Diante da popularidade de "O Auto da Compadecida", de 2000, a maioria das pessoas não teria dúvidas em afirmar, mesmo sem ver o antigo, que não tem nem graça um duelo de um grande sucesso como esse contra um esquecido, empoeirado e desconhecido filme lá dos idos de não sei quando.
Tipo um time multicampeão, cheio de grandes jogadores contra um outro pouco badalado de um centro menos valorizado.
Barbada?
Não é bem assim...
"A Compadecida" tem méritos inequívocos e consegue fazer frente ao novo em diversos quesitos.
Produzido com grande orçamento para a época, "A Compadecida" traz ecos ainda da estética da segunda fase do Cinema Novo, ainda que, curiosamente, para um projeto tão brasileiro contasse com um diretor húngaro, George Jonas, atrás das câmeras. A onda de treinadores estrangeiros já estava na moda, hein!
Além disso, time por time, o de 1969 não ficava devendo muito: tinha nada menos que feras como Antônio Fagundes, Armando Bógus, Regina Duarte e outros bons nomes como Felipe Carone, Jorge Cherques e Ari Toledo .
Como se não bastasse, a comissão técnica trazia nomes de peso como o artista plástico Francisco Brennand nos figurinos, a arquiteta Lina Bo Bardi na direção de arte, música a cargo de Sérgio Ricardo, e o próprio autor da peça, Ariano Suassuna, fazendo uma de auxiliar técnico, como responsável pelo roteiro.
Isso é só pra mostrar com quem estão lidando!
Com um jogo um pouco arrastado na primeira parte, "A Compadecida" cresce de produção e aos poucos vai mostrando a boa estrutura do time.
O aproveitamento da estética do sertão como pano de fundo natural, a exploração das tradições culturais, a teatralidade, a alegoria religiosa, tudo colabora para o bom desempenho em campo do time do técnico europeu George Jonas.
Do outro lado temos uma adaptação feita originalmente para minissérie de TV e que posteriormente foi editada e distribuída nos cinemas. A boa produção, recursos e aparato da maior rede de televisão do país, garantiam um produto final com qualidade e pronto para ser consumido com júbilo pelo público em geral. Produção padrão Globo! Ainda que a adaptação para o formato longa metragem comprometesse um pouco a montagem e tornasse abruptas algumas transições, a transposição para o cinema foi um sucesso e o então filme, não mais minissérie, tornou-se uma das maiores bilheterias do cinema nacional.
Para tal êxito, o diretor Guel Arraes, responsável pelo núcleo mais criativo e interessante da emissora, sempre com boas propostas de programas, séries, especiais, teve à sua disposição nada menos que toda a vitrine disponível da maior produtora de novelas da TV brasileira e por isso mesmo, um vasto e qualificado elenco para sua escolha. É como um grande clube, com os melhores jogadores do mundo em seu elenco, que contrata um técnico e diz pra ele, " Tá aí. Escala quem você quiser". Guel optou pelo entrosamento, mesclou com a experiência e botou dois caras diferenciados para decidir. Chamou boa parte do elenco da antiga TV Pirata, Marco Nanini, Diogo Vilela e Denise Fraga, outros com quem já trabalhara em seu núcleo na emissora, como Bruno Mazzeo e Virgínia Cavendish, deixou os medalhões Rogério Cardoso e Lima Duarte ali no meio só distribuindo o jogo, e deixou sua talentosíssima dupla de ataque, Selton Melo e Matheus Natchergale, à vontade pra enlouquecer a defesa adversária.
Na boa, Antônio Fagundes e Armamdo Bógus são talentosíssimos, mas o Chico e o João Grilo da nova versão são muito melhores! Mais carismáticos, mais protagonistas, mais engraçados. O humor da nova versão é mais convidativo, a proposição da obra é fazer rir e ela se sai muito bem no que pretende. O corpo de elenco é mais envolvido nessa tarefa do que no antigo que se propunha a ser um filme sobre sertanejos, com situações engraçadas.
"A Compadecida" (1969) - filme completo
"O Auto da Compadecida" (2000) - trailer
A vitória da nova versão passa por aí. Tem tantos méritos quanto o anterior mas é mais gostoso, mais cativante.
Cada um a seu modo transmite sua estética de sertão e aí é um gol para cada um. Se a Globo proporciona cenários bem acabados, locações bem escolhidas, materiais de qualidade, uma iluminação de primeira (1x0), a craque Lina Bo Bardi, encarregada da concepção artística do original, com sua noção diferenciada de espaço, desequilibra e deixa tudo igual nesse quesito. 1x1.
Nem a retaguarda da produção para a TV que pôs à disposição da equipe os melhores profissionais, estilistas e o guarda-roupa da maior emissora do país, impediu o gol de outro gênio, Francisco Brenant que com muita cor, alternâncias de tons, contrastes, elementos folclóricos, criou figurinos criativos e diferenciados desempatando a partida. 2x1 para A Compadecida.
O autor, Ariano Suassuna, jogava para o time de 1969, do qual fora roteirista e colaborara com as mais preciosas informações e impressões para o diretor George Jonas, mas, consultado pelo diretor da nova versão, Guel Arraes, sobre a inclusão de trechos de dois outros contos seus no roteiro da nova versão e concordando com a ideia, acabou jogando de bandido e fazendo gol contra. O acréscimo da parte da disputa pela filha do Coronel (de "Torturas de um Coração e a Pena da Lei") e da herança da avó da noiva com o cofrinho cheio de dinheiro (de "O Santo e a Porca), enriquecem a trama do remake e lhe garantem o gol de empate. 2x2. Ô, Seu Suassuna, o que é isso? Jogando contra o próprio patrimônio...
A cena do ataque dos cangaceiros no original é pura poesia visual. Uma fascinante coreografia com contornos circenses que põe o time de '69 em vantagem. 3x2.
O julgamento dos pecadores pelo diabo tem méritos nos dois. Se no anterior a sequência é crua, externa, no meio do sertão, explorando a paisagem agreste local, e com uma edição espetacular, no recente tem um belíssimo cenário estilizado de uma capela de romeiros com efeitos digitais primários mas que comunicam bem e dialogam com a estética do cordel nordestino. 4x3. O antigo continua em vantagem.
No entanto, ainda nesta sequência, a craque Fernanda Montenegro desequilibra. Embora encarando uma boa adversária, a então jovem Regina Duarte, com sua interpretação serena e altiva, ela eterniza uma Nossa Senhora doce e maternal para o cinema brasileiro. Golaço pra empatar de novo a peleia!!! 4x4.
Cabe à dupla de ataque, João Grilo e Chicó, decidir o jogo. Num perfeito entrosamento e tabelinhas perfeitas, a dupla da nova versão, Selton e Natchergale, é hilária e tem passagens memoráveis. A da trama da bexiga de sangue, a do plano para o duelo com os valentões, a trapaça ao cangaceiro Severino, o pedido de casamento da filha do Coronel, a da ressurreição de João Grilo, todas cenas de chorar de rir. Tabela perfeita, desde a própria área até o outro lado do campo, sem deixar a bola cair, enganando todos os adversários, o padeiro, o padre, o cabo, o valentão, os cangaceiros, driblando até o diabo, dando um chapéu no coronel, até João Grilo deixar limpinha pra Chicó só completar praticamente em cima da linha, com o bumbum. 4x5. Dizem que o gol foi tão bonito que Chicó levou a bola, a bandeirinha de escanteio, o apito do juiz e até a rede pra casa. Dizem que pendurou a rede na varanda e dorme nela toda noite. "Como é que só dois enganaram toda essa gente? Padre, bispo, padeiro, polícia, cangaceiro, coronel e até o diabo?" Bom... Não sei. Só sei que foi assim.
Cada um a seu modo transmite sua estética de sertão e aí é um gol para cada um. Se a Globo proporciona cenários bem acabados, locações bem escolhidas, materiais de qualidade, uma iluminação de primeira (1x0), a craque Lina Bo Bardi, encarregada da concepção artística do original, com sua noção diferenciada de espaço, desequilibra e deixa tudo igual nesse quesito. 1x1.
Nem a retaguarda da produção para a TV que pôs à disposição da equipe os melhores profissionais, estilistas e o guarda-roupa da maior emissora do país, impediu o gol de outro gênio, Francisco Brenant que com muita cor, alternâncias de tons, contrastes, elementos folclóricos, criou figurinos criativos e diferenciados desempatando a partida. 2x1 para A Compadecida.
O autor, Ariano Suassuna, jogava para o time de 1969, do qual fora roteirista e colaborara com as mais preciosas informações e impressões para o diretor George Jonas, mas, consultado pelo diretor da nova versão, Guel Arraes, sobre a inclusão de trechos de dois outros contos seus no roteiro da nova versão e concordando com a ideia, acabou jogando de bandido e fazendo gol contra. O acréscimo da parte da disputa pela filha do Coronel (de "Torturas de um Coração e a Pena da Lei") e da herança da avó da noiva com o cofrinho cheio de dinheiro (de "O Santo e a Porca), enriquecem a trama do remake e lhe garantem o gol de empate. 2x2. Ô, Seu Suassuna, o que é isso? Jogando contra o próprio patrimônio...
A cena do ataque dos cangaceiros no original é pura poesia visual. Uma fascinante coreografia com contornos circenses que põe o time de '69 em vantagem. 3x2.
O julgamento dos pecadores pelo diabo tem méritos nos dois. Se no anterior a sequência é crua, externa, no meio do sertão, explorando a paisagem agreste local, e com uma edição espetacular, no recente tem um belíssimo cenário estilizado de uma capela de romeiros com efeitos digitais primários mas que comunicam bem e dialogam com a estética do cordel nordestino. 4x3. O antigo continua em vantagem.
No entanto, ainda nesta sequência, a craque Fernanda Montenegro desequilibra. Embora encarando uma boa adversária, a então jovem Regina Duarte, com sua interpretação serena e altiva, ela eterniza uma Nossa Senhora doce e maternal para o cinema brasileiro. Golaço pra empatar de novo a peleia!!! 4x4.
Cabe à dupla de ataque, João Grilo e Chicó, decidir o jogo. Num perfeito entrosamento e tabelinhas perfeitas, a dupla da nova versão, Selton e Natchergale, é hilária e tem passagens memoráveis. A da trama da bexiga de sangue, a do plano para o duelo com os valentões, a trapaça ao cangaceiro Severino, o pedido de casamento da filha do Coronel, a da ressurreição de João Grilo, todas cenas de chorar de rir. Tabela perfeita, desde a própria área até o outro lado do campo, sem deixar a bola cair, enganando todos os adversários, o padeiro, o padre, o cabo, o valentão, os cangaceiros, driblando até o diabo, dando um chapéu no coronel, até João Grilo deixar limpinha pra Chicó só completar praticamente em cima da linha, com o bumbum. 4x5. Dizem que o gol foi tão bonito que Chicó levou a bola, a bandeirinha de escanteio, o apito do juiz e até a rede pra casa. Dizem que pendurou a rede na varanda e dorme nela toda noite. "Como é que só dois enganaram toda essa gente? Padre, bispo, padeiro, polícia, cangaceiro, coronel e até o diabo?" Bom... Não sei. Só sei que foi assim.
É, muita gente achou que era barbada, páreo corrido,
mas futebol (e cinema) não é assim.
Não tem jogo jogado.
Não é porque foi sucesso de público que a vitória tá garantida.
Foi suado, hein.
por Cly Reis