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terça-feira, 31 de agosto de 2010

"A Montanha dos Sete Abutres", de Billy Wilder (1951)







Esse negócio todo que está acontecendo no Chile de mineiros presos em uma mina, perfuração da rocha, longo tempo para o resgate e tudo que envolve a situação, inevitavelmente me traz à cabeça um ótimo filme e boa dica pra quem quiser conferir, chamado "A Montanha dos Sete Abutres", do genial Billy Wilder. Diretor consagrado por comédias como "Quanto mais Quente Melhor" e "Se Meu Apartamento Falasse", de vez em quando atacava no drama e igualmente acertava em cheio como no ótimo e premiadíssimo "Farrapo Humano", por exemplo. A "Montanha dos Sete Abutres" que não foi sucesso de público na época de seu lançamento, mostra o drama de um mineiro preso numa mina tida como amaldiçoada pelos índios, numa cidadezinha no Novo Mexico. Seu  resgate até seria trabalhoso porém simples, mas é dificultado pelo interesse de um jornalista recém chegado ao lugarejo, que vê naquilo a oportunidade para uma  grande matéria, um grande furo e um reimpulso na sua carreira já abalada por seu comportamento antiprofissional. Por meio de acordos, conchavos, subornos e ameaças convence interessados e autoridades a irem atrasando o processo de remoção de modo que o fato vá se tornando cada vez mais comovente para o público e Leo, o mineiro preso, uma espécie de mártir. Porém dentro da mina, sob pedras, Leo, vai sofrendo com as condições adversas, com o pó, a umidade e vê sua saúde prejudicada pela longa permanência lá, mas como mantém contato com Tatum, o jornalista inescrupuloso vivido maravilhosamente por Kirk Douglas, e o julga seu amigo, supõe que todos os esforços estejam sendo feitos para tirá-lo dali o mais rápido possível mas vai vendo o tempo passar esua situação ficar cada vez mais crítica, enquanto lá fora há acampamentos, vigílias e aglomerações em solidariedade a ele.
O jornalista Tatum com o mineiro
Leo preso entre as pedras
Uma aula de direção e um estímulo à reflexão sobre a ética humana e principalmente jornalística.
Imperdível!


FICHA TÉCNICA:
Direção: Billy Wilder
Roteiro: Walter Newman / Lesser Samuels / Billy Wilder
Preto e Branco
Duração: 111
País: USA
ELENCO:
Kirk Douglas: Charles "Chuck" Tatum
Jan Sterling: Lorraine Minosa
Robert Arthur: Herbie Cook
Porter Hall: Jacob Q. Boot
Frank Cady: sr. Federber
Richard Benedict: Leo Minosa
Ray Teal: xerife
Lewis Martin: McCardle
John Berkes: pai Minosa
Frances Dominguez: mãe Minosa


Cly Reis

cotidianas #45 - Favela



Numa vasta extensão
Onde não há plantação
Nem ninguém morando lá
Cada um pobre que passa por ali
Só pensa em construir ser lar
E quando o primeiro começa
Os outros, depressa, procuram marcar
Seu pedacinho de terra pra morar


E assim a região sofre modificação
Fica sendo chamada de nova aquarela
E aí que o lugar então passa a se chamar
Favela.

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Favela
(Padeirinho da Mangueira e Jorginho Pessanha)

Ouça:
Jards Macalé Favela

O Frango Atirador

segunda-feira, 30 de agosto de 2010

"Johnny Cash - Uma Biografia", de Reinhard Kleist - Ed. 8Inverso (2010)



Comprei ontem a biografia em quadrinhos de Johnny Cash. Obviamente, dada a recência da compra, não li ainda mas já guardo grande expectativa.
Mesmo tendo visto (o chato, óbvio  e previsível) "Johnny & June", e de já estar cansado de saber dos fatos mais significativos da vida do "Homem de Preto", é um grande barato ver agora uma biografia dessas, de um dos maiores nomes da história do rock e country, no formato de HQ.
Lembro ainda quando conheci o som do cara: meu irmão tinha referências sobre Cash de listas de melhores de todos os tempos, discos considerados clássicos, críticas exultantes e tudo mais, mas não havíamos ouvido nada dele ainda. Eu tinha um amigo que curtia muito o som daquela época; tinha tudo de Gene Vincent, Elvis, Jerry Lee e aquele pessoal todo; e foi que pedi a ele que gravasse pra mim, ainda em cassete, o que tivesse do cara. Disse-me que eu tivesse uma base inicial, ia gravar uma coletânea, mas que achava que eu não iria gostar muito porque, segundo ele, era 'muito repetitivo'. Fui então ouvir "Johnny Cash & the Tenesse Two - 55/58 Recordings-  The Sun Years" com aquele temor acerca do REPETITIVO e era simplesmente fantástico! O que ele chamava de repetição era, sim, ua marca forte e inconfundível, como só os grandes artistas conseguem imprimir. Não à toa representa tudo isso na história do rock.
A propósito ainda de Johnny Cash, a circunstância na qual substituí aquela fita cassete gravada pelo meu amigo pelo CD foi bem interessante e agradável: Fui à casa de uma mulher, passamos a noite juntos e 'tudo mais' e pela manhã, dando uma olhada nos CD's dela, vendo se havia alguma coisa interessante ali, topo, surpreendenetemente com Johnny Cash. Tiro da fileira, fico impressionado, exclamo e ela diz que nem curtia muito e que eu podia ficar com o CD pra mim. Uau! Noitada completa: vou pra casa dum mulheraço daquele, transamos a noite toda e ainda ganho de bônus um CD do Johnny Cash. Não podia ser melhor.


"Leite Derramado" de Chico Buarque - Companhia das Letras (2009)



Definitivamente a carreira literária de Chico Buarque está consolidada com êxito e qualidade. Mesmo já tendo sido lançado há quase um ano, somente agora tirei da estante para ler seu último livro, “Leite Derramado”, e este é ainda melhor que o ótimo “Budapeste”. Naquele anterior, Chico ainda tratava de brincar com as palavras, com o tempo, com o espaço, num jogo quase musical, mas neste, constitui verdadeiramente um romance de escritor, deixando um pouco de lado o compositor, sem, contudo, perder sua poesia.
“Leite Derramado” é uma saga de uma tradicional família da aristocracia brasileira contada através das memórias de um velho moribundo, mas de uma maneira muito breve e sucinta ao contrário da maior parte das obras do gênero que se estendem em épocas, personagens e contextualizações. Não que um “O Tempo e o Vento”, por exemplo, seja chato por conta disso, mas dentro da proposta, do ritmo pretendido, das características dos personagens, acaba sendo meritória esta objetividade. O barato é que como tratam-se de lembranças de um ancião, sua trajetória e de sua família vão sendo montadas com uma proposital desordem, conduzidas pela ausência de linearidade das memórias do velho; remontando momentos do Brasil e contextualizando as situações no tempo, sem uma ordem cronológica correta.
Com este recurso, de contar a história em primeira pessoa pela voz de um centenário supostamente semi-senil, Chico ao mesmo tempo que nos dá, nos tira informações. Por conta da memória fraca, do estado físico, da fraqueza, do sono ou dos remédios, o velho Eulálio Assumpção, enquanto relata ora a enfermeiras, ora à filha que o visita, ou a talvez ninguém; acaba ou se repetindo cansativamente, ou omitindo detalhes ou mesmo mentindo em seus longos monólogos. Nisso magicamente, um fato que é contado num capítulo é desmentido em outro como se o velho tentasse enganar a si mesmo ou inventar uma outra realidade; fatos são minimizados mas logo acabam-se revelando extremamente relevantes adiante; idéias são repetidas como se fossem apenas esclerose de velho, mas pela reafirmação mostram-se marcas profundas naquela vida; e personagens vão ganhando força e expressão aos poucos, a ponto de se tornarem quase míticos como a esposa Matilde, um espécie de Capitu-Lucíola-Gabriela, que desde já inscreve-se entre as grandes personagens femininas da literatura brasileira.
Sinceramente, eu ainda tinha minhas reservas quanto ao Chico escritor. Não por não ter gostado do que já tinha feito – muito antes pelo contrário - mas por achar que estava acertando, sim, porém sem se arriscar muito e que seus maiores méritos como romancista vinham muito dos recursos dos quais já se utilizava freqüentemente como letrista. Mas não. Eu estava errado. O processo evolutivo era gradual mas evidente e depois de uma roda-viva como a de “Budapeste”, é num livro sem ação, passado num leito de hospital, num romance sólido e seguro, sem grandes arroubos criativos, mas com uma admirável estrutura, que Chico Buarque se inscreve decididamente, na minha opinião, entre os grandes escritores da literatura brasileira contemporânea.



Cly Reis