domingo, 28 de fevereiro de 2010
sexta-feira, 26 de fevereiro de 2010
"A Onda", de Dennis Gansel (2008)
Na onda d”A Fita Branca”, formação de fascismo, regimes totalitários, etc., por acaso acabou caindo na minha frente logo na seqüência, outro filme onde estes temas reaparecem.Trata-se de “A Onda”, produção alemã de 2008, dirigida por Dennis Gansel, que reproduz fatos reais ocorridos na Califórnia em 1967, mas que ambientado na Alemanha como é, ganha muito mais impacto por todo o histórico daquele país nos âmbitos político e militar.
Um simples exercício didático, uma demonstração prática como tentativa de despertar o interesse dos alunos para uma aula de autocracia, acaba se tornando o estopim para uma espécie de movimento coletivo, que aos poucos, sustentado inicialmente por interesses comuns baseados em igualdade, colaboracionismo, união, revela-se por fim um exemplo de núcleo autocrata tendo como figura central o professor. Os alunos, mesmo submetidos a uma rígida disciplina de sala de aula, acabam por se identificar com os princípios que norteiam a proposta pois vêem naquela possibilidade de formação de grupo vantagens diferentes conforme seus interesses, tais como, inclusão, segurança, identidade, atenção, incentivo, etc.
Em nome do grupo, da unidade, do que se pode fazer juntos, do que se pode conquistar, primeiro se sugere nome, depois uniforme, depois um símbolo, depois uma saudação e dali a pouco a coisa corre de uma maneira desenfreada e o impressionante é como o professor, inocentemente, não vê a proporção que a coisa vai tomando. A erva-daninha estava ali viva o tempo inteiro mas só estava esperando um pouco d’água.
Foi o que o professor deu. (Quase) Todos de certa forma estavam sequiosos por algo assim: interesses em comum demonstrados e conduzidos por um líder, e quando isso lhes foi dado A ONDA cresceu, cresceu e transformou-se em uma pequena unidade fascista mas com potencial perigosíssimo para crescimento. E o mais impressionante é como sempre tem aqueles cabeças fracas, os vidas-vazias, os sem-propósito que acabam adotando coisas como estas como os ideais de vida, pois, afinal de contas não tem nada mais para abraçar.
O filme trata do assunto em uma escola, mas poderia muito bem aplicar-se a outros contextos coletivos como as tais torcidas uniformizadas do Brasil, que vivem se matando, cantando hinos de guerra escondidos atrás de cores clubísticas, por exemplo; ou mesmo, num exemplo mais próximo, dos grupos neonazistas que existem por aí que saem nas ruas espancando os que julgam inferiores. Não é parecido? Símbolos, gestos, hinos, uniformes, cores? Acho que tem mais méritos que defeitos mas com um pouquinho mais de “estrada” do jovem diretor, tenho a impressão que o resultado teria sido melhor ainda.
Cly Reis
"A Fita Branca", de Michael Heneke (2010)
Recomendado pelos prêmios significativos que vem recebendo, como a cobiçada Palma de Ouro em Cannes, “A Fita Branca”, de Michael Heneke, é aquele tipo de filme que não acaba com o final da sessão. O escurecimento gradual da tela com a passagem dos créditos no mais profundo silêncio é um convite à reflexão. As mais variadas sensações e dúvidas ficam suspensas na mente do espectador, e em pouco tempo acabamos por perceber que toda a chamada à trama ao mistério, ao suspense não era mais que uma máscara para a verdadeira intenção do diretor que era o tempo todo se aprofundar na natureza das pessoas e daquela comunidade onde viviam.
Tendo como ponto de partida uma série de incidentes, que se revelam depois propositais, Michael Heneke vai aos poucos saindo do geral para o particular e nos levando a conhecer as famílias de um pequeno vilarejo no interior da Alemanha, suas particularidades e personalidades, mostrando faces brutas, cruéis, invejosas, mesquinhas e preconceituosas, tudo isso inserido em um sistema patriarcal controlado por um barão que se faz impor mais pelo medo que pelo respeito, sempre às voltas também com a religião, que é ponto comum nas famílias naquela pequena sociedade.
Os referidos incidentes, pela reincidência e pelo aumento das gravidades, passam a causar medo nos cidadãos do lugar e aos poucos também a se mostrar como castigos a faltas cometidas. Coisas que acontecem dentro dos lares, desvios de caráter individuais ou injustiças, passam a ser julgados por algum vigilante (ou vigilantes) e atrocidades ou vandalismos são cometidos contra famílias como forma de punição.
Acaba-se criando um mistério, mas aí é que está a questão: ainda que fiquemos com a impressão que um grupo de crianças seja responsável por aquilo, por seu comportamento estranho e formação de grupos; mesmo que sejam eles; este não é o ponto principal, e sim o porquê destas crianças ou fosse lá quem fosse estar movido por aquele ímpeto justiceiro. É o contexto autoritário, é o rigor religioso, são os castigos domésticos, os abusos infantis, tudo contribuindo para a formação de um INDIVÍDUO repressor.
Devo admitir que tinha-me passado despercebido, e somente depois lendo uma crítica do filme, que me alertei para o fato de que o narrador (um professor morador da vila), anos depois nas suas reminiscências, ao relatar os fatos, os classifica como fundamentais para se entender os acontecimentos que se sucederiam nas décadas seguintes na Alemanha. Na concepção do diretor, o narrador por certo se refere à formação da sociedade que resultou no nazismo. Que aquele tipo de contexto social, autoritário, patriarcal, segregaconista, às portas da 1° grande guerra, acabaria por formar os indivíduos que moldaram a política fascista que culminou na 2° Guerra Mundial. A própria representação da fita branca no braço das crianças, para lembrar da sua pureza, tem como intenção esta alusão aos judeus dos guetos com suas braçadeiras com a estrela de Davi, usadas como forma de diferenciação.
Bom..., aceitável enquanto influência, impulso, mote, mas espero que o sr. Michael Heneke não tenha se enganado e encarado isto como uma desculpa, do tipo, um psicopata fatiou a namorada porque o pai batia nele. Não serve. Por mais que aceitemos que o sistema interno da Alemanha e do seu povo pré-1° guerra, já contribuísse para o que acabou se tornando, não servirá de justificativa para o Holocausto e para todas as atrocidades cometidas durante a 2° Guerra. Se não é por ai, a causa apresentada é válida sim, mas apenas se somada a outras tantas. Jamais sozinha.Temática ousada, técnica apurada, qualidade, suspense e beleza plástica. Ingradientes que fazem de "A Fita Branca" um programa sem risco de arrependimento.
Segue abaixo um trecho de uma entrevista do diretor, que dá uma idéia das pretensões dele com “A Fita Branca”:
“Não ficaria feliz se esse filme fosse visto como um filme sobre um problema alemão, sobre o nazismo. Este é um exemplo, mas significa mais que isso. É um filme sobre as raízes do mal. É sobre um grupo de crianças, que são doutrinadas com alguns ideais e se tornam juízes dos outros – justamente daqueles que empurraram aquela ideologia goela abaixo deles. Se você constrói uma idéia de uma forma absoluta, ela vira uma ideologia. E isso ajuda àqueles que não têm possibilidade alguma de se defender de seguir essa ideologia como uma forma de escapar da própria miséria. E este não é um problema só do fascismo da direita. Também vale para o fascismo da esquerda e para o fascismo religioso. Você poderia fazer o mesmo filme – de uma forma totalmente diferente, é claro – sobre os islâmicos de hoje. Sempre há alguém em uma situação de grande aflição que vê a oportunidade, através da ideologia, para se vingar, se livrar do sofrimento e consertar a vida. Em nome de uma idéia bonita você pode virar um assassino.”
Cly Reis
terça-feira, 23 de fevereiro de 2010
Jorge Ben, "Samba Esquema Novo" (1963)

“Uma noite no Bottle’s Bar, ainda meio vazio, ouvi um mulato forte e bonito cantando e tocando um violão muito diferente(...) Ele não dedilhava o violão mas tocava-o com a mão inteira, rítmico e percussivo, à maneira dos bluesmen. Mas o que ele tocava era indiscutivelmente samba, mas um samba muito diferente...”
Trecho de “Noites Tropicais”,
de Nélson Motta
de Nélson Motta
Acabei de adquirir, há poucos dias, substituindo o meu “piratinha”, um dos mais importantes álbuns da discografia nacional; um daqueles discos revolucionários em linguagem, estilo e inovação. Trata-se do clássico “Samba Esquema Novo” disco de estréia de Jorge Ben, lançado em 1963 mas que permanece vanguardista e influente até hoje.
Toda essa onda de samba-rock; Seu Jorge, Otto, Lenine, Mundo Livre S/A; todos estes e muitos outros não seriam quem são nem teriam feito o que fazem sem a existência do “Samba Esquema Novo”. Diria mais: talvez de forma indireta, talvez por conexões desconhecidas, talvez pela própria expansão natural interfronteiras da música ou por correntes marinhas do Atlântico, mas vejo no pop rock inglês, principalmente do início dos ’90, muito da linguagem proposta neste álbum e que viria a se aprimorar e ficar mais clara nos discos seguintes, principalmente no grande "Tábua de Esmeraldas" de ‘74.
Sempre lembro da descrição de Nélson Motta, no seu ótimo “Noites Tropicais”, da primeira vez que ouviu Jorge Ben: “ele não dedilhava o violão, mas tocava com a mão inteira”. Tocava samba como se tocasse rock. E seria simplificar dizer que aquilo se resumisse a um dos dois estilos ou que fosse apenas uma conjugação dos dois. Era mais. Era jazz, funk, soul, blues, gafieira e um “misto de maracatu” como anunciava a letra da sua “Mas que Nada”. Jorge Ben talvez não soubesse o que estava fazendo ali, mas com “Samba Esquema Novo” ele revolucionava de novo a música brasileira, mesmo inserido num contexto absolutamente criativo e inovador como era a Bossa-Nova.
A já citada “Mas que Nada”, abrindo o disco, já dava o cartão de visitas, apresentando todo aquele misto inusitado até então. “Tim Don Don”, que a segue, é a única não composta por Jorge, mas se presta perfeitamente para esmiuçar a levada, com onomatopéias atribuídas ao som do violão que quase explicavam o som que o garoto estava fazendo ali.
“Rosa, Menina Rosa”, uma das melhores do disco, que acrescenta à mistura do cantor uma atmosfera meio espanhola por conta de seus metais, dá o recado de que aquele samba é capaz de passar muita gente pra trás. “Menina Bonita Não Chora” é outra das grandes do álbum, e as conhecidas “Chove Chuva” e “Balança Pema”, regravada depois por Marisa Monte, são outros grandes momentos do álbum. “Por Causa de Você, Menina”, que encerra a obra em grande estilo, traz aquele “voxê” que o cantor fazia em homenagem a uma pequena fã, e que muita gente na época acreditava ser um problema de dicção. Mesmo que fosse isso... Mesmo que fosse gago, não invalidaria o baita disco que é esse “Samba Esquema Novo”.
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FAIXAS:
1. Mas que Nada (Jorge Ben)
2. Tim dom dom (João Mello - Clodoaldo Brito)
3. Balança Pema (Jorge Ben)
4. Vem Morena, Vem (Jorge Ben)
5. Chove Chuva (Jorge Ben)
6. É Só Sambar (Jorge Ben)
7. Rosa, Menina Rosa (Jorge Ben)
8. Quero Esquecer Você (Jorge Ben)
9. Uala Ualalá (Jorge Ben)
10. A Tamba (Jorge Ben)
11. Menina Bonita Não Chora (Jorge Ben)
12. Por Causa De Você, Menina (Jorge Ben)
“O samba de Jorge Ben, da batida de seu violão à linha melódica e letra de suas composições revela um novo caminho nos horizontes de nossa música popular. É o esquema novo do samba(…) Seu inato talento musical proporcionou-lhe descobrir uma nova puxada para o nosso samba, fazendo do violão um instrumento, sobretudo, de ritmo (…) Somente o violão de Jorge já da a necessária marcação dispensando, portanto, aquele instrumento de ritmo. O balanço do acompanhamento repousa quase sempre no seu violão”.
Trecho do texto da contracapa original de 1963, de Armando Pittiglianni
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