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quarta-feira, 9 de março de 2011

cotidianas #70 - Literatura Privada


Começou com o jornal que forrava o armário. Lia uma manchete, uma notinha, às vezes se impressionava com uma notícia de anteontem, se surpreendia com uma informação da semana passada e, ali, no banheiro enquanto cumpria aquela necessidade fisiológica, atualizava sua desatualização.
Uma cagada! Ah, só um homem sabe o quanto é importante uma boa cagada, pensava ele. Pra uma mulher era só uma necessidade, de preferência dispensável; era entrar ali fazer e sair. Pra um homem não: aquilo era praticamente um evento. Era um momento de concentração, de serenidade, de introspecção até, de tranquilidade. Era o seu momento, pensava enquanto lia uma bula qualquer sentado no vaso.
Visto que normalmente permanecia pelo menos uns 15 minutos ali, na casinha-de-força, achou por bem aproveitar melhor aquele tempo desperdiçado e, sempre antes de entrar, pegava na sala uma revista. No mais das vezes lia coisas sem interesse: atriz casou com empresário, apresentadora espera segundo filho, dicas para fazer sua parceira ir às nuvens, e coisas do tipo, mas como aquilo o distraía resolveu colocar um pequeno revisteiro ali no banheiro. Mas em pouco tempo encheu-se daquele monte de futilidades das revistas e resolveu tornar sua estada, costumeiramente longa no banheiro, ainda mais proveitosa e passou a carregar livros. No início levava os de contos ou poesias, uma vez que um conto ou poesia equivaliam em tempo a, mais ou menos, uma cagada, e assim, conseguia terminar a leitura. Porém logo encorajou-se e passou, mesmo, a romances. De início os curtos, assim de umas 100 páginas no máximo, que poderia ler em umas duas sentadas. Isso quando não se empolgava com a leitura e prolongava o processo até terminar a curta obra.
Em nome da conclusão de partes, depois de capítulos, depois das obras, começou então a permanecer demasiado no quarto-de-banho, o que que por sua vez já começava a incomodar à mulher  que para qualquer coisa tinha que ir chamá-lo naquele lugar.
Contudo, ele sentia-se cada vez mais à vontade lá. Quieto, tranquilo, arriscaria dizer, até mesmo feliz, por quê não? Chegava em frente à estante de livros, percorria com os olhos, escolhia um que não tivesse lido, dirigia-se ao banheiro, entrava, fechava a porta, baixava as calças, sentava-se na privada, deixava-se ir na leitura enquanto dava aquele barro. Na maioria das vezes acabava de fazer o troço há muito, mas permanecia lá até acabar a leitura. Nem percebia o tempo passar.
Certo dia a esposa o vira passar por ela com "Os Irmãos Karamazov" debaixo do braço. Dirigiu-se ao banheiro, entrou e antes de fechar a porta ainda gritou, "amor, tô no banheiro, se me ligarem diz que eu retorno depois", e ela percebeu que não poderia contar com ele pra nada naquela manhã. Aliás não conseguia contar com ele para quase mais nada! Estava sempre socado naquele lugar maldito. Não entendia aquilo.
Mas não engane-se quem pensa que não podia contar com o marido nem para abastecer a casa. Quanto a ganhar a vida, sempre trabalhara em casa mesmo como consultor financeiro e tinha seu escritório em casa, mesmo antes de adquirir aquele hábito. O que mudou com a nova mania foi que começou a levar o laptop para o WC também e, nos últimos tempos, já emendava leituras ao trabalho.
Como que já estivesse consagrado o costume, mandou fazer uma espécie de escrivaninha com rodinhas para apoiar o computador portátil. Hoje praticamente só sai daquele banheiro pra jantar (quando sai). As vezes aproveita a própria escrivaninha móvel e come nela mesmo.
Paralelamente ao trabalho, vem desenvolvendo o projeto de um livro sobre o dinheiro através dos tempos na literatura. Não para de escrever. Só às vezes, nos intervalos, para ler um daqueles muitos livros que estão ali no chão. Uma pilha de clássicos ao lado do vaso sanitário.


Cly Reis

sábado, 5 de março de 2011

Coluna dEle #20

Ziriguidum-terecoteco!
Ziriguidum-ziriguidum-terecoteco!
Aí, galera, é carnaval e Eu já tô no clima.
Já estamos todos sob o reinado de Momo, portanto não Me encham o saco por estes dias porque Eu não tenho responsabilidade nenhuma pelo que acontecer até quarta-feira. É tudo com ele.
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Por falar em governo, os ditadores tão caindo que nem moscas ali pelo oriente-médio, hein! Já caiu o 'faraó' Mubarak, querem a cabeça do da Tunísia, do seu Bahrein, agora querem o tal do Kadaffi... Se a moda pega do povo derrubar quem tá a muito tempo no poder, é bom Eu me cuidar.
Se bem que Eu não sou exatamente um ditador (ou sou?). Só gosto que tudo seja exatamente como eu quero e não largo esse trono aqui de jeito nenhum.
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E sobre 'majestades', o tal do Imperador não toma jeito, mesmo! Dirige bêbado, falta a treino, não se apresenta... Eu já disse que dei todas as chances pro cara. O pior é que quando esses caras são pequenos ficam lá rezando, pedindo pra sair da favela, ser alguém na vida, ter dinheiro e blablablá, aí o Trouxa aqui consegue isso pro cidadão e o fulano só Me faz merda na vida. Pô, aê, cansei. Dá teu jeito agora.
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Ainda sobre futebol, fiquei sabendo que o Fenômeno parou. Putz! Esse Eu fiz jogar pra cacete. Pra esse e o pro Baixinho Eu dei o 'dom da grande área'. Se bem que o Romário andou dizendo, uma época aí, que os outros até podiam ser Reis do Rio mas que Deus só existia um. Quero crer que não estivesse se referindo a ele mesmo.
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Aliás, o Romário Eu soube também que está em carreira parlamentar, é verdade?
Mas vocês, hein! Depois vem me 'chorar as pitanga' que no congresso só tem ladrão, que não votam tal projeto, que não aprovam isso ou aquilo, que não tem quórum... Também, vocês elegem cada um! E esse nem é o pior: Eu soube também que vocês elegeram o Tiririca. Tão de brincadeira. Quando Me falaram Eu não acreditei. Acho que Eu mesmo vou parar o mundo pra Eu descer.
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Não é só isso que Me faz querer descer do Meu Mundo, eu soube também que a Sandy tá fazendo uma campanha sensual, aí, pr'uma cerveja. Tipo, uma devassa e tal, né? É sério?
'Cês devem tá de pilha pra cima de Mim!
Eu boto tanta mulher gostosa no mundo, umas verdadeira potranca exalando sexo pelos poros e os caras Me põe a Sandy como devassa? A loirinha piranha aquela que fez no ano passado tava melhor. Não tem lá muita carne mas (a Patroa que não me leia) até que dá pra dar uns 'tirinhos'. Mas essa garota, a outra metade do Júnior, é tão devassa quanto um pacote de bolacha, um pneu velho, um lápis... Hmmm! Acho que tô ficando excitado.
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A propósito de coisas fora do lugar, acho que vocês querem Me deixar louco: a Dona Encrenca aqui tava vendo a novela esses dias e eu vi que o Lázaro Ramos tá de galã da novela.
Como é que é?
Devem estar de sacanagem comigo!
Cara, talento Eu dei muito pr'aquele cara - até acima da média, por sinal -, mas eu lembro que quando foi pra passar na fila da beleza, aqui em cima, antes de nascer, ele tava com tanta pressa e nem quis entrar.
Pra vocês verem...
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E ainda sobre TV, Eu fiquei impressionado de saber que vocês aí tão assitindo a mais um Big Brother!
Se Eu que tenho o recurso de ficar vendo vocês aqui o tempo inteiro já não aguento isso, não sei como é que vocês suportam 11 edições daquele troço. E uns pagam pay-per-view pra isso! Mas... gosto é gosto.
A culpa é Minha. Eu que fiz vocês assim.
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Bom, vou meter o pé. Cair fora. Ralar peito.
Como Eu sei que o tal do Momo só quer o governo provisório pra folia, dos assuntos sérios quem tem que cuidar sou Eu.
Fui, então.
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Sugestões, reclamações, pedidos, preces, desejos, súplicas para o e-mail:
god@voxdei.gov

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O Frango Atirador

cotidianas #69 - Hoje o Samba Saiu Procurando Você



Você era a mais bonita das cabrochas dessa ala
Você era a favorita onde eu era mestre-sala
Hoje a gente nem se fala mas a festa continua
Suas noites são de gala, nosso samba ainda é na rua


Hoje o samba saiu, lá lalaiá, procurando você
Quem te viu, quem te vê
Quem não a conhece não pode mais ver pra crer
Quem jamais esquece não pode reconhecer



"Baile à Fantasia" (1913) - Chamberland, Rodolpho
Quando o samba começava você era a mais brilhante
E se a gente se cansava você só seguia a diante
Hoje a gente anda distante do calor do seu gingado
Você só dá chá dançante onde eu não sou convidado


O meu samba assim marcava na cadência os seus passos
O meu sonho se embalava no carinho dos seus braços
Hoje de teimoso eu passo bem em frente ao seu portão
Pra lembrar que sobra espaço no barraco e no cordão


Todo ano eu lhe fazia uma cabrocha de alta classe
De dourado eu lhe vestia pra que o povo admirasse
Eu não sei bem com certeza porque foi que um belo dia
Quem brincava de princesa acostumou na fantasia


Hoje eu vou sambar na pista, você vai de galeria
Quero que você me assista na mais fina companhia
Se você sentir saudade por favor não dê na vista
Bate palma com vontade, faz de conta que é turista

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"Quem te viu, quem te vê"
Chico Buarque

Ouça:
Chico Buarque Quem Te Viu, Quem Te Vê