quarta-feira, 5 de maio de 2010
Na terra de "Dios"
Na Argentina, a exemplo do Brasil, também se respira futebol. Ainda mais em ano de Copa. Assim como aqui, as ruas está tomadas de camisetas da seleção, outdoors com as caras dos craques e a TV passando incessantes propagandas, promoções e programas sobre as Copas. Televisão que incrivelmente consegue ter mais futebol ao vivo do que a brasileira. Quase que incessantemente em dia de jogo: tem o jogo das 14h, o das 16h, o das 18h e o das 20h, e, depois de tudo isso ainda tem as resenhas esportivas e as mesas redondas. Puxa! Nos venceram!Na bola, normalmente não nos vencem mas têm aquela mania de superioridade em relação ao futebol brasileiro, mas também tenho que admitir que, de um modo geral, com as pessoas que falei, guardam um grande respeito e não ignoram quem tem cinco estrelinhas na camisa.
Conversando com um motorista de táxi sobre futebol, que aliás é uma coisa indispensável e divertida, ele me revelava sua grande admiração pelo futebol brasileiro, pelo escrete de 70 (para ele inigualável ) e por Ronaldinho Gaúcho que considera um exemplo de futebol arte. E não só por isso: nas ruas tem outdoors com a foto do Kaká e a TV passa documentários do Brasil penta com reverências aos grandes selecionados e seus craques. Eles são pretensiosos, ambiciosos mas não tão burros. Reconhecem a qualidade.
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| Ao lado, os bonecos de Maradona, Evita e Gardel, no bairro da Boca. |
Fiquei também positivamente surpreso com o cartaz e prestígio que o meu time, o Internacional, voltou a ter no exterior, no outro país de maior expressividade futebolística do continente. Lá, todos lembram do Inter principalmente por causa dos portenhos que atualmente vestem a camisa colorada, como Abbondanzieri e D’Alessandro, mas não apenas por isso; há um respeito em relação à grandeza e dificuldade que é jogar contra o Colorado gaúcho. Falando com alguns argentinos, referiram o Beira-Rio como um lugar dificílimo de jogar, onde o Banfield (que nos vencera na partida de ida da L.A.) não agüentaria a pressão no jogo de volta. Um deles, torcedor do Boca, disse mesmo ver na casa colorada tanta pressão quanto a Bombonera e que lá não teríamos dificuldade de derrotar um time pequeno como o Banfield. O próprio site do jornal Olé, a mais prestigiada pubicação esportiva daquele país, já havia se manifestado quanto a isso quando da vitória do Internacional sobre o Emelec, dizendo que lá é “um lugar tão difícil de jogar quanto a Bombonera”. Por acaso, comprovando mais ainda este respeito-temor-restrição, visitando o mítico estádio do Boca Juniors, no início do percurso quando a guia perguntava os times dos brasileiros que ali conheciam o estádio, todos se manifestaram com os seus: três rubro-negros daqui, um atleticano ali, um pontepretano e eu, de camisa vermelha me apresentei “Internacional”, ao que a guia do estádio respondeu brincando “Não, não. não são bem-vindos.” Fui depois, em uma área menos tumultuada, perguntar, ainda que já imaginasse a reposta, o porquê da repulsa e ela me disse que não tinha boas lembranças e que não queria nem lembrar da Sul-Americana. Gostei daquilo. É a retomada de um nome internacional que meu clube havia deixado se perder nos anos 80 e 90 e que com as conquistas e bravos enfrentamentos continentais, acabou recuperando.
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| Assistindo ao jogo do Inter na Libertadores no bar Loucos por Futebol. |
Só espero que tudo isso se confirme nesta quinta-feira quando precisaremos vencer os argentinos do Banfield por 2x0. Que o Banfiled se assuste com a pressão, que o clube confirme toda esta grandeza, que o Beira-Rio grite alto e que mostre ser tão terrível quanto a Bombonera.
(vendo o jogo do Inter na Libertadores no Bar Loucos por Fútbol)
LA BOMBONERA
Por falar neste legendário estádio, este era um passeio que queria muito fazer em Buenos Aires e felizmente realizei. Conheci o tão temido estádio do Boca Juniors onde torcidas adversárias ficam espremidas e times adversários temem pela pressão.
O estádio é velho, comum se não fosse por sua mística. Escadarias e corredores estreitos, sala de imprensa pequena, vestiário modesto, mas com uma certa imponência por conta de suas arquibancadas altas.
Logo na entrada tem um museu muito legal com monitores passando imagens dos títulos do clube, telão de 360°, as camisetas históricas, o hall da fama com todos os jogadores que já vestiram a camiseta xenaize e, lógico os troféus das glórias dos "azul y oro".
Ainda sobre o estádio, não deve ser pra menos que os visitantes tremam lá: a torcida fica muito perto! Deve ser mesmo um terror jogar ali. Do lado das tribunas então, é praticamente vertical sobre o campo. E atrás dos gols onde ficam as barras bravas, então? Nossa! E deve ser atordoante e ameaçador passar pelos corredores que levam aos vestiários com a torcida gritando ali em cima!!! E olha só (ao lado) a distância que fica o torcedor de quem vai cobrar um escanteio. Imagina você ali e o cara te xingando a cada escanteio que você for cobrar e jurando "tu vas a morir, tu vas a morir". Não dá pra jogar tranquilo!
Confira aí outros cliques da Bombonera:
a fachada externa do estádio
o acesso aos vestiários
O museu do Boca Jrs. Acima, os monitores com imagens dos títulos e a sala de troféus e abaixo, o hall da fama com destaque para Maradona que jogou no clube em 1980.
e as grandes glórias do clube: 6 Libertadores e 3 Mundiais
segunda-feira, 3 de maio de 2010
Presentes
"DEMONS" de Lamberto Bava (1985)
Em uma brevísima visita do meu irmão que mora em Porto Alegre, ao Rio de Janeiro, recebi dele de presente alguns filmes em DVD. Havia pedido que me conseguisse o filme “Demons”, um terror italiano produzido por Dario Argento e dirigido por Lamberto Bava, do qual sempre gostamos mas depois de termos visto uma vez, alugado em VHS, nunca mais havíamos encontrado. É bem Dario Argento mesmo. Pessoas convidadas a uma sessão de cinema ficam presas lá e por conta de uma máscara antiga vão se transformando em zumbis e devorando uns aos outros, transformando assim os outros em mortos vivos. Ótimo pelas nojeiras, mortes, zumbis e também pelas metáforas (por incrível que possa parecer) sempre presentes nos filmes do mestre Argento, ainda que não dirigido por ele, mas certamente na linha de frente do trabalho. Obra de arte gore!
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"THRILLER - A CRUEL PICTURE" de Boa Arne Vibenius (1974)
Mas o melhor e mais inesperado dos presentes foi “Thriller – A Cruel Picture” , que em princípio, pelo título, julguei tratar-se mais ou menos da mesma coisa, mas que soube depois ser algo assim como um predecessor de “Kill Bill”, por assim dizer. Aquela coisa toda de uma mulher mortal, vingança, artes marciais já poderia ser suficiente para associar as duas obras, mas some-se a isso o tapa-olho que a protagonista usa, a roupa amarela, o duelo, os sons repetitivos e perturbadores em várias cenas, e saberemos de onde, mais uma vez, Tarantino chupou algumas cenas e inspirações para realizar sua obra de dois volumes. (No que não há problemas algum, pois provavelmente ele assumiria).
O lance todo é que uma garota que não fala devido ao trauma devido a um estupro na infância, trabalha numa fazenda e um dia, após perder um ônibus, inocentemente pega carona com um sujeito que acaba levando-a para a casa dele, a droga, a vicia em heroína e a mantém dependente disso e fazendo assim com que ela se prostitua para sustentar o vício forçado. Só que, depois de muito, indignada pelas humilhações dos clientes impostos, pela morte de seus pais provocada pelo gigolô e pela morte de uma amiga que fez no prostíbulo, guarda dinheiro para pagar treinamentos em luta, tiro e direção que faz em seus momentos de folga, já planejando sua cruel vingança.
O filme tem problemas de roteiro em determinados momentos, cenas dispensáveis como as de sexo explícito, atuações péssimas de atores semi-amadores, mas as cenas de luta e tiroteio são absolutamente fantásticas com um super câmera lenta que confere uma intensidade toda especial a estas cenas.
Outra cena fantástica pelo grotesco, repugnante e pelo realismo é a que o homem que a raptou , insatisfeito com o tratamento que ela dera a um cliente, vaza-lhe o olho com um bisturi, o que é mostrado claramente e sem cortes. O segredo da cena? Foi filmada com um cadáver. E, a própósito: lâmina no olho não lembra alguma coisa? "Um Cão Andaluz" talvez? (foto ao lado)
Pois é. Esse é o barato de um filme como este. Ao mesmo tempo que consegue ser genial, ter referências tão significativas como Buñuel, servir de referência para a posteridade, e ser em determinados momentos tão tolo, tão mal-acabado, tão tosco. É exatamente esse o charme do cinema trash, do underground, do filme B. Por estas coisas que gostamos de filmes que são muito ruins mas são muito bons e "Thriller" é um destes. Mas neste caso acho que prevalece o muito bom.
************************************Em tempo, obrigado, Dã!
Adorei os filmes.
Cly Reis
"O Pequeno Livro do Rock" de Hervé Bourhis
não vi os Sex Pistols no Chalet du Lac;
não estive no Bronx nos primórdios do hip-hop;
não vi os Beatles ao vivo no Ed Sullivan Show;
não fui aos shows do Elvis em 55;
não compartilhei groupies com o Led Zeppelin;
não sou um crítico de rock profissional;
não tenho vontade de ser completo, objetivo ou de boa-fé.
Em suma, não tenho nenhuma legitimidade para escrever este livro,
E foi por todas essas razões que mesmo assim o escrevi."
Hervé Bourhis
Se o "1001 Discos para Ouvir Antes de Morrer" é minha bíblia, “O Pequeno Livro do Rock” de Hervé Bourhis será assim pra mim uma espécie de Tão Te Ching, Alcorão ou algo assim, sei lá!
Demais!
A começar pela capa que imita as antigas capas de compactos e cuja orelha sugere um vinil. Comprei para ler na viagem a Buenos Aires e achei bem legal!
Na publicação, através de desenhos, quadrinhos, cartoons, tiras, ilustrações do próprio autor, visitamos praticamente ano a ano a história do rock com o toque muito pessoal da vivência de quem acompanha o rock desde pequeno com a sensação vivida daqueles momentos, como o primeiro disco que comprou, a roupa que a galera da escola usava por causa de tal banda, as influências da adolescência, os movimentos, estilos e tudo mais. Tudo isso de uma maneira muito livre e descompromissada sem se preocupar em dar mais importância a isso do que aquilo, reverenciar este ou aquele. Isso sem falar nas críticas e opiniões contidas nas tirinhas, normalmente muito ácidas e venenosas. Não concordo com muitas mas gosto de quem tem opinião forte e definitiva. De um modo geral gostei muito do modo de pensar e das impressões do cara.
Como poréns, acho que em determinados momentos dá muito mais importância do que devia a bandas pouco relevantes, e excessivo destaque ao rock francês, também pouco expressivo no cenário mundial, mas o que justifica-se em parte pela nacionalidade do autor e sendo assim compreensível pelo quanto estes nomes e artistas locais ajudaram na sua formação musical, o que, de certa forma, é o que delineia a cronologia do livro. De todo modo a "francesice" de Hervé Bourhis não é o suficiente para desqualificar a obra e é até divertida na maior parte das vezes.
Um barato também as “Battle Stars” que o autor promove, tipo “Bowie vs. Lou Reed”, “Chuck Berry vs. Little Richard”, “Nirvana vs. Pixies” e em especial “Michael Jackson vs. Prince” na qual ele termina dizendo “e vocês ainda dão confiança pra um cara que se auto-intitula Rei do Pop”. Já dá pra imaginar quem venceu esta batalha, não?
Cly Reis
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