fotos: Camilo Cassoli
sábado, 21 de março de 2015
A Bombacha, de Gengis Khan a Criméia, da Bahia até Paris
A invasão árabe na península ibérica e principalmente na maragateria, seria uma outra versão para a vinda da vestimenta a nossa América do Sul. Pois muitos dos costumes e indumentárias dos gaúchos foram trazidos pelos imigrantes destas regiões espanholas que habitaram Uruguai, Argentina e fronteira do Rio Grande do Sul, inclusive o termo bombacha provém do espanhol, “bombacho” ou “vanvacho” que significa "calça larga". Quando os mouros ou árabes foram expulsos pelos espanhóis, a nobreza resolveu banir tudo que podia ser conotado como imposição cultural de seus invasores, a vestimenta sumiu da península, assim como muitos de seus habitantes que imigraram para outros países.
Em 1803 Napoleão resolveu invadir o Egito, e logo sofreu duras derrotas em sua cavalaria que era considerada uma arma letal, o exército inimigo todo composto por mouros era mais ágil em combate, suas cargas rápidas e com longas “cimitarras” faziam tremer os soldados de Bonaparte, mas como grande estrategista que era, ele observou os cavalarianos mouros e descobriu que o erro estava em seus soldados que usavam uniformes muito apertados ao corpo o que os deixava sem agilidade frente aos árabes e suas largas Bombachas, estas davam uma destreza sem tamanho ao cavaleiro que levava sempre vantagem nas batalhas. Após retornar a Europa, Napoleão exigiu que toda sua cavalaria e guarda de honra passasse a usar a “Bombacha Moura”, que era também utilizada usada por turcos, afegãos, cossacos, indianos e russos.
A Guerra da Criméia foi uma disputa total por mercados e uma contenção a expansão do Império Russo pelos ingleses, franceses, turcos e aliados na região dos Balcãs, esta região tinha uma saída comercial para o Mar Negro e Mediterrâneo. Os ingleses donos de uma grande indústria têxtil ficaram com a responsabilidade do confeccionar os uniformes para os turcos seus aliados na guerra, uma grande quantia foi encomendada, os russos também usavam o mesmo tipo de uniforme militar e o que facilitou com que muitos espiões fossem introduzidos atrás das linhas inimigas com os bloomers que eram usados em ambos os lados, nome dado pelos ingleses a esta roupa em homenagem a uma feminista americana que usava calças largas, os árabes a chamavam de “Sarawil”. Em 30 de março de 1856 a guerra terminava com um tratado de paz que nunca foi bem aceito por ambos os lados. As tropas das colônias francesas e os zuavos que eram os soldados que mais utilizavam o uniforme, tiveram importante papel nos combates mas os ingleses que previam uma larga duração iriam arcar com prejuízos enormes em sua indústria de roupas, pois com o fim das hostilidades muitos mercados fecharam e a saída para o excedente era uma só, a America do Sul.
A guerra da Criméia tinha desgastado economicamente a Inglaterra e trancado algumas de suas saídas comerciais e na América do Sul um pequeno país de língua Guarany e espanhola começava a surgir como uma grande potência independente, ameaçando aquilo que podia ser um novo mercado. Além das sobras de uniformes da guerra que seriam vendidas aos países do rio da prata, a Inglaterra tinha planos futuros bem mais belicosos, logo sua conspiração comercial ia colocar uma Tríplice Aliança em Guerra contra uns país que era um modelo econômico mundial e mais uma vez a bombacha estaria lá peleando, desta vez em um genocídio a serviço do reino inglês e outros interesses locais.
Por volta de 1860 navios ingleses chegavam carregados de roupas e outros materiais vendidos a América pelo rio da prata, o gaúcho ainda utilizava o chiripá como vestimenta e nas lidas de campo, os habitantes mais ricos tinham por costume usar roupas copiadas da corte europeia, logo a bombacha seria comum entre ambos e substituiria o chiripá, muito por facilitar a montaria no cavalo, mas ainda levaria algum tempo. Em relação à data da chegada do vestuário alguns historiadores divergem, há relatos de seu uso no prata desde 1842, porém sua origem árabe não é contestada. A primeira fábrica de Bombachas foi na Argentina em 1870, de um vasco chamado Juan Etchegaray que também fazia alpargatas e logo também ia confeccionar estes artigos para a Guerra do Paraguay.
Algum tempo após a chegada da indumentária, exatamente em 1864 o Paraguay invadiu o Mato Grosso, os exércitos da Argentina, Uruguay e Brasil apoiados secretamente pela Inglaterra se uniriam no combate contra a nação Guarany. Diversas unidades militares foram criadas para ir à guerra, homens de todas as idades e nacionalidades serviam como voluntários, muitos vindos do campo e da cidade, eles se incorporariam a luta por seus patrões, coronéis e caudilhos militares, dentre todos estes, um grupo de negros livres e alforriados baianos seriam os primeiros a usar de forma militar a Bombacha na América do Sul. O regimento era composto por quatro unidades de soldados negros e ficaria conhecido como Zuavo Bahiano, era uma homenagem aos combatentes da Criméia. A peça de roupa depois também seria utilizada nas Montoneras Argentinas, passando pelas lutas entre Blancos e Colorados no Uruguay, até a Revolução Federalista em 1893 e a de 1923 no Rio Grande do Sul.
Um dos maiores relatos sobre o uso desta vestimenta na Guerra do Paraguay foi deixado pelo General Dionisio Cerqueira em seu diário de campo; "Fui visitar os acampamentos dos recém chegados e encontrei amigos, colegas de colégio, que vinham partilhar nossa vida honrosa. Havia entre os voluntários, um corpo de uniforme estranho; - "largas bombachas vermelhas prêsas por polainas que chegavam à curva da perna, jaqueta azul, aberta, com bordados de trança amarela, guarda-peito do mesmo pano, o pescoço limpo sem colarinho nem gravata e um fêz na cabeça. Eram todos negros e chamavam - Zuavos baianos. Os oficiais também eram negros".
Após o fim da Guerra e com a vitória da tríplice aliança e a destruição genocida do povo Paraguayo, as nações envolvidas que tiveram contatos entre si trouxeram suas influências, uma delas foi a bombacha que acabou sendo aderida dos Zuavos Bahianos pelas tropas de cavalarias da tríplice, tanto na guerra como depois dela. Ao voltarem as suas pátrias o homem do campo passou a utilizar definitivamente a “peça” em substituição ao Chiripá, naquela época os ricos estancieiros não aceitavam esta “moda”, pois ainda era considerada roupa de galpão ou de gaúcho, falando no modo pejorativo.
O certo que é bombacha cruzou o tempo, passou por guerras, foi mercadoria, viu continentes e seus homens sangrarem e ao mesmo tempo compartilharem uma cuida de mate ou um jogo de osso, uma carreira, foi vestimenta de baile e de galpão, teve a difícil missão de vestir por uma época este personagem de patriadas, payadas, historias e estórias chamado gaúcho platino. Em Paris há um monumento aos zuavos na Praça Alma, nome de uma batalha vencida pelos berberes e ingleses na Criméia, por ironia do destino a Inglesa mais famosa do mundo morreu ali perto, a Princesa Diana. A estátua mede cerca de 6 metros de altura e fica embaixo da ponte, muitas vezes imperceptível ao olho de quem passa, nem para foto turística ela serve, de cima desta ponte temos uma visão garbosa da Torre Eiffel, mas o monumento nem aparece, fica ali escondido, meio sorrateiro. Atualmente os franceses a utilizam somente para medir o volume de água do Rio Sena, esta foi a forma mais original encontrada por este povo para homenagear e agradecer a seus colonizados e aos serviços prestados por eles. Que não façamos o mesmo com nosso gaúcho.sexta-feira, 20 de março de 2015
The Rolling Stones - "Aftermath" (1966)
“Foi a primeira vez que
compusemos um disco inteiro”
compusemos um disco inteiro”
Mick Jagger
Pela primeira vez os Rolling Stones
gravavam um álbum todo com composições próprias e, diga-se de
passagem, se restava alguma dúvida, confirmavam a que vinham.
“Aftermath” tem a marca da qualidade de composição Jagger e
Richards que viria a se eternizar como uma das parcerias mais
marcantes e criativas da história da música. “Aftermath” é
vigoroso, é abusado, é ousado, é rock'n roll puro sem deixar de
lado, obviamente, aquela veia blueseira tradicional do grupo. Além
disso, o interesse recente de Brian Jones em instrumentos exóticos é responsável
por um enriquecimento musical e ampliação dos horizontes e
recursos da banda, o que se mostra logo de cara na excelente “Mother Little Helper” que inaugura o disco.
Mesmo mais simples, menos elaborada,
adoro “Stupid Girl” que vem na sequência, pela energia, pela
pegada bem rock'n roll mesmo. A bela “Lady Jane”, uma balada,
segundo o próprio Richards, “elizabeteana”, e que segundo meu parceiro de blog, Eduardo Wolff é a música
mais Beatles dos Stones é extremamente delicada, bem arranjada, e mais uma das que traz com êxito a marca dos experimentos instrumentais de Jones.
O vocal por vezes rasgado e o indisfarçado machismo da excepcional “Under My Tumb” é outro dos pontos altos
não apenas do disco como da carreira da banda ("Agora sou eu quem determina, o jeito que ela fala quando é chamada atenção / Sou eu quem determina, as coisas mudaram, ela está sob meu polegar/ Está tudo bem").
A extensa, experimental “Goin' Home” com seus 11 minutos, cheia de improvisos e imprevistos, é um marco na quebra de duração padrão das canções em álbuns de rock. Literalmente uma GRANDE música.
A extensa, experimental “Goin' Home” com seus 11 minutos, cheia de improvisos e imprevistos, é um marco na quebra de duração padrão das canções em álbuns de rock. Literalmente uma GRANDE música.
“High and Dry” com sua harmônica marcante, o vocal indolente de “It's
Not Easy”; "Flight 505" com sua introdução matadora de piano; e a ótima “Out of Time”, também colaboram na grandiosidade de “Aftermath. A porpósito de "Out of Time", ela, bem como "Mother's Little Helper" e "Take It Or Leave It" não aparecem na versão americana do álbum, mas que em compensação tem "Paint It Blak logo de abertura, um dos melhores exemplos de uso de cítara por parte de Brian Jones, num rock agressivo e matador cheio de influências indianas e orientais, e fecha com a já citada "Goin' Home', um final muito mais grandioso e adequado do que a boa mas comunzinha "What to Do" que encerra a edição britânica.
Enfim, os Rolling Stones caminhavam por suas próprias pernas, amadureciam seu som, agregavam novas possibilidades musicais chegavam, digamos assim, à maioridade, e se firmavam naquele momento, verdadeiramente, como uma grande banda. O resultado: um ÁLBUM FUNDAMENTAL.
Enfim, os Rolling Stones caminhavam por suas próprias pernas, amadureciam seu som, agregavam novas possibilidades musicais chegavam, digamos assim, à maioridade, e se firmavam naquele momento, verdadeiramente, como uma grande banda. O resultado: um ÁLBUM FUNDAMENTAL.
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FAIXAS:
- "Mother's Little Helper" – 2:45
- "Stupid Girl" – 2:56
- "Lady Jane" – 3:08
- "Under My Thumb" – 3:41
- "Doncha Bother Me" – 2:41
- "Goin' Home" – 11:13
- "Flight 505" – 3:27
- "High and Dry" – 3:08
- "Out of Time" – 5:37
- "It's Not Easy" – 2:56
- "I Am Waiting" – 3:11
- "Take It or Leave It" – 2:47
- "Think" – 3:09
- "What to Do" – 2:32
*a edição americana trazia "Paint It Black" e não contava com
"Out Of Time", "Mother's Little Helper e "Take It, Or Leave It"
"Out Of Time", "Mother's Little Helper e "Take It, Or Leave It"
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Ouça:
Cly Reis
quinta-feira, 19 de março de 2015
cotidianas #357 - Eu Não Comi Isso Aí
Um bêbado caminha à noite pela rua trocando os pés, andando como pode.
O porre foi violento. Mal consegue se manter em pé.
Acometido por um repentino e inevitável mal estar percebe que tem que vomitar imediatamente.
Senta então na beira de uma calçada, no meio-fio, e ali mesmo despeja num golfejo tudo o que havia bebido e comido nas últimas horas. Em estado deplorável, o bêbado praticamente desfalece depois da regurgitação, apagando por alguns minutos. Nesse meio tempo, um cachorrinho de rua, aparece e começa a comer (eca!) seu vômito.
Voltando brevemente de seu estado de inconsciência, o bêbado abre os olhos, vê aquele bichinho ali catando restos na seu excreção gástrica e, mesmo desarticuladamente, enrolando a língua, não consegue deixar de exclamar, para si mesmo:
- Eu lembro de ter bebido e comido muita coisa, mas não lembro de ter comido esse bicho aí, não.
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