quarta-feira, 12 de janeiro de 2011
cotidianas #64 - Quadrilha
QUADRILHA
João amava Teresa que amava Raimundo
que amava Maria que amava Joaquim que amava Lili
que não amava ninguém.
João foi para os Estados Unidos, Teresa para o convento,
Raimundo morreu de desastre, Maria ficou para tia,
Joaquim suicidou-se e Lili casou com J. Pinto Fernandes
que não tinha entrado na história.
Carlos Drummond de Andrade
terça-feira, 11 de janeiro de 2011
sexta-feira, 7 de janeiro de 2011
David Bowie - "Low" (1977)
“David passava por um período de grande depressão."
Tony Visconti, produtor
Em época de lançamento de biografia do cara, aí vai mais um Bowie fundamental pra discoteca:
"Low", álbum de 1977, o primeiro do que se costuma chamar de 'fase berlinesne', compondo com "Lodger, Heroes" e "Stage" uma curiosa "trilogia" de 4 álbuns onde "Stage" funciona como releitura ao vivo dos dois primeiros.
"Low" é um daqueles álbuns que foi feitos para ser LP, mesmo. Disco com lado A e lado B literalmente. Duas coisas completamente diferentes: o primeiro, todo cheio daquele pop-rock brilhante e sofisticado que só David Bowie sabe fazer, com canções bem objetivas, curtas, soltas, ritmadas, a maioria delas cantadas, mas com destaque especial para a instrumental que abre o disco "Speed of Life". Destaque também para a excelente "Sound and Vision" e para o pop gostoso de "Be My Wife". Só que virando o disco, a atmosfera é completamente outra. Músicas densas, introspectivas, soturnas, longas, quase todas instrumentais, cheias de experimentalismos e sonoridades estranhas, lembrando muito os trabalhos solo do colaborador e mentor Brian Eno e a fase inicial do Kraftwerk, banda que Bowie tinha grande admiração. Destaque para "Warszawa", minha preferida do lado 2.
Em comum, os dois momentos deste trabalho tem o tratamento fino e detalhado da produção, que é creditada a Tony Visconti e Bowie, mas que tem inegavelemente o dedo de Brian Eno; além de uma estranha e incrível coerência musical que fazem de um álbum como este com faces tão distintas, uma obra que consegue manter uma genial e singular unidade mesmo com características tão antagônicas.
Neste Bowie consegui se superar superou e não foi camaleão apenas de uma década pra outra, de um disco para o outro como estamos acostumados a ver. Foi mutante de um lado para o outro do mesmo disco. Em parte resultado de seus problemas psicológicos da época, do uso de drogas, da dificuldade de compor letras naquele momento, mas de tudo isso tirar um disco como este, é só para um David Bowie.
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FAIXAS:
Lado A- "Speed of Life" – 2:46
- "Breaking Glass" (Bowie, Dennis Davis, George Murray) – 1:52
- "What in the World" – 2:23
- "Sound and Vision" – 3:05
- "Always Crashing in the Same Car" – 3:33
- "Be My Wife" – 2:58
- "A New Career in a New Town" – 2:53
- "Warszawa" (Bowie, Brian Eno) – 6:23
- "Art Decade" – 3:46
- "Weeping Wall" – 3:28
- "Subterraneans" – 5:39
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Ouça:
David Bowie Low
Cly Reis
quarta-feira, 5 de janeiro de 2011
cotidianas #63 - Meu Merci no seu Beaucoup
Baudelaire, Truffaut, Bizet, Sartre, Rodin, Renoir, Godard, Lumière, Degas, Le Corbusier... Aquilo sim é que era cultura! Dona Suzana orgulhava-se de ter salvo os filhos da cultura brasileira, se é que se podia-se chamar aquilo de cultura, levando-os para morar em Paris desde pequenos. Lá estudaram nos melhores colégios que suas limitadas economias de funcionária pública aposentada puderam pagar, mas a pior sala de aula rural francesa era melhor que qualquer escola brasileira, a seu ver.
Permaneceu lá por 10 anos favorecendo tudo que pudesse representar acréscimo e crescimento cultural para suas joias máximas: os filhos. Mas agora já crescidos, quase gente, devidamente instruídos podiam retornar ao Brasil; fluentíssimos na língua de Victor Hugo, devidamente cultos e blindados contra tudo o que pudesse vir do povinho de seu país natal. A menina , Adelle, agora aliás uma moça bonita de 23 anos, adquiriu em sua vida francesa o mesmo nariz empinado da mãe e julgava-se uma espécie de rainha europeia entre selvagens. Michel, o filho, por sua vez, mesmo tendo saído do país mais novo, aos 9 anos, teoricamente mais propenso a influências, não assumiu de maneira tão veemente o caráter europeísta. Era legal; adorava Paris, o Louvre, a Torre, o estilo, mas achava que cada um dá suas contribuições ao mundo à sua maneira e particularmente não guardava a mesma aversão que a mãe ao país que nascera.
Já no Brasil, instalaram-se na antiga casa da família que ficara com parentes durante o tempo que estiveram fora. A casa era grande, maior do que Dona Suzana lembrava, o que a obrigava a contrtar uma empregada, pois já não era mais tão nova para executar os serviços domésticos e além do mais, brasileiros tinham que servir pra alguma coisa, então, que fosse pelo menos para isso.
Chamaram uma moça chamada Edilene, conhecida de um primo. Era gente de confiança e, lá no fundo, era até bem simpatiquinha. Estranhava mesmo era a proximidade do filho com a empregadinha pretinha. Volta e meia os via conversando. "O que é que um menino como o meu, cursado em Paris, com boa formação, com cultura fina, frequentador dos melhores museus, apreciador das artes, tem pra conversar com uma... uma... Deixa pra lá". Certa vez viu que a garota trouxera um CD para o filho. "Ouve aí. Tu vai gostar". Imagina se ele vai gostar dessas músicas pobres. Nem sequer vai ouvir. Mas para surpresa e decepção da mãe, ouviu e gostou. Não parava de ouvir aquelas 'coisas'. Nossa! Que coisa de mau gosto!
Mas aquilo não era o pior: dias depois, na hora da menina sair, acabado seu horário de trabalho o filho aparece junto e quase faz a mãe ter um troço:
- Mãe, eu tô indo junto com a Edilene porque a gente vai no baile-funk lá na área dela.
Ela ainda tentou articular alguma frase mas meio que engasgou e não conseguiu de todo modo emitir qualquer som em meio à estupefção.
- Tchau, mãe. - e quando ela deu por si já estavam quase no portão brincando animadíssimos.
Aquilo se repetiu várias vezes. Toda noite de sexta-feira era sagrado: era o Michel no baile funk com a empregadinha. Já estava até usando cordão grosso no pescoço e boné virado pra trás. O que que teria saído de errado na educação daquele menino?
Meses depois ele anunciou que estava indo morar com a Edilene. Tinha uma casinha no fundo do terreno da mãe dela, era pequeno mas eles iam ficar bem. A bocada era meio barra-pesada, segundo ele, mas que a mãe não se preocupasse que ele já estava até meio que amigo dos caras. A mãe ainda tentou impedir, argumentar, e a educação que lhe dera, e o futuro, o desgosto que ia dar pra ela. Tudo em vão.
Só restou paraa Dona Suzana poder se orgulhar da filha que no fim das contas pelo menos usava seu francês fluente como secretária em uma agência de eventos; já o garoto, pelo que soube por um vizinho, além de ouvir, começou a fazer aquelas músicas horríveis. Também usou o seu francês pra alguma coisa e lançou na internet o funk "Meu Mercí no seu Bocú", assim mesmo, assassinando a língua mais romântica e charmosa do mundo. É o maior sucesso nos bailes dos morros e nas favelas pelo Brasil afora. O sucesso do MC Francês tá na boca do povo.
C'est lamentable.****************
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