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domingo, 10 de maio de 2015

COTIDIANAS n° 368 ESPECIAL DIA DAS MÃES - "Mãe"



"A Vida" - REIS, Cly

grafite sobre sulfite com manip. digital

Mãe... São três letras apenas
As desse nome bendito
Também o céu tem três letras
E nelas cabe o infinito
Para louvar a nossa mãe,
Todo bem que se disser
Nunca há de ser tão grande
Como o bem que ela nos quer
Palavra tão pequenina,
Bem sabem os lábios meus
Que és do tamanho do CÉU
E apenas menor que Deus!


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"Mãe"
Mário Quintana

sábado, 9 de maio de 2015

Quadrinhos no Cinema #1 - "Barbarella", de Roger Vadim (1968)


Barbarella, A primeira superprodução e primeiro grande filme das HQ's
por Vagner Rodrigues




Inocência, beleza e sensualidade.
Tudo isso na maravilhosa Jane Fonda
A primeira grande produção de quadrinhos para o cinema, "Barbarella", foi muito mal recebida na época do seu lançamento, mas hoje é um clássico cult, graças a um velho fenômeno que faz um filme ser tão ruim, mas tão ruim, que dá uma volta e fica bom.
Barbarella (Jane Fonda) é uma agente espacial que viaja pelo universo fazendo missões especiais a pedido do presidente da Terra. A história se passa durante uma das missões de Barbarella, onde ela vai atrás do perigoso Dr. Durand Durand (sim, foi daqui que a famosa banda tirou seu nome). Ao longo de sua jornada ela vai se deparando com diferentes raças e planetas, no meio deste intercâmbio cultural, ela descobre os prazeres do sexo, daí a ficção científica vai para o espaço (entenderam a piada?) e o filme e só Barbarella conhecendo diferentes homens e fazendo sexo com eles. Não tem nada explícito, o filme é sensual, desde seu início, a cena de abertura é um strip-tease de Jane Fonda, de dar inveja a Sandra Bullock em 'Gravidade".
Fonda é pura sensualidade nesta obra. O seu ar inocente (beirando ao estereótipo de loira burra), combinado com suas roupas provocantes, levam os homens a loucura, só por isso o filme já merece ser assistido.
O roteiro é uma bagunça, as falas são horríveis, muitos diálogos sem sentido, e os efeitos até mesmo para época são muito ruins. Não é um bom filme tecnicamente falando, o som é ruim, atuações quase amadoras, mas você consegue tirar algo de positivo do filme.
Os muitos uniformes de Barbarella.
Muito práticos para viagens espaciais.
Não se engane com o que você leu até aqui, pode parecer uma obra machista, mas não é. Roger Vadim acerta em cheio em sua adaptação, ao deixar sua obra exalando sexualidade, pois este é o espírito da HQ, o filme e a HQ são da época de força da luta do feminismo, do direito de igualdade e liberdade da mulher, no filme é retratado a liberdade sexual da mulher. Barbarella não é um objeto, ela quer prazer, por isso procura os homens, e não o contrário. Ela seduz (mesmo sem querer), mas não é seduzida, ela é inocente em alguns momentos, mas nunca inferiorizada. Claro, é um filme de um diretor homem, baseado em uma HQ de escritores homens, para o público em sua maioria de homens, por isso há um exagero ao mostrar a sensualidade de Barbarella, você pode assistir o filme com essa visão, de um filme soft erótico, está no seu direito, mas aconselho a superar essa camada, que irá aproveitar muito mais.
Foi isso, essas camadas do filme que me fascinaram. Você pode velo como um “filme machista”, que utiliza da sensualidade de Jane Fonda ao extremo (e usa maravilhosamente bem), pode também olhar um filme com a coragem de colocar uma heroína como personagem principal, o que ainda é difícil nos dias de hoje, ou simplesmente um filme tosco, sem sentido, o importante é: Assista ao filme e faça sua escolha, pretty! pretty!.
O striptease da abertura. E que abertura!




Lucas Arruda – “Sambadi” (2013)





Musicalmente falando, eu acho que o que estou fazendo é, basicamente, a continuação de uma estética de linguagem musical que existe no Brasil desde os anos 60 e 70, mas que de repente ficou meio esquecida por aqui.”
Lucas Arruda

Esse cara é um gênio. Para mim, ele salva esse cenário supermedíocre de hoje”.
Ed Motta

Ano passado publiquei aqui no Clyblog uma lista dos meus melhores discos instrumentais brasileiros de todos os tempos. Salvo a minha ignorância de não listado a obra-prima de Robson Jorge e Lincoln Olivetti, de 1982 (menção esta aqui com a qual me sinto agora livre do justo espancamento), um que não incluí, pois ainda não o conhecia nem o entendia suficientemente devido à sua recência, é “Sambadi”, de Lucas Arruda, de 2013. Considero, no entanto, que desfaço agora duplamente a injustiça ao sagrá-lo como um ÁLBUNS FUNDAMENTAIS, tanto por destacá-lo assim, exclusivamente, como pelo fato de ser o álbum mais recente sobre o qual já escrevi entre os meus mais de 40 para esta seção.

O certo é que esse destaque não se sustenta por um sentimento de culpa. “Sambadi” é que é muito bom. Primeiro disco deste talentoso jovem capixaba multi-instrumentista radicado no Rio de Janeiro, é ao mesmo tempo um trabalho autoral e raro na música brasileira dos últimos 20 anos como também uma homenagem aos ídolos da soul music e do samba-jazz brasileiro, forte nos anos 60 e 70 mas gradativamente desvalorizado a partir dos 80. O resultado é um disco semi-instrumental altamente sofisticado pela habilidade de Lucas, responsável por praticamente todos os instrumentos (a bateria, único que ele não toca, é de seu irmão, Thiago Arruda). As referências vão dos mestres norte-americanos Stevie Wonder, Curtis Mayfield e George Duke aos brasileiros Tamba Trio, Azimuth, Marcos Valle, Black RioSambrasa Trio, Ed Motta, os próprios Robson Jorge, Olivetti, entre outros dentre os que dominam o legado da MPB e o manancial estético oferecido pelo jazz e o R&B.

“Physis” dá a cara da abertura com uma linha de sintetizador marcando acordes que vão e voltam, acompanhados por vocalises de Lucas. Ao fundo, um clima muito brasileiro se forma com sons da natureza de nossa flora e fauna. Prenúncio da brasilidade que se sentirá fortemente a partir dali. Sem dar tempo de respirar, a primeira faixa emenda com “Tamba”, um samba-funk gostoso e sofisticado no qual Lucas manda ver em lindos improvisos de seus teclados (piano, Fender Rhodes e sintetizador). Nos tons médios, a guitarra, numa levada de mexer o esqueleto, sustenta a base junto com o Rhodes e a batida sincopada da caixa, enquanto o baixo e o bumbo mantém a seção grave. Afora a visível homenagem ao famoso trio de bossa-jazz dos anos 60 comandado pelo pianista Luiz Eça, a sonoridade remete mesmo durante todo o disco fortemente à Azimuth, outra grande banda da mistura de jazz e MPB, porém esta, já setentista, com o espírito fusion de então.

Aliás, a arquitetura timbrística de “Sambadi” respira o tempo todo a Rio de Janeiro e a essa atmosfera da Azimuth, e isso por dois motivos. Primeiro, pelo arranjo e produção serem do próprio Lucas Arruda, que encerra todas as músicas do disco dentro do mesmo conceito sonoro: bateria e/ou percussão e/ou programação de ritmo (uma ou duas juntas no máximo), guitarra, baixo, piano elétrico e sintetizador ou Fender Rhodes. Fora um ou outro instrumento ocasional (cavaquinho, violão) ou voz, as texturas do disco são permanentemente essas, o que lhe dá bastante coesão. E essa sonoridade é muito Azimith, principalmente no mitológico "Light as a Feather", de 1979, porém adicionando a isso a limpidez dos estúdios digitais de hoje. Segundo: quem executa tudo é apenas um músico: o próprio autor – fora a bateria, que também vêm de alguém do sangue Arruda. E com tamanho talento, tudo funciona redondinho. “Batuque” (outra referência a seus mestres, nesse caso, o clássico “Batucada Surgiu”, dos irmãos Valle, de 1967) acelera o ritmo mas mantém a mesma malemolência e elegância. Na percussão, além da bateria, um agogô joga o ouvinte pra dentro de um terreiro de samba. Nesta, Lucas investe em solos não só de seus teclados, mas também da guitarra, tudo sob uma linha de baixo 4/4 maravilhosa a la Ron Carter que lembra as realizadas pelo baixista norte-americano nas memoráveis gravações com os brasileiros Airto Moreira, Tom Jobim e Hermeto Paschoal.

A black music ganha um preito especial em “Who’s that Lady”, de autoria de O'Kelly Isley, do grupo soul norte-americano Isley Brothers, das poucas cantadas do disco. Clima sensual e charmoso nesse AOR que podia rodar em qualquer rádio retrô tipo Continental que os desavisados achariam que foi gravada nos anos 70. Sem percussão, apenas no piano elétrico e sintetizador, “Rio Afternoon”, na sequência, é quase uma vinheta atmosférica como a inicial “Physis”, demarcando agora o começo de uma nova seção do disco, como se o CD tivesse o lado B do vinil. Essa segunda parte começa com a também curta “Na Feira”, um baião hi-tech, provando o quanto Luiz Gonzaga e Humberto Teixeira são sofisticados.

Tudo isso faz cama para a excepcional faixa-título em seus cerca de cinco minutos de puro desenvolvimento de solos e perícia nas linhas de base. O espírito nordestino se mantém na marcação metálica de um triângulo, que vem com os keyboards espaciais do Rhodes e uma rica linha de guitarra ao estilo Nile Rodgers. Uma programação eletrônica, associada à bateria e a percussões, aponta o ritmo. O baixo, entretanto, é um destaque à parte, denotando o quanto Lucas é ouvinte atento de suas fontes. Com uma letra quase incidental, ele canta versos que mais fazem dar sentido melódico à ideia de “samba de” (“Sambadi balada/sambadi quebrada/ sambadi embolada/ sambadi linha do mar...") do que para inventar poesia. A melodia, swingada e requintada, algo entre o samba e o funk, dá espaço tanto para os solos quanto para floreios dos instrumentos, principalmente da guitarra e do Rhodes.

Outra aberta lembrança à Azimuth, “Carnival” (alusão à “Jazz Carnival”, sucesso da banda de José Roberto Bertrami) põe ainda mais groove no samba. Já “Alma Nova” faz cair novamente o ritmo para aclimatar uma bela bossa-nova romântica, a última com letra de verdade. Lucas canta com leveza e afinação sobre uma batida de violão sincopada, característica do estilo, somada a um acompanhamento na bateria do irmão Thiago digno de um Milton Banana ou um João Palma. O piano e o Rhodes estão ali funcionando no arranjo como integradores da faixa ao restante do repertório mesmo com a estética distinta que a bossa-nova impõe. Para arrematar, uma nova sequência de “Tamba”, finalizando o álbum novamente com um instrumental de alto virtuosismo.

Festejado por gente do calibre de Ed Motta, por quem a admiração é recíproca, o surgimento de Lucas Arruda vem como um raiar de esperança na música brasileira contemporânea tão infestada pelo medíocre, conformada com o mediano e, quando melhor que isso, ainda ditada por artistas de gerações (bem) anteriores. Ironicamente, o que acontece com Lucas Arruda é a repetição do que muitas vezes já se viu em terras tupiniquins: seu trabalho foi apreciado antes no exterior (no caso dele, Europa e Japão) para depois receber atenção aqui. Pouca, diga-se de passagem. E se a galera da MPB pós-bossa-bova está toda na faixa dos 70 anos, o aparecimento de um guri de apenas 32 de idade (30 quando gravou “Sambadi”) é no mínimo alentador. Com uma estreia luminosa como essa isso se torna ainda mais promissor. Neste sentido, não parece coincidência que seu novo CD, lançado em março desse ano (novamente primeiro no exterior) traga um título consideravelmente simbólico: “Solar”.

Lucas Arruda - Sambadi (Radio Edit)
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FAIXAS:
1. Physis - 1:15
2. Tamba, Pt. 1 - 7:10
3. Batuque - 5:38
4. Who's That Lady (O'Kelly Isley) - 3:40
5. Rio Afternoon - 1:37
6. Na Feira - 1:29
7. Sambadi - 5:18
8. Carnival - 3:30
9. Alma Nova (Arruda/Fabricio Di Monaco) - 5:33
10. Tamba, Pt. 2 - 4:41

todas as composições de autoria de Lucas Arruda, exceto indicadas.
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OUÇA O DISCO








quinta-feira, 7 de maio de 2015

cotidianas #367 - O Diabo Não é Tão Feio Quanto Parece


Aquele cara comum, absolutamente comum, ficou simplesmente embasbacado quando aquela mulher fantástica, linda, de formas estonteantes sentou-se à sua frente naquela mesa de lanchonete, afinal não era acostumado a que mulheres lhe dessem alguma bola, quanto mais uma daquelas. O que aquele monumento poderia querer na mesa dele? Provavelmente o confundira com alguém.
Mas ela sentara e permanecera ali. Encarando-o com insistência.
Após um curto momento de silêncio no qual ficou questionando para si próprio a que devia tamanha sorte, ou se aquilo seria alguma sacanagem de um colega da faculdade, brincadeira de programa de TV ou algo do tipo, ficou mais intrigado ainda quando a loira de olhos incrivelmente azuis disparou:
- E então?
- E então o quê? - respondendo à pergunta com outra pergunta, verdadeiramente confuso.
- Você me chamou. - respondeu um tanto evasivamente deixando espaço para que o rapaz pensasse.
- Eu chamei?
O olhar penetrante daqueles olhos profundamente azuis combinado com uma insinuante erguida de uma das sobrancelhas tratou de esclarecer a situação.
- É você? - perguntou  verdadeiramente espantado o garoto apesar de já ter a resposta - Mas eu achei que fosse...
- Um homem - completou a loira interrompendo-o - Eu assumo muitas formas: mulher, homem, serpente, fogo, árvore.
- Desculpe, mas é que você me deixou um pouco... É que assim está... lindo... linda.
- Viu, o Diabo pode não ser tão feio quanto parece. - e riu da própria graça.
- Não esperava que fosse assim, aqui.
- Podia ser em qualquer lugar. Quis que fosse bem casual. Pra você ficar mais relaxado. Mas vamos lá, - mudando o rumo da conversa - o que é que vai ser?
- Como assim?
- O que você quer de mim? Para que me chamou? Em que posso ajudá-lo? - quis saber a loira.
- O de sempre: fama, dinheiro, mulheres.
- Bom, - fez uma pausa - vou te dar a fama. O dinheiro e as mulheres ficam por sua conta. Pode estar certo, vão vir naturalmente.
O rapaz assentiu com satisfação mas logo em seguida desfez o sorriso e completou:
- Mas pra você? O que que vai ser?
- O de sempre. Você sabe.
- Sim. Já imaginava. Sem problema.  Não vale muita coisa.
- Pode não valer agora que você é ninguém, mas pode ter certeza que vai valer muito quando o mundo estiver atrás de você. É bom pensar bem, porque quando eu voltar pra cobrar, eu quero. E aí não tem volta... - deixou a frase aberta esperando resposta do rapaz.
- Eu tenho certeza do que quero. Tenho certeza do que estou fazendo.
- Tá bom - disse o mulheraço pegando um guardanapo, anotando alguma coisa e logo em seguida arrastando-o na mesa para o lado do carinha. - Esse é o nome que vai usar daqui pra frente.
O rapaz olhou e pela expressão deu a entender que gostara do batismo.
- Estamos fechados? - quis garantir a moça.
- Fechados. Mas, só como curiosidade, - emendou - posso saber o que pretende fazer com tantas?
- Almas?
Ele assentiu com a cabeça.
- Ah, eu estou preparando algo grande. Grande mesmo. - explicou mal conseguindo disfarçar a satisfação.
À pequena exultação daquela divindade seguiu-se um breve novo momento de silêncio que foi oportunamente quebrado pelo rapaz:
- Bom, acho que era isso...
- Pois é - concordou a mulher - Tenho que ir. Tenho muitas coisas pra fazer. Você nem faz ideia - repetindo o intrigante levantar de sobrancelha.
Levantou-se e dirigiu-se à saída num andar serpenteante absolutamente hipnótico que o rapaz acompanhou atentamente virando o pescoço do lugar onde estava para poder acompanhar todo o percurso daquela deusa até a porta.
Depois disso permaneceu por mais algum momento na mesa ainda repassando mentalmente  o que acabara de acontecer. Pegou o guardanapo de papel da mesa e saboreou seu novo nome mais uma vez. Um dia todos o conheceriam. Todos saberiam quem era. Sorriu para si mesmo, deixou o dinheiro para pagar o café que tomara, pensou em levar a anotação da mulher, mas deixou na mesa aquele documento informal que trazia seu novo batismo. Não tinha necessidade de levá-lo. Não esqueceria seu novo nome. O nome que o mundo inteiro conheceria e respeitaria. Em breve.
Com um sorriso bobo no rosto, também dirigiu-se à porta de saída e, na rua, perdeu-se entre os tantos na multidão da cidade.
No bar, a garçonete chegou até a mesa, recolheu a xícara, passou um pano, pegou o dinheiro e o lixo. Notou que um dos guardanapos trazia um nome escrito. Não lhe dizia nada. Não conhecia ninguém com aquele nome. Amassou o pedaço de papel e o colocou junto com os outros sujos na bandeja.



Cly Reis