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quinta-feira, 30 de abril de 2009

Primal Scream "Screamadelica" (1991)




"We're gonna have a good time,
we're gonna have a party"



Peguei para ouvir hoje no carro o Primal Scream “Screamadelica” que, particularmente, considero um dos cinco melhores e mais influentes discos dos anos 90, e para o qual vejo constantemente minha opinião compartilhada por renomadas publicações, sites, blogs, críticos ou listas.
Normalmente vejo muito associado o grande mérito do disco ao fato de integrar efetivamente a house music ao pop/rock inglês mas no meu ponto de vista analisar por aí, é ver apenas a ponta do iceberg. É sim mérito um inegável este, e Bobby Gillespie e sua turma de amigos, DJ’s e produtores que recheiam todo o contexto desta obra, o fazem brilhantemente como na dançante e empolgante “Don’t Fight It, Feel It” por exemplo, ou no hit “Come Together” que mistura o psicodelismo à house, cheia de inserções de metais e vocais gospel, que também aparecem até com mais ênfase, na ótima abertura do álbum “Movin’ on Up” que lembra muito Stones. Mas até por conta desta complexidade de elementos, vê-se que não se limita a um disco de indie com uma pitada de house. Trata-se de um álbum extremamente bem trabalhado e diversificado.
O já citado psicodelismo encontra seu auge na versão de “Slip Inside this House” dos não menos psicodélicos 13th. Floor Elevators, em uma releitura que com méritos diferentes, não fica devendo nada à original. “Higher than the Sun”, também muito doida, tem duas versões no mesmo disco (que na verdade são três): uma primeira mais “musical”, por assim dizer, mais constante e regular, e uma outra, como diz o subtítulo, uma “sinfonia dub dividida em duas partes” na qual a primeira praticamente vai-se compondo elemento a elemento, instrumento a instrumento, parte a parte, até que se completa, se interrompe, pára e recomeça a segunda parte onde prevalece uma levada de baixo hipnótica.
“Loaded”, uma das melhores do disco, é na verdade uma remixagem de uma música da própria banda, “I'm Losing More than I'll Ever Have", do álbum anterior e que não faz questão de esconder o seu caráter de regravação por mostrar bem uma cara de RE-mix.
A acústica “Damaged” é adorável assim como “Shine Like Stars”, uma baladinha leve que fecha o disco com delicadeza depois de toda a alucinada viagem musical.
É um dos meus preferidos. Considero um disco muito influente porque vejo que aquela linguagem de pop/rock inglês do início dos anos 90 estava sem personalidade e sem qualidade. Tinha muita gente tentando fazer algo desse gênero como Jesus Jones, Soup Dragons, EMF mas meio sem rumo e com a falta daquele “algo mais”, e foi isso que o Primal Scream proprocionou com “Screamadelica”. Fez o que todos estes estavam tentando fazer mas com um toque superior de qualidade somada a muito psicodelismo, ousadia, tentativae experimentação que acabou sendo crucial para o que viria no pop britânico dali para a frente nos anos 90.

OUTROS TOQUES:
* O álbum conta com diversos produtores para as propostas diferentes do que pretendia-se na mesma obra. Produziram o disco: The Orb, Hyphnotoe, Andrew Weatherall, Hugo Nichelson, Jimmy Miller; A remixagem de “I’m Losing More than I’ll Ever Have” que gerou “Loaded” foi feita por Andrew Weatherall;
* A abertura de “Loaded” conta com sampler da voz de Peter Fonda no filme ‘Wild Angels’;
* A grande linha de baixo da segunda parte da segunda versão de “Higher tahn the Sun” é executada por Jah Wabble, ex-PIL;
* Informação adicional, apenas pra quem não sabe ou para os menos avisados: Bobby Gillespie, líder e mentor do Primal Scream é o antigo bateirista do Jesus & Mary Chain. Grande banda, mas que, cá entre nós, estava desperdiçando todo o talento do cara lá no fundo do palco.

FAIXAS:
  1. "Movin' on Up" – 3:47
  2. "Slip Inside this House" – 5:14 (Ericson, Hall)*
  3. "Don't Fight It, Feel It" – 6:51
  4. "Higher Than the Sun" – 3:36
  5. "Inner Flight" – 5:00 (instrumental)
  6. "Come Together" – 10:21
  7. "Loaded" – 7:01
  8. "Damaged" – 5:37
  9. "I'm Comin' Down" – 5:59
  10. "Higher Than the Sun [A Dub Symphony In Two Parts]" – 7:37
  11. "Shine Like Stars" – 3:45  
*dos 13th. Floor Elevators do álbum “Easter Everywhere”

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Baixe e ouça:

sexta-feira, 24 de abril de 2009

"Che", de Steven Soderbergh (2008)



Fiquei positivamente impressionado com o filme “Che” de Steven Soderberg que retrata a vida do guerrilheiro revolucionário argentino Ernesto Guevara. Tinha boa expectativa mas ela foi superada.
Muitíssimo bem dirigida, a obra apresenta um roteiro bem elaborado no qual, a partir da cenas da visita aos Estados Unidos para o discurso nas Nações Unidas, onde Che concede uma entrevista a jornalistas americanos, o diretor faz com que as perguntas e respostas funcionem quase que como um fio condutor do filme, intercalando breves cenas desta entrevista, diferenciando a película (sempre em preto e branco neste caso), com cenas da sua formação como guerrilheiro, treinamentos, as batalhas nas matas cubanas, além de diálogos e situações que vão moldando a imagem do homem que viraria uma lenda em um país que nem era seu por origem, apresentando-nos seus princípios de revolucionário, de cidadão e sobretudo de homem. Tudo isso muito bem caracterizado na pele de Benício Del Toro, que faz um Ernesto Guevara irrepreensível.
Destaque também para o ótimo Fidel, representado por Demián Bichir e para a apagada atuação do brazuca Rodrigo Santoro como Raúl Castro.
Mérito também para odiretor em ACABAR um filme apresentado previamente como tendo duas partes. Ainda que saibamos que o filme “Che – parte 1” continua, há um encerramento da primeira parte e não fica aquela sensação de que paramos para os comerciais.
Posso-lhes dizer que fiquei ansioso para assistir a segunda parte, que tem estréia prevista para julho no Brasil.


Cly Reis

sexta-feira, 17 de abril de 2009

"Tony Manero", de Pablo Larrain (2008)





O elogiado e bem recomendado filme chileno Tony Manero merece em parte as deferências da qual é objeto. Bom filme, sim, mas não é tudo isso.
O filme centra sua ação no personagem Raúl Peralta que é obcecado pelo filme "Os embalos de sábado à noite" e sobretudo no personagem vivido por John Travolta, que inspira o nome do filme e também as ações, trejeitos e coreografias do protagonista. Às voltas com sua fixação em realizar, em um bar de última categoria, a coreografia do filme, juntamente com seu "corpo de dança" (igualmente miserável), Raúl vai se mostrando uma pessoa vazia, seca e eventualmente violenta, revelando-se uma espécie de serial-killer inconsequente, matando por qualquer motivo que lhe contrarie ou que vá contra seus interesses, que, a rigor, baseiam-se quase que exclusivamente na encenação da dança do filme. Tudo isso em meio à ditadura Pinochet e todo aquele clima de medo e terror que pairava no ar em todas as ditaduras sulamericanas.
No fundo, no fundo a realidade de Raúl é mais ou menos a do seu país naquele momento: um vazio, uma falta de esperança, um horizonte de fascínio e de beleza muito distante para ser alcançado e que naquelas condições não poderia de forma alguma tornar-se realidade. Na trama, elementos representados por Travolta, pelas luzes, pelas roupas, pelo american way of life, que de uma forma ou de outra acabam também não se afastando muito simbolicamente das aspirações das ditaduras daquela época.
Nisso também pode-se comparar a violência do dançarino com a do Chile de Pinochet, como uma espécie de indiferença ao restante, uma falta de respeito, uma busca de "superioridade" pela força, disposto a passar por cima do que estiver no caminho para se firmar, se estabelecer.
No caso do aspirante a Travolta, esta questão fica evidenciada com a idéia de montar um palco imitando o chão luminoso do filme para seu grupo de dança e principalemente com sua intenção em disputar um concurso de Tonys Maneros em um programa de TV que é o ponto no qual culmina o filme, lembrando um pouco, neste momento, o "Ginger e Fred" de Fellini, com os bastidores do programa, os candidatos, a expectativa a apresentação e tudo mais.
Não é um filme fácil mas se for assistir, vá sem preconceitos nem conceitos, porque certamente o diretor não o fez pensando em obedecer padrões, sobretudo de caracterizações.


Cly Reis

terça-feira, 14 de abril de 2009

RPM - "Revoluções por Minuto" (1985)




O DISCO QUE ME FEZ GOSTAR DE ROCK

Disputar em cada frequência
O espaço nosso nessa decadência
da letra de "Radio Pirata"



Meus discos são inegavelmente parte importantíssima da minha vida. Só que alguns deles, em especial, tem papel importante na minha trajetória, por marcarem fases, episódios, vínculos, etc.
O “Revoluções por Minuto” do RPM é um destes discos que carrega uma marca importante em relação à minha vida: foi o disco que me mostrou que eu gostava de rock.
Não foi o primeiro disco que eu ouvi, não foi o primeiro que comprei, não é o melhor álbum nacional e todos os tempos, muito menos o melhor-melhor mesmo de todos, só que ele apareceu em um momento de descobertas. Muita gente começou com Beatles, outros com os Pistols. Descobertas relevantes, por certo. Eu comecei com RPM.
O trouxe hoje para ouvir no carro e ainda hoje percebo o porquê de ter-me despertado para algo que nunca mais me abandonaria, e que eu também não abandonaria mais. O rock.
Mesmo com seu apelo pop quase que pré-fabricado, serviu para despertar a sensibilidade para os elementos básicos do rock, guitarra-baixo-bateria, ainda que a grande estrela instrumental da banda fosse um tecladista, Luiz Schiavon, e que os outros instrumentistas fossem bastante limitados. Mas o fato é que ali se via um vigor de banda e nela os elementos que sempre estiveram presentes no gênero através dos tempos, como a rebeldia, o protesto, a ironia, a sensualidade e até mesmo esse apelo popular mesmo (por que não?) que sempre esteve presente desde que os ídolos são ídolos.
Tudo foi meticulosamente estudado para dar certo. Paulo Ricardo, o frontman da banda, fizera na época uma espécie de estágio em Londres para compor a receita que tinha que dar certo, e fez isso em cima de fórmulas já utilizadas nas últimas décadas e a partir do cenário local do momento que era extremamente criativo e dinâmico. Figuravam naquele momento Smiths, U2, Talking Heads, Cure, rolava o finzinho da new-eave, o fim do punk, o gótico estava na moda e no fundo no fundo o RPM tinha um pouco de tudo isso.
A primeira parte do álbum, que correspondia ao que seria o lado A do LP é a parte mais pop do disco. É onde encontram-se todos os grandes hits . Um riff de guitarra marcante e pungente seguido de um teclado cuidadosamente pegajoso abrem o disco e aí está “Rádio Pirata” com um aviso de que a invasão é inevitável. “Olhar 43”, talvez o maior hit tem um tecladão meio monocórdio, soando meio automatizado, bem grave e forte no início, encaminhando para uma letra totalmente sensual e envolvente que acaba num “tesão” que na época as rádios hesitavam em deixar que aparecesse. Segue “A Cruz e a Espada” baladinha com um clarinete e que falava sobre inocência, primeira vez, e essas coisas bem identificáveis para a meninada da época. “Estação no Inferno” um pouco mais soturna que só veio a ser sucesso mesmo no ábum ao vivo que seguiu este, tinha um clima meio soturno, meio que uma influência daquele cenário londrino estudado por Paulo Ricardo. O lado A fechava com “Loiras Geladas”, outro baita sucesso também muito sensual com o teclado em destaque numa espécie de The Doors/new-wave.
Curiosamente o que correspondia ao lado B, a segunda metade do disco, que não tocou no rádio era mais criativa e complexa como por exemplo a interessante “Liberdade/Guerra Fria” meio darkzinha com toques orientais, e a excelente e dramática ode ao país “Juvenília”. “Pr’esse Vício”, talvez a mais agressiva do disco, soa bem atual com suas referências a terrorismo e confrontos religiosos, e fechando o disco, completamente sintonizada com os dias de hoje, quase 15 anos depois, vem “Revoluções por Minuto” falando de caos econômico, globalização, drogas, consumo, num mundo girando a 78 RPM.
Depois disso o álbum “Rádio Prata Ao Vivo” vendeu como água, a banda fez megashows como nenhuma outra banda nacional havia feito, deu um tempo, voltou e ainda produziu um ótimo disco, “Os Quatro Coiotes”, mas que não teve boa aceitação do grande público. Aí a banda mudou de integrantes, voltou pra alguns caça-níqueis e era isso. O que pode resumir bem a situação atual é o fato de que o criativo e bom tecladista Luiz Schiavon toca atualmente na banda do Domingão do Faustão. Precisa dizer mais?
Depois do RPM descobri que uma banda que eu achava legal mas não sabia o nome era o tal de The Smiths, que uns carinhas de preto todos descabelados eram do The Cure e assim por diante, conheci outras e gostei mais de outras. Mesmo no cenário nacional, logo veio o “Cabeça Dinossauro” e abafou o “Revoluções...”, mas não deixo de ser extremamente grato ao álbum “Revoluções por Minuto” que foi o disco que me fez gostar de rock.
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FAIXAS:
01- Radio Pirata
02- Olhar 43
03- A Cruz e a Espada
04- Estação No Inferno
05- A Furia do Sexo Fragil Contra o Dragão da Maldade
06- Louras Geladas
07- Liberdade, Guerra Fria
08- Sob a Luz do Sol
09- Juvenilia
10- Presse Vicio
11- Revoluções Por Minuto

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Ouça:
RPM Revoluções Por Minuto


Cly Reis