A T.N.T. pode não ser necessariamente a melhor banda gaúcha de todos os tempos, haja vista que tem Os Replicantes, De Falla, Engenheiros do Hawaii, Liverpool, Cascavelletes, Saracura... Mas uma coisa não se tem dúvida: eles são a banda mais icônica do rock ‘n’ roll no Rio Grande do Sul. Criado há 40 anos, esse histórico grupo tanto para o rock da terra da bombacha quanto para o Brasil celebrou as quatro décadas de lançamento do seu memorável primeiro e homônimo disco num disputado show no Auditório Araújo Vianna, que lotou de fãs para ouvi-los e cantar seus clássicos.
Por falar em clássico, foi assim que iniciaram a apresentação: emendando nada menos que três de seus maiores sucessos: “Entra Nessa”, “Ana Banana” e “Identidade Zero”. Ufa! Um começo arrasador.. Porém, de certa forma parece que Charles Master, Márcio Petracco, Tchê Gomes, João Maldonado, Fábio Ly, Paulo Arcari e Felipe Jotz gastaram metade da pólvora antes do primeiro quarto de batalha. Não que depois tenha necessariamente decaído ao tocaram músicas menos conhecidas ou tão aclamadas, mas o som mal equalizado (que embolava os sons e dificultava que se entendesse aquilo que já não se sabe de cor), somado à longa duração do show inteiro, deu um certo cansaço.
Mas tudo bem, afinal, show de rock de verdade passa por cima de som ruim ou algum equívoco de repertório, e o público compareceu mesmo para vê-los tocar as músicas que uma geração inteira de gaúchos cresceu ouvindo nas rádios. Caso de “Irmã do Dr. Robert” e “Oh Deby”, esta última, assim como as três citadas do começo do show, composições de autoria de Flávio Basso (ou Júpiter Maçã ou Jupiter Apple). Aliás, ou eu não entendi pelo som embolado das falas entre as músicas ou ninguém mencionou Flávio, que, convenhamos, é o arquiteto da T.N.T., a cabeça mais criativa não só da banda, mas de todo o rock gaúcho em todos os tempos. Estranho...
Além do disco de estreia, teve também coisas das outras fases, como os hits “Não Sei” (“Não sei se eu tô certo ou se eu tô errado/ Mas faço tudo o que eu digo e digo tudo que eu faço”), “Não Vai Mais Sorrir (Pra Mim)” (ambas de “TNT nº 2”, de 1988 e já sem Flávio na formação), “Noite Vem, Noite Vai” e “Quem Procura Acha”, duas do terceiro álbum de estúdio da T.N.T., de 1991. O público gostou.
O hit "Não Sei" com sua melodia a la "Sweet Jane"
Rolou ainda uma participação da Orquestra Rosariense, que não acrescentou muito, na verdade. Tanto que a banda tocou, no bis, exatamente as músicas que haviam rearranjado para as cordas, “Muito Cuidado” e “Nunca Mais Voltar”. Mais para o final, teve outra consagrada, “Cachorro Louco”, desses rocks imbatíveis, dos melhores do BRock anos 80. Para encerrar, “O Mundo É Maior Que o Teu Quarto”, da Cowboys Espirituais, uma das corruptelas da T.N.T. assim como a Tenente Cascavel e a Cascavelletes. Baita música, regravada por gente como Barão Vermelho, mas que, por não terem dosado melhor a narrativa do show e gastado as melhores lá no início, talvez não fosse a mais indicada para encerrar.
Mas, de novo, tudo bem! A noite foi para celebrar o bom e velho rock ‘h’ roll, o que a T.N.T. representa no mais alto grau. Deixa pra lá a acústica ruim, o andamento do repertório. O negócio foi “entrar nessa” e “dançar um rock ‘n’ roll”. Foi o que fizemos - e foi legal.
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Começa o show da lendária T.N.T.
Acompanhando a letra no telão de "Entra Nessa",clássico do rock gaúcho
Entrando nessa com "Entra Nessa"
"Ana Banana" no começo do show pondo
todo mundo pra cantar
Repertório do primeiro e dos outros discos da banda compuseram o show
A T..N.T. canta outra clássica:
"A Irmã do dr. Robert"
Mais clássicos
Tocando "Nunca Mais Voltar", das preferidas da galera
Estes dois roqueiros felizes por ver a T.N.T. celebrando os 40 anos de sua estreia
Final da competição evidencia a leniência da EBU em relação a Israel
porJoão Pedro Gomes Bernardes
Pelo terceiro ano consecutivo, a maior competição musical do mundo ficou a um passo de sua maior desafinada. Até o último segundo, as dez mil pessoas presentes no Wiener Stadthalle, em Viena, no último sábado, e as cerca de 160 milhões assistindo pela televisão ficaram apreensivas, esperando para saber se a septuagésima edição do Eurovision Song Contest terminaria com uma vitória de Israel, um país responsável pelo genocídio de mais de setenta mil palestinos e que tem usado do festival como instrumento para simular um apoio da população europeia a suas ações. No final, o título ficou com a Bulgária, mas o sinal de alerta, que já estava aceso, ficou ainda mais evidente.
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O que é o Eurovision? Por que Israel pode participar?
O Eurovision Song Contest é uma competição musical organizada pela União Europeia de Radiodifusão (EBU, sigla em inglês para European Broadcasting Union) desde 1956. Anualmente, cerca de 38 emissoras públicas europeias escolhem um artista e uma canção para representar seus países no festival, que já revelou nomes como ABBA, Céline Dion e Måneskin.
Após uma maratona de três shows – duas semifinais e a grande final –, o vencedor do festival é determinado por uma combinação de pontos dos júris e do público, que se equivalem. Cada país possui um júri composto por sete profissionais da música, que distribuem pontos para as suas dez canções preferidas: doze pontos para a primeira colocada, dez para a segunda, oito para a terceira e, de forma decrescente, de sete a um ponto para as demais. Os telespectadores, por sua vez, votam através de diferentes meios, dependendo do país onde estão – telefone, SMS, site ou aplicativo –, e os pontos são atribuídos da mesma forma. É importante mencionar que, por uma questão de justiça, o júri e o público não podem votar no país em que fazem parte. Em caso de empate na soma final, o televoto é soberano.
Dara comemora o título do Eurovision 2026 | Crédito: Corinne Cumming/EBU
Podem participar do Eurovision emissoras públicas associadas à EBU, cuja área de atuação abrange quase toda a Europa (excluindo partes da Rússia), o norte da África, a região do Cáucaso (ao sul da Rússia, entre os mares Negro e Cáspio) e parte do Oriente Médio. Essa determinação, conhecida como Área Europeia de Radiodifusão, foi definida pela União Internacional de Telecomunicações em 1961 e revisada com o passar dos anos, o que permite a participação de países não-europeus no concurso, caso de Israel.
A participação de Israel ao longo dos anos
A primeira participação de Israel no festival ocorreu em 1973, na Cidade de Luxemburgo. A representante do país na ocasião foi Ilanit, que terminou na quarta posição. Para Ricardo Rios, professor de comunicação da Universidade Federal de Lavras, em Minas Gerais, e pesquisador da relação entre Eurovision, política e relações internacionais, a entrada de Israel no festival contribuiu para a expansão do senso nacionalista entre a população israelense: “Quando Israel decide se associar à EBU e entrar no Eurovision, havia um movimento para definição do que seria o estado israelense porque, até então, o Estado de Israel era visto como uma extensão da religião judaica. Com base nisso, Israel começou a investir muito na escrita das músicas e nas apresentações até que conseguiu vencer. Vários autores dizem que o que criou a noção cultural e nacional do Estado de Israel foi a participação no Eurovision”.
Até 2026, Israel tem quatro títulos do festival. O primeiro veio em 1978, com Izhar Cohen e o grupo Alphabeta, seguido pelo grupo Milk and Honey logo em 1979, em uma edição realizada em Jerusalém. Dana International, primeira pessoa trans a competir no Eurovision, deu ao país seu terceiro título em 1998, enquanto Netta Barzilai levou o troféu para o país mais recentemente, em 2018.
A participação de Israel, no entanto, nunca foi tópico de consenso entre os participantes do festival. Em 1979, a Turquia desistiu de enviar um participante a Jerusalém devido à pressão imposta por países árabes; no ano seguinte, quando Israel optou por não competir devido à data do concurso coincidir com um feriado religioso, o Marrocos participou do festival pela
primeira (e até agora, única) vez; já em 2005, o Líbano faria sua estreia na competição, mas se viu forçado a desistir após a EBU impedir que o país interrompesse a transmissão no momento em que Israel entrasse no palco. Mais recentemente, na edição de 2019, em Tel Aviv, integrantes do grupo islandês Hatari mostraram faixas com a bandeira palestina, para vaias do público presente na arena.
Hatari mostra faixas com a bandeira Palestina | Reprodução: EBU
Política no Eurovision: o negacionismo da EBU
Segundo as regras do festival, o Eurovision é “um evento internacional de entretenimento e deve permanecer estritamente apolítico. Para proteger sua integridade artística e cultural, o ESC não deve ser usado como plataforma ou fórum para expressão política, ativismo, controvérsia ou promoção de causas ou agendas externas”. Esta afirmação foi colocada em prática várias vezes com a finalidade de desclassificar canções com subtexto político, como nos casos da Geórgia em 2009, que havia selecionado uma canção com referências ao então primeiro-ministro russo Vladimir Putin (a edição daquele ano foi realizada exatamente em Moscou), e de Belarus em 2021, cuja canção escolhida dava a entender um apoio do grupo Galasy ZMesta às medidas opressivas do governo de Aleksandr Lukashenko.
Esta regra, segundo a EBU, está em vigor para evitar que o concurso entre em descrédito. No entanto, são vários os exemplos ao longo da história de canções que, de uma forma ou de outra, foram utilizadas para reforçar mensagens políticas. Este movimento se dá desde a primeira edição do festival, em 1956: um dos representantes da Alemanha, Walter Andreas Schwarz, era um sobrevivente do Holocausto e cantava sobre a perspectiva de um futuro melhor e reconhecimento dos erros cometidos no passado.
Outro caso emblemático se dá poucas semanas após a edição de 1974. O concurso daquele ano, vencido pelo icônico ABBA teve, empatada na última posição, a representante de Portugal, “E depois do adeus”, interpretada por Paulo de Carvalho. Apesar do impacto quase nulo que teve no palco de Brighton, a canção foi utilizada como um sinal para dar início à Revolução dos Cravos, que pôs fim a quase cinquenta anos de ditadura no país.
O jornalista Matheus Rodrigues, do portal Kolibli, defende que o Eurovision nunca foi apolítico, como insiste a EBU: “Esconder [o aspecto político], fingir que isso não acontece, talvez piore a situação. Para eles, como autoridades que coordenam o concurso, é legal que o festival não seja político, que seja sobre a música. Mas não é bem assim”. Para Rodrigues, o atual momento de politização do Eurovision tem início em meados da década de 2010, com o aumento do sentimento anti-Rússia na sociedade ocidental: “A partir dali, houve uma cisão que perdura até hoje”, afirma.
Em 2016, a representante ucraniana em Estocolmo foi a cantora Jamala, com o tema “1944”. A canção trata, em sua letra, da deportação do povo Tártaro da região da Crimeia pelo governo soviético, à época chefiado por Josef Stalin. Apesar de protestos da delegação russa, que vincularam a canção à disputa em andamento pelo território da Crimeia entre Rússia e Ucrânia, a canção foi liberada pela EBU e, em 14 de maio, deu à Ucrânia seu segundo título do festival.
Em 2022, após a invasão ao território ucraniano, a Rússia foi excluída do Eurovision em um movimento sem precedentes. Já a Ucrânia, mesmo com uma canção que, por si só, não carregava mensagens políticas, foi aclamada pela comunidade eurovisiva, que deu ao país sua terceira vitória. Seus representantes, o grupo Kalush Orchestra, receberam 192 pontos do júri e 439 do público, resultando em 631 pontos – a segunda maior pontuação total e maior televoto da história do festival.
A invasão russa à Ucrânia e o precedente aberto, mas não utilizado
Na madrugada de 24 de fevereiro de 2022, após semanas de tensões políticas entre os dois
países, tropas da Rússia invadiram o território ucraniano, dando início a um período de quatro
anos de uma guerra que parece não ter fim. A resposta da comunidade internacional foi
imediata: uma série de sanções econômicas à Rússia foi anunciada por uma ampla coalizão
internacional comandada por Estados Unidos, União Europeia e Reino Unido, como a
exclusão do país do sistema Swift, o mais usado para transações bancárias internacionais, e o
rompimento de contratos de fornecimento de energia. No âmbito esportivo, a FIFA excluiu a
Rússia das Eliminatórias para a Copa do Mundo de 2022, enquanto os Comitês Olímpico e
Paralímpico Internacional baniram o país de seus eventos – ambas as sanções seguem em
vigor.
A primeira manifestação da EBU em relação a uma participação russa no Eurovision daquele
ano se deu no mesmo dia da invasão, através de um e-mail enviado à emissora sueca SVT,
indo na contramão das demais entidades internacionais: “as emissoras-membro da Rússia e
da Ucrânia se comprometeram a participar no evento deste ano em Turim, e planejamos
receber os artistas dos dois países em maio”. O comentário da entidade foi recebido de forma
negativa pelas emissoras participantes do festival, que ameaçaram boicotar a edição daquele
ano caso a EBU mantivesse sua posição. No dia seguinte, a decisão foi revertida: “a inclusão
de um participante russo no festival [daquele] ano levaria a competição ao descrédito”. Além
disso, a entidade suspendeu as três emissoras russas associadas – RTR, Channel One e RDO.
Em resposta, as três emissoras anunciaram sua saída da EBU.
A decisão da EBU de remover a Rússia do festival costuma ser considerada por muitos um
precedente válido que justifica uma eventual exclusão de Israel. Entretanto, há uma série de
fatores que diferenciam as duas situações, como explica o jornalista holandês GJ Kooijman:
“a discussão sobre a expulsão da Rússia da EBU se referia à adesão das emissoras à entidade.
O que nós vemos com a Kan e a decisão que foi tomada no ano passado [de mantê-los no
concurso], foi que a direção decidiu não tomar nenhuma decisão, segundo rumores, porque a
Alemanha e a Áustria, que fazem parte da direção, se recusaram a serem acusadas de
participar da decisão e, assim, levaram o assunto a uma votação entre todos os membros”.
O festival como propaganda: a participação israelense em meio ao genocídio
O dia 7 de outubro de 2023 entrou para a história devido a um dos mais significativos ataques
terroristas dos tempos atuais. No começo da manhã, hora local, cerca de 5 mil projéteis
lançados pelo grupo Hamas atingiram uma série de alvos em território israelense, como
kibutz, bases militares e um festival de música. Segundo estimativas, 1.195 pessoas foram
vítimas do massacre, outras 251 foram sequestradas e mais de 3,4 mil ficaram feridas.
O que se seguiu ao ataque foi o que inúmeros organismos internacionais classificaram como
genocídio: nos dois anos e meio desde aquele fatídico 7 de outubro, mais de setenta mil
palestinos foram assassinados pelas Forças de Defesa de Israel, sendo mais de vinte mil delas
crianças. Segundo relatório da Comissão de Inquérito Independente do Conselho de Direitos
Humanos da ONU, chefiada pela jurista sul-africana Navi Pillay, as autoridades israelenses
cometeram quatro atos que caracterizam um genocídio: “assassinato, danos físicos e mentais
graves, provocar deliberadamente condições de vida calculadas para causar a destruição de
um povo e impor medidas para impedir nascimentos”.
A partir de então, o governo israelense tem tentado, de várias maneiras, construir uma
narrativa que legitime suas ações na Faixa de Gaza, alegando buscar a neutralização do
Hamas. Uma das formas utilizadas tem sido simular um apoio massivo da comunidade
internacional a Israel através do Eurovision Song Contest. Segundo reportagem do jornal The
New York Times, apenas em 2024, primeira edição do festival desde o ataque, o governo
israelense investiu cerca de 710 mil euros (quase quatro milhões de reais, na cotação da
época) em marketing voltado não apenas aos fãs do festival, mas àqueles que apoiam
ideologicamente o regime de Benjamin Netanyahu. Entre as táticas mais utilizadas está a
criação de vídeos em vários idiomas, sempre reforçando a mesma informação: era possível
votar até vinte vezes por meio de pagamento.
Para a primeira edição do Eurovision desde o começo do conflito, em 2024, a artista
escolhida para representar o país foi Eden Golan, então com 20 anos de idade. A canção
escolhida foi “October Rain”, escrita por Avi Ohayon, Keren Peles e Stav Beger, e que
referenciava de forma direta o ataque de 7 de outubro. A primeira versão do tema não foi
aprovada pela EBU, que constatou a presença de mensagens políticas na letra. Após um
processo de reescrita, incentivado pelo presidente Isaac Herzog, a canção transformou-se em
“Hurricane”, uma música romântica, mas que ainda carregava um subtexto político. Na final
do concurso, em 11 de maio, Israel terminou em segundo lugar no televoto e quinto na
classificação final. O país recebeu a pontuação máxima de catorze outros países, além do
chamado “Resto do Mundo”, mostrando que a campanha de incentivo à votação em massa
funcionou. O título daquela edição ficou com a Suíça, de Nemo.
Já em 2025, a representante de Israel na Suíça foi Yuval Raphael, sobrevivente do ataque ao
Festival Nova, em 7 de outubro de 2023. A canção, “New Day Will Rise”, também foi
criticada por membros da comunidade eurovisiva por seu subtexto político, mas nenhuma
atitude foi tomada pela EBU. A campanha organizada pela emissora Kan em favor da votação
em massa em favor de Israel, apoiada pelo governo do país, surtiu um efeito ainda maior do
que na edição anterior: vitória no televoto e segunda posição na classificação final. O troféu,
desta vez, ficou nas mãos do austríaco JJ.
O resultado de 2025 colocou ainda mais pressão nas costas da EBU. Preocupadas com o
rumo tomado pelo concurso após as crescentes alegações de manipulação de resultados a
favor de Israel, emissoras como a espanhola RTVE e a holandesa AVROTROS solicitaram à
entidade a realização de uma consulta às demais participantes sobre a participação israelense
no festival. O pedido foi inicialmente atendido e uma votação foi marcada para novembro,
mas com a assinatura de um acordo de cessar-fogo, em outubro, a EBU optou por transferir a
decisão para a reunião de sua Assembleia Geral, em dezembro. Na reunião, apesar da pressão
imposta por algumas emissoras, a EBU decidiu condicionar a votação sobre a participação de
Israel ao resultado de outra, sobre a satisfação dos membros em relação às novas regras
anunciadas no mês anterior, como a redução do número máximo de votos por meio de
pagamento de vinte para dez. 65% dos votantes aprovaram as mudanças e,
consequentemente, a permanência de Israel no festival. Em resposta, cinco países anunciaram
boicote à edição de 2026: Eslovênia, Espanha, Holanda, Irlanda e Islândia. Outras emissoras,
como a portuguesa RTP, foram alvo de protestos de sua própria força de trabalho, que
demandava um apoio ao boicote.
Para representar o país em Viena, a emissora israelense Kan selecionou o cantor Noam Bettan
e sua “Michelle”, música romântica e, ao contrário de suas antecessoras, sem apelo político.
Durante a apresentação do país na primeira semifinal, foi possível ouvir na transmissão
oficial do concurso o protesto de alguns membros da plateia, que gritavam: “parem o
genocídio”. Ainda assim, Bettan repetiu o vice-campeonato do ano anterior graças a um
surpreendente apoio dos júris, que o deixaram na oitava colocação. A campanha em prol da
votação em massa, no entanto, teve um resultado abaixo do esperado: Israel ficou apenas na
terceira posição entre os telespectadores, atrás da campeã, Bulgária, e da Romênia.
Existe um futuro para o Eurovision?
O momento atual do Eurovision Song Contest pede cautela. Nos últimos três anos, aqueles
que acompanham fielmente o festival passaram grande parte do tempo preocupados com o
que poderia vir a acontecer em caso de uma eventual vitória de Israel: o concurso seria
realizado em Tel Aviv, mesmo com a guerra? Quantos países permaneceriam no festival?
Qual seria o impacto em termos de audiência?
Para Rodrigues, a permanência de Israel no concurso pode levar a efeitos práticos, como o
aumento constante das discussões políticas – algo que, apesar da negação da EBU, ocorre de
forma recorrente –, e simbólicos, como uma “fuga dos cérebros”: “Muitos artistas que
participaram do Eurovision 2024 falaram mal da experiência, que tinham medo de algo
acontecer, ou da delegação de Israel, que era completamente inadequada. E os artistas falam
uns com os outros. Eu não consigo imaginar pessoas mais engajadas politicamente, como a
Konstrakta, voltando para um Eurovision assim”.
Na última quinta-feira, dia da segunda semifinal do concurso, a EBU lançou uma pesquisa
entre seus fãs a fim de conhecer melhor seu público e entender o que eles acreditam que pode
ser melhorado nas edições seguintes. Kooijman acredita que a pesquisa não serve apenas para
melhorar a experiência dos fãs, mas também para buscar formas de manter a viabilidade
financeira do festival: “O que a EBU percebeu é que [o Eurovision] é uma grande marca, tão
grande quanto o Grammy ou o Oscar. Essa pesquisa serve a um propósito de entender quem é
o público principal do festival e, como pesquisa de marketing, definir esse público a fim de
atrair mais patrocinadores, porque o concurso precisa de mais dinheiro. Por quê? Não é
porque países estão deixando de participar, mas porque tudo está mais caro, incluindo os
avanços tecnológicos”.
Rios, por sua vez, acredita que o próximo passo para a definição do futuro do Eurovision
precisa vir de uma reflexão interna da própria EBU: “A EBU precisa se sentar com o Grupo
de Referência do Eurovision, que é quem faz as regras do concurso, e com a produção do
evento para entender o seguinte: ‘o que a gente quer para o futuro?’. Porque a própria Europa
está questionando muito isso. Você tem a Anistia Internacional condenando, você tem a ONU
condenando, você tem o público condenando, as emissoras associadas condenando,
questionando: ‘por que com a Rússia foi de um jeito e com Israel não está sendo feito o
mesmo?’”.
O futuro da maior competição musical do mundo está por um fio. E enquanto a EBU não
toma uma posição coerente com a realidade dos fatos, é muito difícil voltar a sonhar com o
dia em que o Eurovision seja, acima de tudo, uma ferramenta de união entre os povos através
da música.
Lobão é um chato de galocha, que fala muita bobagem boca afora, mas que, convenhamos, às vezes tem bons lampejos. Em uma entrevista recente dele na qual falava sobre heavy metal, justificando porque não gosta de Iron Maiden, o velho roqueiro brasileiro argumentou que bandas como esta e várias outras nessa linha perderam, da metade dos anos 70 em diante, a veia negra do rock, presente em Deep Purple, Black Sabbath e Led Zeppelin, e passaram a investir numa injustificável (e branca) atmosfera nórdica. No alvo, sr. Lobão. Assistindo a Living Colour, a banda norte-americana formada integralmente por músicos negros há 40 anos, fica fácil entender onde o rock pesado desviou a rota. Verdadeiros herdeiros de Little Richard, Chuck Berry, Sister Rosetta Tharpe e Jimi Hendrix, mas também de James Brown, Sly Stone, Aretha Franklin, George Clinton, Chaka Khan, Death, Prince e Bad Brains, a LC, que fez um show arrasador em Porto Alegre na turnê que comemora suas quatro décadas, foi quem, no final dos anos 80, reivindicou a autoria negra e resgatou a verdadeira semente do rock das guitarras distorcidas.
Com um repertório muito bem montado, que inicia com sucessos, passa por momentos de surpresas, homenagens, sessões livres e termina com as "mais mais" e direito a bis, Corey Glover (vocais, e que vocais!), Vernon Reid (guitarra, gênio!), Doug Wimbish (tocando baixo como se não estivesse fazendo nada difícil) e Will Calhoun (bateria, certamente dos melhores do instrumento) não apenas executam os números: eles brincam de tocar. A construção harmônica e o arranjo das competições favorece a que eles, exímios instrumentistas, improvisem o tempo todo, transformando também as músicas constantemente.
A entrada dos quatro no palco foi triunfal ao som do tema do filme "O Império Contra-ataca", de John Williams, uma sacada bastante sarcástica vindo de um grupo que "contra-atacou" o "império" branco da indústria pop. A abertura, então, foi com "Leave it Alone", do disco “Stain”, de 1993. Prejudicados nos primeiros números em razão da qualidade do som, quando mal se ouvia a voz potente de Glover e a guitarra de Reid era um zunido só, eles fizeram na sequência "Middle Man" e uma magnífica versão, mesmo mal equalizada, de "Memories Can't Wait", da Talking Heads, gravada por eles, assim como a anterior, em "Vivid", de 1988. Até em reggae eles transformaram a música num trecho! Mas o que manda mesmo é a guitarra intensa e melodiosa de Reid, assim como ele faria em muitas outras a seguir.
Living Colour tocando Talking Heads:
nem o som ruim atrapalhou
"Ignorant is Bliss", em que parece que Mr. Dinamite sujou de guitarras pesadas seu groove, e o heavy-metal possante de "Go Away" vieram antes da ótima "Bi", suingada e com toda aquela atmosfera jazzística em cima de um rock vibrante. A altamente variante "Funny Vibe", cuja bateria de Calhoun é que dita o ritmo, indo do hardcore ao funk e ao jazz em poucos compassos, ainda é incrementada com "Fight The Power", dos seus ídolos Public Enemy.
A essas alturas, já com o som ajeitado na mesa de áudio, um dos momentos especiais do show: quando tocam "Hallelujah", de John Cale, só no vocal de Glover e a guitarra de Reid, fazendo suscitar os cânticos de louvor da tradição gospel que está na veia dos rapazes da LC. Lembrei muito de Mahalia Jackson emocionando a multidão quando cantava “Precious Lord, Take My Hand”, para se ter ideia da potência do que seu viu/ouviu no Opinião. Depois, colada, a clássica "Open Letter (to a Landlord)", ao mesmo tempo uma música de protesto e denúncia do racismo e uma oração. A cara da banda. Olha: isso é que é saber compor um setlist!
Mas tinha mais! A pedrada "Pride", um de seus maiores sucessos, levantou ainda mais a galera, composta basicamente de fãs da banda e do Metal. E as improvisações, mesmo em músicas consagradas, impressionantemente nunca param de acontecer. Está no jeito de eles tocarem, de sentirem a própria música. Mas essa liberdade de inventar na hora não quer dizer faça com que o quarteto se perca ou que desvirtuem os próprios temas. Experientes, sabem quando "criar" mais e quando dar apenas "cores livres". Afinal, estamos falando de música preta, de descendentes do improviso do jazz e do blues. Dava para ouvir, em certos momentos, a influência direta do free jazzspiritual de John Coltrane, principalmente em se tratado de Reid. Verdade é que a LC é talvez a única power band em atividade, aquela classificação de grupo em que todos, sem exceção, são grandes músicos.
Pois até a "cozinha" brilhou. Calhoun fez todos ficarem embasbacados com seu solo de bateria e na conjugação com a música “Baianá”, do conjunto brasileiro Barbatuques. Empunhando aquelas baquetas junto com Calhoun, estavam, certamente, Elvin Jones com sua africanidade, John Bonham com sua intensidade, Steve Gadd com sua habilidade, Art Blakey com sua capacidade de criar ritmo. Pouco depois, foi a vez de Wimbish, chamando o público pra cantar e dançar, comandar o palco cantando um medley de três clássicos do hip-hop da Grandmaster Flash & The Furious Five, "White Lines", "Apache" e um dos maiores hits da era break, "The Massage". Demais!
Trecho de "Bi", um dos sucessos da LC
O final do show foi uma sequência de tirar o fôlego, começando com "Glamour Boys", cuja guitarra suingada do riff explode em distorção no refrão cantado pela plateia toda ("I ain't no glamour boy (I'm fierce!)/ I ain't no glamour boy (wow!)"); o blues matador "Love Rears It's Ugly Head", o maior sucesso da LC e cujo clipe gastou de tanto rodar na MTV no início dos anos 90; e a paulada "Type", outro clássico absoluto deles e do rock pesado de todos os tempos. Refrãozasso: "We are the children of concrete and steel/ This is the place where the truth is concealed/ This is the time when the lie is revealed/ Everything is possible, but nothing is real". E Reid, hein?! O que é Vernon Reid tocando?! Ele é por si um show. Definitivamente um dos deuses da guitarra. Contemporâneo de Steve Vai e Joe Satriani, de quem guarda semelhanças no jeito de tocar, Reid é um guitar hero em atividade e que exercita seu estilo não só em solos inventivos (e que não são cansativamente extensos como fazem a maioria dos virtuoses), mas também na maneira de compor. Tanto quanto seus companheiros, vê-lo ao vivo no palco é algo realmente memorável.
Mas, gente: ainda tinha mais, acreditem. O hardcore "Time's Up", que dá nome ao celebrado segundo disco da LC, de 1990, emendou-se com outra de "Vivid", "What's Your Favorite Color?". E, para "encerrar", nada mais nada menos que "Cult of Personality", seguramente um dos 10 maiores riffs do rock dos últimos 40 anos, que foi entoada por todo o pessoal em êxtase que lotava o Opinião. É muito heavy, mas também é muito jazz, principalmente por suas quebras de ritmo, variações de escala e andamento e, claro, a habilidade dos rapazes de improvisar.
Digo "encerrar" assim, entre aspas, porque ainda rolou, como disse no início, bis. E foi primeiro com a calmaria da gostosa "Solace of You" - que em muito lembra a mistura de reggae e ritmos do Caribe de "Alagados", da Paralamas do Sucesso, de alguns anos antes - para, enfim, terminarem com outra de suas covers emblemáticas: a punk "Should I Stay or Should I Go", da The Clash.
Foram só pedradas, só clássicos, que fez lembrar a primeira apresentação da banda no Brasil, no Hollywood Rock de 1992, quando ainda muito jovens, e que não só assisti ao vivo pela TV na época como gravei em K7 e por anos meu irmão e eu escutamos aquele memorável show. Agora, mais maduros, Glover, Reid, Wimbish e Calhoun continuam a tocar o que talvez à época nem tenha me dado conta com tamanha clareza: a de que se trata do mais alto nível de rock que se possa imaginar. O rock melodioso, tocado com alma e, por que não, também barulhento. Um rock negro, tal qual foi criado, há quase 80 anos. Como diz aquela canção, "Lobão tem razão". Às vezes, tem.
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Quarteto norte-americano no palco do Opinião
Reid, Glover com seus deads e Wimbish com Calhoun ao fundo
A clássica "Pride" pra exaltar a galera
O grande sucesso "Love Rears it's Ugly Head",
que pôs o Opinião para suingar
Músicos da mais alta qualidade em uma apresentação histórica
Momento emocionante - e pulsante - com "Open Letter (to a Landlord)". Louvação e protesto
Quase terminando o show, "Cult of Personality",
um dos maiores riffs já escritos
Clima de festa dos "metaleiros" com as mãos chifradas pra cima
Uma celebração do rock, do rock nacional, dos anos 80, de algumas lendas vivas da nossa música! Assim foi o show da Plebe Rude em comemoração pelos 40 anos do clássico álbum "O Concreto Já Rachou". A abertura com o cultuado Fausto Fawcett já deu o tom da noite de nostalgia. Com suas personagens pitorescas, histórias mirabolantes envolvendo mídia, violência e sensualidade e situações que só uma mente singular e criativa como a dele poderia conceber, Fausto, com uma dupla de músicos versáteis e bases pré-gravadas levantou a bola com qualidade para a atração principal da noite, a Plebe Rude. Patinho feio de Brasília, banda menos badalada da cena brasiliense dos anos 80 se comparada às superstarsLagião Urbana e Capital Inicial, a Plebe sempre teve seu público e tem suas armas com um repertório mais agressivo, mais direto e contundente que a maioria da geração BR80. E, amigo, é só pedrada! Contestação, protesto, desafio ao poder, "Sua História", "Censura", "Códigos", "Descobrimento da América". A primeira parte do show foi marcada por um passeio pela trajetória da banda, tocando músicas de vários álbuns e momentos distintos da carreira, além de homenagens a ídolos e referências como Clash e Ramones, brincadeiras como a mistura de RPM com Midnight Oil, inserções de e covers como a bombástica "Hollidays In Cambodja", dos Dead Kennedy's que foi a grande responsável por quebrar a timidez do público e abria roda punk. O segmento, final, aí sim, trouxe a atração esperada por todos, a execução das faixas do grande clássico da banda, "O Concreto Já Rachou". O epílogo foi emocionante em vários momentos, a começar pela surpresa da presença de Jander Bilaphra, vocalista original e um dos fundadores da banda que eu, erroneamente, tinha notícia que teria falecido. Felizmente se tratava de mais um boato de internet e o cara estava lá, visivelmente emocionado, para interpretar a fodástica "Johnny (vai à guerra outra vez) para delírio dos plebeus ali presentes.
"Johnny (vai à guerra outra vez" -
Plebe Rude com participação de Jander Bilaphra
Clemente Nascimento, lenda do rock nacional, substituto de Jander desde sua saída e recém recuperado de um sério problema cardíaco que quase tirou sua vida, também comovido, fez uma breve cover solo de "Sujeito de Sorte" de Belchior que manifesta exatamente essa glória de estar vivo depois de uma situação tão séria e estar pronto pra outra, "ano passado eu morri, mas esse ano eu não morro". O próprio Clemente comandou "Pátria Amada" de sua banda de origem "Os Inocentes, enquanto Phillipe Seabra, o vocalista e líder da banda, se deslocava para o meio da pista para comandar do meio da galera uma insana e furiosa roda punk ao seu redor. Espetacular! Dali, do meio da roda, praticamente nos braços do público, comandou o clássico "Proteção", com uma inserção de "Selvagem" dos Paralamas e "Pânico em SP" dOs Inocentes, versão um pouco longa demais, é verdade, mas nada que comprometesse o grande acontecimento que estava se dando ali. De volta ao palco ainda teve a destruidora "Brasília", rachando o concreto dos Arcos da Lapa e, por fim, a tão esperada "Até Quando Esperar", com introdução de "Blitzkreig Bop" dos Ramones, para levar aqueles devotos à catarse, ao êxtase derradeiro.
Uma noite histórica! Uma noite de celebração total! Celebração do punk, uma celebração pela presença do eterno plebeu Jander Bilaphra, pela volta praticamente do mundo dos mortos de Clemente, pelos 45 anos da Plebe Rude, pelos 40 anos d"O Concreto Já Rachou"! Uma celebração à vida!
Viva quem nunca morreu, viva quem nasceu de novo, viva quem é imortal, viva a plebe!
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Fiquem com algumas imagens da noite histórica no Circo Voador:
O grande Fausto Fawcett abriu os trabalhos da noite
Fawcett cantado seu Rio belo e selvagem em "Rio 40 Graus"
Este seu blogueiro com o Fauno de Copacabana, Fausto Fawcett
Fausto interpretando seu maior hit que não poderia faltar,
"Kátia Flávia"
A Plebe em ação no palco do Circo
Muito vigorosa e vibrante a Plebe continua contundente e relevante
O líder Phillipe Seabra, energia, carisma e simpatia
Clemente foi tão celebrado quanto a banda por sua representatividade no universo punk e por sua recuperação depois de seu problema de saúde
O fundador André X com o substituto de luxo Clemente
Phillipe Seabra e Clemente Nascimento
Momento histórico! A roda punk em volta de Phillipe
durante "Proteção"
O clássico "Até Quando Esperar" com introdução de Ramones
Não é toda hora que se vê de perto um guitar hero. E para um fã de rock, isso é um acontecimento especial. Posso dizer que já vi The Edge, no show da U2, em 1997, em São Paulo, Will Sargent, na histórica primeira apresentação da Echo & The Bunnymen em Porto Alegre, em 1999, e... só! Quando Keith Richards, Slash, David Gilmour e Eric Clapton vieram à minha cidade, não os pude assistir. Muito por conta disso, quando soube que a Living Colour, liderada pelo herói da guitarra Vernon Reid, voltaria a Porto Alegre depois de mais de 10 anos, não pestanejei.
Celebrando os 40 anos de carreira, o supergrupo (afinal, como se não bastasse, não é apenas Vernon o craque da banda formada por Corey Glover, nos vocais, Muzz Skillings, no baixo, e Will Calhoun, bateria, todos igualmente exímios) se apresentará no próximo dia 26 no Bar Opinião, casa símbolo de rock na capital gaúcha.
A expectativa é grande para vê-los tocar as clássicas “Type”, “Love Rears It’s Ugly Head”, “Pride”, "Open Letter (To a Landlord)" e “Cult of Personality”, essas duas últimas do disco “Vivid”, que já tive a felicidade de resenhar nos ÁLBUNS FUNDAMENTAIS do Clyblog destacando sua importância para o rock feito por negros na história do gênero. Enfim, a melhor banda de rock preta com um guitar hero em plena atividade. Será um privilégio, com certeza, que voltarei aqui para contar depois como foi.
“Nem estou acreditando que estou chegando nos 50. Esse projeto não é só sobre mim: é sobre todas as pessoas que me ajudaram a não desistir”.
Criolo
Que Criolo é o cara da nova música brasileira, isso já se sabe. Que este músico paulista, iniciado no rap, desenvolveu-se em tudo que é gênero musical, do samba ao afrobeat, também não é novidade. Que é um poeta raro, idem. Que é um dos artistas mais inovadores e influentes da música brasileira contemporânea, igualmente é outra certeza, assim como que ele já ocupa o panteão dos grandes da MPB. Porém, o palco ainda era uma dúvida, pois parecia carecer de uma afirmação. Afinal, é ali que se confirma um grande artista. É onde sua alma é impressa. Já havíamos Leocádia e eu assistido alguns shows de Criolo pela tevê, uns melhores e outros nem tanto. Mas o que não era possível captar à distância era justamente aquilo que se pode confirmar na inesquecível apresentação deste artista no Araújo Vianna, em Porto Alegre: a impressão de sua alma. E ela estava lá.
Comemorando seus 50 anos de idade - uma vitória para um rapaz preto e da periferia num país aporofóbico e racista, como ele mesmo observou -, Criolo e sua ótima banda mandaram ver num show empolgante, pois bem realizado em todos os aspectos: som, luz, projeções/arte, narrativa, repertório e, o mais importante, sintonia com a plateia. O carisma, a vibe zen e o bonito vocal de Criolo, dotado de pouca extensão mas que funciona mais em estúdio, é compensado, no palco, pela energia e o vozeirão do MC e DJ DanDan, parceiro antigo. Eles comandam o show, que percorre, num apanhado cirúrgico, o repertório dos cinco álbuns solo de carreira de Criolo dando especial destaque aos excelentes "Nó na Orelha" (2011) e "Convoque seu Buda" (2014), e o seu último, "Sobre Viver" (2022), além do disco de samba "Espiral da Ilusão" (2017).
Foram só pedradas, novos clássicos da música brasileira. Começando por "Mariô" e "Duas de Cinco", que abrem a apresentação puxando versos impactantes: "Tenho pra você uma caixa de lama/ Um lençol de féu pra forrar a sua cama/ Na força do verso a rima que espanca/ A hipocrisia doce que alicia nossas crianças" ou "Compro uma pistola do vapor/ Visto o jaco califórnia azul/ Faço uma mandinga pro terror/ E vou". Seguiram-se "Sistema Obtuso" e "Esquiva da Esgrima", esta, das preferidas do público. Em "Ogum Ogum" e "Iemanjá Chegou", duas de "Sobre...", Criolo abre espaço para a religiosidade afro, assim como faz para outros dois blocos distintos. Um deles, o momento reggae, em que canta "Samba Sambei" e "Pé de Breque", além de um novo arranjo para o rap "Sucrilhos", agora ao estilo de Bob Marley.
A clássica "Subirodoistiozin" pondo o
público gaúcho para cantar
Outro ponto especial é a parte reservada ao samba, gênero que Criolo domina como poucos. O divertido partido-alto "Lá Vem Você" e o samba-canção engajado "Menino Mimado", ambas de "Espiral...", se juntam a "Linha de Frente", célebre samba de encerramento de "Nó..." ("O nó da tua orelha ainda dói em mim/ E Cebolinha mandou avisar/ Que quando a 'fleguesa' chegar/ Muitos pãezinhos há de degustar") em que Criolo já anunciava essa sua verve composicional.
Mais clássicos contemporâneos: "Grajauex", "Não Existe Amor em SP", cantadas em coro pelo público, e "Subirodoistiozin", que ganha, ao final, um arrasador arranjo drum 'n' bass do DJ DanDan. Para fechar, uma versão do samba triste de Benito Di Paula "Retalhos de Cetim" ("Mas chegou o carnaval/ E ela não desfilou/ Eu chorei na avenida, eu chorei...") e o matador rap-ninja "Convoque seu Buda" para encerrar, quando todos fizeram o tradicional movimento de balançar a mão de cima para baixo como nos clipes de hip hop.
Se faltava a Criolo o atestado do palco, o show do Araújo Vianna foi uma mostra de que, chegado aos 50 anos e experiente como artista, não falta nada mais a ele, Sua alma estava lá, definitivamente. E se lhe foi uma vitória chegar ao primeiro meio século, esperamos que o Brasil lhe oportunize a partir de agora novos 50 anos de brilho, dignidade e sucesso. Ele merece.
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Aguardando Criolo!
Começando o show com alta energia
Criolo em sintonia com o público
Seja rap, soul, samba, afrobeat: Criolo manda bem no que vier
Sessão de samba do show
A linda projeção completando a arte do espetáculo
O rap se mistura à musicalidade brasileira no trabalho de Criolo