segunda-feira, 19 de março de 2012
sexta-feira, 16 de março de 2012
Cream - "Disraeli Gears" (1967)
"La crème de la crème"
Depois de uma estreia como aquela com o espetacular "Fresh Cream", criou-se toda uma expectativa acerca do segundo disco do trio formado por Eric Clapton, Jack Bruce e Ginger Baker. E a mega-banda não só não decepcionou, como talvez tenha feito um disco ainda melhor que o primeiro. Se em "Fresh Cream" o baixista-vocalista Jack Bruce havia tomado as iniciativas de composição na maior parte das músicas, sendo inclusive acusado pelos colegas de lançar um single sem a concordância dos demais, neste Clapton que no início servira muito como um catalisador da banda, tomava agora as rédeas da situação e mostrava com quem é que estavam lidando. Clapton, que no primeiro não havia composto (diretamente) nenhuma música e só tinha vocais secundários, em "Disreali Gears" ia pro jogo e botava na roda algumas de suas melhores canções, além de emprestar sua voz a alguns dos grandes clássicos do rock'n roll. "Sunshine of Your Love" é a melhor prova disso, numa composição brilhante, iluminada com a marca inconfundível da guitarra de Clapton, em um dos riffs mais conhecidos da história do rock e fazendo pela primeira vez na banda o vocal principal. O fantástico blues psicodélico "Strange Brew" com ele, Clapton, desta vez dividindo os vocais com Bruce e Baker matando a pau na batera, é outra daquelas de arrepiar; e "Tales of Brave Ulysses" igualmente manda muito bem e não fica para nada trás numa canção forte, imponente e de contornos épicos (uma das minhas favoritas do álbum).
Fora a participação mais efetiva de Eric Clapton em composições, vocais e concepção; e o fato de Ginger Baker, com problemas de bebida, não aparecer tanto nas composições nem exibir performances tão marcantes como antes; a diferença fundamental do primeiro álbum para este é na verdade o fato que "Disraeli Gears" não é tão baseado diretamente em blues como o outro, soando no fim das contas, muito mais psicodélico e experimental do que seu antecessor, o que pode ser notado de forma bem evidente em canções como "World of Pain" balada carregada de wah-wah, "S.W.L.A.B.R" barulhenta de feedbacks de guitarra e com uma batida de rolos constantes de Baker; e na viajante "We're Going Wrong".
Apesar de não ser o foco principal, o blues está presente, sim, e aparece não só já citada "Strange Brew"; um pouco mais sutilmente em "Blue Condition", a única de Baker no disco, uma espécie de blues estilizado; e brilhantemente na maravilhosa "Take It Back", com outro show da guitarra de Clapton e Bruce destruindo na harmônica. Em "Dance the Night Away" o arranjo vocal e o trabalho dos dois, Bruce e Clapton, cantando juntos é algo que deve ser destacado (demais!); "Outside Woman Blues" retoma as experimentações de blues com energia e peso do trabalho anterior; e o disco encerra com a tradicional "Mother's Lament", uma hitorieta triste interpretada de forma descontrída e teatral.
Adquiri há pouco tempo o LP na Feira do Rio Antigo, popular Feira do Lavradio. Minha fita K7 havia ficado em Porto Alegre. Reposição importante. Um dos discos que quando eu ponho é daqueles que dá um enorme prazer em ouvir. é sempre especial quando passeio com os dedos pelos vinis , chego nele e penso, "Puxa, eu vou ouvir o "Disraeli Gears!".
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FAIXAS:
1."Strange Brew"
2."Sunshine of Your Love"
3."World of Pain"
4."Dance the Night Away"
5."Blue Condition"
6."Tales of Brave Ulysses"
7."S.W.L.A.B.R." (She Was Like A Bearded Rainbow)
8."We're Going Wrong"
9."Outside Woman Blues"
10."Take It Back"
11."Mother's Lament"
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Ouça:
Cream Disraeli Gears
Cly Reis
quinta-feira, 15 de março de 2012
cotidianas #145 - É ele
Na fila do ônibus não foi diferente e teve que aguentar todas aquelas pessoas lhe encarando de viés e cochichando um para o outro "É ele", com o que alguns concordavam, "É ele, sim"; outros duvidavam "Não pode ser ele"; e outros mesmo reforçavam "É ele, sim. Tenho certeza".
A maioria das pessoas optou por sequer entrar no ônibus quando este chegou, mas os que entraram ficaram todos amontoados num canto do ônibus tentando, entre eles, confirmar se era quem estavam pensando, deixando o sujeito sozinho no outro lado. Apesar da separação dos passageiros, o veículo seguia normalmente até que o próprio motorista, assim que percebeu quem conduzia, negou-se a seguir viagem e abandonou o carro ali mesmo em meio a uma movimentada avenida. Os outros, confirmada a impressão de que aquela era a pessoa que pensavam, apressaram-se em seguir o motorista deixando aquele cidadão sozinho no carro.
Sem opção, mas por sorte já próximo do local de trabalho, seguiu o resto do caminho a pé, e claro, não sem ser fuzilado pelos olhares de todos que por ele passavam e ouvir aquele constante cochicho de "É ele".
Chegou ao prédio onde trabalhava e, na portaria, o seu Zé, porteiro costumeiramente simpático, já o encarou com um olhar incriminador. Dirigiu-se ao elevador, cumprimentou a ascensorista que simplesmente saiu do seu posto, bem como outros dois passageiros que a seguiram e abandonaram a cabine. Não pode deixar de ouvir, às suas costas, dos dois que permaneceram no elevador, a mesma coisa que ouvira desde que acordara, "É ele", "É, sim. É ele, com certeza".
Saltou no andar do escritório onde trabalhava e, assim que pisou no hall, deu seu tradicional "bom dia" geral, como costumava fazer todas as manhãs, o que foi retribuído desta vez com um verdadeiro mar de caras fechadas e olhares inquisidores.
"É ele, mesmo", "É ele" era o que ouvia conforme passava pelas mesas dos colegas, enquanto dirigia-se à sua. Antes de chegar, porém, ao seu posto, foi interceptado pelo chefe:
- Muito bonito, hein! Quem diria, o senhor...
- Mas... - tentou argumentar sabe-se lá o que, mas de qualquer forma, nem teve tempo.
- Eu não quero saber. Ponha-se daqui pra fora - disse o chefe já virando as costas sem dar explicação.
Viu-se completamente confuso, sem norte, sem saber o que se passava. Tentou pedir explicação a um colega sobre o que era aquilo tudo, tentou justificar que só poderia tratar-se de um engano, mas este simplesmente retirou-se quase em disparada para o banheiro. O que era aquilo? O que estavam atribuindo a ele? Sob a mira dos olhares fulminantes dos outros e sem chance de obter ali qualquer explicação, só lhe restava sair dali e voltar para casa.
Tomou o elevador, desta vez vazio na descida, mas ao chegar no térreo encontrou o saguão cheio de gente com aspectos ameaçadores e o seu Zé, o zelador, à frente deles apontando na sua direção: "Olha, eu não falei que era ele?".
Os outros, estranhos, que encontravam-se ali no hall do prédio concordaram aos gritos "Ééééé!!!", "É ele". Algum gritou "Pega!". Outro, "Mata ele". Aí assustou-se! Agora estava assustado de verdade.
Saiu rompendo, acotovelando a pequena multidão e vencendo-a a muito custo, viu-se na rua, na calçada. Tinha que fugir. Não sabia de que, não sabia porquê mas tinha que fugir daquele povo que agora começava a ficar selvagem. Tinha que encontrar algum lugar onde se sentisse seguro, onde não o acusassem, onde não o odiassem.
Foi caminhando com passo acelerado pensando para onde poderia ir, mas enquanto isso o jornaleiro o apontava, o mendigo o apontava, uma mulher com carrinho de bebê o apontou histérica e pediu socorro, até o cachorro de uma velhinha começou a rosnar pra ele, e então outra pequena multidão começou a se acumular e logo também passou a persegui-lo.
Agora corria. Correu, correu até que viu aquele grupo de perseguidores afastados o bastante. Deu por si e estava próximo ao parque da cidade e, aproveitando a camuflagem natural que ofereciam as plantas, achou por bem embrenhar-se entre os arbustos a fim de despistar a horda. Além do mais, se conseguisse atravessar o parque, a casa de sua mãe não ficava muito distante, do outro lado.
Conseguiu.
Atravessou, seguiu por algumas ruas esgueirando-se, escondendo o rosto como podia, até que viu-se diante do portão da casa de sua mãe. Dirigiu-se apressadamente para a porta e nem lembrando-se que tinha a chave, confuso que estava, tocou a campainha.
A porta abriu-se e o que viu então foi a mãe, ladeada por dois policiais.
- Que vergonha, meu filho! Tu hein...
E dirigindo-se aos dois policiais:
- É ele. Podem levar.
Cly Reis
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