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segunda-feira, 11 de abril de 2011

"O Time que Nunca Perdeu", de Paulo Roberto Falcão - Ed. AGE (2009)



Aproveitando a deixa do retorno de Paulo Roberto Falcão ao Internacional, para comandá-lo como técnico pela segunda vez, depois de uma exitosíssima carreira como jogador do clube, aproveito aqui então para recomendar, especialmente aos colorados, é claro, mas também, - excetuando os tricolores gaúchos - a qualquer torcedor apaixonado por futebol, o livro do próprio Rei de Roma sobre a conquista invicta do Campeonato Brasileiro de 1979 pelo Sport Club Internacional: "O Time que Nunca Perdeu".
Com uma série de relatos sobre cada um dos 22 jogadores que fizeram parte daquele grupo e daquela inigualável conquista, Falcão montou o perfil de um grupo unido, sério, maduro, sem vaidades e sobretudo extremamente qualificado, que contava com os conceitos táticos privilegiados de Ênio Andrade no comando e com a rigidez e disciplina de Gilberto Tim na preparação física.
O livro revela episódios curiosos, interessantes, dramáticos e engraçados, como o pavor de Chico Spina ao ter que substituir o ídolo colorado Valdomiro exatamente no primeiro jogo da final, no qual incrivelmente (mesmo apavorado) acabaria marcando dois gols; as frequentes multas por atraso do volante Batista cobradas pelo disciplinador líder Valdomiro; a resistência da direção em contratar o encrenqueiro Mário Sérgio e o aval de Falcão para levá-lo ao Beira-Rio; as indicações do próprio Falcão para as ascenção de Mauro Galvão dos juniores e para a contratação de Batista ainda garoto do Cruzeiro de Porto Alegre; e toda a liderança do "Bola-Bola", como também é conhecido o craque, dentro e fora do campo.
A edição ainda traz toda a campanha com detalhes e informações como locais dos jogos, públicos, renda, arbitragens, gols, etc., além de reproduções das súmulas dos principais jogos.
Um documento precioso de um episódio único na história do futebol brasileiro. Sei que atualmente com a elevação dos títulos de Taça Brasil, Robertão e coisa e tal, à condição de Campeonato Brasileiro, surgiram mais uns dois ou três 'campeões invictos', mas com todo o respeito, entraram nas semifinais e jogaram dasou quatro partidas se tanto. Campeão Brasileiro Invicto, jogando um campeonato, com fases, classificação, ida e volta, só tem um, e o único Campeão Brasileiro Invicto é, e sempre será, apenas o Sport Club Internacional.
Eu, na condição de colorado, só espero que na casamata, este grande ídolo da nossa história consiga repetir o êxito que teve com a bola nos pés e nos traga glórias do tamanho que ele merece e que o Interncional merece.
Boa sorte, Falcão!


Cly Reis

Chemical Brothers cancelado

Acabo de ver, infelizmente, na página do Chemical Music Festival do Facebook, que as datas brasileiras do duo britânico Chemical Brothers estão canceladas, tanto a do festival em Itu do dia 30 de abril, como a de BH, que seria no dia 29. Em uma nota publicada nas redes sociais e no blog oficial da dupla, não explicam exatamente os motivos mas se desculpam e garantem que voltarão ao Brasil o mais breve possível.
Uma pena. Eu que estava tão mobilizado vou deixar de vê-los pela terceira vez. O lado bom da história, pra mim, é só o fato de que ainda não tinha comprado ingresso e para as demais atrações não vale a pena eu me mexer daqui pra Itu.
Fica pra próxima.


A nota publicada no site oficial da banda:
http://www.thechemicalbrothers.com/blog/

sexta-feira, 8 de abril de 2011

U2 - "The Joshua Tree" (1987)



"Eu adoro estar lá, eu amo a América, eu adoro a sensação de espaços abertos, eu amo os desertos, eu amo as montanhas, eu ainda amo as cidades."
Bono


Depois de um início terrível com seus dois primeiros álbuns, “Boy” e “October”, muito ruins, ainda influenciados pelo punk, e de um considerável ganho em qualidade com seu terceiro, “War”, ainda um tanto tosco e mal-resolvido mas através do qual já obtinham grande sucesso com “Sunday Bloody Sunday” e “New Years Day”, o U2, finalmente conseguia com “The Unforgettable Fire” e com o hit “Pride (In the Name of Love)”, uma condição de megaestrelato, liderando festivais pelo mundo com seu carismático vocalista, Bono Vox, como porta voz do que quer que fosse que necessitasse de boas ações.
Já empossado embaixador das causas nobres do mundo e dono de uma popularidade estrondosa, o U2 tinha agora que ganhar definitivamente o mercado americano, mas não bastava vender bem, serem reconhecidos lá e tal: teria que ser uma espécie de dominação.
Bom, para isso então, nada melhor que fazer um disquinho bem à americana: cheio de blues, country, gospel, falando sobre paisagens desérticas, orgulho yankee, bombardeios, invasões e tudo mais. Ajudados por um visual bem apropriado com chapéus de cowboy, roupas de caipira e uma presença mais constante em solo norte-americano, alcançaram vendagens astronômicas, ganharam inúmeros Grammy’s, e lotaram turnês por todos os EUA. A América estava conquistada.
O interessante é que o tal do disco ‘estratégico’ era realmente muito bom! Era o que de melhor os caras tinham feito até então na sua carreira e, nessa história toda, acabaram por produzir um dos melhores álbuns de todos os tempos.
Toda a influência americana na concepção de “The Joshua Tree” de 1987 (corrigido) acabara por dar-lhe talvez a riqueza que o som do U2 não tinha conseguido alcançar, até então, soando por vezes excessivamente irlandês, católico, pós-punk ou cru, agora agregando elementos e os distribuindo melhor do que nunca.
A ótima “I Still Haven’t Found What I’m Looking For” é cheia de gospel, ‘Trip Through the Wires” cheia de blues; e “Red Hill Mining Town”, “In God’s Country”, “One Tree Hill’ e “Running to Stand Still” trazem consigo, cada uma, um pouco da sonoridade country americana. Nas que o dedo do Tio Sam não aparece tão evidentemente, o que se nota mesmo é a qualidade de um disco pop bem produzido pelo mestre Brian Eno em parceria com Daniel Lanois. “Where the Streets Have no Name”, a primeira do disco é um bom exemplo disso, num pop-rock impecável e cheio de ímpeto vocal. “With or Without You” é uma balada apaixonada com grande mérito para a produção caprichadísima de Brian Eno; “Bullet the Blue Sky” é forte, distorcida, vibrante, poderosa e uma das melhores do disco; “One Tree Hill”, já citada é outra das grandes, com mais uma interpretação inspirada de Bono; e “Exit” mostra de novo todo a qualidade de Eno na mesa de produção, levando a música de um semi-silêncio a um rompante furioso explodindo em peso e agressividade sonora. A grande obra fecha com a excelente “Mothers of the Disappeared”, uma balada triste, emocionada e sombria sobre os desaparecidos nas ditaduras latino-americanas.
Ainda viriam a repetir a dose de americanismo com “Rattle and Hum”, um disco/filme, meio ao vivo, meio de estúdio, onde exageravam ainda mais no conceito, porém depois disso, em nome de um ‘rompimento’ com tudo aquilo resolveram, como o próprio Bono mesmo dissera, ‘derrubar Joshua Tree a machadadas’ e para isso fizeram o superestimado “Achtung Baby”, gravado em Berlin e curiosamente muito bem recebido tanto por crítica quanto por público, provavelmente pela proposta, pela roupagem, experimentação, mas cujo resultado, na minha opinião foi bastante confuso e pífio.
Colocando as coisas desta forma pode parecer que não gosto do U2, mas não é verdade. Exceção feita aos primeiros que, como eu disse são fraquíssimos, e os últimos, depois do "Zooropa", tenho todos os discos dos caras. Acho sim uma banda supervalorizada cuja discografia é um tanto irregular e que não é o timaço de craques como às vezes se faz supor. Ao passo que Bono, efetivamente é um grande vocalista, a outra 'estrela' da constelação, pouco reconhecida, é na verdade o baixista Adam Clayton que segura com extrema competência as pontas para o apenas mediano, mas muito marketeiro, The Edge fazer sempre o mesmo solo (ainda mais depois do "Achtung Baby" quando os pedais de efeitos fazem quase tudo por ele) e Larry Mullen Jr., o bateirista, até que criativo, trabalhar bem ali na cozinha.
Fato é que depois da fase americana, tirando o ótimo “Zooropa” de 1993, onde aperfeiçoam o conceito mal desenvolvido em "Achtung Baby", o U2 nunca mais seria o mesmo, tentando ser pop demais, errando a mão quase sempre, se perdendo entre a ação e o discurso, exagerando nas demagogias, sempre emplacando seus hitzinhos, é verdade, mas nunca mais tendo conseguido produzir um disco tão bom quanto “The Joshua Tree”.

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FAIXAS:

1. "Where the Streets Have No Name" 5:38
2. "I Still Haven't Found What I'm Looking For" 4:38
3. "With or Without You" 4:56
4. "Bullet the Blue Sky" 4:32
5. "Running to Stand Still" 4:18
6. "Red Hill Mining Town" 4:54
7. "In God's Country" 2:57
8. "Trip Through Your Wires" 3:33
9. "One Tree Hill" 5:23
10. "Exit" 4:13
11. "Mothers of the Disappeared"

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Ouça:
U2 The Joshua Tree



Cly Reis

quinta-feira, 7 de abril de 2011

Talking Heads - "Fear of Music (1979)


“Precisa perder o medo da música.”
Arnaldo Antunes



O Talking Heads sempre foi das minhas bandas preferidas. Todas as fases pelas quais o grupo passou são dignas de registro na história da música pop, desde seu primórdio punk até a derradeira fase world music. Aliás, para mim, um preceito para um grupo ser considerado importante (fora algumas exceções) é o de produzir, pelo menos, dois ou três grandes discos. Os Heads têm uns cinco: “Little Creatures” (1985), “Remain in Light” (1980) e “True Stories” (1986) são alguns. Mas antes destes, no finalzinho dos anos 70, David Byrne (guitarras, vocal), Chris Frantz (bateria), Tina Weymouth (baixo) e Jerry Harrison (teclados e guitarra) já tinham concebido sua obra-prima: “Fear of Music”.
Segundo trabalho da trilogia assinada pela banda ao lado do genial produtor inglês Brian Eno, “Fear of Music” veio com o desafio de superar o excelente “More Songs About Buildinds and Food”, de 1978, primeiro da parceria. E conseguiu. Ápice da criatividade de Byrne e Cia., o disco é resultado da releitura apurada e madura do punk rock, cena da qual a turma provinha, e das tendências da época, como a new wave, o reggae, a disco e as influências folclóricas. E tudo basicamente baixo-guitarra-bateria, com incursões de teclados e percussões muito mais para gerar climas ou completar a concepção do arranjo. Ouvindo-se “Fear” hoje é até desanimador ver bandas consideradas “do momento” soarem tão parecidas e, pior, não conseguirem acrescentar nada além do que os Heads ou grupos como Gang of Four e Polyrock já fizeram.
Mas voltando ao disco, a ótima capa, seca, parecendo uma caixa de metal preta com relevos, intui que ali dentro se encontrará um conteúdo corrosivo e desafiador. Como que provocando o ouvinte: ‘quem tem medo de abrir o invólucro’? A banda brasileira Titãs, na época de sua melhor fase, meados dos anos 80, foi uma das que enfrentaram esse temor e se inspiraram neste trabalho dos Talking Heads. Uma de suas músicas, "Medo" , do álbum “Ô Blésq Blom”, de 1989, traz no seu cerne a ideia da quebra dos preconceitos e do enfrentamento das limitações típica do punk, seja na sociedade, na arte ou na política. No cenário internacional, vários outros, como Prince, Deee Lite e Beck, também beberam na fonte do Talking Heads.
Contribui muito para o resultado final o dedo inventivo e autoral de Eno. Assim como fizera com o U2 em “Zooropa” (1996) ou com David Bowie na trilogia ““Low-Heroes-Lodger” (1977-78-79), Eno funciona mais do que como um produtor: além cantar, tocar e co-assinar composições, ele dá cores diferenciadas às músicas na mesa de mixagem, tratando-as especialmente como um microcosmo. Por isso, arrisco-me a também lhe creditar este disco. As técnicas de estúdio que Eno foi acumulando desde seu moderníssimo grupo Roxy Music, no inicio dos anos 70, passando pelos vários discos solo e produções a trabalhos de parceiros parecem ter sido todas colocadas em prática em “Fear”. Isso aparece em truques de mesa de som, afinação diferente de instrumentos ou maneiras criativas de apresentar uma faixa. Um exemplo é “Cities”, que demora a subir o som para começar e é cheia de barulhos esquisitos soltos no seu decorrer, além do vocal quase de garagem, inclusive com propositais falhas na captação do microfone, criando uma atmosfera própria. Em outra, “Mind”, a voz oscilante e esganiçada de Byrne, de repente, se mistura a outros sons. Pequenos detalhes muito bem empregados que constroem um verdadeiro manual de como produzir bem um disco de rock. Tudo muito surpreendente e orgânico.
Neste disco, os Talking Heads assumem de vez a sua postura particular dentro da cena punk. Eles sempre tiveram, de fato, cara de mais comportados do que seus contemporâneos brigões Sex Pistols ou Dead Boys, e suas músicas geralmente fugiam do padrão “1-2-3-4” tosco de um Ramones ou New York Dolls. “Mind”, “Animals” e “Cities” mostram bem isso: ritmação “torta”, melodias em contraponto, frases de guitarras que funcionam como percussão. Uma série de esquisitices que, da maneira como fazem, dá muito certo. Aliás, esta é a forma como eles se mostram criativos: era um grupo limitado tecnicamente, mas cheio de ideias na cabeça e disposto a evoluir musicalmente.
“Fear” começa com a conceitual “I Zimbra”, um pop “africanístico” com “guitarras percussivas” cantado em coro num dialeto exótico. Diferente de tudo que tinham feito até então, “I Zimbra” lança luzes ao que viria no álbum seguinte do conjunto, “Remain in Light”, caracterizado por este tipo de sonoridade world music. “Air” é outra prova da maturidade musical da banda e do acerto do casamento com Brian Eno. A linha de baixo marcada no mesmo compasso da bateria, acompanhada pelo coro feminino e da base minimalista de guitarra, são valorizadas ao máximo pelo produtor. De uma canção simples, Eno adiciona ideias que dimensionam exatamente o que há de melhor na melodia: a construção quebrada, o baixo grave e o vocal solto e brincalhão. A voz de Byrne, aqui, como em algumas outras do disco, ganha um dos “ensinamentos” de Eno assimilados em sua temporada com David Bowie. Nos momentos em que Byrne solta o gogó e o som se expande além da conta no microfone, um outro microfone dentro do estúdio é acionado, captando este “excedente” e dando uma sensação emocionante de explosão da voz.
Uma das melhores de “Fear” é “Memories Can’t Wait”. Não passa de mais um punk rock rude, como os que os Heads faziam nos seus primórdios de CBGB. Mas o ouvido apurado da galera criou, com elementos simples e criativos, uma obra-prima. Ao contrário de outras onde o baixo ou a bateria prevalecem, aqui, o volume desses instrumentos vai lá embaixo para dar lugar às guitarras. Mas não são simples guitarras: efeitos de pedal e de estúdio dão um clima psicodélico e ruidoso à musica, o que é completado pela voz cheia de ecos e alterações de frequência e volume. Matadora!
Outra maravilha é “Electric Guitar”. Nela, todos os sons parecem brigar entre si. Se noutras faixas o baixo e a bateria são amenizados, aqui eles estouram a caixa. Alto, o som distorcido do baixo de Tina dá a impressão de ser um cello. Na bateria, a caixa e os chipôs se estapeiam para ver quem ocupa mais espaço. E o vocal, ora propositalmente estourado, ora visivelmente mal modulado, é um show à parte. Não sei se deu para perceber na descrição, mas o que menos aparece em “Electric Guitar” é, justamente, a guitarra elétrica, que, já devidamente homenageada, restringe-se a uma leve base e a, no máximo, uma frase que dialoga com a voz no refrão. Tudo sob um ruído agudo (uma vibração de pedal da referida guitarra) que vai e volta, sobe e desce, e que se repete no decorrer de toda a música até, no fim, depois de todos os instrumentos se calarem, voltar para desfechar em alto estilo.
Todo grande disco começa ou termina com uma grande música e, no caso de “Fear...”, é no final que está a “cereja do bolo”. “Drugs” é um primor, com muitos méritos, novamente, a Eno. Para quem conhece um pouco de composição musical, dá para perceber que ela foi escrita no violão em cima de alguns acordes básicos. Mas o que foi parar no disco é outra coisa, muito mais rico e complexo, só usando criatividade e técnica. A começar, a melodia é “distribuída” a vários instrumentos, sem ser tocada continuamente por apenas um deles. O baixo pontuado, as batidas soltas de bateria, as várias texturas de teclado, as vozes, as incursões de percussão, os monossílabos de guitarra: todos ajudam a compassar esta espécie de “quebra-cabeças minimalista”. Os Titãs, anos antes de “Ô Blésq Blom” – e por influência dos “antenados” Arnaldo Antunes, ainda integrante da banda, e do produtor do grupo, o ex-Mutantes Liminha –, já tinham se valido dos Heads para conceber outra música: “O Quê?”, do LP "Cabeça Dinossauro" (1986). Igualmente a “Drugs”, “O Quê?” teve como ponto de partida uma base de violão que, na hora do arranjo, foi ganhando outros elementos até se tornar um dançante “funk concretista”. E como em “Fear of Music”, este famoso hit da banda brasileira também desfecha o seu disco com “chave de ouro”. Coisa de álbum clássico.
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Além da trilogia “More Songs-Fear-Remain”, a parceria Byrne-Eno rendeu ainda um quarto trabalho: o instrumental “My Life In The Bush Of Ghost”, de 1981, assinado só pela dupla, que radicaliza a sonoridade étnico-folclórica e os experimentos de estúdio, como samples e colagens. Os dois voltariam a gravar juntos em 2008 o mais pop, porém também muito bom, “Everything That Happens Will Happen Today”.


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FAIXAS:
1.I Zimbra
2.Mind
3.Paper
4.Cities
5.Life During Wartime
6.Memories Can’t Wait
7.Air
8.Heaven
9.Animals
10.Electric Guitar
11.Drugs

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Ouça