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terça-feira, 15 de maio de 2012

Camisa de Vênus - "Viva" (1986)


"Bota pra fudê!"




Ele é uma espécie de "Live at Leeds" brasileiro, um “Live at Apollo” tupiniquim, um “Janis in Concert” em Santos. Possivelmente seja o grande disco ao vivo nacional de todos os tempos. Sei que tem o “Sinal Fechado” do Chico, o “Barra 69” do Gil e do Caetano, o “Rádio Pirata Ao Vivo” do RPM, “O Tempo Não Pára” do Cazuza, mas nenhum deles tem essa energia contagiante, a integração com o público, a  anarquia do “Viva”do Camisa de Vênus.
Por um irônico acaso (será?), gravado no Dia Internacional da Mulher daquele 1986, o show é um festival de deselegâncias e baixaria conduzidos com uma irreverência e bom-humor tais por Marcelo Nova que ficaria impossível mesmo para a mais ferrenha das feministas ficar chateada com aqueles caras ali mandando bater com um pau numa mulher.
O discurso antes de tocarem a música “Sílvia”, lembrando da data comemorada, é o que melhor ilustra essa sacanagem constante no show: primeiro, Nova se defende da acusação de machista, elogia, tece loas, rasga seda pelas mulheres, e depois, ao final, como que cobrando pela gentileza, manda a mulherada abaixar as calcinhas. Dá pra levar a sério? Não dá. Tanto que o público, inclusive a parte feminina dele, responde ao refrão “Ô, Sílvia”, puxado por Nova, com o coro pejorativo de “piranha”.
“Bete Morreu”, um punk rock acelerado e pegado é outra que não poupa a mulherada com uma letra pesada e agressiva sobre o estupro e morte uma dondoca da sociedade. Por coisas como essa e pela série de palavrões desferidos desmedidamente é que as execuções públicas de praticamente todas as músicas do álbum foram proibidas, exceção feita a “Homem Forte” canção lenta, séria e cheia de dramaticidade, e à boa “Rotina”.
Mas mesmo que não fosse pelos temas fortes, pela malícia, pelo ar desafiador, pelo tom de protesto bastaria a letra de “My Way”, adaptação do clássico da música mundial outrora imortalizado na voz de Sinatra, para justificar o desejo da Censura de ter o Camisa de Vênus longe dos ouvidos do público. A versão em português criada por Marcelo Nova é um glorioso e fantástico festival de palavrões, sacanagem e putaria do início ao fim desfilado sobre uma melodia simples, compassada, com o público marcando a batida com palmas. Barbaridades como “caminhando de norte a sul eu vi muita gente tomar no cu” e “Eu me fodi mas resisti” são algumas das pérolas que podem ser encontradas nessa adaptação que por certo faz seus autores darem voltas nos respectivos túmulos até hoje.
“Hoje” e “Rotina”, a primeira mais punk que a outra, sonoramente falando, são como supõe os nomes, dois retratos da vida cotidiana, ambos expostos com a habitual acidez, sarcasmo e ironia da banda; e "Solução Final", com letra tipicamente punk, atirando pra todos os lados, desde Guerra Fria, Direitos Humanos até à Coca-Cola, é uma canção apenas interessante, nada mais que isso.
Apresentando uma letra interessantíssima e inteligente que passeia pela História atribuindo pensamentos conflitantes a personagens como Marx, Hitler, Jesus e Freud (“Freud sacou um dia que ele podia pirar”), “Metástase”, é uma daquelas do que se pode considerar a linha séria da banda, novamente com participação superbacana do público, acompanhando a batida forte e marcada com palmas e o tradicional ‘bota pra fudê”, grito que transformara-se numa espécie de marca registrada do Camisinha nos shows.
E com muitos “bota pra fudê” é que a banda é recebida na primeira faixa, na época o grande sucesso da banda, o punk irreverente “Eu Não Matei Joana D’Arc”, numa versão eletrizante, vibrante, pegada, com a galera praticamente dividindo os vocais com o vocalista Marcelo Nova e entoando o refrão num uníssono arrepiante.
O encerramento do álbum não podia ser mais adequado: “O Adventista”, a derradeira faixa, é um daqueles finais históricos. No que Marcelo Nova anunciava como sendo “O Hino da Nova República”, com letra de fino sarcasmo em que ‘se esforça’ em botar fé em diversas coisas não muito críveis, promissoras ou recomendáveis, chegando à conclusão pessimista de que tudo não tinha mais jeito mesmo, e tascando então, no finalzinho, um “Pai Nosso” alternando cada frase da oração com o refrão “não vai haver amor nesse mundo nunca mais” deixado a cargo do público. Êxtase total! Final apoteótico!
Este é outro daqueles casos clássicos em que é altamente recomendável que se tenha o formato LP. Embora o CD tenha faixas a mais, estas não são ao vivo. São simplesmente faixas bônus de estúdio, o que não paga o fato de perder uma das boas músicas do show, “Rotina” que curiosamente não aparece na mídia digital. Além disso, e não menos importante, a versão CD não tem o tal discurso machista no início de “Silvia” e muda a ordem das músicas, o que faz toda a diferença em determinados casos como a inversão da seqüência “Sílvia” com “Bete Morreu”; o fato de “My Way” no disco abrir o lado B; e a passagem de “Metástase” para “O Adventista” que no CD, nem sequer é a última das ao vivo. Ou seja, se tiver toca-discos em casa, vale a pena dar uma catada no LP por aí pelas feiras e brechós da vida.
Tipo de disco que dá vontade de ver a banda ao vivo. Sempre quis depois de ter ouvido o “Viva” mas pensei que tivesse perdido a oportunidade para sempre quando a banda anunciou sua primeira separação, porém anos depois, quando anunciaram uma reunião (caça-níqueis, diga-se de passagem) para shows, não desperdicei a chance. Assisti finalmente a um show dos caras no Auditório Araújo Vianna em Porto Alegre, pelo prazer de presenciar toda aquela vibração, curtir aquele punk irreverente, mas muito também pelo gosto de gritar, ali, ao vivo, junto com a galera “Ô, Sílvia piranha”, “não vai haver amor nessa porra nunca mais”, e claro, como não poderia deixar de ser, o “bota pra fudê”.
BOTA PRA FUDÊ, Camisa!
BOTA PRA FUDÊ!

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FAIXAS (ordem do LP):
 Lado A
1. "Eu Não Matei Joana D'Arc" (Gustavo Mullem / Marcelo Nova)
2. "Hoje" (Karl Hummel / Marcelo Nova)
3. "Homem Forte" (Karl Hummel / Marcelo Nova)
4. "Solução Final" (Karl Hummel / Marcelo Nova)
5. "Rotina" (Karl Hummel/ Gustavo Mullem / Marcelo Nova)


Lado B
1. "My Way" (Anka / François / Revaux / Thimbault / versão: Marcelo Nova)
2. "Bete Morreu" (Marcelo Nova / Robério Santana)
3. "Silvia" (Marcelo Nova / Robério Santana)
4. "Metástase" (Karl Hummel / Marcelo Nova)
5. "O Adventista" (Karl Hummel / Marcelo Nova) 

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Ouça:


3 comentários:

  1. Esse download do VIVA é do CD ou do Album (LP)?
    O do CD é todo cortado e ridiculamente censurado (principalmente na música SILVIA).

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    Respostas
    1. Infelizmente é do CD, Ruy. Não encontrei download disponível do álbum na internet.
      até posso providenciar para vc, gravando o meu LP em Mp3, mas vai demorar um pouquinho.

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