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sexta-feira, 4 de agosto de 2017

O puro conteúdo


 Eu era um inexperiente repórter, ainda estagiando no Jornalismo, que trabalhava para a coluna de um jornal de Porto Alegre. O ano era 2003. Às vezes, o editor e colunista me destacava para realizar algumas entrevistas, principalmente as que eram ligadas à música e artes, pois sabia de minhas preferências e que eu as faria com todo gosto. Numa delas, fui designado a entrevistar um distante conhecido chamado Luiz Melodia.

Por conta de um novo show em Porto Alegre, o artista me recebeu numa sala de reuniões do hotel em que estava hospedado, no bairro Moinhos de Vento. Era manhã, e ele, acompanhado de assessoria de imprensa e mais alguns profissionais de produção, já estava gelando-se com uma cerveja, a qual, degustada ali por umas 10h, certamente não tinha sido a primeira do dia. Não sei se por identificação da raça, carisma, se “alegre” por conta do álcool ou simplesmente por uma questão de empatia, nos gostamos imediatamente.

A entrevista foi engraçada. Tinham perguntas fixas de um questionário que eu aplicava, mas a conversa correu tão naturalmente que em nenhuma delas ficamos apenas na resposta pura e simples. Parávamos a cada questão para refletir, conversar, trocar ideias, rir. Ele contava histórias, cantarolava, fazia observações. E eu admirando-o. Lembro que, por exemplo, muito emocionado pela conquista de uma digna representante afro-brasileira, ele comentou sobre a ginasta Daiane dos Santos, que recentemente encantara o mundo todo com seu salto “duplo twist carpado”, o salto Dos Santos, no Campeonato Mundial de Ginástica. Referia-se a ela carinhosamente como “a gauchinha”.

A coisa corria tão amistosamente que parecíamos velhos conhecidos. Ele, por óbvio, não demorou muito a me oferecer uma cerveja. Queria que a conversa se estendesse mais – e regada a bebida, claro. Infelizmente, tive que recusar, pois estava a trabalho. Isso não impediu, entretanto, que nossa identificação se fortalecesse cada vez mais naqueles momentos de entrevista. Parecíamos parentes distantes que nunca tinham se conhecido e festejavam a oportunidade do primeiro encontro.

A assessora de imprensa, a certa altura, já estava meio de cara, pois aquilo, que deveria levar uns 15 minutos, se estendia há quase uma hora. Pensei: “Que se dane!”. Afinal, não é todo dia que se está cara a cara com um dos teus ídolos, com alguém que é uma das tuas referências. Eu estava de frente ao mesmo Luiz Melodia das composições inspiradas, das letras de pura poesia, do domínio total dos mais diferentes estilos musicais, do belo canto anasalado. O Luiz Melodia do Estácio, das maravilhas contemporâneas, do pós-tropicalismo, das negras melodias. Ele, da "Juventude Transviada", do “Forró de Janeiro”, da “Magrelinha”, das “Fadas”, do "Codnome Beija-Flor". O Negro Gato. A Pérola Negra. O Ébano. O maldito. O Mico de Circo.

Ele seguia sorvendo o conteúdo de puro malte em sua taça. Repetiu o convite a mim para que não seguisse bebendo sozinho. Era-lhe incabível que aquele encontro não pudesse ser brindado. Ouvindo minha nova recusa, deu a entender, então, que gostaria de conhecer a noite de Porto Alegre, e que depois do show, que ocorreria naquele dia, poderíamos, aí sim, sem o impedimento do afazer profissional, tomar umas juntos. Trocando em miúdos: encher a cara a noite toda e continuar a conversa entre irmãos. Irmãos de cor e, agora, de alma.

A entrevista acabou – uma hora haveria de acabar, mesmo que não quiséssemos – e o tchau teve um ar de ruptura prematura. Fez-me sentido naquele rápido momento de despedida o olhar melancólico que lhe era característico, o qual jogou sobre mim não sem certa frustração.

Não fui ao show e nem tampouco curti a noite de Porto Alegre ao lado de Luiz Melodia. Sem grana e sem carro, não tinha condições – nem maturidade – para aceitar uma empreitada noturna daquelas. Se hoje, nem pestanejaria, à época, seria impossível. Precisei caminhar um pouco mais atrás da rua pra aquietar. Pra me convencer que aquela madrugada deu em nada, deu em muito, deu em sol. E entender que o tudo que se tem não representa nada, pois tá na cara que o jovem tem seu automóvel. Que o tudo que se tem não representa tudo, e o puro conteúdo é consideração.


LUIZ MELODIA
(1951-2017)



por Daniel Rodrigues

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