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segunda-feira, 13 de abril de 2015

"Livre", de Jean Marc Valeé (2014)


Sou fascinado pela história de Christopher McCandless (ou Alexander Supertramp). Em 1992, aos 24 anos, o "jovem-vida-perfeita" botou uma mochila nas costas e se bandeou estrada afora, sem um tostão no bolso, rumo ao isolamento na carcaça de um ônibus abandonado em Fairbanks, no Alaska. Uma jornada de autoconhecimento, de desapego transcendental, de alguém completamente fora dos padrões do quadradismo mundano. A história, trágica, ficou famosa depois de uma reportagem publicada em 1993 na revista The New Yorker. O autor, John Krakauer, acabaria transformando a história em livro: "Na Natureza Selvagem", de 1996. Em 2007, Sean Penn dirigiu Emile Hirsh como McCandless e trilhou a obra-prima ao som de Eddie Vedder. O filme é genial. Tudo nele é genial; de uma ponta a outra.
Agora, finalmente matei a curiosidade de ver algo que se lançou (pelo menos foi a primeira impressão que tive) como a versão feminina dessa história. De fato, "Livre" lembra "Na Natureza Selvagem": uma jovem, vinte e poucos, resolve fazer, sozinha, uma trilha de 1,8 mil km tentando superar uma sequência de traumas. Em meio a isso, pitadas de literatura (ainda que mais acanhadamente). A história também é real, porém mais agridoce. Muita gente teima em lembrar de Reese Whiterspoon por "Legalmente Loira", mas prefiro a referência de "Johnny & June". Ela vai bem em "Livre", dirigido por Jean Marc Valeé (o mesmo de "Clube de Compras Dallas"). Pontos positivos, ainda, para a fotografia; o roteiro fragmentado e muito bem construído por Nick Hornby; e a trilha, que leva desde o El Condor Pasa inigualável de Simon &; Garfunkel até uma ceninha com banda cover de Greateful Dead. Não é "Na Natureza Selvagem", mas é justo e tão verídico quanto.


sexta-feira, 10 de abril de 2015

cotidianas #363 - O Magalhães



O pequeno episódio narrado a seguir, verdadeiramente aconteceu embora, eu, pessoalmente não conheça nenhum dos personagens. Foi-me relatado por uma amiga, ex-funcionária de uma empresa onde os envolvidos trabalhavam, e a reproduzo porque além de seu desfecho conter uma certa comicidade pelo inusitado, a tirada que o conclui é de uma sagacidade e presença de espírito incríveis.
O fato é que o dono da tal empresa, o Sr. Magalhães, todos sabiam, tinha uma amante dentro do ambiente de trabalho. Da parte dele, ainda que tivesse família, funcionários conhecessem e prezassem sua esposa, não alardeava mas também não escondia, a relação extraconjugal. Deixava quieto, sem comentários, sem exposição mas também sem negar nada. Agora, a amante, a diretora comercial da empresa, daquelas pessoas espaçosas, estrepitosas, não apenas não fazia a menor questão de manter secreto o caso, como, pelo contrário, gritava aos quatro ventos e fazia saber a quem quisesse, algumas vezes até, de maneira um tanto inconveniente e constrangedora, revelando detalhes íntimos, indiscrições e pormenores do casal.

E assim aconteceu naquela festa de fim de ano da empresa. A mulher não hesitava em revelar presentes, idas a motéis, exaltar as qualidades do Magalhães na cama, seu apetite sexual, posições prediletas e coisas do tipo, deixando de cabelo em pé os menos prevenidos com seu jeito escandalosos. Mas muitos já estavam acostumados e nem se espantavam mais com as inconfidências da concubina do chefe como era o caso dessa minha amiga que conversava num canto da festa com um outro funcionário, sabidamente homossexual, e conhecido por sua inteligência e mordacidade. Eis que então a escandalosa se encaminha na direção deles, tentando demonstar dificuldade para andar, levemente inclinada e levando uma mão às costas. Chegando perto da dupla que se divertia em pequenas fofocas e comentários da festa, dispara o desnecessário comentário, “Ai, gente, tô com uma dor nas costas. Eu sempre fico assim quando eu dou a bunda pro Magalhães”, e sabendo que o rapaz era homossexual e, portanto tinha a mesma preferência sexual que ela, ainda completou, “Tu não fica assim também, não?”, ao que ele respondeu com a perfeita e irrepreensível colocação, “Não, nunca dei o cu pro Magalhães”.


por Cly Reis

Berinjela Beligerante


Gênese









"Gênese" - REIS, Cly
grafite sobre sulfite 15x21cm
REIS, Cly