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sábado, 8 de julho de 2017

Einstürzende Neubauten - "Halber Mensh" (1985)



"O ponto de partida para Neubauten foi mesmo do fato que não tínhamos nada,
então eu realmente não tinha a opção de dizer
"Estou fazendo isso, estou fazendo aquilo,
ou talvez eu devesse tocar órgão".
Eu não tinha nenhuma dessas coisas
e eu não podia pagar nenhuma delas,
e tampouco não tinha ninguém para integrar o grupo.
Foi mais da conseqüência lógica do que podíamos ter, e foi nisso que deu.
Certamente, não começou como um conceito artístico para dizer
"vamos fazer algo diferente",
começou como uma extensão da situação de como vivíamos."
Blixa Bargeld,
vocalista, guitarrista e fundador do
Einstürzende Neubauten


O Einstürzende Neubauten tem uma obra tão consistente, coerente e qualificada que vários de seus trabalhos, como o brilhante álbum de estreia "Kollaps", o desconcertante "Haus Der Lüge", ou o ótimo "Tabula Rasa", poderiam ser mencionados em uma seção como a nossa de ÁLBUNS FUNDAMENTAIS, no entanto, destaco aqui o terceiro disco da banda, "Halber Mensh" de 1985, pelo fato de, na minha opinião, ser o mais sonoro da banda, no sentido musical. Não que isso seja um critério definitivo tampouco qualitativo para avaliar-se a obra de um grupo como este cuja transgressão sonora em muitos momentos talvez seja mais relevante que a musicalidade, mas o fato é que torna-se digno de maior admiração o fato de conseguirem conjugar de forma, muitas vezes tão improvável, um ruídos industriais quase indecifráveis à música tradicional bávara, por exemplo, ou até mesmo à música clássica.
O experimentalismo extremo, marca registrada da banda, está bem presente é claro, em "Halber Mensh", mas nele parece integrado de forma mais harmônica à música, sem deixar de ser, contudo, ainda extremamente perturbador e contundente.
Exemplo perfeito é a excelente "Der Tod Ist Ein Dandy", constituída a partir de uma barulheira infernal e incontrolável e, no entanto contraditoriamente, altamente sonora. Destaque também para a faixa título com seu trabalho vocal belíssimo e impressionantemente sinistro; para a teatral "Z.N.S" com sua condução no estilo de uma marcação de dança; para a "dançante" "Yü-Gung (Futter Mein Ego"; e para "Sand", que claramente contém elementos de música tradicional alemã e que, como curiosidade, aparece na trilha do bom filme "A Vida de David Gale", de Alan Parker.
Einstürzende Neubauten é aquele tipo de banda que qualquer disco é valioso no sentido artístico, nem que seja pela ousadia e experimentação, mas este, "Halber Mensh", além deste aspectos essenciais na trajetória da banda, pelo apuro técnico, pela qualidade, pela sonoridade, pela musicalidade superior dentro da discografia da banda, merece estar entre os nossos FUNDAMENTAIS.
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FAIXAS:
1 Halber Mensch 4:13
2 Yü-Gung (Futter Mein Ego) 7:14
3 Trinklied 1:15
4 Z.N.S. 5:40
5 Seele Brennt 4:05
6 Sehnsucht (Zitternd) 2:54
7 Der Tod Ist Ein Dandy 6:41
8 Letztes Biest (Am Himmel) 3:28
9 Das Schaben 9:21
10 Sand 3:30

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Ouça:
Einstürzende Neubauten Helber Mensh



Cly Reis

terça-feira, 4 de julho de 2017

"Docinho da América", de Andrea Arnold (2016)


Sabe aqueles filmes que chegam te levam do ponto A até o ponto B, e assim vão tranquilamente? Bom, “American Honey” é muito diferente disso. O longa é “simples” mas sua estrutura narrativa não, deixando você (EU) perdido, sem saber ao certo para onde estaria indo. Mas quando chega lá, ops!... Esse filme chega em algum lugar?
Star (Sasha Lane), uma adolescente que busca viver aventuras, decide se juntar a um caixeiro viajante e cruzar o território do meio-oeste dos Estados Unidos vendendo assinaturas de revistas. No meio da viagem, ela entra em uma loucura de festas, crimes e amores.
É uma obra longa com ritmo bastante lento, muitas cenas contemplativas e muita câmera na mão. As sequências dos jovens dentro da van são bem repetitivas e a falta de exploração do background de alguns personagens devo admitir foram elementos que me atrapalharam um pouco. No entanto, estes pontos não conseguem tirar a qualidade quase documental do filme.
Olhando assim por cima, o filme parece não ter profundidade por não se concentrar muito em seus personagens centrais (na verdade ele não se aprofunda em nenhum personagem). Contudo, o foco principal parece ser mostrar de maneira muito crua a realidade da juventude americana, que mesmo vivendo numa era de liberdade, sexo, drogas e rap, acaba tendo que se manter presa a amarras sociais como trabalhar e ganhar dinheiro. Esse recorte apresentado da juventude americana é muito bem feito e torna interessante acompanhar essa sede de liberdade sem, no entanto, apresentar nenhum objetivo claro na vida. Apenas vivendo e ao mesmo tempo enfrentando os estereótipos típicos americanos, como família, religião, tradições, convenções sociais, etc.
O nosso "casal" Jake e Star.
Por mais que os jovens do filme possam parecer “malucos”, ele nos apresenta um belo conceito de família. Bem longe de ser uma família tradicional, o laço entre aqueles jovens é, sim, o de uma família. Uma família onde todos se cuidam, se protegem e se cobram mutuamente. O elenco é composto basicamente de atores desconhecidos, com exceção para Shia LaBeouf no papel do malucão Jake, que parece ter mergulhado de vez em pepeis desse tipo (e vou confessar que o prefiro assim). A estrela principal, Star (Sasha Lane), em seu primeiro papel já entrega uma ótima atuação, tão autentica em suas atitudes que nem parece que estar atuando.
Uma obra que vai além de road movie sobre jovens maconheiros numa van (tá, pode ser isso também). e"Docinho da América" nos mostra uma realidade de uma geração de jovens americanos, enfrentando os perigos de sua própria sociedade. Há diversos momentos em que o espectador chega a temer pela segurança de Star, em situações que não chegam a ser extremas mas que infelizmente muitas vezes são extremamente comuns nos dias de hoje como assédios e coisas do gênero. Esse tom realista, documental é o grande charme do longa que pode parecer meio sem rumo assim como os personagens, assim como a vida, e terminar assim no meio do nada, assim como esse texto.
A trupe de jovens vendedores de assinaturas de revista.
Ou seriam jovens em busca de seus sonhos?



por Vagner Rodrigues