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quinta-feira, 9 de julho de 2026

Towa Tei - "Last Century Modern" (1999)


"Ah, se eu nunca tivesse enviado aquela fita demo..."
Towa Tei

"Embora talvez não seja o álbum solo mais coeso de Towa Tei, é de longe o mais consistente."
Rich Juzwiak
jornalista e crítico musical da revista Pitchfork


A Deee-Lite, sucesso nos anos 90, tinha na formação um russo, Super DJ Dimitry, uma norte-americana, Lady Miss Kier, e um japonês. Este último, evidentemente o mais talentoso dos três, chamava-se Towa Towa. Este era o primeiro nome artístico de Dong-hwa Chung, produtor, DJ e compositor descendente de coreanos e japoneses, que um dia desembarcou nos Estados Unidos para estudar Design, mas que foi sequestrado pelo próprio talento musical. Na banda, era de se desconfiar que o apuro melódico, bem como as influências latinas e AOR, os beats funkeados, os samples criativos e o charmoso toque do piano fossem produto da cabeça dele. A suposição ficou confirmada quando, em 1994, já fora da Deee-Lite, é lançado seu primeiro disco solo, “Future Listening!”, quando passa a atender pela alcunha de Towa Tei.

Discípulo de Ryuichi Sakamoto, Towa começou na música por causa dele após enviar-lhe demos com músicas suas para o programa de rádio que o compositor e maestro tinha à época. Dadas as devidas proporções – haja vista que Sakamoto, de formação clássica, foi um dos maiores músicos do século 20 e ele está muito mais para uma mente criativa forjada nas mesas de som das boates noturnas e dos estúdios – Towa herda do mestre a versatilidade musical, o bom gosto compositivo e, principalmente, a visão universal da música com assinatura do Japão. Neles, tempos e estilos se fundem e se ressignificam. O que já era evidente nos trabalhos anteriores de Towa, com a fusão de eletrônica, bossa nova, trip hop, house e shibuya-kei, fica ainda mais claro em seu terceiro e mais bem acabado álbum: “Last Century Modern”, de 1999.

As semelhanças com Sakamoto aparecem desde o início do disco, a começar pela belíssima faixa-título, capaz de romper tempos cronológicos através dos sons. O título já diz tudo: "moderno do século passado". Neste tema, que parecer ter saído da Paris da Belle Époque, Towa engendra com muita classe uma quase valsa baseada na sonoridade do piano, do quarteto de cordas e do charmoso acordeom, responsável por desenhar a melodia. Porém, moderno e vintage ao mesmo tempo, Towa compõe esse instrumental para um vocal feminino não em francês, mas em inglês, cantado com sotaque nipônico pela conterrânea Ua. Além disso, inclui robotic voices, como as da Kraftwerk e Giorgio Moroder, dando um toque ainda mais anacrônico para a faixa. Impossível ficar alheio a tamanha musicalidade.

O samba brasileiro, que Towa aprendeu direitinho com Bebel Gilberto, sua parceira musical desde o primeiro disco, é evocado em “A Ring”. Cheia de samples, traz a bossa nova com ares franceses, como a de Henri Salvador e Pierre Barouh, principalmente pelo doce vocal francófono de Pascale Borel ao estilo da trilha do filme “Un homme et une Femme”. 

Towa e Sakamoto em 1994: duas gerações
e admiração mútua
A rotação muda totalmente com o drum ‘n’ bass “Angel”, cantada pela modelo e cantora japonesa Ayumi Tanabe e pela também cantora, mas chinesa, Viv. Mesmo pulsante (como todo drum ‘n’ bass), Towa não perde a elegância. Ayumi e Viv são convocadas novamente para mais uma excelente do álbum, “Butterfly”, na qual dividem os microfones com Yukihiro Takahashi, irmão de Nobuyuki Takahashi, ex-parceiro de Sakamoto na lendária banda Yellow Magic Orchestra, uma das pioneiras do eletropop nos anos 70. Música de trabalho de “Last...”, une a batida acelerada do drum ‘n’ bass com pitadas de música brasileira no arranjo.

Em “Contact” e “Congratulations!”, tal como “Sound Museum”, música que abre e intitula seu segundo álbum, de 1997, Towa esbanja as habilidades de DJ, articulando vários samples, colagens e manipulações do ritmo. “Stretch Building Bamboo”, nessa linha, tem ainda a participação dos colegas DJs britânicos Jumpin Jack Frost e Die, que o auxiliam na brincadeira com as pick-ups. “Chatr”, na sequência, traz uma batida rap, que faz cama para uma voz infantil quase falada. 

Encaminhando-se para o fim, a Deee-Lite - que nunca saiu de dentro de Towa (haja vista músicas dele como “Happy” e "Higher", de outros álbuns - é revivida na deliciosa “Funkin' For Jamaica”. Várias referências sonoras convivem entre si, do funk ao jazz, da soul a disco, do AOR ao rap. Cantam as vozes soul da norte-americana Joanne e da dupla francesa Les Nubians, que muito fazem lembrar os vocais de Miss Kier. Contribuem para a faixa, ainda, o trompetista de jazz norte-americano Tom Brawne e o guitarrista japonês Hiroshi Takano.

Momento especial do disco, “Let me Know”, na remix do grupo francês The Might Bop, une a atmosfera do AOR com a bossa nova, porém com um cuidado todo especial na programação de ritmo, que reproduz, eletronicamente, até o repique da batida do samba. A voz da cantora japonese Chiara, dulcíssima e sensual, fecha perfeitamente com esse arranjo e melodia, que bem poderiam ter sido escritos por Sakamoto. Entre as participações que ajudam o número a ficar ainda melhor estão o brasileiro Romero Lubambo, que empresta aquela batida de violão a la João Gilberto; a harpa de Tomoyuki Asakawa; a percussão de Asa-Chang, o sax de Yasuaki Shimizu; e os teclados de outra lenda da música pop japonesa: Haruomi Hosono, o terceiro YMO junto com Sakamoto e Takahashi.

Depois dessa verdadeira joia, Towa ainda encerra com fineza numa reedição da faixa-título (apenas com sua sigla “LCM” agora). Mais curta, mas não menos bela. O acordeom do japonês Coba e as cordas da The Balanescu Quartet são complementadas por um breve, mas tocante coro de crianças, que entoa apenas melismas para fechar lindamente a faixa e o disco.

Mestre e discípulo, Sakamoto e Towa se cruzariam ainda algumas vezes. Towa colaborou com seu ídolo nos álbuns “Heartbeat” (1991) e “Sweet Revenge” (1994). O contrário também aconteceu, quando o célebre compositor retribuiu o carinho e deu seu toque inconfundível de piano a "Luv Connection", do já citado disco "Future Listening!" e, mais tarde, em “Milky Way”, do álbum “Flash” de Towa, de 2005. Mas o principal dessa afinidade, no entanto, já havia se configurado desde aquele primeiro contato entre ambos, quando perceberam o que havia em comum entre eles: a enorme musicalidade capaz de abranger o mundo todo sem deixar, contudo, de serem essencialmente japoneses.

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FAIXAS:
1. "Last Century Modern" (Participação: UA) - 2:48
2. "A Ring" (Participação: Pascale Borel) - 3:08
3. "Angel" (Participação: Ayumi Tanabe, Viv) - 4:56
4. "Butterfly (Participação: Ayumi Tanabe, Viv) - 4:04
5. "CHATR" - 2:33
6. "Funkin' For Jamaica" (Participação: Joanne, Les Nubians, Tom Browne, Wizdom Life) - 4:55
7. "Stretch Building Bamboo" - 2:55
8. "Congratulations!" (Participação: Cory Daye) - 4:47
9. "Let Me Know" (Participação: Chara) - 4:10
10. "Contact" (Participação: Die, Jumpin' Jack Frost) - 8:11
11. "LCM" - 1:48
Todas as composições de autoria de Towa Tei, exceto faixa 8 (James Harris III, Terry Lewis, Towa Tei)

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OUÇA


Daniel Rodrigues

sexta-feira, 26 de junho de 2026

Karlheinz Stockhausen - “Gesang der Jünglinge” (1956)


Capa das edições de 1957 e
1962, respectivamente, da
Deutsche Gramophon

“'Gesang der Jünglinge' é a mais original criação eletrônica de Stockhausen e talvez a peça eletrônica mais influente já composta."
Alex Ross
jornalista, escritor e crítico musical

"'Novo' significa mudar o método; novos métodos mudam a experiência, e novas experiências mudam o homem. Sempre que ouvimos sons, somos mudados: não somos mais os mesmos depois de ouvir certos sons, e isso é ainda mais verdadeiro quando ouvimos sons organizados, sons organizados por outro ser humano: música".
Karlheinz Stockhausen

O trauma da Segunda Guerra Mundial foi decisivo para toda uma geração de artistas da segunda metade do século 20 na Europa. Ainda mais na Alemanha pós-nazismo. Misturavam-se, principalmente do lado ocidental do Muro, sentimentos de culpa e de constrangimento, que tomava o coração dos artistas das mais diversas áreas, do cinema à literatura, das artes visuais à música. Tanto que o reerguimento da Alemanha destruída física e moralmente veio com altos investimentos de tecnologia, mas também com uma vontade irrefreável de produzir arte para espantar os demônios. Dessa complicada equação, que une dor e profundo catolicismo com inovação científica e pulsões existenciais, algumas figuras foram chave para trazer ao mundo obras que revolucionariam a arte contemporânea. Na música do país germânico, Karlheinz Stockhausen é o principal deles.

Nascido em Mödrath, em 1928, Stockhausen foi afetado diretamente por todos esses fenômenos. Durante a Guerra, perdeu os pais, fato que seria, ao mesmo tempo, traumatizante e mobilizador de suas ações. Órfão, aos 22 anos se mudou para Colônia, onde trabalhou como pianista e estudou música na universidade local, frequentando logo em seguida cursos de serialismo musical em Darmstadt com o mestre francês Olivier Messiaen. Com uma mente acima da média do resto dos seus colegas, em 1952, foi selecionado para o Conservatório Nacional de Música de Paris e estudou com outra referência da música de vanguarda, o também francês Pierre Boulez. Circundavam lhe ideias da música serialista, concreta, atonal, futurista, dodecafônica, mas nada fazia total sentido a Stockhausen, que ansiava por algo realmente inovador, mais profundo e que lhe respondesse àquele vácuo existencial. Precisava elevar um novo Deus, mas um Deus de ossos de metal, feito de transistores e estanho, já que aquele da igreja havia ido embora. O laboratório era a nova igreja.

Foi aí que veio, a partir da observação não dos instrumentos, mas do funcionamento da frequência dos osciladores de rádio, a ideia para a música eletrônica, a qual, há 70 anos, Stockhausen ajudou a fundar. É bem verdade que o francês Pierre Schaefer já havia lançado, em 1948, as bases de uma música que não seguia nenhum padrão tonal ao criar o gênero acusmático, no qual a música pré-gravada é difundida sem a presença de músicos ou cantores em tempo real graças às tecnologias de captação, manipulação e reprodução eletroeletrônicas. Mas o obstinado Stockhausen vai além e monta suas primeiras peças com fitas magnéticas para, sim, serem apresentadas ao vivo, o que realiza com “Gesang der Jünglinge”, peça que completa sete décadas de sua estreia, numa estranhíssima avant-premiére em Colônia, em 30 de maio de 1956. Quem assistiu aquela "performance", saiu ou chocado ou sem entender.

Foto da estreia de "Gesang...", em Colônia.
Estranhamento da plateia
Criada durante dois anos, “Gesang....” - que quer dizer “Canção dos Jovens”, na tradução para o português - é obscura e diferente de qualquer coisa que se tinha notícia até então, antecipando-se à reorganização tonal de Steve Reich e às saborosas esquisitices da turma da Fluxo. Composta para fita magnética e cinco autofalantes, esta obra religiosa não-litúrgica é pioneira em alguns sentidos. Em primeiro lugar, pela própria ideia de fundir e combinar o som da voz humana com sons gerados eletronicamente, lançando mão da tecnologia e das técnicas então disponíveis. A composição é basicamente constituída pela alteração da voz de um menino sintetizada. Alterando o espectro de ondas senoidais, Stockhausen conseguiu criar uma linha contínua que permitia a manipulação de todas as articulações pronunciadas. Uma vez criada a linha contínua, o compositor extraiu os elementos básicos e os grupos de elementos da composição. 

O “serialismo total” desenvolvido por Stockhausen resolve uma série de questões técnicas altamente intrincadas para resultar em uma obra de pouco mais de 13 minutos capaz de, mesmo sem conhecimento profundo de música do ouvinte, impactá-lo. Selvagem e estranhamente “científica”, detalhada e artesanal, “Gesang…”, quando composta, levava horas de trabalho para que fosse criado um segundo de música, apenas dosando, expandindo, reduzindo, sintetizando sons.

Entre silêncios, estranhas emulações de instrumentos “reais”, guizos, farfalhares e ruídos em geral, o que resulta é uma obra sombria, que traduz aquela nova liturgia fundada por Stockhausen. A memória dos pais, o trauma da Guerra, a religiosidade cristã da infância e a febre moral de seu país transformam-se em uma música que, propositalmente, soa sem sentido ou, se não tanto, sem exigir-se racional ou pertencente a uma tradição. O próprio canto do jovem soprano Josef Protschka, de 12 anos à época, período em que a voz dos meninos oscila entre o grave e o agudo, exprime esse incômodo. Nada é verdade. Assim, o texto bíblico Do Forno Ardente, do livro de Daniel, é meramente um instrumento filosófico para o compositor expurgar seus males trazendo à tona outro, que passaria a ser muito conhecido da sociedade: o mal-estar do Século 20.

De Miles Davis a Beatles, passando por David Bowie, Kraftwerk, Philip Glass, Radiohead, Chemical Brothers e Björk, o pensamento de Stockhausen estimulou a que se buscasse desbravar outras possibilidades de composição, apropriação e organização do som, além de alçar o problema da escuta da música a uma outra dimensão. Junto com Boulez e John Cage, Stockhausen reescreveu a música moderna, “matando” o tonalismo e abrindo um novo paradigma. Cabe aos que vieram depois desbravá-lo e decifrá-lo.

Um repórter que presenciara a famigerada estreia de “Gesang…”, ao entrevistar seu compositor logo após, confessou-lhe que achava não ter entendido a obra, mas que ficara extrema e positivamente transtornado com o que ouvira. Stockhausen lhe respondeu que, justamente por essa reação, ele havia, sim, entendido a proposta.

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FAIXAS:
Versão 1957:
1. "Studie I" - 9:42*
2. "Studie II" - 3:20*
3. "Gesang Der Jünglinge" - 13:00
* Peças de música eletrônica geradas a partir de tons senoidais manipulados de 1953 e 1954, respectivamente 

Versão 1962:
1. "Gesang Der Jünglinge" - 13:00
2. "Kontakte" - 35:30**
** Peça para fita de 4 canais escrita entre 1958 e 1960

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Daniel Rodrigues

quinta-feira, 18 de junho de 2026

Maria Bethânia - "Mel" (1979)


"Ó Abelha Rainha/
Faz de mim/
Um instrumento de teu prazer"
Da letra de "Mel"

"Havia ali a presença toda sã/
 De minha irmã e coisa mais que azul"
Da letra de "Queda D'Água"


Quase terminados os efervescentes e intensos anos 70, Maria Bethânia já estava consolidada no panteão das grandes cantoras da história da música do Brasil. A jovem baiana, que havia assumido no início da carreira a responsabilidade de substituir Nara Leão no espetáculo Opinião e que, logo depois, deliberadamente escolhera não aderir ao Tropicalismo dos conterrâneos e contemporâneos Caetano Veloso, Gilberto Gil e Gal Costa, construíra um caminho sólido, que unia com muita personalidade a dramaticidade do teatro, a força poética e o arrojo de repertório. Tudo amalgamado por sua interpretação potente, casamento de técnica e emoção.

Mas Bethânia não se acomoda. Hoje, completando 80 anos de vida, pode-se dizer que ela nunca parou de se reinventar. E foi naquela fatídica década, a de melhor produção que tivera na carreira, que essa inquietação se tornou sua marca. Após vários álbuns bem distintos uns dos outros, incluindo “Drama/Anjo Exterminado”, de 1972, onde consolida seu caráter de palco, e “Álibi”, de 1978, seu disco de maior sucesso, ela queria mais. E tinha mais a dizer. “Mel”, assim, vinha como um raio de novidade de uma artista com fôlego de novata. Tanto que é nele, nono disco de estúdio da carreira, que se revela o principal apelido pelo qual se chamaria Bethânia a partir de então: Abelha Rainha.

Claro que o dedo de Caetano está lá mais uma vez, como desde o início da trajetória da irmã. A faixa-título, uma salsa de parceria dele com Waly Salomão, traz pela primeira vez os versos pelo qual a inesgotável Bethânia, já com quase 15 anos de estrada artística, apresentaria mais uma versão sua. “Pois se é noite de completa escuridão/ Provo do favo de teu mel/ Cavo a direta claridade do céu/ E agarro o sol com a mão”, diz. Como se já não bastassem as outras várias Bethânias de antes, agora o público conhecia uma nova, que nunca mais seria esquecida. 

Caê, com quem ela havia dividido os palcos um ano antes no primeiro show da dupla (reeditado em 2025 num megaespectáculo que percorreu o Brasil), assina pelo menos mais outras duas inéditas canções-chaves do disco. Uma delas, logo na sequência de “Mel”, é a belíssima e apaixonada “Ela e Eu”, que Marina Lima regravaria lindamente a capela anos mais tarde. Aqui, no entanto, na e para a voz de Bethânia tal como foi escrita, é simplesmente um desbunde. A maturidade vocal da baiana, numa interpretação encarnada e sensível, é acompanhada pela orquestração assinada por Perinho Albuquerque, também produtor do disco. Primorosa. 

Sobre a outra de Caetano, deixemos para o fim, como de fato o é. Pois antes vale a pena falar das espetaculares interpretações de compositores muito caros a Bethânia, como Lupicínio Rodrigues, com “Loucura”, e Gonzaguinha, autor de “Explode Coração”, com a qual ela estourara um ano antes e de quem, agora, ela traz duas: o samba-canção “Infinito Desejo” e a balada rasgada “Grito de Alerta”, outro sucesso nas rádios.

Arte da contracapa do disco "Mel"
com a letra de "Queda D'Água
escrita a pinho por Caetano
Ativista e posicionada, Bethânia também valorizava em “Mel” não só as compositoras colegas como, igualmente, um então novo discurso na música brasileira em que a mulher surgia como protagonista das ações. É o que se escuta em “Gota de Sangue”, da então jovem Ângela Ro Ro, “Da Cor Brasileira”, parceria de Joyce e Ana Terra, e até na sensualíssima “Cheiro de Amor”, escrita por autores homens, mas na primeira pessoa feminina (“E meio louca de prazer/ Lembro teu corpo no espelho”), assim como Chico Buarque mostrara ser possível na MPB com “Olhos nos Olhos” – não à toa, um clássico na voz de Bethânia.

Por falar em Chico, outra paixão inarredável de Bethânia e com quem ela, assim como com Caetano, havia feito show junto (registrado no disco “Chico Buarque & Maria Bethânia Ao Vivo”, de 1975), este também lhe aprontara uma inédita para o álbum. E que música! A nunca interpretada pelo próprio autor e pouco conhecida “Amando Sobre os Jornais”, um samba triste que une romance com crítica social, narra a história de dois mendigos que, mesmo diante da degradante condição, se amam cor ardor “noites a fundo tendo os jornais como cobertor”. 

O repertório, escolhido a dedo pela própria Bethânia, diretora musical do álbum, conta ainda com a deliciosa rumba “Lábios de Mel”, totalmente sintonizada com a temática daquele trabalho (“Os seus lábios têm um mel/ Que a abelha tira da flor”), e a balada “Nenhum Verão”, só voz e piano, o do próprio autor, Túlio Mourão. Isso para encerrar com uma das menores, mas nem por isso menos bonitas músicas de todo o cancioneiro da artista: “Queda D’Água”. Lembram que iríamos voltar a falar de Caetano? Pois é esta pequena obra-prima em letra e melodia, que ele escreve para Bethânia, numa poesia ao mesmo tempo sinestésica, espiritualista e profundamente afetiva. Se “Mel” e “Ela e Eu” já traziam versos dos mais radiantes de Caetano, o que dizer disso aqui, então? “A queda-d'água ergueu-se à minha frente/ De repente, tudo ficou de pé eternamente/ A floresta, a pedra, o vento vertical do abismo”.

Depois de “Mel”, Bethânia continuaria sendo outras ainda muitas Bethânias. A Dona do Dom, A Pedrinha de Aruanda, a Maricotinha, a Berré, a Brasileirinha, A Corda Vocal Insubmissa, A Menina dos Olhos de Oyá... No entanto, especialmente “Mel” fala muito dessa artista múltipla e indecifrável, a se ver por sua qualidade, diversidade e personalidade. Ao completar oito décadas de vida e mais de 60 de carreira, Bethânia ainda é aquela Abelha Rainha, que faz de nós, fãs, um instrumento do seu prazer. E de sua glória.

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FAIXAS:
1. "Mel" (Caetano Veloso, Waly Salomão) - 3:49
2. "Ela e Eu" (Veloso) - 2:21
3. "Cheiro De Amor" (Duda, Jota Moraes, Paulo Sergio Valle, Ribeiro) - 2:20
4. "Da Cor Brasileira" (Ana Terra, Joyce) - 2:56
5. "Loucura" (Lupicínio Rodrigues) - 2:42
6. "Gota de Sangue (Angela Ro Ro) - 2:30
7. "Grito de Alerta - (Luiz Gonzaga Jr.) - 3:01
8. "Lábios de Mel" (Waldir Rocha) - 2:47
9. "Amando Sobre os Jornais" (Chico Buarque) - 2:20
10. "Nenhum Verão" (Túlio Mourão) - 2:42
11. "Infinito Desejo" (Gonzaga Jr.) - 2:45
12. "Queda D'Água" (Veloso) - 1:06


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Daniel Rodrigues

segunda-feira, 8 de junho de 2026

Angine de Poitrine - Vol.1 (2024)

 



"O Angine de Poitrine viralizou em muito pouco tempo,
mas não porque é 'engraçado', porque é 'ridículo',
é porque é muito, muito, muito bom!
Eu tenho ouvido direto o LP deles, o 'Vol.1', direto.
Assim...direto, dezenas de vezes e
não canso de ouvir esse disco,
É um discaço!"
André Barcisnki,
jornalista, escritor e crítico musical


Desde que o universo do rock descobriu seu poder cênico de sugestão através da imagem, da figura, artistas do mundo da música criaram personagens, máscaras, indumentárias e incorporaram às suas performances, a  suas mensagens, a suas simbologias, criando identidades, associações semióticas e construindo comunidades em torno de determinado conjunto de elementos visuais, musicais e teatrais.

Particularmente, sempre fico com um pé atrás quando surge alguma banda toda paramentada. Mesmo que uma das minhas bandas preferidas, o The Cure, tenha fortalecido sua identidade através daquele visual preto e descabelado, os incríveis Secos e Molhados tenham se tornado notórios pelos rostos pintados e indumentárias extravagantes, os criativos Daft Punk ostentem aqueles capacetes misteriosos, e todos tenham me provado que eram muito mais do que apelo estético, normalmente, para mim, aquela alegoria toda parece uma intenção de impressionar mais pelo visual do que pela música.

Aí me aparece na Internet uns carinhas com umas máscaras bizarras enormes, um branco com bolinhas pretas e o outro preto com bolinhas brancas, seguidos de manchetes como "nova sensação ", "diferente de tudo que você já ouviu", "você precisa ouvir isso", eu desconfiado que sou desses caras vestidos de palhaço que aparecem de vez em quando, não  dou muita bola, não dou muito crédito. Mas ok, eu resisto, torço o nariz e lá pelas tantas resolvo ouvir. Vamos ver o que esses esquisitos tem pra me mostrar. E, cara..., e não é que é incrível!

Uma das poucas coisas nos últimos tempos que me deixou entusiasmado. Entusiasmado como há muito tempo eu não ficava. Com aquele sabor da descoberta de quando a gente começa a conhecer coisas boas, quando se ouve coisas que realmente causam alguma coisa na sua cabeça.

Angine de Poitrine é uma fusão inexplicável de art-rock, progressivo, punk, surf music, música microtonal, numa coisa que eles mesmo definem como "assimétrico e dissonante". Lembra a estética dos Talking Heads, os timbres e a técnica do Primus, a liberdade artística do Velvet Underground, o experimentalismo do Sonic Youth... enfim, inclassificável!

Praticamente todo instrumental, com pequenas incursões vocais sem letra, "Vol. 1", de 2024 é um disco que a gente escuta e quase não acredita no que acabou de ouvir e, apesar de não ser uma música fácil, tem vontade de botar pra rolar de novo e de novo e, sinceramente,  há tempos eu não  sentia essa sensação de acabar de ouvir um álbum e querer ouvi-lo de novo, imediatamente.

"Sherpa" abre o disco e a gente já fica mergulhado, hipnotizado naquela coisa imprevisível e sinuosa; "Tohogd", talvez seja a que soe mais convencional, mais linear e com menos variações; "Tambez" é muito Talking Heads em sua estrutura básica, mas seu desenvolvimento e suas guitarras exóticas a levam a rumos menos reconhecíveis; "Ababa Hotel" por sua vez é muito Primus com aquele baixo quebrado, entrecortado, mas com um andamento surpreendentemente jazzístico e a guitarra solando livremente sobre a estrutura; "Sahardnieh" tem uma atmosfera inquietante com sua repetição tensa;  e L'Aberek fecha o disco de forma fenomenal numa peça musical crescente e elegante, mas não menos intensa e vibrante.

Angine de Poitrine explode a sua mente!

Uma receita improvável de rock, jazz, erudito, com toques de música tradicional, pitadas de ritmos orientais,  doses brutais de ousadia e criatividade a gosto.

Eu que cada vez menos me impressiono com alguma coisa no mundo musical, não exijo que alguém faça algo NOVO, até porque, a essas alturas, com tantos conceitos já formados e fórmulas repetidas e recicladas, é praticamente impossível não remeter a algo já feito anteriormente. Costumo dizer que ninguém vai reinventar a roda. O que me parece é que essa dupla maluca canadense, não reinventou a roda, mas talvez a tenha deixado quadrada. O que já é muito interessante.

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FAIXAS:

  • 1.Sherpa
  • 2.Tohogd
  • 3.Tamebsz
  • 4.Ababa Hotel
  • 5.Sahardnieh
  • 6.L'Aberek

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Ouça:
Angine de Poitrine - Vol.1


por Cly Reis 

segunda-feira, 1 de junho de 2026

Erasmo Carlos - “Banda dos Contentes” (1976)


"'Banda dos Contentes' não é redondo, fechado, nem sufocante. É um trabalho livre, aberto, de um rock muito simples, girando em torno de um mundo real." 
Eliane Martins, em matéria da revista Pop, na época do lançamento de "Banda dos Contentes"

"Mudei. Mudei para melhor. Agora não sou mais galã de Jovem Guarda. Não me preocupo mais com a imagem. Eu estava sufocado, agora estou mais livre." 
Erasmo Carlos, em 1976

Roberto Carlos já havia deitado no divã da psicanálise 4 anos antes. Erasmo Carlos, coautor da canção gravada pelo “irmão camarada” em 1972, sentia que precisava de algo parecido. O Erasmo agora pai, casado, com carreira profissional consolidada e livre de vez da imagem do rapaz suburbano alçado ao estrelato da Jovem Guarda sabia que devia também se entender melhor. Mas se para alguns o processo terapêutico embaralha as emoções, para ele o aprofundamento em si mesmo foi revolucionário – e se deu através da própria música. “Banda dos Contentes”, álbum de 1976 que completa 50 anos de lançamento, é a prova disso, pois capta um homem honesto consigo e que, diante das mudanças do mundo daquela época, buscava se encontrar de coração e asas abertas.

Musicalmente, Erasmo já vinha exercitado seu lado tropicalista e independente da figura neo-romântica de Roberto desde “Erasmo Carlos e os Tremendões”, de 1970, passando pelo celebrado “Carlos, Erasmo”, de 1971, e pelo não menos “memorável” “Sonhos e Memória (1941-1972)”, de 1972. Em “Banda...”, o antigo garotão de “Gatinha Manhosa” e “Fama de Mau” chega maduro como músico e como pessoa. Isso se refletia na banda que escolhera trazer para perto de si: a fidelidade do “mutante” Liminha no baixo, a bateria esperta de Elber Bedaque, a guitarra roqueira de Rick Ferreira e a sofisticação jazz-samba do piano de Antônio Adolfo, além das participações de grandes músicos como Perna Fróes, Ruy Maurity, Rubão Sabino e do grupo Karma nos backings.

A diversidade sonora e a caprichada produção, a cargo de Guti e do próprio Erasmo, dão conta de um repertório que mantém o alto nível do início ao fim, com uma construção narrativa típica de quem sabe o que está fazendo. E mais legal é que, contrariamente a uma possível densidade em razão da influência psicanalítica, o disco une saudavelmente reflexões existenciais e filosóficas com sua caracteristicamente saborosa melodia. Até a arte visual é contaminada por esse olhar. No encarte do LP, Benício desenha vários homens se digladiando violentamente. Todos têm o rosto de Erasmo...

A faixa-título, com letra que parece ter saído fresquinha de uma sessão de terapia, é ao mesmo tempo fatídica e engraçada. ‘Às vezes olho no espelho/ Não vejo minha cara/ E com que cara que eu vou me mostrar/ Dentro de mim/ Com o meu saco cheio/ Porque a vida me fez/ Somente do meu tamanho”, dizem os versos. Mas o olhar freudiano contamina, de uma forma ou de outra, praticamente todo o repertório escolhido. O hit “Filho Único”, que inicia o disco e que foi tema de abertura da novela da Rede Globo Locomotivas, é uma das músicas mais sensíveis de toda aquela geração. Com uma letra que fala da busca de autonomia e independência de um filho sem irmãos para com sua genitora, traz alguns dos versos mais duros que a música brasileira já escreveu, justamente por contar uma verdade pouco admitida na sociedade daqueles idos: a de que os filhos são do mundo, não dos pais. O mundo agora é seu dono, “e nos seus planos não estão você”. Ele e Roberto, autores, abrem dizendo: “Ei mãe, não sou mais menino/ Não é justo que também queira parir meu destino”. Quer sentença mais psicanalítica que essa? Uma das joias do pop rock brasileiro de todos os tempos.

Arte de Benício no encarte do LP: vários Erasmos
contra eles mesmos
Sem deixar cair a peteca, Erasmo traz um então pouco conhecido compositor cearense chamado Belchior, que Elis Regina e Vanusa já haviam gravado mas que ainda nem havia lançado seu primeiro álbum, o hoje histórico “Alucinação”, daquele ano. A faixa é a clássica “Paralelas”, com sua letra forte e poética (“E no escritório em que eu trabalho e fico rico/ Quanto mais eu multiplico, diminui o meu amor”) e melodia/arranjo tanto quanto.

E se é para manter o nível lá em cima, nada melhor do que uma inédita como “Queremos Saber” na sequência. Assim como Caetano Veloso havia dado a Erasmo “De Noite na Cama” anos antes, agora era o outro tropicalista-mor, Gilberto Gil, que lhe presenteava com uma canção. E que canção! Indagadora, esta delicada balada caía como luva para a voz doce de Erasmo. Quem não há de ficar impactado (ou, pelo menos, reflexivo) com esses versos?: “Queremos notícia mais séria/ Sobre a descoberta da antimatéria E suas implicações/ Na emancipação do homem/ Das grandes populações/ Homens pobres das cidades/ Das estepes, dos sertões”. Cássia Eller regravaria “Queremos...” 25 anos depois e as interrogações continuariam as mesmas...

Em época de autoanálise, por que também não promover a investigação do que se põe como externo? É o que Erasmo e Roberto, em mais uma da dupla no disco, fazem, literalmente, com muita “descontração”. Monstro do Lago Ness, Carnaval, 10 Mandamentos, homem na Lua, guerras: está tudo em “Análise Descontraída”. Erasmo mostra-se indignado e incrédulo com o que vê à sua volta. “Eta mundo velho/ Você me parece ainda um ovo/ Ou então precisa urgentemente se acabar pra nascer de novo”. Morte, nascimento, valores ultrapassados, violência, modernidade confusa... Mais uma vez, a bendita terapia pegando.

Uma epifania em um cenário turbulento, “Dia de Paz”, de Jorge Mautner e Adolfo, evoca o Erasmo hippie de “Gente Aberta” e “Por Cima dos Aviões”. Outra que parece se deslocar no tempo e espaço para fugir um pouco da realidade é “Continente Perdido (Terra de Montezuma)”, uma fenomenal composição de Maurity e José Jorge, que conta com flautas e arranjos de Perna e uma sonoridade toda latina de raiz. Ousadias que Erasmão se permitia. Assim como a deliciosa “Baby”, mais uma de autoria com Roberto, um funk matador aos moldes de “Mundo Deserto” em que volta a usar sua verve contestadora para criticar... os homens como ele! Em sua descida às próprias profundezas, Erasmo, diante de uma feminista empoderada, vê-se inerte. “Deixe os seus protestos e os manifestos/ Pra outra periferia/ Não fui eu quem fez as leis/ Que não lhe dão maior autonomia/ Mas, se não dá/ Vamos fazer o nosso amor num outro dia”. Genial! Com uma linha de sopros de primeira, o baixo pulsante de Rubão, a bateria suingada de Pascoal Meirelles e as guitarras de Perna e Gabriel O’Meára, tem ainda o bass vocal de Erasmo marcando o ritmo.

Igualmente a “Dia de Paz”, “Fatos e Fotos”, de Luiz Mendes Jr. e Renato Terra, integrantes da Karma, baixa de novo a rotação numa canção romântica como as que Erasmo era craque em interpretar desde a Jovem Guarda. Isso porque, para encerrar, ele manda ver num country-rock ao mesmo tempo empolgante, lúdico e audacioso: “Billy Dinamite”, dele e de Rick. Audacioso, primeiramente, na concepção, haja vista que é a primeira música, após quase 20 anos de carreira artística, escrita com outro parceiro que não Roberto. Depois dele, viriam muitos outros, de Marisa Monte a Nelson Motta, de Samuel Rosa a Emicida. Narrando uma história típica de um livrinho barato do Tex, em que um mocinho se apaixona pela filha do cacique da tribo inimiga e, sabendo que sentenciara a própria morte por causa do amor, “fez a cama na montanha para ficar mais perto do céu”.

O anterior “Carlos, Erasmo”, seu mais cultuado álbum, bem como os posteriores “Erasmo Carlos Convida” (1980), “Mulher” (1981) e, já da última fase, “Rock‘n’Roll” (2009), são considerados marcos na discografia do Tremendão. Porém, nenhum outro é tão autoral e fala tanto sobre o próprio artista como “Banda...”, um divisor-de-águas em sua carreira. Com sua "cuca legal"“descontente” com o que devia ser, Erasmo antecipava, por exemplo, a crítica à masculinidade tão em voga hoje, expondo angústias, dúvidas, insatisfações e, principalmente, fragilidades do homem moderno. No brutalizado Brasil dos anos 70, de ditadura militar e supremacia da machosfera, Erasmo era um homem que chorava e se permitia emocionar. “Banda...” reflete, assim, mais do que qualquer outro trabalho seu aquilo que sempre lhe atribuíram: o de ser um verdadeiro Gigante Gentil em um mundo de cada vez menos gentilezas. 

videoclipe do Fantástico de "Billy Dinamite"

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FAIXAS:
1. "Filho Único" (Erasmo Carlos/ Roberto Carlos) - 3:40
2. "Paralelas" (Belchior) - 2:55
3. "Queremos Saber" (Gilberto Gil) - 3:54
4. "Análise Descontraída" (Erasmo Carlos/ Roberto Carlos) - 3:30
5. "Dia de Paz" (Jorge Mautner/ Antonio Adolfo) - 3:30
6. "A Banda Dos Contentes" (Erasmo Carlos/ Roberto Carlos) - 3:10
7. "Continente Perdido (Terra de Montezuma)" (José Jorge/ Ruy Maurity) - 5:05
8. "Baby" (Erasmo Carlos/ Roberto Carlos) - 3:25
9. "Fatos e Fotos" (Luiz Mendes Jr./ Renato Terra) - 3:01
10. "Billy Dinamite" (Erasmo Carlos/ Rick Ferreira) - 4:18

🎸🎸🎸🎸🎸🎸🎸🎸🎸

OUÇA O DISCO:

Daniel Rodrigues

sexta-feira, 8 de maio de 2026

The Dave Brubeck Quartet - "Time Out" (1959)

 



"As músicas fugindo da
 métrica habitual me encantam.
Parece que a "perfeição" busca sempre
a imperfeição pra fazer mais sentido."
Alexandre Vianna,
skatista, artista visual, fotógrafo e ativista cultural, no livro "Discoteca Básica"


Não sou nenhum grande entendedor de música ainda que seja um entusiasta admirador. Embora conheça alguns conceitos básicos de tempo, tom, andamento, compasso, não me arrisco muito a fazer grandes explanações nesse sentido a respeito de músicas incríveis que conheço e que reconhecidamente têm méritos técnicos ou estruturais diferenciados. Me limito a senti-las e, quando tenho a necessidade de falar sobre elas com alguém de modo a ressaltar essas qualidades, exprimo da melhor forma possível dentro do que a mina limitação permite e onde aminha emoção consegue alcançar.

Não consigo explicar tecnicamente o que é o álbum "Time Out" do Quarteto de Dave Brubeck, mas aquilo é uma das coisas mais incríveis que já ouvi. 

Talvez o próprio nome da obra já seja suficientemente autoexplicativa, sei lá... Só sei que aquelas estruturas improváveis, incomuns, subvertem os tempos de uma forma tão desconcertante que dão um nó gostoso no cérebro. Tempos saem, voltam, passeiam pelo "normal" e tornam a nos surpreender de novo.

"Blue Rondo à La Turk" e "Take Five", é claro, são as mais notáveis com suas harmonias inquietas e inusitadas, mas mesmo as mais "comuns", como "Strange Meadows Lark" ou "Kathy's Waltz", além da beleza natural que já carregam consigo, tem suas pequenas sutilezas que as fazem tão especiais quanto as mais badaladas.

O que eles fizeram, como fizeram, um tom acima, um tempo abaixo... Não saberia dizer. E na verdade, nem sei se gostaria de saber. Prefiro apreciar. 

Ouça, ouça... 

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FAIXAS:

1. "Blue Rondo à la Turk" 6:44
2. "Strange Meadow Lark" 7:22
3. "Take Five" 5:24
4. "Three to Get Ready" 5:24
5. "Kathy's Waltz" 4:48
6. "Everybody's Jumpin'" 4:23
7. "Pick Up Sticks" 4:16


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Ouça:
The Dave Brubeck Quartet - Time Out


Cly Reis

segunda-feira, 20 de abril de 2026

Elvis Presley - "Elvis Presley" ou "Rock 'N' Roll" (1956)



“As pessoas de cor vêm cantando e tocando desse jeito por tanto tempo que nem mesmo sei. Eles tocam assim nos cortiços e ouvem essa música na jukebox. Ninguém deu a mínima até que comecei a cantar esse estilo. 
Aprendi com eles”.
Elvis Presley

"Houve muitos caras durões. Já houve impostores. E houve concorrentes. Mas só há um Rei". 
Bruce Springsteen

Foi em 26 de março de 1956. Esta é a data simbólica do nascimento de algo que revolucionaria a sociedade da idade contemporânea: o surgimento do rock 'n roll. Neste dia, após três anos de carreia musical, Elvis Aaron Presley, então com apenas 21 anos, lançava seu clássico e homônimo primeiro disco, não à toa também intitulado com aquilo que ousa inventar: “Rock ‘N’ Roll”. Muito já se falou sobre este álbum, e muito teria ainda a se falar hoje, 70 anos após sua chegada às lojas, aos ouvidos e aos corações de gerações de fãs. Mas como pede a cartilha de um bom rock, o legal mesmo é falar pouco e curtir, mas curtir muito!

Do primeiro crepitar da agulha no vinil ao último, são só músicas icônicas da cultura mundial, como poucos produtos culturais conseguem oferecer. É impaciente até hoje, e seguirá sendo, aquele início com "Blues Suede Shoes": "Well, it's one for the money" (dois acordes do violão e da bateria), "Two for the show" (mais dois acordes), "Three to get ready”, (bateria antecipando) “Now go, cat, go/ But don't you step on my blue suede shoes”. A partir daí, é a cargo de Elvis ao violão e do incendiário trio: Scotty Moore, guitarra; Bill Black, baixo; e D.J. Fontana, bateria; além de Gordon Stoke, ao piano; e os The Jordanaires, nos vocais de apoio. São os primeiros acordes do começo de um novo mundo. É a liberdade soando pelos ouvidos! 

A atitude, a assimetria, a rebeldia, a imperfeição, a perfeição, a luxúria, a carne, a carne. A música nunca mais foi a mesma depois daqueles 2 minutos chegarem ao fim. Os jornais da época chamariam de “primitivo”, “delinquente”, “vulgar”, “animalesco”, e “que suas performances deveriam ser restritas ao cais do porto e a bordéis, não à televisão nacional”. É tudo isso, sim, meus senhores. Era algo realmente delinquente, primitivo, assustador. E irrefreável. E divino.

Num disco cuja primeira faixa simboliza uma das maiores transformações comportamentais, mercadológicas e artísticas do século 20, ainda havia mais. Já existia "Hound Dog", single daquele mesmo ano com que Elvis pusera o mundo de cabeça para baixo. Bruce Springsteen, fã ardoroso do King, disse por toda uma geração do impacto que a icônica faixa teve para ele na primeira vez que a ouviu: "Ela simplesmente atravessou meu cérebro". Mas o álbum ia além disso, pois materializava em uma obra completa essa revolução. Elvis canta a “Tutti-Frutti” do negro gay e desafiador Little Richards empostando a voz blueser e dando uma outra roupagem a esse marco do rock. Afinal, Elvis mostrava, ainda muito embrionariamente, que rock, esse insubordinado filho direto do blues, se desmembraria em centenas e centenas de outros subgêneros. “Rock and roll can never die”, diria Neil Young em sua canção.

E tem também o country rock "Just Because", uma versão folk para o Standart “Blue Moon” e as baladas indefectíveis "I'll Never Let You Go (Lil' Darlin')" e "I Love You Because", gravações que Elvis registrara em seu período de Sun Records, entre 1953 e 1954, e cujos takes tornaram-se lendários como precursores do rock. E Elvis também canta o gênio Ray Charles ("I Got A Woman"), dos primeiros a fazer generosa ponte entre a música do Oeste com o R&B do Sul; "One-Sided Love Affair", que contém todos os predicados de um rock embalado; e "Trying to Get to You", exemplar country rock, com um show de vocal de Elvis.

E o que dizer de “Money Honey”, outro ícone da cultura contemporânea, muito bem escolhida pelo produtor da RCA, Steve Sholes, para encerrar o disco? Estão ali os maneirismos, a potência vocal, a reverência à tão massacrada cultura afro-americana daquela época. Elvis, alheio a qualquer preconceito de raça, disse: “Lá em Tupelo, Mississippi, eu ouvia o velho Arthur Crudup mandando bala e pensei que se eu conseguisse passar esse mesmo sentimento, minha música não teria igual”. No alvo, mr. Presley. 

A própria capa, centenas de vezes imitada e referenciada com suas letras em rosa na vertical no canto à esquerda e em verde na horizontal, abaixo, é pura ousadia: visceral, potente e até erótica para a época. Mesmo sem ser enquadrada, é possível enxergar, só de ver a expressão de seu rosto, os quadris e as pernas remexendo freneticamente e enlouquecendo de tesão a plateia, tal como a febre Elvis provocaria por anos.

O jovem caipira do Mississipi, nascido numa sociedade racista e colonialista, conviveu e absorveu do povo negro as suas principais referências. Soube ele misturar a enraizada cultura folk, a sonoridade melancólica do country e a visceralidade da tradição negra - o blues, o gospel, o R&B e, claro, o nascente rock ‘n’ roll, que já havia sido criado por mãos negras de Sister Rosetta Tharpe. Elvis juntou os branquelos feiosos Carl Perkins, Bill Halley e Jerry Lee Lewis aos roqueiros negros Little Richards, Chuck Berry e Bo Diddle, mais uma pitada do modern country de Ramblin' Jack Elliott e Woody Guthrie à sua imagem jovial e estonteante e seu carisma e, pronto: estava feita a química para o maior ícone pop de todos os tempos.

Nunca mais se repetirá essa combinação.

Mick Jagger, John Lennon, Madonna, Lou Reed, Elton John, Springsteen, Renato Russo, Lana Del Rey, Paul McCartney, Freddie Mercury, Eddie Vedder, Joan Jett, Bob Dylan, todos, sem exceção, devem ao Rei do Rock.

Elvis Presley, o disco, é muito mais do que um disco. É o raiar de uma era. É a criação da cultura pop. É a invenção de uma nova linguagem. É o florescer de uma revolução comportamental. É o nascer para valer da indústria fonográfica. É a entrada da juventude no mercado consumidor. É a instituição da cultura jovem. É a concretização do fenômeno de massas. É a simbolização da "vitória" dos Estados Unidos na Segunda Guerra, mesmo com a polarização da Guerra Fria (afinal, do outro lado da Cortina de Ferro não havia nada parecido com ele). Elvis, o disco, que alça o artista ao estrelato, é o primeiro efeito multimídia, que vazaria para o cinema, a TV e milhares de produtos do “Américan way of life”. Primeiro disco de rock ‘n’ roll a liderar as paradas, primeiro a passar dez semanas no topo da Billboard Top Pop Albuns. O primeiro do gênero a vender mais de um milhão de cópias. 

Há quem acredite que Elvis, Rei do Rock, foi a encarnação de Jesus Cristo, Rei dos Reis. Embora sua também breve existência, assim como a do filho de Deus, e o forte impacto de sua passagem entre os mortais, mobilizando multidões por onde passsava, não há como comparar. Cheio de defeitos, Elvis foi se mostrando cada vez mais machista, mesquinho e mimado, Elvis foi a representação perfeita não da Redenção, mas, sim, do messiânico rock ‘n’ roll, aquela música que veio à Terra, há exatos 70 anos, para salvar a humanidade. Da caretice do mundo.

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FAIXAS:
1. “Blue Suede Shoes” (Carl Perkins) - 1:58
2. “I'm Counting On You” (Don Robertson) - 2:21
3. “I Got A Woman (Ray Charles) - 2:22
4. “One-Sided Love Affair” (Bill Campbell) - 2:10
5. “I Love You Because” (Leon Payne) - 2:39
6. “Just Because” (Bob Shelton, Joe Shelton, Sid Robin) - 2:32
7. “Tutti Frutti” (Dorothy La Bostrie, Richard Penniman) - 1:57
8. “Tryin' To Get To You” (Singleton, McCoy) - 2:31
9. ”I'm Gonna Sit Right Down And Cry (Over You)” (Biggs, Thomas) - 2:01
10. “I'll Never Let You Go” (Jimmy Wakely) - 2:21
11. “Blue Moon” (Rodgers & Hart) - 2:39
12. “Money Honey” (Jesse Stone) – 2:33

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OUÇA:

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Daniel Rodrigues

quinta-feira, 16 de abril de 2026

Gato Barbieri - "The Last Tango in Paris - Original Motion Picture Soundtrack" (1973)



por Márcio Pinheiro
 

- Jeanne: Ei, eu tenho uma surpresa para você.
- Paul: Isso é bom, eu gosto de surpresas. O que é?
- Jeanne: Música, só não sei como fazer isso funcionar.
Diálogo entre Jeanne (Maria Schneider) e Paul (Marlon Brando) do filme "O Último Tango em Paris"

"O Último Tango em Paris", trilha sonora que Gato Barbieri compôs em tempo recorde seguindo as orientações de Bernardo Bertolucci, é uma imensa suíte em que se destaca o sax áspero e quente de Gato, envolto pelos arranjos de Oliver Nelson à frente de uma orquestra de 32 músicos. Sobra espaço ainda para dois percussionistas brasileiros, Afonso Vieira e Ivanir do Nascimento, o Mandrake, músico há muito radicado na Itália, primo de Pelé.

A trilha foi um fenômeno. Recorde de vendas para um disco instrumental e presença nas programações das rádios. Colocaria a carreira de Gato no seu mais alto patamar. Depois disso, ele nunca faria nada tão relevante.

A morte de Bernardo Bertolucci finalizou um capítulo que se manteve para sempre incompleto e obscuro na história da música e do cinema, envolvendo disputas, ciúmes, invejas, traições e acusações de plágio. O próprio cineasta nunca fez questão de explicar o que houve, tampouco Gato Barbieri, que enveredaria por novos caminhos em sua música, mantendo-se ativo até morrer, em abril de 2016, aos 83 anos.

Rejeitado para a trilha, Astor Piazzolla, morto em 1992, repassaria as duas composições que havia feito para o filme para que fossem usadas noutro longa-metragem, "Cadáveres Ilustres", de Francesco Rosi. Quando "O Último Tango em Paris" foi lançado, chegou a dizer que poderia ter composto uma trilha superior. Para amigos, admitia que gostava muito da gravação de Gato Barbieri.

🎷🎷🎷🎷🎷🎷🎷🎷🎷🎷

FAIXAS:
1. "Last Tango In Paris" (Tango) - 3:32
2. "Jeanne" - 2:34
3. "Girl In Black (Para Mi Negra)" - 2:06
4. "Last Tango In Paris" (Ballad) - 3:43
5. "Fake Ophelia" - 2:57
6. "Picture In The Rain" - 1:51
7. "Return (La Vuelta)" - 3:04
8. "It's Over" - 3:15
9. "Goodbye (Un Largo Adios)" - 2:32
10. "Why Did She Choose You?" - 3:00
11. "Last Tango In Paris" (Jazz Walzer) - 5:44
Todas as composições de autoria de Gato Barbieri

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OUÇA:

sexta-feira, 10 de abril de 2026

Marvin Gaye - "I Want You" (1976)


por Zeca Azevedo

"Essa colaboração acabou sendo a experiência mais prazerosa, importante e duradoura de toda a minha vida. Fiquei muito feliz que, depois de ouvir meu álbum, Marvin tenha decidido torná-lo dele, e realmente nosso."
Leon Ware

Sim, perdi a chance de falar sobre os 50 anos de lançamento de "I Want You" no meio de março, quando a efeméride aconteceu. Dias atrás, vi um sujeito no YouTube a fazer comentários, ou melhor, comparações entre "I Want You" e os dois LPs de Marvin Gaye que o antecederam, "What's Going On" (1971) e "Let's Get It On" (1973). Esse par é geralmente considerado o ponto culminante do legado fonográfico de Marvin e o tal comentarista de YouTube investiu nesse discurso para falar de "I Want You", fato que me aborreceu muito. Por que não falar do álbum sem apelar para comparações e hierarquias? Isso virou um vício, um sintoma do modo de vista imposto a todos nós e que nos coloca uns contra os outros em um esquema de competição louca.

"I Want You" é um trabalho DIFERENTE dos anteriores, tem identidade sonora própria tramada por Leon Ware e adaptada por Marvin ao seu cânone. A fluidez líquida das canções de "I Want You" seduz o ouvinte, leva-o para a cama e o faz gozar múltiplas vezes. "I Want You" é uma espécie de sequência/extensão de "You Sure Love to Ball", a faixa mais erótica de "Let's Get It On".

Em "I Want You", Marvin Gaye aplica sua visão do amor monogâmico e carnal, à época moldada pela relação que ele tinha com a jovem e bela Janis Hunter, às molduras musicais que Leon Ware havia preparado para um disco que ia lançar como solista. Berry Gordy ouviu o trabalho em progresso de Ware e sugeriu ao músico e produtor que ele usasse o que havia feito até ali para o próximo álbum de Marvin, que naquele momento sofria um bloqueio criativo.

"I Want You" tem seu próprio modo de ser no mundo e foi (ainda é) tremendamente influente - Maxwell que o diga. É um trabalho que merece ser apreciado verticalmente, sem comparações e reduções. 50 anos depois de lançado, "I Want You" continua a levar ouvintes do mundo todo a múltiplos gozos, sejam eles estéticos, espirituais ou os do tipo mais popular.

🎵🎵🎵🎵🎵🎵🎵🎵🎵🎵🎵

FAIXAS:
1. "I Want You (Vocal)" - 4:35 
2. "Come Live With Me Angel" - 6:28 (Jacqueline Hilliard, Leon Ware)
3. "After The Dance (Instrumental)" - 4:21 (Marvin Gaye, Ware)
4. "Feel All My Love Inside" - 3:23 (Gaye, Ware)
5. "I Wanna Be Where You Are" - 1:17 
6. "I Want You (Intro Jam)" - 0:20
7. "All The Way Around" - 3:45
8. "Since I Had You" - 4:05 (Gaye, Ware)
9. "Soon I’ll Be Loving You Again" - 3:16 (Gaye, Ross, Ware)
10. "I Want You (Intro Jam)" - 1:36
11. "After The Dance (Vocal)" - 4:40 (Gaye, Ware)
Todas as composições de autoria de Leon Ware e Arthur "T-Boy" Ross, exceto indicadas

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Zeca Azevedo é um batráquio miserável (ele se descreve assim). Parágrafo: Os textos aqui publicados foram concebidos para rede social, por isso são sucintos e bastante opinativos. Alguns são até mesmo espetaculosos. O autor os escreve mais por diversão do que por desejo de projeção social.

segunda-feira, 30 de março de 2026

Morcheeba - "Blaze Away" (2018)


"Tínhamos o Paul na banda e funcionou bem, mas depois não mais. Agora, ele está fazendo o próprio caminho e funciona bem com o Ross e eu como líderes do Morcheeba. Agora, estamos estabelecidos: temos o olhar e a combinação certos".
Skye Edwards

Somente grandes bandas resistem à perda de um integrante essencial. Os ingleses da Rolling Stones, quando da trágica morte de Brian Jones, em 1969, e a Pink Floyd, que perdia o genial mas perturbado Syd Barrett em 1968 para a doença mental, são dois exemplos clássicos de bandas que souberam se reinventar mesmo sem aqueles que as fundaram. Grupo símbolo do bom gosto no pop dos anos 90, a igualmente britânica Morcheeba também passou por essa prova. Conhecida por sua sofisticada mistura de trip hop, folk rock, R&B, eletropop e downtempo, o trio, formado pela cantora Skye Edwards e os irmãos Paul e Ross Godfrey, abriu sua trajetória, em 1996, com "Who Can You Trust?", e, dois anos depois, lançavam o essencial "Big Calm", top 10 da parada britânica. Mantiveram o êxito no sucessor "Fragments of Freedom", de 2000, que os alçou ao estrelato com o hit "Rome Wasn't Built in a Day". 

Porém, em 2005, as relações internas começaram a se desestabilizar. Após o ótimo "Charango" e uma década juntos, Skye deixa a Morcheeba por um tempo, retornando dois álbuns depois, em 2013, para "Head Up High". Só que, agora, quem se despedia era Paul – e ele, pelo visto, em definitivo. E então: suas programações de ritmo, samples, percussões e scratches, tão essenciais para o estilo da banda, como ficariam? Não se valeriam mais desse tipo de expediente? A supressão dele iria mudar a proposta sonora da banda? A resposta veio após cinco anos no magnífico "Blaze Away". A agora dupla Skye e Ross não só manteve a qualidade que caracteriza a Morcheeba como, ainda, produz um dos melhores trabalhos da discografia da banda.

Com produção e sonoridade caprichadas de sempre, “Blaze Away” (que quer dizer algo como "chama acesa") abre com uma música de título também bastante simbólico para este novo momento: "Never Undo" ("Nunca desfaça"). Trip hop sentimental de letra apaixonada, talvez também deixe um "recado" aos que se foram: "Você foi uma história sombria/ Mas não deixe isso afundar/ Vamos apenas cantar". Na sequência, a faixa-título, um eletro-funk matador com a participação do rapper Roots Manuva cuja voz potente contrapõe o delicado timbre de Skye. Sonzasso.

"Love Dub", como o nome diz, traz o ritmo jamaicano com a invariavelmente ótima guitarra de Ross e um inspirado refrão, desses facilmente cantaroláveis, especialidade da Morcheeba: “Lead the healing/ Build the bridge/ Freedom feeling/ We begin there”. E por falar em melodia bonita em forma de música pop, “It's Summertime” é exemplar. Embalada pela guitarra de Ross sobre uma programação de ritmo e efeitos de teclados, é tão solar como o título sugere. E o que é Skye pronunciando a palavra “love”?! É de se apaixonar por esse verão.

Já a bela “Sweet L.A.”, mais cadenciada, é basicamente ao som do órgão e a doçura vocal de Skye. Pura delicadeza. Na sequência, talvez a melhor do disco e uma das grandes de todo o cancioneiro da Morcheeba: "Paris Sur Mer", que entra na interessante lista de canções cantadas em francês por artistas de outra nacionalidade como “Touche Pas à Mon Pote”, do brasileiro Gilberto Gil, e “Aéro Dynamik”, dos alemães Kraftwerk. Claro, aqui Skye e Ross são ajudados sobremaneira pela poderosa e sensual voz do cantor e ator francês Benjamin Biolay. Um ritmo funkeado sobre um riff de violão, que, na mesa de som, soa como se sampleado por eles próprios. Tem também o tradicional solo de Ross com pedal wah wah, marca dele em várias outras músicas da banda, como as antigas “The Sea” e "Shoulder Holster", de “Big Calm”, e “Cut to the Chase”, de “Blood Like Lemonade” (2010). Mas, além disso tudo, tem o charme do idioma de Proust sendo cantado em uníssono por essas duas lindas vozes masculina e feminina, ao estilo Gainsbourg-Birkin: “Paris-Sur-Mer/ Station de ski d'hiver/ Paris-Sur-Mer/ Se rêve en station balnéaire”.

Com o clima de folk downtempo (tal músicas como “Aqualung” e “Part of the Process”, de álbuns anteriores), "Find Another Way" vem em seguida. É outra dessas melodias graciosas que só a Morcheeba sabe compor, e sempre com o vocal cheio de sensualidade de Skye, suavemente rouco e de timbre levemente infantil. Sua voz carrega com elegância também o synth-funk "Set Your Sails", formando uma camada vocal em overdub e num fluxo temporal diferente da base eletrônica e dos outros instrumentos.

Encerrando “Blaze...”, a belíssima "Free of Debris", balada romântica ao estilo de outras da banda, tipo “Fear and Love”, “Undress Me Now” e “Col”, mas desta vez também com algo de ambient. Curta e poderosa, quase uma vinheta para o viajandão trip hop "Mezcal Dream", que finaliza o disco unindo as vozes de Skye e da francesa Amanda Zamolo. Cheia de efeitos, samples, programação de ritmo... pelo visto, Paul Godfrey não está fazendo tanta falta.

Dá para dizer que “Blaze...” é o “Exile on Main Street” ou o “Atom Heart Mother” da Morcheeba? Talvez seja uma comparação exagerada, mas não descabida. Skye e Ross, cientes de que agora o barco é só com eles, esmeraram-se e trouxeram um álbum que não apenas dignifica a história do grupo como, no mesmo peso, superam a ausência de um ex-integrante e mantêm, sim, a banda plenamente viva. Tal Rolling Stones e Pink Floyd fizeram um dia quando estiveram quase por acabar. Atitude de grandes bandas.

Clipe da faixa-título "Blaze Away"


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FAIXAS:
1. "Never Undo"
2. "Blaze Away" - participação: Roots Manuva (Skye Edwards/ Ross Godfrey/ Alex Watson/ Rodney Smith)
3. "Love Dub" 
4. "It's Summertime" (Kurt Wagner/ Edwards/ Godfrey)
5. "Sweet L.A." (Constandia Costi/ Edwards/ Godfrey) 
6. "Paris Sur Mer" - participação: Benjamin Biolay (Edwards/ Godfrey/ Biolay)
7. "Find Another Way"
8. "Set Your Sails"
9. "Free Of Debris"
10. "Mezcal Dream" – participação: Amanda Zamolo (Godfrey)
Todas as composições de autoria de Skye Edwards e Ross Godfrey, exceto indicadas

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Daniel Rodrigues