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sábado, 12 de novembro de 2016

Paulinho da Viola - “Memórias Chorando” (1976)


“’Chorando’ é um disco sonhado
por mim há muito tempo [...] 
Este trabalho não é propriamente
um disco de minhas memórias,
mas uma primeira experiência
com o gênero musical que mais me comove
dentro da nossa música popular.”
Paulinho da Viola



Paulinho da Viola é daqueles artistas que têm em sua base elementos da identidade brasileira. Filho de músico, Cesar Faria, cresceu num ambiente naturalmente musical. Na sua infância em Botafogo, bairro tradicional da zona sul do Rio de Janeiro, teve contado constante com a música através do pai, violonista integrante do conjunto Época de Ouro. Nos ensaios familiares do grupo, Paulinho conheceu os ídolos Jacob do Bandolim e Pixinguinha, entre muitos outros músicos que se reuniam para fazer choro e eventualmente cantar valsas e sambas de diferentes épocas. Mais tarde, antes mesmo de se tornar o cantor e compositor conhecido por clássicos como “Foi um rio que passou em minha vida” e “Para ver as meninas”, Paulinho, na segunda metade dos anos 60, já encabeçava um retorno triunfante do mesmo Época de Ouro, então relegado pela indústria fonográfica diante das nascentes música pop e MPB. Pois ele sempre soube valorizar a verdadeira arte, independentemente do seu período. Afinal, não lhe existe essa fronteira entre antigo e novo.

Assim, em 1976, dentro do mesmo projeto em que buscava retrazer a si sentidos do passado, deu-se a ideia de um disco inteiro de temas instrumentais de choro, um dos estilos formadores de Paulinho da Viola, tanto no modo de compor quanto de tocar violão ou cavaquinho. “Memórias Chorando”, um velho sonho do compositor, traz esse lado “chorão” de Paulinho, que regrava clássicos, redescobre preciosidades e, claro, cria as suas próprias. Além de temas seus, Paulinho vai aos grandes mestres, não se limitando aos baluartes Pixinguinha e Benedito Lacerda, mas apresentando a face desconhecida para muitos de Ary Barroso ao regravar-lhe “Chorando”, uma obra praticamente inédita.

Ele começa com o seu preferido, o genial Pixinguinha, em “Cinco Companheiros”, em que destaca o “equilíbrio formal” da melodia, “poucas vezes alcançado por um compositor num choro”, comenta. Paulinho, ao cavaquinho, tem o apoio de um grande time de músicos, aliás, um fator importante para a riqueza tanto de “Chorando” quanto de “Cantando”. Chiquinho, irmão mais novo de Paulinho, excelente no bandolim; Cristóvão Bastos, um dos maiores pianistas populares do Brasil e exímio arranjador ainda antes da Black Rio; o pai César Faria, incomparável acompanhador, perfeito nas harmonizações; Dininho, filho do histórico Dino Sete Cordas e responsável pelo baixo elétrico; Jorginho, excepcional pandeirista, irmão de Dino e tio do Dininho; Hércules Pereira, na bateria; e Chaplin, na percussão. Isso sem contar com o maestro Copinha na flauta e saxofone, e do parceiro inseparável Elton Medeiros manuseando diversos instrumentos de percussão.

A faixa-título, assim como no primeiro volume, é o segundo número do disco. Porém, desta vez não se trata de uma composição própria, mas sim do raro choro de Ary Barroso resgatado da memória afetiva de Paulinho. Trata-se de um tema gravado nos anos 50 em que seu pai, Cesar, fora o arranjador. Nela, Cristóvão abre solando por quase 2 minutos, aproximando-se do valseado que o próprio Ary forjara ao piano na versão original. Já na segunda metade, entra o restante da banda, e aí é o cavaquinho de Paulinho que domina. Excelente violonista que é, Paulinho mostra igualmente seu domínio do limitado mas formoso cavaquinho, instrumento dificílimo para o trabalho de “centro” e muito mais ainda para o de solo. “O cavaquinho ‘solado’ não é muito fácil devido aos poucos recursos que oferece”, relata Paulinho no detalhado texto do encarte. “A palhetada, tanto para solar quanto para centrar, é de muita importância, e seu completo desenvolvimento requer, às vezes, anos de experiência”.
Arte do encarte no desenho de Elifas Andreato.

A flauta de Copinha passeia pelos acordes animados de outra de Pixinguinha, “Cuidado, Colega”, compositor que também se faz presente no álbum na elegante “Cochichando”, em que o cavaquinho faz duo com a flauta, e a maxixada “Segura Ele”, outra, assim como “Cuidado...”, parceria com Benedito Lacerda. Todas canções de grande familiaridade aos ouvidos brasileiros, pois ouvi-las é dar-se conta do quanto seus acordes são parte do acervo imaterial da cultura do país.

Paulinho, entretanto, não deixa por menos quando se trata de chorar. Sabedor do desafio que se impôs, ele cria temas e recupera outros de seu repertório igualmente dignos de parearem com tais clássicos. ”Romanceando” é uma delas. Dedicado a seu pai, é um choro cadenciado de mais de 10 anos que Paulinho resgatava àquela altura. Ele e seu Cesar executam um dos mais lindos duos de violões da música brasileira de todos os tempos, em uma harmonia musical apenas explicável pelo inquestionável laço de afeto. Cristóvão e Copinha, este último ao sax agora, não ficam para trás quando, na segunda metade, exercitam solos igualmente lúcidos e sentimentais. Em clima parecido, a suplicante “Oração de Outono” é daquelas cujo arranjo faz a ponte entre chorinho e música erudita, ainda mais pelo som solene do fagote de Airton Barbosa.

Em homenagem à grande “violeira” Rosinha de Valença, com quem Paulinho tocara tal tema em parceria, “Rosinha, Essa Menina” traz ao choro um ar da guitarra nordestina, em que o solo se vale das notas mais agudas. Também em ritmo alegre, “Beliscando” retraz a atmosfera dos velhos chorões alegres e espevitados como os de Ernesto Nazareth e Chiquinha Gonzaga.

“Choro de Memórias”, de estrutura formal rigorosa, é um verdadeiro exercício da modulação própria que tem o gênero, que vai da tonalidade maior à menor e vice-versa, passeando por entre ambas em seu decorrer. O encerramento do disco é romântico e intenso, como se Chopin se visse um chorista, cabendo a Cristóvão dedilhar-lhe inteira com carinho e sensibilidade. Com esta, escrita em homenagem a Jacob do Bandolim e não coincidentemente intitulada “Inesquecível”, Paulinho dá a mensagem de que jamais o choro se perderá da memória nesse vasto cancioneiro que a música do Brasil carrega como poucas nações culturais. Não se depender dele.
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FAIXAS:
1. Cinco Companheiros (Pixinguinha) - 3:16
2. Chorando (Ary Barroso) - 4:16
3. Cuidado, Colega (Benedito Lacerda, Pixinguinha) - 2:55
4. Romanceando - 4:37
5. Cochichando (Alberto Ribeiro, João De Barro, Pixinguinha) - 3:36
6. Rosinha, Essa Menina - 2:47
7. Oração de Outono - 3:55
8. Beliscando - 3:05
9. Segura Ele (Benedito Lacerda, Pixinguinha) - 2:02
10. Choro de Memórias - 2:12
11. Inesquecível - 4:10

todas composições de Paulinho da Viola, exceto indicadas.

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Ouça: 
Paulinho da Viola Memórias Chorando



por Daniel Rodrigues



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