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sexta-feira, 2 de setembro de 2011

cotidinas #102- "Dívidas"



Descendo ladeira abaixo
Uma grande correria
Só pra ver se não perdia
A primeira condução
Esqueceu de resgatar
Uma grana que devia
A um tal de Oliveira, marido da Conceição
"Favela" - Portinari, Cândido
Que pela mulher pressionado
Foi receber o dinheiro
Só encontrando a inocência
Deu início a discussão
Disse tudo que devia
Sem medir as consequências
Num bate boca danado
Diante do barracão

Quando ele voltou depois das seis, se aborreceu
Sabendo do "aperto" que a mulher atravessou
E muito magoado, saiu sem dizer nada
Achando que Oliveira esquecera da amizade
E a tudo a bem dizer, por uma nota de dez
Que o outro bem podia dispensar
Mas era fim de mês, e na quitando do Garcês
O Oliveira, precisava se explicar
E foi assim, que a demanda começou
Não aceitaram, argumentos de ninguém
Naquela noite, todo morro lamentou
Eu era menino, mas me lembro muito bem.

Descendo ladeira abaixo
...
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"Dívidas"
(Paulinho da Viola/ Elton Medeiros)

Ouça:
Paulinho da Viola - "Dívidas"

quarta-feira, 31 de agosto de 2011

cotidianas #101 - Aposta




Atravessava o corredor agora com a maca vazia. O corredor vazio. Vazio e silencioso. Àquelas horas tudo já estava mais calmo, o dia havia sido agitado mas agora tudo o que restava eram as paredes brancas, o avental branco e o lençol branco sobre a maca. Perdera a conta de quantas vezes fizera aquele trajeto durante o dia, na verdade perdera a conta de quantas vezes fizera durante todos aqueles anos. Mas agora estava quase na hora do final do seu expediente e acabara de fazer o último 'carreto' que era como gostava de chamar as remoções. Dirigia-se agora para o elevador; era deixar a maca no subsolo, trocar de roupa e ir pra casa. Os ombros já lhe pesavam, os olhos pesavam...
Apertou o botão. Desce. Aquela hora o elevador vinha rápido. Sabia que ia encontrar ali o João, colega de tantos anos. Gente boa o João.
Chegou. A porta automática se abriu e um longo elevador metálico se apresentava  à sua frente.
- Desce?
- Tu sabe que desce, ô, seu fidaputa - respondeu gracejando e fingindo irritação.
- Então entra duma vez que eu não tenho a noite toda, ô, corninho - retrucou oascensorista no mesmo tom bem-humorado de mau gosto.
Todos os dias era aquela troca de 'gentilezas' características de homens que, talvez para evitar algum sinal de sensibilidade, preferiam ofender-se carinhosa e mutuamente ao invés de demonstrar o afeto que tinham um pelo outro construído ao longo de todo aquele tempo de convivência no trabalho.
- E aí, foi o último, Zé? - quis saber o ascensorista entre um bocejo.
- Se não me aparecer mais ninguém pelos próximos... - parou para olhar o relógio - dez minutos, foi.
- E então, o que que foi o último 'carreto'? - inquiriu agora interessado o ascensorista.
- Me deve cinquenta.
- De novo?
- Haha! - riu zombeteiro o maqueiro José.
- Mas não é possível... Tu deve de saber a informação antes - disse sacando o pagamento do bolso - Toma aí - sentando o dinheiro com força na mão do outro.
- Hehe! - riu-se novamente com gosto o maqueiro enquanto o elevador chegava ao seu andar - Eu só fico sabendo lá na hora. Não tem trampa, não tem trambique.
- Vai lá safado - ordenou o João com falso transtorno - Vai com Deus. Bom descanso - desejou abandonando o falso tom beligerante e adotando um fraternal.
Mas  no momento em que empurrava a maca para fora do elevador, o alto-falante o desapontava com um chamado: "maqueiro José, comparecer ao quarto 811 e levar a paciente à Sala de Parto nº 4, com urgência."
- Ih!
- Sobe? - presumiu obviamente o amigo.
- É, sobe, né... - disse resignado o Zé, recuando com a maca para dentro do elevador - Vou aproveitar pra te tirar mais um trocado, então.
- Agora não. Dessa vez eu ganho.
- Que que vai ser então?
- Pra mim vai ser menino - afirmou o ascensorista com a convicção de ganhador.
- Eu vou continuar nas menina.
- Cinquenta centavos, de novo?
- Cinquenta centavos.
- Oitavo andar. Chegamos. Vai lá, ô, corninho.
- Té depois. Volto aqui pra tu me pagar - ainda disse o maqueiro enquanto saía do elevador já empurrando a maca corredor afora para mais um carreto.



Cly Reis

E não é que deu certo? Primal Scream no Rio



Por conta de uma bela mobilização popular dos fãs, que literalmente, bancaram a parada, o Primal Scream que só teria shows em POA e Sampa, virá mesmo ao Rio.
A data confirmada é 23 de setembro e o showzaço com a execução integral do glorioso "Screamadelica" ocorrerá no Circo Voador.
Bom, pra quem ia a Porto Alegre assitir, agora fico por aqui.
We're gonna have a good time, we're gonna have a party.


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primal scream no rio
local: Circo Voador
Rua dos Arcos, s/nº, Lapa - Ro de Janeiro
ingressos com e-flyer, um kg de alimento ou para clientes TIM sai por R$120,00 e podem ser adquiridos no local, de a 6º feira das 12h às 19h ou no dia do show até 1h antes.

domingo, 28 de agosto de 2011

Prince - "Sign O' the Times" (1987)


"Sinal dos Tempos"



Sou assumidamente do time dos que preferem Prince a Michael Jackson . Já ouvi de alguns que a comparação é sem fundamento e que são coisas diferentes, mas só não enxerga quem não quer que trata-se absolutamente da mesma matéria só que com roupagens diferentes. Ao passo que Michael aproximou muito seu trabalho do grande público, criou uma imagem pública forte e coreografias impressionantes a ponto de ser coroado o Rei do Pop, Prince, muito mais MÚSICO que o ele mas que não dança lá tão bem assim, explorava a cada disco todas as possibilidades que a música negra lhe concedia e fazia isso sozinho (literalmente), enquanto, Michael, admitamos, provavelmente nunca teria deixado de ser apenas o caçula dos Jackson 5 se não fosse o verdadeiro gênio Quincy Jones lhe mostrar os caminhos.
Prince já que aparecera como uma das grandes promessas da música pop no final dos anos 70 vinha evoluindo com seu trabalho e a cada disco mostrava-se mais competente. Já havia nos apresentado o ótimo "1999", o bom "Parade",a consagrada trilha de "Purple Rain" e agora, com "Sign O' the Times" de 1987, parecia que chegava a uma espécie de auge profissional com um disco que explorava a black-music praticamente de cabo a rabo e com todas as possibilidades e técnicas possíveis até então. Prince então concebia o disco, compunha-o todo, arranjava-o, produzia e tocava todos os instrumentos de uma obra que levava sua assinatura integralmente.
A genial faixa-título que abre o disco construída (ou descontruída) a partir de uma base eletrônica e vocal rap é absolutamente moderna e minimalista em sua composição com uma letra inteligente e irônica.
"Housequake", com sua bateria alta e pesada, é um funkão daqueles dignos dos mestres do gênero; e em "The Ballad of Dorothy Parker" Prince desfila um vocal primoroso sobre uma base de percussão eletrônica extremamente bem composta.
A ótima "It", também minimalista, com sua batida invariável e contínua, com teclados e efeitos pontuais, é sexy, luxuriante e... fora de série. "Starfish and Cofee", um gospel simplezinho, é bem música negra americana de rua, daquelas de cantar em grupo na esquina ao lado de um tonel com fogo, sabe? Já "Slow Love" uma balada apaixonante, e uma das minhas preferidas, faz bem o estilo soul-man romântico dos anos 50 com um vocal 'derretido' do baixinho e um recheio muito legal de metais.
Até nas aparentemente simples como "Hot Thing", outro funkão foda, com sua estrutura básica porém cheia de variações e inserções de elementos ou na interessante "Forever in My Life" que é só vocal (e que vocal) sobre uma base rigorosamente repetida, sempre aparece nitidamente a qualidade superior do trabalho.
Pra não dizer que tudo é assim espetacular, músicas como "Play in the Sunshine", "U Got the Look", "Strange Realtionship", "I Could Nevet Take..." não passm de boas canções pop, mas ainda assim cheias de soul, de funk, de rythm'n blues e muito melhores do que a maioria das 'canções pop' que rolam por aí.
Ainda deve-se destacar a crescente "The Cross", talvez a mais rock do disco, com o melhor da guitarra de Prince; a verdadeira 'festa' que é "It's Gonna Be a Beautifull Night", um funk longo carregado e cheio de embalo, tirado de uma gravação ao vivo; e a lentinha adorável "Adore" que faz as honras de despedida do álbum.
Disco pra se ficar boquiaberto da primeira à última. Impecável em cada detalhe. Prince chegara possivelmente a um álbum perfeito. Ele amadurecera, progredira, evoluíra. Era o sinal dos tempos! E eles anunciavam Prince como o verdadeiro gênio da música pop negra americana.

FAIXAS:
01. Sign O’ The Times
02. Play In The Sunshine
03. Housequake
04. The Ballad Of Dorothy Parker
05. It
06. Starfish And Coffee
07. Slow Love
08. Hot Thing
09. Forever In My Life
10. U Got The Look
11. If I Was Your Girlfriend
12. Strange Relationship
13. I Could Never Take The Place Of Your Man
14. The Cross
15. It’s Gonna Be A Beautiful Night
16. Adore


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Baixe e ouça:
Prince Sign O the Times