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sábado, 29 de agosto de 2026

CLY LIVE Especial Clyblog 18 Anos - Madonna - "The Girlie Show World Tour" - Estádio Maracanã - Rio de Janeiro/RJ (1993)



Eu sempre fui uma criança cercada de música. Meu pai, músico de profissão, me deu o caminho numa casa sempre cheia de gente e saraus que varavam a madrugada em jam sessions com os amigos. Eu ouvia de tudo, de João Gilberto, paixão da minha mãe, até os progressivos, que meu pai amava.

Nesse meio-tempo, fui desenvolvendo meus gostos de criança. Muito Balão Mágico, os musicais infantis da Globo, "Arca de Noé", "Plunct Plact Zum"…

E veio o Michael Jackson! Que loucura, me apaixonei por "Thriller".

Alguns anos depois, com 8 anos, tudo mudou. Eu ganhei da minha vó o "Like a Virgin", da Madonna. Ali comecei a entender o que nem tinha nome: o que era ser uma menina. "What It Feels Like for a Girl". Foi a estrutura de tudo que veio depois, de entender que a gente tinha lutas diferentes, que não seria fácil, mas que era bom, era possível, verdadeiro. Que eu também queria ser livre para ser o que eu quisesse.

Depois, aos 17, vi o primeiro show que ela fez no Brasil, no Maracanã. Meu pai me levou junto com um bonde de amigas adolescentes e, até hoje, é o show mais impactante da minha vida.

Quando começou a tocar "Erotica", e uma dançarina escorregava num pole dance gigante de peito de fora, e Madonna surgia com o cabelo curtíssimo e loiríssimo, com o chicote na mão, as coisas nunca mais foram as mesmas. Foi meu primeiro contato mais direto com um público majoritariamente LGBT. Pensei: “Acho que encontrei a minha galera”. E até hoje é assim: sou grata à Madonna por ter me ensinado o que era ser mulher e a ter orgulho de fazer parte de uma comunidade diversa, incrível, corajosa e abençoada. E sim, encontrei minha galera.


🌈🌈🌈🌈🌈🌈🌈🌈🌈🌈🌈🌈🌈


Madonna apresentando "Erotica", 
na turnê "Girlie Show", em 1993

por  J O A N A   L E S S A


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MARIA JOANA LESSA 
é carioca, 
Flamenguista, 
Mangueirense 
e diretora de audiovisual

sábado, 22 de agosto de 2026

ÁLBUNS FUNDAMENTAIS Especial Clyblog 18 anos - The Cure - "Wish" (1992)

 



“Wish”, A Prova Final de Quem Não Precisava Provar Mais Nada Pra Ninguém




“...eu amo The Cure. 
Não parece porque todo fã do The Cure 
se parece com o Robert Smith”
Noel Galagher, do Oasis





Se tem uma coisa que me estressa bastante é ter que esperar. Esperar em fila de mercado, nem se fala. Por isso, costumo sempre andar com meu telefone musical. Sim, aquele cachorro que não vai te abandonar quando você mais precisa. E eu só o uso para isso: ouvir música.
Outro dia eu estava no mercado, com meu inseparável amigo telefone. Daí, no decorrer da música, eu entrei no modo máximo do transe, como se tivesse baixado uma entidade sobrenatural em mim. Quando eu voltei do transe, praticamente desorientado, me dei conta de que uma garota que trabalha nesse mercado estava com os olhos fixos em mim, como se quisesse entender o que estava acontecendo. Foram dois flagras: ela comigo, e eu com ela. E é justamente disso que vou falar por aqui: que música eu estava ouvindo? De onde ela veio? Calma! Já vou falar. 
Ah! O que falei não é uma “estória”, mas uma “história”, ok?
Rolou mesmo!
Quem gosta de música sabe que, por mais que uma banda ou artista solo seja grande e longeva(o) ele pertence a um tempo, uma época. A banda The Cure é assim. Pensando em anos 80, não tem como pensar em música pop ou rock sem mencionar essa banda. Sobretudo na Inglaterra. Mas a grande questão é que se trata de uma banda que está em atividade até hoje, ainda bem. Mas, talvez pelo fato do rock ter tido um ponto de inflexão fortíssimo no  início dos anos 90 com a chegada do grunge, e tudo o que ele influenciou, esse disco do The Cure seja tão pouco citado quando o assunto é a banda, e muito menos quando o assunto é anos 90. Estou falando do álbum “Wish”. Na minha opinião, um dos melhores álbuns da banda, infelizmente, bastante ofuscado.
A banda é muito associada ao Gótico, sobretudo pelo visual do Robert Smith, como brincou Noel Gallagher (“...eu amo The Cure. Não parece porque todo fã do The Cure se parece com o Robert Smith”). Claro que tem razões para isso. A banda lançou uma trilogia consagrada (trilogia sombria: "Seventeen Seconds" (1980), "Faith" (1981) e "Pornography" (1982),
fora "Disintegration"
 (1989) que segue essa linha e é considerado por muita gente o melhor trabalho da banda. Acontece que até aquele momento, o Robert Smith, principal compositor da banda, já havia provado que sua qualidade e capacidade artística era bem mais ampla e diversificada.
Não à toa, o álbum "The Head on The Door" (1985) também é considerado um dos melhores álbuns da banda, com uma diversificação musical bastante evidente. Aí, em 1992, quando a banda já completara 15 anos de vida, “Wish” se apresentou como um trabalho que mostra quais pedras compõem as possíveis imagens do caleidoscópio musical The Cure.
Sendo honesto, conheci parte do repertório do álbum pelo “Show”, um ótimo registro ao vivo, gravado áudio, em 1993 (tenho minha fita VHS até hoje, toda esfolada de tanto que eu assisti e emprestei. Trabalho Ótimo!). Tanto que demorei assimilar as algumas desse álbum na versão de estúdio. Mas quando ouvi o trabalho todo, amei o resultado.
Uma das coisas que me fascinam nesse álbum é a sua mixagem. Ele tem o som ótimo. Até hoje acho um álbum super agradável de ouvir, sem soar datado ou cacofônico. Outra coisa bacana é que o repertório do álbum que fica muito bom ao vivo também.
Mais do que falar do álbum, faixa por faixa, acho importante destacar justamente isso: a banda The Cure tem sua identidade musical. Uma delas é que a banda que teve a sorte de ter um vocalista com uma voz tão marcante, e que continua ótima, apesar do corpo sempre demonstrar algum desgaste ao longo do tempo. A voz do Robert continua viva e juvenil, marca registrada do cantor. Mas ela não é uma banda gótica, não é uma banda post punk, não é uma banda new-wave, não é uma banda alternativa, nem mais o que for. The Cure é uma banda que, como poucas, sabe misturar essas características, e até outras (Jazz, Música Cubana) e ser a banda que é. Nesse sentido, “ Wish” é um trabalho que mostra o que é essencial para entender musicalmente a banda. Uma coisa bacana do disco é a distribuição dos vários
estados dentro álbum. É como se fossem “quantas” (pacotes de energia), bem distribuídas ao
longo do álbum. Eu diria que esses blocos seriam “Apart”, “Trust”, “A Letter To Elise” e “To Wish Impossible Things”; “Open”, “Cut”, “End” e “Front The Edge Of The Deep Green Sea”; “High”, “Wendy Time”; “Doing The Unstuck” e “Friday I’m Love”, quebrados, claro. Como hoje é bem mais fácil fazer uma playlist, talvez algumas pessoas até prefiram ouvir o álbum assim, por que
não?
Beleza então, vamos de bloco 2. “Open”, uma canção que parece ter nascida para abrir shows da banda. Na versão ao vivo, ela tem uma introdução linda chamada “Tape” que abre caminho para a versão de estúdio. Apesar de ser uma canção atípica para as características da banda, ela soa com um grito de aviso: Chegamos! Estamos aqui! Somos a cura! Baixo pra cima, marcado, o meio, aquele que conduz a canção, uma das características marcantes da banda. “Cut”; eu simplesmente amo essa canção. Sem gracinha, direta, com andamento rápido e bastante pegada. Simplesmente a cocaína do álbum. Bem, se a cocaína não te bateu bem, que tal um LSD? Sim, pois “Front The Edge Of The Deep Green Sea” é uma viagem de entorpecedora. Como uma areia movediça, ela vai te neutralizando até te tomar completamente. Os segundos finais, com aquelas guitarras prolongando as notas, levando o solo ao ecstasy são arrebatadores. Me arrisco dizer que ela (ou o álbum), de alguma forma, está em “Mellon Collie and the Infinite Sadness” do 
Smashing Pumpkins. Depois que eu ouço essa canção, fico leve e pronto para outra. Se ela não for um LSD, ela é a maconha cultivada em laboratório, como no file “Beleza Americana”. Bem, falta fechar esse bloco, né?: “End”. Para mim, uma das melhores, das mais tensas e afetadas canções do Cure. É o Cure no modo máximo. Para mim, esse é bloco mais post punk do álbum, e essa canção é uma dos melhores encerramentos de álbum que já ouvi.
Convidei para a minha casa alguém nunca ouviu The Cure. Ou talvez tenha ouvido e nem sabe. Bloco 4, a carta na manga. Jogando Sueca, puxei a carta 7: “Doing The Unstuck”. Como eu amo a versão ao vivo (amo de paixão), demorei assimilar a versão de estúdio. Mas, sendo honesto, tirando o andamento, a briga fica pau a pau. Claro que a versão de estúdio é mais bem acabada, evidentemente. Além de ser uma super feliz, é um tapa na nossa cara, pois nos desafia a acreditar na vida, ter esperança, poder de reação e nunca se deixar abater pelas circunstâncias. Parece um dialogo entre o “Lippy” (o leão) e o “hardy” (hiena), no clássico desenho da 
Hanna-Barbera. Claro que deu leão na cabeça! 
E se o jogo ainda não está ganho, coloque o às na mesa. Sim! “Friday I’m Love” é uma canção imbatível. Até meu primo pagodeiro gosta dessa canção. Não pode faltar em nenhuma festa que se preze, e todos que a ouvem costumam se apaixonar perdidamente. Brincadeiras a parte, é uma canção perfeita. Melodia, harmonia, arranjo e canto. Tudo funciona nessa canção. Pensei que o Robert Smith não conseguiria fazer outra canção a altura de “Just Like Heaven”. Ok, Robert Smith. Você ganhou o jogo. Estava com o às na mão o tempo todo.


the cure - "friday i'm in love


Você acordou cedo no feriado, por incrível que pareça. Você não está tão feliz, pois sabe que vai ter que voltar a rotina no dia seguinte, mas também não está triste já que está em casa. O bloco 3 está na mesa. Feliz por poder mastigar o seu sanduíche sem ter a sensação de estar atrasada(o), “High” te deixa super bem, relaxada(o) e feliz ao ponto de você deixar algum pedaço de sanduíche para o cachorro, por mais delicioso que ele esteja. Depois rola “Wendy Time”. Fofa até o osso, ela pode te deixar com uma sensação tão boa que é capaz de você deixar de sentar no sofá e pensar na vida, só para cumprir a promessa de levar seu cachorrinho para passear durante o dia, sem ser final de semana ou domingo.
Mas, claro, deixei a parte triste para o final. Tem alguma coisa de alegre em estar numa fila de mercado em pleno domingo? Então, se é para sofrer, bora sofrer com dignidade. Uma das características mais aclamadas pelos fãs e críticos. 
Cadê o bloco 1? Bora de melancolia e tristeza. “Trust”. Só existe uma combinação perfeita para essa canção: o silêncio. Imersiva, hipnótica. Ela é super ‘Desintegration” e simplesmente apaixonante. Saindo dela, a coisa fica ainda mais barra pesada. “Trust” é tristíssima. Daquelas canções que nem é bom ouvir quando se está com uma sensação de ausência ou perda de alguém. É uma das canções em que o Robert Smith dá uma aula sobre como comover usando uma canção. E para finalizar, “A Letter To Elise”. Não tão triste como as outras desse bloco, mas igualmente down, porém como uma pitada de doçura como se uma cicatriz ainda doesse mas estivesse no caminho de ser curada. Ela me liberta de qualquer lugar insuportável, inclusive uma fila de mercado. Esse é o bloco mais “Disintegration”. Certamente com canções amadas pelos fãs. Bem, talvez olhando por essa perspectiva dê para ficar mais claro as características desse trabalho que, na minha opinião, é um dos melhores trabalhos da banda. Certamente está no meu Top 5, sem sombra de dúvidas. Se eu tivesse que apresentar a banda The Cure para alguém, bateria um bom papo com a pessoa, e pediria para ela ouvir esse trabalho com atenção, pois ele é bem gravado, o que ajuda a assimilar melhor as canções, e porque é um mapa para entender as características mais marcantes e fantásticas da banda: doçura, melancolia, tristeza e alegria (e um pouco mais, claro). The Cure tem todos esses anticorpos para te curar de qualquer mal sintoma. É uma vacina em forma de boa música. The Cure!



por  J A I R O   A L LO N E




🎵🎵🎵🎵🎵🎵🎵🎵🎵🎵🎵🎵🎵🎵🎵

f a i x a s:
1. open
2. high
3. apart
4. from the edge of the deep green sea
5. wendy time
6. doing the unstuck
7. friday i'm in love
8. trust
9. a letter to elise
10. cut
11. to wish impossible things
12, end


🎶🎶🎶🎶🎶🎶🎶🎶🎶🎶🎶🎶

ouça:
The Cure - Wish (1992):





JAIRO ALLONE
é um morador da cidade do Rio de Janeiro. E como o próprio nome sugere, é
uma pessoa que, “de escolha própria, escolheu a solidão”. Mestre em nada e doutor em coisa
nenhuma, teve que se graduar em Engenharia Mecânica para trabalhar na indústria, muito
distante do sonho de trabalhar com música, para desespero da mãe, quando ainda era
adolescente. Foi guitarrista, letrista e colaborador de blog. Nunca deixou de ser um
apaixonado por música (a mais reativa das artes) e toda a contribuição que a arte dá para
tentar tornar o mundo mais humano, ou pelo menos mais suportável. Vive num universo 
ool

domingo, 19 de julho de 2026

"Todos Já Sabem", de Asghar Farhadi (2018)


Talvez nem todos saibam, mas o filme “Todos Já Sabem” já foi motivo de resenha no Clyblog, em 2019, pelas mãos do nosso colaborador Vagner Rodrigues. Na ocasião, Vagner apontou as qualidades desse trhiller misterioso, cuja composição é distinta e certeira: o talento do elenco (os espanhóis Penélope Cruz e Javier Bardem mais o argentino Ricardo Darín), a competência do diretor (o iraniano Asghar Farhadi) e a história envolvente. Mas é exatamente essa junção exitosa que nos motiva a, novamente, falarmos do filme no blog. Afinal, hoje tem final da Copa do Mundo inédita entre Espanha e Argentina, e um filme que reúne “em campo” justamente esses dois países – e de forma tão certeira – merece, sim, ser revisitado diante da atual ocasião.

O roteiro do filme, se não todos, muitos já sabem, haja vista que a produção é de 8 anos atrás. Por isso, relembremos: “Todos...” conta a história de Laura (Penélope), que retorna à Espanha natal para acompanhar a cerimônia de casamento de sua irmã. Por motivos de trabalho, o marido argentino (Darín) não pode ir com ela. Chegando no local, Laura reencontra o ex-namorado, Paco (Bardem), que não via há muitos anos. Durante a festa, uma tragédia acontece. Toda a família precisa se unir diante de um possível crime de grandes proporções, enquanto se questionam se o culpado não está entre eles. Na busca por uma solução, segredos e mentiras são revelados sobre o passado de cada um.

Afora trazer na mesma produção Argentina e Espanha, “Todos...” nos apresenta semelhanças cinematográficas que também unem esses dois países. A história faz bem lembrar a ótima fase recente do cinema argentino, que produziu vários thrillers empolgantes como “O Segredo dos Seus Olhos”, “Vermelho Sol” e "Kóblic", além de jogar luzes sobre Darín, um dos melhores atores deste século. Igualmente, o filme faz remontar o clássico cinema espanhol, como o fantástico de Victor Erice e as tramas de suspense psicológico de obras como “Dispara!” e “O Sétimo Dia”, estes dois últimos do saudoso Carlos Saura - que, aliás, já havia feito a ponte entre seu país natal e o sul-americano nos documentários "Tango", de 1998, e "Argentina", de 2015. Colabora para este resultado a direção de Farhadi, representante de uma escola cinematográfica tão importante do novo cinema mundial como a do Irã. 

Espanha e Argentina em campo, só que no cinema, por meio dos astros
Penélope Cruz, Ricardo Darín e Javier Bardem

Igualmente, “Todos...” também aproxima os países finalistas da Copa por um motivo até então inédito na competição: será apenas a segunda vez em quase 100 anos que os dois principais times falam o mesmo idioma! Já teve de tudo em termos idiomáticos em Copas: português com italiano, espanhol com holandês, francês com croata, alemão com húngaro, italiano com checo... mas espanhol com espanhol só lá na primeira edição, em 1930, quando Argentina e Uruguai se enfrentaram. Geopoliticamente falando, é a primeira vez que, a rigor, um país colonizador enfrenta um colonizado por ele mesmo, relação esta que remonta a mais de 500 anos!

História à parte, será um grande jogo e que reescreverá, sim, um novo capítulo histórico, Em campo, o próprio estilo de jogo de cada equipe é parecido, valorizando a bola e contando com a força do coletivo. No cinema, arte essencialmente coletiva, essa química entre espanhóis e argentinos já deu muito certo, a se ver por outros títulos hispano-argentinos como o já citado "O Segredo...", "Um Conto Chinês" e “Truman”, todos, aliás, também com Darín. O suspense de Farhadi mostra bem isso, pois cada um dos países, Espanha e Argentina, são escolas craques nas quatro linhas que formam a câmera. Isso “todos los saben”, Agora, falta saber qual escola, mas a do futebol, se saíra melhor nas quatro linhas do gramado.

trailer de "Todos Já Sabem"


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"Todos Já Sabem"
Título Original: "Todos lo Saben"
Direção: Asghar Farhadi
Gênero: Thriller, Suspense
Elenco: Penélope Cruz, Javier Bardem, Ricardo Darín
Duração: 2h13min
Ano: 2018
País: Espanha, França, Itália, Argentina
Onde assistir: Prime Vídeo, Apple TV, Google Play Filmes

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Daniel Rodrigues

domingo, 28 de julho de 2024

20 filmes... daonde mesmo? - Filmes de países com pouca (ou nenhuma) tradição no cinema mundial

 





E começaram as Olimpíadas!!!
Sabe quando começam a passar aquelas delegações na cerimônia de abertura e a gente estranha cada país que nem fazia ideia que existisse, ou, em alguma competição qualquer a gente pensa, "nem sabia que se praticava esse esporte num lugar desses..."? Pois é. Em cinema às vezes acontece algo parecido. Acostumados com o cinema norte-americano e mais uns três ou quatro núcleos cinematográficos tradicionais como França, Itália, Alemanha talvez... uma Suécia vá lá, um Japão por causa do Kurosawa e dos filmes de terror refilmados em Hollywood, Espanha pelo Almodóvar, mexicanos e sul-coreanos que estamos acostumando agora, argentinos cada vez mais consolidados e tal, mas, de um modo geral, até pelo bombardeio midiático, pelo apelo comercial ainda é estranho ver produções de lugares como África, América Central ou Leste Europeu.
Eis que, hoje, depois da entrada das delegações na Olimpíada do ClyBlog, o Claquete destacará filmes de alguns desses lugares que nem sempre têm potencial para ganhar uma medalha de ouro, mas que, podem crer, não fazem feio diante das potências cinematográficas, sendo inclusive, muitas vezes inspiração para muitos remakes na terra do Tio Sam.
Seguem abaixo 20 filmes daqueles lugares que a gente só lembra no dia da abertura das Olimpíadas. Alguns são bem desconhecidos, outros nem tanto, outros já gozam de um status de cult, alguns até premiados são, mas o que todos tem em comum é que são daqueles lugares que muita gente perguntaria, "mas se faz filme nesse lugar?". Se faz, sim. E coisa boa.

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1. "A Felicidade das Pequenas Coisas", de Pawo Choyning Dorji (
🇧🇹Butão /2019): E lá se faz cinema no Butão??? Não só se faz cinema, como se faz um baita filme. Um jovem professor, cujo sonho verdadeiro é ser cantor e morar na Austrália, é designado pelo governo butanês a lecionar numa escola... no fim do mundo. No ponto mais alto do país, acesso dificílimo, depois do transporte rodoviário dias de caminhada montanha acima, sem telefone, sem internet, com poucos recursos, sem nada que o jovem Ugyen estava acostumado na capital. Contrariado, do início, Ugyen vai se apegando ao local, à pequeníssima população, aos costumes, às crianças e até a um yak, animal típico da região que, por vezes tem que ficar dentro da sala de aula e 'morar' na escola. Belíssimo filme indicado ao Oscar de melhor filme estrangeiro em 2022.






2. "O Assobio do Mal", Gisberg Bermudez Molero (
🇻🇪Venezuela /2017): O longa, inspirado em tradições e lendas venezuelanas, traz a figura do Assobiador, um espírito que assobia antes de atacar, uma figura fantasmagórica que segundo se fala, aparece à noite e devora pessoas. Embora um pouco picotado na narrativa, parecendo uma colcha de retalhos, o filme não é mau. Tem até uma boa produção, boa direção de arte, fotografia adequada para a proposta e boas opções estéticas. E o melhor, para quem gosta de terror: consegue ser bem brutal em determinados momentos.







3. "A Green Fever", de Taiwo Egunjobi (
🇳🇬Nigéria /2023): Em um país sob estado de sítio, um arquiteto pede socorro em uma mansão isolada, de propriedade de militares, a fim de socorrer sua filha que ele alega sofrer de uma rara doença chamada Febre Verde. Lá, num clima de constante desconfiança e ameaça, o arquiteto depara-se com situações de corrupção e crueldade por parte dos militares. Mas existe a tal febre ou aquilo seria somente um pretexto para que um civil rebelde se infiltrasse dentro de um núcleo ditador? Filme com alguns problemas, algumas travas, elementos que poderiam ter uma condução melhor, mas não há como negar que mantém o espectador tenso do início ao fim.







4. "Cemitério Geral", de Dorián Fernadez-Moris (
🇵🇪Peru /2013): Invocação por tábua Ouija e tal, só que aqui, dentro de um cemitério e registrada em estilo documental por um dos integrantes da expedição sinistra. Meio tosco é verdade, mal iluminado em determinados momentos, amadorísticos às vezes... mas talvez, exatamente essa limitação torne "Cemitário Geral" mais assustador. A correria entre as vielas do cemitério é inquietante, as imagens em visão noturna, mesmo já tão batidas pelo uso excessivo em filmes do gênero, são aterrorizantes. Não se engane pensando, "ah, terror peruano...". Não caia nessa. É dos bons found-footage que existem por aí.








5. "Cafarnaum", de Nadine Labaki (
🇱🇧Líbano /2018): Filme pesado sobre a dura realidade de crianças no Líbano, seja nas relações familiares, no trabalho infantil, na exploração sexual, seja no que for... Aos doze anos, Zain, sobrecarregado com obrigações do lar de pais ausentes, se revolta definitivamente quando sua irmã de onze é forçada a se casar com um homem mais velho. Ele então foge de casa e passa a viver nas ruas junto aos refugiados e outras crianças que, diferentemente dele, não chegaram lá por conta própria. Entre tantas qualidade do longa está a opção por usar a câmera na mão, muitas vezes à altura dos olhos do menino, reforçando a sensação de realidade e aumentando o impacto de tudo aquilo que estamos vendo. Destaque para atuação do menino Zaim, que transmite uma verdade, uma intensidade incrível em cada uma de suas cenas.
"Cafarnaum" foi vencedor do Prêmio do Júri em Cannes em 2018






6. "Espíritos - A Morte Está a Seu Lado", de Banjong Pisanthanakun e Parkpoom Wongpoom (
🇹🇭Tailândia /2004): Nem todo mundo sabe mas a Tailândia é uma grande produtora de filmes de terror e um dos mais célebres representantes desse segmento no cinema tailandês é "Espíritos - A Morte Está A Seu Lado", filme que já ocupa seu lugar entre os clássicos do horror.
Desde que atropelou uma pessoa e fugiu da cena do acidente, um fotógrafo, Thun, passa a ser atormentado por visões e começa a identificar sinais sobrenaturais em suas fotos. Intrigado, ele e a namorada passam a investigar as fotos e curiosamente as pistas sobre as aparições vão convergindo para o próprio Thun e para alguns de seus amigos que, "coincidentemente" começam a morrer de forma trágica, um a um.
As figuras nas fotos já são de arrepiar, mas a cena final do filme é de ter pesadelos.







7. "Baskin", de Can Evrenol (
🇹🇷Turquia /2015): Terror bizarro!
Um grupo de policiais, de folga num bar, recebe uma chamada de um lugar que supunham nem existir mais. Mas, ok, se estão chamando de lá, então, vamos atender a chamada... No caminho sofrem um acidente, buscando socorro encontram pessoas estranhas e ameaçadoras e refugiam num casarão, que por acaso, revela-se o próprio local da missão. O problema é que o lugar é o verdadeiro inferno! Um antro de tortura e dor onde delírios, pesadelos, demônios interiores e demônios reais revelam-se para punir a cada um deles, tudo liderado por um anão careca deformado, uma espécie de mestre de cerimônias do inferno, que conduz as ações mais sádicas e brutais.
Um dos filmes mais repulsivos e perturbadores que já assisti.
Pra completar, o final é um verdadeiro nó na mente.
Ponto pro cinema turco.






8. "Rafiki", de Wanuri Kahiu (
🇰🇪Quênia /2018): Aquela conhecida luta contra o conservadorismo muito bem retratada, desta vez mostrando a realidade num país africano. Duas amigas, Kena e Ziki, acabam se apaixonando e, além de lutar contra as diferenças das famílias, rivais na política local, têm que encarar o preconceito da sociedade. Num ambiente altamente homofóbico e violento, elas precisam fazer a escolha entre viver suas vidas como querem ou encarar as ameaças que aquela situação acaba lhes gerando.
O filme foi festejado em Cannes, teve reconhecimento mundial para o novo cinema africano, mas, por outro lado, acabou banido de seu próprio país por conta da temática homossexual, proibida no país.
Mexeu em algo que incomodou...
Não é pra isso que serve a arte?
 


 


9. "JeruZalém", de Doron Paz e Yoav Paz (
🇮🇱Israel /2015): Terror foud-footage, em primeira pessoa mas não gravado com uma câmera na mão e sim com um Google Glass.
Uma jovem norte-americana de origem israelense, viaja para a Terra Santa, acompanhada da melhor amiga, a fim de espairecer um pouco depois da prematura morte do irmão. Ela usa o óculos tecnológico a pedido do pai, de modo a manter a comunicação e também estar sempre conectada com informações, pontos turísticos, eventos, etc. Só que lá, entre festas, namoros, bebedeiras, está se dando o início de um anunciado apocalipse previsto por todas as religiões. Algo como zumbis-demônios-vampiros alados tomam conta de tudo atacando as pessoas e transformando-os também em mortos-vivos. Daí é que a correria começa e não para! Vielas, túneis, lugares sagrados, cavernas, tudo na visão do óculos tecnológico da turista.
A última meia hora é frenética e o final é bem interessante, de certa forma dialogando com tudo isso que está acontecendo hoje, na Faixa de Gaza. Se ninguém se entende, se continuarem brigando a vida inteira por convicções, religião, território, ou seja lá o que for, Israel, a Palestina, tudo vai se transformar num inferno.






10. "Fantasmas do Passado", de Óskar Thór Axelsson (🇮🇸Islândia /2013): Duas situações aparentemente sem relação alguma: uma senhora suicida cujo caso é analisado por um psiquiatra que, por acaso, também enfrenta um drama pessoal do desaparecimento do filho; e um casal que se compra uma casa e se muda para uma região isolada do país, para, além de reformar o local visando um um futuro empreendimento turístico, reafirmar a relação. Só que coisas esquisitas começam a ocorrer nas duas pontas da história. O psiquiatra encontra cruzes misteriosas nas costas do cadáver da idosa, fotos de crianças desaparecidas em outras épocas e, além disso começa a ter visões de uma criança que pode ser seu filho. Na casa velha, Katrin, a esposa, começa a ver coisas e perceber alguma presença sinistra no lugar.
Como essas coisas se juntam? Não vou revelar porque você pode topar com o filme por aí e não vai querer que eu quebre a surpresa, mas pode acreditar que desfecho é absolutamente inesperado e faz valer todo o enredo e a condução lenta e paciente do diretor Óskar Thór Axelsson. O que posso adiantar é que a resposta estava por perto o tempo todo






11. "Antes da Chuva", Milcho Manchevski
  (🇲🇰Macedônia /1994): Um lamento pela guerra e pelos conflitos da antiga Iugoslávia, "Antes da Chuva" traz três narrativas sobre os desencontros que as diferenças entre os homens podem causar. Na primeira, um monge se apaixona por uma jovem refugiada albanesa acusada de assassinato e abandona as obrigações monásticas para fugir com ela pelos vales da Macedônia; na segunda, uma fotógrafa, editora de imagem, em Londres, vive o dilema de continuar com o marido ou ceder à paixão pelo amante, um fotógrafo de guerra macedônio que reaparecera em sua vida; e na última, que incorpora as duas anteriores, o mesmo fotógrafo, o amante da história anterior, volta à sua terra natal a fim de permanecer por lá, mesmo com todas as dificuldades, diferenças e desavenças que vive o país.
Pequeno recorte dos conflitos que dividiram um país, separaram pessoas e destruíram vidas.
Ganhou o Leão de Ouro em Veneza, em 1995.






12. "Cão Come Cão", de Carlos Moreno (
🇨🇴Colômbia /2008): A realidade dura da pobreza, da violência e do domínio do tráfico em algumas regiões da Colômbia é tema recorrente no cinema do país, e um dos filmes que retratam situações envolvendo o submundo do crime é o bom "Cão Come Cão", um thriller policial astuto, envolvente repleto de regionalismos e características típicas da cultura da América do Sul, como música, dança e misticismo.
Após a morte de seu afiliado, El Orejo, um violento chefe do tráfico em Cali, ligado ao vudu, contrata dois matadores para um serviço e os põe hospedados num mesmo quarto de hotel, esperando instruções de um terceiro homem sobre a missão que ainda desconhecem. Na verdade, sabedor que um deles fora o responsável pela morte de seu sobrinho e que o outro ficara com uma quantia sua em uma transação, o chefão pretende mesmo é que um devore o outro. Que um cão coma o outro.
Filme policial bem tramado, repleto de contornos e envolvimentos. Uma espécie de Tarantino sul-americano.





13. "Macabre", de Kimo Stamboel, Timo Tjahjanto (
🇮🇩Indonésia /2009): Aquela mania de ser gentil, solidário... Um grupo de amigos, a caminho do aeroporto, socorre uma mulher na beira da estrada e, ainda com muito tempo antes do voo, resolve levá-la para casa. Chegando lá, em agradecimento, a garota socorrida convida os bons samaritanos a entrarem, comerem alguma coisa, e diante de tanta gentileza e insistência da mãe da jovem, resolvem aceitar. Péssima ideia!
Ao ficarem presos ali, à mercê daqueles psicopatas, é dado início ao pior pesadelo que poderiam imaginar. Canibalismo, mutilações, crueldades, sadismo, um banho de sangue como poucas vezes se vê no cinema.
A família, liderada pela belíssima matriarca Dara, lembra a do "Massacre da Serra Elétrica" só que sem aquela sutileza da sugestão do clássico de 1974. Aqui não tem sutileza. É hardcore, mesmo.







14. "A Onda", de Roar Uthaug (
🇳🇴Noruega /2015): Os noruegueses, de uns tempos pra cá, enveredaram para fazer filmes catástrofe e, olha, não se saíram mal. "Terremoto", "O Túnel", "Presos no Gelo", todos atendem bem as exigências do gênero.
"A Onda" é um bom filme na categoria. Tem uma boa premissa, coerência, mantém o espectador tenso e não decepciona nos recursos técnicos, qualidade atestada pela indicação ao Oscar de melhor filme internacional no seu ano de lançamento.
Uma avalanche provoca um descolamento de um fiorde causando uma onda gigantesca que atingirá em cheio o povoado de Geirander. Como de costume, alguém avisou e não quiseram ouvir: o geólogo Kristian, mesmo diante da oportunidade de sair da cidadezinha e trabalhar na capital num bom emprego, alertado por anomalias nas leituras dos índices, resolve ficar e salvar quem conseguir, inclusive sua família. Quem devia tomar providências de alerta, evacuação e tudo mais, não deu a devida atenção, aí, o que resta? É correria e cada um tentando salvar suas vidas.
Como a gente já sabe, uma tragédia sempre começa quando um cientista avisa e as autoridades demoram para agir...




15. ""Conflitos Internos"", de Andrew Lau e Alan Mak (
🇭🇰Hong Kong /2002): Já citado aqui no Clyblog, "Conflitos Internos", originou o remake "Os Infiltrados", de Martin Scorsese.
A refilmagem realmente é melhor e mais completa, mas a trama principal do filme honconguês, muito engenhosa e envolvente, não à toa inspirou os norte-americanos a aproveitarem seu enredo.
Um agente de polícia trabalha infiltrado na máfia, e um "afilhado" de um mafioso, formado na academia policial, trabalha na polícia, a serviço do criminoso. Percebendo que informações vazam, tanto para a lei quanto para os criminosos, a polícia e a máfia, iniciam suas caças particulares ao respectivo informante, gerando situações de perseguição, suspense e constante expectativa.
"Conflitos Internos" não é o único caso de thrillers policiais interessantes produzidos por lá e, para os mais desavisados, pode-se até afirmar que Hong Kong é especialista nesse tipo de produção.




16. "A Casa", de Gustavo Hernández (
🇺🇾Uruguai /2010): Que a Argentina tem uma excelente produção cinematográfica a gente já sabe, mas... o Uruguai??? Sim, os outros vizinhos aqui do Prata também sabem fazer bons filmes e um que merece destaque especial é o terror psicológico "A Casa", longa já mencionado aqui no ClyBlog, o primeiro filme de terror a ser feito em uma tomada, sem cortes, em plano sequência.
Na história, uma jovem (Laura) vai com seu pai a uma casa de campo de um amigo da família para dar ao local alguma manutenção e limpeza enquanto o dono se ausenta. Lá ela começa a sentir, ver, perceber coisas estranhas que parecem querer lhe revelar algo. Ruídos e movimentos misteriosos assombram a garota e, de certa forma, a chamam para o andar de cima onde verdades inesperadas (até para o espectador) acabarão se revelando. Impactante!
Sim, o Uruguai está no mapa do cinema. Tanto está que os norte-americanos copiaram e já meteram um remake desse novo clássico do terror, o também bastante bom "A Casa Silenciosa". Esses EUA não perdem tempo...






17. "Dente Canino", de Yorgos Lanthimos (
🇬🇷Grécia /2009): Antes de entrar no grande circuito e  conquistar Hollywood com "A Favorita" e "Belas Criaturas", o diretor Yorgos Lanthimos já produzia coisas bem interessantes em seu país de origem, a Grécia. É o caso de "Dente Canino", filme que parte de um argumento bizarro mas nada absurdo. A ideia de proteger os filhos do mundo exterior e as questões originárias e resultantes dessa escolha. Por eles? Por mim? Pela família? Pela sociedade?
Na trama, um pai e uma mãe se utilizam de falsos argumentos, conceitos fictícios e regras próprias para manter os três filhos longe de qualquer contato com o mundo exterior, mentiras, traumas, castigos são utilizados de modo que os filhos sequer pensem em sair dos limites da propriedade da família. Não precisa nem dizer que no desenvolvimento dessa ideia, Lanthimos sabe ser chocante e impactante como poucos.
Um ensaio provocativo sobre família, poder, limites, sociedade  e individualidade, indicado ao Oscar de melhor filme estrangeiro de 2010 e o impulso definitivo para a entrada de Yorgos Lanthimos na cena dos grandes diretores da atualidade.






18. "À Sombra do Medo", de Babak Anvari (
🇯🇴Jordânia/🇶🇦Qatar /2016): Mais um terror? Eu sei, eu sei... Mas esse não é exatamente um filme de terror. Aparentemente um filme de assombração, fantasmas e tal, mas no fundo, na verdade, um drama humano repleto de simbologias. Um drama sobre o terror da guerra e o impacto que essa praga tem, especialmente sobre as partes frágeis dessa irracionalidade: as mulheres e crianças. Uma mãe, em meio à guerra Irã-Iraque, nos anos 80, fica cuidando sozinha da filha quando o marido é recrutado para trabalhar nas trincheiras. No entanto, não ficam seguras onde estão, uma vez que sua cidade também sofre frequentes bombardeios. A rotina de explosões, ameaças, incertezas e medo afeta brutalmente a saúde mental das duas, mãe e filha e elas passam a ser atormentadas por 'assombrações' que rondam o apartamento onde vivem. O sumiço da boneca da menina como símbolo da perda infância, o hijab ameaçador (véu que cobre o rosto das mulheres muçulmanas) que as ataca, simbolizando a inferiorização da mulher, a sombra da bomba, presa na estrutura do telhado, como uma ameaça constante, simbolizando a constante ameaça das guerras, a projeção da sombra em forma de cruz, fazendo referência às crenças e aos conflitos por religião, fazem de "Sob a Sombra" mais que meramente um filme de terror.
Mesmo tendo um diretor iraniano, o longa, co-produção de Jordània e Qatari, com apoio britânico, caracteriza mais um daqueles casos nos quais um diretor não consegue trabalhar com liberdade criativa dentro do Irã, por conta das restrições e perseguições políticas e culturais, e acaba tendo que exprimir sua arte fora de seu país.







19. "O Cheiro da Papaia Verde", de Tran Anh Hung (
🇻🇳Vietnã /1993): Mui, uma mulher bem colocada socialmente, relembra os dias de dificuldade até chegar ali. Lembra que trabalhara para uma família rica no Vietnã, de como era bem tratada pela patroa que a tomava quase por filha, lembra de quando fora designada para uma família chinesa, de como as coisas pioram financeiramente e ela teve que ser encaminhada para um novo patrão, um pianista, por quem se apaixonaria e tornaria-se, depois, seu marido. Mas de todas as lembranças, o que faz seu fio da memória para os acontecimentos de uma vida é o cheiro do mamão papaia verde.
Um filme cujo maior mérito talvez seja essa capacidade de conjugar os sentidos, combinar imagem, com cheiro, fazer supor o sabor, o frescor da fruta, o calor de uma pele, os sons ocultos em cada uma dessas coisas.
Pra quem acha que Vietnã é só filme de guerra, Rambo, ameaça comunista americana, etc., "O Cheiro da Papaia Verde" é a resposta definitiva que não. O Vietnã é capaz de produzir um filme verdadeiramente saboroso.






20. "Infância Roubada", de Gavin Hood (
🇿🇦África do Sul /2010): Único filme africano a ganhar um Oscar, "Infância Roubada" acompanha a trajetória de Totsi, um jovem delinquente de vida sofrida, que após um acidente com um carro que roubara, descobre no banco traseiro um bebê. Desnorteado com a situação, ele leva a criança para seu bairro, na periferia de Johanesburgo e tenta convencer uma amiga, Miriam, a cuidar do bebê. O novo personagem em sua vida, a relação com uma jovem a quem pede ajuda pela experiência de maternidade, a criminalidade em seu bairro, a situação precária de vida, e a impotência diante de uma solução para o problema, desencadeiam uma série de novos sentimentos e sensações no rapaz que, até então, nunca tiver muito tempo nem atenção para emoções dessa natureza.
Tem filme bom na África também!




C.R.