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segunda-feira, 17 de agosto de 2026

cotidianas #904 - Meu Pequeno Mundo

 



Acordou assustado de um sonho estranho. Não lembrava muito bem. Mas, enfim, não tinha tempo pra ficar pensando nisso mesmo. Já estava em cima da hora pro trabalho. Preparou-se apressadamente, esquentou o café de ontem, nem teria tempo pra comer nada. Já ia abrindo a porta de casa para sair quando viu aquele bolinho em cima da mesa com um bilhetinho assentado sobre ele, escrito, "Coma-me". Pensou quem teria deixado aquilo ali, a namorada, a vizinha, a faxineira... Mas, com fome e sem tempo para nada, não pensou duas vezes. Apanhou o bolo e meteu na boca. Depois questionaria a origem do doce.

Correu para o ponto de ônibus. Teve uma certa dificuldade para embarcar. Parecia que o degrau da entrada estava mais alto que de costume. "Esses novos ônibus que estão  circulando...", pensou, desapontado. Sem assentos disponíveis, teve que esticar bem o braço para segurar-se na barra horizontal. Definitivamente, a nova frota não fora pensada para conforto do passageiro!

Para descer, teve que literalmente saltar do ônibus. No curto trajeto que percorreu entre o ponto de ônibus e o prédio da empresa, tudo pareceu estranho à sua volta mas não sabia identificar exatamente o quê. 

No prédio, no elevador, foi ajudado por um gentil senhor para apertar o botão do décimo sexto andar. Percorreu os corredores do escritório como se ninguém o visse. Era impressão sua ou as divisórias estavam mais altas? Chegou à sua estação de trabalho e para sua surpresa não alcançava a cadeira. Ficou na ponta dos pés, deu um impulso, não adiantou. Teve que derrubar a lixeira e subir nela, deitada, para alcançar a área do assento. 

Ouviu de um colega que passava na entrada da sua baia, "O nosso colega aqui não vem hoje, não?".

Estava ali, mas ninguém o via. Ele pelo contrário, via os demais esticados como que intermináveis na direção do teto. Só então entendera o que estava se passando, por mais inverossímil que aquilo lhe parecesse. Olhou em volta como se procurasse alguma solução. Talvez tivesse encontrado: em cima da sua mesa do escritório repousava um pequeno frasco com um líquido amarelo fluorescente dentro, com um rótulo escrito, "Beba-me". Supondo que o bolo tivesse causado tudo aquilo, imaginou que a bebida o fizesse voltar ao normal.

Tomou distância até o final da cadeira, correu, deu um pulo, segurou na borda da mesa e conseguiu subir. Com muito esforço escalou a pequena garrafa, tirou a rolha e a empurrou, derramando o líquido na mesa, à qual pôs-se a lamber sofregamente como um se fosse um gatinho.


*******


Um estrondo acompanhado de um tremor assustou a todos. E outro, e outro... Se repetiam como passos. 

No escritório, todos correram para a janela para ver o que se passava. 

Um olho enorme cobriu toda a superfície da janela espiando para dentro.



Cly Reis

sábado, 18 de julho de 2026

cotidianas #902 - "Uma Partida de Football"

 



Brasilx Argentina
Campeonato Sul-Americano (1919)
Das coisas elegantes que as elegâncias cariocas podem fornecer ao observador imparcial, não há nenhuma tão interessante como uma partida de football.

É um espetáculo da maior delicadeza em que a alta e a baixa sociedade cariocas revelam a sua cultura e educação.


Num círculo romano, com imperadores, retiários, vestais e outros sacerdotes e sacerdotisas, não se poderiam presenciar aspectos tão interessantes, cousas tão inéditas como nas nossas arenas de jogo dos pontapés na bola.

Os gladiadores eram raramente homens de grande beleza física e muito menos intelectual; os nossos jogadores de football, porém, são excelentes modelos, em que o crânio alongado e pontiagudo dá um remate de beleza aos seus membros inferiores que muito lembram certos ancestrais do homem.

O senhor Coelho Neto, a quem muito admiro, já fez a apologia desses Apolos, com a força de sua erudição em cousas gregas.

Não há, portanto, nos nossos hábitos, fato mais agradável do que assistir uma partida de bolapé.

As senhoras que assistem merecem então todo o nosso respeito. Elas se entusiasmam de tal modo que esquecem todas as conveniências. São as chamadas “torcedoras” e o que é mais apreciável nelas é o vocabulário. Rico no calão, veemente e colorido, o seu fraseado só pede meças ao dos humildes carroceiros do cais do porto.

Poderia dar alguns exemplos, mas tinha que os dar em sânscrito. Em português ou mesmo em latim, eles desafiariam a honestidade: e é, por um, que me abstenho de toda e qualquer citação elucidativa.

O que há, porém, de mais interessante nessas festanças esportivas, é o final. Sendo um divertimento ou passatempo, elas acabam sempre em rolo e barulho.

Por tal preço, não vale a pena a gente divertir-se.

É o que me parece.

⚽⚽⚽⚽⚽⚽⚽⚽⚽⚽⚽⚽


"Uma Partida de Football"
Lima Barreto
(1919)

quinta-feira, 16 de julho de 2026

cotidianas #901 - "De Frente pro Crime"

 


Tá lá o corpo estendido no chão
Em vez de rosto, uma foto de um gol
Em vez de reza, uma praga de alguém
E um silêncio servindo de amém

O bar mais perto depressa lotou
Malandro junto com trabalhador
Um homem subiu na mesa do bar
E fez discurso pra vereador

Veio o camelô vender!
Anel, cordão, perfume barato
Baiana pra fazer
Pastel e um bom churrasco de gato

Quatro horas da manhã
Baixou o santo na porta bandeira
E a moçada resolveu
Parar, e então

Tá lá o corpo estendido no chão
Em vez de rosto uma foto de um gol
Em vez de reza uma praga de alguém
E um silêncio servindo de amém

Sem pressa, foi cada um pro seu lado
Pensando numa mulher ou no time
Olhei o corpo no chão e fechei
Minha janela de frente pro crime

Veio o camelô vender!
Anel, cordão, perfume barato
Baiana pra fazer
Pastel e um bom churrasco de gato

Quatro horas da manhã
Baixou o santo na porta bandeira
E a moçada resolveu
Parar, e então

Tá lá o corpo
Estendido no chão

⚽⚽⚽⚽⚽⚽⚽⚽⚽⚽⚽

"De Frente pro Crime"
João Bosco/Aldir Blanc

Ouça: De Frente pro Crime

segunda-feira, 13 de julho de 2026

COTIDIANAS Especial nº900 - O Tio Adão

 



Desde pequeno ouvia minha mãe contar que nossa família tivera um grande jogador de futebol que havia jogado inclusive pela Seleção Brasileira e participado de uma Copa do Mundo.

Por mais que sempre gostasse muito de futebol, quando garoto, a informação não se fazia totalmente relevante para mim, até porque, meio desencontrada e incompleta, parecia carente de precisão e confirmação. Não que minha mãe, minhas tias e outros parentes estivessem inventando, mentindo, mas talvez aquilo não fosse tão grande quanto colocavam. Minha mãe contava das aventuras dele em países nórdicos, suas fotos com as louras, com delegações de jogadores, mas ninguém sabia ao certo se havia jogado na Copa da Suécia, da Suíça, ou se havia realmente chegado a jogar uma Copa do Mundo. Já era motivo de orgulho por ter jogado na Seleção, e isso era fato, mas talvez tivesse sido um torneio de juniores, uma excursão avulsa ou algo  do tipo. Mas de todo modo, o Tio Adão sempre habitava nossa memória afetiva coletiva como o craque da família.

A era da informação e da Internet trouxe dados mais precisos que eliminaram aquelas imprecisões e só fizeram crescer minha admiração e colocá-lo no lugar de destaque que sempre mereceu.

Tio Adão para nós, ou Adãozinho, como era conhecido no mundo do futebol, fora um atacante de alto nível que atuara no meu time do coração, o Sport Club Internacional, e que entre diversas participações com a seleção nacional, integrou o grupo que participou da fatídica Copa do Mundo de 1950, no Brasil. Jogara mesmo uma Copa, como se contava! Mas fora por aqui mesmo, no próprio país.

Integrante da segunda formação da lendária equipe do Internacional chamada de Rolo Compressor, Adãozinho, imparável, veloz e artilheiro, tamanha era sua volúpia e indomabilidade fora alcunhado de Atacante Satânico. Seu prestígio permanece intacto, atravessa gerações tanto que, hoje, minha filha, colorada, admira e também se orgulha de ter um parente, mesmo que distante, representante das cores do nosso time da lendária camiseta brasileira.

As histórias com louras europeias deviam ser de algum torneio, amistoso ou uma convocação eventual, mas o fato é que a própria participação em um Mundial já atesta não se tratar de um jogador qualquer. Se hoje em dia qualquer jogador mediano, sem coração, veste a camisa da seleção, Tio Adão jogara em uma época repleta de craques na qual a concorrência era grande, além de ser um tempo em que o amor à camiseta que se vestia representava tudo.

Nada pode mudar isso: um dos nossos, do nosso sangue, fora um craque de Seleção Brasileira e jogara uma Copa do Mundo!


⚽⚽⚽⚽⚽


Cly Reis


segunda-feira, 29 de junho de 2026

cotidianas #899 - "Samba Japonês"

 


Aqui pela primeira vez
Eu canto pra vocês
Um samba e um batuque feito para japonês

E vem aqui dançar comigo
Sem levar um tombo
E só se para quando ouvir o som daquele gongo

Tóquio é a cidade que
Quase vive em paz
Porque a polícia lá estuda até arranjos florais

Bruce Lee, Kung-fu, Shaolin chegou
E veio sambando e cantando em nagô

O sol então nos encontrará
Pela madrugada
De mãos dadas como num conto de fadas
Cor de jade e de marfim, nos invade
Amor sem fim, felicidade é uma coisa assim

O sol então nos encontrará
Pela madrugada
De mãos dadas como num conto de fadas
Cor de jade e de marfim, nos invade
Amor sem fim, felicidade é uma coisa assim


⚽⚽⚽⚽⚽⚽⚽⚽⚽⚽⚽

"Samba Japonês"
Jorge Mautner

Ouça: Jorge Mautner - Samba Japonês

quinta-feira, 18 de junho de 2026

COTIDIANAS #898 - Especial Maria Bethânia 80 Anos - "Pássaro Proibido"



Solto está o pássaro proibido

Perigo, cuidado, sinal nas ruas

Plumagem clara e brilhante

Ao sol e a lua transparente

Ao corisco e a maré

Ao corisco e a maré

Eu canto o sonho na cama

Do jeito doce e moreno

Eu canto


Pássaro proibido de sonhar

O canto macio, olhos molhados

Sem medo do erro maldito

De ser um pássaro proibido

Mas com o poder de voar

Mas com o poder de voar

Eu canto o sonho na cama

Do jeito doce e moreno

Eu canto


Voar até a mais alta árvore

Sem medo, tranquilo, iluminado

Cantando o que quer dizer

Perguntando o que quer dizer

Que quer dizer meu cantar

Que quer dizer meu cantar

Eu canto o sonho na cama

Do jeito doce e moreno

Eu canto


Eu canto


🐦🐦🐦🐦🐦🐦🐦🐦🐦🐦🐦



letra de "Pássaro Proibido"
autoria: Maria Bethânia e Caetano Veloso



Maria Bethânia - "Pássaro Proibido"
Voz: Caetano Veloso 

segunda-feira, 15 de junho de 2026

cotidianas #897 - "Esquadrão do Samba"

 



Meu pandeiro rebate no gol
E na defesa bate o tamborim
O reco-reco, o agogô, a frigideira
Entregando de primeira quem disser
Passe pra mim
No meio campo vem a formação
Um cavaquinho e um bom violão
O surdo joga na frente de rompendor
O ganzá de goleador, o repinique a repicar
Pela direita tocando com a cuíca
A torcida se agita pra ver o samba jogar

Gol, mais um gol esse time não pode perder.
A seleção do meu samba ninguém consegue vencer
Olha o Gol, mais um gol esse time não pode perder.
A seleção do meu samba ninguém consegue vencer

Meu pandeiro rebate no gol
E na defesa bate o tamborim
O reco-reco, o agogô, a frigideira
Entregando de primeira quem disser
Passe pra mim
No meio campo vem a formação
Um cavaquinho e um bom violão
E pode vim a seleção do estrangeiro
Bem quente que o brasileiro
Já montou seu esquadrão
Sei que lá fora o meu samba não tem nome
Compete, mas passa fome, se gritar leva carão.
Em nossa área apareceu o rock and roll
Tá por ai fazendo gol
Mas no bom samba não faz não

Gol, mais um gol esse time não pode perder.
A seleção do meu samba ninguém consegue vencer
Olha o Gol, mais um gol esse time não pode perder.
A seleção do meu samba ninguém consegue vencer


⚽⚽⚽⚽⚽⚽⚽⚽⚽⚽⚽

"Esquadrão do Samba"
Chico da Silva

Ouça: Chico da Silva - 'Esquadrão Do Samba'




sábado, 30 de maio de 2026

cotidianas #895 - Gol Chorado

 



O pé por baixo da bola. Aquela leve cavada, desequilibrado, o suficiente para evitar o joelho do goleiro. E lá foi ela, a bola, mansa, lenta, quase morrendo, quicando, quicando, quase perdendo a força antes de chegar no gol. Será que tinha direção certa? E se batesse na trave? E se tirasse tinta e saísse?
Eu, acompanhando a trajetória, era o espectador privilegiado ao mesmo tempo que era candidato a herói do título. Era só encostar de leve e garantir o destino certo: rede!
Naquele 14 de junho era aniversário do famoso Gol Chorado. O gol do título. Só se falava nisso em todas os jornais, emissoras, mesas redondas. Era especial com o Pinha, entrevista com o Pinha, reprise do gol do Pinha, "conheça a mansão do ex-atacante Pinha"... Estava cansado daquilo. Desliguei a TV, levantei da cama e acendi um cigarro no fogão. Se tivesse metido o pé naquela bola, hoje não estaria morando num buraco daquele em que o quarto já é praticamente a cozinha.
Ainda sonhava com aquele lance...
Em seu sonho, ele acompanhava a jogada, ela quicava, quicava, ia morrendo, ele percebia que ela não teria o destino do gol, talvez batesse na trave... Pra garantir, completava de chapa pra rede. O jogo acabava, ele era carregado como um herói, caía nos braço da torcida, dava autógrafos, ia a programas esportivos. Comerciais, carros, mulheres... Anos depois, no aniversário daquele gol decisivo, se fariam programas sobre ele, com ele, iriam à sua mansão entrevistá-lo e fazer um especial para a TV.
Acordava invariavelmente suado e angustiado, com lágrimas nos olhos. Não conseguia deixar de pensar como tudo seria se tivesse metido o pé naquela bola.



Cly Reis

segunda-feira, 6 de abril de 2026

cotidianas #892 - LMNT 4VR

 



Fotos com a galera na praia, fotos com as meninas na festa da Gabi, foto com as miga no Pop Festival... A Lari devia estar quase chegando pra irem juntas pra festa na casa do Edu. Enquanto isso, aproveitava pra baixar as fotos pro computador e selecionar as melhores.

Ai, essa não com a chata da Aline! Deletar! Own..., a Juli é um amor! Adoro essa foto junto com ela. Haha, o cachorro da Gabi. Essa eu tenho que guardar. Ah, não! O Marcelo... Pior que essa foto tá ótima. O que estraga é ele.

Havia terminado com o Marcelo havia poucas semanas e, naquele momento, a imagem dele era algo pouco agradável, era alguém que preferia não ver. E pensar que teria que encontrá-lo na festa...  Mas não tinha jeito: ele também era amigo do Edu e estaria lá de qualquer forma. Preferia não deletar uma foto tão legal, no sítio do pai da Lara, com as meninas, com o Jefinho que é um cara massa, com o Rafa que é gatinho... Bem que podia eliminar só o Celo!

Procurou no Google algum aplicativo que removesse imagens indesejáveis. Remove-It, Photo X-clude, Edit 4U... 'LMNT 4VR, elimine para sempre aquela figura indesejável'. Nunca tinha visto esse, nunca tinha ouvido falar. Adorou a chamada! Era exatamente isso que queria: remover o Marcelo para sempre de qualquer lembrança.

Entrou. Arraste sua foto para cá. Colocou lá a fotinho. Use o pincel para apagar. Passou o cursor em forma de número 4 apenas sobre a imagem do ex. Você realmente deseja eliminar este elemento? Pensou um pouco... Confirmou. SIM.

Nesse momento a mãe entrou no quarto e avisou que a Lari estava lá  embaixo e que era para ela descer. Baixou a tampa do laptop, apagou a luz do quarto e saiu para a festa. 

Selfies, poses, drinks, baseados, paqueras! A galera tava toda lá. Quer dizer, todo mundo menos o Marcelo. Estranho! O Gui veio com a piadinha, "Tem alguém que não apareceu por aqui hoje... Será que é dor de corno?". Não enche, Gui! A Gabi encostou nela e, de forma bem mais conveniente questionou: "Sabe do Celo?". Não sei e não quero saber, respondeu. De fato não queria saber, mas que era estranho não ter ido à festa, era. Além de não costumar se abalar com qualquer rompimento, finais de namoro, era amigo de infância do Edu e além disso todos os rapazes, os amigos estavam lá, o pessoal do time, do clube, do inglês...

Marcelo não apareceu aquela noite e não apareceu mais.

Não fora mais visto.

Polícia, noticiários, família desesperada... Como se tivesse evaporado.

Nada a ver, mas começou a pensar naquele aplicativo... Desde a noite em que resolveu apagar o Marcelo, ele não apareceu mais. E era um app estranho pra falar a verdade. Nunca tinha visto nem ouvido falar daquela coisa. 

Será???

E se testasse? Pra conferir se era isso mesmo. Se o tal aplicativo teria alguma coisa a ver...

lmnt4vr.com

Entrou.

(Com quem faria o teste?)

A Aline era uma chata, mesmo...

Arraste sua foto para cá. Colocou lá a foto. A Aline toda sorridente no churrasco na piscina.

Use o pincel para apagar.

Passou o cursor apenas sobre a imagem do desafeto.

Você realmente deseja eliminar este elemento?



Cly Reis


quarta-feira, 25 de março de 2026

Música da Cabeça - Programa #452

 

Bomba! Revelado o verdadeiro Power Point que liga o MDC a suas conexões! Mas aqui não tem mau jornalismo e nem intenções lavajatistas! Afinal, Sly & Family Stone, Neguinho da Beija-Flor, Cláudia, The Smiths e Jackson Browne sabem muito bem do que estão falando. Ainda, Eliane Elias ilustra nosso Cabeça dos Outros desta semana. Com distorção só de guitarras, o programa entra no modo apresentação às 21h na imparcial Rádio Elétrica. Produção e apresentação sem erro: Daniel Rodrigues 


www.radioeletrica.com

quarta-feira, 18 de março de 2026

Música da Cabeça - Programa #451

Como se já não bastasse a guerra, agora um manda animação Lego pra cá, videogame pra lá... Sem brincar com coisa séria, o MDC solta seus mísseis também, mas só os musicais. Hoje, Johnny Rivers, Kraftwerk, Jorge Bem Jor, Nirvana e Chico Science miram seus alvos. No Cabeção, igualmente, uma explosão de talento com os 80 anos da deusa Liza Minelli. Divertida-mente cultural, o programa vai ao ar às 21h na "gamificada" Rádio Elétrica. Produção, apresentação e meme pela paz: Daniel Rodrigues


www.radioeletreica.com

domingo, 15 de março de 2026

cotidianas #890 - "Fred Astaire"

 



Deu pra escutar
A canção que tocou pra gente
E o meu coração que
De repente
Inventou de sapatear

Ou eu fui louca
E tudo foi um grande engano
E eu faço o plano
E o contraplano
De um filme prestes a acabar

Só pra saber
Nesse tal filme de romance
Antes que o público se canse
Você me beija no final?

Um sim cai bem
Mas não se sinta pressionado
Porque um beijo obrigado
Na tela
Imprime meio mal

Sem problema
Ser figurante da sua história
E, olha, nem força sua memória
Nem nome eu preciso ter

Mas, cuidado
Me deixa no canto da sala
Que se eu tiver alguma fala
Eu mudo pra: Eu amo você


🎬🎬🎬🎬🎬🎬🎬🎬🎬🎬🎬🎬🎬

"Fred Astaire"
Clarice Falcão



Ouça:

domingo, 8 de março de 2026

COTIDIANAS nº889 Especial Dia Internacional da Mulher - "Aviso da Lua Que Menstrua"


 


Moço, cuidado com ela!
Há que se ter cautela com esta gente que menstrua...
Imagine uma cachoeira às avessas:
Cada ato que faz, o corpo confessa.
Cuidado, moço
Às vezes parece erva, parece hera
Cuidado com essa gente que gera
Essa gente que se metamorfoseia
Metade legível, metade sereia.
Barriga cresce, explode humanidades
E ainda volta pro lugar que é o mesmo lugar
Mas é outro lugar, aí é que está:
Cada palavra dita, antes de dizer, homem, reflita..
Sua boca maldita não sabe que cada palavra é ingrediente
Que vai cair no mesmo planeta panela.
Cuidado com cada letra que manda pra ela!
Tá acostumada a viver por dentro,
Transforma fato em elemento
A tudo refoga, ferve, frita
Ainda sangra tudo no próximo mês.
Cuidado moço, quando cê pensa que escapou
É que chegou a sua vez!
Porque sou muito sua amiga
É que tô falando na "vera"
Conheço cada uma, além de ser uma delas.
Você que saiu da fresta dela
Delicada força quando voltar a ela.
Não vá sem ser convidado
Ou sem os devidos cortejos..
Às vezes pela ponte de um beijo
Já se alcança a "cidade secreta"
A atlântida perdida.
Outras vezes várias metidas e mais se afasta dela.
Cuidado, moço, por você ter uma cobra entre as pernas
Cai na condição de ser displicente
Diante da própria serpente
Ela é uma cobra de avental
Não despreze a meditação doméstica
É da poeira do cotidiano
Que a mulher extrai filosofando
Cozinhando, costurando e você chega com mão no bolso
Julgando a arte do almoço: eca!...
Você que não sabe onde está sua cueca?
Ah, meu cão desejado
Tão preocupado em rosnar, ladrar e latir
Então esquece de morder devagar
Esquece de saber curtir, dividir.
E aí quando quer agredir
Chama de vaca e galinha.
São duas dignas vizinhas do mundo daqui!
O que você tem pra falar de vaca?
O que você tem eu vou dizer e não se queixe:
Vaca é sua mãe. de leite.
Vaca e galinha...
Ora, não ofende. enaltece, elogia:
Comparando rainha com rainha
Óvulo, ovo e leite
Pensando que está agredindo
Que tá falando palavrão imundo.
Tá, não, homem.
Tá citando o princípio do mundo!

"Aviso da Lua Que Menstrua"
Elisa Lucinda


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"Aviso da Lua Que Menstrua"
poema-música




sábado, 7 de março de 2026

cotidianas #888 - Pílula Surrealista #62


Os remédios já não faziam mais efeito. Estava certo, minha hora havia chegado. Nada de tristeza ou despedidas, então. Mas claro que algo precisaria ser feito. No meu caso, obviamente, a escolha foi fundar um continente. Mas não pensem que foi fácil. Fazer submergir a antiga Atlântida do fundo do mar usando apenas uma enxada e as mãos exigiu força, as últimas as quais pude oferecer da vida que me resta. Mas, pronto: fundei! Está lá agora, para todos pisarem. E ok, ok, sei que não é necessariamente um continente e nem uma novidade a Atlântida - aliás, em termos geológicos, muito menos novidade que os outros continentes que aí estão. Talvez seja inadequado dizer "fundei". Mas, ora, me permitam esse crédito! O que resta a um homem em fim de trajeto, cujo pulsar, em contagem regressiva, anuncia findar a não muito dali e que mira, com olhos marejados e enevoados, a miragem de um corpo a, pouco a pouco, se desmaterializar? Permitam-me. Até porque, nesse planeta que eu quase deixo, muito pouco há de ineditismo nos descobrimentos, convenhamos. Além do mais, nem Colombo, Marco Polo, Comer, He, Da Conti, Tavernier, Fernão, Cook, Alvarado alcançaram esse feito: mais do que fundar, ressuscitar um continente. É uma ilha, eu sei, mas uma ilha grande. Então, classifico como continente. Vou para a tumba sabendo que aquela terra, submersa em um único dia e noite por cataclismos, venceu, reverteu a arrogância dos antigos atlantes corruptos. A mim, arrogância não é o caso. É apenas merecimento. Ao menos um merecimento. Ao menos uma realização. Ao menos uma glória. Ao menos um continente.


Daniel Rodrigues



terça-feira, 17 de fevereiro de 2026

COTIDIANAS nº887 Especial de Carnaval - "O samba é um desconforto potente"



As ruas são mães do samba ainda que muitas vezes tentem trancar a criança em casa. Percebo que tem uma turma acreditando em uma dicotomia perigosa: a que o samba é um retrato da nossa cordialidade como povo e o funk é o retrato de um Brasil violento, misógino e cruel. Um amigo acaba de me perguntar se eu concordo que o samba retrata um Brasil mais gentil, festeiro, carnavalesco.
Acho que a carnavalização do samba - aquele processo de vinculá-lo apenas ao perfil de música que borda a nossa suposta simpatia - foi e continua sendo em larga medida uma tentativa de domá-lo (seja por parte do Estado, da indústria fonográfica, da mídia, do mercado publicitário, de alguns sambistas etc.), exatamente porque o samba é muito mais complexo e problemático - no sentido de não se domar a análises superficiais - do que isso.
Muito mais do que gênero musical ou bailado coreográfico, o samba é elemento de referência de um amplo e complexo cultural que dele sai e a ele retorna, dinamicamente. Nos sambas vivem saberes que circulam; formas de apropriação do mundo; construção de identidades comunitárias dos que tiveram seus laços associativos quebrados pela escravidão; hábitos cotidianos; jeitos de comer, beber, vestir enterrar os mortos, amar, matar, celebrar os deuses e louvar os ancestrais. Reduzir o samba ao terreno imaginário onde mora a alegria brasileira do carnaval é um reducionismo completo.
Não custa recordar que o discurso do samba, e de toda a múltipla musicalidade oriunda da diáspora africana, também está no fundamento do tambor, que fala daquilo que nossas gramáticas não nos preparam para ler. O tambor - e são tantos! - vai buscar quem mora longe, e isso é muito sério.
O samba – de cara podemos lembrar – até a complexidade de experiências que o definem – é testemunho e fonte documental para contratar as nossas contradições poderosas, o nosso horror e as nossas escapadelas pelas frestas da festa: o beijo na cabrocha, O assassinato de Malvadeza Durão, a alvorada no morro, a prisão do Chico Brito que fuma erva do norte, a ilusão de um olhar, o mulato calado que já matou um e se garante na inexistência do X-9 em Mangueira, os poderes do jongueiro cumba, o batizado do neguinho vestido de anjo em Pirapora, o preconceito racial no casamento do neguinho e da senhorita, as porradas que o delegado Chico Palha enfiava em macumbeiro nos tempos da vadiagem, a navalha no bolso, o revólver como maneira nossa de entrar no século do progresso, a mulher vitimada pela violência, submissa como Amélia, rebelde e altaneira como Gilda; o tiro de misericórdia no menino que cresceu correndo nos becos que nem ratazana e morreu como um cachorro, gemendo como um porco... Tá tudo no samba.
Foi exatamente o samba, sobre o qual reflito sistematicamente, que me fez perceber e encarar um Brasil de complexidades que não comportam dicotomias reducionistas. O samba é um desconforto potente para que o Brasil se reconheça como produtor constante de horror e beleza. É o filho mais duradouro dos tumbeiros, em tudo que isso significa de tragédia, redenção, subversão, negociação, resistência, harmonia, violência, afeto, afirmação de vida e pulsão de morte na nossa história. O samba é a entidade mais poderosa das falanges da rua.

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"O samba é um desconforto potente"
Luiz Antonio Simas

sexta-feira, 13 de fevereiro de 2026

cotidianas #886 - Sexta-Feira 13 de Carnaval: Sangue, suor e folia

 



Varre, varre, varre. É lantejoula, é  plástico, é papel, é pano. Aquele barracão fica um lixo só quando todo mundo sai. Ficam só uns pra dar os últimos acabamentos, deixar tudo prontinho. Pra não atrapalhar os últimos que ficaram pra dar  aqueles retoques finais e aquelas frescuras, vou pra parte onde as coisas já estão prontas. Colares, chapéus, máscaras, penduricalhos... só varrer com cuidado sem derrubar nada.

Varre, varre, varre, passo a vassoura por baixo do balcão e ela bate em alguma coisa mais dura, mais pesada. Não é só  papel, plástico, isopor. Puxo pra frente do balcão com a vassoura e vem uma máscara. Não parece com as outras, não parece fazer parte de nenhuma alegoria. Trabalho no barracão faz meses e não sei de nenhuma ala que use uma coisa daquelas. Parece aquelas máscaras de... futebol americano. Não! Futebol americano  não usa máscara, usa, tipo, um capacete. É máscara de rósqui, rock,  hóquei, eu acho. Meu filho que gosta de esporte é que entende dessas coisas. Toda amarelada, rachada, podre. O que que aquela porcaria faz ali?

Só recolho e jogo fora como seria o normal a fazer? Ou será que pergunto pra alguém se faz parte de alguma coisa que eu não sei?

Não vou incomodar o carnavalesco. Tá lá concentrado dando instrução numa estátua de orixá.

Ah, vai pro lixo. Ninguém vai dar falta disso.

Antes de me livrar daquilo, só de graça, mesmo toda nojenta, resolvo experimentar. Botar na cara.

Um acampamento, adolescentes, um lago, desespero, afogamento, fundo, fundo, mãe, morte, vingança, máscara, sangue, sangue, coração, pernas, cabeças, sangue, morte, morte, morte. Tudo me vem à cabeça numa sequência alucinante, como um filme todo passando em um segundo.

Encho o peito de ar, respiro fundo. A meu lado uma enorme tesoura de costura repousa sobre uma bancada.

Já não sou eu mesmo quando a apanho e caminho com determinação barracão adentro. Tem pouca gente ali trabalhando a essa hora, mas tem muito mais gente lá fora e terá ainda mais nos próximos dias. Ainda é sexta-feira, o Carnaval está apenas começando.


Cly Reis 

quinta-feira, 29 de janeiro de 2026

"Araca: Arquiduquesa do Encantado - Um perfil de Aracy de Almeida", de Hermínio Bello de Carvalho - Ed. Folha Seca - Edição Ampliada (2025)



por Márcio Pinheiro

 "Todos podem desafinar ao cantar. Aracy, nunca.”
Paulinho da Viola


Com a nobreza que reveste algumas figuras míticas dos subúrbios do Rio, Hermínio Bello de Carvalho desenha o perfil de Aracy de Almeida em "Araca – Arquiduquesa do Encantado" (Folha Seca). Não espere um retrato convencional, rico em detalhes, linear na estrutura e repleto de informações. Hermínio nem sequer informa direito onde e quando Aracy nasceu. Conclui-se que, se em 1986 ela tinha 72 anos, é sinal que morreu com 74 em 1988, vítima de um derrame.

O que Hermínio oferece em Araca é, sim, um olhar único e peculiar sobre uma das artistas mais originais que o Brasil já teve. Uma visão impressionista de quem aproxima a homenageada do leitor, sem ranço ou reverência, ressaltando as pequenas histórias – como o fato de Aracy não usar calcinhas, preferindo as cuecas samba-canção brancas (com monograma bordado, detalhe importante) – e as tiradas espirituosas que caracterizavam a personagem.

Intérprete de timbre marcante, com voz anasalada e os "erres" arrastados, que deslumbrou Mário de Andrade e Noel Rosa (para citar apenas dois), Aracy surge em Araca como a doidivanas que beira o folclore, mas também como a artista sensível, capaz de apreciar Bach, Louis Armstrong, Ella Fitzgerald e os tangos de Gardel. Até ópera entrava no repertório afetivo-musical de Aracy "Ih, adoro aquele berreiro", costumava dizer entre o jocoso e o respeitoso.

Personagem que foi maior do que a sua obra, Aracy foi existencialista antes do existencialismo e hippie antes de Woodstock. Era uma boêmia que gostava de ficar em casa cozinhando para os amigos, que bebia muito uísque escocês só com gelo e que, apesar de não gostar de crianças, dava festas de Natal inesquecíveis. Não gostava de dar canjas musicais e, quando convocada, respondia rispidamente com uma de suas frases preferidas: "Quem canta de graça é galo". Era irreverente, às vezes até inconveniente, como quando perguntou a Sérgio Cabral, que estava com a namorada: "Tens copulado muito?", ou quando, abordada por uma jovem fã que queria saber como estava passando, saiu-se com essa: "Ah, minha filha, eu ando muito fodida". Para Hermínio, Aracy elevou o palavrão à condição de cantata de Bach.

quarta-feira, 28 de janeiro de 2026

Música da Cabeça - Programa #445

 

AGORA SÓ FALTAVA ESSA: O TRUMP TÁ FAZENDO TANTA BARBARIDADE, QUE ADIANTOU O RELÓGIO DO JUÍZO FINAL! MAS VAMOS AJUSTAR ESSES PONTEIROS AÍ! NO TEMPO CERTO, TEREMOS NO MDC DE HOJE AIMEÉ MANN, JOYCE, CHICO SCIENCE, MADONNA, BODY COUNT, ALICE RUIZ E MAIS. TEM TAMBÉM CABEÇÃO, QUE RESGATA OS 120 ANOS DE RADAMÉS GNATALI. O PROGRAMA ENTRA ÀS 21H, MUITOS SEGUNDOS ANTES DA MEIA-NOITE, NA ATÔMICA RÁDIO ELÉTRICA. PRODUÇÃO, APRESENTAÇÃO E PREVISÕES MAIS OTIMISTAS: DANIEL RODRIGUES.

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sábado, 10 de janeiro de 2026

cotidianas #884 - "Hora do Recreio"

 


Jean Cocteau, "Interwoven Faces", de
Jean Cocteau (Litogravura, 1954)

O coração em frangalhos o poeta é

levado a optar entre dois amores.

 

as duas não pode ser pois ambas não deixariam

uma só é impossível pois há os olhos da outra

e nenhuma é um verso que não é deste poema

 

Por hoje basta. Amanhã volto a pensar neste

                                                                   problema.



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"Hora do Recreio"
Cacaso
do livro "Beijo na Boca", de 1975

quinta-feira, 1 de janeiro de 2026

cotidianas #883 - "Feliz Homem Novo"

 

O ano novo se aproximava.

Em casa, cada vez que a esposa falava de sua cada vez mais crescente barriga, Roberto prometia, "Ano que vem eu perco essa barriga. Tu vai ver um novo homem."

No ponto de ônibus, para cada vez que ficava horas esperando o transporte, entrava no coletivo atrolhado e sentia-se apertado como uma sardinha, tinha que sair se espremendo e empurrando todo mundo para chegar na porta para saltar na sua parada, prometia a si mesmo, "Vocês todos vão ver um novo homem no ano que vem. Com carro novo, um carrão, um cara que não vai precisar mais ficar se sujeitando a isso tudo. Vocês vão ver!".

No trabalho, sempre que chegava atrasado e o supervisor o repreendia, Roberto se comprometia, "A partir do ano que vem vou melhorar. Vocês vão conhecer um novo homem".

Deu ano novo...

Na meia-noite, entre fogos, abraços e champanhas, a campainha toca. Roberto, estatelado no sofá nem se prestou a levantar para abrir. A mulher, perguntando aos demais se estavam esperando alguém, vai até a porta e abre. "Beto, você nunca me falou que tinha um irmão!". Roberto meio que abriu os olhos e confirmou, "...não tenho". Quando voltou a cabeça para o hall de entrada, viu a esposa acompanhada de um homem absolutamente igual a ele mas muito mais bem cuidado, bem vestido, tratado e... sem barriga. Ia dizer alguma coisa mas, antes que pudesse completar uma frase, apagou.

Ao despertar, não encontrou ninguém na casa. Teriam ido à praia, viajado para Cabo Frio. Nunca teriam ido sem ele mas, por outro lado, ele nunca teria ido. Nunca queria ir quando a mulher propunha. Talvez por isso agora tivessem tomado uma atitude e o deixado dormindo no sofá. Qual não fora sua surpresa quando ao ligar a TV, pelo noticiário, percebera que já não era a manhã seguinte, o dia primeiro. Havia ficado fora de órbita por três dias! Já era a segunda-feira depois do feriadão, tinha que ir trabalhar.

Vestiu-se, correu, embarcou no ônibus já não tão cheio pelo atraso no horário e meia-hora depois chegava ao escritório. Felizmente não muito atrasado. Na frente do prédio, uma Ferrari reluzente era conduzida à garagem no subsolo por um manobrista. Ficou curioso a respeito de quem teria um carrão daqueles.

Subiu. O ascensorista o olhava de cima abaixo com um olhar de desprezo e desaprovação. Ia se instalar na sua estação de trabalho quando ouviu a voz do supervisor. "Atrasado de novo...". Ia começar a se desculpar quando o superior o interrompeu. "Na verdade, não precisamos mais dos seus serviços". Não abriu a boca. Apenas olhou para o chefe estupefato e intrigado. "Contratamos aquele cara ali", disse apontando para um homem charmoso, alinhado, elegante, na sala envidraçada da chefia. Parecia muito com ele mas... "Por sinal, lembra muito você logo quando chegou aqui; dinâmico, interessado, cheio de vida", reforçou o supervisor. "E tem um currículo muito bom, muito parecido com o seu na verdade, mas a diferença é que na recomendação dele diz que... nunca chegou atrasado", completou sorrindo.

Pegou suas coisas, desceu, pegou o ônibus, chegou em casa, sentou no sofá. Percebeu então algo que não havia notado antes quando saíra de casa correndo: em um porta-retrato, com uma foto dele e da esposa ainda jovens, estava fixado um bilhete. A mensagem era bastante breve e objetiva: "Fui embora, Roberto. Encontrei um homem de verdade".

Um novo ano começara e era tudo novo, exceto ele, Roberto, que era o mesmo antigo sujeito.

cly