"Once", canção de Liam Gallagher, do Oasis,
com a participação do ex-jogador francês,
do Manchester United e da seleção francesa, Eric Cantona
Musicalmente, Erasmo já vinha exercitado seu lado tropicalista e independente da figura neo-romântica de Roberto desde “Erasmo Carlos e os Tremendões”, de 1970, passando pelo celebrado “Carlos, Erasmo”, de 1971, e pelo não menos “memorável” “Sonhos e Memória (1941-1972)”, de 1972. Em “Banda...”, o antigo garotão de “Gatinha Manhosa” e “Fama de Mau” chega maduro como músico e como pessoa. Isso se refletia na banda que escolhera trazer para perto de si: a fidelidade do “mutante” Liminha no baixo, a bateria esperta de Elber Bedaque, a guitarra roqueira de Rick Ferreira e a sofisticação jazz-samba do piano de Antônio Adolfo, além das participações de grandes músicos como Perna Fróes, Ruy Maurity, Rubão Sabino e do grupo Karma nos backings.
A diversidade sonora e a caprichada produção, a cargo de Guti e do próprio Erasmo, dão conta de um repertório que mantém o alto nível do início ao fim, com uma construção narrativa típica de quem sabe o que está fazendo. E mais legal é que, contrariamente a uma possível densidade em razão da influência psicanalítica, o disco une saudavelmente reflexões existenciais e filosóficas com sua caracteristicamente saborosa melodia. Até a arte visual é contaminada por esse olhar. No encarte do LP, Benício desenha vários homens se digladiando violentamente. Todos têm o rosto de Erasmo...
A faixa-título, com letra que parece ter saído fresquinha de uma sessão de terapia, é ao mesmo tempo fatídica e engraçada. ‘Às vezes olho no espelho/ Não vejo minha cara/ E com que cara que eu vou me mostrar/ Dentro de mim/ Com o meu saco cheio/ Porque a vida me fez/ Somente do meu tamanho”, dizem os versos. Mas o olhar freudiano contamina, de uma forma ou de outra, praticamente todo o repertório escolhido. O hit “Filho Único”, que inicia o disco e que foi tema de abertura da novela da Rede Globo Locomotivas, é uma das músicas mais sensíveis de toda aquela geração. Com uma letra que fala da busca de autonomia e independência de um filho sem irmãos para com sua genitora, traz alguns dos versos mais duros que a música brasileira já escreveu, justamente por contar uma verdade pouco admitida na sociedade daqueles idos: a de que os filhos são do mundo, não dos pais. O mundo agora é seu dono, “e nos seus planos não estão você”. Ele e Roberto, autores, abrem dizendo: “Ei mãe, não sou mais menino/ Não é justo que também queira parir meu destino”. Quer sentença mais psicanalítica que essa? Uma das joias do pop rock brasileiro de todos os tempos.
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| Arte de Benício no encarte do LP: vários Erasmos contra eles mesmos |
E se é para manter o nível lá em cima, nada melhor do que uma inédita como “Queremos Saber” na sequência. Assim como Caetano Veloso havia dado a Erasmo “De Noite na Cama” anos antes, agora era o outro tropicalista-mor, Gilberto Gil, que lhe presenteava com uma canção. E que canção! Indagadora, esta delicada balada caía como luva para a voz doce de Erasmo. Quem não há de ficar impactado (ou, pelo menos, reflexivo) com esses versos?: “Queremos notícia mais séria/ Sobre a descoberta da antimatéria E suas implicações/ Na emancipação do homem/ Das grandes populações/ Homens pobres das cidades/ Das estepes, dos sertões”. Cássia Eller regravaria “Queremos...” 25 anos depois e as interrogações continuariam as mesmas...
Em época de autoanálise, por que também não promover a investigação do que se põe como externo? É o que Erasmo e Roberto, em mais uma da dupla no disco, fazem, literalmente, com muita “descontração”. Monstro do Lago Ness, Carnaval, 10 Mandamentos, homem na Lua, guerras: está tudo em “Análise Descontraída”. Erasmo mostra-se indignado e incrédulo com o que vê à sua volta. “Eta mundo velho/ Você me parece ainda um ovo/ Ou então precisa urgentemente se acabar pra nascer de novo”. Morte, nascimento, valores ultrapassados, violência, modernidade confusa... Mais uma vez, a bendita terapia pegando.
Uma epifania em um cenário turbulento, “Dia de Paz”, de Jorge Mautner e Adolfo, evoca o Erasmo hippie de “Gente Aberta” e “Por Cima dos Aviões”. Outra que parece se deslocar no tempo e espaço para fugir um pouco da realidade é “Continente Perdido (Terra de Montezuma)”, uma fenomenal composição de Maurity e José Jorge, que conta com flautas e arranjos de Perna e uma sonoridade toda latina de raiz. Ousadias que Erasmão se permitia. Assim como a deliciosa “Baby”, mais uma de autoria com Roberto, um funk matador aos moldes de “Mundo Deserto” em que volta a usar sua verve contestadora para criticar... os homens como ele! Em sua descida às próprias profundezas, Erasmo, diante de uma feminista empoderada, vê-se inerte. “Deixe os seus protestos e os manifestos/ Pra outra periferia/ Não fui eu quem fez as leis/ Que não lhe dão maior autonomia/ Mas, se não dá/ Vamos fazer o nosso amor num outro dia”. Genial! Com uma linha de sopros de primeira, o baixo pulsante de Rubão, a bateria suingada de Pascoal Meirelles e as guitarras de Perna e Gabriel O’Meára, tem ainda o bass vocal de Erasmo marcando o ritmo.
Igualmente a “Dia de Paz”, “Fatos e Fotos”, de Luiz Mendes Jr. e Renato Terra, integrantes da Karma, baixa de novo a rotação numa canção romântica como as que Erasmo era craque em interpretar desde a Jovem Guarda. Isso porque, para encerrar, ele manda ver num country-rock ao mesmo tempo empolgante, lúdico e audacioso: “Billy Dinamite”, dele e de Rick. Audacioso, primeiramente, na concepção, haja vista que é a primeira música, após quase 20 anos de carreira artística, escrita com outro parceiro que não Roberto. Depois dele, viriam muitos outros, de Marisa Monte a Nelson Motta, de Samuel Rosa a Emicida. Narrando uma história típica de um livrinho barato do Tex, em que um mocinho se apaixona pela filha do cacique da tribo inimiga e, sabendo que sentenciara a própria morte por causa do amor, “fez a cama na montanha para ficar mais perto do céu”.
O anterior “Carlos, Erasmo”, seu mais cultuado álbum, bem como os posteriores “Erasmo Carlos Convida” (1980), “Mulher” (1981) e, já da última fase, “Rock‘n’Roll” (2009), são considerados marcos na discografia do Tremendão. Porém, nenhum outro é tão autoral e fala tanto sobre o próprio artista como “Banda...”, um divisor-de-águas em sua carreira. Com sua "cuca legal" e “descontente” com o que devia ser, Erasmo antecipava, por exemplo, a crítica à masculinidade tão em voga hoje, expondo angústias, dúvidas, insatisfações e, principalmente, fragilidades do homem moderno. No brutalizado Brasil dos anos 70, de ditadura militar e supremacia da machosfera, Erasmo era um homem que chorava e se permitia emocionar. “Banda...” reflete, assim, mais do que qualquer outro trabalho seu aquilo que sempre lhe atribuíram: o de ser um verdadeiro Gigante Gentil em um mundo de cada vez menos gentilezas.
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Por falar em clássico, foi assim que iniciaram a apresentação: emendando nada menos que três de seus maiores sucessos: “Entra Nessa”, “Ana Banana” e “Identidade Zero”. Ufa! Um começo arrasador.. Porém, de certa forma parece que Charles Master, Márcio Petracco, Tchê Gomes, João Maldonado, Fábio Ly, Paulo Arcari e Felipe Jotz gastaram metade da pólvora antes do primeiro quarto de batalha. Não que depois tenha necessariamente decaído ao tocaram músicas menos conhecidas ou tão aclamadas, mas o som mal equalizado (que embolava os sons e dificultava que se entendesse aquilo que já não se sabe de cor), somado à longa duração do show inteiro, deu um certo cansaço.
Mas tudo bem, afinal, show de rock de verdade passa por cima de som ruim ou algum equívoco de repertório, e o público compareceu mesmo para vê-los tocar as músicas que uma geração inteira de gaúchos cresceu ouvindo nas rádios. Caso de “Irmã do Dr. Robert” e “Oh Deby”, esta última, assim como as três citadas do começo do show, composições de autoria de Flávio Basso (ou Júpiter Maçã ou Jupiter Apple). Aliás, ou eu não entendi pelo som embolado das falas entre as músicas ou ninguém mencionou Flávio, que, convenhamos, é o arquiteto da T.N.T., a cabeça mais criativa não só da banda, mas de todo o rock gaúcho em todos os tempos. Estranho...
Além do disco de estreia, teve também coisas das outras fases, como os hits “Não Sei” (“Não sei se eu tô certo ou se eu tô errado/ Mas faço tudo o que eu digo e digo tudo que eu faço”), “Não Vai Mais Sorrir (Pra Mim)” (ambas de “TNT nº 2”, de 1988 e já sem Flávio na formação), “Noite Vem, Noite Vai” e “Quem Procura Acha”, duas do terceiro álbum de estúdio da T.N.T., de 1991. O público gostou.
O hit "Não Sei" com sua melodia a la "Sweet Jane"
Rolou ainda uma participação da Orquestra Rosariense, que não acrescentou muito, na verdade. Tanto que a banda tocou, no bis, exatamente as músicas que haviam rearranjado para as cordas, “Muito Cuidado” e “Nunca Mais Voltar”. Mais para o final, teve outra consagrada, “Cachorro Louco”, desses rocks imbatíveis, dos melhores do BRock anos 80. Para encerrar, “O Mundo É Maior Que o Teu Quarto”, da Cowboys Espirituais, uma das corruptelas da T.N.T. assim como a Tenente Cascavel e a Cascavelletes. Baita música, regravada por gente como Barão Vermelho, mas que, por não terem dosado melhor a narrativa do show e gastado as melhores lá no início, talvez não fosse a mais indicada para encerrar.
Mas, de novo, tudo bem! A noite foi para celebrar o bom e velho rock ‘h’ roll, o que a T.N.T. representa no mais alto grau. Deixa pra lá a acústica ruim, o andamento do repertório. O negócio foi “entrar nessa” e “dançar um rock ‘n’ roll”. Foi o que fizemos - e foi legal.
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| Começa o show da lendária T.N.T. |
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| Acompanhando a letra no telão de "Entra Nessa",clássico do rock gaúcho |
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| Repertório do primeiro e dos outros discos da banda compuseram o show |
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| Mais clássicos |
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| Tocando "Nunca Mais Voltar", das preferidas da galera |
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| Estes dois roqueiros felizes por ver a T.N.T. celebrando os 40 anos de sua estreia |
Não que filmes não possam ser assim. Muitos o são. Mas séries, enquanto produto audiovisual, estão muito mais propensas e têm muito menos chance de escapar desse buraco negro da indústria cultural. Se não há problema na continuidade, há nas atuações. Se não peca por estender demais a história, erra na abordagem dos fatos. Se não abre muitos leques narrativos, tem dificuldade de sustentar arcos dramáticos em mais de um episódio. Filmes de longa-metragem (aliás, cada vez mais longos, num movimento reativo de serialização pelo qual o ameaçado cinema comercial atual passa) não estão salvos desses descaminhos, mas, na comparação filme X série, inegavelmente a obrigatória condensação de conteúdo do primeiro sai em vantagem pelo simples fato de impor formalmente aos realizadores de cinema "tradicional" resolverem essas irregularidades em menos tempo.
De vez em quando, no entanto, claro que arrisco alguma série. Dante do entusiasmo em torno da série brasileira da Netflix “Emergência Radioativa”, bem como por causa de meu interesse no tema do acidente radiológico de Goiás, peguei-a para assistir. A minissérie é baseada na história real ocorrida em Goiânia, em 1987, quando catadores de sucata encontram uma substância brilhante num hospital abandonado. O material altamente radioativo, césio-127, que emitia uma luz azul no escuro, passa de mão em mão até ser descoberto. Então, inicia-se uma corrida contra o tempo para evitar uma tragédia de proporções devastadoras.
“Emergência...”, entretanto, mais uma vez comprova minhas percepções sobre série - as ruins. Estrelado por Johnny Massaro, esse sucesso de audiência perde-se justamente naquilo que mais se exige de qualquer produto audiovisual: a narrativa. Os primeiro e segundo episódios até começam bem. Aliás, muito bem. No inicial, onde se estabelece o perfil narrativo da história, recuperando cronologicamente cada dia que antecedeu e a partir da crise deflagrada, os fatos vão sendo contados de uma maneira bastante instigante. Já o segundo episódio é especialmente interessante, porque espelha as ações levantadas no primeiro, explicitando o tamanho do estrago que causaram. Se na parte 1 aparecia a menina Celeste sendo detectada com radiação, por exemplo, na continuação é quando se vê que ela não só teve muito mais contato com o pó de césio-137 do que se imaginava.
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| A pequena Mari Langaro como Celeste no colo da mãe |
Porém, o formato série paga seu preço, e na terceira parte a consistência narrativa cai drasticamente. E pior: as inconsistências até então relevadas começam a saltar da tela. Ritmo, repetições, atuações deficientes. Uma dessas inconsistências, para pegar a mesma personagem exemplificada anteriormente, é a pequena Celeste. A lindinha atriz mirim Mari Lauredo não sustenta as cenas minimamente mais exigentes por conta de sua fraca atuação e/ou direção. Artificial e sem expressividade. E não só ela. Há momentos importantes da narrativa que perdem muito por causa de más interpretações como estas.
Massaro, senhor de papéis intensos e trágicos (os filmes “Os Primeiros Soldados” e “O Filho de Mil Homens” e a série “Máscaras de Oxigênio não Cairão Automaticamente”), se sai bem, pois conduz a história. Porém, Leandra Leal, ótima atriz, diz mais a que veio na novela caipira da Globo do que na série dramática. Um desperdício. Fora isso, a tecnicamente cuidada produção (a reconstituição daquela Goiás anos 80 é bem crível) não se atenta àquilo que a faria crescer: a história verídica em si. Pela intenção de dramatizar, deixa de perceber que o melhor negócio para atingir esse drama é uma pitada maior de documentário. Sobreviventes da tragédia vem tecendo críticas bem fundamentadas por conta disso.
Demonstrando que sentiu o golpe, nem o desfecho se salva, com uma pretensa comunhão dos afetados, sem, contudo, mencionar a formação da Associação das Vítimas do Césio-137 (AVCésio), criada nos anos 1990. Uma longa luta vem se travando pelos contaminados por seus direitos, que reclamam informações confiáveis sobre seus estados de saúde e sobre os reais riscos aos quais foram expostos, além do direito à assistência social e médica e direito básico de reconhecimento pelo Estado da gravidade de sua condição clínica. Nada disso foi contextualizado, num quase desserviço. Ah, séries: me ajudem a te ajudar...
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trailer da minissérie brasileira "Emergência Radioativa"
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Somente este contexto já é suficiente para me aproximar tanto do filme, que reduz minha chance de não gostar. Afinal, o aguardado longa de Fuqua, sucesso de bilheteria, é, sim, apreciável, mas abertamente comercial. Com a direção tecnicamente perfeita e a abordagem pop, como lhe é característico, o cineasta, um dos eminentes negros do cinema norte-americano atual, conta a história do maior astro pop de todos os tempos (interpretado por seu sobrinho Jaafar Jackson) de forma cronológica, porém com um recorte acertado, haja visto que não vai até a sua morte. Pegando do começo da vida artística, ainda criança com os irmãos companheiros de Jackson 5, passando pela ascensão da carreira solo, vai até o fatídico momento em que Michael se desenvencilha do opressor pai, Joe - vivido por Colman Domingo, num papel digno de indicação a Oscar. As belas cenas musicais e o realismo de diálogos ajudam a cumprir bem esse recorte narrativo, que nada mais é do que a escolha central da trama: a conturbada relação de Michael com o pai.
No que se refere a Joe Jackson, cabe uma reflexão sociológica. Afinal, como o histórico de racismo, intolerância e perseguição aos negros nos Estados Unidos gerou pais de família afro-americanos rancorosos, mesquinhos, infelizes e invejosos! E pior: dada a baixa autoestima deles, revoltados com uma sociedade que lhes esmagou e não lhes deu oportunidade de brilharem com seus talentos individuais, usam esses sentimentos somenos, justamente, contra aqueles que deviam amar. É o caso de Joe e o caçula Michael, mas também com outros artistas negros do século 20, como Ike Turner para com a esposa Tina Turner e o pastor C. L. Franklin com sua filha Aretha. Todos psicologicamente doentes e tiranos domésticos. Incapazes de admitir que seus próximos são, sim, astros com mais brilho que eles, entram em rota de colisão e numa cruzada para obscurecê-los. É triste de se ver tamanha perversidade, mas explicável em um contexto maior.
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| Domingo na pele do perverso Joe Jackson: digno de Oscar |
Para quem acompanhou Michael Jackson desde criança até a fase adulta sabe que muito do que é mostrado faz sentido, mas também que há um cuidado em tratar de temas delicados. Porém, essa é a hora de trazer à tona essas delicadezas, se não, fica estranho.
E é aí que a proximidade de fã com a obra do artista faz com que seja impossível não se notar as lacunas. Quanto mais fã, aliás (e nem sou o maior conhecedor de MJ, repleto de ardorosos apaixonados pelo mundo todo), mais se sabe dos fatos verídicos. E me refiro a lacunas importantes, basais. Em "Michael", um dos assuntos faltantes foi criticado antes mesmo do filme ser lançado: o nebuloso (mas possivelmente verdadeiro) caso de abuso sexual sofrido por ele na infância. Nem uma menção, mesmo que sutil para não escancarar algo tão traumático? Pesa negativamente, uma pena.
Outro ponto faltante: onde está Diana Ross? E Stevie Wonder? Ambos admirações de Michael e com quem ele conviveu, tocou, filmou e gravou. Não foi possível incluí-los no roteiro? Foi uma opção? Há questões contratuais que impeçam? Verba para pagar direitos de imagem duvido que os produtores não tivessem.
O que me pesou também foi a ausência de referência ao filme "O Pequeno Príncipe", de 1974. Falou-se acertadamente de Gene Kelly, James Brown, Charles Chaplin e Fred Astaire, inspirações mais óbvias de Michael. Mas seria importante informar a quem não sabe de onde vieram várias de suas referências coreográficas: da dança da serpente no deserto, brilhantemente coreografada pelo ator e dançarino Bob Fosse. Há gestuais idênticos aos eternizados por Michael, dentre os quais o famoso passo Moonwalk, marca registrada de MJ. Tiveram medo de expor Michael e ferir sua imagem? Embora a clara semelhança da dança de um e de outro, não parece uma mera imitação e, sim, uma forte inspiração, por isso não faria nenhum mal em se revelar isso ao grande público. Ao contrário: traria mais uma das referências pop que a genial cabeça de Michael conseguia reunir e devolver em forma de arte.
A semelhança das danças de Michael Jackson e Bob Fosse
De tudo que não está em "Michael", no entanto, o que mais me ressenti foi não se mostrar com mais detalhe o processo criativo do Rei do Pop ao compor. Há vídeos de matérias jornalísticas que registram esse processo, algo absolutamente fascinante de se ver, ainda mais considerando que ele, dono de ouvido absoluto, não precisava (assim como Elis Regina e Lupicínio Rodrigues) tocar nenhum instrumento para saber exatamente o que queria em sua música. Fuqua opta por evidenciar mais o processo de criação coreográfica - o que faz com perfeição nas cenas de "Beat It" e "Thriller" -, mas dá menor relevância para a invenção musical. No máximo, situa o conceito impulsionador de determinadas canções, como coisas que ele via na TV. Como fã, saí frustrado por isso, pois esperava por mais.
Cinebiografias não são necessariamente completas, é certo. Mas quem vê, por exemplo, "O Tempo não Para", sobre Cazuza, sente falta de se mencionar ou representar Ney Matogrosso, pessoa sabidamente fundamental na vida íntima e artística do autor de "Ideologia". Contudo, não dá para alguém que conhece o objeto do filme fechar os olhos para o que (não) está vendo. Ainda mais, quando se tratam de informações importantes.
Há representatividade e "lugar de fala" na direção de Fuqua, uma vez que somente os tempos atuais deram condições a uma produção dessas ser realizada por um cineasta negro. Para ele, pessoalmente, deve ser uma realização abordar um ídolo formativo. Entendo isso. No entanto, fica por aí a reserva autoral. O final de "Michael", que deixa reticências para uma sequência, fecha a tampa dessa abordagem excessivamente comercial da obra: recorta-a até um ponto bem estipulado, mas, fatalmente, não a desfecha com o impacto que merecia. Como geralmente ocorre, o lado business compromentendo o artístico. Mas para um cineasta que esticou até a inanição uma franquia que começou legal como "O Protetor", não é de se estranhar que ainda produza tantas sequências de "Michael" quanto as de "Velozes & Furiosos". E o público do entretenimento, sem maiores distinções, vai adorar.
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Trailer de "Michael", de Antoine Fuqua
👑👑👑👑👑👑👑👑👑
por Cristian Verardi
A angústia do luto, a não aceitação de uma perda, sempre forneceram tramas intrigantes para o cinema, não sendo incomum histórias dolorosas de pesar andando de mãos dadas com o puro horror. David Cronenberg explorou o tema em seu recente "O Senhor da Morte" (The Shrouds) e "Faça Ela Voltar" (Bring Her Back), novo filme dos irmãos Phillipou, também se enquadra nesse perfil. Aqui, então, 10 exemplos de filmes que mesclam luto e horror.
1 - "Inverno de Sangue em Veneza", Nicolas Roeg (ING, 1973)
2 - "A Troca" ou "O Intermediário do Diabo", Peter Medak (CAN, 1980)
3 - "Dr. Morte" , Errol Morris (EUA, 1999)
4 - "Cemitério Maldito", Mary Lambert (EUA, 1989)
5 - "Os Outros", Alejandro Amenábar (EUA, 2001)
6 - "O Orfanato", Juan Antonio Bayona (ESP/MEX, 2001)
7 - "O Segredo do Lago Mungo", Joel Anderson (AUS, 2008)
8 - "A Casa Sombria", David Bruckner (EUA, 2020)
9 - "Hereditário", Ary Aster (EUA, 2018)
10 - "The Surrender", Julia Max (CAN, 2025)
Num desses dias, o passeio começou de manhã pela orla da
Beira-Mar Norte, um dos cartões-postais de Floripa, com suas pistas para
circulação e prática de esportes por toda extensão, banhado pelo mar represado
entre a ilha e o continente, assim como a icônica ponte Hercílio Luz, que liga
os dois pedaços de terra que compõem a capital catarinense.
Capital esta, um dia chamada de Nossa Senhora do Desterro,
cheia de história, constituída ao longo de 4.500 anos pelas nativas e dizimadas
tribos indígenas Kaingang, Xokleng e Guarani; os escravos negros, vindos principalmente de Moçambique, na África Austral; o
papel desbravador dos oportunistas exploradores Bandeirantes, os açorianos ocupantes e as
figuras históricas catarinenses, tal Anita Garibaldi, Nereu Ramos, Othon da
Gama Lobo d’Eça e o já mencionado Hercílio Luz, engenheiro e político. Parte
disso pudemos ter contato na exposição permanente Museu de Cidade, presente no
Museu de Florianópolis, hoje comandado pelo Sesc SC e que fica num prédio
histórico do Centro, o qual já serviu de Casa de Câmara e Cadeia
Municipal.
Antes, contudo, entre o passeio na Beira-Mar Norte e um
almoço no Shopping Beira-Mar, mais deriva pelas ruas da cidade, que lembram por
vezes Rio de Janeiro, Porto Alegre e São Paulo, até chegar no Marcado Público,
patrimônio histórico e cultural de Floripa. Dele, tinha vaga e prazerosa
lembrança de quando fui, há uns 20 anos, a qual se confirmou como num deja vu.
Aquele clima de mercado público de metrópole, com suas bancas de souvenires,
artesanato, comidas típicas, gentes e movimentação. Nem pestanejo em dizer que
a melhor comida da viagem foram os sanduíches da banca Paradinha do Fernando,
um pãozinho francês tostado com recheio de omelete com calabresa e outro de bolinho
de carne. Uma atração turística, que se soma à simpatia e o bom atendimento do próprio
Fernando e de sua equipe.
Teve também uma passada na loja de artesanato da Casa da Alfândega,
outro prédio histórico, ao lado do Mercado, um dos pontos iniciais da cidade. Pertencente
ao IPHAN e Inaugurado em 1876, em uma cerimônia que coincidiu com o aniversário
da princesa Isabel, ali, onde hoje se celebra a arte dos artistas indígenas,
sambaquis e nativos da ilha, um dia foi o principal centro alfandegário de Florianópolis,
até o fechamento do porto, em 1964. Um dia, ali se comercializou de um tudo,
que chegava à ilha como mercadoria pelas embarcações. Inclusive escravos.
Essa Florianópolis mais evidente e ao mesmo tempo mais
profunda carrega no seu sol e no calor ameno muita energia, guardada naquelas
construções históricas, naquelas calçadas pedregosas e na complexidade da
intersobrevivência, que se enxerga em quem está vivo +e em quem não está – mas
um dia esteve. Como é, por sinal, todas as cidades históricas.
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| Cena matinal na Beira-Mar Norte |
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| Eu amando Floripa |
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| Mais da manhã ensolarada na Orla de Florianópolis |
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| Detalhe das pedras |
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| O mar e o Continente ao fundo |
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| Barcos |
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| Uma das antigas estações de bombeamento desativadas, mas cujos prédios são patrimônio histórico |
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| Foto de dia anterior com o Mercado Público, ao fundo, e a Casa da Alfândega, em seu tom amarelo característico |
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| Os cachorros do Centro |
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| Movimento interno do Mercado Público |
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| Encontramos Roberto Carlos cantando e lucrando uns trocados no Largo da Alfândega |
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| Loja dentro do prédio histórico Casa da Alfândega |
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| A Bruxa, presente no folclore da Ilha, controlando da porta quem entra em quem sai |
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| Instrumentos dos sambaquis no Museu da Cidade |
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| Fotos de escravos vindos de Moçambique para a Desterro colonial |
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| Esta dupla terminando seu passeio pelo Centro de Floripa |