto Alegre que respira! 

Nisso, uma coisa boa e outra nem tanto na programação. A boa, é que, além de celebrar o restauro e exibi-lo a um público mais amplo do que nas salas de cinema, o próprio longa, que se passa em vários endereços da cidade, como o Parque da Redenção, a frente do prédio do Daer, a rodoviária, as ruas do Centro, entre outros, configurou-se em si uma celebração pelo aniversário da capital gaúcha. O erro, contudo, foi escolher o denso “Chibo” para abrir a sessão, uma vez que sua exibição ficou prejudicada tendo em vista que o filme depende em vários aspectos da concentração da sala escura. A sonoridade ruidosa, os poucos e propositadamente confusos diálogos mas, principalmente, a fotografia escura, quase invisível, visivelmente não funcionaram ao ar livre – ainda mais porque a produção esqueceu de apagar os refletores da praça logo de início, o que deixou só depois o ambiente bem mais “escurinho” e adequado para os espectadores. Fora isso, tudo muito joia. Afinal, a grande estrela da noite de calor um ventinho de chuva que nos assustou um pouco foi “Um é Pouco...”, novinho em folha em seus 55 anos de existência e resistência.

Confira ou pouco de como estava o clima nesta noite festiva de Porto Alegre:

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Muita gente pra ver a sessão ao ar livro de "Um é Pouco..."

Nós e Bolota aguardando o filme começar

Bolota em sua primeira sessão de cinema

A turma toda curtindo


Daniel Rodrigues



quinta-feira, 27 de março de 2025

"Marcas da Maldição", de Kevin Ko (2022)

 




"Hou-Ho-Xiu-Yi
Si-Sei-Yu-Ma"
(repita essas palavras
até ficar em sua mente)


Esse havia sido recomendado como um dos filmes de terror mais assustadores dos últimos tempos e, se não chega a tanto, pelo menos incomoda.

Tem umas cenas beeeem foda!

Roteiro bem construído apesar de, em alguns momentos, a filmagem dos personagens, a câmera na mão, não se justificar totalmente.

Em "Marcas da Maldição", um grupo de documentaristas amadores resolve entrar numa gruta cuja fama é de amaldiçoar aqueles que a visitem. Após encontrarem o local, profanarem imagens e violarem suas leis, o grupo passa então a estar condenado pela praga do local. Num vídeo particular caseiro, uma das invasoras, Ronan conversa com o espectador, reconta os fatos de maneira fragmentada, alternando com episódios envolvendo a filha pequena e sua luta pela guarda da menina, e aos poucos vai chegando aonde pretende: à maldição em si.

O grande barato do filme e que dá, sim, um certo arrepio é o fato da personagem, Ronan, compartilhar a maldição conosco. Com o espectador.

Cara, parece que a gente foi amaldiçoado mesmo, ainda mais pelo fato de, por uma indução óptica, continuarmos vendo aquele símbolo na tela mesmo depois dele ter saído do nosso campo de visão.

Podia ser mais assustador ainda, é verdade, se o diretor tivesse construído um found-footage mais verossímil tipo "A Bruxa de Blair". Convencido da realidade daquelas situações da filmagem o espectador certamente ficaria cagado de medo de, mesmo sem querer, só por ter assistido um filme, memorizado um mantra e gravado a imagem na mente, possivelmente estar também... AMALDIÇOADO.

Mesmo assim, é inquietante.

Olhe para o ponto vermelho por 15 segundos e depois olhe para uma superfície branca.
Pronto! Você está amaldiçoado.


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"Marcas da Maldição"
Título Original: "Incantation"
Direção: Kevin Ko
Gênero: Terror/ Found-footage
Elenco: Hsuan-Yen Tsai, Kao Ying-Hsuan, Sin-Ting Huang, Sean Lin, Wen Ching-Yu
Duração: 110 min
Ano: 2022
País: Taiwan
Onde assistir: Netflix


🎬🎬🎬🎬🎬🎬🎬🎬🎬

quinta-feira, 13 de março de 2025

"A Compadecida ", de George Jonas (1969) vs. "O Auto da Compadecida ", de Guel Arraes (2000)




No embalo do primeiro Oscar do cinema brasileiro e do sucesso de "O Auto da Compadecida 2", produção nacional que vem levando milhares de pessoas aos cinemas, o Clássico é Clássico (e vice-versa) traz aqui um confronto entre "O Auto da Compadecida ", de 2000, que impulsionou sua sequência de 2024 a ser esse novo fenômeno de bilheteria, e sua primeira versão cinematográfica, pouco conhecida, de 1969, "A Compadecida". Pois é, esta obra de Ariano Suassuna tem uma adaptação cinematográfica anterior à conhecidíssima e consagrada de 2000, e
que quase ninguém sabe que existe.
Diante da popularidade de "O Auto da Compadecida", de 2000, a maioria das pessoas não teria dúvidas em afirmar, mesmo sem ver o antigo, que não tem nem graça um duelo de um grande sucesso como esse contra um esquecido, empoeirado e desconhecido filme lá dos idos de não sei quando.
Tipo um time multicampeão, cheio de grandes jogadores contra um outro pouco badalado de um centro menos valorizado.
Barbada? 
Não é bem assim...
"A Compadecida" tem méritos inequívocos e consegue fazer frente ao novo em diversos quesitos.
Produzido com grande orçamento para a época, "A Compadecida" traz ecos ainda da estética da segunda fase do Cinema Novo, ainda que, curiosamente, para um projeto tão brasileiro contasse com um diretor húngaro, George Jonas, atrás das câmeras. A onda de treinadores estrangeiros já estava na moda, hein!
Além disso, time por time, o de 1969 não ficava devendo muito: tinha nada menos que feras como Antônio Fagundes, Armando Bógus, Regina Duarte e outros bons nomes como Felipe Carone, Jorge Cherques e Ari Toledo .
Como se não bastasse, a comissão técnica trazia nomes de peso como o artista plástico Francisco Brennand nos figurinos, a arquiteta Lina Bo Bardi na direção de arte, música a cargo de Sérgio Ricardo, e o próprio autor da peça, Ariano Suassuna, fazendo uma de auxiliar técnico, como responsável pelo roteiro.
Isso é só pra mostrar com quem estão lidando!
Com um jogo um pouco arrastado na primeira parte, "A Compadecida" cresce de produção e aos poucos vai mostrando a boa estrutura do time.
O aproveitamento da estética do sertão como pano de fundo natural, a exploração das tradições culturais, a teatralidade, a alegoria religiosa, tudo colabora para o bom desempenho em campo do time do técnico europeu George Jonas.
Do outro lado temos uma adaptação feita originalmente para minissérie de TV e que posteriormente foi editada e distribuída nos cinemas. A boa produção, recursos e aparato da maior rede de televisão do país, garantiam um produto final com qualidade e pronto para ser consumido com júbilo pelo público em geral. Produção padrão Globo! Ainda que a adaptação para o formato longa metragem comprometesse um pouco a montagem e tornasse abruptas algumas transições, a transposição para o cinema foi um sucesso e o então filme, não mais minissérie, tornou-se uma das maiores bilheterias do cinema nacional.
Para tal êxito, o diretor Guel Arraes, responsável pelo núcleo mais criativo e interessante da emissora, sempre com boas propostas de programas, séries, especiais, teve à sua disposição nada menos que toda a vitrine disponível da maior produtora de novelas da TV brasileira e por isso mesmo, um vasto e qualificado elenco para sua escolha. É  como um grande clube, com os melhores jogadores do mundo em seu elenco, que contrata um técnico e diz pra ele, " Tá aí. Escala quem você quiser". Guel optou pelo entrosamento, mesclou com a experiência e botou dois caras diferenciados para decidir. Chamou boa parte do elenco da antiga TV Pirata, Marco Nanini, Diogo Vilela e Denise Fraga, outros com quem já  trabalhara em seu núcleo na emissora, como Bruno Mazzeo e Virgínia Cavendish, deixou os medalhões Rogério Cardoso e Lima Duarte ali no meio só distribuindo o jogo, e deixou sua talentosíssima dupla de ataque, Selton Melo e Matheus Natchergale, à vontade pra enlouquecer a defesa adversária.
Na boa, Antônio Fagundes e Armamdo Bógus são talentosíssimos, mas o Chico e o João Grilo da nova versão são muito melhores! Mais carismáticos, mais protagonistas, mais engraçados. O humor da nova versão é mais convidativo, a proposição da obra é fazer rir e ela se sai muito bem no que pretende. O corpo de elenco é mais envolvido nessa tarefa do que no antigo que se propunha a ser um filme sobre sertanejos, com situações engraçadas.

"A Compadecida" (1969) - filme completo


"O Auto da Compadecida" (2000) - trailer


A vitória da nova versão passa por aí. Tem tantos méritos quanto o anterior mas é mais gostoso, mais cativante.
Cada um a seu modo transmite sua estética de sertão e aí é um gol para cada um. Se a Globo proporciona cenários bem acabados, locações bem escolhidas, materiais de qualidade, uma iluminação de primeira (1x0), a craque Lina Bo Bardi, encarregada da concepção artística do original, com sua noção diferenciada de espaço, desequilibra e deixa tudo igual nesse quesito. 1x1.
Nem a retaguarda da produção para a TV que pôs à disposição da equipe os melhores profissionais, estilistas e o guarda-roupa da maior emissora do país, impediu o gol de outro gênio, Francisco Brenant que com muita cor, alternâncias de tons, contrastes, elementos folclóricos, criou figurinos criativos e diferenciados desempatando a partida. 2x1 para A Compadecida.
O autor, Ariano Suassuna, jogava para o time de 1969, do qual fora roteirista e colaborara com as mais preciosas informações e impressões para o diretor George Jonas, mas, consultado pelo diretor da nova versão, Guel Arraes, sobre a inclusão de trechos de dois outros contos seus no roteiro da nova versão e concordando com a ideia, acabou jogando de bandido e fazendo gol contra. O acréscimo da parte da disputa pela filha do Coronel (de "Torturas de um Coração e a Pena da Lei") e da herança da avó da noiva com o cofrinho cheio de dinheiro (de "O Santo e a Porca), enriquecem a trama do remake e lhe garantem o gol de empate. 2x2. Ô, Seu Suassuna, o que é  isso? Jogando contra o próprio patrimônio...
A cena do ataque dos cangaceiros no original é pura poesia visual. Uma fascinante coreografia com contornos circenses que põe o time de '69 em vantagem. 3x2.
O julgamento dos pecadores pelo diabo tem méritos nos dois. Se no anterior a sequência é crua, externa, no meio do sertão, explorando a paisagem agreste local, e com uma edição espetacular, no recente tem um belíssimo cenário estilizado de uma capela de romeiros com efeitos digitais primários mas que comunicam bem e dialogam com a estética do cordel nordestino. 4x3. O antigo continua em vantagem.
No entanto, ainda nesta sequência, a craque Fernanda Montenegro desequilibra. Embora encarando uma boa adversária, a então jovem Regina Duarte, com sua interpretação serena e altiva, ela eterniza uma Nossa Senhora doce e maternal para o cinema brasileiro. Golaço pra empatar de novo a peleia!!! 4x4.
Cabe à dupla de ataque, João Grilo e Chicó, decidir o jogo. Num perfeito entrosamento e tabelinhas perfeitas, a dupla da nova versão, Selton e Natchergale, é hilária e tem passagens memoráveis. A da trama da bexiga de sangue, a do plano para o duelo com os valentões, a trapaça ao cangaceiro Severino, o pedido de casamento da filha do Coronel, a da ressurreição de João Grilo, todas cenas de chorar de rir. Tabela perfeita, desde a própria área até o outro lado do campo, sem deixar a bola cair, enganando todos os adversários, o padeiro, o padre, o cabo, o valentão, os cangaceiros, driblando até o diabo, dando um chapéu no coronel, até João Grilo deixar limpinha pra Chicó só completar praticamente em cima da linha, com o bumbum. 4x5. Dizem que o gol foi tão bonito que Chicó levou a bola, a bandeirinha de escanteio, o apito do juiz e até a rede pra casa. Dizem que pendurou a rede na varanda e dorme nela toda noite. "Como é que só dois enganaram toda essa gente? Padre, bispo, padeiro, polícia, cangaceiro, coronel e até o diabo?" Bom... Não sei. Só sei que foi assim.

(Sempre à esquerda o original)
No alto, as duplas Chicó e João Grilo;
na segunda linha João Grilo engambelando o cangaceiro Severino com a gaita mágica;
na terceira, o cenário natural do julgamento dos pecadores do filme de 1969,
e à direita o cenário da capela de romeiros do filme de 2000;
logo abaixo, o diabo diante de Jesus e Nossa Senhora, nas duas versões;
e por último a Compadecida, Regina Duarte no primeiro filme,
e Fernanda Montenegro na varsão nova.


É, muita gente achou que era barbada, páreo corrido,
 mas futebol (e cinema) não é assim.
Não tem jogo jogado.
Não é porque foi sucesso de público que a vitória tá garantida.
Foi suado, hein.





por Cly Reis

quarta-feira, 5 de março de 2025

Música da Cabeça - Programa #401

 

É sempre assim todo ano: o Carnaval se encerra e a melhor coisa que tem para curar a ressaca é o MDC da quarta-feira de cinzas. Com um sorriso no rosto e ainda em clima de Oscar, o programa hoje recorre a Led Zeppelin, Pat Metheny, Madonna, Tom Zé e Jards Macalé para enterrar os ossos. No quadro especial, Sete-List, não esquecemos também de prestar uma homenagem a Gene Hackman. Totalmente oscarizado e carnavalizado, o MDC vai ao ar às 21h na premiada Rádio Elétrica e com produção e apresentação de Daniel Rodrigues. Porque, sim: nós vamos ouvir. Ouçam! 


www.radioeletrica.com

segunda-feira, 3 de março de 2025

Oscar 2025 - Os Vencedores

Walter Salles com o NOSSO inédito Oscar: que vitória!
Não poderia deixar de começar qualquer comentário sobre a edição de 2025 do Oscar falando não sobre o principal premiado, mas da premiação inédita conquistada pelo filme brasileiro "Ainda Estou Aqui". Sim: o Brasil pode dizer que tem um Oscar para chamar de seu! O longa de Walter Salles, que ainda concorria a Filme, ganhou a tão sonhada estatueta de Filme Internacional, alcançando aquilo que outros filmaços brasileiros anteriores, como "O Pagador de Promessas" e "Central do Brasil", não conseguiram. Um feito histórico e de gigantesca simbologia para o cinema nacional.

Em compensação, o Oscar de Fernanda Torres, aquele para o qual se criou uma enorme celeuma e expectativa Brasil inteiro, não veio. E não veio de uma forma um tanto frustrante, o que tem a ver, agora sim, com o destaque desta edição: a supremacia de "Anora". O drama/comédia de Sean Baker foi o principal vencedor da noite, conquistando 5 das 6 estatuetas as quais foi nomeado: Filme, Roteiro Original, Edição, Direção e aquele que, surpreendente, tirou o prêmio de Fernanda, o de Atriz para Mikey Madison.

O gosto amargo fica porque, se fosse para Fernanda perder, que fosse para Demi Moore por seu papel em "A Substância". Por tudo que representa o papel de Demi, toda a carga anti-etarismo e anti-sexismo que carrega e também por toda a falada retratação com a artista, nunca indicada a nada. Mas não foi o que houve. Teria sido mais justo com Demi, a favorita, e com Fernanda, que, tête-à-tête com Mikey, desempenha melhor num papel dramático. Não que seja um prêmio descabido, pois a protagonista de "Anora" está muito bem no filme. Mas papel por papel, Fernanda como Eunice Paiva é, sim, um nível acima em expressividade e consistência como atuação. Mas é premiação, e isso faz parte.

Tanto faz parte que o superindicado "Emilia Pérez", depois das polêmicas sobre sua realização e roteiro e de uma desastrosa campanha que o desidratou diante dos jurados, tinha 13 chances e amargou apenas 2: Atriz Coadjuvante (para Zoe Saldaña, ótima) e Canção Original. Até mesmo "O Brutalista", outro favorito (inclusive a Filme), das 10 nomeações teve de se contentar com somente 3: Ator (Adrian Brody), Fotografia e Melhor Trilha Original.

O fator político, que se imaginava talvez mais exacerbado, falou menos, mas bem. Corajosa, a atriz Daryl Hannah, que apresentou a categoria de melhor Edição, fez a saudação nacionalista ucraniana com os dedos e "V" e disse a frase: "Glória a Ucrânia", lema das forças armadas e nacionalistas do país invadido pela Rússia. Aplaudida. Outro momento anti-belicismo foi quando da vitória do documentário "No Other Land", dirigido por Basel Adra, Hamdan Ballal, Yuval Abraham e Rachel Szor, ou seja, cineastas palestinos e judeus juntos pela mesma causa: a paz e o olhar humanista para os povos. No discurso, críticas à forma como o governo dos Estados Unidos atua na Guerra em Gaza, colaborando com a manutenção do ódio entre os povos. A gafe, no entanto, ficou por conta da não menção a Cacá Diegues no momento In Memorian. Esses norte-americanos jecas...

Quem também recebeu justos aplausos foi Paul Tazewell, que fez história ao se tornar o primeiro homem negro a ganhar o Oscar de Melhor Figurino pelo seu trabalho no musical "Wicked", filme que ainda levou o prêmio de Design de Produção. Fora isso, "A Substância" pegou o merecido de Maquiagem e Cabelo, "Conclave" o plausível de Roteiro Adaptado e "Duna - parte 2" levou os dois técnicos: Som e Efeitos Visuais.

Para além da felicidade de ver "Ainda Estou Aqui" no mais alto posto da maior premiação do cinema mundial, é legal ver também um cult "pequeno" vencer. Em contraposição ao cinemão de "O Brutalista" e a alegoria musical de "Emilia Pérez", ambos estilos por muito tempo consagrados pela Academia, ficaram pra trás em detrimento de "Anora", um filme profundo sem precisar de grandiloquência e que deixa um recado: nunca duvidem de um Palma de Ouro de Cannes.

Confira todos os premiados:

📹📹📹📹📹📹📹📹


MELHOR FILME

Anora


MELHOR FILME INTERNACIONAL

Ainda Estou Aqui


MELHOR DIREÇÃO

Sean Baker (Anora)


MELHOR ATRIZ

Mikey Madison (Anora)


MELHOR ATOR

Adrien Brody (O Brutalista)


MELHOR ATRIZ COADJUVANTE 

Zoe Saldaña (Emilia Pérez)


MELHOR ATOR COADJUVANTE

Kieran Culkin (A Verdadeira Dor)


MELHOR ROTEIRO ORIGINAL

Anora


MELHOR ROTEIRO ADAPTADO

Conclave


MELHOR EDIÇÃO

Anora


MELHOR DOCUMENTÁRIO

No Other Land


MELHOR DOCUMENTÁRIO DE CURTA-METRAGEM

The Only Girl in the Orchestra


MELHOR ANIMAÇÃO

Flow


MELHOR ANIMAÇÃO EM CURTA-METRAGEM

In the Shadow of the Cypress


MELHOR CURTA-METRAGEM EM LIVE-ACTION

I'm Not a Robot


MELHOR FOTOGRAFIA

O Brutalista


MELHOR DESIGN DE PRODUÇÃO

Wicked


MELHOR FIGURINO

Wicked


MELHOR MAQUIAGEM E CABELO

A Substância


MELHOR TRILHA ORIGINAL

O Brutalista


MELHOR CANÇÃO ORIGINAL

“El mal" - Emilia Pérez


MELHOR SOM

Duna - Parte 2


MELHORES EFEITOS VISUAIS

Duna - Parte 2


Daniel Rodrigues

sábado, 1 de março de 2025

"Conclave", de Edward Berger (2024)


GANHADOR DO OSCAR DE
MELHOR ROTEIRO ADAPTADO
 

Existem algumas máximas quando se fala em cinema. Uma delas é: "isso acontece só mesmo em filmes". "Conclave", do diretor suíço Edward Berger, por melhor que seja - e é, sim, um filme bastante apreciável - não escapa de trazer à mente esse quase subterfúgio mesmo numa história baseada em fatos verídicos.

Na trama, com a morte do Papa, o Cardeal Lawrence (Ralph Fiennes) reúne um grupo de sacerdotes para eleger seu sucessor. Cercado por líderes do mundo todo nos corredores do Vaticano, e cada vez mais invadido pelo desejo de tornar-se Papa, ele descobre uma trilha de segredos profundos que podem abalar os fundamentos da Igreja Católica.

A boa atuação de Fiennes como protagonista (um dos 8 Oscar pelo qual "Conclave" concorre e passível de ganhar, o de Melhor Ator) e os excelentes trabalhos de arte, figurino e fotografia, que exploram as simetrias e composição visuais do pictorialismo secular da Igreja, ajudam a sustentar muito bem a trama de suspense que se cria em torno dos bastidores da escolha de um novo Sumo Pontífice. 

Contudo, o final, deixa a desejar. Embora funcione para a lógica do filme, cuja narrativa faz com que se torne crível a eleição de um/a papa/papisa para o sagrado - e misógino - posto do Vaticano, na vida real é muito pouco provável que tal "escárnio" acontecesse. 

Num ambiente altamente político e polarizado como o filme mostra e faz crer, onde a sede pelo poder é levada às últimas consequências (inclusive, incriminar o representante da Nigéria por puro racismo para tirá-lo do páreo, como se sucede), não é possível imaginar que deixassem incólume um cardeal de esquerda, desconhecido e envolto em mistérios só porque o antigo Papa o indicou. Ele sequer avançaria de fase no conclave, quanto menos vencer o pleito da Santa Sé. Indicação do Papa? Diriam: “Que se dane! Afinal, morto não fala (só Jesus)”.

Aquelas cobras vestidas de santidades, ainda mais os da ala reacionária e conservadora representada na figura do Cardeal de extrema-direita, Goffredo Tedesco (Sergio Castellitto), jamais iriam deixar que isso acontecesse se seus personagens não fossem "de mentirinha". Estes tipos odeiam minorias e se sentem - justificadamente - ameaçados por elas. Eles vasculhariam a vida do adversário. Fosse para valer, na segunda ocasião que o arcebispo mexicano, Cardeal Benitez (vivido por Carlos Diehz) tivesse obtido algum destaque diante do grupo, configurando-se em uma ameaça mesmo que incipiente - fato que ocorre no filme, quando este resolve pacificamente a discussão em torno da punição aos insurgentes externos à basílica - já teriam dado um jeito de lhe limar. O motivo para isso não seria nem difícil de encontrar, até porque, Cardeal Benitez não era um mentiroso, só mantinha discrição.

A sensação que se tem é a de que, faltando um argumento capaz de impactar no momento essencial do clímax, a solução a qual se recorreu para o final foi esta: um descuido da Igreja. Pouco razoável para uma instituição que sempre soube muito bem se blindar de tudo que lhe fora perigoso para sua manutenção por séculos, inclusive da própria tentativa de mulheres ao cargo. Recuperando-se um pouco da História, é sabido que a Igreja submetia os candidatos a Papa a um constrangedor teste nas partes íntimas para verificar quem tinha colhões ou não (supõe-se que o autor da obra original e o roteirista saibam disso). 

Talvez hoje no Vaticano se valham de alguma tecnologia menos invasiva e não precisem recorrer mais a métodos tão arcaicos para obter o mesmo resultado - mas que devem se precaver de alguma maneira, devem. O fato é que o desfecho de “Conclave” é daqueles que passa por verdade somente em cinema, pois dificilmente aquela gente esperta e manipuladora se deixaria ser enganada tão vergonhosamente. Isso pesa para um filme que, mesmo bom, presta-se a ser realista.

Fosse preciso, na vida real, a Santa Igreja descobria de um jeito ou de outro o segredo do Papa "não-homem": com constrangimento ou não. (Se bem que, em se tratando da Igreja, é bem possível que ainda queiram manter sádicas "tradições"...)

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trailer de "Conclave"


"Conclave"
Título Original: "Conclave"
Direção: Edward Berger
Gênero: Drama/Suspense
Elenco: Ralph Fiennes, Stanley Tucci, John Lithgow, Sergio Castellitto, Isabella Rossellini
Duração: 120 min
Ano: 2024
País: Reino Unido/Estados Unidos
Onde assistir: Cinemas

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Daniel Rodrigues


sexta-feira, 28 de fevereiro de 2025

Capas de VHS Oscar - "Fargo" e "Missão Impossível"

 




RODRIGUES, Daniel
"Fargo" e "Missão Impossíevel"
Arte para VHS doméstico sobre os filmes "Fargo", de Joel e Ethan Coen, vencedor dos Oscar de melhor diretor 
e melhor roteiro original, e "Missão Impossível", de Brian De Palma, ambos de 1996 - Série Cult Movies
Recorte, colagem e fontes transferíveis pretas e vermelhas sobre papel
26 x 21 cm
Anos 1990

quinta-feira, 27 de fevereiro de 2025

"Emilia Pérez", de Jaques Audiard (2024)

 

GANHADOR DO OSCAR DE
MELHOR ATRIZ COADJUVANTE (ZOE SALDAÑA) MELHOR CANÇÃO ORIGINAL (“EL MAL”)

Ao contrário da maioria dos brasileiros que foi assistir "Emilia Pérez" já  com a faca nos dentes, prontos para desqualificar o rival de "Ainda Estou Aqui", fui com toda a boa vontade e a recomendação de um filme de sucesso em diversos festivais e que conta com a admiração de personalidades relevantes do mundo do cinema.

No entanto, nem tudo isso seria suficiente  para me convencer que trata-se de um grande filme digno das incríveis 13 indicações ao Oscar.

Sem entrar no mérito das polêmicas de representatividade, lugar de fala, estereotipação, que tem cercado o longa desde que se instaurou uma verdadeira guerra nas trincheiras das redes sociais, o produto final "Emilia "Pérez" me parece uma obra sem brilho. Um filme comum cujo grande diferencial é ser um musical dentro de uma trama de máfias e cartéis, mas cuja proposta é  tão mal aplicada que deixa de ser virtude.

Os números musicais, além de maçantes, inoportunos, são utilizados em momentos pouco propícios, mais atrapalhando o desenvolvimento do enredo do que ajudando. Um diálogo bem elaborado seria mais produtivo do que quatro minutos de música com coreografia.

Sem falar que as canções não são nada cativantes. Nada que a gente venha a lembrar daqui a vinte anos, quando escutar de novo, e dizer, "Olha, aquela música do filme 'Emilia Pérez'!".

Gosto muito do filme enquanto um 'policial' de gangues com uma reviravolta inesperada do tipo "mafioso coisa ruim que quer mudar de cara, de vida, desaparecer mas cujo passado não permite essa nova chance", mas até isso a gente encontra em qualquer filmezinho de ação  hollywoodiano do John Woo. E quanto à parte dramática, do remorso, dos desaparecidos, dentro do quadro todo, parece mais uma colagem mal aplicada, e quanto ao tema, o assunto em si, a denúncia, bom...aí o diretor que se entenda com os mexicanos que, pelo jeito, não gostaram nada de um francês metendo o nariz no que não lhe diz respeito.

Não achei um lixo, uma porcaria como muitos compatriotas torcedores consideram. Mas na minha visão, é MUUUITO menor do que parece ser, da ideia que venderam do filme e do tamanho que alcançou. Treze indicações?! Convenhamos, mesmo com todos os méritos que possa ter, é um exagero.

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trailer de "Emília Pérez"



"Emilia Pérez"
Título Original: "Emilia Pérez"
Direção: Jaques Audiard
Gênero: Musical/ Comédia /Drama/ Crime
Elenco: Zoë Saldaña, Karla Sofía Gascón, Selena Gomez
Duração: 130 min
Ano: 2024
País: França / México
Onde assistir: Cinemas

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por Cly Reis 

segunda-feira, 24 de fevereiro de 2025

"Flow", de Gints Zibalodis (2024)

 

GANHADOR DO OSCAR DE
MELHOR FILME DE ANIMAÇÃO


Vou um pouco na contramão da unanimidade em torno de "Flow", filme letão sensação do momento, não somente indicado na categoria de animação, como também para melhor filme internacional. Não que não tenha gostado, gostei, mas para mim é apenas um filme "gracinha". Parece que o diretor fez uma animação legal, criou uma situação, foi colocando alguns personagens e foi resolvendo o que fazer ao longo do trabalho. Não resolveu muitas delas, o resultado não ficou tão bem acabado visualmente mas até que ficou satisfatório, então vamos com isso mesmo... O produto final traz elementos reflexivos, comoventes, cativantes, emocionantes, suas imperfeições técnicas pela utilização de um software limitado soam como um charme, e nisso tudo "Flow", a história de um gatinho preto (ou cinzento, pois o software não nos dá a percepção correta) que tem que lutar pela sobrevivência depois de uma inundação apocalíptica, dentro de um barco, junto com animais de outras espécies, ganhou a simpatia da melosa Academia e capturou o coração do público em geral.

Inegavelmente tem méritos, tem os elementos emotivos de solidariedade, esperança, as lições de sabermos conviver com os diferentes de nós e coisa e tal, mas ao mesmo tempo apresenta muitas inconsistências e sobretudo uma ausência de contextualização de tempo e espaço que para muitos pode ser secundária mas que, para mim, seria sim válido situar o espectador. Em que momento se passa o filme? Não existe mais humanidade? Se não existe, como a casa onde o gato vivia (com humanos) parece tão recentemente arrumada? E por que das esculturas gigantescas? Gatos eram tidos como divindades? (Afinal há enormes esculturas de felinos). Que civilizações viviam ali? Em um momento parece algo Maia, em outro algo hindu ou parecido, em outro algo mais ocidental... Onde eles estão no planeta Terra, em que continente? O homem teria causado a inundação? Mas como se não existem mais humanos? ... Mas... não existem? Muitas questões em aberto m que, em nome de todos os elementos emotivos, das mensagens, dos valores, são jogadas para baixo do tapete e preferimos adorar a fofura do gatinho preto-cinzento.

É lógico que o gato é um amor, os movimentos e os sons dos bichos são adoráveis mas, na minha opinião, não é o suficiente para fazer um grande filme. "Flow" me desapontou muito mais pela expectativa criada, pelo alvoroço, do que pelo que efetivamente é. E o que é? É um bom filme, só isso.

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"Flow" - trailer


"Flow"
Título Original: "Straume"
Direção: Gints Zibalodis
Gênero: Animação/Drama
Duração: 85 min
Ano: 2024
País: Letônia
Onde assistir: Cinemas

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por Cly Reis


segunda-feira, 17 de fevereiro de 2025

"Anora", de Sean Baker (2024)

GANHADOR DO OSCAR DE
MELHOR FILME
MELHOR ATRIZ
MELHOR DIREÇÃO
MELHOR ROTEIRO ORIGINAL
MELHOR EDIÇÃO

A campanha do Oscar está sendo a mais louca e acirrada dos últimos anos, o que tem favorecido alguns filmes e desfavorecido outros. Na categoria de Melhor Filme, muito se falou até então do favoritismo de “O Brutalista” e “Emilia Perez”, os dois de maiores nomeações da edição de 2025 da premiação (10 e 13 respectivamente). Porém, com a corrida maluca que se tornou o pré-Oscar deste ano (o que, inclusive, vem pondo o brasileiro “Ainda Estou Aqui” em boa posição nas categorias de Melhor Filme Internacional e Melhor Atriz), tanto um quanto outro andaram, por motivos vários, perdendo musculatura nas últimas semanas desde que os indicados foram anunciados. Nisso, acabaram dando espaço para que um terceiro filme viesse na contramão e despontasse como um novo candidato: “Anora”.

O “O Brutalista”, filmão típico hollywoodiano, drama histórico, longo, filmado em Panavision, perdeu credibilidade desde a descoberta do uso de inteligência artificial em algumas cenas. Já “Emilia Perez”, queridinho do público e crítica, passou a sofrer uma campanha de difamação pela ausência de atores mexicanos em um filme que se passa no México e pela suposta superficialidade na abordagem da questão LGBTAPQN+. Esses dois aspectos se refletem direto noutra crítica: o desrespeito ao “lugar de fala”, uma vez que o diretor francês é um homem abordando uma questão trans e de um país que não é o seu.

Nessa briga entre favoritos, o cult “Anora”, belo drama com toques de comédia dirigido pelo jovem cineasta norte-americano Sean Baker, aparece como um novo possível vencedor. Palma de Ouro no Festival de Cannes de 2024, o filme conta a história da jovem Anora (Mikey Madison), uma trabalhadora do sexo da região do Brooklyn, nos Estados Unidos, que descobre, numa noite de trabalho aparentemente normal, que pode ter surgido a oportunidade de mudar seu destino quando conhece e se casa impulsivamente com o filho de um oligarca russo, Ivan (Mark Eidelshtein). Em pouco tempo a notícia chega à Rússia e o conto de fadas termina quando os pais de Ivan entram em cena, desaprovando totalmente o casamento. 

O ótimo Yura Borisov no papel de Ygor com a inocente Ani
Afora a ágil edição e as seguras atuações, em especial de Yura Borisov (concorrente ao Oscar de Melhor Ator Coadjuvante por seu papel como capanga Ygor), “Anora” se sobressai mesmo pelo roteiro, fio condutor para uma história inventiva e crítica ao mesmo tempo. Os desdobramentos da situação inicial, o romance entre o mimado ricaço russo e a protagonista, leva o espectador a caminhos surpreendentes, pois é escrito de modo a desfazer expectativas daquilo que geralmente quem assiste espera que ocorra. Afinal, todos são condicionados, por influência justamente do cinema feito nos Estados Unidos, que as coisas descambem para a violência explícita. Mas não. Baker, também roteirista (e que concorre na categoria de Melhor Original), quebra as expectativas mais óbvias, amplificando outra violência: a psicológica. A protagonista, dotada da ingenuidade daqueles que jamais conviveram com quem detém o poder, é sujeita a uma série de brutalidades inerentes à sua condição de mera ”prostituta”, tal como imputam a ela, com exceção do consciente Ygor. Por trás da terrível cosmologia dos personagens, está uma crítica ao que a antiga União Soviética legou de ruim desde sua dissolução: uma sociedade ora pobre e impelida à migração, ora rica por vias impróprias. O solo norte-americano, a ilusão da América, é o lugar perfeito para a existência destas duas “classes” de migrantes, bem como para o desvelamento de seus conflitos.

Mesmo com sua pegada de humor às vezes um pouco a mais do que precisava, “Anora” é profundo e bastante revelador da natureza humana em suas relações de poder, a qual envolve aquilo que move o mundo capitalista: sexo e dinheiro. Não há lugar para meninas sonhadoras e despreparadas como Anora, e isso fica muito claro na forma como é construída a personagem de Mikey, uma pessoa à mercê do sistema opressor em suas diversas esferas, seja econômico-social, seja pela misoginia ou pelo machismo imperantes. Perto de “Emilia Perez”, inconsistente na construção de seus personagens (entre outras fraquezas que apresenta), “Anora” é uma aula de como abordar sentimentos humanos em uma narrativa de um filme para grande público. 

Enquanto outros enfraquecem em sua caminhada para o Oscar, “Anora”, recentemente vencedor dos prêmios de filme no Writers Guild Awards e Producers Guild of America, se robustece. “Emilia Perez” ganhou o Bafta a poucos dias, mas na categoria de Filme em idioma não-inglês, desbancando “Ainda Estou Aqui”, inclusive. Porém, esse reconhecimento tem muito mais a ver com a disputa entre estes dois no Oscar pelo Filme Internacional. Em Filme, “Anora” pode, sim, surpreender. E convenhamos: nunca duvidem de um Palma de Ouro. O exemplo de “Parasita” está aí para provar que isso é possível.

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trailer de "Anora"


"Anora"
Título Original: "Anora"
Direção: Sean Baker 
Gênero: Drama/Comédia
Duração: 2h18min
Ano: 2024
País: EUA
Onde encontrar: Amazon Prime Vídeo

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Daniel Rodrigues

segunda-feira, 3 de fevereiro de 2025

Melhores do Ano Accirs 2024

O ano de 2024 foi desafiador para todo gaúcho por conta dos desastres climáticos de maio. A área do cinema, claro, foi bastante afetada, seja pela interrupção das atividades, seja pelo prejuízo material a espaços e salas de cinema, seja pela natural inserção no cenário local enquanto atividade cultural e econômica, Claro que, indireta e até diretamente em alguns casos, a Associação dos Críticos de Cinema do Rio Grande do Sul (Accirs), em seu 16º ano de atividade, também foi afetada. Atividades que ocorreriam em junho não se realizaram e outras nem se pode cogitar isso. Porém, uma delas, foi mantida: a já tradicional eleição dos Melhores do Ano, que tem por base produções lançadas em mostras e festivais, no circuito comercial e também em plataformas de streaming, no caso, de 2024.

Dividida em dois turnos, a votação selecionou os melhores longas-metragens estrangeiro, brasileiro e gaúcho, além do melhor curta gaúcho do ano. Ainda, os membros da associação entregam, desde a primeira edição dos Melhores do Ano, o Prêmio Luís César Cozzatti, que reconhece filmes, projetos, instituições ou pessoas de destaque no cenário audiovisual gaúcho. Os vencedores foram revelados em primeira mão durante evento sobre crítica online e atuação internacional com o historiador e crítico de cinema Waldemar Dalenogare, realizado no dia 14 de janeiro, na Sala Paulo Amorim da Casa de Cultura Mario Quintana, o qual tive o privilégio de mediar. Sala lotada, público interessado, muitas interações e selfies.

Confira, então, os vencedores do Prêmio Accirs 2024:

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Melhor curta-metragem gaúcho:
"Pastrana", de Melissa Brogni e Gabriel Motta

É hat-trick que se fala quando no esporte alguém atinge a marca de repetir três vezes o mesmo feito, né? Podemos dizer que "Pastrana", dos jovens cineastas Melissa e Gabriel, marcou esse triplete. Primeiro, no 52º Festival de Gramado, em agosto, quando nosso júri do "Gauchão", o Prêmio Accirs para curtas-metragens gaúchos dentro da Mostra Assembleia Legislativa, votou nesta produção para o filme. Mais adiante, em novembro, igual: nosso júri de crítica formado para o 2º Festival de Cinema de Canoas o escolheu. Agora, para ratificar, o grupo de membros consagra este belo documentário de montagem ágil, imagens impactantes e narrativa tocante que presta, por meio de um enfoque muito pessoal, homenagem ao skatista de downhill Allysson Pastrana, falecido trágica e precocemente em 2018 durante uma competição.



Melhor longa-metragem gaúcho:
"Até Que a Música Pare", de Cristiane Oliveira

A Accirs ainda não havia premiado Cristiane nem com o belo "A Primeira Morte de Joana", de 2023,  como também ao brilhante "Mulher do Pai", de 2017, um dos mais importantes filmes da nova cinematografia gaúcha. Agora, enfim, veio o reconhecimento ao seu terceiro longa, que conta a história de Chiara, matriarca de uma família de descendência italiana, e seu marido, Alfredo, que decide acompanhá-lo em uma de suas viagens a trabalho para não ficar só em casa depois que o último de seus filhos sai do lar para morar sozinho. A sensível história, contada com ainda mais sensibilidade pela cineasta, põe o casal diante do maior desafio de suas vidas com o casamento de 50 anos à prova. 



Longa-metragem nacional:
"Ainda Estou Aqui", de Walter Salles

O filme que arrebatou crítica e, incrivelmente, público fora e dentro do Brasil. Mas o fenômeno "Ainda Estou Aqui", embora raro para o cinema brasileiro, tendo em vista o tema e a abordagem competentes mas nada pop como as comédias da Globo Filmes, é totalmente merecido. O filme que levou Fernanda Torres ao Globo de Ouro e o Brasil ao Oscar é uma sensível e comprometida reconstrução da história real da família Paiva, que viu o pai de cinco filhos e marido da resistente Eunice Paiva ser levado pelos militares para nunca mais voltar. Obra forte e necessária - principalmente, no atual momento em que as manifestações fascistas volta a ameaçar as democracias e os direitos humanos.



Longa-metragem Internacional:
"Anatomia de uma Queda", de Justine Triet

O que os olhos enxergam? Que olhos são esses, o do espectador? O da diretora? O de um personagem cego? Os de um cão de olhos sadios, mas irracional? O olhar da Justiça? O brilhante e incomum thriller de Justine é um misto muito bem argumentado de drama familiar, filme de tribunal e análise sociocomportamental da sociedade francesa. Todas as interrogações que o filme levanta e convida o espectador a acompanhar o desenrolar da trama, ora desvendando, ora impondo novos questionamentos. Com isso, outros pontos também surgem: o cinema não seria exatamente isso, a dúvida do que se vê ou se escuta? Mesmo com outros ótimos filmes internacionais em 2024, como "Dias Perfeitos", "Os Colonos" e "Pobres Criaturas", a Accirs teve a lucidez de premiar "Anatomia de uma Queda", outra obra de cineasta mulher assim como os brasileiros "Pastrana" e "Até que...". 



Prêmio Luís César Cozzatti (destaque gaúcho):
Hélio Nascimento

Um dos mais respeitados críticos de cinema em atividade no Brasil, Hélio Nascimento assina há 64 anos uma coluna semanal sobre cinema no Jornal do Comércio, de Porto Alegre. Atualmente com 88 anos de idade, foi agraciado, em 2022, com o Prêmio Gramado 50 Anos no Festival de Cinema de Gramado, honraria destinada a pessoas cujas trajetórias em cinema se destacaram ao longo das décadas. Hélio tem dois livros lançados: "Cinema Brasileiro", de 1981, e "O Reino da Imagem", de 2002, e integra o livro "50 Olhares da Crítica Sobre o Cinema Gaúcho", publicado em 2021 pela Accirs e da qual é sócio-honorário.


Daniel Rodrigues