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quarta-feira, 14 de outubro de 2026

Música da Cabeça - Programa #481

 


Hoje o MDC vai explicar para te confundir e te confundir para te esclarecer. Ficou confuso? Ouve o programa, que Tom Zé vai te trazer todas as respostas - e perguntas também. Celebrando os 90 anos do genial baiano de Irará, a edição de hoje está recheada de coisas dele, além das presenças ilustres de Beck, Os Saltimbancos, Fine Young Cannibals, Renato Russo e mais. Como uma fera que berra, o programa de hoje entra na atmosfera da Rádio Elétrica às 21h. Produção e apresentação sem a letra A: D'niel Rodrigues 



www.radioeletrica.com

domingo, 11 de outubro de 2026

Tom Zé - "Todos os Olhos" (1973)


"aqui, vão, pois, os meus olhos, que já estão ficando velhos, com um abraço para o novo tomzé por este que é o melhor dos seus discos. a carne viva de brigitte, todos os olhos, a noite de meu bem ou a claridade cortante de o riso e a faca ou a pergunta-sem-resposta de cademar são choques de beleza crua para nós e até para ele, que está mais tomzé e mais novo do que nunca."
Augusto de Campos,
no texto do encarte do disco

O antropólogo belgo-francês Claude Lévi-Strauss conta, em seu célebre livro “Tristes Trópicos”, onde narra sua passagem pelo Brasil profundo de povos originários, comunidades isoladas e organizações sociais da vida brasileira, a experiência vivida enquanto “viajante” na aldeia indígena Nambikwaras, no estado de Mato Grosso. Observando aquela “humanidade completamente desvalida”, “esmagada” e “ingênua”, Lévi-Strauss capta daquela tribo, entretanto, uma profunda “doçura” e “comovente ternura”. Tal observância só pode existir, justamente, pelo olhar “viajante” daquele que não pertence originalmente ao lugar mas que, diante de tamanha empatia e cumplicidade, acaba por, pelo menos naquele instante, pertencer também à terra estrangeira.

Recorrer a uma explicação antropológica talvez seja a única forma de compreender a complexidade da figura de um artista tão incomum Tom Zé, em última análise, um estrangeiro neste mundo deslocado. Natural de Irará, cidade do interior da Bahia localizada no chamado Portal do Sertão, Antônio José Santana Martins nasceu há exatos 90 anos e tornou-se, ao se mudar para São Paulo em plena fase de consolidação desta como centro nervoso do País, o mais moderno músico paulistano de sua geração. Estrangeiro também porque é o primeiro tropicalista, não só por ser mais velho que Caetano Veloso, Gilberto Gil e Mutantes, mas porque, ainda em sua cidade-natal, no final dos anos 50, já escrevia, antes deles todos, músicas totalmente distintas de qualquer tradição local. Estrangeiro, pois, capaz de unir, com intencionalidade monástica, seresta sertaneja, samba rural e música sacra à mais rebuscada dodecafonia da vanguarda europeia.

Este artista tão ímpar, cujos estudos antropológicos ainda hão de dar conta, faz recordar mais uma vez da visão/posição de viajante de Lévi-Strauss quando trata da São Paulo que o abrigou. Tom Zé já havia composto canções que viraram verdadeiros hinos alternativos da capital paulista, como “São São Paulo”, de 1968, mas é em “Todos os Olhos” que ele extravasa essa vivência de “estrangeiro nativo”. Disco de 1973, quando dos anos de chumbo do Governo Militar, é uma obra totalmente madura de Tom Zé musicalmente falando, mas também enquanto ser político e crítico. Auge do chamado pós-tropicalismo, é também um marco do movimento concretista, tanto pela música quanto, principalmente, pelo conceito, uma vez que o poema popcreto "olho por olho", do amigo e parceiro Augusto de Campos, de 1964, inspira o trabalho como um todo. Ainda, a icônica e polêmica capa de “Todos...”, de autoria de outro poeta e artista visual paulistano e concretista, Décio Pignatari, é a da famosa foto em superclose de um ânus com uma bolita. Claro, os censores da Ditadura não identificaram nada de estranho e a aprovaram. Ora, para representar com ironia e fúria “todos os olhos” da vigília, nada melhor que o olho do cu.

“Todos...” é daqueles discos em que o recheio acompanha plenamente o invólucro. Ironia, poesia, tradição, ritmo, crítica social. E autocrítica, a se ver pela brilhante e impactante faixa de abertura “Complexo de Épico”. Em um ritmo desconstruído, algo que talvez formulasse um samba caso estivessem suas partes conjuntadas, a letra, genial, fala dele mesmo, Tom Zé, mas cutuca toda a turma da MPB diante daquele momento político tão problemático. “Todo compositor brasileiro é um complexado/ Por que, então, essa mania danada/ Essa preocupação de parecer tão sério?” Tom Zé indaga seus colegas: para quem vocês estão falando? Há efetividade na mensagem de suas canções? E conclui, sem clemência: “Ah, meu Deus do céu/ Vá ser sério assim no inferno!”.

Se o número de abertura fala aos pares, a segunda faixa evoca uma outra compositora da música brasileira, Dolores Duran, numa versão dissonante do samba-canção "A Noite do meu Bem". Em seguida, uma que fala diretamente à sua amada São Paulo: “Cademar”. Escrita sobre uma poesia de Augusto de Campos, fala em seus poucos versos sobre uma das peculiaridades da capital paulista: a ausência do mar. Ao mesmo tempo, dá a ideia de saudade e também faz uma analogia a um amor que foi embora, ausente daquele território, como que antecipando os versos de Criolo: “Não existe amor em SP”. E Tom Zé faz isso numa pequena obra-prima de música concreta. A letra é construída a partir da fragmentação sonora e visual da pergunta: "Ô, cadê Maria que não vem?", transformando-a em uma estrutura sincopada, repetitiva e não discursiva que lembra o bater de um metrônomo – ou de um coração.

Poema visual popcreto "olho por olho", de Augusto de Campos,
que inspirou o conceito do disco de Tom Zé e presente no encarte

O experimentalismo, então, desdobra-se num ato essencialmente orgânico na faixa-título. Estrategicamente alocada no quarto lugar, quando o disco já transcorria “naturalmente” e distraída a atenção dos censores, chegava a hora de ser mais contundente na denúncia à Ditatura. Do batimento cardíaco, o aceleramento angustiado; do sentimento romântico, o de medo da morte. “Todos os Olhos” diz, numa pouco disfarçada referência às torturas: “De vez em quando/ todos os olhos se voltam pra mim/ de lá de dentro da escuridão/ esperando e querendo que eu seja um herói/ Mas eu sou inocente”. E termina jurando inocência, agonizante, como se realmente estivesse em uma sessão de tortura. Corajosa e mordaz.

"Dodó e Zezé", com cavaquinho do maestro tropicalista Rogério Duprat, vale-se da música interiorana paulista para travar um engraçado e ferino diálogo com Odair Cabeça de Poeta, coautor com Tom Zé, numa espécie de rap-sertanejo. Como que pitando uma palha e sentados à praça, os dois conversam sobre os mais filosóficos temas, redundando sempre em alguma conclusão tão caipira quanto nada simplória. Por exemplo: Dodó pergunta: “E por que é que a gente tem que ser marginal ou cidadão? Diga, Zezé”. Ao que ele responde: “É pra ter a ilusão de que pode escolher, viu, Dodó?”. Sem refrão, num tempo melódico atípico. Traços de uma São Paulo rural a qual, literalmente, se constrói em outro tempo, que não o a velocidade insana da metrópole.

O delicioso xote “Quando Eu Era Sem Ninguém", com participação do grupo Capote, antecipa outra em que a avant garde prevalece, que é "Brigitte Bardot". Sem centro tonal, sem ritmo, sem refrão, constrói-se num texto sobre o inevitável envelhecimento da sex symbol francesa. Quase uma resposta a “Dodó e Zezé” (mas também a “Complexo de Épico”), reflete as consequências da inexorável passagem do tempo. “Os nossos sonhos querem pedir divórcio.” Até os mitos morrem.

O clássico "Augusta, Angélica e Consolação" é outra leitura do “viajante” em terras estrangeiras, que vira imediatamente um segundo hino de São Paulo. Samba-canção sobre casos de amor não retribuídos, faz uma analogia geoafetiva com a cidade, transformando as conhecidas vias urbanas em musas, cada uma com sua personalidade – não à toa, a ver com a própria avenida. Augusta, vaidosa como as lojas de roupas importadas de seu entorno. Já Angélica, focada apenas no trabalho a ponto de cheirar como os consultórios médicos que lhe povoam. Contudo, Consolação - bairro da vida alternativa da cidade - foi-lhe a única a corresponder o amor. Para quem havia composto um ano antes "A Briga do Edifício Itália e do Hilton Hotel", colocando em um contexto anedótico os dois prédios icônicos da arquitetura paulistana, "Augusta..." é um avanço nessa interação poética do artista com a fisiologia da cidade.

Sampa permanece em “Botaram Tanta Fumaça”. Mas agora, ao invés de uma ode, um banho de realidade. Samba com frescor da MPB universitária, tem o inteligente riff de cavaquinho, uma das características da síntese que Tom Zé faz do samba em suas diversas vertentes, ao passo que também aproxima o ritmo brasileiro dos modos minimalistas da vanguarda (algo que se agigantaria no seu trabalho seguinte, o notável “Estudando o Samba”). A letra, por sua vez, é pura crítica e sarcasmo para falar da poluição do ar (e das mentes): “Botaram tanto lixo/ Botaram tanta fumaça (...) por baixo da consciência da cidade/ que a cidade tá (...) com a consciência podre”.

Encaminhando para o final do álbum, a bela e contundente valsa “O Riso e a Faca” (“Eu sou a raiva e a vacina/ Procura de pecado e conselho/ Espaço entre a dor e o consolo/ A briga entre a luz e o espelho”) precisa de pouca instrumentalização para propor sua melodia dissonante e seu canto fragmentado. Esta vem prosseguida de outra quase vinheta, mas de muito conteúdo assim como “Cademar” e “Complexo...”, que é "Um 'Oh' e um 'Ah'". Brincadeira musical com os vocálicos “a” e “o”, tornou-se, anos mais tarde, inspiração para o belo trabalho infantil de Tom Zé em parceria com o artista visual Elifas Andreato em que criam todo um universo léxico sobre esta ideia. Música, aliás, que, sozinha, inspiraria também projetos igualmente paulistas e lúdicos como Premê, Os Mulheres Negras e Palavra Cantada.

O distanciamento estratégico de Tom Zé, seja para com sua adotiva São Paulo, seja para com todo o universo musical e filosófico que o coloca entre os grandes criadores da música brasileira moderna, deu a ele as condições de compor um dos mais brilhantes discos da MPB dos anos 70. E esse feito não diz pouco. Como um viajante capaz de enxergar o que os nativos nem prestam atenção, o baiano de Irará não apenas identifica a profunda ternura que há na terra alheia como, encantado e absorvido pela própria, também se torna parte do corpo daquele lugar. Nem que seja por um instante equivalente a 90 anos de vida.

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FAIXAS:
1. "Complexo De Épico" - 1:19
2. "A Noite Do Meu Bem" (Dolores Duran) - 3:06
3. "Cademar" (Augusto de Campos, Tom Zé) - 0:45
4. "Todos os Olhos" - 3:31
5. "Dodó e Zezé" (Odair Cabeça de Poeta, Tom Zé) - 3:59
6. "Quando Eu Era Sem Ninguém" - 3:19
7. "Brigitte Bardot" - 2:57
8. "Augusta, Angélica e Consolação" - 3:45
9. "Botaram Tanta Fumaça" - 2:46
10. "O Riso e a Faca" - 2:43
11. "Um 'Oh' e um 'Ah'" - 1:02
12. "Complexo De Épico (reprise)" - 6:47
Todas as composições de autoria de Tom Zé, exceto indicadas

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OUÇA:

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Daniel Rodrigues

terça-feira, 7 de março de 2023

Tom Zé - "2001: um grito no escuro na reluzente galáxia"

 




Tom Zé - "2001: um grito no escuro na reluzente galáxia" - REIS, cly
ilustração digital (GIMP)




Tom Zé - "2001: um grito no escuro
na reluzente galáxia"
fan-art tipo poster de cinema
inspirada na canção "2001",
de Tom zé e Rita Lee
arte: Cly Reis


terça-feira, 12 de outubro de 2021

“Sem Você não A – Uma Fábula Alfabética de Tom Zé e Elifas Andreato” - Tom Zé (2017)

 

"Quando escrevi a história presente neste CD, com a intenção de fazer dela um musical infantil, dei ao Tom Zé as letras que permeavam a fábula. Dias depois recebi as músicas numa fita cassete que foi parar na escola onde meus filhos estudavam e fez muito sucesso. Mas naquele tempo não havia espaço para nossa fábula alfabética e a deixamos de lado. Torná-la pública agora, tantos anos 
depois, é motivo de celebração."
Elifas Andreato 

Tem autores da música brasileira cuja obra é tão essencialmente universal que serve, num mesmo tempo, a adultos e crianças. Até quando não produzem especificamente para o público infantil, suas músicas via de regra se adequam aos ouvidos dos pequenos, casos de Carlinhos Brown, Adoniran Barbosa e João Donato. Destes, no entanto, talvez nenhum se compare neste aspecto a Tom Zé. A musicalidade do baiano de Irará, de uma forma intrínseca, é bastante afeita ao lúdico em seus meandros sonoros e linguísticos, haja vista temas como “Fliperama”, “Identificação” ou “Jimmy, Renda-se”. Embrenhando-se na sua obra, impossível não enxergar esse caráter infantil em músicas “adultas” a se ver por “Escolinha de Robô”, “A Briga do Edifício Itália e do Hilton Hotel” ou “A Boca da Cabeça”. Por isso, dá para afirmar que um projeto voltado a crianças estava bastante maduro quando Tom Zé recebeu o convite do designer, ilustrador e amigo Elifas Andreato para criarem juntos “Sem Você não A – Uma Fábula Alfabética de Tom Zé e Elifas Andreato”, de 2017. Baseado numa historieta escrita pelo paranaense Elifas, que a contava a seus filhos Laura e Bento para dormirem, o disco não poderia ter recebido melhor tratamento musical que não pelas mãos de Tom Zé.

A proximidade entre os dois, aliás, vem de muitos anos antes. O repertório deste disco, por exemplo, data do final dos anos 70, quando os filhos de Elifas eram pequenos. Em 1984, o artista visual também criara a capa do disco do colega músico “Nave Maria”. A parceria musical, no entanto, surgiu depois. Em 2014, no disco de Tom Zé “Vira Lata na Via Láctea”, experimentaram uma dobradinha com “Salve Humanidade”. Porém, já em “The Hips of Tradition”, noutro álbum do baiano, de 1992, eles haviam se encontrado para comporem “Sem a Letra A”. Ambas as músicas, por sinal, são o embrião deste antigo projeto, visto que já brincavam com a ideia de um abecedário linguístico-musical com boas doses de peraltice. Ambas dão argumento para a inventiva história de Elifas: no Abecedário, terra onde moram os habitantes do alfabeto, todos vivem harmonicamente e ajudando-se mutuamente. Além das letras, vivem nessa terra a Curiosidade, responsável por reger o alfabeto, e o ressentido Silêncio, que sequestra a primeira para, assim, calar as letras e reinar sozinho, como fazia antes de haver qualquer som. Como condição para libertar a Curiosidade, o Silêncio exige das letras a resposta de um enigma: “Qual é a maior palavra do mundo?” Sem a resposta, a Curiosidade ficaria presa para sempre. Para piorar as coisas, o A (a primeira e mais antiga integrante da turma) resolve se sacrificar, fugindo sem que ninguém percebesse para tentar resolver sozinho a charada, deixando as palavras em apuros – ortográficos, inclusive.

Tom Zé desdobra essa estorieta com a sagacidade e sensibilidade que lhe são características. Elifas, por sua vez, expande sua musicalidade já tão presente não somente em outras parcerias, como com Toquinho e Jessé, mas, principalmente, nas centenas de artes de discos da MPB as quais criou em mais de 50 anos de carreira. “Palavras do Ar”, faixa inicial, é um animado e dissonante eletro-batuque, que faz uma ode à música e a beleza dos sons vocálicos da língua portuguesa: “As palavras do ar/ Vão pular no céu/ De um balão/ As palavras do mar/ Navegar ao léu/ Numa embarcação/ As palavras do chão/ Vão rodar pião/ Na palma da minha mão/ As outras irão pendurar a, a/ No ar, no céu e o luar a, a/ Pular fogueira e soltar rojão/ Pra comemorar/ A descoberta das palavras/ Do futuro”. A brincadeira se transforma em um verdadeiro “Forrobodó do Abecê”, um baião que convida as letras para um "bate-coxo" arretado. 

Hora, então, de apresentar não somente as letras, mas a “maestrina do Abecedário”: a “Curiosidade”. Conforme Elifas, “é ela quem conduz as letras em seu papel de guardiãs do passado, intérpretes do presente e construtoras do futuro”. Recuperando a letra e a melodia de “Salve Humanidade”, de três anos antes, Tom Zé dá ao número um arranjo todo especial, transformando-a num xote repleto de sonoridades lúdicas. A peculiar divisão silábica das frases vocais, herança da vanguarda a qual Tom Zé sempre esteve ligado, aparece no canto, cuja letra cantada, por sua vez, é ao mesmo tempo engraçada e poética: “A curi, a curi, a curiosidade/ Inventou, inventou/ A humanidade/ E o burá, burá, buraco da fechadura/ É o burá, burá, buraco da curió-sidadde”.

“Como É o Nome Dela?” traz a veia sertaneja de Tom Zé para contextualizar a desorientação que todos ficaram sem a Curiosidade, já capturada pelo Silêncio. Mais do que isso, dialogando com as crianças, ele e Elifas lançam uma questão que, quiçá, estes se depararão quando adultos: “Eu li que ela berra verdades, é caprichosa majestade/ Mas que quando a gente cresce, ela desaparece/ Parece...”. Como “desgr_c_ pouc_ é bob_agem”, ainda acontece o sumiço da vogal mais conhecida. Retrazendo a bela canção dos anos 90, a faixa que dá título ao disco carrega em seus versos uma filosófica questão: como viver, como ser, sem a letra A? “Sem você não A/ Sem você não haverá canção/ Sem você não há mais esperança pra criança/ Ai ai, hum hum/ Sem você não há”.

Baião pé-de-serra, “A Mágica do G” conta a parte da história em que esta letra surge com sua mágica e faz descer do céu estrelinha para pô-las no lugar onde havia A, tal qual a ideia plástico-sonora de Caetano Veloso quando musicou o poema “Pulsar”, de Augusto de Campos, em 1981. Já “A Praga do Silêncio” é o contra-ataque, pois este, inconformado com a criativa solidariedade das letras e de suas amigas luminosas, que descobriram o cativeiro da Criatividade e da letra A, roga que as estrelas tiradas do céu apaguem. O resultado: “as palavras vão ficando esbur_c_d_s”.

Sem eximir as crianças de suas construções harmônicas complexas, “Estrelas Sabem Voar“ conjuga os modos compositivos atonais da música de Tom Zé com o texto lírico e pedagógico: “Olha lá que as estrelas sabem voar (...)/ E com elas vamos ao céu procurar nosso amigo/ No desabrigo/ O R viaja no rabo da estrela/ Mas o B sobe no umbigo/ E agarrado no pé vai o É, É, É/ Fazendo chulé”. São as letrinhas que, aliadas às estrelas trazidas pelo G, sobem ao céu para recuperarem a Criatividade e o A.

Capa do livro “A Maior
Palavra do Mundo”, de
Elifas, com ilustrações de Fê
Encaminhando-se para o final do disco (e da história), “A Maior Palavra do Mundo” - que virou, em 2018 livro de autoria de Elifas e ilustrações de Fê, aproveitando a mesma temática do disco - é outro gracioso xote, que traz a mensagem final a qual Elifas pretendeu transmitir a seus filhos. Surpreso com a descoberta de sua toca, o malvado Silêncio exige a resposta imediata do enigma ou se imporia para sempre e ninguém poderia falar ou jamais emitir um som sequer. “Afinal, qual é a maior palavra do mundo?!” A resposta veio de onde menos se esperava: do pequenino Z, o último do alfabeto. É ele quem conclui, para a surpresa de todos: “A maior palavra do mundo é EU!” Nela cabem todas as outras palavras: Amor, Alegria, Amizade, Solidariedade, Liberdade… Eufórico, o ancião A completa: “É isso! O EU é capaz de conter tudo. Embora seja pequeno como crianças, também como elas possui uma imaginação sem fim: Curiosidade, Criatividade, Vontade… No EU – ou em cada um de nós – tudo cabe. E não tem Silêncio que apague.” 

Derrotado, o Silêncio cumpre sua palavra e liberta os reféns. As letras então confabulam o que fazer com o vilão. Prisão, ostracismo, desterro? Mas a Curiosidade as detém, alertando a todos que o Silêncio é essencial para o Abecedário, seja entre as palavras, no meio das frases ou permeando os pensamentos. Ele está em todos os livros, em todas as histórias. Assim como nesta. Convencidos da sabedoria da Curiosidade e com a sensação de dever cumprido, os personagens desembarcam novamente no Abecedário e caem na farra, num grande “Domingo das Letras” em ritmo de marchinha carnavalesca. Tanta festa e tanto barulho que deixam o Silêncio enlouquecido!

Talvez nem Tom Zé e nem Elifas Andreato tenham percebido, mas sua obra conjunta carrega outro elemento igualmente fundamental para a existência tanto da Criatividade, do Silêncio e das ferramentas linguísticas: o Tempo. Com letra maiúscula. Engavetado durante anos, “Sem Você não A” só veio ao mundo depois de tanto um artista quanto o outro burilarem bem a ideia com paciência e sabedoria. Elifas diz que foi ele, o Tempo, que escolheu a ocasião de recontar esta história, desta vez, para a geração dos filhos de seus filhos. Tempo este que, em sua proeza quase brincante, torna inexoravelmente crianças em adultos. Moral da história: sem ele, o T do tempo, nem a letra A há.

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FAIXAS:
1 - Palavras do Ar
2 - Forrobodó do Abecê 
3 - Curiosidade 
4 - Como É o Nome Dela?
5 - Sem Você Não A
6 - A Mágica do G
7 - A Praga do Silêncio
8 - Estrelas Sabem Voar
9 - A Maior Palavra do Mundo
10 - Domingo das Letras
Todas as composições de autoria de Tom Zé e Elifas Andreato

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OUÇA O DISCO:


Daniel Rodrigues

segunda-feira, 20 de janeiro de 2020

Os 20 melhores discos brasileiros da década de 2010

Macalé: um dos expoentes da geração dos 60
da MPB marcando também a década de 2010
Passou rápido essa última década, hein? Tanto que só fui notar que isso estava ocorrendo quando, próximo do Ano Novo, ouvi dizerem que uma nova estava por iniciar. Tá, eu sei que vão dizer que a década mesmo só termina quando chegar 2021. Mas, convenhamos, todo mundo começa a contar a partir de um novo “zero” no calendário. Foi o que fiz. Automaticamente, meu cérebro começou a resgatar acontecimentos importantes no campo da cultura, entre estes, de discos da música brasileira que dessem conta desse ciclo que se fechava. E avaliando os trabalhos lançados entre 2010 e 2019, o saldo, aliás, é bem positivo.

Pode-se notar desde a entrada de uma nova turma de compositores/produtores no cenário musical até a reafirmação dos que já haviam conquistado espaço. Igualmente, a estabilização da geração de vozes femininas (como Tulipa Ruiz, Céu, Xênia França, Anelis Assumpção, Karina Buhr, entre outras), vindas em enxurradas sem critérios na década passada, é outro fenômeno percebido nesses dez últimos anos. Também viu-se um passo adiante dado pelo rap nacional (seja em São Paulo, Rio, Bahia ou outros estados) e na música instrumental mais “cabeça”, bem como a confirmação de que os velhos deuses da nossa música - Caetano, Jards, Gil, Chico, Djavan e outros -, ainda são bússola para todo mundo. Mas uma peculiaridade se percebeu fortemente: o encontro de gerações. Músicos jovens, além de conduzirem seus projetos próprios, passam a servir de base para moldar os mais antigos na modernidade que a produção musical da atualidade, digital e pós-moderna, exige.

Kiko Dinucci, da Metá Metá: a cabeça da nova geração
por trás de discos de outros artistas
Para representar essa década inspirada, então, selecionamos, em ordem cronológica, já que estamos falando da entrada da década de 20, duas dezenas de discos essenciais da música no Brasil daquilo que, transcorridos mais de 90% de sua totalidade, podemos já chamar de anos 2010. Semelhanças com outras listas sobre o mesmo tema haverá, pois alguns destaques são bastante evidentes. Uma boa parte, por exemplo, figurou no seleto grupo de ÁLBUNS FUNDAMENTAIS do blog e outros, merecedores, estão em tempo de, nalgum momento, serem alçados a tal. Mas diferenças também se notarão, e é aí que reside o legal da formação de listas: poder compará-las, concordar, discordar e, quem sabe, motivar que novas sejam compostas.

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1. “Recanto” – Gal Costa (2011)

O brilhante disco que marcou o retorno de Gal ao nível de qualidade do qual ela nunca deveria ter se afastado. Álbum irmão de “Cantar”, de 1974, "Recanto" tem, igualmente àquele, a curadoria de Caetano Veloso. O disco, no entanto, vai além: é todo de autoria do mano Caetano, com a assinatura de Kassin e Moreno Veloso na produção e arranjos. Disco que revolucionaria não apenas a carreira da cantora, mas ditaria conceito e sonoridade pra quem não quisesse ficar de fora dessa evolução em termos de música no Brasil. Do krautrock tropicalista ao baião renascentista, da industrial-bossa ao funk-maculelê: uma obra-prima da MPB moderna.

1. Recanto Escuro
2. Cara do Mundo 
3. Autotune Autoerótico 
4. Tudo Dói 
5. Neguinho 
6. O Menino
7. Madre Deus 
8. Mansidão 
9. Sexo e Dinheiro 
10. Miami Maculelê 
11. Segunda



2. “Chico” – Chico Buarque (2011)

Como seus livros, os discos de Chico têm sido cada vez mais espaçados. Porém, quando acontecem, são de uma síntese tremenda. Este, seu único trabalho musical da década além de “Caravanas”, de seis anos adiante, é o retrato de um artista maduro para com sua música e de um homem consciente para com sua história. Haja vista a autoavaliativa “Querido Diário” ou a romântico-realista “Essa Pequena”. A mais afinada parceria dele com o maestro Luis Cláudio Ramos, “Chico” ainda tem pelo menos outras duas obras-primas: “Tipo um Baião” e “Sinhá”, esta última, parceria com João Bosco, Melhor Canção daquele ano no Prêmio da Música Brasileira.


1. Querido Diário
2. Rubato
3. Essa pequena
4. Tipo um baião
5. Se eu soubesse
6. Sem você nº 2
7. Sou eu
8. Nina
9. Barafunda
10. Sinhá


3. “Nó na Orelha” – Criolo (2011)

O ano de 2011 foi marcante não apenas pela alta qualidade de trabalhos de artistas tarimbados como Chico  e Gal, mas também por conta da chegada de uma figura que revolucionaria a música brasileira a partir de então: o paulista Criolo. E ele não o fez repetindo os mesmos passos dos mestres. Fez, sim, pela via do rap. Dono de uma musicalidade assombrosa e de versos imagináveis somente numa cabeça como a dele, Criolo, com o auxílio luxuoso de Daniel Ganjaman, cunhou um dos melhores discos da história da música brasileira e abriu caminho para uma renovação no rap nacional: um rap brasileiríssimo em cores, rimas e sons.


1. Bogotá
2. Subirusdoistiozin
3. Não Existe Amor em SP
4. Mariô
5. Freguês da Meia-Noite
6. Grajauex
7. Samba Sambei
8. Sucrilhos
9. Lion Man
10. Linha de Frente



4. “MetaL MetaL” – Metá Metá (2012)

Quando a Metá Metá (Juçara Marçal, voz; Kiko Dinucci, guitarras; e Thiago França, sax) foram convidados, em 2017, para compor a trilha sonora do balé “Gira”, do Grupo Corpo, aquele grande trabalho tinha um evidente precedente: o abundante “MetaL MetaL”, segundo disco da banda paulistana dona do jazz-rock mais afro-brasileiro que já se viu. Uma explosão de sensações, musicalidade, timbres, sonoridades. Basta ouvir “Oyá”, “Logun” ou “Cobra Rasteira” para entender o que se está dizendo. “Incrível” é o mínimo do que se pode descrever.


1. Exu
2. Orunmila
3. Man Feriman
4. Cobra Rasteira
5. São Jorge
6. Oya
7. São Paulo No Shaking
8. Logun
9. Rainha Das Cabeças
10. Alakorô
11. Tristeza Não



5. “Abraçaço” – Caetano Veloso (2012)

Não é de se estranhar que o sempre criativo e produtivo, mas também aberto e inovador Caetano tirasse proveito da parceria com os novos músicos. Mas para a sua mente tropicalista essa química foi ainda mais contributiva quando, em 2006, se deparou com a Banda Cê (Pedro Sá; Ricardo Dias Gomes e Marcello Callado). A formação/sonoridade rocker de baixo-guitarra-bateria deu condições ao baiano não apenas de compor uma elogiada trilogia (“Cê”, “Zii e Zie” e este) como, mais que isso, criar um quase subgênero: o transrock. “A Bossa Nova É Foda” (Grammy Latino de Melhor Canção Brasileira) e a faixa-título são apenas duas que confirmam ser este um dos grandes momentos da longa carreira de Caê.

1. A Bossa Nova é Foda
2. Um Abraçaço
3. Estou Triste
4. Império da Lei
5. Quero ser Justo
6. Um Comunista
7. Funk Melódico
8. Vinco
9. Quando o Galo Cantou
10. Parabéns
11. Gayana



6. “Não Tente Compreender” – Mart’nália (2012)

Não dá pra dizer que Mart’nália, que já soma mais de 30 anos de carreira, pertença à nova geração. Mas que foi nos anos 2010 que ela se superou, isso sim, é possível afirmar. A filha mais famosa do mestre Martinho da Vila convoca ninguém menos que outro craque, Djavan, para produzir seu álbum, o que resulta no trabalho mais bem acabado dela. O mais legal é que é um disco fácil de se ouvir: suingado, melodioso, charmoso. Além de composições suas, Mart’nália grava figuras carimbadas da MPB, como Marisa Monte, Adriana Calcanhoto, Gil, Caetano, Ivan Lins, Nando Reis e outros. E, claro: não poderia faltar Martinho.

1. Namora Comigo
2. Surpresa
3. Daquele Jeito
4. Depois Cura
5. Que Pena, Que Pena...
6. Não Tente Compreender
7. Itinerário
8. Reverses Da Vida
9. Serei Eu?
10. Eu Te Ofereço
11. Os Sinais
12. Demorou
13. Zero Muito
14. Vai Saber



7. “Aquário” – Tono (2013)

Se na década de 2000 foi a turma de Kassin, Domenico e Moreno quem ditou os padrões de “inteligentsia” da música no Brasil, Bem Gil e sua trupe deram um passo adiante nos 2010. Sonoridade moderna e ao mesmo tempo doméstica; melodias complexas que soam fáceis de ouvir; perfeição de timbres e execução que faz parecer algo simples de se fazer. Tamanha completude funcionou tão bem, que foi posta a serviço do genial pré-tropicalista Jorge Mautner em seu mais recente álbum “Não Há Abismo Em Que o Brasil Caiba”, do ano passado, produzido pela banda. Eis os novos caciques da MPB.

1. Murmúrios
2. Sonho com Som
3. Como Vês
4. Tu Cá Tu Lá
5. Chora Coração
6. Leve
7. Do Futuro (Dom)
8. UFO
9. Pistas de Luz
10. Da Bahia
11. A Cada Segundo



8. “Sambadi” – Lucas Arruda (2013)

Certamente Marcos Valle, a Azymuth e a turma remanescente da primeira fase do jazz-soul-AOR brasileiro vibrou quanto, em 2013, viram o Espírito Santo operar um milagre: o nascimento de um músico multi-instrumentista e multitalentoso, o capixaba Lucas Arruda. O semi-instrumental “Sambadi”, seu disco de estreia, é um alento de resistência de uma música que o Brasil por muito tempo importara, mas que também há muito não se via representada. Foi Ed Motta quem disse: “Para mim, Lucas Arruda salva esse cenário supermedíocre de hoje”. Talvez nem tanto assim, mas dá a dimensão do acontecimento que foi a sua chegada.


1. Physis 
2. Tamba, Pt. 1 
3. Batuque 
4. Who's That Lady
5. Rio Afternoon 
6. Na Feira 
7. Sambadi 
8. Carnival 
9. Alma Nov
10. Tamba, Pt. 2



9. “Vira Lata na Via Láctea” – Tom Zé (2014)

Mais do que os colegas tropicalistas Gal, Caetano e Gil, o que talvez seja o de espírito mais jovem e inquieto é Tom Zé. O baiano de Irará entra na roda da gurizada e produz seu mais poderoso disco da década. Criolo, Dinucci, Tim Bernardes, Trupe Chá De Boldo e Filarmônica de Pasárgada revigoram o sarcasmo poético-erudito do autor de “Brasil Ano 2000”. Mas também tem espaço para os contemporâneos Milton Nascimento (“Pour Elis”), Fernando Faro e uma inédita coautoria com Caetano na faixa que encerra o álbum: “A Pequena Suburbana”.

1. Geração Y
2. A Quantas Anda Você?
3. Banca de Jornal
4. Cabeça de Aluguel
5. Pour Elis
6. Esquerda, Grana e Direita
7. Mamon
8. Salva a Humanidade
9. Guga na Lavagem
10. Irará Irá Lá
11. Papa Perdoa Tom Zé
12. Retrato na Praça da Sé
13. A Boca da Cabeça
14. A Pequena Suburbana



10. “Passado de Glória: Monarco 80 Anos” – Monarco (2014)

Último remanescente da Velha Guarda (sim, com letra maiúscula!) do samba brasileiro, Monarco gravou, desde os anos 70, quando já era um bamba da Portela, praticamente um disco por década. Já octogenário, o mestre, com seu barítono inconfundível e suas melodias e letras marcantes, desfila canções irreparáveis de seu vasto cancioneiro. Desde composições dos anos 40 (o gracioso maxixe “Crioulinho Sabu”, escrito quando tinha apenas 8 anos) até parcerias com sambistas célebres, como Mário Lago (“Poeta Apaixonado”), Ratinho (“Verifica-se De Fato”, “Pobre Passarinho”) e Mijunha (“Meu Criador”). Sabe aquele disco que tem caráter de registro histórico-antropológico? Pois é.

1. Poeta Apaixonado
2. Verifica-se De Fato
3. Não Reclame Pastorinha
4. Tristonha Saudade
5. Insensata E Rude
6.  Estação Primaveril
7. A Grande Vitória
8. Pobre Passarinho
9. Momentos Emocionais
10. Fingida
11. Meu Criador
12. Horas de Meditção
13. Crioulinho Sabu



11. “Mulher do Fim do Mundo” - Elza Soares (2015)

A deusa negra Elza Soares já vinha de um ótimo trabalho com músicos de São Paulo por meio do craque Zé Miguel Wisnik, “Do Cóccix Até O Pescoço”, de 2012. E foi dessa proximidade com a turma paulista que a grande cantora viva de sua geração e símbolo do empoderamento feminino chegou a Guilherme Kastrup. Deu liga. Ele arrumou o campo pra que Elza entrasse em campo com o que sabe fazer melhor do que ninguém: cantar. Clássico imediato, “Mulher. do Fim do Mundo” conta com joias como a faixa-título, “Maria de Vila Matilde” e “Pra Fuder”.

1. Coração do Mar
2. A Mulher do Fim do Mundo
3. Maria da Vila Matilde
4. Luz Vermelha 
5. Pra Fuder
6. Benedita
7. Firmeza?!
8. Dança
9. O Canal
10. Solto
11. Comigo



12. “Sangue Negro” – Amaro Freitas (2016)

Justo na década em que o Hermeto Pascoal começa a dar sinais de cansaço, eis que surge, também do Nordeste, um novo talento do jazz brasileiro com domínio do piano, da composição, da harmonia e, claro, do improviso: o pernambucano Amaro Freitas. Seu disco de estreia, “Sangue Negro”, é uma ode ao caminho aberto pelo Bruxo e seus cultuadores de magias sonoras. Ora modal, ora hard-bop, ora vanguarda. Ora sertão e barracão. Sintonia perfeita entre ele e seus músicos, Jean Elton (baixo), Hugo Medeiros (bateria) e os sopros de Fabinho Costa e Elíudo Souza.



1. Encruzilhada
2. Norte
3. Subindo O Morro
4. Samba De Cesar
5. Estudo 0
6. Sangue Negro





13. “No Voo do Urubu” – Arthur Verocai (2016)

Só o fato de ser um dos quatro discos do maestro e compositor mais cults da música brasileira e o único na década de 2010 já seria suficiente para ser considerado importante. Mas “No Voo do Urubu” alça mais alto que isso: vai aos céus. Essencial desde seu lançamento, como bem percebeu Ruy Castro, traz desde o primor das melodias jobinianas (“Oh! Juliana”, “O Tempo e o Vento”) ao contagiante suingue funk-soul nas parcerias com Vinícius Cantuária (“A Outra”), Mano Brown (“Cigana”) e Criolo (“O Tambor”). Claro, Verocai não deixa de lado também os arranjos de cordas mozartianos e o dedilhado erudito-popular do violão.

1. No Voo do Urubu 
2. O Tempo e o Vento
3. Oh! Juliana (
4. Minha Terra Tem Palmeiras 
5. A Outra 
6. Cigana 
7. O Tambor
8. Snake Eyes 
9. Na Malandragem 
10. Desabrochando 



14. “Duas Cidades” – BaianaSystem (2016)

A Bahia de Todos os Santos é um dos polos da música brasileira desde que o samba é samba. Por isso, não é de se estranhar que tenha seus representantes nesta nova geração da música brasileira. É aí que entra o BaianaSystem. Misto de reggae, dub, samba, afro-beat, rap, axé e rock, eles trazem não só a Salvador idílica como também a urbana, como suas questões sociais, raciais e políticas à flor do asfalto. “Jah Jah Revolta – parte 2” abre o disco dizendo a que veio. Isso sem falar nas excelentes “Mercado”, “Dia da Caça” e “Panela”. Mais um pra conta de Daniel Ganjaman, aliás.

1. Jah Jah Revolta - Parte 2
2. Bala na Agulha
3. Lucro (Descomprimindo)
4. Mercado
5. Duas Cidades
6. Playsom
7. Dia da Caça
8. Cigano
9. Calamatraca
10. Panela
11. Barra Avenida Parte 2
12. Azul



15. “Tribalistas 2” – Tribalistas (2017)

Ainda bem que não se confirmaram os versos ditos por eles mesmos em 2002 de que “o tribalismo” iria “se desintegrar no próximo momento”. Para sorte dos fãs e da música brasileira, 15 anos depois, Marisa Monte, Carlinhos Brown e Arnaldo Antunes se reúnem novamente e, novamente, produzem um disco impecável de cabo a rabo. Das composições às execuções, das interpretações à produção. Que beleza infindável que são, por exemplo, "Diáspora", "Baião do Mundo" e "Fora da Memória"!

1. Diáspora
2. Um só
3. Fora da memória
4. Aliança
5. Trabalivre
6. Baião do mundo
7. Ânima
8. Feliz e saudável
9. Lutar e vencer
10. Os peixinhos




16. “Besta Fera” – Jards Macalé (2018)

O “maldito” voltou com tudo, a se ver já pelo título. Com o aporte de um dos cabeças desta nova geração, o “Metá Metá” Kiko Dinucci, juntamente com outro talento eminente, Thomas Harres, Macao traz desde temas com esses jovens parceiros e outros, como Tim Bernardes e Rodrigo Campos, até o velho companheiro de estrada Capinam (em “Pacto de Sangue”) e a filha do amigo Glauber Rocha, Ava Rocha, com quem compôs “Limite”. Impossível ficar alheio à faixa de abertura, “Vampiro de Copacabana”, homenagem a Torquato Neto.

1. Vampiro de Copacabana
2. Besta Fera
3. Trevas
4. Buraco da Consolação
5. Pacto de Sangue
6. Obstáculos
7. Meu Amor e Meu Cansaço
8. Tempo e Contratempo
9. Peixe
10. Longo Caminho do Sol
11. Limite



17. “Abaixo de Zero: Hello Hell” – Black Alien (2018)

Falando novamente em rap, não só a nova geração surpreendeu, mas também um velho militante do hip-hop brasileiro: o ex-Planet Hemp Black Alien. Após um período sabático, Gus ressignificou sua vida e sua música, lançando um disco curto, pungente e genial. Letras afiadíssimas sobre a sua realidade e vivência e também sobre sociedade, política e sistema, ganham a roupagem perfeita dada pelo produtor e parceiro Papatinho, outro “ás” da nova geração. Versos como “Quem me viu, mentiu, país das fake news/ Entre milhões de views e milhões de ninguém viu” dão a ideia do quanto o negócio é quente.


1. Área 51
2. Carta Pra Amy
3. Vai Baby
4. Que Nem O Meu Cachorro
5. Take Ten
6. Au Revoir
7. Aniversário De Sobriedade
8. Jamais Serão
9. Capítulo Zero





18. “Taurina” – Anelis Assumpção (2018)

A responsabilidade de representar a tradição dos Assumpção na música não é tarefa fácil. Não para Anelis Assumpção. Após a perda do pai, o genial Itamar Assumpção, no início dos 2000, viu-se, em 2016, também sem a irmã mais velha, a igualmente musicista Serena. Toda essa hereditariedade e tradição, unidas à sua criatividade própria, resultaram no brilhante “Taurina”, terceiro disco dela. Sensibilidade feminina, empoderamento, Lira Paulistana, poesia maldita, ecos do Nego Dito: elementos musicais e conceituais não faltam, o que se pode notar em “Mergulho Interior”, “Chá de Jasmin”, “Paint my Dreams” e outras. 

1. Mergulho Interior
2. Chá De Jasmim
3. Segunda à Sexta
4.  Gosto Serena
5.  Pastel De Vento
6. Caroço
7. Mortal À Toa
8. Paint My Dreams
9.  Moela
10.  Escalafobética
11. Receita Rápida




19. "Bluesman" - Baco Exu do Blues (2018)

Na Bahia tem cururu, vatapá e... rap! Baco Exu do Blues, esse jovem talento vindo da terra de Caymmi, balançou a cena musical brasileira em 2017 com o marcante "Esu" e, logo em seguida, surpreendeu ainda mais com o premiado "Bluesman". Trap, gangsta, blues e funk se homogeinizam às mais profundas raízes da música afro-brasileira. Samples inteligentes e letras poderosas, viscerais, críticas e improváveis, como as de “Queima Minha Pele”, “Me Desculpa Jay Z” e Flamingos” e “Girassóis De Van Gogh”.


1. Bluesman
2. Queima Minha Pele
3. Me Desculpa Jay Z
4. Minotauro De Borges
5. Kanye West Da Bahia
6. Flamingos
7. Girassóis De Van Gogh
8. Preto E Prata
9. BB King




20. “Gil” – Gilberto Gil (2019)

Se o autor de “Aquele Abraço” não tinha produzido nenhum disco à altura de seus grandes álbuns na década de 2010, ao apagar desta o mestre baiano tira da cartola a trilha sonora para a peça que o Grupo Corpo encenaria lindamente nos palcos. Mas, como acontece sempre com as trilhas da companhia de dança, o disco pode ser apreciado separadamente da coreografia com tranquilidade. E que maravilha Gil compôs! Espécie de réquiem em ritmos e cores brasileiras, Gil, de mãos dadas com o filho e igualmente talentoso Bem Gil, desfila suas inúmeras referências, tendo uma como principal: a própria obra. 

1. Intro Choro nº 1
2. Choro nº 1
3. Improviso Choro nº 1
4. Intro Seraphimu
5. seraphimu
6. Improviso Seraphimu
7. Intro Fragmento Lírico
8. Fragmento Lírico
9. Improviso Fragmento Lírico
10. Círculo
11. Triângulo
12. Quadrado
13. Retângulo
14. Pentágono
15. Gil


Daniel Rodrigues