Curta no Facebook

sexta-feira, 7 de janeiro de 2011

David Bowie - "Low" (1977)



“David passava por um período de grande depressão."
Tony Visconti, produtor



Em época de lançamento de biografia do cara, aí vai mais um Bowie fundamental pra discoteca:
"Low", álbum de 1977, o primeiro do que se costuma chamar de 'fase berlinesne', compondo com "Lodger, Heroes" e "Stage" uma curiosa "trilogia" de 4 álbuns onde "Stage" funciona como releitura ao vivo dos dois primeiros.
"Low" é um daqueles álbuns que foi feitos para ser LP, mesmo. Disco com lado A e lado B literalmente. Duas coisas completamente diferentes: o primeiro, todo cheio daquele pop-rock brilhante e sofisticado que só David Bowie sabe fazer, com canções bem objetivas, curtas, soltas, ritmadas, a maioria delas cantadas, mas com destaque especial para a instrumental que abre o disco "Speed of Life". Destaque também para a excelente "Sound and Vision" e para o pop gostoso de "Be My Wife". Só que virando o disco, a atmosfera é completamente outra. Músicas densas, introspectivas, soturnas, longas, quase todas instrumentais, cheias de experimentalismos e sonoridades estranhas, lembrando muito os trabalhos solo do colaborador e mentor Brian Eno e a fase inicial do Kraftwerk, banda que Bowie tinha grande admiração. Destaque para "Warszawa", minha preferida do lado 2.
Em comum, os dois momentos deste trabalho tem o tratamento fino e detalhado da produção, que é creditada a Tony Visconti e Bowie, mas que tem inegavelemente o dedo de Brian Eno; além de uma estranha e incrível coerência musical que fazem de um álbum como este com faces tão distintas, uma obra que consegue manter uma genial e singular unidade mesmo com características tão antagônicas.
Neste Bowie consegui se superar superou e não foi camaleão apenas de uma década pra outra, de um disco para o outro como estamos acostumados a ver. Foi mutante de um lado para o outro do mesmo disco. Em parte resultado de seus problemas psicológicos da época, do uso de drogas, da dificuldade de compor letras naquele momento, mas de tudo isso tirar um disco como este, é só para um David Bowie.
***************************

FAIXAS:
Lado A
  1. "Speed of Life" – 2:46
  2. "Breaking Glass" (Bowie, Dennis Davis, George Murray) – 1:52
  3. "What in the World" – 2:23
  4. "Sound and Vision" – 3:05
  5. "Always Crashing in the Same Car" – 3:33
  6. "Be My Wife" – 2:58
  7. "A New Career in a New Town" – 2:53
Lado B
  1. "Warszawa" (Bowie, Brian Eno) – 6:23
  2. "Art Decade" – 3:46
  3. "Weeping Wall" – 3:28
  4. "Subterraneans" – 5:39

**************
Ouça:
David Bowie Low




Cly Reis

quarta-feira, 5 de janeiro de 2011

cotidianas #63 - Meu Merci no seu Beaucoup


Baudelaire, Truffaut, Bizet, Sartre, Rodin, Renoir, Godard, Lumière, Degas, Le Corbusier... Aquilo sim é que era cultura! Dona Suzana orgulhava-se de ter salvo os filhos da cultura brasileira, se é que se podia-se chamar aquilo de cultura, levando-os para morar em Paris desde pequenos. Lá estudaram nos melhores colégios que suas limitadas economias de funcionária pública aposentada puderam pagar, mas a pior sala de aula rural francesa era melhor que qualquer escola brasileira, a seu ver.
Permaneceu lá por 10 anos favorecendo tudo que pudesse representar acréscimo e crescimento cultural para suas joias máximas: os filhos. Mas agora já crescidos, quase gente, devidamente instruídos podiam retornar ao Brasil; fluentíssimos na língua de Victor Hugo, devidamente cultos e blindados contra tudo o que pudesse vir do povinho de seu país natal. A menina , Adelle, agora aliás uma moça bonita de 23 anos, adquiriu em sua vida francesa o mesmo nariz empinado da mãe e julgava-se uma espécie de rainha europeia entre selvagens. Michel, o filho, por sua vez, mesmo tendo saído do país mais novo, aos 9 anos, teoricamente mais propenso a influências, não assumiu de maneira tão veemente o caráter europeísta. Era legal; adorava Paris, o Louvre, a Torre, o estilo, mas achava que cada um dá suas contribuições ao mundo à sua maneira e particularmente não guardava a mesma aversão que a mãe ao país que nascera.
Já no Brasil, instalaram-se na antiga casa da família que ficara com parentes durante o tempo que estiveram fora. A casa era grande, maior do que Dona Suzana lembrava, o que a obrigava a contrtar uma empregada, pois já não era mais tão nova para executar os serviços domésticos e além do mais, brasileiros tinham que servir pra alguma coisa, então, que fosse pelo menos para isso.
Chamaram uma moça chamada Edilene, conhecida de um primo. Era gente de confiança e, lá no fundo, era até bem simpatiquinha. Estranhava mesmo era a proximidade do filho com a empregadinha pretinha. Volta e meia os via conversando. "O que é que um menino como o meu, cursado em Paris, com boa formação, com cultura fina, frequentador dos melhores museus, apreciador das artes, tem pra conversar com uma... uma... Deixa pra lá". Certa vez viu que a garota trouxera um CD para o filho. "Ouve aí. Tu vai gostar". Imagina se ele vai gostar dessas músicas pobres. Nem sequer vai ouvir. Mas para surpresa e decepção da mãe, ouviu e gostou. Não parava de ouvir aquelas 'coisas'. Nossa! Que coisa de mau gosto!
Mas aquilo não era o pior: dias depois, na hora da menina sair, acabado seu horário de trabalho o filho aparece junto e quase faz a mãe ter um troço:
- Mãe, eu tô indo junto com a Edilene porque a gente vai no baile-funk lá na área dela.
Ela ainda tentou articular alguma frase mas meio que engasgou e não conseguiu de todo modo emitir qualquer som em meio à estupefção.
- Tchau, mãe. - e quando ela deu por si já estavam quase no portão brincando animadíssimos.
Aquilo se repetiu várias vezes. Toda noite de sexta-feira era sagrado: era o Michel no baile funk com a empregadinha. Já estava até usando cordão grosso no pescoço e boné virado pra trás. O que que teria saído de errado na educação daquele menino?
Meses depois ele anunciou que estava indo morar com a Edilene. Tinha uma casinha no fundo do terreno da mãe dela, era pequeno mas eles iam ficar bem. A bocada era meio barra-pesada, segundo ele, mas que a mãe não se preocupasse que ele já estava até meio que amigo dos caras. A mãe ainda tentou impedir, argumentar, e a educação que lhe dera, e o futuro, o desgosto que ia dar pra ela. Tudo em vão.
Só restou paraa Dona Suzana poder se orgulhar da filha que no fim das contas pelo menos usava seu francês fluente como secretária em uma agência de eventos; já o garoto, pelo que soube por um vizinho, além de ouvir, começou a fazer aquelas músicas horríveis. Também usou o seu francês pra alguma coisa e lançou na internet o funk "Meu Mercí no seu Bocú", assim mesmo, assassinando a língua mais romântica e charmosa do mundo. É o maior sucesso nos bailes dos morros e nas favelas pelo Brasil afora. O sucesso do MC Francês tá na boca do povo.
C'est lamentable.

****************

terça-feira, 4 de janeiro de 2011

Amy Winehouse - "Back to Black" (2006)


"Ela (Amy) é de outro planeta!"
Quincy Jones


Seria muita ousadia colocar um álbum tão recente de uma artista não totalmente consolidada entre os grandes da história? Talvez seja, talvez seja... Mas me parece, amigos, que temos entre nós uma das grandes artistas dos últimos tempos e que, provavelmente, fique ofuscada e diminuída por seus próprios excessos, escândalos, internações e bebedeiras. A gente acaba subestimando por causa disso. Eu mesmo devo admitir que antes de ouvir Amy Winehouse pensava ser ela só mais uma artista pop tentando chamar atenção. Mas o fato é que ao escutá-la cantar é que ela chama atenção de verdade.
Amy Winehouse é possivelmente a melhor cantora viva do nosso tempo e talvez a artista que chegue perto em importância do que representou um Kurt Cobain, o último que valia alguma coisa. Uma voz absoluta, segura, o domínio total de cada verso, de cada nota, a sensualidade e a energia. A artista que trouxe o jazz de volta às rádios e o aproximou do grande público que, na sua maior parte nem sabe o que está ouvindo, mas o importante é que nós sabemos. Com "Back to Black" ela coloca elementos pop no jazz (ou seriam elementos jazz no pop) como provavelemnte só Louis Armstrong tenha conseguido fazer tão perfeitamente na fase final de sua carreira. Mas não fica nisso: é rock, é pop, é blues é soul. É um baita disco!
É impossível falar de "Back to Black" e não citar o hit de refrão fácil, "Rehab", ou do outro sucesso, muito melhor na minha opinião, "You Know I'm No Good"; da ótima faixa-título do álbum, "Back to Black"; mas a melhor do álbum pra mim é indiscutivelemente, "Wake Up Alone", uma balada triste e emocionante ao melhor estilo das antigas divas do jazz.
De visual extravagante, talentosíssima no microfone mas com especial habilidade para fazer merda na vida, se não tomar jeito é candidata a integrar logo logo o famoso Clube do 27 que já conta com alguns representantes ilustres como Morrisson, Janis, Hendrix, Kurt... Bate na madeira, garota! (tem até setembro, quando faz 28, pra afastar a maldição). Mas ao que parece a moça anda se recuperando, tomando um pouco mais de juízo e já está até com disquinho novo na boca-do-forno pronto pra sair.
Ousadia colocar "Back to Black" entre os FUNDAMENTAIS? Pode ser. Mas, de certa forma, acho que esta é a ideia mesmo.
O tempo me dará razão.

*********************

FAIXAS:
• 1. Rehab
• 2. You Know I´m no Good
• 3. Me & Mr Jones
• 4. Just Friends
• 5. Back to Black
• 6. Love Is a Losing Game
• 7. Tears Dry on Their Own
• 8. Wake Up Alone
• 9. Some Unholy War
• 10. He Can Only Hold Her

***********************
Ouça:
Amy Winehouse Back to Black