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quarta-feira, 15 de fevereiro de 2012

cotidianas #138 - Chá da Tarde


"Marie no Jardim" - Kroyer, Peder Severin (1893)
A tarde estava amena. Uma leve brisa soprava carregando consigo um pouco do olor das flores que tinham acabado de desabrochar naquele início de primavera. O frio dos dias anteriores havia diminuído e a tarde fazia-se assaz aprazível, porquanto o sol ter também aparecido depois de alguns dias escondido atrás de espessas e ameaçadoras nuvens. Dado aquele especial favorecimento do clima, a oportunidade para alguma atividade ao ar livre, em contato com a natureza, fazia-se tentadora à maioria dos habitantes de La Gìnnete e naquela tarde, no pátio do castelo de Laurent, ao lado da estufa onde flores de cores e espécies diversas exibiam sua vividez primaveril, não foi diferente, e uma bela anfitriã, altiva, de porte elegante, gestos leves e maneiras nobres recebia um convidado especial para um chá.
- Causou-me certa estranheza vosso convite, Mademoiselle Marie.
- Ora, a que se deve tal espanto, Monsieur Fabien? Pois não nos temos especialmente em alta estima recíproca? – retrucou Mademoiselle Marie, empunhando elegantemente o bule e servindo um pouco de chá a ambos. - Açúcar?
- Sim, por favor. Dois cubos apenas. Mas... - tentando retomar o assunto - estando nós, cá a sós e tenho certeza de não necessitarmos simular personas ou encenar uma peça: bem sabemos que, há não muito, afirmar sermos apenas amigos seria no mínimo um eufemismo, e também é de nossa mútua ciência que o modo como se encerrou esta suposta ‘amizade’ não pode ser considerado dos mais satisfatórios e felizes, sobremaneira para mademoiselle... – encerrou a fala deixando propositalmente o pensamento em suspenso.
- É pretensiosa a afirmação, Monsieur. - saltou ela com um leve acento de surpresa na voz.
- Mas inverídica? – retrucou ele.
- Não – respondeu com segurança – Acredito que possa-se, sim, afirmar que saí, sim, deveras magoada de nossa pequena aventura, se podemos assim chamar. Mas é sinal de falta de inteligência ficar-se atrelado ao passado e, embora tenha-me deixado levar por vossos encantos outrora, para pacóvia creio não servir...
- Por certo que não – disse interrompendo-a.
- Assim sendo, este acontecido deve ficar relegado ao nosso esquecimento e enterrado em nosso passado. – falou como se orientasse a copeira de como servir a mesa.
- Está certa disso, Mademoiselle Marie? – fez sugerindo alguma desconfiança.
- Subestima-me, Monsieur. Deve tomar-me por alguma infanta que insiste em morrer de amores por quem não lhe quer. Não foi sem pretexto que vos convidei para este encontro informal. Com este singelo chá entre amigos, pretendo exatamente vos afiançar minha boa vontade e nova disposição. Suponho seja este gesto suficiente a demonstrar que não guardo por vós rancores quaisquer.
Monsieur Fabien iniciaria a dizer alguma coisa em resposta mas interrompeu-se de brusco por um pequeno engasgo.
- O que dissestes, Monsieur? Perdoai-me mas não vos compreendo muito bem.
O sufocamento parecia piorar e ele levava agora então a mão ao pescoço e arregalava os olhos fixando-a acusativamente.
- Ah, sim – disse ela com calma enquanto dava voltas com a colherinha em sua xícara – creio que já começa a fazer efeito – ao que ele arregalou mais ainda os olhos.
- Tomei a liberdade de acrescentar ao vosso chá uma substância que obtive com o alquimista. Disse-me ele ser assaz eficiente. Em pouco tempo enrijece a glote, logo depois obstrui as vias e em pouco tempo vosso sofrimento estará findo. Paciência, paciência. – troçou antes de beber mais um gole.
- Deveis estar vos perguntando como fi-lo se estou a beber tão animadamente meu delicioso chá. A propósito, quereis mais um pouco? Não, creio que não. – apressou-se em responder ela mesmo – Lembra do anel que mo destes, aquele com compartimento para veneno? Pois, sim: resolvi fazer bom uso dele e enquanto tratávamos de amenidades, despejei discretamente em vossa xícara. Espero que me perdoe. – concluiu ironicamente enquanto ele agora já despencava da cadeira e agarrava-se à toalha da mesa como se aquilo pudesse de alguma forma salvá-lo.
- Com efeito, tenho nosso caso sepulto no passado. E é verdade que não vos quero mais nem me importo consigo, contudo não podia permitir que pensásseis que sairíeis incólume depois de tamanha desfaçatez com minha pessoa. Lamento que tivesse que ser desta forma para aprender que assim não se age com dama como eu. – concluiu cruel.
Neste momento as últimas resistências de Monsieur Fabien finalmente se esgotavam e ele, sem vida, caía levando a toalha, toda a louça e prataria da mesa, com o que Mademoiselle Marie nem demonstrou incomodar-se. Apenas tratou de levantou-se, desviou para não pisar no corpo, olhou ainda para baixo mais uma vez como se enxergasse ali um excremento ou algo parecido e então chamou o criado:
- Naru. – chamou sem gritar e, quase do nada, logo apareceu um negro alto, retinto, espadaúdo, de olhar delicado porém decidido.
- Pois não.
O criado Naru viera das colônias e fora por ela retirado da escravidão e levado para serviços mais domésticos por, segundo mademoiselle Marie, ter aptidões superiores. Com ela Naru que já sabia ler, aprendeu piano, esgrima, equitação e sempre a surpreendia com novas habilidades. Atendia às lides da casa, do castelo, mas não raro era encarregado de Tarefas mais específicas, de maior exigência.
- Naru, limpa toda essa sujeira agora e depois livra-te disso à noite na ponte Saint Veniz.
- Sim, Senhora.
- Quando retornar, sobe aos meus aposentos pois tenho coisas a tratar consigo.
Deixou Naru às suas costas limpando os cacos de xícaras e maçarocas de doces espalhadas pelo chão e pôs-se a passear calmamente entre os canteiros. Aproximou-se de uma azaléia, aspirou seu perfume, fechou os olhos por um momento e logo pôs-se novamente a caminhar pelas vielas estreitas do jardim. Aquela era verdadeiramente uma bela tarde.



(para Marie)

Cly Reis

cotidianas #137 - Tarde da Noite, Rua Maudlin


(O inverno está chegando
O inverno apressa
Apressa
O inverno é tão longo
O inverno se move)


A última noite na rua Maudlin
Adeus casa, adeus escadas
Eu nasci aqui fui criado aqui e
... levei umas pauladas aqui


Amor à primeira vista
Pode parecer banal
Mas é verdade, você sabe
Eu poderia listar os detalhes de tudo o que você já vestiu
ou disse, ou como se encontrava naquele dia
E como passávamos a última noite na rua Maudlin, eu diria
"adeus casa - para sempre!"
Eu nunca consegui uma hora feliz por aqui


Onde o garoto mais feio do mundo
Se transformou no que você vê
Aqui estou eu – o mais feio dos homens


É a última noite na rua Maudlin
E eu te amo de verdade
Ah, eu te amo de verdade


Quando eu durmo com aquela sua foto emoldurada ao lado da cama
Oh, é infantil e é idiota,
Mas eu acho que é você no meu quarto
ao lado da cama (eu te disse que era idiota...)
E eu sei que tomei pílulas estranhas
Mas eu nunca quis te machucar
Ah, eu te amo de verdade Voltei tarde para casa uma noite
Todo mundo tinha ido dormir
Ninguém fica te esperando
Quando se tem dezesseis pontos envolta da cabeça


O último ônibus, eu perdi para a rua Maudlin
Então, ele me levou para casa na caminhonete
Queixando-se: "as mulheres só gostam de mim pela minha inteligência..." Não deixe sua lanterna lá atrás
Há cortes de energia à frente
Enquanto nos arrastávamos através do parque
Mas não, eu não posso roubar um par de jeans de um varal para você
Mas você... sem roupas ah, eu não poderia deixar de admirar
Eu - sem roupas? bom, uma nação se vira e segura o riso...
Estou com as malas prontas


Estou me mudando metade de uma vida desaparece hoje
Toda a escória se despede de mim
(secretamente me desejando longe)
Bom, logo vou estar longe...


Houve tempos difíceis na rua Maudlin
Quando eles te levaram num carro de polícia
Caro inspetor - você não sabe?
Você não se importa?
Você não sabe - sobre o Amor?


Sua avó morreu e sua mãe morreu na rua Maudlin
Sofrendo e envergonhadas sem nunca ter tido tempo para dizer
Aquelas coisas especiais
Eu peguei as chaves da rua Maudlin
Bom, são apenas tijolos e argamassa
E... eu te amo de verdade
Onde quer que você esteja
Onde quer que você esteja...

******************
"Late Night, Maudlin Street"
Morrissey


Ouça:
Morrissey - "Late Night, Maudlin Street"

quarta-feira, 8 de fevereiro de 2012

cotidianas #136 - A jiboia sem assento


texto de Daniel Rodrigues
ilustrações Cly Reis
Tô com pena da jiboia!
E não é dessas penas de curió
Não! É pena pena mesmo, de dó
Afinal, olha só:


Primeiro, inventaram essa regra de que jiboia não tem mais assento
E agora: quando ela se esgana e bota pra comer a boia
Onde a tadinha, gorda como uma bola, vai se sentar?
Na hora de tudo aquilo processar, fica ela lá
Com a boia boiando lá dentro dela, como uma boia
E jiboiar, agora
Só deitada ou de pé
Sentada, nem se ela quiser




De qualquer forma,
vou lhe contar uma coisa:
mas que desconfortável é essa norma!


E pior: como se não bastasse esse episódio chato
Andam caçoando também do seu formato
Já tinham lhe roubado o assento
Até aí, vá lá!
Mas, agora, veio essa joia
de lhe apelidar
- só de “boia”...


Daí, não deu outra:
De cobra, dentuça e peçonhenta
Deram pra lhe taxar de mulher do boi
Dessas paradonas e virada em teta


Que desprestígio! Que calúnia com a jiboia!


Ela ficou, claro, mais jururu do que já era
E como não? Também pudera!






Há quem socorra, com pena, e lhe chame só de “boa”
(Que o Aurélio diz estar “na boa”)
Mas agora, com essa má-fama de vaca toura...
Tipo aquela que mastiga e mastiga capim
Ah, não tem jeito: é o seu fim!


Assim, sem assento,
deitada de pança pra cima
e, de tanto comer, quase morta
Só podia dar em chacota


Não tem mais jeito
Agora o estrago tá feito:
a cobra foi pro brejo!
Só lhe restou, coitada!, ter pejo.

Pelo bem da espécie: deixem a jiboia se assentar, ora bolas!
Ou alguém, senhor ou senhora,
têm outra ideia que leve assento?



(Para Leocádia.)