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domingo, 24 de junho de 2012

cotidianas #166 - "Noite de São João"


"Festa de São João" - Portinari, Cândido
(óleo sobre tela) 1958
Era noite de São João
E eu saia com meu irmão
De bigode de rolha
E chapéu novo em folha
Brim Coringa e alpargata

Toda noite de São João
Eu sonhava em pegar da mão
De uma prenda bonita
De vestido de chita
E Maria Chiquinha

Soltando foguete (tchê)
Pulando fogueira (há)
Era noite de São João

Toda noite de São João
A quermesse era um festão
Bandeirinhas no arame
De papel celofane
Pau de sebo e de fita

Era noite de São João
E depois de comer pinhão
Vinha pé-de-moleque
Puxa-puxa e um pileque
De caninha ou de quentão

Soltando foguete (tchê)
Pulando fogueira (há)
Era noite de São João

Era noite de São João
Cordeona com violão
Esquentavam as moça
E eu nesse bate-coxa
Não podia me segurar

Toda noite de São João
Eu voava que nem balão
Namorava as estrelas
Que são primas terceiras
E afilhadas de São João

Soltando foguete (tchê)
Pulando fogueira (há)
Era noite de São João


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letra de "Noite de São João"
(Kleiton e Kledir)

Ouça:
Kleiton e Kledir - "Noite de São João"

quarta-feira, 20 de junho de 2012

Lou Reed - "Transformer" (1972)




“Mas se essas calçadas [de Nova Iorque] parecerem um pouco mais familiares agora, é porque Lou mostrou-nos tudo ao redor delas há muito tempo atrás, dando rostos humanos a todos os habitantes das trevas.”
Michael Hill,
jornalista,
no texto do encarte da
reedição de 30 anos do álbum


“Transformer” é de certa forma um álbum escuro, um álbum sombrio, que mostra o lado B do mundo, das pessoas , das ruas. As drogas, a prostituição, as perversões, a solidão, de certo modo permeiam todo o desenvolvimento desta obra do ex-Velvet Underground, Lou Reed. Produzido por David Bowie e por Mick Ronson, “Transfromer”, de 1972, é um dos exemplares mais significativos das constantes contribuições entre Bowie e outros artistas, sobremaneira, das que se seguiriam, na chamada ‘fase berlinense’, com Brian Eno e Iggy Pop.
A clássica “Walk on the WildSide” com seu baixo insinuante, seu clima cool e seu charmoso trumpete, exprime perfeitamente todo esse universo com putas de esquina, cafetões agressivos, garotos vendendo drogas e mentes desajustadas. Outras complementam o conceito underground como a ótima e um tanto sadomasoquista, “Vicious” de fraseado marcante de guitarra; a embalada e gostosa “Hangin’ Round”, uma trilha para vidas confusas; e a transformação de uma garota para a ‘noite de trabalho’ em “Make Up”.
Na teatral “New York Telephone Conversation”, Reed praticamente recita a letra sob um acompanhamento de piano numa exposição sobre a cidade e seus habitantes como um todo; a adorável “Satellite of Love” é um pouco mais iluminada com seu belo coro feminino do final; “Wagon Wheel” é o típico rock loureediano, básico e objetivo ao passo que “I’m So Free” tem a cara do produtor, Bowie; “Goonight Ladies” com sua tuba engraçada é um perfeita despedida para aquelas damas da noite que Reed refere-se o tempo inteiro e um final perfeito para o disco, no fim das contas.
Mas em contraste com toda o clima pesado do temas, do disco, dos tipos, das vidas, das amarguras, minha principal lembrança deste disco sempre remete a um dia de sol em que estava em  Veneza  e entrei em uma loja de vidros de Murano e a atendente, uma bela jovem loura, ouvia música em um pequeno discman. Logo percebi que era Lou Reed mas por um momento não identifiquei a música, até que me veio. Próximo ao balcão como estava, comentei simplesmente, “’Perfect Day’...”, ao que a balconista sorriu e respondeu em inglês “É, você gosta?”. “Adoro”, respondi. É do álbum...” - interrompi tentando sinceramente buscar na memória a informação que naquele momento me falhava - “...’Transformer’”, completei lembrando finalmente, ao que ela confirmou novamente em inglês “yeah!”, seguido por outro gracioso sorriso.
Não continuei nenhuma conversa, acho que não quis sacrificá-la com meu inglês sofrível e sequer me aventurei no italiano. Compramos algumas coisas, saímos do loja e nos metemos afora pelas vielas de Veneza novamente. Era um belo dia de sol, um  belo dia para se andar em  Veneza .
Um dia perfeito.

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FAIXAS:

1- Vicious
2- Andy's Chest
3- Perfect Day
4- Hangin' 'Round
5- Walk on the Wild Side
6- Make Up
7- Satellite of Love
8- Wagon Wheel
9- New York Telephone Conversation
10- I'm So Free
11- Goodnight Ladies

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Ouça:

terça-feira, 19 de junho de 2012

cotidianas #165 - "Disneylândia"



Filho de imigrantes russos casado na Argentina
Com uma pintora judia,
Casou-se pela segunda vez
Com uma princesa africana no México

Música hindú contrabandiada por ciganos poloneses faz sucesso
No interior da Bolívia zebras africanas
E cangurus australianos no zoológico de Londres.
Múmias egípcias e artefatos íncas no museu de Nova York

Lanternas japonesas e chicletes americanos
Nos bazares coreanos de São Paulo.
Imagens de um vulcão nas Filipinas
Passam na rede dc televisão em Moçambique

Armênios naturalizados no Chile
Procuram familiares na Etiópia,
Casas pré-fabricadas canadenses
Feitas com madeira colombiana
Multinacionais japonesas
Instalam empresas em Hong-Kong
E produzem com matéria prima brasileira
Para competir no mercado americano

Literatura grega adaptada
Para crianças chinesas da comunidade européia.
Relógios suiços falsificados no Paraguay
Vendidos por camelôs no bairro mexicano de Los Angeles.
Turista francesa fotografada semi-nua com o namorado árabe
Na baixada fluminense

Filmes italianos dublados em inglês
Com legendas em espanhol nos cinemas da Turquia
Pilhas americanas alimentam eletrodomésticos ingleses na Nova Guiné

Gasolina árabe alimenta automóveis americanos na África do Sul.
Pizza italiana alimenta italianos na Itália

Crianças iraquianas fugidas da guerra
Não obtém visto no consulado americano do Egito
Para entrarem na Disneylândia


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letra da música "Disneylândia"
(Titãs)

Ouça:
Titãs Disneylândia