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terça-feira, 14 de setembro de 2010

cotidianas #48 - A Rosinha

Entre um chopp e outro, piadas, risadas, debates enérgicos e cantadas batidas e infrutíferas para as mulheres que passam na calçada. É sempre assim quando se reúnem depois do trabalho na sexta-feira naquele mesmo bar de sempre.
- Peraí, perái... Olha só aquilo! - chama interrompendo a discussão sobre futebol - Quê que é isso? Meu Deus do céu! Que loucuura!
- Ah, conheço ela. É a Alice. O Dudu também conhece. Né Dudu?
- Mmm...  - meio que se babando com o chopp e limpando com as costas da mão - Ahan. Conheço sim - completando com um risinho maroto de canto de boca.
Quando a garota se aproxima mais, os dois que a conhecem, tratam de cumprimentá-la:
- Oi, Rosinha.
- Oi, Rosinha - cumprimentam os dois quase ao mesmo tempo.
Ela não fala nada mas responde com um sorriso malicioso e acena mexendo só os dedinhos da graciosa mãozinha. Passa e segue gostosíssima calçada afora.
O outro acompanha o final do desfile monumental até que ela acabe de dobrar a esquina e terminado o espetáculo, meio confuso, volta a cabeça então para os camaradas na mesa, e pergunta:
- Mas o nome dela não era Alice?
Os outros dois se entreolham, tentam sufocar o riso, mas explodem numa gargalhada só.


Cly Reis

sexta-feira, 10 de setembro de 2010

Titãs - "Cabeça Dinossauro" (1986)

O MELHOR DISCO NACIONAL DE TODOS OS TEMPOS
"Oncinha pintada,
zebrinha listrada,
coelhinho peludo,
Vão se foder!"
letra de "Bichos Escrotos"


"Cabeça Dinossauro". Assim mesmo, sem a preposição. O nome já dava mostra do que estava contido ali dentro daquela capa genial e incomum que ao mesmo que impactava pelo grotesco, completava o conceito geral da obra: a cabeça dinossauro era uma transfiguração, uma metamorfose em monstro, um retorno ao primitivo, era uma digressão à língua, um não aos padrões. A própria canção homônima que abria o disco com sua batida tribal e letra 'primitiva' era retrato fiel e confirmação da proposta.
Letras simples, versos curtos, mínimos e minimalistas, aliterações, repetições e discursos diretos. Assim os Titãs deram uma reviravolta na própria carreira, até então sem uma personalidade musical definida, e construíram um dos discos mais notáveis e criativos do rock nacional. Aquilo era butal, era violento na essência, era agressivo como nunca a música popular ousara ser a tal ponto, disparando contra religião, autoridades, estado, família e capitalismo com doses variadas de desprezo, ira e ironia. Quer mais que afirmar que não gostavam de Cristo; mandar dar porrada em quem não desse nenhuma contribuição ao mundo; ou mandar os bichinhos fofinhos se foderem? Aliás, "Bichos Escrotos", que trazia este xingamento, ainda que não fosse a mais brilhante do disco, não pode deixar de ser mencionada sobremaneira por uma quebra definitiva de paradigmas na mídia por conta do "FODER" de sua letra que era cantado incessantemente pela garotada, independente da proibição de execução pública expressa na contracapa. Num país com a democracia recém instaurada e uma liberdade de expressão ainda combalida, o resultado foi que sua popularidade foi tanta, a música era tão conhecida e entoada por todos que mesmo sem ser revogada, sua proibição caiu por terra naturalmente e a faixa passou a tocar sem corte em muitos segmentos dos meios de comunicação. E, ao contrário do que soava aos pais e moralistas de plantão naquele momento, "Bichos Escrotos" não se limitava a um palavrão gratuito: aquele grito era um não à beleza artificial, ao padrão estético, uma convocação à atitude, sendo um dos mais significativos símbolos da virada que os Titãs davaam com aquela obra.
Outro momento marcante da obra é a descontrolada "A Face do Destruidor", um hardcore extremamente agressivo e veloz na execução e na duração (apenas 34 segundos) que de certa forma justificava que nada se cria e tudo se transforma mas que às vezes é importante botar tudo abaixo para construir novamente. E era o que eles estavam fazendo.
"Cabeça..." ainda traz um dos maiores clássicos do rock brasileiro de todos os tempos que ganhou inúmeras regravações, homenagens, referências, performances de todo o tipo e qualidade de artistas, de Sepultura a Marisa Monte: "Polícia"; um punk rock implacável que incrivelmente venceu no mundo pop sem fazer concessões de letra nem estilo, gravando na memória do Brasil dos refrões mais conhecidos e populares da música nacional.
Fruto da multiplicidade de estilos de um time de oito cabeças com origens, inspirações e gostos musicais distintos e da mão certeira do produtor e parceiro Liminha, "Cabeça Dinossauro" era punk na maior parte das vezes mas era tão fora dos padrões que podia trazer um raggae como "Família", um ska como "Homem Primata" ou "O Quê?", um funk estraçalhador com uma linha de baixo toda quebrada, cheio de teclados e uma interessantíssima mescla de bateria acústica com eletrônica, delineando um inquietante jogo de palavras que não cansava de perguntar e ao mesmo tempo responder "o que é que não pode ser?". E o que é que não poderia ser depois daquilo? Podia-se tudo e aquela obra ajudava a afirmar isso.
Até mesmo como resultado de experiências como a de "O Quê?", os Titãs chegariam a resultados, talvez, melhores tecnicamente com seus dois álbuns de estúdio seguintes, "Jesus Não Tem Dentes no País dos Banguleas" e "Õ Blésq Blom", mas "Cabeça Dinossauro" já tinha metido o pé na porta e por este rompimento, por sua profusão de ideias e estilos, pela sua reconceituação num dos momentos mais importantes da retomada do rock brasileiro, seu impacto e reflexos, este é, minha opinião, simplesmente o maior disco do rock brasileiro de todosos tempos.

FAIXAS:
1. "Cabeça Dinossauro" (Arnaldo Antunes, Branco Mello, Paulo Miklos) – 2:20
2. "AA UU" (Marcelo Fromer, Sérgio Britto) – 3:01
3. "Igreja" (Nando Reis) – 2:48
4. "Polícia" (Tony Bellotto) – 2:06
5. "Estado Violência" (Charles Gavin) – 3:10
6. "A Face do Destruidor" (Arnaldo Antunes, Paulo Miklos) – 0:34
7. "Porrada" (Arnaldo Antunes, Sérgio Britto) – 2:51
8. "Tô Cansado" (Arnaldo Antunes, Branco Mello) – 2:18
9. "Bichos Escrotos" (Arnaldo Antunes, Sérgio Britto, Nando Reis) – 3:13
10. "Família" (Arnaldo Antunes, Tony Bellotto) – 3:32
11. "Homem Primata" (Ciro Pessoa, Marcelo Fromer, Nando Reis, Sérgio Britto) – 3:27
12. "Dívidas" (Arnaldo Antunes, Branco Mello) – 3:08
13. "O Quê" (Arnaldo Antunes) – 5:40

FORMAÇÃO (em 1986)
Arnaldo Antunes: vocal
Branco Mello: vocal
Charles Gavin: bateria e percussão
Marcelo Fromer: guitarra
Nando Reis: baixo e vocal
Paulo Miklos: baixo (em "Igreja") e vocal
Sérgio Britto: teclado e vocal
Tony Bellotto: guitarra

PRODUZIDO POR LIMINHA

Download

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cotidianas #47 -"Lamento Sertanejo"


Lamento Sertanejo
(Gilberto Gil)

Por ser de lá
Do sertão, lá do cerrado
"Menino com carneiro" - Cândido Portinari
Lá do interior do mato
Da caatinga do roçado.
Eu quase não saio
Eu quase não tenho amigos
Eu quase que não consigo
Ficar na cidade sem viver contrariado.

Por ser de lá
Na certa por isso mesmo
Não gosto de cama mole
Não sei comer sem torresmo.
Eu quase não falo
Eu quase não sei de nada
Sou como rês desgarrada
Nessa multidão boiada caminhando a esmo.


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quinta-feira, 9 de setembro de 2010

Alien Sex Fiend - "Acid Bath" (1984)

Comprei no último sábado, substituindo meu piratinha gravado, o 'Acid Bath' do Alien Sex Fiend.
Cara, Alien Sex Fiend não é nada demais mas é legal pra caramba! Som daquela cena dark do início dos 80 mas com mais elementos de eletrônica, uma  tendência ao industrial, influências de rockabilly e lógico um pé ainda no punk, que naquele momento já se esvaía mas deixava um pouquinho em quem quer que fosse montar uma banda. Tudo isso com um visual entre o Cure, os Pistols, o Cooper e os Cramps: cabelos espetados, roupas pretas esfarrapadas ou calças de couro, maquiagens zumbis e performances extremamente teatrais e terrificantes.
Em "Acid Bath" a sonzeira tem bases eletrônicas, sintetizadores, programações de bateria e guitarras pesadas e barulhentas corroendo tudo, compondo toda uma atmosfera sombria, com vocais cadavéricos e berrados, temas aterrorizantes e violentos, mas com muito bom humor e escrachamento.
O caos dos mortos-vivos!
Loucura total!
Meus destaques neste disco são a ótima abertura "In God We Trust (In Cars We Rust)"; "Dead and Re-Burried" com sua base bem eletrônica e guitarras despejadas como lava quente; a excelente "E.S.T. - Trip to the Moon", uma verdadeira viagem à lua com seus 9 minutos lisérgicos; e o doido rockabilly-eletro-gótico-techno-industrial "Boneshaker Baby", uma das 3 faixas extras da versão em CD.
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FAIXAS:
1. In God We Trust (In Cars We Rost?)
2. Dead and Re-Buried
3. She's a Killer
4. Hee-Haw (Here Come the Bone People)
5. Smoke My Bones
6. Breakdown and Cry (Lay Down and Die - Goodbye)
7. E. S. T. (Trip to the Moon)
8. Attack !!!!!! #2

extras do formato CD (não constavam no LP original)
9. Boneshaker Baby
10. I Am a Product
11. 30 Second Coma

Ouça:
Alien Sex Fiend Acid Bath
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Pra quem quiser conhecer mais, ver discografia, curiosidades, informações, vale uma visita aos site dos caras:
Site Oficial ASF - 13th. Moon Demon