McQueen pilotando de verdade o Mustang em "Bullit"
Ele foi o maior
“filho da mãe” que já existiu no cinema. Steve McQueen era
várias pessoas numa só. Honesto, desonesto, amável, odioso,
modesto, presunçoso, inteligente, maduro, infantil. Era capaz de
jurar amor eterno à esposa e ter um caso logo a seguir. Era
desatento com os amigos, mas extremamente generoso com estranhos.
Falava sobre os perigos das drogas, mas não conseguia evitá-las. Os
paradoxos eram fascinantes em Steve McQueen, que era o derradeiro
paradoxo. Sua complexidade era tão grande assim como a lista de
mulheres que ele levou para cama. O ator sempre foi tido como uma
pessoa difícil e competitiva, mas ao mesmo tempo de uma intensidade
e generosidade humana enorme. Buscou autenticidade em todos os seus
papéis no cinema, desde pilotar ele mesmo os carros e motos nas
perseguições de “Bullit”, “Le Mans” e “Fugindo do
Inferno”, a cortar o cano de uma arma para ser mais autêntico ou
mesmo desafiar Yul Brynner com as técnicas de Lee Strasberg no set
de “Sete Homens e um Destino”.
Colecionou carros,
aviões e motos, teve mais de 100, assim como mulheres, das quais
teve bem mais. Era um grande “come quieto”: roubou Ali Mcgraw de
Robert Evans nas filmagens de “The Getaway“, de Sam Peckinpah, em
1972. Evans o odiou para sempre. Não poupou as esposas e namoradas
de outros atores, produtores e diretores. Mas nunca cedeu às
investidas de Natalie Wood por ser grande amigo de Robert Wagner.
Semeava a discórdia e inveja por onde passava. Parte dos atores
hollywoodianos o detestavam e quase nunca o indicavam para prêmio
algum. Não foi nomeado ao Oscar por “Papillon” (recebeu apenas
uma nomeação na vida), o maior papel de sua carreira e, quando foi
indicado ao Globo de Ouro, pediu que enviassem o prêmio pelo
correio.
Com Ali McGraw em "The Getaway",
um de seus inúmeros casos amorosos
Seu maior rival no
cinema foi Paul Newman. Chegaram a brigar para ver quem teria o nome
em maior destaque no cartaz de “Inferno na Torre”. Assim também
foi com Brynner, Faye Dunaway e Dustin Hoffman, a quem ele dava
conselhos não muito bem aceitos pelo colega de “Papillon”. Mas
foi Bruce Lee, seu grande amigo e professor, quem mais o invejou na
vida. Chegaram a discutir por cartas para ver quem era o mais famoso.
McQueen dizia que ele queria ser o McQueen da Ásia. Já com James
Coburn e Robert Wagner existia uma admiração mútua e grande
amizade.
A rebeldia do “King
of Cool” era fruto de um lar violento e do pai que ele não
conheceu segundo alguns amigos. Isso fez com que ele fosse para um
reformatório na juventude e depois saísse na busca de um sucesso
que, por fim, ele considerou efêmero. No início da carreira, o ator
fez muitos filmes por dinheiro e depois acabou repudiando e
criticando o sistema de Hollywood. Recusou ofertas milionárias de
filmes como “Apocalypse Now”, “Dirty Harry” e “Operação
França” e optou por fazer as suas escolhas. Muitas delas em
produções duvidosas e de fracassos comerciais anunciados, Mesmo
assim, seu legado para filmes que envolvem ação e perseguições é
considerado enorme até hoje. Como esquecer a cena de “Bullit” em
que McQueen fez sua própria pilotagem, neste que foi o primeiro
filme com som ao vivo da história (sim, sem usar nada de sonoridade
adicional!), ou ele de novo se aventurando a pilotar uma moto Triumph
em “Fugindo do Inferno”, tudo porque os pilotos alemães eram
lentos demais. O cara era de Indianápolis, tudo explicado.
A rara última foto do ator
antes de morrer, em 1980
Em 1980, o ator foi
diagnosticado com um câncer raro de pulmão. Neste ano ele filmaria
“The Hunter”, seu último filme. McQueen saiu em busca da cura e
foi ao México. Tentou todas as formas alternativas para conter a
doença: dietas, ervas, curas holísticas, etc. Mas nada foi
eficiente e o câncer se alastrou. Ele dizia que estava nas mãos de
Deus e que o divino já tinha sido generoso antes, pois há anos
atrás o ator tinha sido convidado para o jantar na casa de Roman Polanski na noite em que os Manson fizeram a chacina que matou a
atriz Sharon Tate e mais quatro pessoas. Ele teria ligado a ela e
desistido na última hora. Mesmo assim, nada foi suficiente. Em
novembro de 1980, ele sucumbiria aos 50 anos de uma vida breve mas
cheia de intensidade e brilhantismo a uma doença causada pelo
contato com amianto. Martin Landau disse certa vez: “Sei que
poucos vão chorar por este ‘filho da mãe’, mas entre 2 mil
atores da audição histórica de Lee Strasberg, só eu e eles
passamos, entende, só eu e ele, ele era um ‘filho da mãe’ e
tanto".
Depois de sua morte,
soube-se que McQueen em seus anos de reclusão visitava em segredo
entidades sociais e doava milhões a lares de crianças e idosos. Em
um destes lares sentado ao chão ao lado de um menino, ele disse com
lágrimas nos olhos: "Aqui é muito difícil, lá fora também
é, a vida não é como nos filmes, mas jamais percam seus sonhos e
suas esperanças, tio Steve sempre estará aqui”. E assim foi.
Numa passagem rápida pelo Santander Cultural, o qual não
visitava fazia muitos meses, Leocádia Costa e eu vimos a exposição “Plano de Observação”, do badalado
artista visual carioca José Damasceno.
Um pouco por causa da própria badalação – muitas vezes exagerada ou até
injustificável nesses histéricos tempos atuais –, além do fato de serem somente
instalações – o que poderia ser apenas para mascarar a falta de aptidão em
outras técnicas mais apuradas das artes plásticas, falta que também comumente
se vê por aí –, confesso que fui com certa precaução.
Sem necessidade, pois a curta mas exuberante exposição de
Damasceno é bastante assertiva e interessante por, justamente, transpor essas
outras técnicas da arte (pintura, escultura, desenho) para o conceito 3D da
instalação. Ou seja: aquilo que na maioria dos casos se espera de uma boa obra
de instalação: poder enxergar a tradição da arte retransformada naquela composição
visual moderna. No caso das obras de Damasceno, estas te colocam numa zona que
a curadora da mostra, Lígia Canongia, diz com acerto no texto de abertura:
“entre a realidade objetiva e uma perspectiva fantasmática”. Isso porque,
escultor por princípio, ele cria espaços simbólicos que geram cruzamentos entre
esses polos dicotômicos.
Na prática, é fácil entender tais atribuições teóricas. Basta
observar por mais de um ângulo a obra
“Observation plan”, de 2003, composto por
30 mil lápis, todos de cor bege. Sim, são os lápis que, presos a uma placa
branca de 17 metros de largura por 1,5 de altura, constroem, quando vistos de
frente, formas que mais parecem pinturas “neo-rupestres”. No entanto, quando olhados
de lado, tomam outra forma aqueles vários palitos que se projetam da parede
como espinhos, gerando uma reidentificação por parte do observador da qualidade
interna da obra.
Tal perspectiva metalinguística que a obra de Damasceno suscita
é fortemente percebida nos outros sete trabalhos expostos, principalmente em
“Monitor Crayion” (2012-2014), quadro no qual ele compõe a “pintura” justamente
com aquilo que produz o traço: gizes de cera, dispostos de forma semialeatória
sobre uma grande tela sustentada em madeira e aço. A sensação de ilusão visual
se repete através do gigantismo de “Poco a Poco”, em que cinco desenhos
abstratos são montados lado a lado apenas por adesivos de vinil preto redondos,
os quais são perceptíveis em sua natureza bruta apenas quando mirados de perto.
Bastante interessante também é a crítica e sarcástica “Mass
media para modelar”, uma sala de aula com “carteiras” e “quadro negro” onde os
alunos são meras deformações inanimadas feitas de massas de modelar. Ainda, os
volumes densos de “Cinemagma” (estopa, madeira e vidro, 2000), que invadem o
salão central do espaço, criam uma sensação de estranheza e certo pavor, haja
vista que, pelo menos a mim, remetem àqueles organismos gosmentos e radioativos
dos filmes de terror B cujo crescimento e perigo são incontroláveis. “Monitor”,
quadro feito apenas em lã, e “Parábola”, um interessante “desenho” composto em
mármore que parece, ao mesmo tempo, o mapa de uma cidade medieval, uma trilha
de peças de dominó e um entremeado de tecidos, impressionam antes de qualquer
coisa pelo seu desenho, os quais dão origem aos outros formatos que dele
decorrem.
Como a curadora descreve, José Damasceno nos leva a “uma
topologia inesperada, em um movimento das dimensões ‘normais’ do tempo, do
espaço e da representação”. De fato, pois, instigantes e significadas para além
de seu próprio “corpo”, tudo na obra de Damasceno depende do “plano de
observação” que o olhar de cada um dará.
Detalhe de Observaton Plan, remete às pinturas das cavernas
A impressionante e fantasmagórica Cinemagma
Metalinguagem no quadro feito com gizes de cêra colados
A instigante Mass Media Para Modelar
Quadro Monitor, feito em lã
Leocádia observando por outro ângulo a obra montada com lápis
em sua música você pode ouvir a
linguagem musical,
a gramática do que ele faz."
Elvis Costello
“De todas,
eu realmente gostei das
canções
que eu escrevi com Elvis Costello,
como 'This House Is Empty Now'
e
'God Give Me Strength'.”
Burt Bacharach,
sobre suas composições favoritas
Este disco tem uma história que começa em 1971 com minha mãe, Véra
Marisa de Andrade Moreira. Naquele ano, ela, que gostava de música da sua
época, comprou um disco do maestro e compositor americano Burt Bacharach (aquele da capa verde em que ele está sentado numa
cadeira vermelha e tem "Close to You", "Nikki" e “Wives and
Lovers"). Quem se apaixonou pelo disco fui eu. Ouvia todo o dia. Não
consigo explicar o que me atraiu àquele disco aos 11 anos de idade. Talvez já o
gosto pela boa música.
Pulamos 27 anos. Eu já com 38 anos, soube que Burt Bacharach estava
lançando um disco com Elvis Costello,
inglês que tinha me impressionado 10 anos antes com o disco "Spike".
Não tive dúvidas de que seria um grande disco, mas não estava preparado para o
que ouvi, quando o Schmidt do Guion me disse que a encomenda havia chegado
(sim, não aguentei e comprei importado. Cerca de três meses depois, foi lançado
no Brasil). Era muito melhor do que jamais poderia ter imaginado. Uma simbiose
perfeita entre o "estilo Bacharach" de ser com a finesse de Costello, que conseguiu traduzir em palavras todo aquele
universo que Hal David (o parceiro de Bacharach nos anos 60 e co-autor daqueles
sucessos todos) descortinou. Por isso tudo "Painted
From Memory", de Burt Bacharach & Elvis Costello, lançado em 1998,
é um dos meus discos favoritos.
Tudo começa de forma sombria com a apropriadamente chamada "In The
Darkest Place". Como a maioria das canções deste disco, esta fala de
amores desfeitos, de traições, de tristeza. O protagonista começa dizendo que
está "No lugar mais escuro/ eu sei
que você vai me encontrar/ Apesar de não ter de lhe lembrar/ que eu apaguei as
luzes/ seus olhos se ajustam/ eles jamais serão os mesmos/ Você sabe que eu te
amo/ vamos começar tudo de novo". Está sofrendo, mas não se exime de
culpa deste relacionamento não ter dado certo. Lá pelas tantas, o narrador diz
que “Mas eu tenho de dizer pra mim mesmo/
Você deveria estar com outra pessoa... seus amigos vão vir me dizer/ ‘tente
arranjar um novo amor’/ Ele não vai te amar como eu”. A dor deste
relacionamento fracassado ainda é muito forte. A flauta de Steve Kujala dá o
clima soturno da canção. E os backing
vocals, como em todo o trabalho de Bacharach, fazem uma resposta ao que diz
Costello.
“Toledo” inicia com aqueles flugelhorns
característicos do mestre, tocados em uníssono por Jerry Hey e Gary Grant.
Nesta canção, o narrador é que cometeu a traição. E Costello usa a metáfora das
cidades para contar esta história. “Mas
as pessoas em Toledo sabem que seu nome não tem viajado muito bem/ E qualquer
um em Ohio sonha com aquela cidadela espanhola/ mas não adianta nada dizer que
aquela garota não significou nada/ E que cada pessoa que fitar seus olhos/ não
vai encontrar perdão”. E o contracanto das backing diz: “Você ouve a voz
dela, ‘como você pode fazer isso?’”. A pisada na bola foi das grandes. E a
dor de cotovelo também: “Então eu caminho
pelo sol/ E amantes passam rindo e brincando/ mas eles não sabem o tolo que eu
fui/ Por que deveriam eles se importar com o que foi perdido, com o que foi
quebrado?”. Pobre rapaz, pulou a cerca e dançou.
“I Still have That Other Girl” diz tudo no título. O homem está
terminando o relacionamento porque ainda pensa na outra. E ele não faz questão
de esconder. “Tenho de dizer que nos
deveríamos terminar agora/ Antes que a gente fraqueje porque sabemos que está
errado/ Eu poderia me entregar/ às vezes acho que sim/ apesar da tentação,
tento ser muito forte”. Este discurso todo pra acabar com a atual porque “Eu ainda tenho aquela outra garota na minha
cabeça”. Neste disco, Costello consegue mostrar porque é um ótimo cantor,
pois além de usar toda sua técnica, ainda interpreta cada canção com o cuidado
que merece. E o piano de Bacharach faz a moldura sonora para esta voz brilhar.
Na sequência, o compositor e pianista revisita um grande sucesso seu e
dá uma nova versão para “A House is Not a Home” em “This House is Empty Now”.
Com o violino de Belinda Whitney-Barratt iniciando a melancolia da canção, mais
o baixo fretless de Dave Coy
reforçando, Costello canta: “Estes
quartos brincam com você/ Lembra quando eles estavam cheios de alegria?/ Mas
agora estão desertos/ Eles parecem ecoar as vozes que soaram agressivas/ Talvez
você veja meu rosto refletido na vidraça/ da janela de nosso pobre, infeliz e
quebrado lar/ Ainda esta casa está vazia agora/ Não há nada que eu possa fazer
para que você queira ficar/ Então me diga como deverei viver sem você?”.
Ele não acredita que tudo acabou. “Você
era mesmo tão infeliz?/ Você nunca me disse”. O sofrimento de ver a casa
vazia onde tanta coisa aconteceu é demais para aguentar. Ele não vê saída.
Muito triste. Uma das canções mais melancólicas de todo o disco. E uma
continuação digna do sucesso dos anos 60.
“Tears at the Birthday Party” também é triste, mas o sax barítono de Dan
Higgins e a bateria de Jim Keltner dão um certo alento. “Pense quando éramos jovens/ Sempre haviam lágrimas na festa de
aniversário/ Você sabe quanto as crianças podem ser cruéis/ É como começa/ e se
nós nunca tenhamos aprendido a nos comportar/ Eu fiz algo e você nunca me
perdoou/ Nunca imaginei que seria assim/ Mas agora eu vejo/ eu vejo você
repartindo o bolo com ele/ abrindo presentes que eu deveria ter mandado/ O que
devo fazer?/ Devo ficar te observando?/ fechar a porta, diminuir as luzes e
soprar a vela/ é feliz aniversário de novo”. A tristeza se instala quando
vê sua ex feliz em seu aniversário, abrindo presentes e começando uma nova
vida. Sem ele. E quando a dor aperta, ele diz: “E se nunca aprendermos com nosso erros/ Então, você nunca vai saber
quanto dói meu coração/ Nunca pensei que seria assim”. As backing Donna e Lisa Taylor e Sue-Ann
Carwell se deliciam com o refrão maravilhoso.
Bem no meio do disco está a única canção em que os amores dão certo.
“Such Unlikely Lovers”. Nela, os teclados de Steve Nieve, velho parceiro de
Elvis Costello estão mais proeminentes do que o piano de Bacharach. E isso é
feito de propósito, pois é a faixa que tem também o clima mais pop de todo o
disco. Ele aguarda a chegada de seu amor e, quando ela vem, ele diz: “Ouça agora/ não vou dizer que teremos
violinos/ mas não fique surpresa se eles aparecerem/ tocando em alguma porta/
ainda não acredito no que está acontecendo/ nós somos amantes incomuns”. E
quando fala em violinos eles tocam MESMO! No final, as cantoras perguntam: “você acredita que está acontecendo?” e
Elvis responde: “Estou perplexo”.
Nesta música também a guitarra de Dean Parks, veterano dos estúdios, se faz
presente.
Mas a alegria dura pouco. “My Thief” conta mais uma história triste de
um homem que não se convence de que acabou e todas as noites sonha com seu
ex-amor. “Quando vou dormir, você é minha
ladra”, ele inicia. Mas adiante, ele se entrega: “Me sinto quase possesso/ até que eu não perca este glorioso sofrimento
então/ Você pode levar tudo o que sobrou/ Sei que acabou/ Se você não puder ser
minha amante/ seja minha ladra”. Ele deixa a porta do quarto aberta,
esperando que esta mulher volte um dia para sua alegria. Mas ela não vai
voltar. No final, a mulher em questão responde na voz de Lisa Taylor: “Não te conduzi/ Mas sempre haverá/ um
pequeno incendiário em todo mundo/ Então se acalme e não chore/ Estou tentando
ser amável/ porque eu tenho um álibi perfeito”. Se você não chorou até
agora é porque não tem nenhum tipo de sentimento neste seu coraçãozinho
empedernido!
“The Long Division” inicia com o oboé de Earle Dumler e os teclados do
convidado Greg Phillinganes e conta a história de um triângulo amoroso
complicado. No refrão, o narrador diz: “E
toda a noite você se pergunta/ ‘O que devo fazer?’/ Pode ser tão difícil de
calcular?/ Quando três se transformam em dois, não sobra nada”. Com o
destino já traçado, o narrador tenta ainda se aproximar: “Alguém disse/ Podemos ser amigos?”. Phillinganes faz um solo de moog impensável num disco das antigas de
Bacharach, que, novamente, senta no banco de trás desta música. Separação
embalada com música pop. Até que dá pra superar.
O que não dá é pra aguentar sem chorar é “Painted From Memory”, que é
carregada pelo piano de Steve Nieve e pelo violão e guitarra de Dean Parks,
além de uma seção de cordas inteira. Outra vez, a mulher foi embora e ele só
pode lembrar de seu rosto de memória. No momento mais crucial ele diz: “estes olhos que eu tentei capturar/ estão
perdidos pra mim para sempre/ eles sorriem para outra pessoa/ engraçado, como
as aparências podem enganar/ mas ela não é facilmente lembrada de memória”.
A memória lhe trai e ele está triste exatamente por isso. Porque a imagem do
seu amor se desvanece. Melancolia pura.
“The Sweetest Punch” é mais animada, mas a temática é a mesma: amores
desfeitos. E nesta canção, Costello usa o ringue como metáfora de uma
separação. E, desta vez, a mulher é que desfere “o soco mais suave” do título. “Você abandonou o jogo, não consigo
entender/ não depois de tudo que passamos/ Palavras começam a voar, meu queixo
de vidro e eu encontramos algo que veio direto/ Você me nocauteou/ foi o soco
mais suave/ o sino tocou/ Posso ouvi-lo soar mas não vi chegando/ Todos nos
dizemos coisas que não queremos dizer/ Você não pode retirá-las/ Agora a sala
está girando e eu fui o último a notar?/ Posso ver que nunca vou ganhar/ então,
se você vai, é melhor que vá com ele/ Então é melhor ir com ele”. Depois
disso, uma seção de cordas regida pelo maestro Bacharach carrega o tema musical
até o fim.
Com Burt Bacharach e Elvis Costello, o amor sempre tem este viés de
tristeza e abandono. Em “What’s Her Name Today?”, não importa quem se abandona.
O sentimento é o mesmo. O narrador não sabe o que aconteceu. “Era ela quem levou embora seu orgulho e sua
razão?/ Oh por que você decidiu punir toda garota que encontrou/ para tentar
fazer aquele sentimento sumir?”. Ao perguntar qual é o nome da garota hoje,
ele mostra que, mesmo tentando mudar o cenário, o sentimento é igual.
Pra fechar o disco, uma canção feita de encomenda e que marcou o
encontro dos dois compositores: “God Give me Strength” foi feita para o filme
“A Voz do meu Coração”, que conta a história de uma cantora e compositora que
trabalha nos anos 60 e se apaixona por um cantor de uma banda surf music. O resumo não é dos melhores,
mas é só pra dizer que, a partir desta encomenda, é que surgiu a parceria entre
ambos. Costello pede que Deus lhe dê forças, porque tudo acabou. “Esta canção já foi cantada/ este sino já
tocou/ ela era a luz que me abençoava/ Ela levou minha última chance de ser
feliz/ Então Deus me dê forças... Talvez eu tenha sido lavado como uma marca de
batom na sua camisa/ veja, eu sou apenas humano, eu quero que ele sofra/ Eu
quero que ele/ Eu quero que ele sofra”. Ao dizer isso, Costello imprime uma
marca de ódio e desespero na voz que nos comove, auxiliado pelas cordas sempre
precisas de Bacharach.
É difícil chegar ao fim deste disco sem se comover. Os dois, Costello e
Bacharach, conseguiram fazer um disco onde as temáticas e os estilos de um e de
outro se completem plenamente. E criaram uma obra-prima moderna, utilizando
sonoridades do passado e atualizando-as, sem cair num clima nostálgico
caricatural e nem ser “muderno” demais. Se fosse você, eu pegaria uma dose de
alguma coisa bem forte para ouvir com calma “Painted From Memory”, um disco
cheio de nuances musicais e vocais que merece ser curtido.
vídeo de"God Gve Me Stenght"-Burt Bacharach and Evis Costello
*****************
FAIXAS:
1. In The Darkest Place (4:15)
2. Toledo (4:31)
3. I Still Have That Other Girl
(2:44)
4. This House Is Empty Now (5:08)
5. Tears At The Birthday Party (4:37)
6. Such Unlikely Lovers (3:22)
7. My Thief (4:17)
8. The Long Division (4:11)
9. Painted From Memory (4:11)
10. The Sweetest Punch (4:07)
11. What's Her Name Today? (4:05)
12. God Give Me Strength (6:10)
todas as composições são de autoria
de Bacharach/Costello