O ano tá começando não muito feliz com a invasão a Venezuela e o sequestro do Maduro. Mas mesmo assim, sem essa de dar adeus ao ano velho. Afinal, no MDC a gente valoriza tudo aquilo que se fez nos 365 dias que se passaram. Por isso, nossa retrospectiva 2025 vai ser montada somente com blocos dos nossos programas rodados durante o ano passado: as edições, 397 (fevereiro), 417, 418 (julho), 423 (agosto), 433 (outubro) e 435 (novembro). Desejando uma bom 2026, vamos ao ar às 21h, na valorosa Rádio Elétrica. Produção, apresentação e muito dinheiro no bolso: Daniel Rodrigues.
Sempre enxerguei a Blackexpliotation com uma certa
desconfiança. É um gênero do cinema muito atrativo, esteticamente sedutor, exaltador da fantástica cultura afro-americana mas, em última análise, uma mera
reprodução dos padrões branconcêntricos e imperialistas. Esse cinema é, em grande parte, alimentado pela teoria do filósofo e médico
psiquiatra Frantz Fanon de que o negro, para vencer a alienação imposta pela
sociedade branca e passar a oferecer a devida“resistência ontológica”, precisava,
necessariamente, passar por um processo de afirmação cultural. Pronto: tudoque
vinha acumulado por décadas e décadas de opressão, violência e desumanização da
figura do negro norte-americano, foi, por volta dos anos 70, momento culminante desse desenvolvimento social-antropológico, posto em obras
cinematográficas como uma forma reativa de se combater o racismo. O método: afirmando a
existência do negro com sua cultura e beleza.
Acontece que, como qualquer ação meramente reativa, a chance
de se incorrer na superficialidade é grande. E foi o que o
ocorreu com a Blackexploitation enquanto movimento: combate à “exploração” da imagem do “negro”
através de uma resposta imediata em forma de transposição do espaço ocupado pelo branco, só que agora com figuras pretas na tela. Simples
assim: branco por preto, preto no branco. Afora a potência de filmes
como “Shaft”, “César Negro” ou “Superfly”, e por conter uma série de
qualidades, desde as maravilhosas trilhas sonoras assinadas por gênios da
música negra norte-americana até a formação de astros como Pam Grier e Richard
Roundtree, há de se dizer que não deu tão certo assim enquanto ação afirmativa.
Era o momento do movimento Black Power, de um país a poucos anos da conquista dos Direitos
Civis, dos Panteras Negras, de conflitos raciais e, ao mesmo tempo, de ascendência
de ídolos pretos como James Brown, Sly Stone, Sidney Potier e Angela Davis, Ou
seja: muita coisa para se elaborar em muito pouco tempo, e o resultado foi a utilização das ferramentas inadequadas. Para ocupar seu espaço, meramente o inverteu. É o que o próprio Fanon chama de “mímica da representação dos senhores”. Tanto que, após o boom
da Blackexploitation, precisou que se caminhasse pelo menos mais 40 anos para
que, carregados pela mão firme de Spike Lee até então, o cinema norte-americano, enfim,
passasse a contar sua história com a consistência merecida através de nomes
como Jordan Peele, Steve McQueen, Ryan Coogler, entre outros.
Tudo isso para dizer que “Os Gritos de Blácula”, de Bob Kelljan, filme da
Blackexploitatiion de 1973, é uma boa exceção àquele discurso autoenganado dos
negros norte-americanos com esse cinema. Tive a felicidade de apresentá-lo, no dia
4 de dezembro do ano passado, durante a 12ª edição do festival A Vingança dos Filmes
B, coordenado pelo amigo, colega de Associação de Críticos do Rio Grande do Sul
(ACCIRS) e colaborador deste blog, Cristian Verardi. Continuação de “Blácula – O
Vampiro Negro”, de 1972, “Os Gritos...” se sai melhor do que seu original,
visto que consegue avançar não apenas para com sua obra-matriz mas em relação a
praticamente todos os outros Blackexploitation na discussão
da negritude.
William Marshall no papel de Blácula: patologia e conflito
O filme começa com a morte da rainha vodu Mama Loa, o que
motiva os membros de seu culto a votarem na aprendiz adotiva Lisa Fortier (Pam
Grier) como sua sucessora. Isso deixa indignado o arrogante filho biológico da matriarca, Willis (Richard Lawson). Inconformado, ele procura um feiticeiro e, partir dos ossos do Príncipe
Mamuwalde, ressuscita Blácula (William Marshall) para vingar-se, mas acaba virando seu escravo. Enquanto um exército sedento por sangue se forma, um
policial obcecado por ocultismo passa a perseguir Blácula com o objetivo de dar
fim ao reinado do vampiro definitivamente.
Grande qualidade de “Os Gritos...” está, justamente, nessa
apropriação da lenda de Drácula, tão branca quanto europeia, trazendo seu
conflito para o cerne da questão racial. Príncipe Mamuwalde é, ao mesmo tempo,
uma figura essencialmente ligada à ancestralidade africana, como ele mesmo
expõe na cena em que presencia o leilão de objetos africanos. Contraditoriamente, entretanto, é amaldiçoado justamente por isso. O que lhe constitui é algo que ele
considera impuro, doentio, psicopatológico, mas... é o que lhe constitui.
Então, para ser ele mesmo, tem que deixar de ser ele mesmo. Alto grau de
conflito existencial – e racial.
Eu na sessão do festival A Vingança dos Filmes B
Voltando a Fanon, é ainda mais interessante notar como o
filme evoca uma das questões cruciais da filosofia do pensador martinicano, que
é a da dicotomia “visibilidade e invisibilidade”. Para ele, a experiência
vivida do negro será sobretudo dada pelo olhar imperialista do branco, que o
inferioriza e, imediatamente, o invisibiliza. Assim, a invenção do negro como um
ser inferior o reduz ao silêncio, à não-existência, a nada. Esses atributos
negativos podem bem ser empregados à figura do Blácula, cujos instintos selvagens,
presentes no personagem original de Bram Stoker, são aqui potencializados pela
corporalidade estereotipada que marca o negro. Blácula, que suga o
sangue de mulheres e homens indistintamente, é uma ameaça tão sexual quanto de
violência, tal qual o negro na sociedade racista.
Cena bastante simbólica desse dilema é a que Blácula dialoga
com seu “pupilo” Willis, logo no começo da fita. Ainda sem entender a extensão da
maldição que se abateu sobre ele, Willis arruma-se para sair de casa e ir ao uma
festa. Além da proibição por parte do carrasco, chama atenção a reação de Willis
em relação à famosa característica dos vampiros: não se enxergar no espelho. Incrédulo
de que a partir dali nunca mais poderá ver seu reflexo, chega a pedir a
Blácula que avalie seu visual, tamanha importância que ele como um negro
norte-americano daquela época de “black is beautiful” dava a este aspecto. Não
é apenas uma mera afetação ou vaidade: é o “reflexo” de uma comunidade
precisando se ver representada, precisando cumprir a sina fanoniana de derrubar
as máscaras brancas. Sem ver-se no espelho, isso é impossível.
Talvez não tão consciente de seus próprios apontamentos, “Os
Gritos...” é, sim, um filme bem realizado e que dá um passo adiante na proposta reativa da Blackexploitatiion,
abrindo caminho para o que, anos depois, um cineasta como Peele faria com profundidade
discursiva dentro do próprio gênero terror. Como obra, é um thriller
bastante interessante, de ótima fotografia, estética pop, trucagens
eficientes, enquadramentos bem sacados e, claro, trilha excepcional (a cargo de Bill Marx), característica dos filmes Blackexploitatiion. Curioso pensar que o “novo humanismo” proposto
por Fanon, ferramenta com a qual se superaria essa desumanização, tenha, no cinema negro norte-americano, partido justamente de uma
figura não-humana. Como disse o próprio Fanon: “o homem também é um não”.
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trailer de "Os Gritos de Blácula"
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"Os Gritos de Blácula"
título original: "Scream Blacula Scream"
direção: Bob Kelljan
elenco:William H. Marshall, Don Mitchell, Pam Grier, Michael Conrad, Bernie Hamilton, Richard Lawson
Em casa, cada vez que a esposa falava de sua cada vez mais crescente barriga, Roberto prometia, "Ano que vem eu perco essa barriga. Tu vai ver um novo homem."
No ponto de ônibus, para cada vez que ficava horas esperando o transporte, entrava no coletivo atrolhado e sentia-se apertado como uma sardinha, tinha que sair se espremendo e empurrando todo mundo para chegar na porta para saltar na sua parada, prometia a si mesmo, "Vocês todos vão ver um novo homem no ano que vem. Com carro novo, um carrão, um cara que não vai precisar mais ficar se sujeitando a isso tudo. Vocês vão ver!".
No trabalho, sempre que chegava atrasado e o supervisor o repreendia, Roberto se comprometia, "A partir do ano que vem vou melhorar. Vocês vão conhecer um novo homem".
Deu ano novo...
Na meia-noite, entre fogos, abraços e champanhas, a campainha toca. Roberto, estatelado no sofá nem se prestou a levantar para abrir. A mulher, perguntando aos demais se estavam esperando alguém, vai até a porta e abre. "Beto, você nunca me falou que tinha um irmão!". Roberto meio que abriu os olhos e confirmou, "...não tenho". Quando voltou a cabeça para o hall de entrada, viu a esposa acompanhada de um homem absolutamente igual a ele mas muito mais bem cuidado, bem vestido, tratado e... sem barriga. Ia dizer alguma coisa mas, antes que pudesse completar uma frase, apagou.
Ao despertar, não encontrou ninguém na casa. Teriam ido à praia, viajado para Cabo Frio. Nunca teriam ido sem ele mas, por outro lado, ele nunca teria ido. Nunca queria ir quando a mulher propunha. Talvez por isso agora tivessem tomado uma atitude e o deixado dormindo no sofá. Qual não fora sua surpresa quando ao ligar a TV, pelo noticiário, percebera que já não era a manhã seguinte, o dia primeiro. Havia ficado fora de órbita por três dias! Já era a segunda-feira depois do feriadão, tinha que ir trabalhar.
Vestiu-se, correu, embarcou no ônibus já não tão cheio pelo atraso no horário e meia-hora depois chegava ao escritório. Felizmente não muito atrasado. Na frente do prédio, uma Ferrari reluzente era conduzida à garagem no subsolo por um manobrista. Ficou curioso a respeito de quem teria um carrão daqueles.
Subiu. O ascensorista o olhava de cima abaixo com um olhar de desprezo e desaprovação. Ia se instalar na sua estação de trabalho quando ouviu a voz do supervisor. "Atrasado de novo...". Ia começar a se desculpar quando o superior o interrompeu. "Na verdade, não precisamos mais dos seus serviços". Não abriu a boca. Apenas olhou para o chefe estupefato e intrigado. "Contratamos aquele cara ali", disse apontando para um homem charmoso, alinhado, elegante, na sala envidraçada da chefia. Parecia muito com ele mas... "Por sinal, lembra muito você logo quando chegou aqui; dinâmico, interessado, cheio de vida", reforçou o supervisor. "E tem um currículo muito bom, muito parecido com o seu na verdade, mas a diferença é que na recomendação dele diz que... nunca chegou atrasado", completou sorrindo.
Pegou suas coisas, desceu, pegou o ônibus, chegou em casa, sentou no sofá. Percebeu então algo que não havia notado antes quando saíra de casa correndo: em um porta-retrato, com uma foto dele e da esposa ainda jovens, estava fixado um bilhete. A mensagem era bastante breve e objetiva: "Fui embora, Roberto. Encontrei um homem de verdade".
Um novo ano começara e era tudo novo, exceto ele, Roberto, que era o mesmo antigo sujeito.