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quinta-feira, 16 de novembro de 2017

cotidianas #537 - Escolhas



A agulha deslizava suavemente sobre o vinil, tão docemente quanto as mãos dela costumavam fazer sobre seu rosto. Não mais. Ela não estava mais lá. Sentia falta dela. Aquela era a música deles, ou melhor,... havia sido.
Deitado e abraçado à capa do disco, uma lágrima escorria-lhe pelo rosto. Lembrava dela. Não queria ter feito o que fez mas ela não lhe dera escolha. Onde já se viu fazer um cara escolher entre ela e seus discos? Ainda mais um cara como ele. Ela não tinha a mínima chance.
Mas, diabos! Não podia negar que ainda pensava nela. Aqueles olhos, aquele cabelo, aquela boca... Ah! Aquela era a melhor parte. Adorava aquele solo.





Cly Reis

quarta-feira, 15 de novembro de 2017

Música da Cabeça - Programa #33



“Diga 33”. Não, não é o pneumotórax. É o Música da Cabeça, em sua 33ª edição, trazendo aquela salada musical indistintamente curiosa e interessante. Quer saber um pouco do que vai rolar? Então, prende a respiração: vai de Cream a Gang of Four, de Gilberto Gil a Cibo Matto, de Paulinho da Viola a The Temptations. Sacou a “interessância”? Então, fecha teu feriadinho do dia 15 de novembro escutando o programa hoje, às 21h, na Rádio Elétrica. Fará bem aos pulmões e ao coração, podem ter certeza. Produção, apresentação e auscultação: Daniel Rodrigues.


Ouça: Programa #33

terça-feira, 14 de novembro de 2017

segunda-feira, 13 de novembro de 2017

Madeleine Peyroux - Teatro Bourbon Country - Porto Alegre/RS (09/11/2017)



Pra começar, um aviso: se você é fã da cantora Madeleine Peyroux, não siga em frente. Você vai ficar muito irritado e vai me xingar, me destratar e até vai ter vontade de me dar uns tapas. Por quê? Porque nunca gostei de sua voz (aquele timbre "billieholidayesco" só funciona com a própria) e acho que o resultado final de sua música é mediano. Não tem brilho.

Com seus músicos no palco
Posto isso, depois de ignorar os shows anteriores dela, resolvi dar uma chance de ser surpreendido. Afinal, a formação é jazzística - violão e ukulele mais guitarra e baixo acústico – para o show no Teatro Bourbon Country, em Porto Alegre. E o guitarrista era o grande Jon Herrington, que toca com o Steely Dan há muito tempo.

O show começou morno, demorando pra deslanchar. Diga-se a favor de Peyroux, que ela foi muito simpática ao se comunicar com a plateia em português. Musicalmente, os altos momentos foram "A Good Man is Hard to Find", dedicada às mulheres; "Everything I Do Gonna be Funky", do mestre de New Orleans, Allen Toussaint; e até mesmo "um cantchinho e um violaaaao", "Corcovado". Em compensação, o pior veio logo depois: uma versão horrorosa de "Água de Beber", também de Tom Jobim, interpretada ao ukulele, como se o maestro tivesse vivido em Maui, ao invés do Rio.

Para salvar o show, Peyroux e seus rapazes puxaram da cartola "Dance me to the End of Love", de Leonard Cohen, no encerramento. Ainda não foi desta vez que Madeleine Peyroux me convenceu. Não sei se terá outra chance.

texto: Paulo Moreira
fotos: Cris Moreira/Divulgação

sábado, 11 de novembro de 2017

"Sobre Gatos", de Charles Bukowski - ed. L&PM (2017)



O Velho Safado amolecido por essas adoráveis bolas de pelo que tanto amamos.
"Em grave divindade
meu gato vagueia sem rumo."



Assim que dei de cara com o título "Sobre Gatos" num livro de Charles Bukowski me interessei imediatamente intrigado pelo tipo de relação que este escritor pelo qual tenho grande admiração teria estabelecido com os bichanos e pela forma como isso colocaria e abordaria isso em seu texto. E o que encontrei nas páginas desta coletânea, quase predominantemente de poemas, em sua maioria inéditos, foi um Buk extremamente terno, generoso e encantado com os amigos felpudos. Bukowski que em seus últimos anos de vida passara a adotar gatos que apareciam em sua porta e tendo afeiçoado-se a eles chegara a ter nove ao mesmo tempo, revela uma identificação com estes bichos, especialmente pelos que chegavam à sua porta estropiados, judiados pelas ruas e pela vida, assim como ele mesmo ("O doutor falou: "Esse gato foi atropelado duas vezes, já levou tiro, o rabo foi cortado fora". Eu disse: "Esse gato sou eu". Ele apareceu na porta morrendo de fome. Sabia direitinho onde vir. Somos ambos vagabundos saídos das ruas."). Assim, os recebia, os acolhia e os admirava. Valorizava-os pela garra, pela bravura, pela resistência mas ao mesmo tempo pela classe, pela elegância, pela tranquilidade chegando a invejar a capacidade de se desligar do que não importa e deixar pra lá o que já passou ("eu sei. eu sei. eles são limitados, tem diferentes necessidades e preocupações/ mas observo e aprendo com eles. gosto do pouco que eles sabem que é tanto/ eles reclamam mas nunca se inquietam. caminham com uma dignidade surpreendente. dormem com uma simplicidade direta que os humanos simplesmente não conseguem entender.").
Nosso Velho, aqui muito mais sábio do que safado, do alto de sua experiência de vida e de sua capacidade de observação e síntese, desfila pequenos textos e poemas que contrastam sua tradicional crueza, rabugice e pessimismo com doses de sensibilidade e doçura ("adormecido na cama eu desperto e seu nariz está tocando o meu nariz e aqueles grandes olhos amarelos SONDANDO o que resta de minha alma/ a aí eu digo - sai, desgraçado! tira esse nariz do meu nariz(...)"). Por sua sinceridade e autenticidade, Bukowski, que na minha opinião, já é um autor que, independente do formato (poesia, crônica, conto, romance) pode ser recomendado para qualquer um que aprecie uma boa literatura sem frescura, no caso de"Sobre Gatos", em especial, para quem tem ou já teve um dessas apaixonantes e enigmáticas bolas de pelo em casa, mais do que recomendável, o livro passa a ser uma pedida indispensável.  




Cly Reis