Na trama, com a morte do Papa, o Cardeal Lawrence (Ralph Fiennes) reúne um grupo de sacerdotes para eleger seu sucessor. Cercado por líderes do mundo todo nos corredores do Vaticano, e cada vez mais invadido pelo desejo de tornar-se Papa, ele descobre uma trilha de segredos profundos que podem abalar os fundamentos da Igreja Católica.
A boa atuação de Fiennes como protagonista (um dos 8 Oscar pelo qual "Conclave" concorre e passível de ganhar, o de Melhor Ator) e os excelentes trabalhos de arte, figurino e fotografia, que exploram as simetrias e composição visuais do pictorialismo secular da Igreja, ajudam a sustentar muito bem a trama de suspense que se cria em torno dos bastidores da escolha de um novo Sumo Pontífice.
Contudo, o final, deixa a desejar. Embora funcione para a lógica do filme, cuja narrativa faz com que se torne crível a eleição de um/a papa/papisa para o sagrado - e misógino - posto do Vaticano, na vida real é muito pouco provável que tal "escárnio" acontecesse.
Num ambiente altamente político e polarizado como o filme mostra e faz crer, onde a sede pelo poder é levada às últimas consequências (inclusive, incriminar o representante da Nigéria por puro racismo para tirá-lo do páreo, como se sucede), não é possível imaginar que deixassem incólume um cardeal de esquerda, desconhecido e envolto em mistérios só porque o antigo Papa o indicou. Ele sequer avançaria de fase no conclave, quanto menos vencer o pleito da Santa Sé. Indicação do Papa? Diriam: “Que se dane! Afinal, morto não fala (só Jesus)”.
Aquelas cobras vestidas de santidades, ainda mais os da ala reacionária e conservadora representada na figura do Cardeal de extrema-direita, Goffredo Tedesco (Sergio Castellitto), jamais iriam deixar que isso acontecesse se seus personagens não fossem "de mentirinha". Estes tipos odeiam minorias e se sentem - justificadamente - ameaçados por elas. Eles vasculhariam a vida do adversário. Fosse para valer, na segunda ocasião que o arcebispo mexicano, Cardeal Benitez (vivido por Carlos Diehz) tivesse obtido algum destaque diante do grupo, configurando-se em uma ameaça mesmo que incipiente - fato que ocorre no filme, quando este resolve pacificamente a discussão em torno da punição aos insurgentes externos à basílica - já teriam dado um jeito de lhe limar. O motivo para isso não seria nem difícil de encontrar, até porque, Cardeal Benitez não era um mentiroso, só mantinha discrição.
A sensação que se tem é a de que, faltando um argumento capaz de impactar no momento essencial do clímax, a solução a qual se recorreu para o final foi esta: um descuido da Igreja. Pouco razoável para uma instituição que sempre soube muito bem se blindar de tudo que lhe fora perigoso para sua manutenção por séculos, inclusive da própria tentativa de mulheres ao cargo. Recuperando-se um pouco da História, é sabido que a Igreja submetia os candidatos a Papa a um constrangedor teste nas partes íntimas para verificar quem tinha colhões ou não (supõe-se que o autor da obra original e o roteirista saibam disso).
Talvez hoje no Vaticano se valham de alguma tecnologia menos invasiva e não precisem recorrer mais a métodos tão arcaicos para obter o mesmo resultado - mas que devem se precaver de alguma maneira, devem. O fato é que o desfecho de “Conclave” é daqueles que passa por verdade somente em cinema, pois dificilmente aquela gente esperta e manipuladora se deixaria ser enganada tão vergonhosamente. Isso pesa para um filme que, mesmo bom, presta-se a ser realista.
Fosse preciso, na vida real, a Santa Igreja descobria de um jeito ou de outro o segredo do Papa "não-homem": com constrangimento ou não. (Se bem que, em se tratando da Igreja, é bem possível que ainda queiram manter sádicas "tradições"...)
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Daniel Rodrigues
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