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segunda-feira, 11 de junho de 2012

Cocteau Twins - "Treasure" (1984)





“A voz de Deus”
como a imprensa britânica,
entusiasticamente apelidou
Liz Fraser quando do aparecimento da banda



 Tal qual um raio de sol iluminando o dia é como surge A Voz de Deus na canção que abre o terceiro álbum dos escoceses do Cocteu Twins, quando pela primeira vez conseguem extrair o melhor de sua potencialidade melódica, lírica e estética. Não que os trabalhos anteriores fossem ruins, mas a mecanicidade das programações de bateria, especialmente no primeiro trabalho, “Garlands” e a rigidez dos vocais da vocalista Elizabeth Fraser na época, quando a banda podia até mesmo ser enquadrada na cena dark tal a densidade e obscuridade das musicas, desperdiçava exatamente o que a banda tinha de melhor e comprovaria futuramente, que era a melodiosidade instrumental e o potencial lírico de sua vocalista.
Em “Head Over Heels”, segundo álbum o caminho começava a ser encontrado, as programações ainda estavam lá e ainda soavam frias, os climas ainda eram sombrios, mas já se notava uma evolução compositiva significativa e sobremaneira uma maior leveza na condução da vocalista, de evidente capacidade até então subexplorada. Mas era então em “Treasure”, de 1984, que o milagre acontecia e aquela abertura de álbum, com a voz semi-soprano de Liz Fraser surgindo doce e frágil, como que levantando do horizonte, anunciava que os Cocteau Twins encontravam o caminho que seguiriam dali para frente com cada vez maior apuro e perfeição técnica, desenvolvendo como nenhuma outra banda uma música de climas etéreos, incorpóreos, imateriais.
Com uma bela levada de violão à espanhola , “Ivo” tem uma interpretação envolvente e apaixonada de Fraser, fazendo nos refrões algo parecido com pequenos e graciosos soluços. “Lorelei” que a segue é alegre, fresca, cheia de sinos e pirilampos, enfeitando suas variações e brincadeiras vocais. Num clima todo clerical, “Beatrix”, com seus teclados sacros sobre uma notável linha de baixo de Simon Raymonde, traz a voz de Liz Fraser no máximo de seu potencial operístico, nesta que é uma das canções mais arrepiantes do disco.
Num álbum cujas canções levam títulos que remetem a seres fantásticos, lendas celtas ou personagens mitológicos, “Persephone” (a deusa dos mundos inferiores na mitologia grega) é uma pequena viagem ao inferno, lembrando muito a sonoridade do primeiro disco, “Garlands”, com programação de bateria dura, forte, pesada, marcada, indesmentivelmente eletrônica, mas aqui claramente com uma intenção formal mais consolidada. Montando uma atmosfera toda sombria e claustrofóbica, somados à batida fria, a guitarra de Robin Guthrie aparece mais ruidosa que nunca, o baixo de Raymonde cria uma espécie de camada sonora e Liz Fraser canta desesperada e angustiadamente, no limite entre o belo e o trágico.
“Pandora”, a outra deusa grega do disco, ao contrário da anterior, é como uma brisa amena, como uma fonte de água cristalina, como uma chuva de verão, tal a leveza da guitarra de Guthrie e a beleza dos vocais sobrepostos, ecoados e misturados de Fraser, cantando versos ininteligíveis, palavras inexistentes ou meras vocalizações de sonoridade interessante.
Num fado valseado que caracterizaria bem o som da banda dali para a frente, “Amelia”, apaixonante, traz mais uma interpretação de tirar o fôlego de Miss Fraser, cantarolando sem letra e explorando toda sua capacidade praticamente de cantora clássica.
“Cicely” é mais crua, com a bateria eletrônica soando dura; “Aloysius” tem uma bela melodia de escala decrescente de guitarra; e a nebulosa “Otterley” é praticamente sussurrada sobre leves dedilhados de violão, antecipando a sonoridade que seria tônica no trabalho seguinte, “Victorialand”.
“Donimo” anuncia o final do com a voz de Liz emergindo com uma doçura incrível, depois florescendo em sons até atingir um êxtase de emoção num final mais que digno para um disco como este.
Embora a banda não morra de amores pelo álbum, penso que a partir dele é que o trio escocês escreveu seu nome na história do rock com uma linguagem absolutamente singular. Muitos trabalham essa linha etérea, muitos a linha pop-lírico, alguns se parecem, alguns tantos como Lush, Bat for Lashes, St. Vincent, The Moon Seven Times, surgiram por causa deles; mas nenhum deles conseguiu colocar todos os ingredientes de melancolia, beleza, dramaticidade, paixão, dor, magia, juntos com tamanha perfeição como os Cocteau Twins. E isso, aliado à unidade sonora que conseguem, a essa assinatura inconfundível que criaram no universo pop, somando-se à voz de qualidades únicas e incomparáveis de Liz Fraser, garante a eles seu lugar de respeito no mundo da música e o de “Treasure” entre os FUNDAMENTAIS.

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FAIXAS:
  1. "Ivo" – 3:53
  2. "Lorelei" – 3:43
  3. "Beatrix" – 3:11
  4. "Persephone" – 4:20
  5. "Pandora (for Cindy)" – 5:35
  6. "Amelia" – 3:31
  7. "Aloysius" – 3:26
  8. "Cicely" – 3:29
  9. "Otterley" – 4:04
  10. "Donimo" – 6:19
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Ouça:


quarta-feira, 6 de junho de 2012

The Doors - "Strange Days" (1967)





“Os dias estranhos nos encontraram
E por suas horas estranhas
Ficamos sozinhos à espera.”
da letra de “Strange Days”



E pensar que eu não gostava de  Doors ...
Minha principal restrição é que achava a música dos caras com muita ênfase nos teclados. Coisa de recém iniciado. Não percebia todo o blues, a influência de ritmos latinos (rumba, tango, bolero), o legado que deixaram, a atitude, a rebeldia, sem falar nas letras chapadas e chapantes de Jim Morrisson. O que poso dizer hoje do the Doors é que simplesmente têm algumas das canções de rock mais empolgantes que eu já ouvi na vida, e continuo ouvindo sempre com renovado entusiasmo.
Já destaquei aqui o primeiro álbum , de mesmo nome da banda, de 1967, e agora os  ÁLBUNS FUNDAMENTAIS  vão com seu sucessor, “Strange Days”, do mesmo ano, e, inclusive, com muito material que fora descartado do primeiro trabalho, fazendo deste praticamente uma seqüência.
A faixa que dá nome ao disco de melodia sensual e letra pessimista, “Strange Days”; a charmosissíma, “People Are Strange” com sua sinceridade cáustica; a psicodélica “You’re Lost Little Girl” que mais tarde receberia uma versão muito interessante de Siouxsie e sua turma; são algumas das melhores do álbum. Além delas, a excitante “Love Me Two Times”, carregada no blues, é das coisas mais fantásticas do grupo e daquelas que sempre me enlouquecem quando ouço; e “When the Music Is Over”, a exemplo de “The End” no primeiro disco, é um final marcante numa longa peça musical dramático-poética como só os Doors sabiam fazer.
Dias estranhos aqueles em que eu não gostava de  Doors .

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FAIXAS:
  1. "Strange Days" - 3:09
  2. "You're Lost Little Girl" - 3:03
  3. "Love Me Two Times" (Robby Krieger)– 3:16
  4. "Unhappy Girl" – 2:00
  5. "Horse Latitudes" – 1:35
  6. "Moonlight Drive" (Jim Morrison) – 3:04
  7. "People Are Strange" – 2:12
  8. "My Eyes Have Seen You" – 2:29
  9. "I Can't See Your Face In My Mind" – 3:26
  10. "When the Music's Over" – 10:59
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Ouça: