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domingo, 11 de outubro de 2026

Tom Zé - "Todos os Olhos" (1973)


"aqui, vão, pois, os meus olhos, que já estão ficando velhos, com um abraço para o novo tomzé por este que é o melhor dos seus discos. a carne viva de brigitte, todos os olhos, a noite de meu bem ou a claridade cortante de o riso e a faca ou a pergunta-sem-resposta de cademar são choques de beleza crua para nós e até para ele, que está mais tomzé e mais novo do que nunca."
Augusto de Campos,
no texto do encarte do disco

O antropólogo belgo-francês Claude Lévi-Strauss conta, em seu célebre livro “Tristes Trópicos”, onde narra sua passagem pelo Brasil profundo de povos originários, comunidades isoladas e organizações sociais da vida brasileira, a experiência vivida enquanto “viajante” na aldeia indígena Nambikwaras, no estado de Mato Grosso. Observando aquela “humanidade completamente desvalida”, “esmagada” e “ingênua”, Lévi-Strauss capta daquela tribo, entretanto, uma profunda “doçura” e “comovente ternura”. Tal observância só pode existir, justamente, pelo olhar “viajante” daquele que não pertence originalmente ao lugar mas que, diante de tamanha empatia e cumplicidade, acaba por, pelo menos naquele instante, pertencer também à terra estrangeira.

Recorrer a uma explicação antropológica talvez seja a única forma de compreender a complexidade da figura de um artista tão incomum Tom Zé, em última análise, um estrangeiro neste mundo deslocado. Natural de Irará, cidade do interior da Bahia localizada no chamado Portal do Sertão, Antônio José Santana Martins nasceu há exatos 90 anos e tornou-se, ao se mudar para São Paulo em plena fase de consolidação desta como centro nervoso do País, o mais moderno músico paulistano de sua geração. Estrangeiro também porque é o primeiro tropicalista, não só por ser mais velho que Caetano Veloso, Gilberto Gil e Mutantes, mas porque, ainda em sua cidade-natal, no final dos anos 50, já escrevia, antes deles todos, músicas totalmente distintas de qualquer tradição local. Estrangeiro, pois, capaz de unir, com intencionalidade monástica, seresta sertaneja, samba rural e música sacra à mais rebuscada dodecafonia da vanguarda europeia.

Este artista tão ímpar, cujos estudos antropológicos ainda hão de dar conta, faz recordar mais uma vez da visão/posição de viajante de Lévi-Strauss quando trata da São Paulo que o abrigou. Tom Zé já havia composto canções que viraram verdadeiros hinos alternativos da capital paulista, como “São São Paulo”, de 1968, mas é em “Todos os Olhos” que ele extravasa essa vivência de “estrangeiro nativo”. Disco de 1973, quando dos anos de chumbo do Governo Militar, é uma obra totalmente madura de Tom Zé musicalmente falando, mas também enquanto ser político e crítico. Auge do chamado pós-tropicalismo, é também um marco do movimento concretista, tanto pela música quanto, principalmente, pelo conceito, uma vez que o poema popcreto "olho por olho", do amigo e parceiro Augusto de Campos, de 1964, inspira o trabalho como um todo. Ainda, a icônica e polêmica capa de “Todos...”, de autoria de outro poeta e artista visual paulistano e concretista, Décio Pignatari, é a da famosa foto em superclose de um ânus com uma bolita. Claro, os censores da Ditadura não identificaram nada de estranho e a aprovaram. Ora, para representar com ironia e fúria “todos os olhos” da vigília, nada melhor que o olho do cu.

“Todos...” é daqueles discos em que o recheio acompanha plenamente o invólucro. Ironia, poesia, tradição, ritmo, crítica social. E autocrítica, a se ver pela brilhante e impactante faixa de abertura “Complexo de Épico”. Em um ritmo desconstruído, algo que talvez formulasse um samba caso estivessem suas partes conjuntadas, a letra, genial, fala dele mesmo, Tom Zé, mas cutuca toda a turma da MPB diante daquele momento político tão problemático. “Todo compositor brasileiro é um complexado/ Por que, então, essa mania danada/ Essa preocupação de parecer tão sério?” Tom Zé indaga seus colegas: para quem vocês estão falando? Há efetividade na mensagem de suas canções? E conclui, sem clemência: “Ah, meu Deus do céu/ Vá ser sério assim no inferno!”.

Se o número de abertura fala aos pares, a segunda faixa evoca uma outra compositora da música brasileira, Dolores Duran, numa versão dissonante do samba-canção "A Noite do meu Bem". Em seguida, uma que fala diretamente à sua amada São Paulo: “Cademar”. Escrita sobre uma poesia de Augusto de Campos, fala em seus poucos versos sobre uma das peculiaridades da capital paulista: a ausência do mar. Ao mesmo tempo, dá a ideia de saudade e também faz uma analogia a um amor que foi embora, ausente daquele território, como que antecipando os versos de Criolo: “Não existe amor em SP”. E Tom Zé faz isso numa pequena obra-prima de música concreta. A letra é construída a partir da fragmentação sonora e visual da pergunta: "Ô, cadê Maria que não vem?", transformando-a em uma estrutura sincopada, repetitiva e não discursiva que lembra o bater de um metrônomo – ou de um coração.

Poema visual popcreto "olho por olho", de Augusto de Campos,
que inspirou o conceito do disco de Tom Zé e presente no encarte

O experimentalismo, então, desdobra-se num ato essencialmente orgânico na faixa-título. Estrategicamente alocada no quarto lugar, quando o disco já transcorria “naturalmente” e distraída a atenção dos censores, chegava a hora de ser mais contundente na denúncia à Ditatura. Do batimento cardíaco, o aceleramento angustiado; do sentimento romântico, o de medo da morte. “Todos os Olhos” diz, numa pouco disfarçada referência às torturas: “De vez em quando/ todos os olhos se voltam pra mim/ de lá de dentro da escuridão/ esperando e querendo que eu seja um herói/ Mas eu sou inocente”. E termina jurando inocência, agonizante, como se realmente estivesse em uma sessão de tortura. Corajosa e mordaz.

"Dodó e Zezé", com cavaquinho do maestro tropicalista Rogério Duprat, vale-se da música interiorana paulista para travar um engraçado e ferino diálogo com Odair Cabeça de Poeta, coautor com Tom Zé, numa espécie de rap-sertanejo. Como que pitando uma palha e sentados à praça, os dois conversam sobre os mais filosóficos temas, redundando sempre em alguma conclusão tão caipira quanto nada simplória. Por exemplo: Dodó pergunta: “E por que é que a gente tem que ser marginal ou cidadão? Diga, Zezé”. Ao que ele responde: “É pra ter a ilusão de que pode escolher, viu, Dodó?”. Sem refrão, num tempo melódico atípico. Traços de uma São Paulo rural a qual, literalmente, se constrói em outro tempo, que não o a velocidade insana da metrópole.

O delicioso xote “Quando Eu Era Sem Ninguém", com participação do grupo Capote, antecipa outra em que a avant garde prevalece, que é "Brigitte Bardot". Sem centro tonal, sem ritmo, sem refrão, constrói-se num texto sobre o inevitável envelhecimento da sex symbol francesa. Quase uma resposta a “Dodó e Zezé” (mas também a “Complexo de Épico”), reflete as consequências da inexorável passagem do tempo. “Os nossos sonhos querem pedir divórcio.” Até os mitos morrem.

O clássico "Augusta, Angélica e Consolação" é outra leitura do “viajante” em terras estrangeiras, que vira imediatamente um segundo hino de São Paulo. Samba-canção sobre casos de amor não retribuídos, faz uma analogia geoafetiva com a cidade, transformando as conhecidas vias urbanas em musas, cada uma com sua personalidade – não à toa, a ver com a própria avenida. Augusta, vaidosa como as lojas de roupas importadas de seu entorno. Já Angélica, focada apenas no trabalho a ponto de cheirar como os consultórios médicos que lhe povoam. Contudo, Consolação - bairro da vida alternativa da cidade - foi-lhe a única a corresponder o amor. Para quem havia composto um ano antes "A Briga do Edifício Itália e do Hilton Hotel", colocando em um contexto anedótico os dois prédios icônicos da arquitetura paulistana, "Augusta..." é um avanço nessa interação poética do artista com a fisiologia da cidade.

Sampa permanece em “Botaram Tanta Fumaça”. Mas agora, ao invés de uma ode, um banho de realidade. Samba com frescor da MPB universitária, tem o inteligente riff de cavaquinho, uma das características da síntese que Tom Zé faz do samba em suas diversas vertentes, ao passo que também aproxima o ritmo brasileiro dos modos minimalistas da vanguarda (algo que se agigantaria no seu trabalho seguinte, o notável “Estudando o Samba”). A letra, por sua vez, é pura crítica e sarcasmo para falar da poluição do ar (e das mentes): “Botaram tanto lixo/ Botaram tanta fumaça (...) por baixo da consciência da cidade/ que a cidade tá (...) com a consciência podre”.

Encaminhando para o final do álbum, a bela e contundente valsa “O Riso e a Faca” (“Eu sou a raiva e a vacina/ Procura de pecado e conselho/ Espaço entre a dor e o consolo/ A briga entre a luz e o espelho”) precisa de pouca instrumentalização para propor sua melodia dissonante e seu canto fragmentado. Esta vem prosseguida de outra quase vinheta, mas de muito conteúdo assim como “Cademar” e “Complexo...”, que é "Um 'Oh' e um 'Ah'". Brincadeira musical com os vocálicos “a” e “o”, tornou-se, anos mais tarde, inspiração para o belo trabalho infantil de Tom Zé em parceria com o artista visual Elifas Andreato em que criam todo um universo léxico sobre esta ideia. Música, aliás, que, sozinha, inspiraria também projetos igualmente paulistas e lúdicos como Premê, Os Mulheres Negras e Palavra Cantada.

O distanciamento estratégico de Tom Zé, seja para com sua adotiva São Paulo, seja para com todo o universo musical e filosófico que o coloca entre os grandes criadores da música brasileira moderna, deu a ele as condições de compor um dos mais brilhantes discos da MPB dos anos 70. E esse feito não diz pouco. Como um viajante capaz de enxergar o que os nativos nem prestam atenção, o baiano de Irará não apenas identifica a profunda ternura que há na terra alheia como, encantado e absorvido pela própria, também se torna parte do corpo daquele lugar. Nem que seja por um instante equivalente a 90 anos de vida.

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FAIXAS:
1. "Complexo De Épico" - 1:19
2. "A Noite Do Meu Bem" (Dolores Duran) - 3:06
3. "Cademar" (Augusto de Campos, Tom Zé) - 0:45
4. "Todos os Olhos" - 3:31
5. "Dodó e Zezé" (Odair Cabeça de Poeta, Tom Zé) - 3:59
6. "Quando Eu Era Sem Ninguém" - 3:19
7. "Brigitte Bardot" - 2:57
8. "Augusta, Angélica e Consolação" - 3:45
9. "Botaram Tanta Fumaça" - 2:46
10. "O Riso e a Faca" - 2:43
11. "Um 'Oh' e um 'Ah'" - 1:02
12. "Complexo De Épico (reprise)" - 6:47
Todas as composições de autoria de Tom Zé, exceto indicadas

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OUÇA:

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Daniel Rodrigues

quarta-feira, 7 de outubro de 2026

Música da Cabeça - Programa #480


1,87%. Número que se torna um mantra para as próximas semanas. Mas vamos nos ater, pelo menos hoje, a outro número: o das 480 edições do MDC. Para marcar essa data, teremos convidados do calibre de Paulinho da Viola, Steve Reich, Silas de Oliveira, BaianaSystem, Suzanne Vega e mais. Rumo ao infinito, o programa especial entra no segundo turno às 21h na decisiva Rádio Elétrica. Produção, apresentação e mangas arregaçadas: Daniel Rodrigues


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quarta-feira, 16 de setembro de 2026

Música da Cabeça - Programa #477

 

Se você se sentiu num ringue nos últimos dias, não estranhe, pois não foi só você. Com esse clima no STF, afinal, não tem como ser diferente. Pedindo vistas, o MDC de hoje reprisa sua edição nº 107, de maio de 2019, quando já falávamos do Supremo por aqui. Naquela feita, rolou  The Cure, Can, Noel Rosa, Terry Riley, Seu Jorge, Simon & Garfunkel e mais. Sem ligação com Vorcaro, entramos no ar 21h na insuspeita Rádio Elétrica. Produção, apresentação sem medo da PF: Daniel Rodrigues


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sexta-feira, 26 de junho de 2026

Karlheinz Stockhausen - “Gesang der Jünglinge” (1956)


Capa das edições de 1957 e
1962, respectivamente, da
Deutsche Gramophon

“'Gesang der Jünglinge' é a mais original criação eletrônica de Stockhausen e talvez a peça eletrônica mais influente já composta."
Alex Ross
jornalista, escritor e crítico musical

"'Novo' significa mudar o método; novos métodos mudam a experiência, e novas experiências mudam o homem. Sempre que ouvimos sons, somos mudados: não somos mais os mesmos depois de ouvir certos sons, e isso é ainda mais verdadeiro quando ouvimos sons organizados, sons organizados por outro ser humano: música".
Karlheinz Stockhausen

O trauma da Segunda Guerra Mundial foi decisivo para toda uma geração de artistas da segunda metade do século 20 na Europa. Ainda mais na Alemanha pós-nazismo. Misturavam-se, principalmente do lado ocidental do Muro, sentimentos de culpa e de constrangimento, que tomava o coração dos artistas das mais diversas áreas, do cinema à literatura, das artes visuais à música. Tanto que o reerguimento da Alemanha destruída física e moralmente veio com altos investimentos de tecnologia, mas também com uma vontade irrefreável de produzir arte para espantar os demônios. Dessa complicada equação, que une dor e profundo catolicismo com inovação científica e pulsões existenciais, algumas figuras foram chave para trazer ao mundo obras que revolucionariam a arte contemporânea. Na música do país germânico, Karlheinz Stockhausen é o principal deles.

Nascido em Mödrath, em 1928, Stockhausen foi afetado diretamente por todos esses fenômenos. Durante a Guerra, perdeu os pais, fato que seria, ao mesmo tempo, traumatizante e mobilizador de suas ações. Órfão, aos 22 anos se mudou para Colônia, onde trabalhou como pianista e estudou música na universidade local, frequentando logo em seguida cursos de serialismo musical em Darmstadt com o mestre francês Olivier Messiaen. Com uma mente acima da média do resto dos seus colegas, em 1952, foi selecionado para o Conservatório Nacional de Música de Paris e estudou com outra referência da música de vanguarda, o também francês Pierre Boulez. Circundavam lhe ideias da música serialista, concreta, atonal, futurista, dodecafônica, mas nada fazia total sentido a Stockhausen, que ansiava por algo realmente inovador, mais profundo e que lhe respondesse àquele vácuo existencial. Precisava elevar um novo Deus, mas um Deus de ossos de metal, feito de transistores e estanho, já que aquele da igreja havia ido embora. O laboratório era a nova igreja.

Foi aí que veio, a partir da observação não dos instrumentos, mas do funcionamento da frequência dos osciladores de rádio, a ideia para a música eletrônica, a qual, há 70 anos, Stockhausen ajudou a fundar. É bem verdade que o francês Pierre Schaefer já havia lançado, em 1948, as bases de uma música que não seguia nenhum padrão tonal ao criar o gênero acusmático, no qual a música pré-gravada é difundida sem a presença de músicos ou cantores em tempo real graças às tecnologias de captação, manipulação e reprodução eletroeletrônicas. Mas o obstinado Stockhausen vai além e monta suas primeiras peças com fitas magnéticas para, sim, serem apresentadas ao vivo, o que realiza com “Gesang der Jünglinge”, peça que completa sete décadas de sua estreia, numa estranhíssima avant-premiére em Colônia, em 30 de maio de 1956. Quem assistiu aquela "performance", saiu ou chocado ou sem entender.

Foto da estreia de "Gesang...", em Colônia.
Estranhamento da plateia
Criada durante dois anos, “Gesang....” - que quer dizer “Canção dos Jovens”, na tradução para o português - é obscura e diferente de qualquer coisa que se tinha notícia até então, antecipando-se à reorganização tonal de Steve Reich e às saborosas esquisitices da turma da Fluxo. Composta para fita magnética e cinco autofalantes, esta obra religiosa não-litúrgica é pioneira em alguns sentidos. Em primeiro lugar, pela própria ideia de fundir e combinar o som da voz humana com sons gerados eletronicamente, lançando mão da tecnologia e das técnicas então disponíveis. A composição é basicamente constituída pela alteração da voz de um menino sintetizada. Alterando o espectro de ondas senoidais, Stockhausen conseguiu criar uma linha contínua que permitia a manipulação de todas as articulações pronunciadas. Uma vez criada a linha contínua, o compositor extraiu os elementos básicos e os grupos de elementos da composição. 

O “serialismo total” desenvolvido por Stockhausen resolve uma série de questões técnicas altamente intrincadas para resultar em uma obra de pouco mais de 13 minutos capaz de, mesmo sem conhecimento profundo de música do ouvinte, impactá-lo. Selvagem e estranhamente “científica”, detalhada e artesanal, “Gesang…”, quando composta, levava horas de trabalho para que fosse criado um segundo de música, apenas dosando, expandindo, reduzindo, sintetizando sons.

Entre silêncios, estranhas emulações de instrumentos “reais”, guizos, farfalhares e ruídos em geral, o que resulta é uma obra sombria, que traduz aquela nova liturgia fundada por Stockhausen. A memória dos pais, o trauma da Guerra, a religiosidade cristã da infância e a febre moral de seu país transformam-se em uma música que, propositalmente, soa sem sentido ou, se não tanto, sem exigir-se racional ou pertencente a uma tradição. O próprio canto do jovem soprano Josef Protschka, de 12 anos à época, período em que a voz dos meninos oscila entre o grave e o agudo, exprime esse incômodo. Nada é verdade. Assim, o texto bíblico Do Forno Ardente, do livro de Daniel, é meramente um instrumento filosófico para o compositor expurgar seus males trazendo à tona outro, que passaria a ser muito conhecido da sociedade: o mal-estar do Século 20.

De Miles Davis a Beatles, passando por David Bowie, Kraftwerk, Philip Glass, Radiohead, Chemical Brothers e Björk, o pensamento de Stockhausen estimulou a que se buscasse desbravar outras possibilidades de composição, apropriação e organização do som, além de alçar o problema da escuta da música a uma outra dimensão. Junto com Boulez e John Cage, Stockhausen reescreveu a música moderna, “matando” o tonalismo e abrindo um novo paradigma. Cabe aos que vieram depois desbravá-lo e decifrá-lo.

Um repórter que presenciara a famigerada estreia de “Gesang…”, ao entrevistar seu compositor logo após, confessou-lhe que achava não ter entendido a obra, mas que ficara extrema e positivamente transtornado com o que ouvira. Stockhausen lhe respondeu que, justamente por essa reação, ele havia, sim, entendido a proposta.

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FAIXAS:
Versão 1957:
1. "Studie I" - 9:42*
2. "Studie II" - 3:20*
3. "Gesang Der Jünglinge" - 13:00
* Peças de música eletrônica geradas a partir de tons senoidais manipulados de 1953 e 1954, respectivamente 

Versão 1962:
1. "Gesang Der Jünglinge" - 13:00
2. "Kontakte" - 35:30**
** Peça para fita de 4 canais escrita entre 1958 e 1960

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Daniel Rodrigues

quarta-feira, 13 de maio de 2026

Música da Cabeça - Programa #459

O Pentágono divulgou foto desse OVNI's em formato esférico sobrevoando os céus, mas lamento frustrá-los. Com nossa super lente de aumento conseguimos ver que não se trata de um corpo extraterreno, mas somente o nosso MDC dando voando alto. Fruto do planeta Terra, o programa desta semana revela sonoridades improváveis, como as de Gilberto Gil, Enya, The Beatles, Talking Heads e Public Enemy. "De outro mundo" também é a música do pai dos sintetizadores, o norte-americano Milton Babbitt, que estará no Cabeção. Sem documentos secretos, o programa está liberado para todos às 21h na terráquia Rádio Elétrica. Produção e apresentação: Daniel Rodrigues (MDC, phone, home!) 


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quarta-feira, 15 de abril de 2026

Música da Cabeça - Programa #455

 

Essa cara de espanto do quadro não é por causa do estilo cubista e nem em razão da pechincha que foi o leilão desse Picasso. O que realmente causa assombro é o MDC de hoje, só com verdadeiras pinturas em forma de música. The Beatles, Cartola, Bent, Neil Young e Elis Regina revelam seus traços. Igualmente, a gente repete o quadro Cabeção de março de 2021 para celebrar os 90 anos da compositora de vanguarda brasileira Jocy de Oliveira. Com uma paleta muito viva, o programa "pinta" por aqui às 21h na artística Rádio Elétrica. Produção, apresentação e tintas próprias: Daniel Rodrigues


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segunda-feira, 15 de dezembro de 2025

Arvo Pärt - “Tabula Rasa” (1977)



Duas das edições mais conhecidas
de "Tabula Rasa": ECM e DG
“A música de Arvo Pärt é como bater em uma parede e um buraco aparece nela, onde você pode ver um novo mundo do qual você não tinha a menor ideia de que existia.” 
Thom Yorke

“Pärt dá espaço para o ouvinte, e ele pode entrar e viver ali.” 
Björk

O século 21 decretou a morte da música erudita. Dos poucos compositores que restaram dos importantes para a história dessa tradição secular, quase todos sucumbiram. O começo do novo milênio os viu, um a um, se despedirem: Luciano Berio (2003), György Ligeti (2006), Karlheinz Stockhausen (2007), Pierre Boulez (2016), Sir Peter Maxuell Davies (2016). Até mesmo os “trilheiros” John Williams e Philip Glass ficaram sozinhos com a ida, praticamente nas duas últimas décadas, de Jerry Goldsmith (2004), Ennio Morricone (2020) e, mais recentemente, Ryuichi Sakamoto (2023).

Após séculos de permanente produção, de obras-primas da humanidade, de sublimações, de revoluções, de genialidades, de invenções de mundos, a arte musical clássica, enfim, se desgastava. Da era antiga ao Renascimento, do Barroco ao Romantismo, do Modernismo às vanguardas, parece que nada mais restara para se apresentar, entender, aprender ou subverter. Algo haveria de salvar a música clássica desta crise. Mas o quê? A resposta estava na batuta do maestro e compositor estoniano Arvo Pärt, o último bastião da música clássica mundial, que completou 90 anos em 2025. Sua obra-símbolo: “Tabula Rasa”, de 1977, marco na história da música do século 20 e talvez a última grande obra da música erudita – até aqui.

Pärt é um desses compositores cuja produção criativa mudou significativamente a forma como se entende a natureza da música. Em 1976, após anos de pesquisa, interrupções e introspecção, e por ter passado pelos mais variados estilos (neoclassicismo, dodecafonia, serialismo, sonorismo, colagem e aleatoriedade), ele criou uma linguagem musical única chamada tintinnabuli (latim para "pequeno sino"), a qual define seu trabalho até hoje. A técnica, em essência, une duas linhas monódicas de estrutura – melodia e tríade – em um conjunto inseparável. Ela cria uma dualidade original de vozes através da qual confere um novo significado aos eixos horizontal e vertical da música, ampliando a percepção da música tonal e modal em seu sentido mais amplo.

Claro que, como todo compositor talentoso da União Soviética comunista, a exemplo dos conterrâneos Shostakovitch, Prokofiev e Stravinsky, uma vez que sua Letônia só se emancipara do Bloco em 1991, Pärt teve problemas com o governo. Por um lado, ele era visto como um dos compositores mais originais e notáveis de sua geração. Por outro, muitas de suas obras compostas na década de 1960 foram duramente criticadas, sobretudo “Credo”, de 1968, pelo impacto "perigosamente" forte que teve sobre o público. O texto em latim "Credo in Iesum Christum", constante no libreto, era uma confissão aberta e sincera do compositor de sua religiosidade cristã, o que foi considerado provocativo e contrário ao regime soviético da época. “Credo” foi praticamente proibida e Pärt, assim como sua música, caiu em desgraça por vários anos.

Curiosamente, foi justamente nesse período de reclusão e crise interna, o qual durou até 1976, que fez o compositor chegar à sua autoexpressão. Convertido à Igreja Ortodoxa, em 1972, e voltado intensamente para a música antiga, dedicando-se ao estudo do canto gregoriano, da Escola de Notre Dame e da polifonia renascentista, Pärt chega, enfim, ao tintinnabuli. “Tabula Rasa” (“Folha em Branco”, na tradução do latim), dos primeiros trabalhos resultantes desse longo processo do autor, não poderia ter um nome mais significativo.

Concerto de pouco menos de meia hora de duração escrita para cordas, piano preparado e dois violinos solo, "Tabula Rasa" contém apenas dois movimentos: “Ludus” e “Silentium”, que se complementam entre si em estrutura e expressão. “Ludus” (“Jogo”) mostra os dois violinos solo brincando em campos de lá menor, suavemente a princípio (após sua declaração fortissimo do centro tonal) e frequentemente interrompidos por silêncios. O “jogo” cresce em volume e atividade rítmica até explodir em uma cadência climática, um turbilhão de arpejos para os solistas e o piano preparado (ou seja, parafusos de metal e feltros inseridos entre as cordas do piano, produzindo "um efeito de cor tonal alienada"). A sensação gerada por Pärt neste movimento é de elevação. O Deus de Pärt está ali, definitivamente. Impossível o ouvinte ficar passivo à sua força emocional.

Já “Silentium” (“Silêncio”) é puro "tintinnabulismo": com elementos que conversam com a primeira parte, traz suaves oscilações triádicas sobre escalas no baixo. No final, os instrumentos vão desaparecendo gradualmente à medida que a música penetra nas profundezas. Densa, contristada, absoluta de espírito. Sem pressa em sua fé e expressividade.

Pärt e seu tintinnabuli influenciariam grande parte da música contemporânea, como Björk, Steve Reich, Radiohead, PJ Harvey e Nick Cave, que celebram ainda outras obras marcantes do compositor como "Spiegel im Spiegel" (1978), "Cantus in Memory of Benjamin Britten" (1977), "Collage über BACH" (1964) e "Te Deum" (1993). Diferentemente de outros inventores de técnicas composicionais modernos, como o jazzista norte-americano Anthony Braxton e o modernista lituano Osvaldas Balakauskas, cujos métodos são tão intrincados como exclusivos, Pärt, com seu proveito dramático dos silêncios, os ataques poderosos, o uso estratégico das dissonâncias e a expressão de uma profunda espiritualidade, alcançou o coração das pessoas. Se a música erudita tal qual a humanidade conhece acaba em Pärt, ao menos simboliza um final à altura. Mais do que isso, um final em que, curiosa e simbolicamente, termina onde tudo começou: nos primórdios da humanidade. Numa "tabula rasa".

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O CD "Tabula Rasa", editado pela Deutsche Gramophon em 1999, traz, além deste concerto, "Fraters", composição da mesma fase e ano que a obra principal, 1977, e a "Sinfonia nº 3", de 1971, considerada uma composição precedente do ainda não criado método composicional pärtiano. Já a versão da ECM, que detém os direitos da obra do compositor estoniano, editada em 1984, reúne duas versões de "Fraters": uma com a luxuosa execução de Gidon Kremer, ao violino, e Keith Jarrett, ao piano, e outra com arranjo da Orquestra de 12 Celistas da Filarmônica de Berlim. Inclui também "Cantus In Memory of Benjamin Britten" (Orquestra Staatsorchester de Stuttgart) e, claro, a própria "Tabula Rasa", que ganha execução da Lithuanian Chamber Orchestra, sob regência de Saulus Sondeckis, piano preparado pelo pianista e compositor russo Alfred Schnittke e violinos de Gidon Kremer e Tatjana Grindenko.

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FAIXAS:
Ed. Deutcsche Gramophon:
1. "Fratres" - For Violin, String Orchestra And Percussion (Roger Carlsson, Gil Shaham, Göteborgs Symfoniker, Neeme Järvi) - 09:43
a. "Ludus: Con moto" - 09:50
b. "Silentium: Senza moto" - 13:17
3. "Symphony No.3" (Göteborgs Symfoniker, Neeme Järvi)
a. "Attacca" - 06:59
b. "Più mosso Attacca" - 09:09
c. "Alla breve" - 09:09

Ed. ECM:
1. "Fratres" (Piano – Keith Jarrett/ Violin – Gidon Kremer) - 11:24
2. "Cantus In Memory Of Benjamin Britten" (Conductor – Dennis Russell Davies/ Orchestra – Staatsorchester Stuttgart) - 5:00
3. "Fratres" (The 12 Cellists Of The Berlin Philharmonic Orchestra) - 11:49
4. "Tabula Rasa" (Conductor – Saulus Sondeckis/ Orchestra – Lithuanian Chamber Orchestra/ 
Piano Prepared – Alfred Schnittke/ Violin – Gidon Kremer, Tatjana Grindenko) - 26:26

OUÇA:

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Daniel Rodrigues


quarta-feira, 29 de outubro de 2025

Música da Cabeça - Programa #433

 

A Nasa tá se quebrando pra entender o comportamento do cometa 3I/Atlas. Mas o que vai dar mesmo um nó nos cientistas é desvendar a composição do MDC desta semana. Elementos como Luiz Gonzaga, Michael Jackson, Dr. Feelgood, Banda Black Rio e Elis Regina formam uma química improvável. Ainda mais atônico é o nosso homenageado do Cabeção, o italiano Luciano Berio, que faria 100 anos. Enquanto o corpo interestelar ziguezagueia na direção da Terra, a gente escuta o programa 433 bem de boas, às 21h, na celeste Rádio Elétrica. Produção, apresentação e só de olho no céu: Daniel Rodrigues


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quarta-feira, 1 de outubro de 2025

Música da Cabeça - Programa #429

 

Que porrada foi essa, Wanderlei Silva? Olha, mas porrada mesmo vai ser quando ouvir o MDC desta semana. Reunindo só pesos-pesados, sobem ao ringue hoje Frank Zappa, Caetano Veloso, Buffalo Springfield, Sinead O'Connor e The Bangles. No Sete-List, os 80 anos de Gal Costa. Dando um cruzado de direita, o programa vai pra luta às 21h com transmissão ao vivo da Rádio Elétrica. Produção, apresentação e luvas calçadas: Daniel Rodrigues.


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quarta-feira, 18 de junho de 2025

Música da Cabeça - Programa #415

Esta é a impressão digital mais antiga da humanidade até então desconhecida. Mas se você prestar bem atenção vai ver que, na verdade, não é tão desconhecida assim. Afinal, música tá no DNA do MDC desde os primórdios. Deixando seu datilograma hoje temos João Donato, George Benson, Henri Mancini, Alien Sex Fiend, Marisa Monte e mais. Também, salves para os 80 de Anthony Braxton e de Ivan Lins e uma despedida a Bira Presidente. Na ponta dos dedos, o programa hoje vai ao ar às 21h na autêntica Rádio Elétrica. Produção, apresentação e marca original: Daniel Rodrigues


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quarta-feira, 26 de março de 2025

Música da Cabeça - Programa #404

As algemas já estão separadas, só esperando aquele dia tão aguardado. Enquanto o processo corre, a gente prepara a festa com música. A trilha sonora do xilindró traz Chico Batera, Joe Espósito, Elis Regina + Jair Rodrigues, Frente! e mais, como Jorge Benjor, aniversariante da semana. Ah, e praquele momento mais "Cabeção" da festa, tem ainda Pierre Boulez, que completaria 100 anos. Esfregando as mãos, o MDC forma maioria hoje às 21h na justa Rádio Elétrica. Produção e apresentação "sem anistia": Daniel Rodrigues




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quinta-feira, 20 de fevereiro de 2025

Quinteto Armorial - “Do Romance ao Galope Nordestino” (1974)

 

Doses Cavalares de Brasil


“Convencidos de que a criação é muito mais importante do que a execução, [os músicos do Quinteto Armorial] preferiram a tarefa mais dura, mais ingrata, mais difícil e mais séria: a procura de uma composição nordestina renovadora, de uma Música erudita brasileira de raízes populares, de um som brasileiro, criado para um conjunto de câmera, apto a tocar a Música europeia, é claro mas principalmente apto a expressar o que a Cultura brasileira tem de singular, de próprio e de não europeu.” 
Ariano Suassuna 

A história da arte no Brasil viu, em alguns momentos, a tentativa de se representar uma ideia de nação. Seja por motivos políticos, ideológicos ou simplesmente astuciosos, é fácil concluir que, para se chegar a uma identidade pretensamente simbólica de um povo, a produção artística é o melhor meio para se alcançar essa finalidade nacionalista. No século XIX, o Romantismo à brasileira buscava, num território recém emancipado da Coroa portuguesa, ressaltar as paisagens exóticas, a natureza, os povos primitivos e a miscigenação para suscitar o orgulho dos “novos” brasileiros. No Estado Novo, igual. Tanto o forte investimento na Rádio Nacional, impulsionadora de uma gama de célebres artistas, como no cinema, denotam o projeto de Estado de unificar em uma mensagem ufanista um espírito comum.

Afora a grande subjetividade de se materializar esse feito e da óbvia dificuldade de sintetizar em códigos simbólicos um país de dimensões continentais e em construção, é evidente que a estratégia não deu necessariamente certo em todas essas tentativas. A influência da Europa, seja como modelo, seja como contraposição, põe às claras a falta de elementos primitivos da cultura e da natureza de um país jovem historicamente como o Brasil – principalmente, em comparação à própria Europa, não à toa chamado de Velho Mundo. Residem nesse pensamento ocidentalizado as críticas a outro movimento que também tentou com suas ferramentas inventar uma arte puramente brasileira: o Movimento Armorial. Antes de “brasileira”, aliás, nordestina. Surgido em 1970 por iniciativa do escritor paraibano Ariano Suassuna quando atuou como Diretor do Departamento de Extensão Cultural da Universidade Federal de Pernambuco, essa vertente artístico-cultural, manifesta em literatura, música, dança, artes plásticas, arquitetura, cinema, etc., centrava-se na valorização das artes populares nordestinas e propunha como ideia central a criação de uma arte erudita a partir de elementos populares.

Há quem acuse o Movimento Armorial de ser, além de academicista, também elitista e cínico, pois, na prática, não se comunicava com o tal povo no qual tanto bebia, restringindo-se ao círculo de seus principais cabeças: Suassuna, o artista plástico Francisco Brennand, o gravurista Gilvan Samico e uma meia dúzia de afortunados homens das artes. O que é impossível criticar, no entanto, é a qualidade das obras produzidas, entre elas uma que completou 50 anos em 2024: o disco de estreia do Quinteto Armorial, “Do Romance ao Galope Nordestino”. Com uma obra que propõe um diálogo entre o cancioneiro folclórico medieval e as práticas criativas dos cantadores nordestinos e seus instrumentos musicais tradicionais, o Quinteto Armorial lançava, pelo selo Marcus Pereira, um trabalho revolucionário e inédito em forma e conceito, o qual mereceu Prêmio APCA como o Melhor Conjunto Instrumental de 1974.

Formado pelos então jovens músicos nordestinos Antônio José Madureira, Egildo Vieira do Nascimento, Antônio Nóbrega, Fernando Torres Barbosa e Edison Eulálio Cabral, o conjunto instrumental trazia um manancial de aparatos musicais condizente com sua proposta de síntese: rabeca, pífano, viola caipira, violão e zabumba perfilando-se com os eruditos violino, viola e flauta transversal. A junção do conceito armorial com a textura dos sons gerava uma sonoridade própria, a se ver por "Revoada", exemplo claro dessa junção de tempos históricos, culturas e apropriações. Sem percussão, traz o som metálico da viola caipira, que se harmoniza com as cordas – o violino clássico e a rabeca, retrazida da Idade Média para este novo contexto – e o sopro de pífaro e flauta. Uma forma bastante didática de começar o disco.

Como bem coloca Suassuna em seu texto de apresentação na contracapa do disco, há a influência ibérica por meio dos instrumentos de origem hindu ou árabe, tão marcantes no Nordeste. Se "Revoada" é ritmada e lírica em seus toques ásperos e arcaicos, “acerados como gumes de faca-de-ponta”, tanto mais é "Repente". Esta evoca o Nordeste somente em sons e sem precisar articular uma palavra ou verso a tradição poético-musical dos repentistas de improvisarem estrofes criando-os no exato momento da apresentação. Desde 2021, o repente é considerado patrimônio cultural do Brasil pelo Iphan. 

Típica obra do Movimento Armorial: "Pe. Cícero Romão (Tríptico)”,
óleo sobre aglomerado de Gilvan Samico, do mesmo ano do disco
“Padrinhos” musicais do movimento Armorial, o maestro carioca César Guerra-Peixe e o compositor e folclorista pernambucano Capiba são reverenciados. Guerra-Peixe com a faixa “Mourão”, de sua autoria, um baião embalado que o Brasil inteiro passou a conhecer melhor na trilha sonora do filme “O Auto da Compadecida”, de 2000 (e que acaba de ganhar uma continuação), que se inspira em seus acordes. Nome do cavalo típico do sertão, Mourão, além da evidente referência aos mouros pela cor da pele/pelagem crioula, dignifica, ainda, uma das alusões presentes no título do disco, o “galope”, estilo musical base das festividades juninas da região. 

Já Capiba tem semelhante destaque. O inventor de frevos clássicos da cultura de Pernambuco e protagonista do tradicional bloco carnavalesco Galo da Madrugada, também é lembrado por uma de suas principais peças: "Toada e Desafio", esta também da trilha de “O Auto...” – aliás, a música central do filme –, aqui lindamente executada pelo Quinteto Armorial. Mais um leque de conhecimentos empíricos trazidos à luz da música erudita: além do popular galope, agora merecem releituras a “toada”, cantiga de melodia simples e monótona entoada pelos vaqueiros nordestinos, e o “desafio”, duelo de versos improvisados surgido na Grécia antiga entre os pastores, reinventado na Idade Média e que veio parar no Brasil justo no Nordeste brasileiro, onde, como diz Luz Câmara Cascudo, “o combate assumiu asperidades homéricas”.

A força cultural nordestina dá ainda mais elementos a Madureira, que compõe a renascentista "Toada e Dobrado de Cavalhada", claramente dividida em duas partes: um lento introdutória e, na sequência, um allegro que acompanha o trote ligeiro da dança. Flautim e pífaro dialogando. Misto da música rural dos berberos marroquinos e os mouros dos séculos 12 e 13, ambos ligados pela religião. Vanguarda que surpreenderia até mesmo gente como a Penguin Cafe Orchestra, como a “desafinada” “Toré”, absolutamente moderna. 

E quando idealizam uma Idade Média brasileira para além dos livros de História, como em "Romance da Bela Infanta"? Tema amoroso ibérico do séc. XVI recriado nas cores monocórdicas dos instrumentos rústicos. Mas Madureira faz ainda melhor quando resgata o romance do próprio Nordeste! "Romance de Minervina", canção provavelmente datada do séc. XIX, que recria uma atmosfera provençal ao modo dos trópicos. É possível enxergar uma procissão pelos campos mediterrâneos e, ao mesmo tempo, a tristeza árida do sertão. Igualmente medievas são "Excelência”, tema nordestino de canto fúnebre, e “Bendita”, cântico de Zacarias à maneira dos Salmos que os romeiros entoam pelo itinerário do enterro.

Antônio Nóbrega, dono de reconhecida carreira solo e o de maior proeminência entre todos os músicos do grupo, já a época não ficava para trás. É dele "Ponteio Acutilado", moda forjada na tradição dos violeiros. É praticamente 1 min de solo de viola caipira para, a partir de então, todos os outros instrumentos entrarem e se harmonizarem como se sempre tivessem pertencido ao mesmo território geográfico. A outra dele é "Rasga", dissonante e introspectiva na primeira metade, mas que se encerra (e ao disco) com um “rasga ponteio” festivo.

Os ouvidos populares hoje são familiarizados com a sonoridade que o Quinteto Armorial ajudou a sintetizar. Basta notar a naturalização desses sons em produções populares inspiradas na obra de Suassuna e seus séquitos, como as incontáveis produções audiovisuais da TV Globo que emulam esse universo folclórico e onírico. Mal comparando, como fizeram os alemães da Kraftwerk ao “inventarem” os sons de computador que conhecemos hoje, criando uma espécie de “sonoplastia digital” que se tornou universal. Para com a sonoridade nordestina e, até por uma questão de proporção territorial bastante brasileira, no caso, o Quinteto Armorial cumpriu mais do que um papel esteticamente formal, mas, sim, musical e antropológico. 

O movimento ao qual o Quinteto Armorial muito bem representou não é um consenso entre as pessoas da cultura, mas é inegável a validade de sua proposta, reconhecida hoje nacionalmente, haja vista a rica exposição aos seus 50 anos, ocorrida em 2023, e também internacionalmente por artistas consagrados como o chinês Ai Weiwei. A ideia de valorização da cultura do Brasil que movimentos como este tentam suscitar de tempos em tempos, podem, mesmo com as controvérsias, serem vistas como potência. Uma potência policarpeana de tornar oficial a cultura ancestral. Como escreveu Lima Barreto em “O Triste Fim de Policarpo Quaresma”, personagem símbolo da luta por uma identidade brasileira: “O que o patriotismo o fez pensar foi num conhecimento inteiro do Brasil, levando-o a meditações sobre os seus recursos, para depois então apontar os remédios”. Se depender desse pessoal, nenhum brasileiro jamais adoeceria por causa de síndrome de vira-latas.

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FAIXAS:
1. "Revoada" (Antônio José Madureira) - 3:44
2. "Romance da Bela Infanta" (Romance ibérico do Séc. XVI, recriado por Madureira) - :53
3. "Mourão" (César Guerra Peixe) - 1:50
4. "Toada e Desafio" (Capiba) - 4:26
5. "Ponteio Acutilado" (Antônio Carlos Nóbrega) - 4:32
6. "Repente" (Madureira) - 4:36
7. "Toré" (Madureira) - 2:59
8. "Excelência" (Tema nordestino de canto fúnebre, recriado por Madureira) - 3:02
9. "Bendito" (Egildo Vieira do Nascimento) - 4:23
10. "Toada e Dobrado de Cavalhada" (Madureira) - 4:52
11. "Romance de Minervina" (Romance nordestino, provavelmente do Séc. XIX, recriado por Madureira) - 1:33
12. "Rasga" (Nóbrega) - 4:48

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OUÇA O DISCO:


Daniel Rodrigues
Texto publicado originalmente no site AmaJazz

quarta-feira, 12 de fevereiro de 2025

Música da Cabeça - Programa #398

 

É guerra de tarifa pra cá, é retaliação pra lá... Olha, se continuar assim, vão sobretaxar até quem escuta o MDC. Enquanto o Trump não se dá conta disso, a gente traz um programa tipo exportação saído de fábrica. João Bosco, Karnak, R.E.M., Cátia de França e um Cabeção à memória de Alban Berg só fazem dar mais valor agregado à nossa carga. Livre de impostos, a edição entra em rota a partir das 21h pelos mares musicais da portuária Rádio Elétrica. Produção, apresentação e contêineres de música boa: Daniel Rodrigues.


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quarta-feira, 23 de outubro de 2024

Música da Cabeça - Programa #383

 

Sem essa de roubar o boi dos outros, pois aqui é garantido que o Boi Garantido não é fake! E garantia também é de um novo MDC com a mais pura verdade. Sandra Sá, Arthur Rimbaud, Iggy Pop, Enya e Cornelius que não nos deixam mentir. Igualmente, um Cabeção pra não restar dúvida sobre a importância de Charles Ives. Garantindo a qualidade e a veracidade, o programa vai ao ar às 21h na confirmada Rádio Elétrica. Produção, apresentação e "que vacilo, Lud!": Daniel Rodrigues.


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quarta-feira, 18 de setembro de 2024

Música da Cabeça - Programa #378

 

Calma aí, Datena! Não precisa partir pra ignorância. Afinal, ouve o MDC quem quer, e eu duvido que alguém de sã cosciência não queira se ligar na edição desta semana. Também, com Marisa Monte, João Nogueira, Deep Purple e Fausto Fawcett, até esse boçal deve se interessar. E ainda mais com as homenagens a Arnold Schoenberg e Lupicínio Rodrigues! Faz assim: usa a cadeira pra sentar e escutar numa relax o programa, às 21h, na pacífica Rádio Elétrica. Produção e apresentação no país do meme pronto: Daniel Rodrigues


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segunda-feira, 27 de maio de 2024

Philip Glass - "Symphony Nº 4 'Heroes'” ou "'Heroes' Symphony - by Philip Glass from the Music of David Bowie & Brian Eno” (1997)



As várias capas e edições de "Heroes" pelos selos
Point Music, Orange Mountain, Universal e Decca
  
“A influência contínua destas obras, ‘Low’ e ‘Heroes’, garantiu a sua estatura como parte dos novos ‘clássicos’ do nosso tempo. Assim como os compositores do passado recorreram à música do seu tempo para criar novas obras, o trabalho de Bowie e Eno tornou-se uma inspiração e ponto de partida para uma série de sinfonias de minha autoria”.
 
Philip Glass

Chegados os anos 90, Philip Glass já era uma lenda digna da idolatria. Ligado à música de vanguarda da Costa Leste norte-americana, pela qual surgiu nos anos 60, o autor das “Glassworks” e de peças revolucionárias como “Music in Twelve Parts”, “Koyaanisqatsi” e "Metamorphosis" já havia ultrapassado a linha entre erudito e popular fazia muito tempo, desde suas trilhas sonoras marcantes para o cinema quanto por sua aproximação com o rock e a world music. Porém, afeito a desafios, Glass deu-se conta de um gap em sua já extensa obra àquela época: por incrível que parecesse, faltava-lhe ainda a composição de uma sinfonia. Sim, Glass havia escrito óperas, concertos, corais, peças para câmara e teatro, prelúdios, partitas, balês, sonatas, trilhas sonoras e toda categoria musical que se possa imaginar. Menos sinfonia, justamente o gênero que tanto consagraria os grandes nomes da música clássica, aquele pelo qual os fariam mundialmente conhecidos, como Beethoven (5ª e 9ª), Mahler (Trágica), Mozart (41ª ou Júpiter), Berlioz (Fantástica) e Shostakovich (8ª).

Glass precisava preencher essa lacuna. No entanto, dada a importância deste tipo de obra para um autor do gabarito dele, entendia que precisava ser algo especial. O “coelho da cartola” foi, mais uma vez, a versatilidade e o ecletismo: usar o rock como base para isso. Igual ao que compositores clássicos antigos faziam ao se referenciarem na obra de seus ídolos, só que de uma forma bem inovadora. Sobre temas do clássico disco “Low”, de David Bowie, de 1977, gravado na Alemanha e cuja batuta de Brian Eno mereceu-lhe créditos de coautoria, Glass elaborou sua primeira sinfonia em 1992. Um sucesso de crítica e, principalmente, junto aos próprios Bowie e Eno, que adoraram a homenagem, O mais legal da rica versão de Glass para as faixas do Lado B de “Low”, as de caráter mais ambient e avant-garde do álbum, foi que ele não criou uma ópera-rock, dando somente um teor erudito a sonoridades pop mas, sim, extraindo o que havia de “erudito” de cada música, de cada detalhe, fosse na instrumentalização, no redesenho sonoro ou mesmo na escolha de quais faixas usar.

Caminho aberto para as sinfonias, e Glass, então, não parou mais. Escreveu, nos anos subsequentes, as de nº 2 (1994) e nº 3 (1995) - formando, atualmente, 14 peças neste celebrado formato. Porém, a talvez melhor de sua carreira seja a que veio logo a seguir, em 1997: a “Sinfonia nº 4” ou simplesmente “Heroes”. Animado com a primeira experiência sinfônica e encorajado pelos próprios autores, Glass repete a dose de se inspirar noutro álbum célebre de Bowie/Eno: “Heroes”, de 1978, que forma, junto com "Low" e “Lodger”, de 1979, a famosa trilogia alemã que redefiniu o futuro da música pop com sua ousada combinação de influências da world music, da vanguarda experimental e do rock.

A experiência das sinfonias anteriores - bem como dos trabalhos com grande orquestra, como as óperas - foi, contudo, fundamental para que Glass chegasse à sua quarta empreitada neste tipo de obra mais equipado musical, formal e esteticamente. Glass sabia exatamente como fruir os sons e arranjos das canções originais para criar uma peça ainda mais singular. Ele utiliza flautins, clarinetes baixos, metais (trompete, trombone, trombone baixo, trompa e tuba), percussões (tambor lateral, tambor tenor, bumbo, pandeiro, pratos, triângulo, vibrafone, tam-tam, castanholas e carrilhão), harpa, celeste e cordas (violino, viola, violoncelo e contrabaixo).

O melhor exemplo é o tema-título, o "1º Movimento". Quem escuta os acordes orquestrados de Glass dificilmente identifica a música de Bowie, aquele glitter rock potente e dramático. Aliás, talvez a única característica mais visível que ele tenha mantido nos quase 10 minutos que se transcorrem (em detrimento dos aproximadamente 3min30' da versão comercial de Bowie ou, no melhor dos casos, dos pouco mais de 6min da versão estendida) seja a dramaticidade, tendo em vista que a transforma num adagio instrumental cheio de idas e vindas, volumes e variações de intensidade, Mas, principalmente: o veterano minimalista deu uma personalidade única à música, recriando-a. O entendimento de Glass sobre o que ele ouve em “Heroes” é tão singular quanto genial, coisa de quem tem ouvido absoluto ou uma outra percepção sobre as coisas: uma audição além daquilo que os reles mortais alcançam. 

A “Heroes” de Glass, por sinal, é mais colorida do que a séria expressividade dada pelo autor da canção. E não se ceda à tentação de cogitar que a “Heroes” sinfônica é meramente uma orquestração do tema que a originou, como se fosse possível encaixar uma sobre a outra. É, sim, uma outra “Heroes” - ou melhor, a mesma, só que sentida de outra forma. E embora as dessemelhança, por incrível que pareça, há ainda um fio de identificação, como que a "alma" da criação tivesse se mantido. A se pensar em outros trabalhos da música erudita dos anos 90, década pouco densa em obras significativas nesse campo em relação a suas antecessoras, “Heroes, Moviment I” é comparável a outras três marcantes obras: “Kristallnacht”, de John Zorn, "Food Gathering in Post-Industrial America, 1992", de Frank Zappa, e “Blu”, de Ryuichi Sakamoto.

Na sequência, “Abdulmajid”, de um arranjo primoroso, pega emprestada com suavidade a atmosfera árabe deste b-side de “Heroes”, uma world music bastante eletrônica em sua concepção primal, próximo ao som de Jon Hassell e Terry Riley. Ela ganha, agora, um conjunto de cordas em variações de 5 e 7 tempos, castanholas e uma percussão cintilante de sinos, esta última, executora do “riff”. Assim como o movimento inicial, este andante é prova da tarefa nada óbvia a que Glass se propôs, uma vez que seria, por exemplo, muito mais fácil arranjar para orquestra o tema de feições orientais (e já instrumental) “Moss Garden”, uma das faixas de “Heroes” de Bowie que não aproveitou. Já “Sense of Doubt”, originalmente instrumental, é provavelmente a que menos trabalho lhe deu em adaptar, visto que sua estrutura melódica forjada nos sintetizadores já intui o som da orquestra.

Para “Sons of the Silent Age”, mais uma das originalmente cantadas assim como “Heroes”, Glass suprime as vozes e dá a roupagem mais clássica de todas do repertório. Elegante, explora bastante os sopros doces em contraste com os registros graves de tuba e trombone baixo. Pode-se dizer um balê glassiano, que traz as repetições circulares de cordas e sopros, as quais dão a sensação hipnótica peculiar de sua música, mas ao mesmo tempo bastante renascentista, fazendo remeter a outros mestres formadores de sua musicalidade como Bach e Mozart.

Outra que Glass consegue unir a originalidade de seu olhar sobre a obra alheia e o frescor daquilo em que se baseia é “Neuköln”, a música que os ingleses Bowie e Eno compuseram em homenagem a um dos bairros de Berlim no período em que se refugiaram na capital alemã para produzir “Low/Heroes/Lodger”. Nesta, o compositor norte-americano se esbalda sobre a ideia-base, a de uma peça eletroacústica que conjuga sintetizadores, guitarras e frases arábicas de um áspero sax alto tirada do atonalismo de Cage e La Monte Young, admirados por Eno. Sabedor de todos estes caminhos como poucos, tanto dos antecessores quanto dos contemporâneos, Glass reúne as pulsões sonoras distintas e promove uma reunião de tempos e intenções, redimensionando a própria música. Ele não deixa de aproveitar nenhuma nota, nenhum som para atribuir a “Movement V - Neuköln” um caráter particularmente épico. 

Encerrando, outra na qual Glass mostra o quanto suas antenas são capazes de sintetizar mundos. Homenagem de Bowie e Eno aos pais do pop eletrônico, a banda alemã Kraftwerk, ‘V2 Schneider” (referência ao sobrenome de um dos fundadores e principais compositores dos “homens-máquina”, Florian Schneider) ganha uma retextura de Glass à sonoridade high-tech em um corpo sonoro tradicional e secular. Conforme diz o crítico musical especializado em música clássica Richard Whitehouse, “V2 Schneider” abre com movimentos rítmicos animados em metais e percussão, cordas e sopros trocando temas à medida que a música ganha em incisividade. “O movimento rítmico solidifica-se num ostinato pulsante, ao longo do qual a atividade ganha intensidade textural e dinâmica, construindo um pico de que é encimado pelo vigoroso acorde de encerramento, arredondando assim toda a obra com um efeito decisivo”, completa. Ao traduzir Bowie/Eno, Glass retraduzia o kratrock alemão presenciado in loco pela dupla britânica e, por tabela, todos os que inventaram a música eletrônica, como o “germaníssimo” Karlheinz Stockhausen e a turma da Música Nova de Darmstadt dos anos 50.

Em 1971, dois jovens músicos de aparência kitsch interessados em arte para além do rock assistiam empolgados à estreia em Londres de “Music in Changing Parts”, obra da primeira fase de Glass. Esses jovens eram David Jones e Brian de La Salle Eno, já artistas consagrados, mas nem por isso incapazes de admirar um de seus heróis na música. Tamanha reverência parece ter, de alguma forma, influído para que esse “herói” concretizasse, mesmo que apenas mais de três décadas depois, a autoexigência de compor sinfonias tendo como objeto exatamente aqueles dois rapazes fãs de tanto tempo. Sucessor de “Low” na fase alemã de Bowie, “Heroes” fazia-se, agora sinfônico, igualmente sucessor, mas na carreira de Glass - que ainda concluiria a veneração à trilogia berlinense com “Symphony Nº 12  - Lodger”, de 2022. Criadores e criaturas se intercambiam e se referenciam mutuamente. Como dizem os versos da música que dá nome a ambas as obras, a de Bowie/Eno e a de Glass, “Nós podemos ser heróis”. Todos são.

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Como ocorre com obras do catálogo ligado à música clássica, “Heroes Symphony” ganhou mais de uma edição. Em pelo menos duas delas, a peça vem acompanhada no CD de outras duas também orquestrais: o "Concerto para Violino", de 1987 (edição Deutsche Grammophon/Decca, de 2014), e outra em conjunto com “Low Symphony” (Universal, 2003). 

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FAIXAS:
1. “Movement I - Heroes” (David Bowie/Brian Eno) - 9:28
2. “Movement II - Abdulmajid” (Bowie/Eno) - 9:24
3. “Movement III - Sense of Doubt” (Bowie) - 7:29
4. “Movement IV - Sons of the Silent Age” (Bowie) - 8:37
5. “Movement V - Neukoln” (Bowie/Eno) - 7:58
6. “Movement VI - V2 Schneider” (Bowie) - 7:17

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OUÇA O DISCO:


Daniel Rodrigues