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terça-feira, 27 de março de 2012

Pix

Kings of Leon - "Youth & Young Manhood" (2003)

"Um dos melhores
álbuns de estreia
dos últimos 10 anos"
New Musical Express,
em 2003

Quando eu vi o clipe de "Molly's Chambers" na MTV aquela bandinha me chamou muito a atenção. Aquilo tinha a vitalidade, a pegada, o minimalismo do punk mas com um indesmentível traço de rock sulista americano. E aqueles caras com visualzão anos 70, calças jeans de bocas largas, cabelões desgrenhados e barbas de lenhadores das montanhas parecia perfeitamente ligar o som à imagem. Esperei dar o final do clipe para ver os créditos e descobri que quem se tratava: eram uns tais de Kings of Leon e aquela música estava nó álbum "Youth and Young Manhood".
Não tive dúvidas; mais ou menos dois ou três dias depois comprei o CD. Sempre tem um risco em comprar as coisas assim, comprar um disco conhecendo apenas uma música, já dei muito com os burros n'água por causa disso, mas o disco não só não me decepcionou, como na verdade, era melhor do que eu imaginava e, para minha mais agradável surpresa, "Molly's Chambers", que eu havia gostado muito, sequer era a melhor música.
Quatro parentes, três irmãos e um primo, de família conservadora e religiosa, juntaram-se e combinaram toda a influência da música interiorana de sua região a um rock enérgico, básico, cru e rústico.
"Wasted Time" é um bom exemplo disso trazendo em doses equilibradas do bom punk rock sujo de garagem com as influências southern rock; "Happy Alone", embalada e entusiasmante, transborda de guitarras por todos os lados e traz o vocal enlouquecido de Caleb Fallowill; muito legal também é "Joe's Head" com sua levada folk-rock e um vocal muito bacana, novamente quase histérico e gritado no final da música; "Trani" e "Dusty" tiram o pé do acelerador, a primeira numa balada de vocal arrastado e ébrio e a segunda um blues caipira de primeira qualidade.
"Genius", com seu riff minimalista, é igualmente muito boa e não pode deixar de ser citada; "Spiral Staircase", um demolidor punk-country-rock de saloon é absolutamente ensandecida; a simpática "California Waiting", embora interessante, já fazia antecipar os caminhos que a banda seguiria.
No entanto, "Red Morning Light" que abre o disco e "Holy Roller Novocaine" que o encerra é que são na minha opinião as melhores faixas, ambas capturando o melhor do espírito musical de Nashville e carregando-o de rock'n roll cru e sujo.
Infelizmente a obsessão por mulheres, que os integrantes desde sempre alardearam e que já se anunciava no clipe de "Molly's Chambers", cheio de gostosas esculturais dançando, acabou prevalecendo e os rapazes optaram nos discos seguintes por fazer música para menininhas, adocicando sua música outrora tão legal, tão cheia de personalidade e reduzindo-a a um popzinho descartável e insosso. (Bom, deve ter sido por isso, não?) Não que não seja bom agradar às mulheres, fazer sucesso e tudo mais, mas artisticamente é uma pena que tenham optado por esse caminho e, de mais a mais, tenho certeza que não precisavam dessa transformação para atingir seus objetivos. Mas o fato é que os cabeludos rústicos do sul dos Estados Unidos cortaram as jubas, as barbas, ficaram com visualzinho emo, fazem um tremendo sucesso hoje em dia e certamente estão com os cofres cheios de dinheiro. Hnf...
Lamentável. Do ponto de vista musical, lamentável. Eu que tinha grande expetativa acerca dos trabalhos seguintes da banda fiquei extremamente decepcionado. Mas fazer o quê? Pelo menos temos sorte que ainda tenham conseguido deixar um belo trabalho como esse.

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FAIXAS:


1. "Red Morning Light"
2. "Happy Alone"
3. "Wasted Time"
4. "Joe's Head"
5. "Trani"
6. "California Waiting"
7. "Spiral Staircase"
8. "Molly's Chambers"
9. "Genius"
10. "Dusty"
11. "Holy Roller Novocaine"
(faixa escondida "Talihina Sky")

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Ouça:
Kings of Leon Youth and Young Manhood

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vídeo de "Molly's Chambers - Kings of Leon



Cly Reis

segunda-feira, 26 de março de 2012

Porto Alegre - 240 anos

MOÇA ELEGANTE
nanquim de Hélio Ricardo Alves,
do livro "Porto Alegre foi Assim"
As palavras não são minhas, são de minha mãe: “Porto Alegre é uma moça elegante”. Mas ouso fazê-las minhas um pouquinho que seja, pois, além da óbvia consanguinidade, eu e minha mãe (cujos olhos hoje desfrutam da beleza do Rio de Janeiro, onde reside), somos porto-alegrenses e, mais do que isso, partilhamos da mesma impressão sobre esta bela jovem de maneiras charmosas chamada Porto Alegre. E diria mais: a sabida beleza imponente e sensual das mulheres da capital gaúcha se reflete inteiramente no corpo da cidade: em suas ruas, suas esquinas, suas fachadas, seus parques, suas gentes. Podem perceber, por exemplo, que Porto Alegre tem a estatura mediana das mulheres daqui: nem muito baixa, nem muito alta. Tamanho certo! Não fosse isso, seria impossível olhar para cima e visualizar o céu de azul intenso que nos cobre tanto nos dias de gelo quanto de bafo.
Outra particularidade feminíssima da cidade é sua luz. Intensa, marcante, solar, como se fosse uma modelo que o tempo todo posasse para os cliques. Quem vive aqui entende o verdadeiro significado da expressão “cidade-modelo”. Porto Alegre, na verdade, parece que desfila. Mesmo que geologicamente parada, dá a impressão de, às vezes, caminhar, seguindo no mesmo passo firme, delicado e decidido que suas mulheres têm. Aos 240 anos, a jovem Porto Alegre é uma cidade que anda do seu jeito. Nem mais lenta, nem mais ligeira que são paulos, coritibas, maceiós ou teresinas. Apenas no seu ritmo. Ritmo de uma cidade-moça elegante.


cotidianas #148 - Pus





Eu sou sua perna
Eu sou seu braço
     sou seu baço
     sou seu abdômem


Sou em você cada pedaço
Sou seu ávido homem
"Corrente Sanguínea"
foto: Cly Reis


Eu sou seu peitos
sou sua coxa
sua corrente sanguínea
Eu sou seu plexo
seu córtex
suas narinas
Eu sou seus pelos
sua boca
sou o que você nem imagina


Eu sou sua pelve
seu sexo
eu sou sua vagina


Eu sou seu sangue coagulado
ferimento infeccionado
uma cirurgia de risco


Sou sua fratura exposta
sou seu contágio
por contato físico


Eu sou sua epilepsia
sua peste
sua epidemia


Sua doença
       vacina
sua embolia


Um vírus
(só não viram
aqueles que não queriam)


Que eu sempre fui seu mal
seu câncer
pus
e tiraria

Cly Reis