sexta-feira, 20 de julho de 2012
quarta-feira, 18 de julho de 2012
cotidianas #170 - Maratona
A Juventus, time de futebol sete no qual eu jogava, chegou
um momento que ficou grande demais para os domínios locais. Ganhávamos
praticamente tudo de torneios de bairro e arredores. Começamos então a
participar dos torneios da Federação Gaúcha de Futebol Sete e os jogos passaram
a ser então nas sedes determinadas pela organizadora. Uma das sedes era na Ilha
da Pintada, localidade próxima a Porto Alegre, já no município de Eldorado do
Sul, do outro lado da Ponte Elevadiça, que é um dos cartões postais da cidade.
Os jogos da FGF7 costumavam ser pela manhã, sendo às vezes o
primeiro horário, às 8 e meia, indo até uma ou duas das tarde no máximo, o que nos
obrigava no caso de sermos sorteados nos primeiros jogos a nos mobilizarmos
muito cedo.
Como éramos amadores, jogávamos mais pela curtição, muitas
vezes, eu na condição de ‘dirigente’ tinha que me desdobrar para garantir que
tivéssemos o número mínimo de jogadores no domingo de manhã, às vezes muito
cedo. Às vezes era difícil. Tinha que encarar a falta de comprometimento de
alguns, dificuldade financeira de outro que não tinha sequer dinheiro pra
passagem, compromissos familiares ou profissionais de fulano, resultados de
noitadas de cicrano e assim por diante. Por mais que fôssemos um time de
bairro, e a maioria morasse próxima, alguns moravam em outros bairros e por
isso, tínhamos como ponto de encontro o terminal de ônibus da Praça XV, no
Centro de Porto Alegre, em frente ao Mercado Público. Lá os que chagavam,
esperavam os demais até um horário limite para que pegássemos um ônibus até a
Ilha da Pintada onde aconteciam nossos jogos. O problema é que o ônibus tinha
pouca freqüência, poucos horários e tínhamos que contar com a possibilidade da
ponte estar levantada e nos atrasar, então o horário limite de saída do Centro,
tinha que ser seguido rigorosamente.
Um dos nossos jogadores, o Testa, tipo folclórico, meio
bronco, dono de uma ingenuidade tal que o fazia passar por burro muitas vezes,
mas que no fundo revelava uma pessoa extremamente afável, trabalhava em uma
padaria durante a noite toda e mesmo assim ia direto para os jogos, e quando os
jogos eram da Federação, na Ilha, se juntava a nós no ponto de encontro, no
terminal do centro da cidade.
Naquele domingo tínhamos jogo na Ilha e havia um agravante
que poderia nos atrasar: acontecia a Maratona de Porto Alegre e uma parte do
trajeto passava pelo Centro. Marcamos de nos encontrarmos mais cedo ainda para
não correr o risco de que ruas fossem interditadas, que o trânsito ficasse
ruim, que fosse interrompido, que o itinerário fosse muito alterado ou que
qualquer coisa acontecesse. Não queríamos ser surpreendidos pelo acaso.
Por azar aquele domingo era um daqueles dias que estávamos
contadinhos: dos confirmados no dia anterior, teríamos SETE jogadores certinho,
contando com o Testa que nos encontraria lá. Não tinha muito risco, o Testa não
era de faltar, era fiel. Podia ter trabalhado a noite toda diante de um forno
de pão mas não nos deixava na mão. Assim, nós, eu, meu irmão Daniel e mais 4
fominhas, tendo chegado antes, esperaríamos o Testa até o horário marcado.
O problema é que a hora foi passando, o horário se
aproximando e nada do Testa. O que teria acontecido? Ele não era de atrasar.
Teria pego um trecho da maratona em outra parte da cidade? Teria ficado até
mais tarde na padaria? Não teria podido ir? E o tempo passando e nada do Testa.
Tínhamos que embarcar. Não tinha como esperar. O próximo ônibus pra Ilha era só
dali há uma hora e se perdêssemos aquele fatalmente perderíamos o jogo por WO.
Embarcamos. Melhor 6 jogadores em campo do que nenhum. O
motorista deu a partida. Ainda mantínhamos uma esperança de que nosso atleta aparecesse
na última hora mas nada. O ônibus pôs se andar, andou alguns metros e, sentados
no banco do fundo, olhamos ainda mais uma vez para trás. O ônibus ia então
dobrando a esquina que dá do terminal para a Av. Júlio de Castilhos quando para
nossa feliz surpresa avistamos o Testa descendo em desabalada carreira a Rua
Marechal Floriano. Foi aquele alvoroço. “O Testa, o Testa!” gritávamos em
comemoração. Mas nossa festa foi um tanto precoce pois, não tendo nenhum ponto
ali imediatamente, o motorista recusou-se a parar mesmo sob os nossos
insistentes pedidos.
“Fodeu!”, pensamos enquanto víamos pelo vidro traseiro o
Testa ainda correndo quase desanimando ao perceber que o motorista, provavelmente
seguindo as rigorosas regras da empresa, não lhe abriria aquela exceção e
pararia fora do ponto. O ônibus já seguia um bom pedaço da avenida quando
avistamos bem ao fundo o Testa, persistente, acelerando a corrida esperançoso
de embarcar. Já que não contávamos com a boa vontade do motorista, passamos
então a torcer para que o Testa conseguisse, favorecido por um ritmo mais
lento, pelos sinais vermelhos dos semáforos, alcançar o veículo até o próximo
ponto. Chegou perto disso em algum momento mas pondo-se em marcha novamente,
mesmo sob nossas súplicas para que permanecesse mais um pouco no ponto, o carro
afastara-se novamente do nosso colega. Nossa torcida vivaz e barulhenta dentro
do ônibus começava a contagiar outros passageiros, que víamos, já atentos à
possibilidade do rapaz conseguir ou não embarcar no carro. Mas a chance pareceu
se esvair quando o coletivo fez a curva na altura da rodoviária e a figura do
corredor se perdia lá atrás. Nosso entusiasmo com a até então heróica corrida
arrefeceu e sentamos desanimados lamentando. A próxima parada seria longe dali,
na avenida Voluntários da Pátria mas muuuito adiante. Não dava mais.
O ônibus dobrou na Voluntários e mesmo desesperançosos, ainda
demos uma olhadinha pra trás por ‘desencargo de consciência’. Vai que ele
tivesse insistido. “Não, ninguém insistiria”. Mas eis que...Não era possível!!!
Lá estava ele! Ele pegara um atalho pela Coronel Vicente e estava ali ainda,
tenaz, nos seguindo como um cavalo de raça. O ônibus então ‘veio abaixo’! Não
apenas nós mas todos os passageiros, agora já envolvidos no nosso drama e no
drama do Testa, vibraram com a aparição milagrosa do negro na esquina da
Voluntários, e como ali a circulação de veículos, separada por uma faixa, se
misturava à da Maratona de Porto Alegre, o Testa pôs-se a passar um a um, por
cada participante da prova, sem lhes tomar conhecimento. Qualquer um daqueles
atletas deve ter pensado, “eu não sei quem é esse queniano, mas com certeza
esse cara vai ganhar a prova”. E passou um, dois, e outro e outro... Os atletas
boquiabertos eram ultrapassados como se fossem tartarugas.
A essas alturas até o inflexível motorista já se
sensibilizara com o esforço do garoto e começava a diminuir a marcha de modo a
permitir sua aproximação. A torcida era tamanha, os pedidos de todos, inclusive
dos que não tinham nada a ver com a situação, tão insistentes, que o condutor
se rendeu e parou fora do ponto até que o heróico corredor se aproximasse e
entrasse ovacionado no veículo. Exausto, esgotado, esbaforido, exaurido,
desabou num banco qualquer até recuperar o fôlego não levantando dali até
chegarmos ao local do jogo.
Depois nos explicou que saíra mais tarde da padaria, perdera
o ônibus que o levaria até o Centro ou algum outro motivo que não lembro. Não
interessava. Estava ali e só pelo seu esforço nosso dia já tinha valido. Sua
prova de fidelidade e lealdade tinha valido por todos aqueles que tinham ficado
dormindo e nos deixaram com o número mínimo de jogadores para encarar uma
parida difícil como a que teríamos.
O jogo?
Ah!
Ganhamos por 2x1 do time da casa.
Nós ganhamos o jogo mas pode-se dizer que o Testa ganhou o
jogo e a maratona também.
Cly Reis
terça-feira, 17 de julho de 2012
Muddy Waters - "Fathers and Sons" (1969)
“Meu
‘encanto’ funciona,
mas não
com você”
“Got My
Mojo Working”
Depois da fase experimental, uma retomada ao bom e velho
blues característico e as pazes com os fãs, críticos, e consigo mesmo. Em “Fathers and Sons” de 1969, o grande Muddy Waters retornava ao seu estilo
habitual proporcionando blues da melhor qualidade, dois discos após a
psicodelia barulhenta de "Electric Mud", disco
excelente, renegado no entanto pelo próprio artista.
Lançado originalmente como LP duplo, trazia 16 músicas no
total sendo o disco 2 apenas com versões ao vivo. O formato CD tem 4 faixas de estúdio a mais
mas mantém as seis originais de show. Entre estas ao vivo temos a arrepiante
“Long Distance Call” com sua guitarra estridente levando o público ao delírio;
“Baby Please Don’t Go” que já havia sido consagrada na versão do Them, mas aqui
não tão acelerada quanto na versão da banda de Van Morrison; e o clássico “Got My ‘Mojo’
Working”, tocada duas vezes, executada de modo vibrante com participação
entusiástica da galera. No mais, a balada com a harmônica chorosa, “Mean
Disposion”; o show particular de guitarra de Muddy em “Can’t Lose What You
Ain’t Never Had”; a performance coletiva arrasadora de todo o time em “Stand
Round Cryin’” e a incrível “Twenty Four Hours mostravam quem mandava no pedaço.
Era o velho McKinley Morganfield retornando com vivas ao seu
bom e velho blues elétrico.
A capa genial com um
Deus negro criando o Homem, de certa
forma é muito sugestiva quanto a este retorno de Muddy às suas raízes e parece
conter uma espécie de recado, tipo, Deus criou o Homem. O Homem criou o blues. Muddy Waters criou o Blues de Chicago.
Muddy fez
“Fathers and Sons”...
Deus é pai, Deus é pai.
************************************
FAIXAS:
- "All Aboard" – 2:52
- "Mean Disposition" – 5:42
- "Blow Wind Blow" – 3:38
- "Can't Lose What You Ain't Never Had" – 3:06
- "Walkin' Thru The
Park" – 3:21
- "Forty Days And
Forty Nights" (Roth) – 3:08
- "Standin' Round
Cryin'" – 4:05
- "I'm Ready"
(Dixon) – 3:39
- "Twenty Four
Hours" (Boyd) – 4:48
- "Sugar Sweet"
– 2:18
- "Long Distance
Call" – 6:37
- "Baby, Please
Don't Go" (Williams) – 3:03
- "Honey Bee" –
3:56
- "The Same
Thing" (Dixon) – 5:59
- "Got My Mojo
Working, Part 1" (Foster, Morganfield) – 3:22
- "Got My Mojo
Working, Part 2" (Foster, Morganfield) – 2:54
faixas extras da versão CD:
"Country Boy" – 3:20
"I Love the Life I Live (I Live
the Life I Love)" (Dixon) – 2:45
"Oh Yeah" (Dixon) – 3:38
"I Feel So Good" (Big Bill Broonzy) – 3:00
********************
Ouça:
Ouça:
segunda-feira, 16 de julho de 2012
The Smiths Cover / The Cure Cover - Rio Rock and Blues Club - Lapa - Rio de Janeiro (14/07/2012)
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Smiths Cover detonando
(de novo)
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Assim, fui então ao Rio Rock & Blues Club no último
sábado mais com a curiosidade de ver o cover do The Cure do que propriamente
por rever os Smiths, que teoricamente não teriam nada de novo para apresentar
em relação ao que eu havia visto antes.
E, no tocante aos Smiths, era verdade. Não tinham nada de
novo. Nenhuma novidade... Mas por incrível que pareça estão cada vez melhores e
conseguem fazer com que mesmo depois de tê-los visto várias vezes, o show ainda
seja atraente, surpreendente e vibrante. “Handsome Devil” foi matadora; “This
Charming Man” espetacular; “There’s a Light tha that Never Goes Out”
emocionante; “Barbarism Begins At Home” absolutamente bem executada com o
baixista João Ricardo esmerilhando nas quatro cordas; e o guitarrista Eric Marr
absolutamente perfeito inclusive nas mais ‘encrespadas’ como “Girl Afraid” e
“Still Ill”, sem falar na execução impecável de “How Soon is Now?”. Pensei que
não pudessem mais me empolgar, que simplesmente seria mais um showzinho cover
mas me enganei. Agradável engano.
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O "Robert Smith" genérico do fraco
The Cure Cover
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Já para o tal cover do The Cure não posso tecer elogios com
o mesmo entusiasmo. Aliás parece que eles não demonstravam entusiasmo. Ah, dirão
“mas o The Cure não é uma banda que se possa chamar de animada”. Sei. Não é
disso que estou falando. Estou falando de tesão, vibração, presença de palco. E
quanto a isso, não se viu nada.
Pra não dizer que não vi nada de bom, o baterista foi o
único que se salvou, começando o show, inclusive com a difícil “Hanging
Garden”, mantendo regularidade impressionante naquela batida complicada. Já o
nosso “Robert Smith” era extremamente fraco. Não exijo que TENHA a voz do seu
homenageado, mas um cantor que pretenda fazer cover, na minha opinião, tem que
ter alguma semelhança de timbre, tem que tirar algum elemento característico da
interpretação do original, ou no mínimo colocar alguma empostação que remeta o
ouvinte àquele que pretende imitar. Se não não é cover. É uma banda tocando a
música de tal banda e aí tá cheio dessas na noite, dessas que tocam hits dos
anos 80 e que certamente vão tocar “Boys Don’t Cry” provavelmente melhor do que
eles.
Mas não ter essa identidade vocal não teria sido nada se não
fosse o fato de que parecia que não tinha vocal. A voz não saía. Não sei se o
cara tava tímido, se o som estava ruim, se ele estava bêbado (volta e meia
entornava uma garrafa de vinho que estava ao seu lado no chão) mas o fato é que
não cantava. Sem falar na peruca... Não precisava! Ficaria muito mais 'honesto' sem o cabelo espetado de Robert Smith. Ficou mais caricatural ainda.
E a baixista? O que falar da baixista? Nossa!!! Acho que se ela pudesse estar em casa de
pantufas ela estaria, mas tenho certeza que ela gostaria de estar em qualquer
lugar menos ali. Rigorosamente fria, sem sangue. Não exigia que ela fosse
agitada como o baixista do Cure, Simon Gallup, mas a apatia dela se refletia
nas suas execuções que ficavam absolutamente mecânicas e automáticas. Só se
salvou o batera mesmo que, além da já citada, “Hanging Garden”, mostrou serviço
em outras como “A Forest”, “Killing Na Arab”, “10:15 Saturday Night”.
Devo admitir que fui embora antes do final. Não tive
paciência para agüentar aquilo ali tão sem alma. Mais uma vez, a noite valeu
pelo The Smiths Cover que não deixou nada a desejar. Esses sim, me provaram
que, por mais que já tenha assistido várias apresentações deles, sempre vai
valer a pena ir vê-los de novo.
Cly Reis
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